sábado, 4 de junho de 2016



Tradução José Filardo

– por Marie-Dominique MASSONI


As Núpcias Sagradas

O desejo feminino alimenta, desde a noite dos tempos, uma literatura abundante onde o fascínio, horror e condenação conduzem uma estranha dança, refletindo uma concepção ancestral das nossas sociedades tendo confinado a mulher a um papel único, o da maternidade e de assistência alimentar, negando-lhe qualquer capacidade de pensar o mundo e agir sobre ele. O imaginário coletivo, assim, opôs homens e mulheres em seus atributos até na sua privacidade. Uma visão destruidora, se não simplista, ao contrário do ideal da unidade procurado por todos os maçons. O iniciado, desde os primórdios do seu compromisso e ao longo do seu percurso vai tentar trazer para fora o seu eu interior. Essa busca que pode ser comparada ao nascimento, não pode, então, ser considerada simbolicamente uma libertação do conteúdo feminino em cada um de nós, homens e mulheres?

A mulher receptáculo da procriação

Sócrates comparou-se à sua mãe Fanarete, cujo trabalho era ajudar as mulheres em trabalho de parto, o que permitia a cada um dar à luz suas análises e avaliar sua viabilidade. No Theaetetus, quem quer filosofar é comparado a quem quer nascer. Infelizmente, este nascimento do pensamento foi negado às mulheres até o século passado, como se o futuro da mulher se resumisse desde a antiguidade, em última (ou primeira) instância aos mesmo estereótipos de reprodução da espécie. O logos poderia não ser viril? Existe ele sem pensamento de dominação? De acordo com Kierkegaard, qualquer mulher que se atreva a pensar se masculinizaria. “A mulher explica o finito, o homem persegue o infinito. (…) Devido a que ela explica o finito, a mulher é a vida mais profunda do homem, mas uma vida que deve ser escondida e secreta, como é sempre a vida da raiz. E é por isso que eu odeio todas as propostas abomináveis sobre a emancipação das mulheres”. *

No entanto, pode ser que os homens que apresentam tais propostas tenham concentrado uma parte importante da sua visão das mulheres sobre seu próprio desejo pelo feminino; e seu poder de dar à luz, relíquia, quem sabe, de tempos mais antigos quando não se sabia nada sobre o papel do homem na fecundação. Quaisquer que sejam as antigas teorias, todas, de fato, estipulam que a mãe é somente o lugar de gestação, não um dos agentes da concepção. Não foi senão até o final do século XVII e no século XVIII, com as obras de Spallanzani, que as teorias de Aristóteles – que nunca tinham sido contestadas – provaram ser falsas.

Feminino e alquimia

Na Maçonaria e graças a ela, as mulheres assumem assim como os homens na medida de seus campos de possibilidades. A entrada delas na ordem iniciática certamente não foi fácil. Quem não ouviu falar que a mulher não devia ser iniciada porque ela o é naturalmente quando dá à luz? Dar à luz seria expor a sua parte do feminino? E seriam assim criadores, poetas, ou ainda o candidato quando ele cruza o limiar do templo, quando ele dá à luz a si mesmo, nada vendo como um recém-nascido e tendo a necessidade de ajuda e assistência uma parteira para orientar a sua entrada na vida?
A questão da geração, da gravidez, do parto, da colocação no mundo de um outro ser ou a si mesmo pode, no entanto, levar a uma série de reflexões, de perguntas e respostas diversas, contraditórias, de homens bem como de mulheres. A questão da iniciação como auto nascimento pode nos permitir começar a nos aproximarmos do trabalho do feminino em cada ser humano. Nesse lugar, a alquimia serve de guia, mesmo porque a sua bela iconografia mostra um outro feminino completamente diferente daquele que mencionamos acima.

O que é geralmente associado ao feminino é mais frequentemente receptivo, passivo, fluido, indescritível, imaginativo, silencioso demais e falador demais e, além disso, degradado, espelhado, caindo em repetição, em reprodução. O homem engendra assim o masculino. O pensamento, a busca, a conquista, a responsabilidade política e social surge, assim do masculino. O feminino é, no entanto, uma terra fértil, nutritiva. Para os gregos, os homens enfornavam o pão na barriga de suas esposas. As associações masculino-dominante e feminino-dominado são decalcadas sobre os papéis sociais. Na alquimia, o mercúrio é certamente fugidio, inquieto, e também bastante receptivo; pode ser suave, passivo, mas é também violento. As duas naturezas lutam e se esposam para se transformar no “Rebis” a coisa dupla. Estamos aqui a anos-luz das teorias de Aristóteles! Os textos da Cabala e os do Zohar nos ajudam também a compreender o jogo do masculino e do feminino em cada ser, e o entendimento do fato de que o que é percebido sob um desses qualificativos assume a qualidade oposta, de acordo com sua situação. A Maçonaria nos habituou a tais reversões de perspectiva, preparando lentamente a união dos opostos.

O método maçônico, progressivo, deveria, no entanto, permitir a cada um chegar até si mesmo para que sua Eurydice retorne à luz e que possam ter lugar as suas núpcias sagradas. Mas a estrada é longa e perigosa. Ela começa na “loja mãe”. Uma bela imagem que revela a função maternal da assembleia de maçons. Eu li poucos trabalhos sobre a aparição do trigo novo, saindo da terra como Perséfone na primavera, esperado, observado, aguardado por cada membro da loja desde que sua candidatura foi aceita, e sobre o tremor que percorre a assembleia presente no templo quando ele se prepara para ouvir suas primeiras e últimas palavras, escritas durante a sua passagem pela terra mãe. A emoção (ainda considerada uma qualidade de pouco interesse) assume um sentido forte, porque cada um colocou-se em movimento interior em direção à promessa trazida pelo neófito. É o que Levinas chama de “a movimentação das entranhas da maternidade”; cada um a vive, seja homem ou mulher. Quando o Rosto nu se dá a ver, impotente e luminoso, à mercê de todos em sua luminosa confiança, não é incomum ver um ou outro irmão enxugar uma lágrima. A loja colocou no mundo um novo elo na cadeia maçônica, que será por vezes criado, recebido, constituído maçom, irmão, irmã, “filho da viúva.” Sem emoção não é humano, mas petrificação cadavérica. O crânio de Orfeu fala …

Procurar seu feminino exige ir humildemente em direção si mesmo, ao mais fundo, silenciar sua racionalidade, seu espírito dedutivo, empreender vias menos seguras, enfrentar seus preconceitos, atrever-se a tomar os caminhos da analogia, aceitar ir ao encontro de seu irracional, pousar armas e bagagem, e toda armadura desfeita para dizer e se atrever a dizer voltando-se para seus irmãos: “Aqui estou” assim como em mim mesmo o feminino me muda.

Certos símbolos são qualificados como femininos por alguns, ao passo que outros provocam clamor. Outros (por vezes, os mesmos) celebram as virtudes mais altas, o funcionamento da razão mais cortada de mentiras e interpretações delirantes dos humanos, mas eles são capazes de secretar o oposto: a fé transformada em baixa credulidade ou fanatismo assassina seus heréticos, a força torna-se loucura mortal e, por vezes, metódica, enquanto a razão, simbolizada pela luz solar se junta a ela. Uma parte essencial da viagem iniciática nos ensina a perceber o verso e reverso de símbolos, palavras e gestos, e sua colocação em dinâmica na colocação dos signos em ação.

Por muito tempo confundimos feminilidade e passividade. Ao masculino são dedicadas as categorias relevantes da atividade, o dom da semente; ao feminino a passividade, o recebimento da semente; consequentemente, o homem seria ativo e a mulher passiva. Teremos que fazer um desvio através da história e mitos gregos, um outro pelo hermetismo para mostrar que a questão é um pouco mais complexa. O feminino sem cessar se diz passivo, receptivo, talvez mais ativo que o masculino; e a atividade, voltada para o interior, pode parecer passividade a quem não a vê!

Tomemos a lua. Os clichés que se relacionam a ela, do lunático ao sonhador, passam por uma visão pejorativa de instabilidade. No entanto, a alquimia indica a necessidade do mercúrio. Se ele não é encontrado, se fugir, nenhum trabalho poderá ser considerado. Aqui, o feminino não é reduzido às únicas características de clichés, ele pode ser ativo, violento, como Artemis poderia ser.

Do setentrião, geralmente considerado como a ordem do feminino, porque não recebe luz solar direta, Guy-Rene Doumayrou lembrou a etimologia septem triones, os sete bois do trabalho. Cada um deve aqui trabalhar sua terra: o ativo no passivo. Os rituais despertam o espírito retirando-o de seu torpor solar. Ao meio-dia, esmagado por uma luz ofuscante, o espírito deve se abrigar para evitar ser presa de miragens enganosas.


Razão e sensibilidade

O casal heterossexual que serve como um modelo para a apreensão do mundo permitirá que, a partir da manifestação, de retornar ao inefável, via o feminino e o masculino (não o homem e a mulher), enquanto que o intelecto seco se precipita para eliminar tudo o que faz amor, em nome do espírito e da ordem mundial. O que o ser humano sente, vive; as forças que o movem e o ajustam em rota para o desconhecido que ele sente ser simplesmente negado, dificilmente foram sugeridas. Como poderia o homem ir ao encontro de seu feminino, do feminino do ser, se uma couraça de metal morto impede que ele respire? Como, enquanto é lícito para alguns comentadores mostrar a influência da filosofia grega, os autores da Cabala ou do esoterismo muçulmano sobre o pensamento e a formulação, obscurecem a questão do feminino do ser ou o desejo que coloca em movimento? A Alquimia não hesita em nos fornecer uma iconografia abundante, onde a busca do feminino, a união dos dois princípios é feita de combates tais como de desejo, de união, de morte, de nascimento, de nutrição, de jogos infantis. A pedra ama, sofre, chora, sangra… As imagens aqui não são meras ilustrações, mas destacam o drama (palavra cujo etimologia significa ação) sagrado da vida de todo humano, e que se repete no trabalho sobre a matéria. “O que é a genialidade, se não há uma abertura maior do coração?”, dizia Hugo. É isso que a poesia maçônica nos oferece, não os versos dos maçons, mas o conjunto da missão.

As categorias do real e do imaginário se decalcam sobre as da diferenciação sexual via aquelas de masculino e feminino, incluindo e especialmente enquanto o historiador de ideias, religiões, ou o filósofo se sente compelido a “deserotizar” textos nos quais a experiência mística e sua teorização se colocam mais perto palavras de amor que, como os corpos dos amantes, as palavras fazer amor depois de serem despojadas de seus artifícios. Uma vez mais, é fácil de abrir um livro de alquimia ou o magnífico Sonho de Poliphile reeditado recentemente.

O feminino deve se curvar diante do masculino, porque ele sempre vem em segundo lugar, em degradação, encarnação. O homem que rejeita seu feminino é chamado “lutador”, mas ele constrói sua vida sobre relações dominante-dominado, mestre e escravo, e encontra ainda em seu caminho mais “matador” que ele, ou aciona mais rapidamente que a sua. As lágrimas de Aquiles nos perguntam sobre o lugar do feminino na Ilíada e mais amplamente nas epopeias e tragédias. As das Pietás lhes fazem eco.

A Maçonaria afirma ser universal. Universalidade não mais característica do homem branco, imbuído ele mesmo de seus valores e práticas, como era ainda um século atrás. Não importa que os rituais maçônicos tenham sido escritos por homens para homens, se eles permitem o encaminhamento para o andrógino que celebra o hermetismo?

Uma outra crítica, que se baseia em outras hipóteses, nos reenvia ao andrógino. Os verdadeiros filósofos, os verdadeiros iniciados, estando despojados a caminho de sua pequena história, de suas pequenas emoções, de sua sensibilidade humana demais, se voltariam inteiramente para o iniciático, a estrutura oculta da construção, o modelo matemático da emanação.

Que o andrógino seja um mito fundador, como é em Platão ou em certos cabalistas, ou que ele possa ser realizado em um momento do percurso do alquimista, ele se torna na racionalidades dos inimigos das mulheres, como ser superior, e curiosamente reforça a ideia segundo a qual as mulheres, então, não tem mais razão de ser considerando-se qualquer fase da evolução espiritual… Não mais que o masculino? Aqueles que assim procedem compreenderam muito pouco os textos e imagens da alquimia! Regozijando-se em repetir dois ou três clichês, eles ainda não teriam descoberto sua matéria-prima… Como poderiam eles esperar alcançar a conjunção dos opostos, as núpcias sagradas, que celebram os textos e imagens?

Se certos rituais são conduzidos com um feminino ausente, mas ativo, quais perguntas levantariam eles quanto ao aperfeiçoamento dos maçons? Finalmente, se convencionarmos que para se afirmar em um mundo patriarcal, as mulheres tiveram que desenvolver o seu animus, que lhes teria facilitado o acesso aos símbolos chamados masculinos, não teriam elas que estender um pouco a mão aos homens para lhes permitir acessar seus femininos?

Orfeu não foi capaz de trazer de volta sua alma irmã dos infernos. Se o poeta não soube, algum homem não o poderá? Sua história termina com o despedaçamento das terríveis bacantes. No entanto, seu crânio oracular ainda canta… e habita nossa ilha imaginária, como granadas encerrando em sua casca cor de turfa, em suas lojas encerradas em um véu translúcido mas amargo, uma doçura suave e uma amêndoa, promessa de luz.

Para ir mais longe, do mesmo autor: 
O feminino e sua busca na maçonaria, edições Detrad



Publicado em 24 de fevereiro de 2016 em REVISTA FRANC-MAÇONNERIE

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