sábado, 13 de junho de 2020


O CONCEITO FILOSÓFICO DE TEMPO E A RÉGUA DE 24 POLEGADAS


Luiz Franklin de Mattos Silva[1]




A Questão do Tempo

A maioria das pessoas, lógico supor, admite uma compreensão intuitiva do tempo. Pra essa maioria o tempo é algo ao mesmo tempo cotidiano, empírico, científico, fácil e complexo, poético e assustador, sentimental ou frívolo.

Falamos do ontem, do hoje e do amanhã. Referenciamos no passado de nossas vidas, para hoje planejarmos e pensamos no futuro de nossas famílias. Enfim, existe um tempo que passa ao mesmo tempo em que outros passam o tempo.

Para muitos o passado como tempo é história e o futuro especulação. O hoje e o agora não existem, sendo apenas uma referência de segundos entre o passado e o futuro.

Deus é, diriam alguns, logo não existe passado ou futuro na mente de deus. Talvez por isso Santo Agostinho tenha escrito em suas Confissões: “O que é o tempo? Se ninguém pergunta, sei o que ele é; mas se alguém me pergunta e tento explica-lo, já não sei mais.” (SANTO AGOSTINHO, 1997).

Poderíamos, partindo da premissa acima, considerar que o tempo é algo ou objeto de difícil definição, podendo apresentar diversos conceitos e abordado de formas diferentes, dependendo do ramo da ciência, seja arte, geometria, biologia, astronomia, matemática, física, sociologia e filosofia.

Não se pretende neste artigo uma abordagem sobre cada um desses aspectos, mas apenas demonstrar que o simbolismo da régua de 24 polegadas, em especial no Rito de York, possui profunda atualidade filosófica sobre o que concerne ao tempo.

A Régua de 24 polegadas na Maçonaria

A primeira observação que fazemos é quanto às características básicas da régua, um instrumento simples, milenar, que nos ensina, de uma forma mais simples ainda, o caminho direto entre dois pontos, dois destinos. Com a régua medimos um seguimento do infinito. Uma parte de nossa vida. A retidão que buscamos.

Após a cerimônia de iniciação maçônica, no primeiro grau da Ordem, o Aprendiz Maçom recebe uma régua, ou é instado a pensar sobre a utilidade de “uma régua de 24 polegadas”, que, devidamente dividida em três partes iguais, deve remetê-lo a adequar a utilização do tempo cotidiano. A Maçonaria a adota porque simboliza o dia com suas vinte e quatro horas, exigindo dos maçons uma adequada utilização das horas do dia.

No campo maçônico a graduação nela colocada de vinte e quatro polegadas, serve para mensurar o tempo, as vinte e quatro horas do dia, em que o homem deve distribuir suas atividades. No Rito de York, a “cautela” ganha importância na vida do maçom. Associar, portanto, a cautela à régua de 24 polegadas nos parece ser um bom caminho para explorarmos o conceito de tempo.

Um maçom deve usar, no cotidiano de sua existência, as 24 polegadas como representação de 24 horas, divididas em três partes de 8 horas: descanso, trabalho e sociabilidade.

Assim, deve de certa forma dividi-las entre suas atividades matinais, nem sempre realizadas, como sua primeira refeição diária, às vezes esquecida. Outras horas dedicadas ao seu trabalho; à necessária recreação, muitas das vezes não considerada; suas reflexões, em geral pouco ou mal aproveitadas; e o merecido repouso, como nos prega a mensagem maçônica. E as outras oitos horas servindo a deus ou a algum necessitado.

Filosoficamente, poderíamos dizer tratar-se de um caminho entre a norma e a ordem, entre o que se quer fazer e o que se deve fazer, entre o passional e o racional, entre a direção da ponta do malho ao topo do cinzel. Indica a própria construção do homem, a lapidação de sua forma mais bruta em busca da perfeição (RAGON, 2005).

O exercício na separação de cada tempo, dando o ritmo necessário para cada etapa, faz com que o homem evolua, cresça, se realize e desenvolva habilidades que de outra forma poderia pensar ser impossível realizá-las.

A constante assertiva de muitos maçons contemporâneos de que “não tem tempo”, quer para ir à Loja ou realizar atividades de filantropia, demonstra uma não utilização dos princípios maçônicos sobre a administração do tempo (ALCÂNTARA FILHO, 2012).

Segundo os conceitos filosóficos do simbolismo maçônico, “tempo obtido” seria uma vitória pessoal, inigualável, uma capacidade de autogestão, ou a pura demonstração da vontade, de responsabilidade e do reconhecimento de si própria. Um caminho que se propõe reto é íntegro e honesto. Cada nova ação proposta deverá ser bem estudada, analisada, e, para ser edificada, basta incluí-la nos intervalos de cada ponto de nossa régua, utilizando para isso os princípios éticos que envolvem a liberdade, a igualdade e a fraternidade (BAYARD, 2004).

No campo simbólico, junto ao malho e o cinzel, a régua forma um conjunto de ferramentas ou instrumentos que devem ser usados pelo Aprendiz em seu trabalho, como Rito Escocês Antigo e Aceito. Já no Rito de York, mais antigo que esse, a régua de 24 polegadas está associada ao “martelo de corte”, um instrumento muito mais apropriado ao trabalho no “desbastar” da Pedra Bruta.

De qualquer forma, a régua era usada pelos maçons operativos, àqueles que remontam das lendas míticas aos construtores de templos, para executar um trabalho de precisão na construção, medindo, delineando, ajustando o traçado ou limites do corte de uma determinada pedra para uma construção específica.

O Tempo: Primeiros Conceitos

Aristóteles (1995), em sua obra “Physique IV, Tratado do Tempo”, faz uma reflexão sobre a realidade física do tempo, aquela que é medida pelos relógios, dando inclusive a impressão que descarta o tempo psicológico, demonstrando que o tempo é uma ilusão. Para ele, o momento presente, como “instante”, não pode existir para o homem, pois não pode ser percebido instantaneamente, como no sonho (BURNET, 1994).

Ele formula uma questão-chave: “O tempo poderia existir sem a alma e o pensamento, que são os verdadeiros sujeitos de toda a medição? (218b)”. Depois de uma análise desta questão, ele mesmo formula a resposta afirmando que isso poderia ser válido para todas as coisas, menos para o tempo e o movimento. As respostas acima seriam analisadas séculos depois por Santo Agostinho. Mas, retornando a Aristóteles, podemos ressaltar a definição de seu objeto: “O tempo, se não é o próprio movimento, é seu número calculado, isto é o resultado da medição” (219). Assim ganhamos consciência do tempo pelo fato do movimento representar uma sucessão contínua, definida como um antes e um depois, ou seja, “O tempo é o número do movimento conforme o antes e o depois” (219b).

Lógico que já evidenciamos esses conceitos aristotélicos no simbolismo da régua de 24 polegadas, no sentido de podermos medir numericamente um espaço de movimento menor (ciclo de oito horas) durante um dia (três ciclos de oito horas).

Analogamente, no item 223-b da mesma obra, Aristóteles diz que “a locomoção circular (o movimento dos astros no céu) é a melhor medida, porque seu número é o mais conhecido”, o que também remete a simbolismo maçônico, do Rito Escocês.

Heidegger (2012), ao citar Platão, afirmou que o tempo nasceu quando um ser divino colocou ordem e estruturou o caos primitivo. O tempo tem, portanto, de acordo com Platão, uma origem cosmológica. Ele procura estabelecer a distinção entre o “ser” e o “não ser”. O mundo do “ser” é fundamental e não está sujeito a mutações. Ele é, portanto, eternamente o mesmo. Este mundo, entretanto, é o mundo das ideias, apreensível apenas pela inteligência e pode ser entendido utilizando-se a razão. O mundo do “não ser’’ faz parte das sensações, que são irracionais, porque “dependem essencialmente de cada pessoa” (LUCE, 1994).

O domínio do tempo estaria nesse segundo mundo, assim como tudo o que se observa no universo físico, tendo assim uma importância menor. Talvez possa ser dito que para Platão o tempo essencialmente não existe, uma vez que faz parte do mundo das sensações.

O Tempo da Alma

Platão, em Timeu, afirma que o “deus quis que todas as coisas fossem boas”. Portanto, para ele, esse deus:

[…] teve a ideia de criar uma espécie de imagem móvel da eternidade, e, enquanto organizava o céu, criou à semelhança da eternidade imutável em sua unidade, uma imagem em eterna evolução, ritmada pelo número; e é isto que chamamos de tempo. À constituição do tempo, ele combinou o nascimento dos dias, das noites, dos meses e do ano (Platão. Timeu e Critias ou Atlântida, 2002).

Esses princípios mostram a universalidade do ensino simbólico da Maçonaria, em especial na régua de 24 polegadas, pois o ciclo se repete, a cada 8 medições numéricas, num ciclo ininterrupto de 3 medições. Ou seja, a cada hora, a cada dia, mês e ano. Enfim, a régua e os conceitos platônicos nos remetem a nossa própria vida e eternidade.

Santo Agostinho (op. cit) oferece-nos outra reflexão sobre o tempo onde ele opõe a eternidade imóvel num eterno presente e o tempo que passa. Para ele o “Verbo” eterno é o criador de todos os tempos em que a criação pode ocorrer. E no capítulo XIII afirma que não havia tempo antes que o tempo existisse, mostrando que o futuro não existe ainda, o passado já não existe mais e presente vai desaparecer a medida que o tempo avança, sendo portanto efêmero.

Outra contribuição de Agostinho é que do tempo “psicológico” de Aristóteles constrói a ideia de tríade:

[…] passado-presente-futuro que não existem em atos, mas nas representações de nossas mentes, e se existem nas representações de nossas mentes, eles o fazem na forma presente, pois é no presente que concebemos ou imaginamos o futuro e nos recordamos do passado (cap. XVII)”. (ABRÃO & COSCODAI, 1999).

A humanidade tem necessidade de medir o que ela concebe como tempo. A régua de 24 polegadas expressa essa necessidade. Portanto, deve ser dividida em 3 partes iguais, pois aqui o tempo se apresenta como número e, como todos os números, indicando quantidade – quer de tempo ou de horas – não passa de um produto prático de pensamento.

Considerações Finais

A natureza do tempo tem sido um dos maiores problemas desde a antiguidade, quer no que concerne a medição, passagem, fluidez, linearidade ou circularidade, se divino, cósmico ou meramente físico.

Acredita-se cada vez mais que ele é uma das propriedades gerais do pensamento humano ou uma se suas exterioridades e que, para a compreensão e entendimento de nossa humanidade, precisa ser dividido em três dimensões lineares: o passado, o presente e futuro.

Sabemos que devemos a máxima de “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio” a Heráclito (1988), que é o filósofo da transformação e do movimento perpétuo. Conceito que reforça o princípio de que a divisão igual em 24 partes da régua, embora repetida cotidianamente pelos maçons, nunca terá o mesmo objetivo, pois se renova automaticamente, ao final de cada ciclo de 24 horas.

Mesmo sendo uma contraposição ao pensamento de Platão (op. Cit), que, ao defender um “ciclo mítico de eterno retorno”, onde o tempo era um movimento cíclico e assíduo, pois aquilo que acontecia no passado era repetido e retornava (VERNANT, 1992), a régua de 24 polegadas reafirma um conceito de que a repetição insensata de pensamentos e ações, diariamente, traz infortúnios.

Na perspectiva de Kant, o tempo é uma estrutura da relação do sujeito com ele próprio e com o mundo, uma forma “a priori” da sensibilidade, uma espécie de intuição pura e ao mesmo tempo, uma noção objetiva de observação e não extraído da experiência, ou seja, um dos limites para o conhecimento no plano da sensibilidade.

Independentemente do valor material, físico e matemático da medição do tempo, relacionando-o ao passado, presente ou futuro, a medida que o tempo se torna subjetivo ou psicológico, cada ser humano pode vivenciá-lo numa situação agradável, desagradável, lenta, rápida, penosa ou alegre. Conclui-se portanto que o homem, pela sua condição de mortal, é afetado por processos diferentes do que ocorrem no espaço infinito.

Há uma assertiva na Maçonaria brasileira de que “somos todos aprendizes”. Sendo assim, a régua de 24 polegadas, pelo menos teoricamente, nos acompanha sempre. Se seu simbolismo é usado junto com a nossa capacidade mental de reter acontecimentos e imagens passamos a ter uma condição fundamental para as características fundamentais da vida social, o que inclui obrigatoriamente a necessidade de “tempo” para nós mesmos e para nossas famílias.

Referências

ABRÃO, B.S.; COSCODAI, M.U. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

ALCÂNTARA FILHO, N. Irmãos, Ajudai-me a Abrir Loja. São Paulo: Madras, 2012.

ARISTÓTELES. Physique IV, Traité du temps. Paris: Kimé, 1995.

BAYARD, J. P. A Espiritualidade da Maçonaria: da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências. São Paulo: Madras, 2004.

BURNET, J. O Despertar da Filosofia Grega. Trad. M. Gama. São Paulo: Siciliano, 1994.

HERÁCLITO. Fragments et Témoignages, Les Présocratiques. Paris: Gallimard, 1988.

HEIDEGGER, M. Platão, o Sofista. São Paulo: Editora Forense Universitária, 2012.

LUCE, J.V. Curso de Filosofia Grega. Trad. M.G. Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

PLATÃO. Timeu e Critias ou Atlântida. Rio de janeiro: Hemus Editora, 2002.

RAGON, J. M. Ritual do Aprendiz Maçom. 8ª Ed. São Paulo: Pensamento, 2005.

SANTO AGOSTINHO. Confissões. Rio de Janeiro: Editora Paulus, 1997.

VERNANT, J. P. As origens do Pensamento Grego. Trad.

I.B.B. da Fonseca. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 7ª ed., 1992

[1] Luiz Franklin de Mattos Silva é biólogo, Mestre em Zoologia pelo INPA e Doutor em Biologia de Água Doce pelo INPA/Roseinstel School of Marine Science. Mestre Instalado, é membro da Loja Maçônica “Acácia de York No. 52”, Sumo Sacerdote do Capítulo “York No. 40” de Maçons do Real Arco e Grande Secretário de Planejamento Estratégico do GOIRJ.

sexta-feira, 12 de junho de 2020


A NORMA DOS TRÊS, CINCO E SETE MAÇONS PARA FORMAR UMA LOJA



A iniciação na Maçonaria só pode ser realizada numa Loja e por uma Loja. Ora, uma loja é necessariamente um grupo de maçons. A iniciação não é transmitida de indivíduo para indivíduo, mas é entregue a um indivíduo por um grupo de indivíduos.

Algumas obediências maçónicas, entre as quais a Grande Loja Unida de Inglaterra, consignaram nas suas constituições um privilégio do Grão-Mestre, que consiste em “fazer” maçons “à vista” de acordo com o seu próprio julgamento. Para estas obediências, a Grã-Mestria, que nada mais é do que uma simples função administrativa, tem um carácter sagrado, que lhe valeria essas prerrogativas extraordinárias. Isto decorre de uma mentalidade profana e arcaica.

Os maçons que se projetam na imagem do “Pai” que pode fazer tudo, dificilmente podem avançar na Arte Real. Pelas suas próprias características, uma iniciação conferida nessas condições é inválida, devido ao simples motivo de não contribuir com nada para o destinatário.

Quando lhe é conferida nas melhores condições possíveis, dentro de uma Loja bem preparada, ainda é necessário que o Maçom trabalhe duramente para que a iniciação lhe forneça o “suplemento de alma” necessário para o progresso espiritual. Citamos esta prática apenas para denunciar um procedimento anti-tradicional, anti-iniciático, nada razoável e inepto.

Todos os rituais dizem que, três maçons formam uma Loja simples, que cinco a tornam justa e sete a tornam “perfeita”.

Os três maçons da Loja simples são o Venerável e os dois Vigilantes. Estes três oficiais: o Venerável e os dois Vigilantes, são chamados as “luzes” da Loja. A Loja é justa quando a estes se juntam o Secretário e o Orador. Finalmente, a Loja é “perfeita” quando aos cinco se juntam o Experto e o Guarda Interno. Os lugares de Tesoureiro e Hospitaleiro podem ficar vagos porque essas funções participam na administração da Loja no intervalo entre as sessões, e não durante as próprias sessões.

Com “sete”, a Loja é perfeita, pois o conjunto possui todas as faculdades necessárias para a sua operação e todos os elementos de uma estrutura coerente: O Venerável, os Vigilantes, o Guarda Interno, a pessoa encarregue do adequado desenvolvimento do ritual, o guardião da lei e a memória do grupo.

Existem, contudo, opiniões diferentes. Assim, Jules Boucher , e, “Simbolismo Maçónico” (La symbolique maçonnique) refere-se a rituais antigos para afirmar que cinco maçons, desde que sejam mestres, podem abrir uma loja e que uma loja justa e perfeita consiste adicionalmente de um companheiro e aprendiz e que não requer sete oficiais. Há também quem substitua o Experto pelo Mestre de Cerimónias por considerar que a sua função é essencial para a execução do ritual.

Esta regra de Três, Cinco e Sete poderá ter sido estabelecida em meados do século XVIII. De facto, é por volta de 1750 que os oficiais das Lojas são, com poucas qualificações, os mesmos que conhecemos hoje. É por volta de 1735 que o “Irmão que circula na Loja” se torna o Mestre de Cerimónias e que a função de Orador é criada para libertar o venerável dos discursos cerimoniais.

Os documentos mais antigos que se conhecem sobre a organização das Lojas (Edimburgh Register, por volta de 1630/1650) mencionam o Mestre, os dois Vigilantes e os “mordomos” (stewards). Em França, o grupo de oficiais não incluía, até 1735, mais do que três membros: o Venerável e os Vigilantes.

Traduzido e adaptado de publicação em Masoneria del Mundo (14 de Dezembro de 2017), por António Jorge

TRONCO DA VÍUVA



O Tronco da Viúva é também designado por “Tronco da Beneficência” ou “Tronco da Solidariedade”.

Ao Tronco da Viúva são lhe atribuídas várias origens, pelo que uma das mais assumidas pela Maçonaria tem origem bíblica.

Hiram Abiff, mestre construtor do Templo de Salomão era filho de uma viúva. Mestre esse, que foi assassinado por três companheiros seus, por não querer divulgar os segredos de construção a que estava sujeito como mestre-de-obras. Esse assassinato veio mais tarde a originar uma das mais importantes lendas da Maçonaria; a qual está na base da maioria dos ritos maçónicos atuais. Advindo dessa lenda, o epíteto de “Filhos da Viúva”, com que se costumam designar os Maçons.

O facto de se designar por “tronco”, deve-se ao facto dos trabalhadores afectos à construção do Templo de Salomão, os Aprendizes e Companheiros, receberem os seus salários ao final do dia, junto às colunas do Templo. Para além de que etimologicamente, “caixa de esmolas” na língua francesa também se designar por “tronc”.

Sendo que o termo “Tronco da Viúva”, simboliza também uma (caixa de) esmola para socorro e auxílio das esposas (e filhos menores) de Irmãos falecidos.

Em Loja é o Mestre Hospitaleiro que está encarregado de fazer circular o Tronco da Viúva. Tronco esse, que em dado momento litúrgico de uma sessão maçónica, circula pelos Irmãos para que possam efetuar o seu óbolo na medida em que tal lhes seja possível.

Cabe ao Mestre Hospitaleiro e ao Mestre Tesoureiro, cuidarem para que ele se encontre numa situação-equilíbrio para que se possa prestar o auxílio necessário a quem dele reclamar. E como tal, o Tronco da Viúva não se quer nem muito cheio nem muito vazio. Se o mesmo se encontrar vazio, é porque as doações não serão significativas, correndo-se o risco, de se não se auxiliar quem dele necessitar numa situação imediata. Mas se ele se encontrar cheio, é porque quem necessitar de auxílio, não o estará a receber na devida forma.

Sendo que um dos deveres do Mestre Hospitaleiro é o de bem aconselhar o Venerável Mestre sobre os fins a darem às importâncias obtidas na circulação do Tronco da Viúva em Loja. A quem ou a quais, sejam Irmãos ou Instituições Sociais de que os necessitem.

Essa também é uma das funções sociais da Maçonaria. Ajudar outras instituições carenciadas que necessitem de auxílio; não procurando o Maçon o reconhecimento de tais atos, pois a soberba não deve existir nas suas ações. O Maçon assim faz, porque simplesmente acha de que o deve fazer, não porque procura méritos ou benefícios com isso.

Sendo que, por não se procurar reconhecimentos ou assumir falsos méritos, é que a caridade maçónica sob a forma de tronco, é feita de forma reservada, nunca devendo um Maçon mostrar o que deposita no Tronco da Viúva.

Quem procurar reconhecimento, deve procurar outro sítio para fazer a sua solidariedade, a sua caridade.

O Tronco em si mesmo, é uma forma de Solidariedade, ele lembra ao Maçon, que a beneficência e a solidariedade devem estar presentes ao longo da sua vida, fazendo ambos parte dos deveres do Maçon. Além de que, na circulação do Tronco da Viúva em Loja se relembrar ao Maçon que ele deve ser generoso e caritativo. Por isso, quando um Maçon faz o seu óbolo, ele deve dar um pouco de si também. Mas nunca com o pensamento de que um dia se necessitar, terá algo a que se “agarrar”. O Tronco da Viúva não serve de ”almofada” para os Maçons. Não devendo eles se aproveitarem da sua existência, para mais tarde o utilizarem sem razão aparente.

Quando um Maçon faz a sua entrega, a sua dádiva para o Tronco da Viúva, a única coisa que deve ter em mente, é o de partilhar um pouco de si mesmo e do que tem com os demais Irmãos.

Mas apesar de não ser uma obrigação principal da Maçonaria, pois a mesma não é uma IPSS, cabe ao Maçon ter um espírito solidário com quem dele necessite. Por isso mesmo, a missão do Tronco da Viúva, é a de ajudar um Irmão que necessite de auxílio.

Mas para alguém puder ser ajudado, é também necessário que o Irmão em causa reconheça a sua necessidade de auxílio. Mas, nem sempre quem precisa de ajuda, o solicita. A vergonha ou inclusive o orgulho, são em grande parte dos casos, o “travão” pessoal à procura de auxílio. Quem precisa de ajuda, deve por para “trás das costas” tais sentimentos, pois agindo assim, corre o sério risco de perder toda a ajuda que necessitar. E hoje em dia, devido à forma acelerada de como vivemos as nossas vidas, nem sempre nos é possível perceber quem necessita da nossa ajuda.

Todos nós em certas alturas da Vida, passamos por momentos em que fraquejamos ou que a nossa força mental não nos consegue ajudar a suportar o dia-a-dia.

É principalmente nesses casos que o Maçon deve ajudar os seus Irmãos. Tentando se aperceber com a sua iluminação, quem necessita mais dele. Mas essa ajuda nem sempre deve ser (ou pode ser…) financeira mas antes moral ou espiritual, pois nem todas as carências de um Irmão são pecuniárias ou materiais. Muitas vezes apenas alguém necessita de uma palavra de inspiração, uma “palmada nas costas” ou um simples gesto de afeto e carinho. Tais gestos com certeza não podem ser depositados num saco, devem-no antes ser entregues (pessoalmente) ao Irmão necessitado.

É amparando o seu Irmão, que o Maçon lhe demonstra a sua solidariedade e vive o espírito de fraternidade que a Maçonaria lhe oferece.

Tal como afirmei anteriormente, a Maçonaria não é uma IPSS. Antes é uma Instituição que promove a Solidariedade, a Beneficência, a Fraternidade. E como tal, a sua principal missão é ser solidária com os seus membros/Irmãos.

Sendo assim, não deve uma Loja virar as costas a um Irmão que esteja em apuros, devendo antes, correr em seu auxílio e o amparar na resolução dos seus problemas. E é para isso que fundamentalmente existe o Tronco da Viúva.

A única obrigação que ele tem, é a de ser bem utilizado!”.

Nuno Raimundo

A LENDA DO OFÍCIO- ANÁLISE CRÍTICA: EUCLIDES

Euklides

Chegados ao Egito, a Lenda do Ofício apresenta uma história tão desenvolvida e pormenorizada que bem merece uma autonomização como a Lenda de Euclides. Relembremo-la, tendo em consideração que imediatamente antes da passagem ora transcrita, se introduziu Euclides, que aprendeu bem e foi Mestre das sete ciências liberais:

E no seu tempo, sucedeu que o senhor e os nobres do reino tinham tido muitos filhos, alguns das suas mulheres, outros de outras senhoras do reino; porque aquela terra é uma terra quente e propícia a gerar. E eles não tinham encontrado modos de vida satisfatórios para os seus filhos, de que muito gostavam, e então o rei do país convocou um grande Conselho e Parlamento para decidir como poderiam encontrar um modo de vida honesto para os nobres seus filhos, e não conseguiram encontrar boa maneira. E então anunciaram por todo o reino que se houvesse algum homem que os informasse, então deveria comparecer perante eles e seria recompensado pelo seu trabalho, de forma a deixá-lo satisfeito.

Depois que este pregão foi feito, veio então o valoroso Euclides e disse para o rei e todos os seus nobres: “Se me entregarem os vossos filhos para que eu os governe e lhes ensine uma das sete ciências, de forma que eles possam viver honestamente como nobres, deverão dar-me a mim e a eles uma carta-patente, de que eu tenho o poder de lhes determinar o modo como essa ciência deve ser regulada.” E o rei e o seu Conselho concederam-lhe isso e selaram a sua carta-patente. Então o valoroso Doutor levou consigo os filhos dos nobres e ensinou-lhes a ciência da aplicação da Geometria ao trabalho de construção em pedra de igrejas, templos, castelos e palácios; e deu-lhes Deveres da seguinte forma.

O primeiro era que deviam ser verdadeiros para o Rei e para o Senhor de quem dependiam. E que deveriam gostar de estar juntos, ser verdadeiros uns com os outros. E que deviam chamar-se uns aos outros Companheiro ou Irmão, não por servo, ou escravo, ou outros nomes tolos. E que deveriam merecer o salário pago pelo Senhor ou pelo Mestre que servissem. E que deveriam designar o mais sábio deles para Mestre do trabalho e não deixar que essa designação fosse afetada por linhagem, riqueza ou favor, pois então o senhor seria mal servido e eles desonrados. E também que deveriam tratar o responsável pelo trabalho por Mestre, durante o tempo em que trabalhassem com ele. E muitos mais deveres de conduta que seria longo contar. E a todos estes Deveres fez jurar um grande juramento que naquele tempo se usava; e determinou que deveriam receber salários razoáveis, com os quais pudessem viver honestamente. E também que deveriam reunir-se anualmente, para discutir como poderiam trabalhar melhor e melhor servir o seu senhor, para ganho dele e deles próprios; e para corrigirem no seu próprio seio aquele que tivesse errado contra a ciência. E assim ali foi implantada a ciência; e o valoroso senhor Euclides deu-lhe o nome de Geometria. E agora é chamada em toda esta terra por Maçonaria.

Euclides viveu entre 360 e 295 antes de Cristo. Terá sido educado em Atenas e frequentado a academia de Platão. Foi convidado por Ptolomeu para integrar o quadro de professores da recém-fundada Academia de Alexandria, a segunda maior cidade egípcia, tornou-se o mais importante autor de matemática da Antiguidade greco-romana e talvez de todos os tempos, com seu monumental Stoichia (Os elementos), uma obra em treze volumes, sendo cinco sobre geometria plana, três sobre números, um sobre a teoria das proporções, um sobre incomensuráveis e os três últimos sobre geometria no espaço. Escrita em grego, a obra cobria toda a aritmética, a álgebra e a geometria conhecidas até então no mundo grego e sistematizava todo o conhecimento geométrico dos antigos. Intercalava os teoremas já conhecidos então com a demonstração de muitos outros, que completavam lacunas e davam coerência e encadeamento lógico ao sistema por ele criado. Após sua primeira edição foi copiado e recopiado inúmeras vezes e, traduzido para o árabe, tornou-se um influente texto científico. Depois da queda do Império Romano, os seus livros foram recuperados para a sociedade europeia pelos estudiosos muçulmanos da Península Ibérica. Escreveu ainda sobre a ótica da visão e sobre astrologia, astronomia, música e mecânica, além de outros livros sobre matemática.

Como se vê desta resenha, a Lenda do Ofício de novo se apropria de um personagem histórico comprovadamente existente, mas coloca-o em tempo e circunstâncias diferentes dos que efetivamente foram os seus. Embora residindo e ensinando no Egito, na academia de Alexandria, Euclides não foi propriamente um mestre da cultura egípcia, antes um produto da cultura helenística.

Também a sua introdução como personagem da Lenda sofre de um duplo anacronismo: por um lado, coloca-o como contemporâneo de Abraão, que o antecedeu em dois milénios; por outro, coloca-o em tempo anterior à edificação do Templo de Salomão, quando viveu em tempo bem posterior, cerca de seiscentos e cinquenta anos depois de tal edificação, e até cerca de dois séculos depois da destruição do dito Templo por Nabucodonosor, em 586 a. C..

Este enxerto da obviamente fantasiosa Lenda de Euclides na Lenda do Ofício ter-se-á devido essencialmente a dois fatores: por um lado, a óbvia importância enquanto Mestre de Geometria de Euclides, bem conhecida na Idade Média, época de criação da Lenda; por outro, o reconhecimento da existência de algumas semelhanças entre o método de ensino existente entre os maçons operativos e o método esotérico de ensino seguido pelos sacerdotes do Antigo Egito.

Assim, mais do que um relato factual historicamente consistente, devemos interpretar esta passagem da Lenda do Ofício como o repositório amalgamado de crenças realmente tidas pelos maçons operativos da Idade Média:
Que a Geometria é a base da Maçonaria;
Que Euclides foi o maior dos Mestres de Geometria;
Que os sacerdotes do Antigo Egito utilizavam um método esotérico de transmissão de conhecimentos similar ao método utilizado pelos maçons operativos.

Neste aspeto, a Lenda simboliza o bem conhecido facto de que, no Antigo Egito, existia uma íntima conexão entre a ciência da Geometria e o sistema religioso daquela sociedade, que esse sistema religioso incluía também a transmissão de instrução científica, de forma secreta e apenas após uma iniciação.

Esta analogia entre o sistema religiosa do Antigo Egito e a maçonaria operativa da Idade Média, mais do que esta enviesada referência na Lenda do Ofício, acabou por, já na fase da Maçonaria especulativa, dar origem a ritos de inspiração egípcia e teorias – a meu ver, fantásticas e inconsequentes – que colocam a origem da Maçonaria nos Antigos Mistérios Egípcios.

Como se vê, os rudes e menos incultos do que se poderia pensar trabalhadores da construção em pedra medievais não eram tão diferentes assim dos seus cultos e conhecedores de história e filosofia sucessores dos séculos XVIII, XIX e XX…

Fontes:
Wikipedia:
Euclides: http://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides
Alexandria: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandria
Templo de Salomão: http://pt.wikipedia.org/wiki/Templo_de_Salom%C3%A3o
The History of Freemasonry, Albert G. Mackey, Gramercy Books, New York

A LENDA DO OFÍCIO - ANÁLISE CRÍTICA. A TORRE DE BABEL



No último texto, vimos como a Lenda do Ofício relata o achado por Hermes Trimegisto de um dos pilares contendo os ensinamentos de todas as ciências registados antes do Dilúvio e que este divulgou esses ensinamentos. Mas ainda estamos no domínio da teoria, da “ciência pura”. Só subsequentemente a Lenda nos confronta pela primeira vez com a aplicação prática desses ensinamentos. E fá-lo em grande estilo: nada mais, nada menos do que trazendo à colação a Torre de Babel.

O fragmento da Lenda a que hoje me dedico é singularmente pequeno, uma singela frase:

E na construção da Torre de Babel se fez o primeiro uso da Maçonaria.

No entanto, esta frase de catorze palavras apela a um dos mitos mais arreigados da Bíblia: a fantástica construção do primeiro “arranha-céus”, da Torre destinada a unir a Terra dos Homens ao domínio de Deus (ou dos deuses), a passagem do conhecido para o imaginado, a ligação entre o terreno material e o domínio do divino.

O mito bíblico da Torre de Babel culmina com o desagrado divino pela prosápia humana e com um castigo “exemplar”: para além da destruição da construção, a quebra do entendimento universal entre os humanos, mediante a sua separação em várias línguas.

O mito é interessante, na medida em que mostra a busca de uma explicação para algo que, manifestamente, intrigou os nossos longínquos antepassados: como coadunar a sua similitude essencial (e a pretensa origem única, no casal do Éden) com a variegada confusão de línguas e dialetos que os nossos antepassados distantes verificaram existir? Da unidade primitiva à multifacetada diferença, o caminho terá parecido óbvio: os estouvados humanos já então davam mostras do génio criativo da espécie e, quais crianças insensatas, mais uma vez (a lição do Dilúvio foi rapidamente esquecida…) deram um passo maior que a perna e aspiraram para além do que deviam… E o Poder Divino, simultaneamente desagradado e temeroso (!), não se limitou a destruir o instrumento do atrevimento: tratou de minar o que, pelos vistos, seria uma ameaçadora força dos ex-símios, a sua capacidade de se entenderem e de cooperarem, condenando-os ao perpétuo desentendimento através de uma multitude de línguas. No fundo, dividir para reinar…

Esta perceção da relação do humano com o divino, embora reiterando o Poder do Inentendível, sofre do mesmo pecado que alegadamente teria sido punido e resolvido com a introdução da algaraviada de muitas línguas (sim, algaraviada, pois, embora os povos bíblicos desconhecessem ainda o Algarve, o seu Sol e praia e a mistura de línguas que por ali campeia no Verão, o Criador, omnisciente, dizem, já antecipava que lá por alturas dos séculos XX e XXI, a confusão multilingue, associada ao dialeto autóctone da região, originaria um substantivo que na perfeição ilustrava o resultado da sua punição pelo atrevimento do alçamento da Torre de Babel). Com efeito, o mito bíblico reduz o alegadamente Omnipotente ao (humilhante?) papel de se sentir ameaçado pela união humana e… ter necessidade de tomar providências!

O mito bíblico é, claramente, o resultado de uma tradição oral em que a Divindade é criada e descrita à luz da capacidade de entendimento humana, em que Deus, mais que Criador, é criatura criada pelas criaturas que terá criado, com as limitações e defeitos que a limitada inteligência das criaturas não pôde evitar…

Este mito porventura ter-se-á baseado numa difusa, desconhecida e limitada realidade, a construção de uma torre de tamanho nunca visto e o fracasso do projeto, por incapacidade técnica de o levar até à pretendida conclusão, quiçá com o recurso a mão-de-obra de diferentes paragens, tornando visível e aparente a diversidade de linguagens e o potencial de desentendimento que daí advinha, que impressionou um povo que, unilingue, manifestamente não teria sido ainda seriamente confrontado com a diversidade linguística e os problemas daí decorrentes.

Note-se que o mito bíblico não é único, em termos de narrativa com contornos similares. Conforme se lê na Wikipédia em português, e cito, com pequenas alterações, na mitologia suméria, a rivalidade entre dois deuses, Enki e Elil, acaba por resultar, como que em subproduto das suas lutas, na confusão da Humanidade em diversas línguas. Também o Alcorão descreve uma história similar, mas alegadamente ocorrida no Egito de Moisés, em que o Faraó pede a Haman para lhe construir uma torre de barro para que ele possa subir até ao céu e confrontar o Deus de Moisés. Outra história, em Sura 2:96, menciona o nome de Babil, mas dá poucos detalhes adicionais sobre isso. Contudo, o conto aparece mais completo em escritos Islâmicos de Yaqut e de Lisan el-Arab , mas sem a torre: os povos foram varridos por ventos até à planície que foi depois chamada “Babil”, onde lhes foram designadas as suas línguas separadas por Alá, e foram depois espalhados da mesma forma. Na História dos Profetas e Reis, pelo historiador muçulmano Tabari, do século XIX, é dada uma versão mais completa: Nimrod faz a torre ser construída em Babil, Alá destrói-a, e a língua da humanidade, previamente o siríaco, é então confundida em 72 linguagens. Abu Al-Fida, outro historiador Muçulmano do século XIII, relata a mesma história, adicionando que o patriarca Éber (um antepassado de Abraão) tinha sido autorizado a manter a língua original, neste caso o Hebraico, porque ele não participava na construção.

Lê-se ainda no mesmo artigo da Wikipédia – e continuo a citar com pequenas alterações – que várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. Outra lenda, atribuída pelo historiador nativo Don Ferdinand d’Alva aos antigos Toltecas, diz que depois dos homens se terem multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra. Outra lenda ainda, atribuída aos Índios Tohono O’odham ou Papago, afirma que Montezuma escapou a uma grande inundação, depois tornou-se mau e tentou construir uma casa que chegasse ao céu, mas o Grande Espírito destruiu-a com relâmpagos. Rastos de uma história um pouco parecida também têm sido citados entre os Tarus do Nepal e do Norte da Índia; e, de acordo com David Livingstone, os africanos que ele conhecera e que viviam junto ao Lago Gnami, em 1879 tinham uma tradição assim, mas com as cabeças dos construtores a serem partidas pela queda da construção. Finalmente, o mito estónio do “Cozinhado das Línguas” também tem sido comparado com o mito bíblico, assim como a lenda australiana da origem da diversidade das falas. Enfim, como referi na introdução a esta análise crítica, “sucessos existem que estão marcados nas culturas de vários povos de muitos lugares. Os mitos primitivos, com algumas variantes, mais ou menos acentuadas, são comuns, na sua essência às culturas ocidentais como orientais, mediterrânicas como nórdicas, africanas, asiáticas ou europeias. Mesmo em alguns mitos dos povos primitivos do continente americano podemos reconhecer traços comuns com mitos do resto do globo.”

Mas este mito, do ponto de vista dos construtores, tinha ainda uma insuspeitada virtualidade: era a primeira referência “histórica” (recordemos que, para a mentalidade da Idade Média, a Bíblia era um documento histórico) a algo de grandioso construído em pedra. Empreendimento que não podia deixar de ter apelado ao uso dos conhecimentos da Geometria aplicados à Arquitetura e à Construção. Isto é: era a visível primeira aplicação da Maçonaria!

Não poderia, obviamente, a corporação medieval de construtores em pedra deixar de sublinhar tão insigne facto, referenciando-o na sua Lenda do Ofício!

Que a referência se tenha limitado a uma singela linha e menos de duas dezenas de palavras, não é, apesar de tudo, de admirar. Tenhamos em mente que a Torre de Babel, apesar de projeto ambicioso, revelou-se um fracasso… E, por outro lado, os mais auspiciosos inícios merecem ser recordados com a singeleza da simplicidade!

Mas importa reter que, nas insondáveis voltas do espírito medieval, duas certezas avultam: o episódio da Torre de Babel era considerado realidade histórica – e, mais uma vez, a Lenda do Ofício, continua, segundo a mentalidade e conhecimentos da época da sua criação, a basear-se em factos históricos; e exprime-se a difusa, mas acertada, noção medieval de que a ciência aplicada nasce em terras de Babilónia (Babel), no berço de civilização que, entre os rios Tigre e Eufrates, foi denominada por Mesopotâmia – e hoje denominadas por Iraque. Voltas que a História dá!

Fontes:
Wikipedia: Torre de Babel ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Babel#Modelo_proposto_pela_Hist.C3.B3ria )
The History of Freemasonry, Albert G. Mackey, Gramercy Books, New York

A ARTE DA MEMÓRIA E A MAÇONARIA


Quando um candidato entra no caminho iniciático da Maçonaria, uma das primeiras coisas que ele descobre é que há uma grande quantidade de memorização envolvida. Os oficiais executam o ritual de memória, e longas palestras memorizadas são-lhe apresentadas. Finalmente, talvez para sua consternação, ele descobre que deve memorizar um diálogo antes que possa avançar para o próximo grau.

Por que é que a memorização é tão importante em Maçonaria? Como é que a prática de decorar o ritual entra na Maçonaria? A memorização ainda tem valor nos tempos modernos? Considerando a importância tradicionalmente dada à memória na Maçonaria, surpreendentemente pouco foi escrito sobre isto. Uma busca em enciclopédias maçónicas e livros de referência revela praticamente nada.

Um dos poucos livros a lidar com as origens da memorização na Maçonaria é As Origens da Maçonaria, o século da Escócia 1590-1710, de David Stevenson [1]. Stevenson ressalta que as primeiras referências à memória na Maçonaria ocorrem nos Estatutos Schaw. William Schaw foi nomeado Mestre de Obras do Rei para James VI da Escócia (mais tarde James I da Inglaterra) em 1583. Como Mestre das Obras, Schaw era membro da corte real e era responsável pela manutenção de todos os edifícios reais. Em 1598 e 1599, a Schaw emitiu regulamentos para o comércio de construção na Escócia. Eles estavam basicamente preocupados com os regulamentos de saúde e segurança, mas também continham regras para a organização dos pedreiros trabalhadores [2].

Os Primeiros Estatutos Schaw, de 1598, exigiam a selecção de Aintenders (instrutores) para cada novo companheiro na sua admissão. Nas actas iniciais das lojas de Edimburgo e Haven de Atchison mostram que geralmente eram os companheiros mais recentemente admitidos que eram seleccionados como instrutores. Como os candidatos teriam que provar a sua proficiência técnica antes de serem admitidos, parece razoável supor que a função de intendente era instruir o novo companheiro em trabalho secreto. Isto é confirmado pelo Manuscrito Dumfries no. 3 do século XVII, que diz:

“Então, deixe a pessoa que, então, é feita um Maçon, escolher da loja um Maçon que deve instruí-lo naqueles segredos que nunca devem ser escritos, e ele o deve chamará Tutor. Então o seu tutor levá-lo-á para o lado e mostrar-lhe-á todo o mistério, e, no seu retorno, ele pode exercitar com o restantes dos seus colegas pedreiros [3].

A primeira referência explícita ao uso da memória na Maçonaria está nos Segundos Estatutos Schaw de 1599:

“[O] Vigilante da Loja …” testará a arte da memória e ciência dela de cada companheiro e cada aprendiz de acordo com a sua vocação e, caso tenham perdido algum ponto dela. . . pagará a penalidade como segue por sua preguiça. . . “.

Aqui, Schaw está criando uma regra especial que todos os membros da Loja devem ser testados anualmente quanto à capacidade de memorizar algo. Infelizmente, não está claro o que é aquilo, mas parece ter algo a ver com o ritual e as cerimónias da loja [4].

Nós sabemos pouco sobre o ritual na Escócia no período em volta de 1600. Os primeiros materiais escritos datam de cerca de um século depois. Quaisquer que sejam os detalhes do ritual, isto era visto de alguma forma ligado ao esotérico. Este pode ter sido um dos factores que atraia homens que não eram trabalhadores pedreiros para se juntarem à organização. Uma prova que mostra como a Maçonaria era considerada no início do século XVII é um poema de George Adamson, The Muses Threnodie, publicado em 1638, após a morte de Adamson, mas provavelmente escrito por volta de 1630. Contém as linhas:

Porque o que pressagiamos não está em bruto,

Porque nós irmãos da Rosa Cruz;

Temos a Palavra do Maçon e segunda vista,

Coisas por vir podemos contar certo [5].

Aqui, a Maçonaria é retratada como de alguma forma dando aos seus praticantes o poder de prever o futuro, e a Maçonaria está ligada ao Rosicrucianismo. Este link tornar-se-á importante, ao considerarmos a arte da memória.

Stevenson aponta que quando Schaw se referia à Arte da memória, ele não estava apenas usando um termo extravagante para a capacidade de memorizar [6]. A Arte da memória, ou ars memorativa, era uma técnica específica para memorizar coisas, bem conhecida na época em que Schaw estava escrevendo, que tinha as suas origens nos tempos Clássicos [7]. Originalmente, a intenção da arte da memória era aumentar grandemente a capacidade natural da memória humana. Os praticantes da arte da memória tentaram encontrar maneiras de manter, recuperar e usar uma grande quantidade de informações. Nos tempos medievais e renascentes tardios, a arte da memória gradualmente tornou-se altamente simbólica. Os neoplatonistas e hermetistas gradualmente a adaptaram para desenvolvê-la numa forma especial de conhecimento, uma maneira especial de se relacionar com o universo. É nesta tradição que Stevenson encontra as origens do uso maçónico da memória.

A história tradicional é que a arte da memória se originou com o poeta grego Simónides de Ceos, cerca de 500 a.C. De acordo com a lenda, um nobre da Tessália contratou Simónides para compor uma ode, a ser recitada num banquete celebrando as vitórias atléticas do nobre. O nobre concordou em pagar um certo preço pela ode. Simónides incluiu algumas linhas na ode em homenagem a Castor e Póllux, deuses gregos do boxe e da equitação. O nobre reclamou que a ode deveria ter sido dedicado inteiramente a ele, e disse que pagaria apenas metade do preço acordado. Ele disse a Simónides que cobrasse a outra metade da sua taxa de Castor e Póllux. Pouco tempo depois, um mensageiro disse a Simónides que dois jovens estavam esperando fora do salão do banquete para vê-lo. Quando Simónides saiu, ninguém estava lá, mas, assim que ele deixou o prédio, o telhado desmoronou, matando todos lá dentro. Naturalmente, a lenda é que os dois jovens eram Castor e Póllux, que tinham vindo pagar a metade dos honorários. A história conta que os corpos dos convidados estavam tão mutilados que não podiam ser identificados. Simónides, no entanto, conseguiu lembrar-se de onde cada convidado estava sentado e, por isto, os corpos foram identificados. Pensando nisso, Simónides percebeu que este método de lembrar coisas poderia ser usado para outros fins. Ele desenvolveu um sistema de memorização e o ensinou com grande sucesso [8].

As características essenciais da arte tradicional da memória são que um edifício é retratado na mente, as partes do edifício são visualizadas numa determinada ordem, e várias imagens são associadas às partes do edifício. As imagens lembrariam ao praticante o que ele estava tentando lembrar. Quando estava tentando lembrar algo, o praticante caminharia mentalmente pelo prédio. Quando ele chegasse, por exemplo, a uma certa estátua, ele lembrar-se-ia da imagem que ele lhe tinha associado, por exemplo, uma espada e um escudo, e isso lembraria o que desejava lembrar, que o próximo ponto do seu discurso envolvia guerra. Idealmente, as imagens deveriam ser impressionantes e memoráveis. Os oradores e políticos romanos usavam a arte da memória para que pudessem pronunciar longos discursos com precisão. Pode-se imaginar um antigo orador passeando pela cidade, procurando um edifício adequado com muitos locais distintivos, onde ele poderia ancorar as suas associações mnemónicas, e em seguida, passando lentamente por ele enquanto ensaiava o seu discurso. O elemento-chave deste sistema é o uso de imagens mentais em configurações ordenadas, muitas vezes arquitectónicas, e tornou-se a base para desenvolvimentos posteriores.

Nos tempos medievais e renascentistas, juntamente com as configurações arquitectónicas usadas na arte clássica da memória, os praticantes faziam uso de todo o cosmo ptolemaico de esferas concêntricas como cenário para as suas imagens de memória. Hermetistas do Renascimento levaram isto um passo adiante. Eles argumentavam que, se a memória humana podia ser reorganizada à imagem do universo, ela tornou-se um reflexo de todo o reino das Ideias platónicas e, portanto, a chave para o conhecimento universal. O microcosmo da memória reflectiria o macrocosmo do universo [9]. As imagens colocadas num edifício não precisam ser usadas para associar e lembrar ideias externas arbitrárias. As próprias imagens podem ser usadas para lembrar o observador de certas ideias. A ênfase muda de expansão da memória para a busca de uma linguagem universal de símbolos. O templo da memória pode se tornar não apenas um método para lembrar discursos, mas uma ferramenta para ensinar.

Frances Yates escreveu:

“Não é fácil para nós reconquistar o espírito em que os príncipes do Renascimento planejaram e mobilizaram os seus palácios e terrenos, como uma espécie de sistema de memória viva, através do qual em elaborados arranjos de lugares e imagens, todo o conhecimento, toda a enciclopédia, poderia ser armazenado numa memória… e também, talvez, induzir uma atmosfera através da qual relações ocultas pudessem ser percebidas e harmonias ocultas do universo pudessem ser ouvidas “ [10].

O próximo passo lógico seria construir um edifício especificamente utilizado para ser usado para a arte da memória, para incorporar todo o conhecimento humano. Existe pelo menos um exemplo conhecido. Giulio Camillo (1480-1544) construiu um teatro portátil de madeira no qual apenas duas pessoas podiam entrar. Segundo Camillo, a estrutura continha lugares de memória e imagens que poderiam conter todo o conhecimento humano [11].

Talvez o sistema mnemónico mais desenvolvido e complexo na época fosse o de Giordano Bruno [12]. Um dos estudantes de Bruno, Alexander Dicson (ou Dickson) era um cortesão de James VI da Escócia. É altamente provável que ele conhecesse William Schaw, e possa ter sido a fonte do interesse de Schaw pela arte da memória [13].

Stevenson sugere que a tentativa de construir um teatro de memória físico é a origem da Loja maçónica simbólica. Ou seja, os nossos edifícios de lojas e painéis de loja, em maior ou menor grau, são uma encarnação de uma loja ideal, que existe na sua forma máxima somente nas nossas mentes. Os maçons do século XVII provavelmente usavam giz ou carvão para marcar um diagrama dessa loja ideal em qualquer sala em que eles se reunissem. Os mais antigos catecismos maçónicos preservados são do final do século XVII e mostram que os maçons desta época tinham uma imagem mental da Loja essencialmente a mesma que é dada na palestra moderna do grau de Aprendiz [14]. Comparado aos sistemas de memória de Giordano Bruno ou Giulio Camillo, uma loja maçónica é um templo de memória muito simples. Em vez de tentar apresentar todo o conhecimento humano, uma loja apenas sugere caminhos que o iniciado pode querer explorar. É talvez por esta mesma razão que a Maçonaria continua a ser uma força vital, enquanto os sistemas elaborados de memória do passado estão quase esquecidos.

Os edifícios imaginários utilizados para a arte da memória às vezes são chamados de teatros de memória. Robert Fludd, escritor do século XVII sobre o Rosicrucianismo, escreveu extensivamente sobre a arte da memória e sugeriu o uso de um prédio de teatro real para ancorar as imagens da memória. A. T. Mann, no seu livro Arquitectura Sagrada, sugere que locais específicos num teatro isabelino ou jacobita tenham significados simbólicos específicos, de modo que o lugar onde um personagem entrou, saiu e actuou dava indícios quanto ao estado de espírito [15]. Pode valer a pena investigar se esta ideia poderia ser aplicada às Lojas Maçónicas. Outra possível relação entre o teatro isabelino e jacobino e as Lojas maçónicas é que a frente do teatro tinha uma cobertura, chamada Aheavens, retratando o zodíaco e outros corpos celestes [16]. Isto lembra o céu coberto de Astar que nos é dito simbolicamente cobre a loja, e que às vezes é representado no tecto da sala da Loja.

Na vida moderna, livros e computadores são fontes fáceis de informação. Conferencistas podem usar notas ou teleprompters. Mesmo assim, a arte da memória ainda tem valor. Um dos objectivos da prática tradicional é maximizar as capacidades humanas como ferramentas para a transformação interior. A arte da memória é valiosa para nós hoje, não só porque ela desenvolve a memória, e nos permite reter uma grande quantidade de informações, mas também porque exige de nós que usemos outras capacidades, tais como atenção, imaginação e imagens mentais, que são úteis para o nosso desenvolvimento geral [17].

Cada Loja é, de facto, um Templo da Memória, projectado para provocar efeitos específicos através da lembrança das suas imagens e símbolos, e os nossos movimentos físicos à medida que avançamos através da loja. Cada grau enfatiza um aspecto deste Templo. A palestra do grau de Aprendiz lembra-nos o nosso lugar no esquema cósmico das coisas, o macrocosmo. O grau de Companheiro traz-nos de volta à terra, enquanto nos movemos através do mundo material. O grau de Mestre Maçon traz a espiral ainda mais para dentro, para dentro de nós, para o microcosmo da psique humana. Assim, a arte da memória continua a ser uma parte essencial da iniciação maçónica. O método da iniciação maçónica é ensinar-nos a construir, e a viver, um templo da memória, um templo repleto de símbolos que nos lembrem daquele edifício espiritual, daquela casa não feita com as mãos, eterna nos céus.

Clarence A. Anderson

Adaptado de tradução feita por J. Filardo (bibliot3ca.com)
Notas

[1] David As Origens da Maçonaria: o século da Escócia 1590 – 1710, Cambridge University Press, 1988.

[2] Cooper, Robert L. D., A Maçonaria de Schaw, The Short Talk Bulletin, Vol 89, No. 7, July 2002, The Masonic Service Association of America, Silver a Spring MD, pp. 3-4.

[3] Carr, Harry, ed., Os primeiros catecismos maçónicos, 1943, reimpresso pela Kessinger Publishing Co., Kila MT (reimpressão sem data).

[4] Cooper, p. 5

[5] Stevenson, p. 126

[6] Stevenson, p. 49

[7] Yates, Frances, A arte da memória, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[8] Fuller, Henry H., A arte da memória, National Publishing Co., St. Paul MN, 1898.

[9] Greer, John Michael, Ars Memorativa: Uma Introdução à Arte Hermética da Memória. Http://www.monmouth.com/~equinoxbook/memory.html

[10] Yates, Frances, O Iluminismo Rosacruz Barnes and Noble, Nova Iorque, 1996, p. 68.

[11] Mann, AT, Arquitectura sagrada, Element, Rockport MA, 1993, pp. 158-163.

[12] Yates, Frances, Giordano Bruno e a tradição hermética, University of Chicago Press, Chicago, 1991.

[13] Stevenson, pp. 87-96

[14] Carr, supra.

[15] Mann, supra, pp. 168 ff.

[16] Yates, Frances, Teatro do Mundo, University of Chicago Press, Chicago, 1966.
[17] Greer, supra.

QUEM FOI NA VERDADE O REVERENDO E MAÇOM JAMES ANDERSON?

Nada predispunha o Reverendo James Anderson (1679-1739) a se tornar o mais famoso entre os maçons modernos; especialmente não a publicação em 1732 da sua obra-prima: Genealogias reais, ou Tabelas genealógicas de imperadores, reis e príncipes, desde Adão até aos dias actuais. Mas o acaso quis que ele iria um dia escrever as “Constituições” de uma associação que, no entanto, tinha muito poucos membros
.
James Anderson

Nascido em Aberdeen de um pai vidraceiro (e Maçom aceite na loja operativa local) James Anderson fez os estudos necessária para a ordenação na Igreja da Escócia; mas foi numa velha paróquia huguenote, em Londres, que ele se tornou, na década de 1710, um pastor presbiteriano. Não está claro até hoje, se em 1717 ele foi um dos maçons aceites que contribuíram para a formação da Grande Loja de Londres; tem sido, por vezes, sugerido que ele poderia ter sido iniciado na Escócia, antes de se mudar para Londres.

O caminho para a fama, no entanto, abriu-se-lhe em Setembro de 1721, quando, durante uma assembleia geral realizada na presença de oficiais e membros de dezasseis lojas “erros foram revelados nas antigas Constituições Góticas”, e ele foi convidado a “realizar as correcções necessárias numa nova e melhor apresentação”. Três meses depois, quatorze irmãos “educados” foram nomeados para examinar o manuscrito do irmão Anderson.

Em 25 de Março de 1722, durante uma nova sessão da Grande Loja, a História, os Deveres, os Regulamentos e os Cantos de Mestre foram aprovadas com algumas alterações “ao que a [Grande] Loja pediu ao Grão- Mestre que mandasse imprimir”.

Assim, em 17 de Janeiro de 1723, na taverna King’s Arms, dois eventos memoráveis aconteceram: a adesão de Philip, primeiro duque de Wharton ao grão-mestrado de Londres e a apresentação do novo Livro das Constituições.

Nesse dia especial, “A Maçonaria conhecendo a harmonia, a fama e o nome, muitos nobres e cavalheiros de alta linhagem pediram para ser admitidos na Fraternidade, assim como outros homens esclarecidos, comerciantes, membros do clero e trabalhadores, que encontraram na Loja um lugar de relaxamento agradável, longe do estudo, dos negócios e da política”, disse Anderson, na segunda edição da sua obra, publicada em 1739, ou seja, no mesmo ano em que ocorreu a sua morte.

Note-se que neste mesmo 17 de Janeiro de 1723, James Anderson, que tinha anteriormente ocupado as funções de Mestre de Loja foi nomeado para o ano em curso Grande Vigilante da Grande Loja de Londres.

Muitas vezes, é perguntado por que motivo ele terá sido convidado, e não um outro irmão, a elaborar as novas Constituições da Ordem. David Stevenson, autor de um estudo sobre ele, apresenta a ideia de que a escolha teria resultado de uma viagem de John Desaguliers, um membro influente da maçonaria londrina a Edimburgo e a sua descoberta da maçonaria operativa escocesa.

Anderson sendo de ascendência escocesa e nascido de pai Maçom (além disso antigo Secretário e Mestre de Loja) teria sido considerado mais qualificado do que qualquer outro para ser promovido a historiador e legislador.

A vida maçónica de James Anderson, no entanto, permanece obscura até hoje. Ignora-se quais as actividades específicas que ele pôde implantar e quais as lojas que ele pôde frequentar; registra-se que pertencia em 1723 à Loja do Chifre, e em 1735 à Loja Francesa, bem como a sua presença em algumas assembleias de Grande Loja, mas isso é tudo …

Da sua vida secular, conhecemos pouco factos precisos. Anderson casou-se com uma viúva rica de Londres, que lhe deu um filho e uma filha, mas viveu pobremente devido aos maus negócios ocorridos na década de 1720. Ele fez, como pastor, alguns sermões que lhe valeram duras críticas, e foi obrigado a mudar de paróquia em 1734, depois de desentendimentos com alguns paroquianos. Em 1731, recebeu do Colégio Marischal de Aberdeen um diploma de doutor em teologia.

No ano seguinte, Anderson, cujas primeiras Constituições tinham sido esgotadas, propôs à Grande Loja de Londres, uma nova edição, revista e ampliada. Se a primeira consistia em apenas 91 páginas, a segunda teve na sua publicação cerca de 231 – incluindo o nome do autor, acompanhado pelas iniciais D. D. para esclarecer as suas credenciais académicas.

Enquanto isto, Anderson tinha dedicado os seus talentos literários à elaboração da sua obra sobre as genealogias reais, bem como uma Unidade na Trindade (1733), uma Defesa da Maçonaria (1738) – da qual nada há a dizer – Notícias do Eliseu (1739) e uma História da Casa de Yvery (1742).

James Anderson morreu no final de Maio 1739. De acordo com o jornal The Daily Post, datada de 2 de Junho:


“Ontem à noite, foi enterrado numa cova anormalmente profunda, o corpo do Dr. Anderson, pastor não-conformista. […] Ele foi seguido por uma dúzia de maçons que cercaram a sepultura. […] Os irmãos, exibindo grande tristeza, levantaram as mãos, sinalizaram e golpearam três vezes os seus aventais em honra do falecido”.

Assim viveu e morreu o autor do Livro das Constituições, o verdadeiro documento de fundação da Maçonaria especulativa moderna.

Guy Chassagnard

CONSIDERAÇÕES SOBRE O POEMA REGIOUS, DO SÉCULO XIV e v.


O presente texto tem como objetivos: situar, brevemente, um poema do final do século XIV – conhecido como Poema Régio – entre documentos denominados Old Charges (Antigas Obrigações);
explicar as características básicas do texto; oferecer uma tradução sintética do seu conteúdo e, contextualizar os dados considerados mais relevantes para a compreensão mais acurada de determinados aspectos da história da nossa Ordem.

I. A História mais antiga da nossa Ordem está cercada, de um lado, de imprecisões e lacunas e, de outro lado, de muitos dados fantasiosos, sem qualquer comprovação, geralmente arrolados ao léu. Falta, de modo habitual, conhecimento de metodologia de pesquisa científica a inúmeros daqueles autores que acabam elaborando teses mirabolantes e, assim, desejam recuar os primórdios da instituição a tempos imemoráveis, não-documentados e míticos. Contudo, entre suposições e dados documentais há enorme distância.

Parece evidente, no entanto, que haja vínculos estreitos entre a organização da nossa Ordem e a estrutura de algumas corporações de ofício medievais e que também a instituição tenha herdado traços diversos de outras ordens iniciáticas, sobretudo no que respeita ao embasamento filosófico, em especial das correntes neopitagóricas, neoplatónicas e similares. Todavia, este tema, em especial, é complexo o suficiente para gerar um outro trabalho. No ocaso da Idade Média, a corporação dos editores (sem dúvida, posterior ao ano de 1455, data em que Johan Gutenberg teria iniciado a reprodução mecânica de textos impressos) também mostra uma organização assemelhada em diversos aspectos à dos construtores medievais.

Desde três séculos para cá, existem documentos baseados em factos históricos comprovados, sobretudo depois da constituição da Grande Loja de Londres, em 1717. No entanto, há outros, mais antigos, que têm importância seminal para compreender diversos factos históricos relacionados com a nossa Ordem. As chamadas Old Charges (Antigas Obrigações) são manuscritos do final da Idade Média e do início da Idade Moderna usados pelas corporações dos Maçons Operativos Talhadores de Pedra e que foram encontrados, basicamente, na Inglaterra e na Escócia, e recobrem um período que vai do final do século XIV ao ano de 1748. Na verdade, os antigos manuscritos que, grosso modo, fazem referência tanto à Maçonaria Operativa medieval, quanto à Maçonaria Especulativa moderna, eram contabilizados, em 1872, por William James Hughan, como um total de 32 documentos. Em 1889, já se mencionavam 62, e o próprio Hughan, em 1895, falava da existência de 66 manuscritos, mais nove versões (Publicado em freemason.pt) impressas e onze desaparecidas, num total de 86 documentos. No começo do século passado, em 1918, o Ir∴ Roderick H. Baxter, V∴ M∴ da Loja Quatuor Coronati, listou nada menos de 98 , incluindo as versões em falta.

Entre outros, fazem parte do que se denomina Old Charges:
o Poema Régio, circa 1390;
o Manuscrito de Cooke, de 1410, descoberto por Matthew J. Cooke, divulgado sob forma impressa em 1861, redigido em prosa de 930 linhas; 19 artigos sobre a história da Arquitectura e Geometria, quatro relativos à vida social dos maçons, nove conselhos de ordem religiosa e moral; o historiador Wilhelm Begemann indica a cidade inglesa de Gloucester como provável de origem do documento e também há quem o date de 1430 ou 1440;
os Estatutos de Schaw, de 1598, referem-se a estatutos promulgados por William Schaw, na Escócia, a quem se faz menção como “mestre dos maçons” (Maister o’ Work e Warden General o’er a’ the masons), na Loja Kilwinning, em Ayrshire, e cujos registos parecem remontar a 1140;
o Manuscrito de Aitchison´s Haven, de 1598, no Condado de Midlothian, Escócia, contém um livro de balaústres da Loja de Edimburgo;
o Manuscrito de Inigo Jones, de 1607, que, nomeado mestre dos maçons, na Inglaterra, organiza lojas no estilo das academias italianas e incentiva a ingressar na instituição personagens desejos de adquirir cultura;
o Manuscrito de Melrose, de 1674, balaústres da Loja Melrose Saint John, de Newstead, na Escócia, 258 páginas, que contam a história das reuniões de 1674 até 1792; o brasão de armas da Loja Melrose , gravado em madeira, remonta a 1156.

II. O chamado Poema Régio, datado supostamente de 1390, parece ser um dos elos mais antigos capazes de ligar, em definitivo, a Maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa. Trata-se de um manuscrito de 64 páginas, em pergaminho, de autor anónimo, que se encontra hoje no Museu Britânico. Foi catalogado como A Poem of Moral Duties: here entitled Constitutiones Artis Geometriae secundum Euclydem (Um Poema de Obrigações morais, aqui intitulado como as Constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides), com metade do título em inglês e outra metade, em latim. O rei inglês George II, em 1757, apresentou-o à nação e mandou depositá-lo na abadia de Westminster. O antiquário James Orchard Halliwell-Phillips (1820-1889), um renomado especialista em Shakespeare, revelou o real sentido do manuscrito redigido em inglês medieval. Entre 1838-39, apresentou à Sociedade dos Antiquários de Londres um trabalho intitulado On the Introduction of Freemasonry in England (Sobre a Introdução da Franco-Maçonaria na Inglaterra) e, com isto, chamou à atenção de muitos Irmãos nossos (interessados em pesquisa séria sobre a História da Ordem) para as reais ligações entre maçons operativos e especulativos. Em 1844, Halliwell revisou e ampliou o seu texto e acrescentou-lhe uma cópia fac-similar do original. No ano de 1889, um fac-simile exacto foi publicado no volume primeiro das Antigrapha da Lodge Quatuor Coronati, editado pelo secretário da Loj∴, Ir∴ George William Speth, com glossário indispensável e comentários do Ir∴ R.F. Gould.

O Poema Régio está composto de quinze artigos e quinze pontos, alguns comentários introdutórios e uma longa peroração final. Trata-se de um poema – mas com rimas pobres-, com 794 linhas, redigido em inglês arcaico, contemporâneo a Geoffrey Chaucer [1] Supõe-se que o manuscrito tenha sido copiado de um texto mais antigo e há indícios de que ou o copista ou o autor do texto original tenha sido um padre, face às alusões que faz à cristandade, à necessidade de frequentar a igreja – “o próprio Cristo ensinou-nos que a sagrada igreja é a casa de Deus, feita para nada mais do que para rezar, como nos ensina o Livro”- [(…) For Christ hymself, he techet ous/ That holy churhe ys Goddes hous,/That ys y-mad for nothynge ellus/but for to pray yn, as the bok tellus, linhas 87: 90, no original] , às citações bíblicas, etc. Há trechos que aludem, de modo transparente, à visão esposada pela igreja católica – os sete pecados capitais e o culto a Maria (que aparece somente no Poema Régio e em nenhum outro manuscrito das Old Charges). Nos versos finais, há claras instruções a respeito da maneira de se comportar dentro da igreja, como proceder durante a missa, como se ajoelhar, etc. Aparecem, ainda, menções ao pensador Santo Agostinho (354-430 d.C.) , a personagens bíblicas, aos procedimentos a serem adoptados na presença de nobres, às boas maneiras à mesa e nas ruas.

Há trechos em latim medieval, com evidentes erros de ortografia e/ou transcrição e, a certa altura, o texto faz menção ao rei inglês Athelstan [2], insinuando que teria sido ele o responsável pela regulamentação da Maçonaria (Operativa) na Inglaterra. A primeira linha do poema está em latim (já se notam os erros mencionados) e reza o seguinte: Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem [sic] (Aqui começam as constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides). O texto menciona, na parte final, personagens bíblicos, como é o caso de Noé, refere-se à torre (Publicado em freemason.pt) da Babilónia, ao rei Nabucodonosor II [3], ao dilúvio, à perda dos conhecimentos relativos à construção e ao facto de o erudito Euclides [4], muitos anos depois, ter ensinado novamente a arte da Geometria (recuperando, portanto, o conhecimento perdido) e, ao todo, as sete ciências, ou seja, as Sete Artes Liberais do mundo antigo. O narrador, em primeira pessoa, afirma que a Gramática é a primeira ciência de que tem conhecimento e, a seguir, enumera as outras seis: Dialéctica, Retórica, Música, Astronomia, Aritmética e Geometria; assevera, também, que a Geometria “pode separar a falsidade da verdade” [ (…) con deperte falshed from trewthe, linha 574, no original].

III. Em linhas gerais, é possível concluir que o texto faz referência explícita à Maçonaria Operativa medieval, na medida em que menciona “grandes senhores” aos quais os Mestres Maçons estariam ligados, o que permite supor, correctamente, que tenham sido os nobres que contratavam a construção de castelos, catedrais, fortalezas, etc. Há uma série de alusões marcantes ao ambiente socioeconómico, político e cultural da Idade Média europeia e, particularmente, inglesa, como, por exemplo, a figura do xerife de um condado. No entanto, levando-se em conta uma sociedade, como a medieval, em que as classes sociais eram estanques e separadas, o papel da nobreza e da igreja era preponderante, não deixa de ser surpreendente ler, no Ponto Nono do texto que “todos os homens devem ser igualmente livres” e que a equidade no comportamento deveria ser observado tanto em relação a homens, quanto a mulheres.

A partir do texto, não fica muito claro se, de facto, os construtores medievais consideravam a existência de três graus diferentes na escala de conhecimentos, ou seja, Aprendiz, Companheiro e Mestre, uma vez que o texto cita a figura do Aprendiz (que devia ser subordinado a um Mestre), a do Mestre e, em sucessivas passagens, refere-se a Companheiros, mas não há clareza quanto ao facto de o termo significar, literalmente, “companheiro” ou referir-se a “todos os integrantes da confraria”. Convém lembrar que com o surgir da Grande Loja Unida de Inglaterra, em 1813, quando os Antigos e Modernos concordaram em trabalhar sob comando único, estabeleceu-se em definitivo, que “fica declarado e promulgado que a pura Antiga Maçonaria consiste de três graus e não mais , isto é, Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom, incluindo a Suprema Ordem do Sagrado Real Arco”.

A simples leitura dos quinze artigos do Poema Régio permite, no entanto, perceber inúmeras e claras inter-relações entre operativos e especulativos e a existência de um rígido código ético.

É interessante mencionar que, em 1968, Henry Carr [5] afirmava o seguinte: “Insisto, contudo, que a nossa Franco-Maçonaria actual, especulativa, é descendente directa da maçonaria operativa, cujos princípios podemos fazer retroceder aos mais antigos registos referentes à organização entre construtores, em 1356”. Uma década mais tarde, Carr voltaria a dizer: “A transição da maçonaria operativa para a especulativa não representou a substituição de uma actividade antiga sob nova direcção. Era a actividade antiga, que, gradualmente, alterou o carácter, segundo as necessidades da sua época, mas com continuidade perfeita” [6]. Todavia, ao longo do século XX, nada menos que dez teorias diferentes desfilaram nas páginas do Ars Quatuor Coronatorum, publicação oficial da Loja Quatuor Coronati [7], muitas delas contraditórias entre si.

McLoughlin [8], por seu turno, lembra que documentos históricos autênticos mostram a existência, durante a Idade Média, de construtores de catedrais e outras obras que eram chamados de “Free and Accepted Masons” (Maçons Livres e Aceitos), chamados de operativos, e a designação recobria vários profissionais, inclusive carpinteiros. Aos poucos, prossegue, burgueses, nobres e até mesmo reis foram iniciados, gradualmente, como “especulativos”. Sublinha a existência de inúmeras lojas na Europa, nos séculos XV, XVI e XVII e menciona as actas., de 1599, da Loja Maçónica de Edimburgo nº 1.

IV. Segue, abaixo, resumo traduzido do texto, na ordem em que estão relacionados os artigos, pontos e outros dados no poema:
Artigo 1º – o Mestre Maçom deve ter segurança absoluta no conhecimento da Geometria e deve pagar os Companheiros correctamente;
Artigo 2º – todo Mestre Maçom deve comparecer às assembleias da Ordem;
Artigo 3º – um Mestre Maçom não deve aceitar qualquer Aprendiz, a menos que tenha certeza de que poderá conviver bem durante sete anos com ele e se estiver seguro de que o Aprendiz será capaz de aprender o ofício;
Artigo 4º – o Mestre Maçom deve supervisionar o trabalho do Aprendiz que, por sua vez, deve ter boa índole;
Artigo 5º – o Aprendiz não pode ser deformado para não fazer a Ordem passar vergonha porque faria mal à instituição e deve ser um homem forte;
Artigo 6º – o Mestre Maçom, convém sublinhar, deve ser perfeito na sua Arte e deve transmitir absolutamente tudo ao Aprendiz;
Artigo 7º – um Mestre Maçom não deve, em hipótese alguma, dar abrigo a ladrões ou assassinos, a fim de não envergonhar a Ordem;
Artigo 8º – um Mestre Maçom deve substituir, imediatamente, qualquer membro da Ordem que não corresponder às expectativas e necessidades;
Artigo 9º – o Mestre Maçom deve ser sábio e forte e deve ser útil à Ordem, onde quer que vá;
Artigo 10º – todos devem ter ciência, acima e abaixo (na hierarquia), que nenhum Mestre Maçom deve tentar suplantar o outro, mas deve comportar-se como um Irmão e deve terminar o seu trabalho de modo correcto;
Artigo 11º – nenhum Maçom deve trabalhar à noite;
Artigo 12º – um Mestre Maçom, onde quer que esteja, deve zelar para que nada possa depravar os seus Companheiros;
Artigo 13º – se o Mestre Maçom tiver um Aprendiz, deve instruí-lo o necessário para que ele se torne útil à Ordem, onde quer que vá;
Artigo 14º – nenhum Mestre Maçom deve tomar Aprendiz, a menos que seja capaz de instruí-lo e responder por ele;
Artigo 15º – o Mestre Maçom deve ser um instrutor amigo, não deve prestar falso juramento e jamais deve envergonhar a Ordem.

Ponto Primeiro – onde se congregarem Mestres Maçons, devem demonstrar amor a Deus e também aos seus Companheiros;

Ponto Segundo – o Mestre Maçom deve trabalhar dedicadamente, para merecer o descanso;

Ponto Terceiro – o Aprendiz deve levar a sério os conselhos do Mestre Maçom e dos seus demais Companheiros também, e nada do que vir ou ouvir em Loja poderá contar a qualquer homem no mundo;

Ponto Quarto – nenhum homem deve mostrar-se falso em relação à Ordem, ou prejudicar os Mestres Maçons e Companheiros, e todos devem obedecer às leis;

Ponto Quinto – o Maçom deve receber pagamento do Mestre, que deve avisá-lo até o meio-dia, se não precisar dele depois [desse horário];

Ponto Sexto – se surgir inveja ou ódio entre Maçons, cabe a outro Maçom corrigi-los, para que convivam segundo as leis de Deus;

Ponto Sétimo – o Maçom deve respeitar a esposa do Mestre e do Companheiro;

Ponto Oitavo – o Maçom sempre deve ser um mediador positivo entre o Mestre Maçom e os Companheiros;

Ponto Nono – o Maçom deve servir aos seus Companheiros, dia após dia, sem buscar quaisquer vantagens e todos os homens devem ser igualmente livres; deve pagar todos os homens de modo correcto e deve ser justo com todos os Companheiros, todos os homens e todas as mulheres e também deve registar o bem que os Companheiros fizerem;

Ponto Décimo – o Maçom deve viver correctamente, para não fazer recair sobre a Ordem vergonha alguma e, se cometer algo impróprio, será chamado à Assembleia para explicar-se diante dos seus iguais; e, se não aparecer, será punido conforme a lei que vem de tempos antigos (that was y-fownded by olde dawe, no original);

Ponto Décimo-Primeiro – o Maçom, se vir um Companheiro executar um trabalho de forma incorrecta, deve admoestá-lo com palavras dóceis;

Ponto Décimo-Segundo – no local em que se realizar a Assembleia, deve haver Mestres Maçons e Companheiros (Ther schul be maystrys and felows also, linha 409, no original), e outros grandes Senhores, e o prefeito da localidade e o xerife do condado (There schal be the scheref of that contré / And also the meyr of that syté, /Knytes and sqwyers ther schul be,/ linhas 411;13, no original) cavaleiros também; e, se houver qualquer acusação contra eles (Mestres e Companheiros?), devem tomá-los sob a sua custódia;

Ponto Décimo-Terceiro – o Maçom deve jurar que jamais roubará e jamais ajudará falsos Obreiros;

Ponto Décimo-Quarto – o Maçom deve jurar, perante Mestres Maçons e Companheiros, que obedecerá ao seu rei e também deve prestar o juramento dos Maçons (Publicado em freemason.pt) sobre todos os pontos anteriores, e saber que será responsabilizado, se faltar com a palavra;

Ponto Décimo-Quinto – se os Maçons atentarem contra a Ordem, não poderão retornar a ela e o xerife poderá encarcerá-los e tomar-lhe os bens e o gado e colocá-los à disposição do rei, e deixar que ele lhes decida o destino (?). “

Alia ordinacio artis gemetriae (sic) [Outras ordenações da Arte da Geometria]

Afirma o texto que, a cada ano, uma Assembleia deverá corrigir as falhas encontradas na Ordem e, a cada três anos, todos devem comparecer para corrigir os erros e manter os estatutos concedidos à Ordem pelo rei Athelstan.

Ars quatuor coronatorum [Arte dos Quatro Coroados]

“Rezemos, ao Deus Todo-Poderoso e à sua Mãe bendita para que todos estes artigos possam ser conservados como o fizeram os quatro mártires – que são grande honra para o Ofício -, (Pray we now to God almyht, / And to hys moder Mary bryht, / That we mowe keepe these artyculus here, / And these poynts wel al y-fere, / As dede these holy martyres fowre, /That yn thys craft were of fret honoure, / linhas 497:502, no original) foram bons Maçons, escultores e gravadores – e eles amaram a Deus e serviram e viveram segundo as leis de Deus”, reza o poema.

A seguir, faz menção à punição que os Quatro Coroados sofreram. Menciona que são festejados no oitavo dia após Alle Halwen (sic), ou seja, Hallow-e´en (Here fest wol be, withoute nay, /After Alle Halwen the eyght day. /, linhas 533:34, no original).

Parte significativa do conteúdo do Poema Régio reaparece nas Constituições dos Pedreiros Livres (The Constitutions of the Free-Masons), de James Anderson, editadas em 1723 [9]. É extremamente interessante, segundo nos parece, a linha de raciocínio ético que perpassa o texto e coincide com preceitos que sobreviveram até aos nossos dias dentro da nossa Ordem. A principal contribuição de Anderson foi o facto de subtrair do documento que redigiu referências explícitas ao denominacionalismo e, com isto, conferiu, em definitivo, carácter universal à nossa Ordem, que aceita a In∴ de pessoas de qualquer confissão religiosa. No entanto, isto também já é tema suficiente para outro trabalho.

O longo Poema Régio merece uma tradução completa, cuidadosa e comentada para o português, tarefa que representa um desafio múltiplo não somente devido aos inúmeros problemas linguísticos que o texto oferece, às circunstâncias históricas que precisam ser elucidadas, mas, sobretudo, em decorrência da necessidade de identificar muitas fontes documentais correctas.

Aleksandar Jovanović

Nota – O Poema Régius pode ser consultado AQUI
Notas

[1] Geoffrey Chaucer (1343-1400), filósofo, diplomata, tradutor e poeta, autor dos Canterbury Tales (Contos de Cantuária), considerado o Pai da Literatura Inglesa, porque modernizou o idioma, inclusive devido aos conhecimentos que possuía de latim, francês, italiano, etc. e das respectivas literaturas.

[2] Athelstan ou Æþelstān, o Glorioso (895-939), rei inglês (saxão), submeteu Constantino II, rei dos escoceses, na Batalha de Brunanburh, em 937, e, por isso, foi o primeiro a ostentar o título de rex totius Britanniae (rei da Bretanha inteira).

[3] Nabucodonosor II (circa 632 a.C. – 562 a.C.), o mais conhecido imperador do Império Neo babilónio. Ficou famoso pela conquista do Reino de Judá e pela destruição de Jerusalém e o seu Templo, em 587 a.C., além das monumentais construções na cidade de Babilónia e, entre elas, os Jardins Suspensos da Babilónia, conhecidos como uma das sete maravilhas do Mundo Antigo.

[4] Euclides de Alexandria (360 a.C. – 295 a.C.), professor, matemático e escritor de origem desconhecida, criador da Geometria Euclidiana. Teria estudado em Atenas e teria sido discípulo de Platão. Foi convidado por Ptolomeu I a compor o quadro de docentes da Academia, que tornaria Alexandria o centro do saber, durante muito tempo. Euclides foi o mais importante matemático da Antiguidade: publicou os Stoikhía (Os Elementos), em 300 a.C., obra em treze volumes, a respeito de Geometria Plana, números, teoria das proporções, etc.

[5] Carr, Henry. 600 years of Craft Ritual. Ars Quatuor Coronatorum, 81 (1968): 200.

[6] Carr, Henry. Ars Quatuor Coronatorum, 91 (1978), passim.

[7] Os Quatro Coroados (Quatuor Coronatis, em latim) eram, segundo reza a tradição, escultores de Sirmium (hoje Srem, região da Sérvia, ao norte de Belgrado), que se recusaram a esculpir uma estátua pagã para o imperador romano Diocleciano (243-305), porque se tinham convertido ao cristianismo. Por isto, foram aprisionados, martirizados com uma coroa de pregos agudos de ferro que lhes foi martelada no crânio. Foram eles Castório, Nicóstrato, Cláudio e Sinfrónio; Simplício, um quinto, morreu com eles, mas não há explicações claras a respeito. Aos Quatro Coroados está (Publicado em freemason.pt) dedicada uma capela, erigida em 619, em Canterbury, Inglaterra. São venerados na Maçonaria inglesa e a Loja Quatuor Coronati Lodge No. 2076 ostenta, inclusive, o título de The Premier Lodge of Masonic Research (A primeira loja de pesquisa maçónica), e, de facto, é a mais importante Loja de pesquisas maçónicas, consagrada em 12 de Janeiro de 1886. A Ars Quatuor Coronatorum (A Arte dos Quatro Coroados) é a publicação regular da Loja de pesquisa Quatuor Coronati.

[8] McLoughlin, Emmett. An Introduction to Freemasonry. In: Waite, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books. p. xxxiii.

[9] James Anderson (1679-1739), escocês nascido em Aberdeen, foi ministro presbiteriano e membro da Grande Loja de Londres. Escreveu as Constituições, que ficaram conhecidas como A Constituição de Anderson. Em 1734, o nosso (Publicado em freemason.pt) Ir∴ Benjamin Franklin reproduziu e editou a obra, o primeiro livro mac∴ impresso no que são hoje os Estados Unidos da América. A obra é considerada um dos marcos fundamentais da nossa Ordem.
Bibliografia
Anderson, James. The Constitutions of the Free-Masons containing the History, Charges, Regulations, &c of that most Ancient and Right Worshipful Fraternity. Digital Commons, University of Nebraska, Lincoln. 2006. Edição fac-similar electrónica..
Ars Quatuor Coronatorum. [1968]: 81.
Ars Quatuor Coronatorum. [1978]: 91.
DAVIES, Norman [1996] Europe. Oxford: New York. Oxford University Press. 1996.
WAITE, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books.