quinta-feira, 16 de junho de 2016



FRAGMENTOS DE HISTÓRIA DA MAÇONARIA (DIVAGAÇÕES)



Texto: José Roberto Cardoso - MI GLMDF

Às vezes viajamos na busca das origens da maçonaria e vamos encontrá-la na mais remota organização humana.

Não se trata da maçonaria que temos notícia com os operativos, nem a aristocrática que antecede a revolução francesa e nem mesmo da atual maçonaria especulativa.

Trata-se, contudo, de suas raízes nas brumas da existência.

Quando lemos sobre as tábuas de argila dos sumerianos vemos o relato da construção da Torre de Babel e uma organização de trabalhadores que caracteriza o cerne da maçonaria que é a fraternidade e a solidariedade humana.

Em Deir El-Medina, no Vale dos Reis, onde ficavam os trabalhadores das pirâmides foram encontrados documentos e instrumentos que já davam a primeira ideia do que seria mais adiante a maçonaria operativa.

Além do que os Egípcios dominavam o conhecimento da aritmética, da astronomia, da geometria, ciências utilizadas na construção e que vão legar a seus sucessores os instrumentos que conhecemos.

Um desses Egípcios, de nome Imhotep viveu entre os anos de 2.690 a 2.610 a. C e foi um sábio e erudito egípcio que se aprofundou nos estudos da medicina e astronomia, antes de converter-se no primeiro arquiteto conhecido da história. Chegou a ser Sumo Sacerdote de Heliópolis e desenhou a Pirâmide escalonada de Saqqara para o Faraó Zoser.

A importância de Imhotep como médico pode ser vista em seus ensinamentos transcritos para um papiro onde ele falava de todo tipo de tratamentos para doenças com receitas farmacológicas embora naquela época a medicina e a magia se misturavam com resultados às vezes não muito bons para os pacientes.

Além do que cultuavam o sol e nos legaram o famoso zodíaco de Dendera.

É bom que se saiba que na história sumeriana o colonizador e fundador do Egito foi um deus sumeriano de nome Ptah e que levou para a região o conhecimento dos antigos sumerianos que como já dissemos no início erguiam zigurates à exemplo da Torre de Babel, de forma piramidal.

Quando vemos a maçonaria moderna dificilmente vislumbramos o seu mais remoto passado, mas isso é importante como narrativa histórica e para que possamos, vez por outra, nos inspirarmos e lembrarmos das nossas tradições.

Essas primeiras civilizações foram contaminando outras e formando um cadinho onde se derramava os conhecimentos das primeiras sociedades secretas que se inspiravam no drama de Isis, Osiris, Horus, repetindo em tríades a mesma história com nomes das personagens diferentes e que, mais adiante, irão inspirar a lenda do Mestre Maçom.

Dentro desse espaço de milhares de anos haverá sempre um campo muito fértil para a divagação e, para aqueles que são sonhadores, encontrarão uma boa fonte de inspiração.

O que sabemos é que os egípcios trabalhavam as pedras, eram “pedreiros” na acepção da palavra, conheciam a organização do estado e a previdência, herdaram dos sumerianos códigos de leis, conheciam a escrita, a medicina, e uma boa parte das Artes Liberais e tudo isso e mais alguma coisa são a fonte primitiva de nossa existência como maçons.

Muitos desses conhecimentos primitivos se espalharam pelo mundo e muitas vezes ficaram fragmentados tendo sido recolhidos pelos grandes conquistadores em várias partes do e isso acontece até nos dias atuais.

Essa maçonaria tão diferente irá permitir mais tarde que os ingleses a adotassem como uma espécie de clube tão popular na época da união das quatro Grandes Lojas que acolheram os Aceitos.

A Maçonaria, naquela época, era uma espécie de Clube onde a aristocracia se reunia para discutir em segredo assuntos filosóficos, científicos e políticos, motivos não muito absorvidos pelos Antigos.

A união dessas duas correntes se deu em 1813 com a criação das Grandes Lojas Unidas da Inglaterra.




A MAÇONARIA E A ALEGORIA DA TORRE DE BABEL

Autor: João Anatalino

Em Gênesis 11:1;9, encontramos a informação de que a diversidade de línguas existente na terra tem origem em uma malograda obra de maçonaria operativa. Essa teria sido uma obra intentada pelos descendentes de Cam, um dos filhos de Noé, após o dilúvio. Essa obra, que teria sido iniciada num lugar chamado Senaar, supostamente no sítio onde hoje se localizam as ruínas da antiga cidade da Babilônia, foi idealizada por um rei chamado Nenrod, referido na Bíblia como sendo o “grande caçador perante o Senhor” (Gênesis 10; 9). Era uma enorme torre escalonada, construída bem no meio da cidade, feita de tijolos de barro cozidos, usando betume por argamassa. Essa torre, segundo os cronistas bíblicos, revelaria uma intenção vaidosa dos seres humanos, pois estes queriam “tornar célebres seus nomes”. 

Historicamente, não se nega que a Torre de Babel pode ter, de fato, existido. Restos de construções do tipo citado pela Bíblia e pelos historiadores antigos que trataram desse assunto foram desenterrados em vários sítios arqueológicos do Oriente Médio, especialmente nos lugares onde se supõe que o modelo que teria servido para a história bíblica, foi erguido. São as torres conhecidas como “zigurats”, que segundo os historiadores modernos servia tanto para serviços religiosos como para observações astrológicas. 

Bem antes dos templos em que a Bíblia começou a ser compilada (provavelmente no século VII a.C, no reinado do Rei Josias, de Judá), [1] os povos habitantes da Mesopotâmia, região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque), já ostentavam uma adiantada civilização. Lá havia cidades bastante urbanizadas e populosas, tais como Ur, Eridu, Uruk e a famosa Babilônia, que já nos tempos de Heródoto era considerada a maior e mais bela cidade do mundo. Segundo esse historiador, em 440 a C, ele viu em Babilônia os restos de “uma torre sólida, feita de tijolos cozidos, de 201 metros em comprimento e largura, sobre a qual estava erguida uma segunda torre, e nessa uma terceira, e assim até oito. A ascensão até ao topo é feita pelo lado de fora, por um caminho que rodeia todas as torres. Quando se está a meio do caminho, há um lugar para descansar e assentos, onde as pessoas podem senta-se por algum tempo no seu caminho até ao topo. Na torre do topo há um templo espaçoso, e dentro do templo está um sofá de tamanho invulgar, ricamente adornado, com uma mesa dourada ao seu lado”.[2]

De uma forma geral, os historiadores concordam que a inspiração bíblica para a história da Torre de Babel deve estar nos famosos “zigurats”, enormes torres que os povos dessa região construíam para servir de templos e observatórios astrológicos, e que ainda estavam em voga nos tempos de Heródoto e Alexandre. Na literatura encontrada na famosa Biblioteca de Assurbanipal, rei assírio do século VII a C., que sitiou e destruiu o reino de Israel, são encontradas muitas referências a esse tipo de construção e sua utilização. Ali estão registradas várias lendas da literatura suméria que se referem a esse assunto. Uma delas, por exemplo, diz que Amar-Sin (2046-2037 a.C.), o terceiro monarca da Terceira dinastia de Ur, tentou construir um zigurat na cidade de Eridu, o qual nunca foi terminado. Ali se encontra também outra informação que pode ter servido de inspiração para os cronistas bíblicos, não só para o episódio da Torre de Babel, como também para a criação do personagem chamado Ninrod, que por suposto teria sido o idealizador da Torre de Babel. É a história do rei Enmerkar (conhecido como Enmer, o Caçador) rei de Uruk, que teria construído um grande “zigurat” naquela cidade. Essa história também se refere á briga entre dois deuses rivais, Enki e Enlil, que disputam as honras desse templo construído porEnmerkar, o Senhor de Aratta, e em razão disso acabam por confundir a línguas dos povos que trabalharam nessa construção.

Existem vários registros na literatura suméria e babilônica sobre esse assunto, os quais levaram os estudiosos a pensar que a inspiração bíblica vem dessas fontes. O rei Nabopolassar, por exemplo, também citado na Bíblia pelas incursões que realizou contra os judeus, é referido como sendo um grande construtor e um dos principais reis a fazer da Babilônia a cidade mais importante do mundo em seus dias. Ruínas do magnífico palácio residencial que ele construiu e do suntuoso templo para o deus Ninurta, podem ser vistas ainda hoje. Porém o seu mais ambicioso empreendimento arquitetônico foi a reconstrução do zigurat Etemenanki, conhecido como “Fundação do Céu e da Terra”, gigantesca torre escalonada que servia de templo e observatório astrológico. 

Em termos linguísticos o nome Babel é o correspondente grego do termo acadiano Bãb-ilu, que significa o “Portal de Deus”. Dai vem a conotação luciferina que a Bíblia dá á essa obra. Como pode ser constatada pela leitura da crônica bíblica, a postura adotada pelos cronistas judeus e aceita pelos comentadores da Bíblia, especialmente os compiladores da Mishná, conjunto de comentários rabínicos à Bíblia, é a de que a Torre de Babel está na raiz de uma rebelião contra Deus. Em alguns desses mishnás encontramos inclusive a idéia de que a Torre de Babel foi construída para desafiar não só o poder de Deus, mas também para contrariar Abraão, um dos principais sacerdotes da Caldéia, na época. Este vivia criticando seus pares e concitando-os a reverenciar Deus ao invés de desafiá-lo. Uma passagem da literatura rabínica que se refere a esse assunto diz que os construtores falavam palavras afiadas contra Deus. Essas palavras não foram registradas na Bíblia, mas os comentaristas informam que nessa época o céu era sacudido por Deus para provocar chuva, por isso eles iram construir essa torre e suportá-la com colunas fortes, para que ela fosse capaz de resistir a qualquer outra inundação que Deus quisesse mandar sobre a terra. Também os cronistas do Talmud e o historiador Flávio Josefo se referem á essas tradições em seus comentários à Bíblia, se referindo a Ninrod como o principal articulador dessa obra.[3]

A Torre de Babel também é referida no Apocalipse de Baruque, livro apócrifo da Bíblia, onde esse visionário profeta, á semelhança de Dante em sua Divina Comédia, vê os construtores da Torre de Babel, na forma de cães, sofrendo o castigo que Deus lhes infringia.[4]

Em antigas tradições místicas os zigurats eram vistos como portais por onde os deuses poderiam entrar na terra e pelos quais o homem poderia também entrar no céu. Eram consideradas “escadas” que ligavam a terra ao céu. Da mesma forma que os habitantes do céu poderiam vir á terra através desses portões, os homens poderiam também entrar no céu por eles, daí o temor dos Elhoins ( os verdadeiros construtores do universo e criadores do homem), de que o céu fosse invadido por essa raça degenerada, que eram os humanos gerados pelos arcanjos rebeldes que haviam sido expulsos do céu. Por isso se diz na Bíblia “vinde pois, e confundamos de tal sorte sua linguagem, para que um não compreenda o outro”. Essa fala, no plural, mostra que não foi Deus quem confundiu as línguas, mas sim um grupo de arcanjos (Elhoins), como sugere a tradição cabalística.

A ideia da existência de uma língua única na terra, nos tempos em que a Bíblia identifica a construção da Torre de Babel não é aceita pela maioria dos estudiosos. A tendência é ver esse mito como memórias de um processo de organização dos reinos mesopotâmios, os quais passaram por uma série de ascensões e quedas, com diversos povos se sucedendo no poder e as dinastias reais, cada uma procurando superar as anteriores em fausto e grandeza. Daí a construção de obras suntuosas, que, aliás, era comum entre todas as grandes civilizações do passado. Assim, um megaprojeto de construção na Mesopotâmia pode ter usado trabalho forçado de diversas populações escravizadas, pois a Babilônia, no apogeu da sua história de conquistas, dominava a maioria dos povos do Oriente médio, com suas diferentes línguas. Algumas delas eram, inclusive, não semitas, tais como a Hurrita, a Cassita, o Sumeriano, e o Elamita, que eram línguas cananeias. Provavelmente foi o desmoronamento do grande império babilônico, conquistado pelo rei persa Ciro, o Grande, em 525 a.C,. que proporcionou a derrocada da “Torre” (a Babilônia) e a dispersão dos povos que a constituíam. Dessa forma, a história da Torre de Babel teria sido inserida na Bíblia após a volta dos judeus do cativeiro da Babilônia e o chamadoEtemenanki, o zigurat dos reis babilônicos, principal santuário da “abominável religião de Babel”, foi estigmatizada pelos cronistas judeus como sendo responsável pela grande confusão de línguas existente sobre a terra.

A Bíblia não menciona o que aconteceu á Torre de Babel, mas escritores antigos de várias procedências informam que Deus a teria destruído. Relatos contidos no Livro dos Jubileus, em obras de Cornelius Alexandre, de Abydenus, e principalmente Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas 1.4.3), e os Oráculos Sibilinos (iii. 117-129) informam que Deus teria derrubado a torre com um grande vento. 

Isso mostra o quanto esse relato foi apropriado pelos cronistas judeus para justificar a sua teologia e a sua ideologia racial, sendo a primeira consubstanciada na idéia da existência de um único Deus e que seria Israel o único povo a adorá-lo. E a segunda para afirmar a supremacia do povo de Israel sobre seus vizinhos. Pois segundo os cultores dessa tradição, a língua de Israel, e o seu alfabeto, o hebraico, é uma língua criada no céu, falada pelos Elohins, os arcanjos que fizeram o homem á sua imagem e semelhança. As outras línguas seriam todas bárbaras, nascidas da “confusão” provocada pela derrocada pela Torre de Babel.

A história da Torre de Babel, como as demais lendas e tradições referidas na Bíblia, não é exclusiva dos povos mesopotâmicos, nem é a literatura bíblica a única a se referir a ela. Entre os povos da América Central existem várias histórias similares. Entre os astecas temos a história de Xelhua, um dos sete gigantes que se salvaram do dilúvio, construindo a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses a destruíram com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. Também os toltecas, povo anterior aos astecas no rol das civilizações que povoaram o antigo México, tinham uma lenda similar que dizia que os homens se multiplicaram após o grande dilúvio e começaram a erguer um alto zacuali (torre), para se abrigarem caso os deuses mandassem outro dilúvio sobre a terra. Dizem também que a torre não foi acabada porque suas línguas foram confundidas e eles foram espalhados para diferentes partes da terra.

Também na Índia, no Nepal, entre os habitantes da Estônia e os aborígenes da Austrália e da Nova Zelândia já foram recenseadas histórias similares, que mostram ser a Torre de Babel um arquétipo compartilhado pela memória comum da humanidade.

E como tudo que se refere á Bíblia, essa história também se tornou um artigo de fé. Não são poucos o que defendem a literalidade do episódio da Torre de Babel como origem das diversas línguas falada na terra. E como se diz, a história pode ser discutida, mas a fé não. 

Na antiga maçonaria operativa, era Ninrod e não Hiram Abiff o patrono da Maçonaria. A arte da construção tinha nesse mitológico rei a sua figura mais representativa. Foi provavelmente a influência da Reforma Protestante que apeou Ninrod desse pedestal, substituindo-o por Hiram Abiff, o suposto arquiteto do Templo do Rei Salomão. Referências ao construtor da Torre de Babel são encontradas em várias Old Charges, antigos manuscritos dos maçons operativos.[5]

Por fim, cabe lembrar que em termos maçônicos, o episódio da Torre de Babel é uma alegoria de grande significado iniciático. Ele se conecta, de um lado, á arte do maçom, que se refere ao seu ofício de construtor, e de outro ao significado místico da “Escada de Jacó”, já que esta é, na mística da Maçonaria, uma “escada” pela qual os anjos descem á terra e os homens ascendem ao céu. Na simbologia da Arte Real ela significa a escalada do espírito humano pelos degraus do aperfeiçoamento espiritual. Por isso ela será invocada no catecismo maçônico dos graus superiores como designativo de um importante ensinamento. 


[1] Bíblia não Tinha Razão- Finkerman e Asher, Ed. Girafa, 2003
[2] Heródoto- História- Editora Edições 70
[3] Talmud Sanhedrin 109a. Sefer ha-Yashar, Noah, ed. Leghorn, 12b
[4] Apocalipse grego de Baruque, 3:5-8
[5] Especialmente o Manuscrito Dunfries. Ver, a esse respeito, Alex Horne- O Templo do Rei Salomão na Tradição Maçônica- Ed. Pensamento, 1986

João Anatalino



domingo, 12 de junho de 2016


ORIGEM DO SUPREMO CONSELHO E A CRIAÇÃO DAS GRANDES LOJAS NO BRASIL


Artigo do Ir.´. JOSÉ MAURÍCIO GUIMARÃES, publicado na Revista Astr~eia de nº 37 – julho de 2016.

Os preliminares dos Supremos Conselhos do Rito Escocês situam-se na longínqua criação do Capítulo de Clermont de Paris em 1754, de efêmera duração. Mas há evidências de que até 1730 havia, na Inglaterra, mestres maçons escoceses após o Terceiro Grau. Dez anos mais tarde, na Alemanha, falava-se do mais alto Grau chamado Maçonaria Escocesa. Porém, os graus além de Mestre se expandiram quando introduzidos na Maçonaria francesa.


Em 1761, Stephen Morin recebeu uma patente da Grande Loja da França, autorizando-o a estabelecer os Altos Graus do Rito Escocês em todas as partes do mundo, o que ele iniciou em 1763, a partir de Santo Domingo, hoje República Dominicana. Quatro anos depois, Morin e Henry Andrew Francken criaram em Albany, Nova York, uma Loja de Perfeição (Grau 4º ao 14º).


O Supremo Conselho de Charleston, no Estado da Carolina do Sul (EUA), Supremo Conselho Mãe do Mundo, declarou sua existência em 1801 com o lema de ORDO AB CHAO (Ordem sobre o Caos, conforme ensina Berdieaev em Esprit et liberte: a ordem natural não é eterna nem imutável, expressa apenas um momento simbólico na vida da mente. Como resultado, forças podem ocorrer nas profundidades do espírito, capazes de transfigurar a mente e libertá-la de poderes escravizantes.


No Brasil, o desenvolvimento do Supremo Conselho do Rito Escocês começou em 1829, quando Francisco Gomes Brandão, o Visconde de Jequitinhonha, recebeu do Supremo Conselho para o Reino dos Países Baixos do Rito Escocês Antigo e aceito a autorização para instalar aqui um Supremo conselho.


Francisco Gomes Brandão, advogado, jurista e político brasileiro nasceu em Salvador no ano de 1794, adotou Gê Acayaba Montezuma em homenagem aos elementos formadores da nação brasileira:Gê, tronco linguístico, da etnia dos antigos Timbiras, Bororos, Carajás, Gavião, Kayapó, Kraô e Xavantes. Acayaba é palavra de origem africana, o mesmo que acaiaca, árvore da família das Terebintáceas ou cedro brasileiro, por fim, Montezuma, homenagem ao imperador asteca.


Em 1832, Francisco Gê Acayaba Montezuma usou a autorização recebida nos Países Baixos para instalar o Supremo Conselho Dos Mui Poderosos Soberanos Grandes Inspetores Gerais do Grau 33 para o Império do Brasil (nome original) , o fato maçônico mais importante desse período e que teve, posteriormente, influência decisiva no movimento de 1927 com a fundação das Grandes Lojas.


Mas antes dessa instalação Davi Jewett, oficial da marinha norte-americana, nacionalizado argentino, desconhecendo a Carta Patente de Francisco gê, criou um “supremo conselho” (na verdade) um Consistório) em terras brasileiras. Foi necessário superar o impasse, pois as Grandes Constituições de 1786 não permitiam a existência de dois supremos Conselhos na jurisdição de um mesmo país (à exceção dos Estados Unidos).


Francisco Gê não contestou Davi Jewett, mas convidou-o para ser Lugar-Tenente Comendador na unificação dos dois movimentos.


Enquanto isso, com a abdicação de D. Pedro I, em abril de 1833, José Bonifácio de Andrada e Silva encontrou o caminho livre para tratar o Império à sua maneira.


Na qualidade de tutor do futuro D. Pedro II, incutiu nele suas próprias convicções. Não tendo mais o Gonçalves Ledo para lhe fazer oposição, Bonifácio assumiu a liderança da Maçonaria, providenciando uma reinstalação do Grande Oriente em 23 de novembro de 1831, quando os trabalhos maçônicos retomaram força como Grande Oriente do Brasil.


A constituição do Brasil determinava que, antes da maioridade do infante Pedro Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Leocádio, o país fosse governado por uma Regência Trina provisório. Foram escolhidos Francisco de Lima e Silva, José Joaquim de Campos e Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Mesmo assim, Bonifácio manteve sua influência no governo ditando as regras. Mesmo pertencendo ao Rito Moderno, ele recebeu o Grau 33 no Supremo conselho de Francisco Gê, fato que provocou a renúncia de Davi Jewett do cargo de Lugar-Tenente Comendador. Francisco Gê foi derrubado e substituído por Antônio Carlos de Andrade, irmão do Bonifácio, que em seguida, passou (ou “devolveu”) o cargo para o Patriarca Bonifácio que acumulou a chefia das duas Potências – o Supremo Conselho e o Grande Oriente (do qual ainda era o Grão-Mestre). Estando a patente do Supremo conselho em posse de Francisco Gê, Bonifácio pediu autenticação ao Supremo Conselho do Grande Oriente da França, sendo reconhecido em 22 de julho de 1848 pelo Grand College des Rites em France para o Rito Escocês Antigo e Aceito.

A partir dessa época, prevaleceu a união entre o Supremo Conselho e Grande Oriente do Brasil. O Grão-Mestre eleito tornava-se, como consequência, o Soberano Grande comendador do Supremo Conselho do rito Escocês, mesmo que tal Grão-Mestre não fosse Maçom do rito. Portanto de 1864 a 1926, o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito funcionou confederado ao Grande Oriente do Brasil. Nesse sistema, quase todas as lojas do GOB eram Lojas Capitulares trabalhando, além dos rituais dos Graus de Aprendiz, companheiro e Mestre, nos Graus 15 a 18.

MARIO BERHING
Plagiando Voltaire, tudo ia muito bem no país que era o melhor do mundo, neste que é o melhor dos mundos possíveis, quando surgiu um dos personagens mais discutidos na Maçonaria brasileira: Mário Marinho de Carvalho Behring, mineiro de Ponte Nova, nascido no dia 27 de junho de 1876. Diplomado em engenharia aos 20 anos, Behing foi iniciado na Loja União Cosmopolita, da sua cidade natal, no dia 20 de setembro de 1898. 

Em 1902, Behring mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi nomeado secretário da Biblioteca Nacional. Filiou-se à Loja Maçônica Ganganelli, do Rito Moderno, da qual foi Venerável Mestre em dois mandatos: 1903 e 1910. 

Em 1906, foi eleito Grande Secretário Adjunto do Grande Oriente do Brasil e em janeiro de 1907, Membro Efetivo do Supremo conselho do Grau 33, onde iniciou o trabalho pela modernização da Maçonaria brasileira. Ocupou sucessivamente os cargos de Grande Chanceler do Grande Oriente do Brasil, Grande Orador do conselho Geral da Ordem e Ministro de Estado do Supremo conselho do Brasil. Exerceu a interinidade do Grão-Mestrado de 10 de agosto de 1920 até 19 de novembro do mesmo ano e de 25 de dezembro ate abril de 1921.

Em 1924, assumiu a direção da Biblioteca Nacional, nomeado pelo Presidente Artur Bernardes, cargo em que se manteve até 1931.

Durante as interinidades, Mário Behring participo9u de congressos internacionais, e, segundo a orientação dos outros Supremos Conselhos do mundo, trouxe para o Brasil a tese do regime de separação entre as administrações dos Graus simbólicos e a dos Altos Graus. Isso implicava numa divisão do poder na Maçonaria brasileira, causa principal do que aconteceu em seguida.

O tratado que confederava o Supremo conselho ao Grande Oriente do Brasil ficou ameaçado de ser desfeito, uma crise que se avolumava desde 1921 culminou na cisão de 1927, movimento não isolado do contexto que vinha se desenvolvendo na Maçonaria brasileira desse os conflitos entre as alas de Bonifácio e Ledo.

Nas eleições de março de 1922, Nilo Peçanha, candidato à presidência da República, era também candidato a Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil (os “poderosos” daí a expressão – Grão-Mestres que eram, ao mesmo tempo, Presidentes da República e Grandes Comendadores do Rito). Embora apoiado pelos políticos situacionistas, Nilo foi derrotado por Artur Bernardes (que não era Maçom) e mandado para a prisão.

Neste mesmo período, o Supremo conselho do Brasil compareceu em Lausanne, Suíça, para a III Conferência Internacional dos Supremos Conselhos (29 de junho de 1922). Estando Mário Behring convicto de suas posições e do que deveria ser feito, fortaleceu-se pelas decisões ali traçadas para que todos os Corpos Diretores do Rito fossem regularizados, ou seja, que “cada Supremo conselho deve ser soberano e livre de qualquer direção por parte de qualquer outro Corpo ou organização maçônica, no processo de escolha dos seus membros, na eleição de seus oficiais, no tempo de exercício das respectivas funções, na adoção dos estatutos, na relação que mantém com os diversos corpos que lhe são subordinados em sua jurisdição...”

Mário Behring conclamou o Grand Oriente do Brasil a modificar suas leis referentes ao funcionamento confederado dos dois Corpos. A resolução dessa Conferência dizia não ser “admitido que quaisquer corporações maçônicas intervenham direta ou indiretamente no Supremo Conselho do REAA, seja na eleição dos oficiais ou mesmo na de Grande Comendador.” 

Em 1925, Mário Behring, Grão-Mestre e, portanto, pelas leis do Grande Oriente do Brasil ainda Soberano Grande Comendador – apontou a irregularidade dessa acumulação de cargos propondo a separação das duas jurisdições. Behring não se candidatou mais ao cargo de Grão-Mestre. Passou para Vicente Saraiva de Carvalho Neiva o exercício do cargo de Grão-Mestre, optando por conservar o de Grande Comendador. Seu afastamento seria incompreendido se analisado pelos costumes do Grande Oriente, mas foi coerente com as leis do Rito Escocês antigo e Aceito nos demais países.

Em nova eleição, Saraiva de Carvalho Neiva foi escolhido como Grão-Mestre. Empossado no dia 21 de dezembro de 1925, faleceu dois meses depois. João Severiano Fonseca Hermes, assumindo o Grão-Mestrado, assinou um tratado pelo qual os Graus Simbólicos permaneceriam com o Grande Oriente e os Altos Graus com o Supremo Conselho (27 de outubro de 1926).

Mas em novembro do mesmo ano com a licença pedida por Fonseca Hermes, assumiu interinamente o Grão-Mestrado o Adjunto, Octávio Kelly. O ex Grão-Mestre Thomas Cavalcanti vinha alegando que Fonseca Hermes fora longe demais nos termos do tratado com Behring e pediu a anulação dos poderes conferidos ao também Grão-Mestre já falecido, Vicente Saraiva. Essa proposta, apesar de não ter sido aprovada, abalou os alicerces da regularidade proposta por Behring.

Mário Behring já previa essa reviravolta sabendo que Octávio Kelly não dividiria com ele o poder das duas Potências, e começou a promover reuniões e debates com os membros do Supremo Conselho. Mas as decisões de Fonseca Hermes foram vencidas e o tratado revogado.

Ao mesmo tempo, foi reconstruída uma Oficina Chefe do Rito num Supremo Conselho unido ao Grande Oriente do Brasil, denominado Supremo Conselho Reconstituído, revalidando o duplo mandato de Grão-Mestre e Soberano Grande Comendador, faltava o cargo de Presidente da República que Getúlio Vargas jamais admitiria após a deposição e prisão do último Grão=-Mestre na presidência da República Velha, Washington Luiz.

Em 20 de junho de 1927, durante Sessão do Conselho Geral, Mário Behring não se pronunciou sobre as eleições para Grão-Mestre do Grande Oriente e sim às eleições no Supremo Conselho, ficando as deliberações adiadas para a sessão seguinte.

Mas Octávio Kelly não esperou a outra sessão. No tal “dia seguinte” – 21 de junho de 1927 – Kelly declarou nulos, pelo Decreto nº 859, o tratado e todos os atos dos seus antecessores e publicou seguidamente, os Decretos nº 860 e n 861 de julho de 1927, assinando-os na qualidade de Grão-Mestre Adjunto no exercício do Grão-Mestrado (pois sua eleição para Grão-Mestre aconteceu mais tarde, em 26 de junho de 1928).

Cumpre ressaltar que em 1927 Mário Behring não estava envolvido em qualquer disputa eleitoral, seja na Maçonaria ou fora dela. Durante a cisão governaram o Grande Oriente do Brasil os Grão-Mestres João Severiano da Fonseca Hermes (1926-1927) e Octávio Kelly (1927-1933).

Enquanto outros líderes da Maçonaria brasileira se batiam para manter os privilégios que aos poucos lhes escapavam das mãos, Behring foi perspicaz bastante para antever o brusco retraimento que se avizinhava da Maçonaria brasileira pelas mãos de Getúlio Vargas. E diante dos Decretos n 859, 860 e 861, Behring assumiu o término da confederação havida desde 1864. Contra-atacou com seu famoso Manifesto, declarando a ruptura total com o Grande Oriente do Brasil e retirou-se daquela Potência em companhia de duzentas Lojas Simbólicas, sendo 108 do Rito Escocês Antigo e Aceito.

A cisão estava consumada e teve início a criação das Grandes Lojas no Brasil.

Behring não agiu às escuras: dirigiu uma circular às Lojas Escocesas, concedendo-lhes plena liberdade para permanecerem jurisdicionadas ao Grande Oriente, sob a condição única de adotarem outro simbolismo de rito existente no Grande Oriente.

O sistema de Grandes Lojas introduziu no Brasil o modelo norte-americano: uma Grande Loja para cada Estado da Federação, sistema que logo recebeu o apoio das Grandes Lojas das américas, inglesa e latina. 

Em 1929, realizou-se em Paris a Quarta Conferência Internacional dos Supremos Conselhos do Grau 33 do Rito escocês Antigo e Aceito, onde compareceu o Supremo conselho (fundado por Francisco Gê), representado por Mário Behring. A informação circulava com lentidão naqueles tempos: telegramas, cartas que às vezes se extraviavam e mensageiros que colocavam as Américas em contato com a Europa por prolongadas viagens de navio. Mesmo assim, três Maçons do Grau 33, José Maria Moreira Guimarães, Lourival Jorte Masarelo Souto e Hyppolito Hermes de Vasconcelos foram nomeados por Octávio Kelly para representar o “Supremo Conselho Reconstituído” do Grande Oriente do Brasil evidente ingerência da administração dos Graus Simbólicos nos Altos Graus (e vice-versa).

No dia 30 de abril, a comissão assim nomeada por Octávio Kelly não logrou ser recebida pelo encarregado da Assembleia dos Supremos Conselhos, René Raymond, que alegou já estar presenta na Conferénce o Supremo Conselho do Brasil representado por Mário Behring. Os três representantes rejeitados enviaram um protestos à Conferénce no dia seguinte. Não obtiveram sucesso, pois presou contra o “Supremo Conselho Reconstituído” do Grande Oriente do Brsil o fato de ele não ser soberano – isto é, estava adstrito a uma Potência Simbólica. 

Nessa mesma Confeénce ficou decidido que o único Supremo conselho regular, reconhecido e única autoridade legal e legítima para o rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil era aquele fundado por Francisco Gomes Brandão e representado, na ocasião, por Mário Behring.


 A Música e a Maçonaria; músicos maçons.

Texto de José Manuel M. Anex.

São nomes confimados de maçons, os de Geminiani, de Rameau, dos Mozart, pai e filho, de Haydn, de Cherubini, de Liszt, de Sibelius, entre outros - isto, no que toca à denominada música “séria” ou “erudita”, já que noutros quadrantes musicais, é de assinalar a presença nas fileira da Maçonaria de nomes como John Philip de Souza, Irving Berlin, Louis Armstrong, Count Basie, Duke Elington, Nat King Cole, Phil Collins e até de Luís Gonzaga. Por outro lado, a filiação maçónica de nomes como Carl Philipp Emanuel Bach, Beethoven, Schubert, Mendelssohn, Verdi e Wagner, não está estabelecida (sendo duvidosa como a de Beethoven ou a do nosso Domingos Bontempo) ou é mesmo fantasista (como a de Wagner).

Quais as razões da presença de tão grande número de importantes músicos, nas fileiras da Maçonaria? A primeira, é filosófica e simbólica, já que celebrando os rituais maçónicos a Proporção (a Geometria e o Número), a Harmonia e a Beleza (e também a Sabedoria e a Força espiritual) das construções humanas à Gloria do Grande Arquitecto do Universo - o próprio Templo maçónico está estruturado entre o Sol e a Lua, entre a coluna do Rigor e da Justiça e a coluna do Amor e da Misericórdia -, é natural que a musical Harmonia da Esferas (cf. Joscelyn Godwin, Harmonies of Heaven and Earth, Thames ad Hudson, 198) e o Cosmos (que é o contrário do Caos), estabelecidos pelo Grande Arquitecto do Universo (ou Supremo Geómetra dos Mundos) – “ao princípio, Deus geometrizou”, diziam os pitagóricos -, estejam na raiz da sua mundivisão.

A segunda razão é de natureza histórica, visto que desde o começo do século XVIII as reuniões maçónicas concluíam-se com cânticos, numa dimensão convivial e ornamental de que dá testemunho o Cancionero incluído no Livro das Constituições de Anderson (1723), o qual compreendia quatro cânticos: o do Aprendiz (The Enter’d Prentice’s song), o do Companheiro (The Fellow-Crafts’ song), o dos Vigilantes (The Warden’s song) e o do Venerável Mestre (The Master’s song). 

Como refere Gérard Gefen (op. cit., p. 20), não só «a partir da primeira edição das Constituições, a inserção dum cancioneiro nos textos oficiais da maçonaria, se tornou, pelo menos em Inglaterra e no século XVIII, uma verdadeira obrigação», como também, é «na carta da obediência concorrente que se encontra a recolha mais abundante de cantos maçónicos oficiais». De facto «na obra Ahiman Rezon, redigida por Lawrence Dermott e publicada em 1756 como a carta os “Antigos”, encontra-se nada menos do que cerca de quarenta canções» (ibid.).

Em França, serão Naudot e Clérambault os «autores das primeiras obras musicais francesas destinadas ou consagradas à maçonaria. Desde 1737, aparecia uma recolha intitulada: Chansons notées de la trés vénérable Confrérie dês Maçons librés…»

Progressivamente foi-se verificando, nas lojas e nas Obediências, a inserção da música no ritual, ou seja, a utilização da chamada Coluna da Harmonia (denominação do século XVIII), quer nas entradas e saídas dos dignitários, quer durante a iluminação da Loja, quer na circulação do Tronco da Beneficência, quer ainda acentuando algumas passagens das iniciações, elevações, etc., etc.. Saliente-se várias obras musicais compostas para os funerais maçónicos dos Irmãos e simbolizando uma meditação sobre o mistério central da Maçonaria: a morte e a ressurreição.

Ao contrário dos que mantém as músicas clássicas de outrora na coluna da harmonia há que se dizer que tais entonações eram, na realidade, outrora, as nossas músicas populares. (1)

Nada há que obrigue o Mestre de Harmonia a utilizar essas músicas vez que a música é utilizada para dar HARMONIA à reunião e, portanto, fica à escolha do referido oficial as músicas que podem causar enlevo nos obreiros. (2)

Era costume dos hebreus circular em torno do Altar dos Juramentos cantando louvores a Deus pois isso fazia bem a alma. (3)

Os rituais não fazem referência a essa ou aquela música deixando o Mestre de Harmonia à vontade para discernir qual tipo de melodia irá usar e que se encaixará nos momentos apropriados ao cerimonial da Oficina (4).


(1) - Observação feita pelo Ir.´. JOSÉ ROBERTO CARDOSO MI - GLMDF.
(2) - Idem
(3) - Ibidem
(4) - Ibidem.

José Manuel M. Anes


A FACE JUDAICA-TEMPLÁRIA DA MAÇONARIA



Na obra “Antigas Letras”, o Grão-Mestre Leon Zeldis 33º, da Maçonaria de Israel (The Grand Lodge of the State of Israel), chama a atenção para o fato de que os textos religiosos hebraicos onde aparecem os nomes divinos de D’us não são destruídos quando envelhecem, mas enterrados ou guardados em um lugar especial da sinagoga conhecido como guenizá. Diz a tradição judaica que qualquer fragmento de um texto sagrado que contiver o nome do Criador deve ser enterrado de acordo com determinados rituais. Entretanto, com o passar dos séculos e em função das perseguições sofridas pelos judeus, muitos documentos hebraicos foram apenas escondidos, daí o nome de guenizá (esconderijo), que corresponde em hebraico ao termo lignoz e significa guardar, manter secreto. 

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram a Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

No livro “A Chave de Hiram”, os autores maçons Christopher Knight e Robert Lomas destacam que os clérigos que acompanhavam os cavaleiros templários eram “todos capazes de ler e escrever em muitas línguas e eram famosos por suas habilidades em criar e decifrar códigos”. E transcrevem um comentário do historiador francês Gaetan Delaforge sobre os reais motivos dos templários: “A verdadeira tarefa dos nove cavaleiros era realizar uma pesquisa na área para recuperar certas relíquias e manuscritos que continham a essência das tradições secretas do Judaísmo e do Antigo Egito, algumas das quais provavelmente datavam do tempo de Moisés” (The Templar Tradition in the Age of Aquarius). 

Uma Ordem acima de reis e rainhas

Legitimada pelo papa Honório II em 31 de janeiro de 1128, a Ordem do Templo ganhou estatuto, regras e um comandante: o Grão-Mestre Hugh de Payens. Havia mais de 600 artigos no estatuto dos templários, segundo o historiador inglês Piers Paul Read, autor de “Os Templários”, sendo que a regra 325 relacionava-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos capelães e aos pedreiros construtores de santuários e fortalezas. Mas, “em nenhum lugar havia qualquer menção a peregrinos ou à sua proteção, aparentemente ignorando a única razão para a criação dessa Ordem” (A Chave de Hiram). O papa seguinte, Inocêncio II, através da bula “Omne datum optimum” (1139), estabelece privilégios que tornam a instituição independente de toda interferência de autoridades políticas e religiosas. Segundo a encíclica, os templários só deviam obediência ao Papa. 

Durante os próximos 200 anos a Ordem do Templo cresce e se expande em poder e riqueza, recebendo doações em dinheiro e propriedades na Europa. De acordo com os investigadores históricos ingleses, Michael Baigent e Richard Leigh, que pesquisaram a herança templária no surgimento da maçonaria, “em meados do século 12, a Ordem do Templo já tinha começado a se estabelecer como a mais poderosa e rica instituição isolada em toda a Cristandade, com exceção do Papado, com frotas de navios, territórios extensos e ligações secretas com líderes sarracenos” (O Templo e a Loja). Esses mesmos autores e mais Henry Lincoln ainda afirmam que coube aos templários criar e estabelecer a moderna instituição bancária. “Através de empréstimos de vastas somas a monarcas necessitados, tornaram-se os banqueiros de todos os tronos da Europa” (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Com a perda de Jerusalém para os muçulmanos em 1291, a Ordem do Templo se transfere para Chipre. A ilha tinha sido conquistada pelo rei Jayme I (Coração de Leão), da Inglaterra, em 1191, e vendida, anos depois, para os templários. Em 1312, a Ordem é oficialmente extinta por um decreto papal emitido por Clemente V, sem que um veredicto conclusivo de culpa tenha sido pronunciado. Através da bula Vox in excelso o Papa extingue a Ordem do Templo “proibindo estritamente qualquer um de conjeturar em entrar para a referida Ordem no futuro, ou de receber ou usar seu hábito, ou de agir como um templário” (Os Templários). Em bula subsequente, a Ad Providam, todos os bens e propriedade dos templários são transferidos para a Ordem dos Hospitalários, uma instituição similar a dos templários, que também funcionava na Terra Santa. 

Na França, por ordem do rei Filipe IV, o Belo, os templários são perseguidos, presos e torturados. A Inquisição também se alastra por toda a Europa. As acusações concentram-se em supostas heresias e rituais praticados pelos membros da Ordem. O seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, é queimado até a morte, na Ile de la Cité, no Sena, em 1314.

Estado templário preocupava a Igreja 

Setecentos anos depois desses acontecimentos, dúvidas ainda persistem sobre a verdadeira natureza da Ordem e de seus cavaleiros. Seriam eles guardiões de um conhecimento secreto adquirido na Terra Santa em contato com outras culturas ou mesmo oriundo de documentos sobre as origens do Cristianismo descobertos nas escavações? Para Baigent e Leigh, o impacto de antigas formas de pensamento cristão, não Paulinas, podem ter influenciado as atividades da Ordem no seu projeto para a criação de um Estado Templário e na sua política de reconciliar o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. “Os templários não negociavam apenas dinheiro, mas pensamentos também. Através de seu contato com as culturas muçulmana e judaica, começaram a atuar como introdutores de novas ideias, novas dimensões do conhecimento, novas ciências” (O Santo Graal...).

A pesquisadora da Biblioteca do Vaticano, Bárbara Frale, em artigo publicado no “L’Osservatore Romano” (21.08.2008), jornal oficial da Santa Sé, afirma que os documentos originais do processo contra os templários, encontrados no Arquivo Secreto do Vaticano, demonstram que foram infundadas as acusações de que os cavaleiros praticavam em segredo ritos pagãos e haviam abandonado a fé cristã. De acordo com a autora, os templários não eram hereges e o que se descobriu nas atas conservadas no Vaticano é que “a disciplina primitiva do Templo e o seu espírito autêntico se haviam corrompido com o passar do tempo, deixando a porta aberta para a difusão de maus costumes” (Revelações do Arquivo Secreto do Vaticano: templários não foram hereges,no portal Zenit).

Aí caberia a indagação: quais seriam os “maus costumes”, segundo a avaliação da pesquisadora, adquiridos pelos templários? No mesmo artigo, Frale reconhece que “ainda há verdadeiramente muito que investigar” e adianta que o estudo da espiritualidade desta antiga ordem religiosa dará à cultura contemporânea novos motivos de discussão.

Escócia: refúgio dos templários e berço dos maçons
Da extinção oficial da Ordem até a fundação da primeira grande Loja Maçônica em Londres (1717), a trinca de autores do “Santo Graal e a Linhagem Sagrada” registra que os templários ingleses e franceses encontraram refúgio na Escócia (país que ignorou a bula papal), e muitos deles também se integraram a outras Ordens e sociedades secretas na Alemanha, Espanha e Portugal. Conta-se que em 1689, na batalha de Killiecrankie, na Escócia, um dos aliados do rei Jayme II da Inglaterra, John Claverhouse, visconde de Dundee, estava usando uma antiga vestimenta da Ordem do Templo, de antes de 1307, quando foi morto na luta. A referência ao fato foi publicada no jornal da primeira Loja de Pesquisas Maçônicas do Reino Unido (Quatuor Coronati), em 1920: “Lorde Dundee perdeu sua vida como líder do Partido Escocês Stuart. Segundo o testemunho do abade Calmet, ele teria sido Grão-Mestre da Ordem do Templo na Escócia” (O Santo Graal...). 

Mas, muito tempo antes, nos meados do século 16, um manuscrito já comprovava a existência dos chamados franco-maçons e a sua subordinação à monarquia dos Stuart, principalmente ao soberano escocês Jaime I (1566-1625), que também foi rei da Inglaterra e da Irlanda. O historiador maçônico, Robert F. Gould, em “The History of Freemasonry”, transcreve o que era exigido dos franco-maçons à época: “... que sejais homens leais ao rei, sem nenhuma traição ou falsidade e que não tolerais qualquer traição ou falsidade, tratando de combatê-las ou notificá-las ao rei”. Segundo definição de um ilustre estudioso maçom José Maria Ragon (1781-1866), o termo franco-maçom somente se aplicaria àqueles que efetivamente cooperassem na obra de instrução e regeneração da humanidade. Os demais membros de obreiros construtores e integrantes da corporação de pedreiros seriam denominados simplesmente maçons.

Observa-se que a Grande Loja da Inglaterra, criada para centralizar a franco-maçonaria inglesa e que se constituiu no marco oficial da imagem pública da Maçonaria, foi instituída em 24 de junho de 1717, data emblemática para os templários e que lembra o nascimento de João, o Batista. A devoção a essa figura histórica é um dos elos que ligam os franco-maçons aos templários. Segundo o “Dicionário de Maçonaria”, de Joaquim Gervásio de Figueiredo 33.º, João Batista é o patrono da Maçonaria e todas as lojas maçônicas simbólicas são intituladas Lojas de São João.

A tradição judaica dos essênios

Preso e decapitado em 32 da E.C. por ordem de Herodes Antipas, governador da Galiléia, Yochanan ben Ezequiel (nome hebraico de João Batista) provavelmente era membro da seita dos essênios, uma comunidade judaica que existiu durante os dois últimos séculos da era do Segundo Templo (150 antes da E.C. a 70 da E.C.). Historiadores judeus do século I, Flavio Josefo e Philo de Alexandria, registraram a presença desse grupo ascético, que praticava um Judaísmo ultra-ortodoxo, com jejuns frequentes e banhos rituais diários, e que habitava o deserto da Judéia, entre Jericó e Ein Guedi. 

A partir de 1947, e até 1956, com a descoberta dos pergaminhos nas cavernas de Qumran (os manuscritos do Mar Morto), a tese de que os essênios eram seus autores ganhou força entre estudiosos e peritos de várias nacionalidades. Segundo Leon Zeldis 33º, os iniciados da comunidade de Qumran, cujas idades variavam entre 25 e 50 anos, aprendiam a “amar a justiça e ter aversão à maldade”. Consideravam-se herdeiros dos reis sacerdotes, simbolizados por Salomão (do hebraico Shlomo, que deriva da palavra Shalom-paz) e Melquizedek (do hebraico Malki-Tzadik, rei justo), rei de Salem (a atual Jerusalém), à época de Abraão. Alguns de seus membros, como João, o Batista, faziam votos de nazareos - do hebraico “nazir” que corresponde a “separado” ou “consagrado”. Os autores do livro “A Chave de Hiram” acreditam que “a voz que clama no deserto” poderia ser a de João Batista “que viveu uma vida dura no deserto, de retidão qumraniana, comendo apenas os alimentos permitidos, usando um cinturão de couro e uma túnica de pelo de camelo”.

Na obra “Os Manuscritos do Mar Morto”, o professor e doutor em teologia Geza Vermes destaca que os membros da seita se consideravam “o verdadeiro Israel”, fiéis representantes das autênticas tradições religiosas. Os sacerdotes, chamados de “filhos de ZadoK” (o sacerdote da Casa de David), se constituíam na autoridade máxima da comunidade. A hierarquia era rigorosa. Cada membro era inscrito na “ordem de seu grau”. O mais alto cargo recaía na pessoa do Guardião, conhecido também como “Mestre” (maskil, em hebraico). Eram também instruídos a reconhecer “um filho da Luz” de um “filho das Trevas”. Na lista de infrações e de suas penas correspondentes, o pecado mais grave que demandaria em imediata expulsão da congregação seria qualquer tipo de transgressão, por ato ou omissão, às diretrizes da Lei de Moisés. 

Em um dos manuscritos – o Preceito do Messianismo – é especificado que somente a partir dos 30 anos os homens eram tidos como maduros, podendo participar das assembleias, de casos em tribunais e tomar assento nos altos escalões da seita. O neófito vindo de fora que se arrependia de seu “caminho de corrupção”, iniciava-se “no juramento da Aliança” no dia em que conversava com o Guardião, mas nenhum estatuto da seita deveria ser divulgado a ele. Na avaliação do professor Geza Vermes, o retrato que assoma da leitura dos manuscritos em relação às ideias e aos ideais religiosos dos essênios é uma observância fanática à Lei de Moisés. No campo político, os essênios eram frontalmente contra a dinastia de Herodes e o domínio dos romanos sobre a Terra Santa.

Livros secretos de Moisés

Dizimada pelos romanos em 66-70 da E.C., a comunidade de Qumram pode ter enterrado sua história, seus segredos e sua tradição secreta ligada a Moisés em algum lugar do templo de Jerusalém, seguindo a prática judaica de não destruir documentos sagrados (a cidade de Jerusalém fica a 40 minutos de carro de Qumram). Na obra “A Chave do Hiram”, os autores aventam a hipótese desses manuscritos terem sido descobertos pelos templários, no século 12, em função das sigilosas escavações realizadas no local por mais de uma década. No livro “A Odisséia dos Essênios”, o historiador britânico Hugh Schonfield faz referência aos livros secretos que Moises teria dado a Josué para que ele os mantivesse ocultos “até os dias de arrependimento”.

No livro do escritor francê Michel Lamy - Os Templários. Esses senhores de Mantos Brancos/1997 – é lembrado o interesse do abade Estevão Harding, amigo e mentor de Bernardo de Clairvaux (incentivador da criação da Ordem dos Templários e autor de suas regras), por textos hebraicos. O abade procurava a ajuda de rabinos nas suas traduções do hebraico dos livros do Velho Testamento. Para Lamy, esse intenso interesse por textos hebraicos demonstram a crença na existência de um tesouro oculto enterrado sob o monte do Templo e algum tipo de relação com o lugar que mais tarde se tornou a moradia dos templários. O historiador Piers Paul Read também destaca que uma das primeiras traduções encomendadas pelos templários na Terra Santa foi a do “Livro dos Juízes”, do Velho Testamento. “Havia uma íntima e inquestionável identificação dos cristãos da Palestina com os israelitas de antigamente” (Os Templários).

Erguido pelo rei Salomão para abrigar a “Arca da Aliança” – relicário das palavras divinas a Moisés no deserto - , o grande Templo de Jerusalém concentrava nesse local toda a sua santidade. Construído sobre o Monte Moriá, o aposento onde ficava a arca sagrada era o lugar mais recôndito do Templo, chamado de “o Sagrados dos Sagrados” (Kodesh há-Kodashim), recinto cuja santidade era tal que somente o grande sacerdote (Cohen Gadol, em hebraico) tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, no Dia do Perdão - Yom Kipur (Revista Morashá).

A adoção pelos templários e maçons dessa simbologia estruturada nos mistérios e segredos que se iniciam com Abraão, tem seu ápice em Moisés, se perpetua com a construção do Primeiro Templo por Salomão e sofre transmutações generalizadas a partir dos primórdios da Era Comum, após a destruição da comunidade de Qumram, ainda permanece envolta em véus em sua nascente e tem se mostrado um desafio para a Igreja Católica. De igual forma, a imensa quantidade de publicações, teorias e suposições a respeito do tema ainda não produziu uma resposta diferente daquela que anima e justifica o trabalho da maioria dos pesquisadores: a da “busca pela verdade” .


Os guardiões da Aliança

Em “As Intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”, o leitor acompanha a trajetória dos manuscritos, desde das primeiras descobertas no deserto da Judéia, em 1947, durante o mandato britânico na Palestina, até o início da década de 1990, quando o conteúdo de muitos documentos ainda não tinha sido divulgado. A batalha para o livre acesso e publicação de mais de 800 manuscritos por parte de inúmeros pesquisadores de renome mundial é relatada por Michael Baigent e Richard Leigh que culpam a chamada “equipe internacional” comandada pelo padre Roland de Vaux, da École Biblique de Jerusalém, de manter por longo tempo o monopólio sobre os manuscritos. A polêmica se estendeu até a imprensa através das páginas do influente jornal americano New York Times que em editorial publicado em 9 de julho de 1989 criticou a morosidade das pesquisas, observando que “passados 40 anos, um círculo de estudiosos indolentes continua esticando o trabalho, enquanto o mundo espera e as preciosas peças vão se desmanchando em pó”. 

Hoje sabemos que os membros da comunidade de Qumram costumavam referir-se a si próprios como “os guardiões da Aliança”. Tal conceito se baseia essencialmente na grande importância da “Aliança”, que impunha um voto formal de obediência, total e eterna, à Lei de Moisés. Daí a expressão “Ossei ha-Torá”, encontrada em um dos pergaminhos, que pode ser traduzida por “Agentes da Lei”, expressão talvez que fosse a origem da palavra essênio (As intrigas em torno dos Manuscritos...). Mas, para o pesquisador Robert Eisenman, autor de vários livros sobre os Manuscritos, termos como essênios, zadoques, zanoreanos, zelotes, sicários, ebionitas (os pobres) apontam para um mesmo grupo ou movimento ortodoxo de rigoroso cumprimento da lei mosaica.

Em seu estudo “Paulo como herodiano”, apresentado na Sociedade de Literatura Bíblica (Society of Biblical Literature), em 1983, Eisenman credita a Paulo (Saulo de Tarso) o papel de agente secreto dos romanos, após ser ameaçado de morte pelos “zelosos da Lei”. A partir dos manuscritos e de referências encontradas no Novo Testamento, o pesquisador afirma que a entrada de Paulo em cena mudou o rumo da história. “O que começou como um movimento localizado dentro da estrutura do Judaísmo existente, e cuja influência se restringia aos limites da Terra Santa, se transformou em algo de uma escala e magnitude que ninguém na época poderia ter previsto. O movimento que estava nas mãos da comunidade de Qumran foi efetivamente convertido em algo que não tinha mais lugar para seus criadores” (As Intrigas em torno dos Manuscritos...).

Para os autores ingleses de “A Chave de Hiram”, Saulo de Tarso não conhecia profundamente os ritos nazoreanos da comunidade de Qumram e a sua simbologia da “ressurreição em vida”, cerimônia adotada pela Maçonaria em seu ritual de 3º Grau. Em um dos manuscritos encontrados, denominado “Preceitos da Comunidade”, é explicado que ao entrar na comunidade o sectário era elevado a uma “altura eterna” e unido ao “Conselho Eterno” e à “Congregação dos Filhos do Céu” (Geza Vermes, em “Os Manuscritos do Mar Morto”). 

Outro importante estudioso dos manuscritos, o historiador John Allegro, em seu livro “The Treasure of the Copper Scroll” que traz a tradução completa do Manuscrito de Cobre, explica que “Qumram” é uma palavra árabe moderna e que no século I da E.C. o local era conhecido como Qimrôn, raiz da palavra hebraica que significa abóbada, arco, portal. O pesquisador também observou a utilização de códigos no Manuscrito de Cobre quando são citados os 64 esconderijos com metais preciosos e manuscritos pertencentes à Comunidade. Detalhe igualmente notado pelo padre J.T.Milik, que fazia parte da equipe internacional que analisou os manuscritos em Jerusalém. O religioso constatou a presença de técnicas de codificação críptica em alguns documentos secretos que continham informações sobre eventos futuros.


Sheila Sacks
Jornalista de Investigação - Rio de Janeiro, Brasil
http://www.maconaria.net/portal



A Ordem Maçônica Moderna e suas características



Lorde Oliver Cromwell (Huntingdon, 25 de Abril de 1599 — Westminster, 3 de Setembro de 1658 )

Texto do Ir.´. MÁRIO SALES (http://imaginariodomario.blogspot.com.br/)


Existem três critérios que devem ser levados em consideração ao analisar-se uma ordem secreta: o esotérico, o ocultista, e o místico.

Por esotérico entendo o caráter de sigilo que envolve estas agremiações, onde seus membros são obrigados a prestar juramento de segredo sobre suas atividades e se comprometem a receber sanções, algumas extremamente graves, caso quebrem este compromisso.

Por ocultismo, considero o conjunto das práticas, comumente estudadas no século XVIII e XIX, ligadas a magia e a teurgia, sendo a magia o conjunto de técnicas ligadas ao domínio através de encantamentos e vocalizações das coisas da terra e a teurgia, o mesmo processo ligado às coisas e criaturas do céu (principalmente os Anjos de Deus).

E por último, entendo por Misticismo, a prática dirigida a comunhão interna com Deus, sem intermediários, que busca a integração e a fusão com a vontade divina em nosso próprio coração, e não fora de nós.

Há escolas que são mais esotéricas que místicas, mais místicas que esotéricas, ou mais ocultistas que místicas.

A ordem Maçônica já teve momentos históricos diferentes.

Do ano mil até o evento dos maçons aceitos (a partir da diminuição de prestígio e dos recursos financeiros da corporação dos pedreiros de Londres com o incêndio da cidade e a perda do monopólio da construção de catedrais, conseqüência da instauração da república protestante de Oliver Cromwell, com a conseqüente diminuição do tamanho das igrejas) a maçonaria tinha um caráter altamente esotérico, pouco ocultista e nada místico.

Com a instauração da maçonaria aristocrática, por volta de 1717 até 1789, quando se transforma em especulativa, a ordem maçônica vive um período ainda altamente esotérico, francamente ocultista com algumas pinceladas de misticismo.

De 1789 para cá, o que se viu foi o desaparecimento progressivo do aspecto esotérico, com a publicação aceita e aplaudida pelos líderes maçônicos de vários textos sobre maçonaria, dando detalhes precisos de seu funcionamento interno (haja visto, como exemplo, existir uma editora especializada nestas publicações) livros os quais são encontrados em qualquer livraria profana, em qualquer shopping, em qualquer banca de jornal.

Existem irmãos de maçonaria que inclusive tornaram-se especializados nestas publicações , como é o caso de Rizzardo Da Camino, autor gaúcho.

Nem por isso tiveram a garganta cortada ou foram expulsos por terem violado o sigilo que juraram preservar.

Além de perder seu caráter esotérico, a maçonaria abandonou as práticas ocultistas quase totalmente, por não serem mais compatíveis com a racionalidade moderna ou com os objetivos modernos da Ordem.

Por último, a Ordem maçônica também não tem mais um caráter místico. A referência ao GADU, que norteia nossas reuniões revestem-se mais de um aspecto quase religioso, de respeito a algo externo a nós, do que a busca de algo interior.

Atualmente, ao ir a Loja, o maçon vai em busca da fraternidade, da igualdade e da liberdade do convívio entre irmãos, mas não em busca da espiritualidade relacionada, por exemplo, à busca do sufista ou do monge.

Nada impede que um ou outro membro da Ordem tenha características espirituais mais exaltadas, ou interesses em ocultismo ao estilo dos trabalhos de Eliphas Levi, mas deverá trilhar um caminho individual e nada na prática coletiva maçônica moderna o ajudará neste caminho.

Talvez por isto mesmo, pela progressiva perda de interesse dos próprios membros da ordem, os símbolos do templo, principalmente aqueles de mais alto caráter ocultista, tornem-se aos poucos mais e mais ilegíveis para os irmãos que vão aos rituais e mesmo invisíveis, para a maioria.

Isto tudo para minha tristeza como de nobres irmãos já no Oriente Eterno, como Nicolas Aslan, minha referência constante.

CERIMÔNIA DE INCENSAMENTO


Texto de PEDRO NEVES

O incensamento é muito importante nas reuniões maçônicas, deve-se fazê-lo de forma ritualística.
As Lojas têm deixado de lado esta importante cerimônia de incensamento, acreditamos, por falta de um irmão que saiba manusear o turíbulo. Uma grande parte jamais assistiu uma cerimônia de incensamento e ignoram a sua benéfica prática.

A oficina possui um campo magnético cheio de vibrações mentais e espirituais, que na abertura ritualística partem do V.’. M.’. , para os oficiais Que vão sendo nomeados, voltando ao V.’. M.’. e se espalhando por todo o ambiente ( veja abertura ritualística: V .’. , 1º e 2º Vvig .’. , Or .’. , Sec .’., G.’. Tem.’. , M.’. Cer.’. ). 

Desde a mais remota antiguidade, em cerimônias de caráter religioso e iniciático, o incenso tem sido utilizado. A sua fumaça é anti-séptica, atuando no meio físico e psíquico, propiciando uma enlevação espiritual. Por isso, devemos fazer o incensamento em todas as reuniões.O odor agradável representa para nós, o Divino, o humano e o material. É então, que se forma a grande cadeia universal, da qual cada irmão é um elo, entrando em ação e formando uma força fabulosa, que só muito poucos têm a felicidade de perceber e sentir. Os oficiais da Loja devem ocupar decente e corretamente seu lugar, com respeito e recolhimento, não podem titubear, não podem errar, têm que estar preparados para exercer o cargo com desenvoltura, para que se possa fazer uso de uma força capaz de operar maravilhas, é quando a egrégora da Loja junta-se à Gr.’. Loj.’. eterna, O irmão que tem mais energia dá aos que têm menos e estes a recebem dos que têm mais. É assim que funciona quando utilizamos a B .’. P.’. Inf.’. e o Tron.’. Sol.’. , elas também servem para harmonizar o ambiente energético. Só então, estaremos prontos para praticar uma reunião, pura, fraterna, tolerante, com amor.

Estando todos irmãos de pé em seus lugares, sem estarem à ordem, e com as mãos sobre o 4º chacra, o do coração e, antes da abertura ritualística dos trabalhos com preparação do ambiente, devendo-se utilizar música apropriada, suave e terna, o ir.’. turiferário se aproxima do trono, e a autoridade ou V .’. M.’. , que estiver presidindo os trabalhos, magnetiza o incenso com uma elevação de pensamentos ao G .’. A .’. D .’. U .’. e coloca três colherinhas de incenso no turíbulo, sobre as brasas de carvão vegetal. O turiferário segura o turíbulo no meio das correntes com a mão direita, mantendo as pontas das correntes com a mão esquerda, dá um passo para traz e faz uma vênia para a autoridade que a retribui, sendo então incensado por três ictos por três x três jatos ( ... ... ... ), ou três oscilações triplas, com a correntes curta e o turíbulo oscilando ao nível dos olhos, baixando um pouco depois de cada 3ª oscilação. Em seguida o turiferário balança o turíbulo em forma de V, com três longos e solenes balanceios, à direita e à esquerda do trono (alternadamente ). Depois, faz sete círculos sobrepostos, a começar do pé do altar com o maior e vai diminuindo os seus tamanhos, de modo a terminar o 7º à altura dos olhos do V.’. M.’. . Saúda-o e se dirige ao A .’. J.’., incensando no meio o L .’. L.’., prossegue sempre balançando o turíbulo em círculos até o altar do 1º Vig .’. sempre saudando antes e depois do ato, e repete o que fez em frente ao V .’. M .’., mas, só com sete oscilações ou ictos ou jatos ( ... ... . ), indo logo após ao altar do 2º Vig .’., agido da mesma maneira, mas com cinco oscilações ( ... .. ), indo então em seguida, ao Or .’. Séc .’. e G .’. Tem .’. M .’. Cer .’. , procedendo da mesma maneira, mas, com três oscilações para cada um. Logo após vai ao Oriente e também com três oscilações, incensa conjuntamente todos que estão à direita do V .’. M .’. e logo a seguir os que se encontram à esquerda. Do oriente vira-se para Coluna do norte e incensa a todos em conjunto por três vezes, e em seguida a todos da coluna do sul. Ao final coloca o turíbulo no A .’. P .’. .

Em uma Loja Maçônica, cada oficial e irmão, representam diferentes planos da natureza e suas peculiares energias. Deste modo, quando se trocam perguntas e respostas na abertura ritualística, elas servem de invocação ao Devas ou Anjos de cada plano operante. A ritualística na Loja aberta, serve para trilharmos simbolicamente a senda da evolução, e devemos vibrar harmonicamente em relação uns com os outros, As respostas têm a virtude de chamar a atenção em todos os diferentes reinos da natureza e fazer com que os Devas, espíritos da natureza e elementais, saibam que vão deparar com nova e favorável oportunidade de ação. Quando o V .’. M .’. ,fala ao oficial, como nas perguntas da abertura, uma corrente de força, parte do Oriente, flui dele para a aura daquele a quem se dirige, e toda a força volta em direção ao Oriente e retorna ao seu curso, para o altar. Deste modo, quando se trocam perguntas e respostas, toda a Loja pulsa com a vida elemental que esta ansiosa para se lançar ao trabalho. Cada grupo com sua cor peculiar pairando sobre a cabeça do oficial que o representa no mundo físico. Por meio destes Devas representativos dos vários oficiais, é construído o edifício e se infunde energia. O efeito do incensamento é alisar e limpar a Aura. Assim, essas entidade prorrompem em febril atividade ( como as miríades que sobem e descem em um centro espírita, ou as potestades, querubins e serafins, em uma igreja ). Sempre que alguém hesita em seu papel ( ou erra ), surge certa instabilidade nos trabalhos. Perturba-se a atmosfera mental dos presentes, quando há pausa ou interrupção na execução das funções dos cargos. Daí, a necessidade de cada um desempenhar corretamente sua parte no ritual. Buscamos energias, não só para os presentes, como também para toda a HUMANIDADE.


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PEDRO NEVES – M .’. I .’. – GR .’. 33 
PÉRICLES NEVES .'. M .'. I .'. GR .'. 33
site maçônico
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BIBLIOGRAFIA:
Elaborado após diversas pesquisas em : 
Livros, Jornais, Revistas, Artigos, Trabalhos


Pedro Neves




A LINGUAGEM DOS DEUSES

                                                                                                                         Texto de João Anatalino

Cabala e Maçonaria

A Maçonaria é um instituto cultural que agasalha muitas influências. Gnose, alquimia, teosofia, filosofia neoplatônica, a mística rosa-cruciana, o pensamento iluminista e principalmente temas bíblicos, ora tratados de uma forma alegórica operativa, na linguagem herdada dos antigos construtores medievais, ora desenvolvidos numa linguagem mística, segundo a tradição cabalística. 
A Cabala é um sistema de linguagem desenvolvido pelos estudiosos da religião judaica para interpretar a Bíblia e desvendar os grandes segredos contidos na palavra de Deus, que no entender dos mestres dessa religião, esse formidável monumento literário que os judeus legaram ao mundo, encerra.

Ela se fundamenta na idéia de que o alfabeto hebraico constitui uma forma de escrita que vem de um mundo superior ao nosso, pois foi desenvolvida para fins de comunicação entre Deus e os seus agentes, os mestres construtores do universo, assim entendidas as Ordens angélicas surgidas em cada uma das etapas de manifestação da Essência Divina nos quatro mundos da sua ação criadora. Segundo Rosenroth, “a Kabbalah foi delineada por Deus, para um grupo de seletos anjos que formavam uma escola teosófica no Paraíso. Depois da queda, os anjos mais graciosos comunicavam sua doutrina celestial aos filhos desobedientes da Terra, para fortalecer o protoplasma com os significados que assinalariam o caminho de regresso à sua pristina nobreza e felicidade.” [1]

Percebe-se nessa visão, que Cabala são ramos de uma mesma árvore, pois segundo Anderson escreveu em suas Constituições, a Maçonaria foi estabelecida por Deus, no paraíso, e dali, após a queda, teria sido espalhada pelo mundo, através do filho caçula de Adão, Seth.[2] 

Um código secreto

Segundo a tradição, esses “anjos mais graciosos” ensinaram a Cabala a alguns homens na terra, escolhidos especialmente por Deus para receber essa sabedoria, com a qual a própria humanidade pode contribuir para a tarefa de construção do mundo planejado pelo Criador. Daí o termo “Cabala” significar, numa tradução livre, “tradição recebida”, pois o seu conteúdo semântico, inacessível ao vulgo, só pode ser comunicado a alguns iniciados. Nesse sentido ela seria uma espécie de código secreto, uma escrita sagrada, cujo conteúdo não deve ser revelado aos profanos.

Diz-se que os sons e os valores numéricos desse alfabeto, devidamente combinados, formam palavras e signos que contém as grandes verdades físicas e espirituais que formatam o universo em todas suas partes, sejam elas materiais ou espirituais. Conhecer cada combinação e seus significados é o grande ensinamento dessa tradição. Daí a Cabala ter desenvolvido uma semiótica própria, cujo entendimento, por parte dos não iniciados nessa disciplina, parece ser inacessível. Na verdade o que se observa na Cabala é muito mais a utilização de um sistema de comunicação, próprio das culturas orientais, que apela para o uso frequente de metáforas e signos para dar significado aos conteúdos mais profundos da mente humana, que a linguagem cotidiana não consegue representar. Por isso a Cabala só pode ser estudada e absorvida através do chamado método iniciático, no dizer de Ouspensky,[3] ou o método fenomenológico, utilizado por Teilhard de Chardin na composição de suas obras.[4] Pois é somente através de uma pesquisa que integre as descobertas da ciência na física, na química e na biologia com a capacidade inata do espírito humano para gerar intuições, que se pode entrar no universo cabalístico com alguma luz que nos permita “sentir” as grandes verdades reveladas por essa tradição.[5]

A linguagem da Cabala

Fulcanelli também faz referência á uma Cabala fonética, que segundo esse autor era utilizada na Idade Média pelos habitantes de Paris e principalmente pelos artistas, artesãos e maçons operativos para se comunicarem entre si, numa linguagem só inteligível á pessoas pertencentes ás suas Confrarias. Esse tipo de Cabala fonética era uma espécie de gíria que combinava palavras existentes na língua francesa, criando termos completamente estranhos á linguagem vernacular, com significados muitas vezes simbólicos, de conteúdo esotérico, que veiculavam ideias cujo sentido não devia ser revelado ao homem comum. Era também uma linguagem codificada, destinada a transmitir informações cifradas, que somente a determinados grupos interessava comunicar.

Ao se referir ao estilo de arte gótica, que se expressa na arquitetura das grandes catedrais medievais, Fulcanelli diz também que essa arte é “uma deformação ortográfica da palavra argótica cuja homofonia é perfeita, de acordo com a lei fonética que rege, em todas as línguas, sem ter em conta a ortografia, a cabala tradicional. A catedral é uma obra de art got ou argot”, afirma esse autor. Ou seja, uma arte cabalística por excelência.[6] 

É nesse sentido que esse tipo de Cabala interessa aos maçons, já que sua arte, a Maçonaria, também se vale dessa simbologia muito particular, que é veiculada atráves de uma linguagem específica. Esse tipo de linguagem, que segundo o autor em questão, era a lingua dos mestres maçons que construiam as catedrais, era também a lingua dos alquimistas, dos mestres cabalistas e dos artistas em geral. Eles formavam, nesses antigos tempos, uma comunidade que cultivava um espirito diferente, rebelde, livre da dogmática conformadora que a Igreja impunha á mentalidade medieval. “Todos se exprimiam em argot; tanto os vagabundos da Corte dos Milagres─ com o poeta Villon á cabeça ─ como os frimasons ou franco-maçons da Idade Média “hospedeiros do Bom Deus”, que edificaram as obras primas que hoje admiramos”, escreve Fulcanelli, mostrando a importância desse elemento de cultura na construção do espírito de uma época. [7] E segundo o mesmo autor, essa forma de falar e escrever não era apenas uma brincadeira, um jogo de palavras, mas em tudo isso havia uma verdadeira ciência, uma capacidade inata, prodigalizada aos homens pelo próprio Criador, para exprimir sua sabedoria. Porque, fora disso,“a soberania que ele possui sobre tudo que vive, perde a sua nobreza, a sua grandeza, a sua beleza e não é mais que uma aflitiva vaidade.” [8]

As fórmulas cabalísticas

A linguagem tem uma grande importância na estrutura da Cabala, pois esta, enquanto construção linguística é baseada em três processos originais, conhecidos como gematria, notaricom e temura. A gematria consiste em aproximar duas palavras que tem o mesmo valor numérico no alfabeto hebreu. Como nesse alfabeto cada letra corresponde a um número, as palavras formadas com as diferentes letras representam também um determinado valor e um significado, que variam segundo esse valor.
Assim, diversas palavras, formadas com as mesmas letras, podem ter diferentes significados. As letras da palavra Abraão, por exemplo, corresponde ao número 248, que também têm o mesmo valor numérico das palavras misericórdia, piedade, sabedoria. Dessa forma, quando a Cabala se refere á alguém como sendo um “Abraão”, isso significa que esse alguém é sábio, misericordioso, piedoso, etc. Da mesma forma, as letras da palavra escada equivale ao número 130 e corresponde em valor numérico, ás palavras Sinai, subida, ascensão. Assim, subir o Monte Sinai, como fez Moisés, significa ascender até o Senhor. 

Baseado nessa transposição, vários autores maçons deduziram que o significado do sonho que o patriarca Jacó teve assumia uma noção de escalada iniciática, de ascensão espiritual, aperfeiçoamento contínuo, etc. Essa alegoria, nos graus superiores da Maçonaria é utilizada para representar a passagem do iniciado pelos diversos graus de elevação no catecismo maçônico. Esse simbolismo, conhecido entre os maçons comoEscada de Jacó, é uma das mais significativas alegorias da Maçonaria. 

Já o notaricom é uma fórmula que permite construir palavras novas a partir das letras iniciais ou finais de uma frase. Também serve para construir frases inteiras a partir de uma só palavra, à semelhança de um acróstico na arte da poesia. Essa fórmula proporciona aos cabalistas uma imensa profusão de construções linguísticas e um arsenal extremamente rico de interpretações da Bíblia. Com muita propriedade, Rosenroth observa que essa técnica foi manipulada com extrema habilidade pelos cabalistas cristãos para tentar provar aos judeus que Jesus era de fato o Messias das escrituras. Ele dá como exemplo de construção teológica cristã, feita com a técnica do notaricon, uma tese desenvolvida por Prosper Rugers, judeu cabalista que abraçou o Cristianismo e passou a vida tentando converter outros judeus á nova fé. Com a palavra Bereschit, que é a primeira palavra do Gênesis, ele criou várias outras palavras, construindo com elas frases inteiras, para provar aos judeus que essa palavra, que significa Criação, na verdade se referia a conceitos defendidos pela teologia cristã, ou seja, que a vinda de Jesus já estava prevista nas primeiras frases da Bíblia, que se referem á criação do mundo.[9]

Quanto à técnica denominada temura, esta consiste na substituição de uma palavra, ou letra, por outra, de acordo com as combinações alfabéticas denominadas tsirufim. Temura significa permutação e de acordo com as regras estabelecidas para o uso dessa técnica, uma letra é substituída por outra que a precede ou antecede no alfabeto, para formar uma palavra a partir de outra palavra, distinta tanto em ortografia quanto em significado. Rosenroth nos dá como exemplo de expressões linguísticas formadas pela técnica da temura as palavras ben (filho), ruach (espírito), berackhah(benção), todas obtidas por transposição de letras da palavra bereschit(criação, princípio).[10]
Assim, pelo uso de uma dessas técnicas, ou da combinação entre elas, a palavra hebraica Gan Éden (jardim do Éden), por exemplo, pode assumir significados diferentes, tais como gouf (corpo) nefesh (alma), etsem(ossos), daath (ciência), netsah (eternidade) etc..[11]
Destarte, de acordo com esses métodos de construção linguística, há uma Bíblia que pode ser lida por qualquer pessoa alfabetizada e outra que só pode ser entendida pelos iniciados. É nesta última que está oculta a verdadeira sabedoria (daath), ou seja, aquela ciência que foi transmitida de forma oral á Abraão e confirmada pela transmissão á Moisés, no Monte Sinai, quando Jeová lhe ditou o Decálogo e os demais preceitos contidos na Torá. 
É nesse sentido que os Dez Mandamentos escritos nas tábuas da lei e todas as demais prescrições do Deuteronômio, inclusive as estranhas leis sobre higiene e alimentação que fazem parte dos costumes judaicos não são meras idiosincracias medradas pelo inconsciente de um povo supersticioso e chauvinista, como alguns autores antissemitas propagam. Tratam-se, na verdade, de prescrições ditadas por intuições longamente testadas empiricamente e crenças ancestrais rigorosamente observadas em milênios de prática social e religiosa.
Por isso, cada palavra, cada símbolo, cada alegoria, cada parábola, cada nome, na língua hebraica, e por consequência, na doutrina cabalística, tem o seu significado literal e outro, de natureza iniciática, que encerra um conhecimento de fundo esotérico ou moral. [12]

Cabala Operativa e Cabala especulativa

Historicamente, a Cabala é trabalhada em duas vertentes. A primeira é aquela que nasceu da necessidade de os judeus criarem uma forma de linguagem que servisse de defesa contra o acirrado antissemitismo que se desenvolveu contra o povo de Israel desde as suas origens. Essa rejeição é derivada do fato de os israelitas terem se afastado do convívio com outros grupos em razão das suas crenças um tanto elitistas e de certo modo, chauvinistas, que situam o povo de Israel como um povo especial, eleito por Deus para ser uma espécie de modelo para a humanidade. 

Esse tipo de Cabala, que pode ser chamado de prática ou operativa, hospedava, em princípio, um sistema de alta magia, que tinha por objetivo a invocação dos poderes do mundo sobrenatural para realizar os desejos do operador. É nesse contexto que se situam os milagres, as visões e profecias realizadas pelos antigos profetas do Velho Testamento e as famosas lendas cabalistas que atravessaram séculos e que ainda hoje povoam a imaginação das pessoas, servindo inclusive de fonte de inspiração para formidáveis trabalhos literários.[13]

Mais tarde surgiu outro tipo de Cabala, que podemos chamar de filosófico ou especulativo. Este tipo inspirou um sistema de pensamento e uma disciplina de conduta moral que foram desenvolvidos por um grupo de filósofos, a maioria de origem judaica, a partir do século XII da era cristã, provavelmente na região do Languedoc francês. Embora a temática desse tipo de Cabala aparecesse somente na Idade Média, e seu conteúdo tenha sofrido uma larga influência da Gnose, as raízes dessa doutrina estão fincadas em uma antiga tradição já encontrada entre os rabinos dos tempos bíblicos e utilizada principalmente por grupos sectários judeus nos séculos anteriores ao nascimento de Jesus Cristo. Pode também ser recenseada em obras de escritores esotéricos cristãos nos primeiros séculos do Cristianismo, que a usaram para disfarçar a pregação da doutrina de Jesus, então posta na clandestinidade pelas autoridades judaicas e romanas. 

Um exemplo dessa literatura cristã clandestina, escrita em linguagem simbólica, abusando largamente de fórmulas cabalísticas é o Apocalipse de São João. Essa curiosa obra, que foi escrita para divulgar a doutrina cristã ás Sete Igrejas da Ásia, até hoje desafia a argúcia dos estudiosos, em face da estranha simbologia usada pelo autor. Nessa obra, um dos mais significativos exemplos da técnica cabalística aplicada na linguagem é a que o autor utiliza para designar a enigmática figura da Besta. “E aqui está a sabedoria. Quem tem inteligência calcule o número da Besta. Porque é número de homem. E o número dela é seiscentos e sessenta e seis”, escreve o autor. Esse número (666), correspondia, usando-se a técnica da gematria, ao nome do imperador romano Nero, que justamente na época em que o autor escrevia o Apocalipse havia desencadeado uma feroz perseguição aos cristãos em todos os territórios dominados por Roma. [14]

Entretanto, parece que o uso da Cabala como linguagem de código foi popularizada mesmo pelos essênios, seita judaica radical, que entre os séculos I e II antes do nascimento de Jesus se afastou do convívio social para viver a sua crença em um final apocalíptico para este mundo e a construção de um mundo novo, liderado pelo Messias. Essa seita, cujos documentos foram recentemente recuperados em cavernas situadas ás margens do Mar Morto, é tida como a verdadeira inspiradora do Cristianismo, pois suas doutrinas muito se aproximam daquelas pregadas por Jesus e principalmente por aquele que é considerado como seu verdadeiro mentor, o profeta João Batista.[15]

Uma forma de Gestalt

Como explica Northrop Frye, “há, no Velho Testamento, uma concepção de linguagem que é poética e “hieroglífica”, não no sentido de uma escrita de sinais, mas no sentido de se usarem as palavras como um tipo particular de sinal.” [16] Quer dizer, há, na própria Bíblia, uma visão semiótica toda particular que nos sugere diferentes interpretações para uma mesma palavra, ou de uma frase, que não podem ser conformadas em um único significado.

Destarte, muitas palavras, que na linguagem comum significam uma coisa, na linguagem usada pelos autores desses antigos textos significam coisas muito diferentes, que só podem ser devidamente descodificadas se postas no exato contexto em que viveram os seus autores e recenseadas as suas relações de sentimento e interação com o ambiente e os acontecimentos que fizeram parte da experiência que eles relatam. Referindo-se ainda ao estudo do autor acima citado, verifica-se que nas sociedades antigas há uma interação mais estreita entre o sujeito e o objeto, no sentido de que a ênfase do sentimento experimentado pela pessoa recai mais sobre a relação que a liga ao ambiente do que na própria observação do sentimento em si, coisa que só começou a acontecer depois da experiência grega. Essa característica do pensamento antigo também foi explorada por James Frazer em seu estudo sobre as tradições dos antigos povos, quando se refere ao sentimento do homem primitivo em relação aos seus deuses. É uma relação de simbiose, no sentido de que o homem primitivo não possui um “self” bem desenvolvido, ou seja, um sentimento de si mesmo, independente da divindade que ele cultua. Essa noção, como bem viu esse autor, só seria desenvolvida mais tarde, já nos tempos históricos, pelos gregos, com a cultura do pensamento filosófico. [17]

É nesse sentido que Frye explica o fato de que “muitas sociedades primitivas possuem palavras que expressam essa energia comum á personalidade humana e á natureza circundante e que são intraduzíveis em nossas categorias e correntes de pensamento. (...”). “A articulação das palavras pode dar corpo a este poder comum; daí emana uma forma de magia, em que os elementos verbais, como fórmulas de “feitiço” ou encantamento, ou coisas parecidas, ocupam um papel central. Um corolário desse princípio é o de que pode haver magia em qualquer uso que se faça das palavras. Em tal contexto, as palavras são forças dinâmicas, são palavras de poder.” [18]

O autor em questão cita, á guisa de exemplo, a palavra maná, ou mana, que em Êxodo, 16, aparece como sendo uma espécie de pão que Jeová faz cair do céu para alimentar o faminto povo de Israel no deserto. Essa palavra (man, maná, manes, em várias línguas antigas), refere-se á uma força, ou energia, que se encontra concentrada em objetos ou pessoas e que pode ser adquirida, conferida ou herdada. Na mitologia romana, por exemplo, esse termo conecta-se com o termo “manes”, palavra que designa a influência que os ancestrais mortos podiam exercer sobre os vivos. No Egito antigo falava-se de Menes, que segundo a tradição teria sido o primeiro rei da unificada nação egípcia. Os historiadores suspeitam, no entanto, que esse Menes está conectado com a lenda de Osíris, o deus que teria instituído a civilização entre os egípcios, sendo, portanto, a representação de uma força natural, ligada á importância que o sol, ou o rio Nilo, tinha para esse povo, e não á um personagem histórico.

A Cabala, portanto, é uma forma de Gestalt, ou seja, uma forma de ver o mundo e explicá-lo a partir de um simbolismo todo particular. Reflete o pensamento dos escritores e comentadores da Bíblia, que intuem nas estranhas visões dos profetas bíblicos uma descrição dos planos de Deus para a construção do edifício universal.

O interesse para a Maçonaria

Essa é a visão que interessa á Maçonaria, tradição que integra em sua mística a ideia que o universo é pensado por um Grande Arquiteto e construído pela ação de seus mestres, os arcanjos, e pedreiros, os homens. E escudada nessa visão, desenvolveu um sistema de pensamento e uma prática de vida que vêm deixando indeléveis marcas na história da humanidade. Sócias do mesmo projeto de desenvolvimento espiritual, Cabala e Maçonaria comungam do mesmo simbolismo iniciático e da mesma proposta cultural. Por isso interessa ao maçom conhecer um pouco mais dessa importante tradição de origem judaica, para entender a própria arte em que ele se propôs iniciar. 

[1 A Kabbalah Revelada, pg. 26.
[2]James Anderson- As Constituições- Ed. Fraternidade, 1982.
[3] Piotr Demianovitch. Ouspensky - Um Novo Modelo do Universo, São Paulo, Ed. Pensamento, 1928. Método Iniciático é aquele que proporciona ao estudante das ciências ocultas uma fórmula para estudar o pensamento místico.
[4] Pierre Teilhard de Chardin - O Fenômeno Humano, Ed. Cultrix, 1968. O método fenomenológico de Teilhard de Chardin proporciona ao estudante a possibilidade de entender o mundo como resultado de uma evolução que se processa “por dentro” (espírito) e “por fora” (matéria), por força de dois movimentos existentes na energia. Esses movimentos são o de expansão e de compressão. Quer dizer, o mundo da matéria é formado pela combinação dos átomos (expansão energética) e o mundo espiritual é formado pela compressão da energia em espaços cada vez menores (complexidade-pensamento).
[5] “Sentir” e não entender, pois a experiência cabalística, como a maçônica, é algo que só pode ser absorvida pelos sentidos e não pelo intelecto.
[6] Fulcaneli- O Mistério das Catedrais, Ed. Esfinge, Lisboa, 1964.
[7] Idem, pg. 57
[8] Ibidem, pg. 58
[9] A Kabbalah Revelada, op.citado, pg. 28. A partir da palavra Bereschit (Criação) ele deduziu as frases Ben Ruach Ab Shaloshethem Yechad Themim (O Filho, o Espírito, o Pai, Sua Trindade, Perfeita Unidade); Bekori Rashuni Asher Shamo Yeshuah Thaubado(Adorais meu primeiro-nascido, meu unigênito, cujo nome é Jesus).
[10] A Kabbalah Revelada, op. citado, pg. 32.
[11] Paul Vuliou, citado por Alexandrian, História da Filosofia Oculta, pg. 81 
[12] Assim, Abrão, um nome comum entre os caldeus, ao ter acrescentado um “a” ao seu nome, torna-se Abraão, o “Pai de uma multidão”. Êxodo, 17:4.
[13] Exemplos de temas cabalísticos em obras literárias famosas são as lendas do Golém, que inspiraram a escritora inglesa Mary Shelley na composição do seu clássico romance Frankeinsten. Outras obras, como o Aleph, famoso conto de Jorge Luís Borges, o Golém de Gustav Meirink, e mais recentemente, As Aventuras de Pi, filme vencedor do Oscar em 2012, baseado no romance de Yann Martel, também são inspirados em temas cabalísticos.
[14] Ver, a esse respeito Hugh Schonfield- A Bíblia Estava Certa- Ibrasa, São Paulo, 1958.
[15] Para maiores referências sobre a seita dos essênios e sua influência na história do pensamento maçônico, ver nossa obra “Conhecendo a Arte Real”, publicada pela Ed. Madras, São Paulo, 2009.
[16] Northrop Frye- O Código dos Códigos, Ed. Boitempo, São Paulo, 2004.
[17] Sir James Frazer, “ O Ramo de Ouro”- Zahar Editores, São Paulo, 1982.
[18] Northrop Frye, O Código dos Códigos- citado, pg. 27. Quer dizer, o homem só tomou consciência de si mesmo a partir do momento em que começou a refletir sobre o seu próprio ser. Esse momento, que ocorreu com a civilização grega, pode ser expresso na frase de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”.

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 10/06/2016 
Alterado em 10/06/2016