sexta-feira, 8 de março de 2019


QUAL É A ARTE DA ARTE REAL





                                                                                     "Liberdade vai buscando, que é tão querida
                                                                                     como sabe quem por ela rechaça a vida.
                                                                                         Dante, Purgatório. I, 71-72. [1]"

Segundo os antigos rituais e as antigas Constituições maçônicas, a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento do homem.

Os antigos mistérios clássicos não tinham outro objeto e conferiam a télétê, perfeição iniciática. Este termo técnico estava vinculado etimologicamente aos três sentidos de fim, morte e perfeição, como já observa o pitagórico Plutarco. Jesus utiliza também a palavra téleios quando exorta seus discípulos a serem “perfeitos como vosso Pai que está nos céus”, inclusive se, por uma dessas frequentes incongruências das Santas Escrituras, afirma que “ninguém é perfeito exceto meu Pai que está nos céus”.

Essa definição poderia parecer explícita e precisa; e, não obstante, uma ligeira mudança formal alterou fundamentalmente o conceito. Tomemos como exemplo o dicionário de Pianigiani que afirma que a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento da humanidade; grande quantidade de profanos, assim como numerosos maçons, aceitam essa definição. A primeira vista pode parecer que aperfeiçoamento do homem e aperfeiçoamento da humanidade significam a mesma coisa. Na realidade, se referem a dois conceitos profundamente distintos, e sua aparente sinonímia gera um equívoco e oculta uma incompreensão. Outros utilizam a expressão aperfeiçoamento dos homens, igualmente equivocada. Evidentemente, é quase impossível decretar qual é a expressão correta, porque qualquer franco-maçom pode declarar correta a que está mais de acordo com suas preferências, e ainda comprazer-se, talvez, no equívoco. Mas quando se trata de determinar, histórica e tradicionalmente, a interpretação correta e conforme com o simbolismo maçônico, a questão muda de aspecto e já não se trata de preferências particulares.

O manuscrito encontrado por Locke (1696) na Bodleian Library – e que não foi publicado até 1748 – é atribuído a Henrique VI, da Inglaterra: define a franco-maçonaria como “o conhecimento da natureza e a compreensão das forças que há nela”; enuncia expressamente a existência de um vínculo entre a Maçonaria e a Escola Itálica, pois afirma que Pitágoras, um grego, viajou para instruir-se, ao Egito, à Síria e a todos os países onde os Venezianos [leia-se os Fenícios] haviam introduzido a Maçonaria. Admitido em todas as lojas dos Maçons, adquiriu um grande saber, voltou à Magna Grécia… e fundou uma importante loja em Crotona[2].

Para dizer a verdade, o manuscrito fala de Peter Gower; e, como o nome Gower existe na Inglaterra, Locke ficou bastante perplexo ante a identificação de Gower com Pitágoras. Mas outros manuscritos e as Constituições de Anderson mencionam explicitamente Pitágoras. O manuscrito de Cooke diz que a Maçonaria é a parte principal da Geometria, e que foi Euclides, sábio e sutil inventor, quem deu as regras desta arte e a chamou de Maçonaria. Há outros traços de reminiscências pitagóricas tanto nas “Old Charges” como no mais antigo dos rituais impressos[3] (1724) que atribui uma importância particular aos números ímpares, de acordo, neste caso, com a tradição pitagórica[4].

Todos os antigos manuscritos maçônicos concordam ao assinalar o aperfeiçoamento do homem, ou do simples indivíduo, como único objetivo da franco-maçonaria. As provas iniciáticas, as viagens simbólicas, o trabalho do aprendiz e do companheiro têm um caráter manifestamente individual e não coletivo.

Segundo a mais antiga concepção maçônica, a “grande obra” do aperfeiçoamento é realizada trabalhando sobre a “pedra bruta”, ou seja, sobre o indivíduo, desbastando, polindo e esquadrinhando a pedra bruta até transformá-la em “pedra cúbica da Maestria”, graças às regras tradicionais da “Arte Real” maçônica de edificação espiritual. Existe uma perfeita analogia com uma tradição paralela, a tradição hermética, que, pelo menos desde 1600, se encontra enxertada nela e ensina que a “grande obra” é realizada trabalhando sobre a “matéria prima”, transformando-a em “pedra filosofal” segundo as regras da “Arte Real hermética”. Operação que resume a máxima de Basílio Valentino: V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terrae retificando Invenies Occultum Lapidem = Visita o interior da Terra, por retificação encontrarás a pedra oculta) ou a Tábua de Esmeralda, que modernos arabistas atribuem ao pitagórico Apolônio de Tiana. Pelo contrário, segundo a concepção maçônica profana e mais moderna, o trabalho de aperfeiçoamento deve ser realizado sobre a coletividade humana. É a humanidade ou a sociedade que ela há que transformar e aperfeiçoar; e, desse modo, substitui-se a ascese espiritual do indivíduo pela política coletiva. Os trabalhos maçônicos acabam por ter então uma meta e um caráter primeiramente social, às vezes unicamente social. O verdadeiro fim da franco-maçonaria – o aperfeiçoamento do indivíduo – passa a segundo plano quando não é francamente descuidado, esquecido e ignorado.

Tradicionalmente a primeira concepção é sem dúvida a correta e na literatura maçônica do século XVIII estiveram muito em moda as comparações e identificações exageradas e fantasiosas entre os mistérios de Elêusis e a franco-maçonaria. É indiscutível que o patrimônio ritual e simbólico da ordem maçônica somente se harmoniza com a concepção mais antiga da finalidade da maçonaria; efetivamente, o testamento do candidato à iniciação, as viagens simbólicas, as terríveis provas, o nascimento para a Luz iniciática, a morte e a ressurreição de Hiram, não podem ser compreendidos em sua relação com os trabalhos maçônicos e com a finalidade da franco-maçonaria caso tudo deva ser reduzido a fazer apenas política.

Historicamente, o interesse e a intervenção da franco-maçonaria nas questões políticas e sociais se manifesta apenas por volta de 1730, e unicamente em algumas regiões europeias, com a introdução da franco-maçonaria inglesa no continente. O pouco que se sabe das antigas lojas de antes do século XVII mostra a presença e o uso nos trabalhos maçônicos de um simbolismo de ofício, arquitetônico, geométrico, numérico, que, tendo por sua natureza um caráter universal, não se encontra ligado nem a uma civilização determinada nem a uma língua em particular e permanece independente de todo credo de ordem política e religiosa; é por essa razão que o maçom, de acordo com o ritual, não sabe ler nem escrever.

Com a lenda de Hiram e a construção do Templo faz sua aparição um elemento hebraico; e as palavras sagradas do aprendiz e do companheiro (as únicas graduações ou graus então existentes) que se referem a esta lenda são hebraicas. Mas esta lenda não pertence ao patrimônio tradicional da Ordem; a morte de Hiram não figura nos antigos manuscritos maçônicos, e as Constituições de Anderson ignoram o terceiro grau. De todas as maneiras, não há nada de extraordinário na presença de elementos e palavras hebraicas em uma época em que o hebreu era considerado como uma língua sagrada, a língua sagrada, aquela que Deus havia utilizado para falar ao homem no Paraíso Terrestre; trata-se de um fato cuja importância e significado não há que ser exagerado e que de nenhuma maneira é suficiente para se justificar a afirmação do caráter hebreu da franco-maçonaria. A letra G do alfabeto greco-latino, inicial de geometria e de Deus (God) em inglês, que aparece na Estrela Flamejante ou no Delta maçônico, parece ser apenas uma inovação (sem utilidade para quem não sabe ler nem escrever), enquanto que os dois símbolos fundamentais da ordem são os dois mais importantes do pitagorismo: o pentalfa ou pentagrama e a tetraktys pitagórica. A arte maçônica ou arte real, termos utilizados pelo neoplatônico Máximo de Tiro[5], era identificada com a geometria, uma das ciências do quadriviumpitagórico, e é difícil compreender como um Oswald Wirth, maçom erudito e hermetista, pode escrever que os maçons do século XVII[6] se proclamavam adeptos da Arte Real porque em outro tempo houve reis que se interessaram pela obra das privilegiadas corporações dos construtores da Idade Média. Os elementos de puro caráter maçônico constituem, junto com o simbolismo numérico e geométrico, o patrimônio simbólico e ritual arcaico e autêntico da fraternidade. Não dizemos seu patrimônio característico, porque estes elementos aparecem também, pelo menos parcialmente, no Companheirismo (compagnonnage), que de resto é muito próximo da franco-maçonaria.

Posteriormente, entre os séculos XVII e XVIII, quando as lojas inglesas começaram a receber como irmãos os accepted masons (pessoas que não exerciam a profissão de arquiteto ou o ofício de pedreiro), fazem sua aparição elementos herméticos e rosacrucianos como, por exemplo, Elias Ashmole (1617-1692), tal como assinala Gould em sua história da franco-maçonaria. O contato entre a tradição hermética e a maçônica fora da Inglaterra se produziu igualmente quase à mesma época, o que, evidentemente, implica a existência no continente de lojas maçônicas independentes da Grande Loja Inglesa. O frontispício de um texto hermético importante, editado em 1618[7], reproduz junto aos símbolos herméticos (o Rebis) os símbolos estritamente maçônicos do esquadro e do compasso; ocorre o mesmo em um opúsculo italiano de alquimia[8], impresso em lâminas de chumbo e que remonta praticamente a essa época.

Neste opúsculo se vê, entre outras coisas, Tubalcaim com um esquadro e um compasso em suas mãos. No entanto, na Bíblia, Tubalcaim é considerado como o primeiro ferreiro. Um erro de etimologia, naquela época muito praticado, e que o erudito Vossius repetiu, o identificou com Vulcano, o ferreiro dos Deuses e Deus do fogo, o qual, segundo os alquimistas e os hermetistas, presidia o fogo hermético (ou ardor espiritual), fogo que realizava a grande obra da transmutação. Em uma de nossas obras da juventude[9] demos uma interpretação errada da p∴ de p∴ Tub∴, pois ignorávamos a equivocada identificação de Vulcano com Tub∴ que era aceita pelos hermetistas e eruditos dos séculos XVII e XVIII. Hoje, nos parece evidente que esta p∴ de p∴ e algumas outras vêm do hermetismo, e que provavelmente foram introduzidas na franco-maçonaria e acrescentadas às palavras sagradas, constituindo provas do contato que havia se estabelecido entre a tradição hermética e a maçônica. As p∴ de p∴ do 2o. e 3o. graus não existem no ritual de Prichard (1730). Hermetismo e Maçonaria têm como fim a “grande obra da transmutação” e ambas as tradições transmitem o segredo de uma arte, à qual designam com o termo Arte Real já utilizado por Máximo de Tiro. É, pois, natural que tenham se sentido muito próximas uma da outra. Observemos que a adoção do simbolismo hermético não é efetuada em detrimento da universalidade maçônica nem de sua independência frente à religião e à política, pois o simbolismo hermético ou alquímico é, também, estranho, por sua natureza, a todo credo religioso ou político. A arte maçônica e a arte hermética, ou simplesmente a arte, é um arte e não uma doutrina ou uma confissão.

Até 1717 cada loja, de fato, era livre e autônoma. Os irmãos de uma oficina eram recebidos como visitantes nas demais oficinas, com a condição de satisfazer o telhamento (uma espécie de exame que permitia reconhecer que alguém era, na verdade, um irmão); mas somente o Venerável de uma oficina detinha a autoridade única e suprema entre os irmãos da mesma.

Em 1717, foi produzida uma mudança com a constituição da primeira Grande Loja, a Grande Loja de Londres, e pouco depois o pastor protestante Anderson redigia as Constituições maçônicas para as lojas sob a Obediência da Grande Loja de Londres; e, se bem que teoricamente uma oficina podia e pode conservar sua autonomia ou filiar-se à Obediência de uma grande loja[10], na prática só se consideram hoje lojas regulares aquelas que, direta ou indiretamente, são emanações ou derivações da Grande Loja de Londres, na suposição de que esta derivação, e somente ela, possa conferir a “regularidade”.

Isso posto, é muito importante observar que as Constituições de Anderson afirmam explicitamente que, para ser iniciado e pertencer à franco-maçonaria, a única condição é ser um homem livre de costumes irrepreensíveis, e exaltam (ao contrário das diversas seitas cristãs) o princípio da tolerância de cada qual pelos credos dos demais, ressalvando somente que um maçom não será nunca um “ateu estúpido”. Poder-se-ia pensar que Anderson admite que o franco-maçom pode ser um ateu inteligente, mas é mais verossímil que, como bom cristão, pensasse que um ateu é obrigatoriamente um imbecil, segundo a máxima que diz: Dixit stultus in corde suo: Non est Deus, (O estúpido diz em seu coração: Deus não existe). Aqui, seria necessário fazer uma digressão e observar que nesta disputa tanto o que afirma como o que nega não possui em geral nenhuma noção se aquilo que afirma existe ou não e que a palavra Deus é empregada habitualmente em um sentido tão vago que toda discussão é inútil. Seja como for, as Constituições da franco-maçonaria são explicitamente teístas; e os profanos, que acusam a franco-maçonaria de ateísmo, ou o fazem de má fé ou ignoram que ela trabalha para a glória do Grande Arquiteto do Universo. Observemos ainda que esta designação, que se harmoniza com o caráter do simbolismo maçônico, tem, igualmente, um sentido preciso e inteligível, ao contrário que certas designações vagas ou carentes de sentido como as “Nosso Senhor”, “Pai de todos os homens”, etc.

A qualidade de homem livre, exigida ao profano para iniciá-lo ou ao maçom para considerá-lo como irmão, é de grande interesse. Anderson não deixa de chamar de franco-maçons aos Free Masons, restando então examinar em que consiste essa freedom (liberdade) dos Free Masons. Trata-se somente da franquia econômica e social que exclui aos escravos e servos, e das franquias e privilégios que a corporação dos franc-maçons desfrutava frente aos governos dos estados e das distintas regiões onde exercia sua atividade? Ou essa denominação de maçons francos ou liberados deve ser tomada em outro sentido, referindo-se a pessoas que não são escravas dos preconceitos nem dos credos, liberdade que seria inútil trazer à luz? Se fosse assim, resultaria vão querer buscar as provas documentais e a pergunta ficaria pendente. Não obstante, pode aportar-se um esclarecimento graças a um documento de 1509 cuja existência ou cuja importância não foi, ao que parece, destacada até o presente.

Trata-se de uma carta escrita em 4 de fevereiro de 1509 a Cornelius Agrippa por seu amigo italiano, Landolfo, para recomendar-lhe um iniciado. Landolfo lhe escreve[11]: “É alemão como tu, originário de Nuremberg, mas que vive em Lyon. Investigador curioso nos arcanos da natureza, é um homem livre, completamente independente dos demais, que deseja, por causa da reputação que já possuis, explorar também teu abismo… Lança-o, pois, para prová-lo ao espaço; e levado nas asas de Mercúrio voa das regiões do Austro às do Aquilão, toma também o cetro de Júpiter; e se nosso neófito quer jurar nossos estatutos, associa-o à nossa fraternidade”. Tratava-se de uma associação secreta hermética criada por Agrippa, e há uma evidente analogia entre a prova do espaço que o iniciado deve enfrentar e as terríveis provas e viagens simbólicas da iniciação maçônica, inclusive quando a prova, aqui, se faz nas asas de Hermes. Hermes Psicopompo, o pai dos filósofos segundo a tradição hermética, é o guia das almas no além clássico e nos mistérios iniciáticos. Nesta carta também, se destaca a qualidade de homem livre, suficiente para abrir ao profano a porta do templo ao qual aspira; também aqui se manifesta substancialmente o princípio da liberdade de consciência e, ao seu lado, a tolerância. Ambas as tradições paralelas, hermética e maçônica, impõem idêntica condição para iniciar o profano: a de ser um homem livre, de onde se pode presumir que ela não se referia às franquias particulares das corporações de ofício, e por outro lado não faria sentido pedir isso aos accepted Masons que não eram pedreiros de profissão mas sim franco-maçons.

O caráter fundamental das Constituições de Anderson reside, pois, no princípio da liberdade de consciência e de tolerância, que permite também aos não cristãos pertencer à Ordem. Nas Constituições de Anderson a franco-maçonaria conserva seu caráter universal, não está subordinada a nenhum credo filosófico particular nem a qualquer seita religiosa, e não manifesta nenhuma inclinação por trabalhos de ordem social ou político. Pode ser que este caráter aconfessional e livre tenha inspirado igualmente à Maçonaria anterior a 1717 e que Anderson apenas o retificou nas Constituições.

Ao ser implantada na América e no continente europeu, a franco-maçonaria conservou em geral seu caráter universal de tolerância religiosa e filosófica e permaneceu à parte de todo movimento político e social, inclusive acentuando às vezes, como na Alemanha, seu interesse pelo hermetismo. Ao redor de 1740, começaram a multiplicar-se os novos ritos e os altos graus, mas conservando cuidadosamente os rituais e o rito dos três primeiros graus, os da verdadeira franco-maçonaria, chamada igualmente Maçonaria simbólica ou azul.

Os rituais destes altos graus são por vezes um desenvolvimento da lenda de Hiram, ou se relacionam com os rosa-cruzes, o hermetismo, os templários, o gnosticismo, os cátaros…, e já não têm um autêntico caráter maçônico. Do ponto de vista da iniciação maçônica, são absolutamente supérfluos. A franco-maçonaria está completa nos três primeiros graus, reconhecidos por todos os ritos, e nos quais se baseiam os altos graus e as lojas superiores dos diferentes ritos. O companheiro franco-maçom, uma vez que tenha chegado a mestre, acabou simbolicamente sua grande obra. Os altos graus só poderiam ter uma função verdadeiramente maçônica se contribuíssem para uma interpretação correta da tradição maçônica e para uma compreensão e aplicação mais inteligente do rito, ou seja, da arte real.

Isto não significa que se tenha que abolir os altos graus, já que os irmãos que foram agraciados com eles são livres, e que quem gosta de reunir-se em ritos e corpos para efetuar trabalhos que não se opõem às obras maçônicas devem ter a liberdade de fazê-lo. Não obstante, do ponto de vista estritamente maçônico, sua pertinência a outros ritos e a outras lojas superiores não os põe acima dos mestres que querem apenas efetuar o trabalho da Maçonaria universal dos três primeiros graus. Além disso, é evidente que ritos distintos como o de Swedenborg, os Escoceses, os da Estrita Observância, de Memphis…, ao serem diferentes, já não são universais, ou o são apenas na medida em que se baseiam sobre os três primeiros graus. Esquecer ou tentar desnaturalizar o caráter universal, livre e tolerante da franco-maçonaria, para impor aos irmãos das lojas pontos de vista ou objetivos particulares, seria ir contra o espírito da tradição maçônica e contra os termos das Constituições da Fraternidade.

É na França onde aparece a primeira alteração, ao mesmo tempo em que afloram os altos graus. A efervescência das ideias nessa época, o movimento da Enciclopédia, repercutem na franco-maçonaria que se difunde ampla e rapidamente. E, pela primeira vez, o interesse da ordem se dirige para as questões políticas e sociais e nelas se concentra. Afirmar que a revolução francesa seja obra da franco-maçonaria nos parece pelo menos exagerado. Por outro lado, é inegável que a franco-maçonaria sofreu na França – e seria difícil que isso não tivesse ocorrido – a influência do grande movimento profano que levou à revolução e culminou no império. A franco-maçonaria francesa tornou-se então e seguiu sendo desde esse momento, uma Maçonaria comprometida e interessada nas questões políticas e sociais. Alguns quiseram considerá-la como “tradicional” quando no máximo representa a tradição maçônica francesa, bem distinta da antiga tradição. Este desvio e este compromisso é a causa principal, se não a única, da oposição que seguidamente nasceu entre a Maçonaria anglo-saxônica e a francesa; na Itália, criou as divergências destes últimos cinquenta anos, que tiveram como consequência sua desunião e a debilitação ante os ataques e a perseguição dos jesuítas e os fascistas. Seja como for, inclusive os irmãos que seguem a tradição maçônica francesa não esqueceram o princípio de tolerância, e nas lojas maçônicas italianas, muito antes da perseguição fascista, havia irmãos de todas as crenças religiosas e de todos os partidos políticos, inclusive católicos e monárquicos.

Há que se recordar também, que no período que antecedeu a revolução francesa, nem todos os maçons esqueceram a verdadeira natureza da franco-maçonaria, mesmo quando ficaram desorientados pela plêiade de ritos diversos e opostos. No Convento dos Philalèthes reuniram-se maçons de todos os ritos, animados todos eles pelo mesmo desejo de restabelecer a unidade. Só Cagliostro, que havia fundado o rito da Maçonaria Egípcia, que unicamente constava de três graus e era exclusivamente dedicado à obra de edificação espiritual, se negou a comparecer a este Convento por razões que seriam muito extensas para explicar.

A influência maçônica francesa ocorreu também na Itália, depois da revolução e durante o império. Ainda hoje, a presença de certos termos técnicos nos “trabalhos” maçônicos, como o “malhete” do Venerável (traduzido, no italiano, literalmente, por “maglietto”) assim como outros termos (louveton, tradução fonético-semântica de Lufton, filho de Gabaon, nome genérico do maçom segundo os primeiros rituais ingleses e franceses) são prova de isso. A franco-maçonaria francesa e a italiana mantiveram estreitas relações durante todo o último século, e por vezes uma atitude revolucionária, republicana, mas também materialista e positivista que seguia a moda filosófica da época. Não obstante, não se pode dizer que a franco-maçonaria italiana se converteu numa franco-maçonaria materialista, pois ainda que tenha sido tolerante diante de todas as opiniões, nem por isso deixou de venerar, e muito particularmente, um grande espírito como Giuseppe Mazzini e grandes franco-maçons como Garibaldi, Bovio, Carducci, Filopanti, Pascoli, Domizio Torrigiani e Giovanni Amendola, todos idealistas e espiritualistas[12]. Foi a selvageria furiosa e o vandalismo dos incultos fascistas que devastou os nossos templos, as nossas bibliotecas e quebrou os bustos de Mazzini e Garibaldi que decoravam as nossas sedes.

Por outro lado, há de se reconhecer que se a franco-maçonaria inglesa conservou sempre um caráter espiritualista e nunca lhe ocorreu negar a existência do Grande Arquiteto do Universo, frequentemente esteve tentada, e ainda está, a conferir um certo tom cristão ao seu espiritualismo, afastando-se dessa forma do espírito de imparcialidade absoluta e não confessional das Constituições de Anderson. Não se pode negar que o fato de obrigar a prestar juramento sobre o Evangelho de São João não é uma prova de tolerância perante profanos e irmãos agnósticos ou pagãos, judeus ou livre pensadores, que não têm uma especial simpatia pelo Evangelho de São João e ignoram tudo da tradição joanista. A intolerância acentua-se com o mau costume de impingir a leitura e o comentário dos versículos do Evangelho durante os trabalhos da Loja. Se este hábito criticável adquirir importância, terminará por reduzir os trabalhos da Loja a um simples serviço religioso corriqueiro ou puritano, uma espécie de “rosário” ou de “vésperas” fastidiosas, inúteis e insuportáveis para a livre consciência de tantos irmãos que, na Inglaterra e na América, não vão à missa, não aceitam a infalibilidade do papa, nem tampouco a autoridade da Bíblia. É necessário criar mal-estar e irritação nas nossas colunas sem uma contrapartida apreciável? Pode acreditar-se que, por esses meios, se converterá os outros às próprias crenças e que dessa forma se conterá o agnosticismo inglês e americano?

Estas considerações exortam a conservar o caráter universal da franco-maçonaria acima dos credos religiosos e filosóficos e dos compromissos políticos. Isto não significa que se deva ignorar a política. Com efeito, devemos nos proteger dela. A intolerância não pode tirar o espaço da tolerância e a tolerância pode tolerar tudo exceto a intolerância deliberadamente hostil. Desde o momento em que apareceram as Constituições de Anderson com o seu princípio de liberdade e de tolerância, a Igreja católica excomungou a franco-maçonaria, culpável precisamente de tolerância; e o encarniçamento contra a franco-maçonaria nunca seria desmentido. Na Itália, a perseguição à franco-maçonaria durante estes últimos vinte anos foi iniciada e mantida pelos jesuítas e pelos nacionalistas[13]; enquanto os fascistas, para ganharem a simpatia destes senhores, não vacilaram em provocar a aversão do mundo civilizado, no que diz respeito à Itália, com o seu vandalismo contra a franco-maçonaria. Os jesuítas perderam esta guerra, mas a lepra da intolerância propaga-se sempre, reveste-se de novas formas e é necessário que nos protejamos dela. Por outro lado, chegou a hora, se não nos enganamos, de difundir a franco-maçonaria por toda a Terra e estabelecer uma fraternidade entre os homens de todas as raças, civilizações e religiões. Para levar a bom termo esta tarefa é necessário que a franco-maçonaria não assuma uma fisionomia e um tom pertencente a uma minoria perante a qual as grandes civilizações orientais, China, Índia, Japão, Malásia, o mundo do Islã, têm se mostrado refratárias. Isso é possível desde que a franco-maçonaria não se circunscreva a uma crença qualquer e permaneça fiel ao seu patrimônio espiritual, que não consiste nem de uma fé codificada, um credo religioso ou filosófico, um conjunto de postulados ou de preconceitos ideológicos e moralistas, nem de uma bagagem doutrinal considerada detentora e portadora da verdade, à qual os não crentes devam ser convertidos. Há que se pensar que, ainda que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia existam, é uma ilusão crer que pode conquistá-las ou comunicá-las mediante uma conversão, uma confissão ou o recitar de certas fórmulas, porque cada qual entende as palavras destes credos e fórmulas à sua maneira, de acordo com a sua civilização e a sua inteligência; e no fundo, não são, como dizia Hamlet, mais que “words, words, words“[14].

Enquanto não se reflete sobre isto, tem-se a ilusão de que essas palavras são compreendidas de igual maneira; tão rápido como se começa a raciocinar, surgem seitas e heresias, cada uma convencida de que detém a verdade. A sabedoria não pode ser compreendida racionalmente, nem expressada, nem comunicada. É uma visão, uma vidya, essencial e necessariamente indeterminada, incerta. E quando os olhos se abrem à luz com o nascimento na nova vida, aproximamo-nos dessa visão. A arte maçônica ou arte real é a arte de trabalhar a pedra bruta para tornar possível a transmutação humana e a percepção gradual da luz iniciática. O que não significa, naturalmente, que a franco-maçonaria tenha o monopólio da arte real.

No decurso dos dois últimos séculos a maior parte dos inimigos da franco-maçonaria recorreram sistemática e unicamente à injúria e à calúnia, apoiando-se em sentimentos moralistas e patrióticos. Afirmaram, assim, que os trabalhos maçônicos consistiam de orgias abomináveis, e com isso se tem manipulado os rituais, se tem desvelado as cerimônias maçônicas expondo-as ao ridículo, se tem acusado os maçons de trair a sua pátria pelo caráter internacional da Ordem, se tem afirmado que a franco-maçonaria é apenas o instrumento dos judeus, sempre para enganar e levantar os crentes e o público em geral contra a “Sociedade Secreta”. Os franco-maçons, naturalmente, sabiam muito bem que se tratava apenas de calúnias. E, como nada conseguia convencê-los, pensou-se em suprimi-los ou em retirar-lhes a possibilidade de se reunirem para trabalhar ou de responder e defender-se. Recentemente, um escritor católico[15] publicou um estudo histórico sobre “Tradição Secreta”, conduzido com competência e habilidade. As habituais e costumeiras calúnias, destinadas a impressionar os profanos, foram habilmente substituídas nele por uma crítica insidiosa, destinada a impressionar o leitor culto e o espírito dos nossos irmãos.

Esta crítica afirma que, no fundo, a tradição secreta não contém senão o vazio absoluto (pág. 139) e conclui afirmando que “na Escola Iniciática ou por meio dela a Tradição Secreta não tem ensinado absolutamente nada à humanidade” (pág.155). Não se compreende muito bem então como se pode afirmar igualmente que este vazio absoluto, “esta tradição secreta coincide (pág. 141), ainda que frequentemente de uma forma corrompida, com as doutrinas gnósticas“. Mas não pretendamos demasiado. A franco-maçonaria é, pois, segundo o autor, uma esfinge sem segredo, dado que não ensina nenhuma doutrina. Desse modo o leitor se vê levado a concluir que, ao estar desprovida de conteúdo, a Maçonaria não tem nenhum valor.

Nas linhas precedentes mostramos que a franco-maçonaria não ensina nenhuma doutrina e nem deve ensiná-la, destacando que esta atitude é um de seus méritos. Isso posto, para chegar a concluir que a Tradição Secreta contém o vazio ao não conter uma doutrina, deve-se crer que somente uma doutrina pode ocupar o vazio. Na página 153, o autor afirma ainda: “o sistema iniciático supõe que o homem possa chegar a compreender, por um esforço da inteligência, os problemas inexplicados do cosmos e do além”. Na página 152 escreve: “a Igreja católica opõe às vãs elucubrações dos que se autodenominam iniciados, a força intangível de seu dogma que deve ser único porque não podem existir duas verdades” e que o sistema iniciático é incompatível com o cristianismo. A estas afirmações respondemos que ignoramos a existência de um sistema iniciático, que não conhecemos iniciados que façam suposições, e ainda menos que criem ilusões sobre a possibilidade de resolver por meio de sua inteligência ou de elucubrações os problemas inexplicados. Mas nos é impossível admitir que a fé em um dogma possa constituir um conhecimento, pois saber não é crer. De fato compreendemos que a verdade é necessariamente inefável e indizível. Deixamos aos profanos a consoladora e ingênua ilusão de crer que é possível formular de alguma maneira esta verdade e este conhecimento em credos, fórmulas, doutrinas, sistemas e teorias. Além disso, até Jesus sabia que suas parábolas eram apenas parábolas. Mas dizia também a seus discípulos que a eles “lhes era dado entender o mistério do reino dos céus”. Evidentemente só fides sufficit ad firmandum cor sincerum[16], mas non sufficit[17] para entender os mistérios. O que é igualmente válido para o simples raciocínio. Com isso não queremos diminuir de nenhuma maneira o valor da fé e do raciocínio. A fé isoladamente conduz ao desespero filosófico. E ambos são um pouco como o tabaco e o café: dois venenos que se compensam, mas certamente não basta fumar cachimbo e degustar um café para alcançar-se o conhecimento. Ao conhecimento multi vocati sunt[18], mas não todos e, entre estes muitos, pauci electi sunt[19]. Segundo a Igreja católica, pelo contrário, é suficiente ter fé no Dogma, e o conhecimento e o paraíso estão ao alcance de todos os bolsos a preços realmente insuperáveis.

Resumindo: não existe uma doutrina maçônica secreta[20]; mas existe uma arte secreta, chamada arte real ou mais simplesmente Arte. É a arte da edificação espiritual à qual corresponde a arquitetura sagrada. Os instrumentos maçônicos têm, pois, um sentido figurado na obra da transmutação, e ao segredo da arte real corresponde o segredo arquitetônico dos construtores das grandes catedrais medievais. É natural que os franco-maçons venerem o Grande Arquiteto do Universo, mesmo que não se defina o que se deve entender por esta fórmula.

Na arquitetura antiga, especialmente na arquitetura sagrada, as questões de relação e proporção tinham uma importância capital. A arquitetura clássica estabelecia a proporção das diferentes partes de um edifício, e em particular dos templos, baseando-se em um módulo secreto ao qual alude Vitrúvio. Existe toda uma literatura referente à arquitetura egípcia e sobretudo à pirâmide de Quéops, que ilustra seu caráter matemático. E, inclusive, procedendo com a maior circunspeção, é certo, por exemplo, que esta pirâmide se encontra exatamente a 30o de latitude para formar com o centro da Terra e o Polo Norte um triângulo equilátero. É certo que está perfeitamente orientada e que a face volta para o setentrião é exatamente perpendicular ao eixo de rotação terrestre, em função da posição que este tinha na época de sua construção. Quanto aos construtores da Idade Média, não eram guiados somente por alguns critérios estéticos. Preocupavam-se com a orientação da igreja, com o número de naves, etc. A arte dos construtores estava relacionada à ciência da geometria. O esquadro e o compasso são os dois símbolos de ofício fundamentais na arte maçônica; e a régua e o compasso os dois instrumentos fundamentais na geometria elementar. A Bíblia afirma que Deus fez omnia in numero, pondere et mensura[21].Os pitagóricos criaram a palavra cosmos para indicar a beleza do universo no qual reconheciam uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma proporção. E entre as quatro ciências liberais do quadrivium pitagórico, a aritmética, a geometria, a música e a astronomia, a primeira estava na base de todas as demais. Dante comparava o céu do Sol com a aritmética porque “como da luz do Sol todas as estrelas se iluminam, assim da luz da aritmética se iluminam todas as ciências” e da mesma forma “que o olho não pode olhar ao sol, assim o olho do intelecto não pode olhar o número que é infinito”[22].

Sem entrar na crítica desta passagem, não deixa de ficar estabelecida a posição que a Aritmética ocupa segundo Dante. Por outro lado, tanto a Bíblia como a arquitetura aconselhavam considerar os números. Hoje em dia, ainda que se negue a reconhecer no cosmos uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma lei, e aceitando apenas o determinismo limitado pela lei das probabilidades, a física moderna continua considerando os números e as relações numéricas. De fato, não ficam senão eles, e tanto Einstein como Bertrand Russell constataram e reconheceram que a ciência moderna retornava ao pitagorismo.

Assim, pois, não há nada de surpreendente no fato de que os franco-maçons tenham identificado a arte arquitetônica com a geometria e tenham dado ao conhecimento dos números uma importância tal que ela (geometria) justifica sua tradicional pretensão de serem os únicos a conhecer os “números sagrados”.

Mas ainda temos de fazer algumas observações. A geometria, em seu aspecto métrico, ou seja, nas medidas, exige o conhecimento da aritmética. Isso posto, antigamente a acepção da palavra geometria era menos específica que hoje, e geometria significava genericamente toda a matemática. Assim a identificação da arte real com a geometria, tradicional na franco-maçonaria, não se refere à geometria tomada em seu sentido moderno, mas também à aritmética. Além disso, devemos observar que a relação entre geometria, arte real da arquitetura e edificação espiritual é a mesma que inspira a máxima platônica: “Que ninguém entre aqui se não é geômetra”. Máxima cuja atribuição é algo duvidosa, pois apenas é mencionada por um comentarista bastante tardio. Mas em obras que indiscutivelmente são de Platão podemos ler: “…a geometria é um método para dirigir a alma para o ser eterno, uma escola preparatória para um espírito científico, capaz de voltar as atividades da alma para as coisas supra-humanas”, […] “inclusive é impossível chegar a uma verdadeira fé em Deus caso não se conheça a matemática, a astronomia e a íntima união desta última com a música”[23].

Estas concepções e atitudes de Platão devem ser as da Escola Itálica ou pitagórica, que exerceu sobre ele uma grande influência, o que permite dizer quando se quer sustentar que a Maçonaria se inspirou em Platão, que, em última análise, se volta sempre à geometria e à aritmética dos pitagóricos. O vínculo entre a franco-maçonaria e a ordem pitagórica, sem que se trate de uma derivação histórica ininterrupta, mas somente de uma filiação espiritual, é seguro e manifesto. O arcipreste Domenico Angherà no prefácio que escreveu para a reedição dos Estatutos Gerais da Sociedade dos Franco-maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito (1874), que já haviam sido publicados em Nápoles em 1820, afirma categoricamente que a ordem Maçônica é idêntica à ordem pitagórica. Mas mesmo sem ir tão longe, a afinidade entre ambas as ordens é certa. A arte geométrica da franco-maçonaria, em particular, provém direta ou indiretamente da geometria e da aritmética pitagóricas. E não é anterior, porque os pitagóricos foram os criadores destas ciências liberais, segundo o que se pode deduzir historicamente e a partir dos testemunhos de Proclo. “Aparte de algumas propriedades geométricas atribuídas, sem dúvida equivocadamente, a Tales, a geometria – diz Paul Tanery – brotou completa do cérebro de Pitágoras da mesma forma que Minerva saltou inteiramente armada do cérebro de Júpiter. E os Pitagóricos foram os primeiros a estudar a aritmética e os números”.

Para estudar as propriedades dos números sagrados dos franco-maçons e sua função na franco-maçonaria, a via que se oferece por ela mesma é, pois, a do estudo da antiga aritmética pitagórica. E o estudá-la tanto do ponto de vista aritmético ordinário como do ponto de vista da aritmética simbólica ou formal, como a chama Pico da Mirandola, correspondente à tarefa filosófica e espiritual que Platão atribui à geometria. Ambos os sentidos se encontram estreitamente ligados no desenvolvimento da aritmética pitagórica. A compreensão dos números pitagóricos facilitará a dos números sagrados da Maçonaria.


Autor: Arturo Reghini

Tradução: S.K.Jerez

Arturo Reghini (1878-1946), matemático e filólogo, ocupou um alto cargo na Maçonaria italiana (Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, e membro honorário de Supremos Conselhos de outros países). Manteve correspondência com René Guénon, fundou e dirigiu as revistas Atanor – onde este último publicou em primeira versão o Esoterismo de Dante e o Rei do Mundo – e Ignis (1924-25) e contribuiu com a Ur (1927-28); escreveu numerosos artigos, e foi também chefe de redação daRassegna Massonica. Entre suas obras, Cagliostro, documents et études; Notes brèves sur le Cosmopolite; Considérations sur le Rituel de l’Apprenti Franc-Maçon; les Mots sacrés et de passe des trois premiers grades et le plus grand mystère maçonique; Aritmosofia; les Nomes Sacrés dans la Tradition Pythagoriciene Maçonique, todos editados hoje por Archè, Milano, e uma obra inédita em sete tomos: Dei Numeri Pitagorici.


NOTAS

[1] – Libertà va cercando ch’è si cara Come sa chi per lei vita rifiuta. (Dante, Purgatorio. I, 71-72.)

[2] – Hutchinson, Spirit of Masonry; Preston, Illustrations of Masonry; G. De Castro, Mondo segreto, IV, 91; A. Reghini, Noterelle iniziatiche, Sull’origine del simbolismo, en Rassegna Massonica, junio-julio 1923.

[3] – The Grand Mystery of Freemasons discovered wherein are the several questions put to them at their Meetings and installation, Londres 1724.

[4] – Virgilio, Bucólicas, Égloga VIII

[5] – Máximo de Tiro, Discours philosophiques, tradução Formey, Leyden, 1764: Discurso XI, pág. 173.

[6] – Cf. Oswald Wirth, Le Livre du Maître, 1923, pág. 7.

[7] – Johannes Daniel Mylius, Basilica Philosophica, Francfort, 1618.

[8] – Cf. Pietro Negri [= A. Reghini], Un codice plumbeo alchemico italiano, en UR, números 9 e 10, 1927

[9] – Cf. A. Reghini, Le parole sacre e di passo ed il massimo mistero massonico, Todi 1922.

[10] – O. Wirth expressa categoricamente esta opinião, cf. Le Livre du Maître, pág. 189.

[11] – Cornelius Agrippa, Cartas. Cf. também a monografía de A. Reghini, prefacio da versão italiana da Filosofía Oculta de Agrippa

[12] -Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador da “Jovem Itália” (sociedade secreta que trabalhava para o estabelecimento da república na Itália). Giuseppe Garibaldi (1807-1882), patriota italiano que luchó para libertar a Itália do domínio austríaco, dos Bourbons (reino das Duas Sicílias) e, finalmente, do papado. Giovanni Bovio (1841-1903) filósofo e político radical de esquerda. Giosue Carducci (1835-1907) poeta. Quirico Filopanti (1812- 1894) patriota e universitário. Giovanni Pascoli (1855-1912) poeta. Domizio Torrigiani (1879-1932). Giovanni Amendola (1882-1926) político, filósofo, fundador do Movimento União Democrática Nacional.

[13] – Cf. os artigos de Emilio Bodrero em Civiltà cattolica, orgão da Companhia de Jesus, e em Roma Fascista, periódico; cf. também Ignis yRassegna Massonica, ano de 1925.

[14] – palavras, palavras, palavras (N.T.)

[15] – Cf. Raffaele Del Castillo, La tradizione segreta, Milão 1941

[16] – a fé é sincera o suficiente para compreender (N.T.)

[17] – não suficiente (N.T.)

[18] – muitos são chamados (N.T.)

[19] – poucos foram escolhidos (N.T.)

[20] – O. Wirth já havia dito a mesma coisa em 1941: “Como o método iniciático se nega a inculcar o que quer que seja, apenas é admissível que se tenha ensinado uma doutrina positiva no seio dos Mistérios”, no Livre du Maître, pág. 119. Del Castillo sustenta, ao contrário – e sem nenhuma prova – que a Maçonaria pretendeu ensinar uma doutrina secreta, e constata que não se encontra traço desta doutrina positiva. Ao invés de reconhecer que seu ponto de vista não é defensável, acusa a Maçonaria de ser redundante e incapaz. O vos qui cum Jesu itis, non ite cum Jesuitis.

[21] – Todas as coisas em número, peso e medida (N.T.)

[22] – “come del lume del Sole tutte le stelle si alluminano, così del lume dell’aritmetica tutte le scienze si alluminano […] che l’occhio dell’intelletto non può mirare […] il numero […] è infinito”. Dante, O Banquete, II, XIII, 15 e 19.

[23] – Gino Loria, Le scienze esatte nell’antica Grecia, 2ª edição, Milão 1914, pág. 110.

terça-feira, 5 de março de 2019


O Cobridor do Templo Maçônico


Tradução J. Filardo

Ir.´. Didier Thierry


Para um V. M:. , quando “desce” do cargo, essa descida não se limita ao seu aspecto ritualístico e se traduz em uma série de vantagens e desvantagens, cuja natureza varia, em nossa opinião, dependendo da personalidade de cada um.

Para começar, gostaria de dizer que o fato de ter de considerar esta função em termo é necessariamente iniciática para o futuro Ex-V:. M:., e eu encontrei diversos V:. M:.s que estavam longe de ser os mais narcisistas, não desejar ocupar esta função: como tal nada é anodino em Maçonaria. Pode sempre, certamente, existir várias razões para não assumir uma função, mas no ritual de instalação do colégio de oficiais é dito que é geralmente o Ex-V:. M:. que honrando essa posição; é que alguma parte da instrução maçônica se baseia discretamente na necessidade iniciática que ele teria de passar por esta etapa. É também a única articulação semântica direta que faz o referido ritual entre duas funções da loja: para as outras funções, o ritual se contenta em esclarecer a função em si, sem maiores digressões e sem referência a uma outra função.

O ritual lembra a humildade necessária que o ex-venerável deve ter, ou pelo menos aprender com a migração de uma posição de posição mais solar para a posição dita a mais humilde: é dizer pouco demais. Assim a função de cobridor é bem menos comum e, portanto, menos humilde do que se possa pensar: primeiro tem-se que deixar algumas migalhas de privilégio ao pobre ex-venerável, às vezes adoçar um pouco a sua angústia, e é por isso que o cobridor pode se dirigir diretamente ao V:. M:. sem passar pelos vigilantes. Mais a sério, é uma forma simbólica de afirmar sua capacidade de não precisar de uma transmissão de palavra triangulada, portanto, dominar r suficientemente aquilo que precisa ser dito, como dizer, e não precisar mais adquirir a temperança necessária para esta abordagem.

Bem entendido, estas virtudes acordadas ao cobridor originam-se de tanto de sua função quando da real capacidade daquele que a ocupa de ter superado ou não este obstáculo. Além disso, durante a cerimônia de posse, o cobridor presta juramento no altar, na mesma condição dos principais oficiais da Loja, e não é apenas nomeado entre as colunas. Sua instalação não se faz “por último”, como se se atribuísse uma lógica linear ao desenrolar da cerimônia, mas “sob cobertura” dos outros oficiais tendo jurado, uma posição que confirma sua qualidade de defensor da loja e de seus ocupantes, mas igualmente suas prerrogativas de Ex-VM.

Há, portanto, uma pequena ambivalência, mas esta é necessária; no ritual de instalação entre o espírito e a letra, a letra quase qualifica o cobridor como recluso, e o espírito que lhe empresta, ao contrário das prerrogativas, um papel menos visível, mas também estrutural. Convém atentar para esta ambivalência quando queremos entender melhor a progressão maçônica: de fato, a ambivalência de um fato não é a transformação de um significado, ela é adicionado por aquele que teria evoluído de um outro significado possível.

Quanto ao restante, não passam de questões de caráter, mas nada, em todo caso, será tudo preto ou tudo branco: esta separação aparente entre as funções de V:. M:. e de cobridor, muito separada, é até mesmo um pouco caricatural em sua formalização moralista, tal como vista no ritual não terá de igual, na minha opinião, a não ser a diversidade e a nuance de comportamentos diante desta tradução simbólica desde o Oriente em direção ao Ocidente: eu falo somente de tradução e não apenas de descida, porque o cobridor normalmente está localizado no ocidente de sua loja, mas também deslocado em direção ao norte e não no centro ou em direção ao sul : podemos ver nisso classicamente, um meio de se apoiar sobre o caráter discreto, de contenção necessária que o novo cobridor deve a partir de agora aplicar quanto à sua influência sobre a loja, posição ao nore que lhe permite meditar sobre a relatividade das coisas. Eu vejo aqui a necessidade de, desculpem o neologismo, não “frontalizar” a relação entre o VM atual e o cobridor, e “suavizar” esta ligação se isso for necessário: já constatei, de fato, em lojas de diferentes graus e de todos os gêneros, a atitude latente de um cobridor cioso de suas antigas prerrogativas, de desafiar a autoridade do V:. M:. através de intervenções tão numerosas quanto inúteis.

A espada que o cobridor possui não deve ser dirigida para o interior da loja, mas para fora, e usando uma metáfora um pouco simplista, lutar contra demônios externos, porque agora estamos em um vaso fechado, onde as divergências, se tiverem que existir, devem permanecer ligadas ao exercício iniciático, e não são, portanto, de responsabilidade do irmão cobridor. A espada não é realmente portada pelo cobridor, a não ser quando ele se levanta, se aproxima da porta da loja, sejam para sair da loja para verificar a regularidade da abertura dos trabalhos, ou a regularidade de um irmão que chega.

O cobridor está, assim, de certa forma armado para um eventual combate contra elementos capazes de perturbar o bom andamento dos trabalhos: ele pode passar instantaneamente do meio sagrado ao ambiente profano, o que testemunha nela a necessidade de maturidade iniciática: é algo, eu penso, sobre o que se deve meditar, em relação à constância com que um iniciado deve fazer prova diante da variabilidade de seu ambiente.

Encontramos, no colar usado pelo irmão cobridor, aquilo que no ritual de instalação significava um elo existente entre o V:. M:. e o cobridor, ou seja, uma espada flamejante, uma relíquia do passado recente, em que todos os outros oficiais carregavam o emblema da sua função do momento.

Há, portanto, sem insistir demais sobre este ponto, alguma coisa no estabelecimento da ligação virtual com o V. M:. – cobridor que se origina da vigilância e da intemporalidade e, portanto, de uma possível abertura sobre o espiritual incorporada à temporalidade necessária de outras funções. Um último ponto é o sentimento subjetivo e variável, inclusive em um mesmo indivíduo, que desperta o local ou o assento do cobridor: é o sentimento de ser o irmão mais isolado da loja, não só do V. M:. , mas também do conjunto de irmãos, a posição ocupada pelo mestre de harmonia variando de uma loja para outra.

Existe um duplo aspecto relacionado com este sentimento; primeiro, um lado incontestável de “descanso do guerreiro” acampado no fundo, ou à entrada da loja, dependendo como isso é entendido e que permite abarcar o conjunto da loja. E depois há também, e este é certamente o que provoca às vezes intervenções excessivas de parte do cobridor, um sentimento de “aposentadoria” compulsória.

O amplo espaço de movimentação diante do cobridor, aliado a esta incontrolável impressão de estar preso ao Ocidente poderia levar a se pensar em um esplêndido sentimento de isolamento.

É verdade que a posição do cobridor pode ser sentida como uma espécie de exílio, se ele considera que a sua terra natural era o Oriente, mesmo que saibamos, os maçons, não sermos proprietários de nenhuma das funções simbólicas.

O exílio evoca um estado de “aposentadoria” e pode, portanto, levar ao fortalecimento de todos os instintos, com o risco de vê-los exacerbados. Esta necessidade favorece a interiorização daquilo que se conheceu, seja favorecendo a idealização dessa mesma lembrança, e lá onde está o perigo.

Voltemos ao Antigo Testamento: tanto o Êxodo nos dá a imagem de uma fuga sem retorno quanto o exílio, a serem abordados como um todo, sugere dois pontos ligados por um traço: o antes e o depois: assim, o exílio pode exacerbar as ligações pelas lembranças de uma pertença roubada e pela esperança de um retorno, o que não corresponde, é claro, ao que se precisa esperar dessa função.


A ESPIRITUALIDADE DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO


Extraído do Blog Bibliot3ca

Alocução pronunciada por ocasião da festa da ordem pelo mui ilustre irmão Max Icher, 33°, Ministro de Estado, Grande Orador do Supremo Conselho de França, domingo, 14 de Dezembro de 2003, em Paris sábado 28 de Fevereiro de 2004, em Avignon sábado 24 de Abril de 2004, em Pont-à-mousson sábado 25 de Setembro de 2004, em Lyon e pelo mui ilustre irmão Jean Erceau, 33°, membro activo sábado 3 de Abril de 2004, em Fort de France


Esta festa da ordem escocesa, sessão maçónica solene no grau de aprendiz que une na prática do Rito Escocês Antigo e Aceite todos os Irmãos do 1° ao 33° grau, é particularmente comovente pois ele marca o ano de júbilo do Supremo Conselho de França que irá comemorar em 2004 o segundo centenário da sua criação.

Este evento deverá permitir-nos tomar consciência das nossas origens e estreitar os laços de fraternidade iniciática que unem naturalmente a Obediência e a Jurisdição na prática do Rito Escocês Antigo e Aceite. Juntos, evocaremos a especificidade deste Rito, os seus valores, as suas permanências tradicionais, a sua dimensão espiritual, os caminhos que se propõem à “busca”, as suas perspectivas e a modernidade da sua Tradição.

GENESE E HISTÓRICO DA ESPIRITUALIDADE DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO

A nossa Ordem tomou corpo, sob a sua forma especulativa no início do século XVIII, quando o pensamento religioso, experimentando os seus próprios constrangimentos ideológicos, o seu sectarismo redutor, as suas intransigências dogmáticas, tornou-se incapaz de se transcender e de oferecer uma nova visão do mundo, o que fez a filosofia dos Iluminados. Pela sua tolerância, foi uma resposta ao bloqueio e aos conflitos religiosos, políticos, filosóficos e socioculturais do seu tempo. Apoiando-se em símbolos, mitos e lendas que evitam o reducionismo e aceitam a expressão de pontos de vista diferentes, visões opostas ou contraditórias, o método maçónico, evitando assim a rigidez intelectual, ultrapassa os dogmatismos ideológicos do seu tempo, permite uma abertura espiritual suprimido do religioso, ao oferecer um modelo de convivência fraternal.

O Rito Escocês Antigo e Aceite nasceu na França numa época onde a espiritualidade era quase que exclusivamente de natureza religiosa (essencialmente católica e protestante). Surpreenderá muito pouco saber que as suas lendas temáticas e os seus suportes simbólicos foram extraídos da Bíblia. Para um Maçon do século XVIII não existe nenhuma dúvida que o Grande Arquitecto do Universo era o Deus das Religiões do Livro; bastava para se convencer dirigir-se aos rituais da época e às preces pronunciadas em Loja !

A criação dos Altos Graus introduziu nos rituais da Segunda metade do século XVIII novas fontes de espiritualidades: hermética, gnóstica, mística, cabalista, rosacruciano, templário, sem que no entanto seja contestada a existência de um Grande Arquitecto do Universo.

No decorrer do século XIX, uma separação muito nítida se estabelece entre os domínios do saber e da fé: uma intervenção divina não se tornava mais necessária para explicar a origem do mundo e das criaturas, nem para computar uma finalidade. O pensamento torna-se leigo progressivamente, o sagrado, a dimensão espiritual do homem, os absolutos morais perdem a sua prioridade e o seu impacto sobre uma parte de maior importância da população culta. Doravante sozinho num mundo sem causa e sem alma, face a si próprio, o homem empenha-se pouco a pouco para o materialismo, vislumbra o ateísmo, o que provoca, por reacção, a radicalização das Igrejas e dos conservadorismos filosóficos e políticos.

Assim, as Religiões do Livro encontram-se postas em competição com uma visão mais filosófica e mais impessoal do Ser de todas as coisas; esta corrente que professava uma espiritualidade ampla, libertada dos conceitos da Criação do nada e da Revelação intitula-se “Religião Natural”. (Lembremos a polémicas doutrinárias que se erguem entre as teses do Irmão Jules Simon, autor do livro: A Religião Natural e aquelas de Mgr Méric na sua obra: A outra vida).

Os debates filosófico-religiosos que agitaram a metade do século XIX alcançaram a esfera maçónica e suscitaram nas lojas a “Querela do Grande Arquitecto do Universo”. O Grande Oriente da Bélgica primeiro, em 1872, e o Grande Oriente da França a seguir, em 1877, e responderam suprimindo a obrigação de dedicar os seus trabalhos à Glória do Grande Arquitecto do Universo. O Supremo Conselho da França, portador depois de 1804 do destino do Rito Escocês Antigo e Aceite na França, não escapou a estas turbulências mas os seus Membros, permanecendo ligados ao princípio de uma substância espiritual primordial e aos valores morais, fins próprios da actividade humana, escolheram uma outra solução ao provocar a reunião de uma Convenção Universal para debater e encontrar uma origem. Foi assim que em 1875, a Convenção de Lausanne decide não mais assimilar o “Grande Arquitecto de Universo” a “Deus” das religiões, mas propor formulações com pretensões universalistas :

Criador Supremo
Princípio Criador
Força Superior

Posicionando-se num plano espiritual aberto e tolerante, a Convenção de Lausanne não tendo presumido as reacções anglo-saxónicas que se ergueram quanto antes, gerou infelizmente novas polémicas no seio da Ordem Escocesa, as quais perduram ainda nos nossos dias.

Depois do fracasso das ideologias filosóficas, políticas ou religiosas que afectaram todo o século XX e, por reacção à civilização materialista e consumista que eles tinham engendrado, nasce paralelamente uma necessidade crescente de espiritualidade (o surgir do movimento New Age, o desenvolvimento de múltiplas correntes psico-espirituais, atraídos pelo hinduísmo, o budismo ou o taoismo ao mesmo tempo que uma multiplicação de seitas). Uma espiritualidade separada de uma Tradição confirmada corre o risco de se perder numa busca duvidosa ou numa espécie de turismo espiritual superficial.

O Supremo Conselho da França, por sua parte, regista-se sempre na perspectiva espiritualista e universalista de Lausanne. Ao não identificar o “Grande Arquitecto do Universo” ao “Deus” das religiões, coloca-se num plano espiritual aberto e tolerante, não estando o Espírito limitado ao único contexto das Religiões do Livro. Esta concepção não se encontra portanto em oposição com a escolha mais restritiva dos Supremos Conselhos teístas posto que eles a incluem. A interpretação “ não religiosa ” do “Grande Arquitecto do Universo “, considerada pelo Supremo Conselho da França como um princípio impossível a ser definido como a ser negado, traz muitas vãs especulações ao seu propósito.

Cada um dos membros da sua Jurisdição conserva uma total liberdade de consciência em relação à sua concepção pessoal do “Grande Arquitecto do Universo”, pedra fundamental do Rito.

Para poder beneficiar as potencialidades iniciáticas e espirituais do Rito Escocês Antigo e Aceite, convém descobrir os Caminhos, no sentido etimológico do verbo, e acolher as virtudes.

Por que somos Maçons ? Qual é o objectivo da nossa busca? Por que escolhemos a prática do Rito Escocês Antigo e Aceite, Ordem Iniciática Tradicional por excelência, para compreender o mundo e construir o nosso ideal de Liberdade e de Verdade ?

Desde que um homem se questiona sobre a sua origem, a sua natureza profunda e a sua razão de ser, desde que o mistério da criação e a finalidade do destino humano o interpelem, ele põe-se a buscar um Absoluto, um sentido à Vida e à sua própria existência, a imaginar um ideal de sabedoria e de santidade na direcção da qual tende. Assim envolve-se num processo de espiritualização que o leva a se recentrar sobre si mesmo, distinguindo o profano do sacro, a empreender uma conversão existencial. Se perseverar, pode ser que chegue um dia a apoiar definitivamente a sua existência sobre uma base ética e espiritual firme e a se dedicar generosamente aos seus irmãos na humanidade.

Ao passar progressivamente de uma consciência dualista, (que apela para uma análise reflexiva, discursiva e conceitualizante de si mesmo e do mundo), a uma consciência unicista, (meditativa, não verbal, não conceitualizante que se contenta em contemplar o que é, e de se inclinar diante daquilo que lhe é revelado em silêncio), o Homem, ultrapassando as suas identificações físicas, psicológicas e ideológicas, abre-se para uma Realidade imaterial a qual se torna presente intimamente nele e ao redor dele, o qual pressente o carácter sagrado e a unicidade última.

Ele reconhece então, por experiência pessoal, que a essência daquilo que se revela a ele não é coisa nenhuma mas vida e que esta vida, na sua modalidade não manifesta, é puro espírito.

A afirmação de Luc (XIV, 6) para designar o Ser universal: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” fornece uma indicação suficientemente ampla para que os “buscadores” em geral, e o Maçon Escocês em particular, possam, além da sua cultura, filosofia ou religião pessoal, ver, cada um de acordo com a sua própria crença, a possibilidade de uma abertura espiritual dentro do respeito da sua liberdade de consciência.


O  CAMINHO INICIÁTICO DO RITO ESCOC}ES ANTIGO E ACEITO

O caminho iniciático do Rito Escocês Antigo e Aceite propõe-se, a princípio, ajudar o Maçon a refinar o seu discernimento. Ao incitá-lo a um retorno sobre si mesmo, o convida a tomar consciência de determinismos instintivos, emocionais, mentais, ancestrais, sociais e ideológicos que suscitam os seus pensamentos, induzindo as suas fixações de identidade e motivando inconscientemente os seus actos.

Se esta primeira fase do despertar à sua realidade interna é bem conduzida e levada o mais longe possível, ele poderá a seguir descobrir, além dos seus estados psicológicos e das suas pressupostas intelectualidades, uma dimensão ultrapassando o plano limitado da sua pessoa: a natureza espiritual do seu ser profundo.

Apesar da sua dupla polaridade, humana e divina (Terra e Céu, Matéria e Espírito, Esquadro e Compasso), o Maçon Escocês envolvido no caminho iniciático do Rito, aprende que este despertar dele próprio, depois a sua abertura para além da sua pessoa, não podem efectuar-se por uma simples adesão a um ensino doutrinal.

Ele dá-se conta que a descoberta progressiva da sua natureza fundamental e o seu esforço de espiritualização não poderão realizar-se sem serem sustenidos por uma firme vontade pessoal, nem serem prosseguidos sem serem acompanhados de uma disposição tradicional para evitar perdas. Não lhe será mais solicitado a abdicar da sua personalidade, nem render culto a uma entidade divina, mas dissipar os véus da ignorância os quais obscurecem a sua consciência, perturbam a sua reflexão, adulterando as suas escolhas e os seus compromissos existenciais. Esta consciência que ordenará a sua vida e, agente da sua própria regeneração, aberta sobre uma última realidade que o penetra e o ultrapassa, dará sentido à existência, por si e pelos outros, ao mundo e à sociedade actual em danos e reparos. Ainda mais, unido em consciência ao Princípio universal e espiritual que a Maçonaria Tradicional denomina “Grande Arquitecto do Universo”, tendo adquirido o sentimento de estar reunificado em si próprio e reconciliado com o mundo, ser-lhe-á possível consagrar-se à sua vocação de construtor, com zelo, justeza e fraternidade.

Todas as grandes Tradições filosóficas e religiosas, do Ocidente como do Oriente, reconhecem a inaptidão do homem, ser pessoal, dual e finito, em entender o Ser do Universo em pleno conhecimento, em compreendê-lo ( tomar em si ), em defini-lo integralmente, em sondar as suas intenções eventuais ou a sua finalidade. O “pessoal” não pode abranger o “impessoal”, nem o finito o infinito, nem o temporal o eterno, não resta ao homem sábio senão abrir-se e se inclinar reverenciosamente diante o Mistério de “aquele que é”. Evitando sempre vãs tentativas de definição ou de interpretação, contenta-se em reconhecer que, além e deste lado do que se oferece à sua constatação, à conquista da sua consciência, existe uma realidade imaterial, informal, de essência espiritual, às vezes imanente e transcendente o seu conhecimento pessoal que se tenta evocar de forma diversa sob as denominações de Deus, Criador, Essência Divina, Causa Primeira, Eterno, Ser Supremo, Consciência Ilimitada, Energia, Poder Universal, Natureza original, Verdade Final, Amor, Perfeição, Luz ou Grande Arquitecto do Universo – vocábulos não faltam, sem conseguir no entanto dar conta perfeitamente.

O CAMINHO ESPIRITUAL DO RITO ESCOC}ES ANTIGO E ACEITO

A espiritualização pelo caminho iniciático requer, daquele que o escolhe, uma participação voluntária, lúcida e activa ao seu despertar interior, numa total liberdade de consciência.

Ela é uma busca, uma meditação e uma aventura pessoal conduzidos num plano tradicional que indica uma orientação de pesquisa mas não exactamente a origem desta pesquisa. Aqui, a prática ritualística não é cultural ou sacramental mas ajuda a distinguir o mundo profano do mundo sagrado e a facilitar a passagem de um ao outro; o seu simbolismo só pode ser visto numa iniciação e como um suporte de uma reflexão meditativa. Ela não reclama nenhuma crença preliminar mas somente uma disposição que possa responder a um apelo interior e uma tenacidade a querer acompanhar tão longe e por quanto tempo for necessário para lhe permitir desabrochar. Ela não repousa sobre nenhuma afirmação teórica ou formulação dogmática concernente às Verdades as quais convém subscrever, mas implica a prática efectiva de um percurso, prova iniciática em direcção a uma “realidade” cuja presença irá revelar-se ao coração, ao centro da pessoa.

A espiritualidade proposta pelo Rito Escocês Antigo e Aceite necessita de uma disposição particular da alma, componente espiritual da pessoa, que anima a sua existência e lhe confere um impulso ético, inspira-lhe uma abertura incondicional do coração ( a ele mesmo, a outro e a toda forma de vida), permite-lhe ultrapassar os temores e as dúvidas que freiam os seus ímpetos na direcção do desconhecido, dá-lhe força e perseverança no caminho árduo da sua descoberta e da sua transformação.


Independente de uma revelação divina, de uma doutrina filosófica ou religiosa, de uma devoção a uma entidade divina, um profeta ou um guru, o caminho espiritual do Rito Escocês Antigo e Aceite é verdadeiramente universalista porque ele não impõe nenhum pré-requisito ideológico. Dirigido para o existencial, repousa sobre uma Fé no Homem, no sentido de uma confiança na sua perfectibilidade, na sua capacidade e discernimento e na sua faculdade de despertar todas as suas potencialidades: sensitiva, psicológica, intelectual, cognitiva, intuitiva e espiritual. Esta confiança na natureza humana incita o Maçon do Rito Escocês Antigo e Aceite a empreender deliberadamente uma busca de Conhecimento e de Verdade, o consolo no seu desejo de chegar cada vez mais perto da Realidade que se manifesta nele e ao redor dele. Nascido da experiência do que se revela interiormente no momento da progressão iniciática, desta vez procede de uma descoberta pessoal corroborada pela razão e concretizada na compaixão e na acção ética em favor da humanidade.

Desta forma, o percurso iniciático em trinta e três graus proposto pelo Rito Escocês Antigo e Aceite constitui um caminho simbólico de espiritualização. Ele reclama do adepto uma disciplina pessoal de eliminação progressiva dos “metais” psicológicos, intelectuais e ideológicos que encobrem o seu mental e o impedem de ser consciente da sua dimensão espiritual, sendo o essencial deste percurso o meio de se adiar sobre o seu aspecto exotérico, por outro lugar necessário para balizar a rota, que resgata os ensinamentos esotéricos que iluminam o caminho interior, ao sinalizar os obstáculos e sugerindo uma direcção de busca. Gradualmente, o adepto aprenderá a descobrir o essencial por detrás do formal, a dirigir os seus passos e os seus actos em função deste essencial, a melhor discernir nele o apelo do Espírito que se tornará cada vez mais preciso e mais premente. Desde então, poderá viver a sua Luz de Espírito e assumir plenamente a sua existência com Sabedoria, Força e Beleza.

Tal é a via iniciática e espiritual do Rito Escocês Antigo e Aceite que nós escolhemos livremente descobrir e percorrer depois da nossa entrada no Templo Maçónico, depois do primeiro grau do Rito.

No decorrer do século XX, a maioria das ideologias filosóficas, religiosas, políticas e económicas mostraram a sua inadequação, os seus limites ou as suas falhas. Uma renovação do pensamento espiritual e da ética se torna necessário para endireitar a situação na qual a humanidade está comprometida. Face a uma mundialização essencialmente materialista que desestabiliza ou destrói os indivíduos, empobrece ou arruína certos países, perverte ou exacerba as relações internacionais, o Rito Escocês Antigo e Aceite praticado nas Lojas da Grande Loja de França e do Supremo Conselho de França, tolerante, espiritualista e humanista, universalista e unificante, este Rito pode-nos oferecer a nós, contemporâneos em busca de sentidos e de perspectivas existenciais, um caminho de realização pessoal e colectivo.

De todas as partes a Humanidade chama com as suas promessas por um renascimento espiritual, por uma espiritualidade aberta para o século XXI. O nosso Rito Escocês Antigo e Aceite, pelos valores que encerra, inscreve-se numa tal perspectiva.

Meus Mui queridos Irmãos Aprendizes é a vós que dedico com prioridade estas reflexões sobre a Espiritualidade do Rito.

Max Icher

Tradução de Moiz Halfon, 33º