domingo, 12 de junho de 2016


ORIGEM DO SUPREMO CONSELHO E A CRIAÇÃO DAS GRANDES LOJAS NO BRASIL


Artigo do Ir.´. JOSÉ MAURÍCIO GUIMARÃES, publicado na Revista Astr~eia de nº 37 – julho de 2016.

Os preliminares dos Supremos Conselhos do Rito Escocês situam-se na longínqua criação do Capítulo de Clermont de Paris em 1754, de efêmera duração. Mas há evidências de que até 1730 havia, na Inglaterra, mestres maçons escoceses após o Terceiro Grau. Dez anos mais tarde, na Alemanha, falava-se do mais alto Grau chamado Maçonaria Escocesa. Porém, os graus além de Mestre se expandiram quando introduzidos na Maçonaria francesa.


Em 1761, Stephen Morin recebeu uma patente da Grande Loja da França, autorizando-o a estabelecer os Altos Graus do Rito Escocês em todas as partes do mundo, o que ele iniciou em 1763, a partir de Santo Domingo, hoje República Dominicana. Quatro anos depois, Morin e Henry Andrew Francken criaram em Albany, Nova York, uma Loja de Perfeição (Grau 4º ao 14º).


O Supremo Conselho de Charleston, no Estado da Carolina do Sul (EUA), Supremo Conselho Mãe do Mundo, declarou sua existência em 1801 com o lema de ORDO AB CHAO (Ordem sobre o Caos, conforme ensina Berdieaev em Esprit et liberte: a ordem natural não é eterna nem imutável, expressa apenas um momento simbólico na vida da mente. Como resultado, forças podem ocorrer nas profundidades do espírito, capazes de transfigurar a mente e libertá-la de poderes escravizantes.


No Brasil, o desenvolvimento do Supremo Conselho do Rito Escocês começou em 1829, quando Francisco Gomes Brandão, o Visconde de Jequitinhonha, recebeu do Supremo Conselho para o Reino dos Países Baixos do Rito Escocês Antigo e aceito a autorização para instalar aqui um Supremo conselho.


Francisco Gomes Brandão, advogado, jurista e político brasileiro nasceu em Salvador no ano de 1794, adotou Gê Acayaba Montezuma em homenagem aos elementos formadores da nação brasileira:Gê, tronco linguístico, da etnia dos antigos Timbiras, Bororos, Carajás, Gavião, Kayapó, Kraô e Xavantes. Acayaba é palavra de origem africana, o mesmo que acaiaca, árvore da família das Terebintáceas ou cedro brasileiro, por fim, Montezuma, homenagem ao imperador asteca.


Em 1832, Francisco Gê Acayaba Montezuma usou a autorização recebida nos Países Baixos para instalar o Supremo Conselho Dos Mui Poderosos Soberanos Grandes Inspetores Gerais do Grau 33 para o Império do Brasil (nome original) , o fato maçônico mais importante desse período e que teve, posteriormente, influência decisiva no movimento de 1927 com a fundação das Grandes Lojas.


Mas antes dessa instalação Davi Jewett, oficial da marinha norte-americana, nacionalizado argentino, desconhecendo a Carta Patente de Francisco gê, criou um “supremo conselho” (na verdade) um Consistório) em terras brasileiras. Foi necessário superar o impasse, pois as Grandes Constituições de 1786 não permitiam a existência de dois supremos Conselhos na jurisdição de um mesmo país (à exceção dos Estados Unidos).


Francisco Gê não contestou Davi Jewett, mas convidou-o para ser Lugar-Tenente Comendador na unificação dos dois movimentos.


Enquanto isso, com a abdicação de D. Pedro I, em abril de 1833, José Bonifácio de Andrada e Silva encontrou o caminho livre para tratar o Império à sua maneira.


Na qualidade de tutor do futuro D. Pedro II, incutiu nele suas próprias convicções. Não tendo mais o Gonçalves Ledo para lhe fazer oposição, Bonifácio assumiu a liderança da Maçonaria, providenciando uma reinstalação do Grande Oriente em 23 de novembro de 1831, quando os trabalhos maçônicos retomaram força como Grande Oriente do Brasil.


A constituição do Brasil determinava que, antes da maioridade do infante Pedro Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Leocádio, o país fosse governado por uma Regência Trina provisório. Foram escolhidos Francisco de Lima e Silva, José Joaquim de Campos e Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Mesmo assim, Bonifácio manteve sua influência no governo ditando as regras. Mesmo pertencendo ao Rito Moderno, ele recebeu o Grau 33 no Supremo conselho de Francisco Gê, fato que provocou a renúncia de Davi Jewett do cargo de Lugar-Tenente Comendador. Francisco Gê foi derrubado e substituído por Antônio Carlos de Andrade, irmão do Bonifácio, que em seguida, passou (ou “devolveu”) o cargo para o Patriarca Bonifácio que acumulou a chefia das duas Potências – o Supremo Conselho e o Grande Oriente (do qual ainda era o Grão-Mestre). Estando a patente do Supremo conselho em posse de Francisco Gê, Bonifácio pediu autenticação ao Supremo Conselho do Grande Oriente da França, sendo reconhecido em 22 de julho de 1848 pelo Grand College des Rites em France para o Rito Escocês Antigo e Aceito.

A partir dessa época, prevaleceu a união entre o Supremo Conselho e Grande Oriente do Brasil. O Grão-Mestre eleito tornava-se, como consequência, o Soberano Grande comendador do Supremo Conselho do rito Escocês, mesmo que tal Grão-Mestre não fosse Maçom do rito. Portanto de 1864 a 1926, o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito funcionou confederado ao Grande Oriente do Brasil. Nesse sistema, quase todas as lojas do GOB eram Lojas Capitulares trabalhando, além dos rituais dos Graus de Aprendiz, companheiro e Mestre, nos Graus 15 a 18.

MARIO BERHING
Plagiando Voltaire, tudo ia muito bem no país que era o melhor do mundo, neste que é o melhor dos mundos possíveis, quando surgiu um dos personagens mais discutidos na Maçonaria brasileira: Mário Marinho de Carvalho Behring, mineiro de Ponte Nova, nascido no dia 27 de junho de 1876. Diplomado em engenharia aos 20 anos, Behing foi iniciado na Loja União Cosmopolita, da sua cidade natal, no dia 20 de setembro de 1898. 

Em 1902, Behring mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi nomeado secretário da Biblioteca Nacional. Filiou-se à Loja Maçônica Ganganelli, do Rito Moderno, da qual foi Venerável Mestre em dois mandatos: 1903 e 1910. 

Em 1906, foi eleito Grande Secretário Adjunto do Grande Oriente do Brasil e em janeiro de 1907, Membro Efetivo do Supremo conselho do Grau 33, onde iniciou o trabalho pela modernização da Maçonaria brasileira. Ocupou sucessivamente os cargos de Grande Chanceler do Grande Oriente do Brasil, Grande Orador do conselho Geral da Ordem e Ministro de Estado do Supremo conselho do Brasil. Exerceu a interinidade do Grão-Mestrado de 10 de agosto de 1920 até 19 de novembro do mesmo ano e de 25 de dezembro ate abril de 1921.

Em 1924, assumiu a direção da Biblioteca Nacional, nomeado pelo Presidente Artur Bernardes, cargo em que se manteve até 1931.

Durante as interinidades, Mário Behring participo9u de congressos internacionais, e, segundo a orientação dos outros Supremos Conselhos do mundo, trouxe para o Brasil a tese do regime de separação entre as administrações dos Graus simbólicos e a dos Altos Graus. Isso implicava numa divisão do poder na Maçonaria brasileira, causa principal do que aconteceu em seguida.

O tratado que confederava o Supremo conselho ao Grande Oriente do Brasil ficou ameaçado de ser desfeito, uma crise que se avolumava desde 1921 culminou na cisão de 1927, movimento não isolado do contexto que vinha se desenvolvendo na Maçonaria brasileira desse os conflitos entre as alas de Bonifácio e Ledo.

Nas eleições de março de 1922, Nilo Peçanha, candidato à presidência da República, era também candidato a Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil (os “poderosos” daí a expressão – Grão-Mestres que eram, ao mesmo tempo, Presidentes da República e Grandes Comendadores do Rito). Embora apoiado pelos políticos situacionistas, Nilo foi derrotado por Artur Bernardes (que não era Maçom) e mandado para a prisão.

Neste mesmo período, o Supremo conselho do Brasil compareceu em Lausanne, Suíça, para a III Conferência Internacional dos Supremos Conselhos (29 de junho de 1922). Estando Mário Behring convicto de suas posições e do que deveria ser feito, fortaleceu-se pelas decisões ali traçadas para que todos os Corpos Diretores do Rito fossem regularizados, ou seja, que “cada Supremo conselho deve ser soberano e livre de qualquer direção por parte de qualquer outro Corpo ou organização maçônica, no processo de escolha dos seus membros, na eleição de seus oficiais, no tempo de exercício das respectivas funções, na adoção dos estatutos, na relação que mantém com os diversos corpos que lhe são subordinados em sua jurisdição...”

Mário Behring conclamou o Grand Oriente do Brasil a modificar suas leis referentes ao funcionamento confederado dos dois Corpos. A resolução dessa Conferência dizia não ser “admitido que quaisquer corporações maçônicas intervenham direta ou indiretamente no Supremo Conselho do REAA, seja na eleição dos oficiais ou mesmo na de Grande Comendador.” 

Em 1925, Mário Behring, Grão-Mestre e, portanto, pelas leis do Grande Oriente do Brasil ainda Soberano Grande Comendador – apontou a irregularidade dessa acumulação de cargos propondo a separação das duas jurisdições. Behring não se candidatou mais ao cargo de Grão-Mestre. Passou para Vicente Saraiva de Carvalho Neiva o exercício do cargo de Grão-Mestre, optando por conservar o de Grande Comendador. Seu afastamento seria incompreendido se analisado pelos costumes do Grande Oriente, mas foi coerente com as leis do Rito Escocês antigo e Aceito nos demais países.

Em nova eleição, Saraiva de Carvalho Neiva foi escolhido como Grão-Mestre. Empossado no dia 21 de dezembro de 1925, faleceu dois meses depois. João Severiano Fonseca Hermes, assumindo o Grão-Mestrado, assinou um tratado pelo qual os Graus Simbólicos permaneceriam com o Grande Oriente e os Altos Graus com o Supremo Conselho (27 de outubro de 1926).

Mas em novembro do mesmo ano com a licença pedida por Fonseca Hermes, assumiu interinamente o Grão-Mestrado o Adjunto, Octávio Kelly. O ex Grão-Mestre Thomas Cavalcanti vinha alegando que Fonseca Hermes fora longe demais nos termos do tratado com Behring e pediu a anulação dos poderes conferidos ao também Grão-Mestre já falecido, Vicente Saraiva. Essa proposta, apesar de não ter sido aprovada, abalou os alicerces da regularidade proposta por Behring.

Mário Behring já previa essa reviravolta sabendo que Octávio Kelly não dividiria com ele o poder das duas Potências, e começou a promover reuniões e debates com os membros do Supremo Conselho. Mas as decisões de Fonseca Hermes foram vencidas e o tratado revogado.

Ao mesmo tempo, foi reconstruída uma Oficina Chefe do Rito num Supremo Conselho unido ao Grande Oriente do Brasil, denominado Supremo Conselho Reconstituído, revalidando o duplo mandato de Grão-Mestre e Soberano Grande Comendador, faltava o cargo de Presidente da República que Getúlio Vargas jamais admitiria após a deposição e prisão do último Grão=-Mestre na presidência da República Velha, Washington Luiz.

Em 20 de junho de 1927, durante Sessão do Conselho Geral, Mário Behring não se pronunciou sobre as eleições para Grão-Mestre do Grande Oriente e sim às eleições no Supremo Conselho, ficando as deliberações adiadas para a sessão seguinte.

Mas Octávio Kelly não esperou a outra sessão. No tal “dia seguinte” – 21 de junho de 1927 – Kelly declarou nulos, pelo Decreto nº 859, o tratado e todos os atos dos seus antecessores e publicou seguidamente, os Decretos nº 860 e n 861 de julho de 1927, assinando-os na qualidade de Grão-Mestre Adjunto no exercício do Grão-Mestrado (pois sua eleição para Grão-Mestre aconteceu mais tarde, em 26 de junho de 1928).

Cumpre ressaltar que em 1927 Mário Behring não estava envolvido em qualquer disputa eleitoral, seja na Maçonaria ou fora dela. Durante a cisão governaram o Grande Oriente do Brasil os Grão-Mestres João Severiano da Fonseca Hermes (1926-1927) e Octávio Kelly (1927-1933).

Enquanto outros líderes da Maçonaria brasileira se batiam para manter os privilégios que aos poucos lhes escapavam das mãos, Behring foi perspicaz bastante para antever o brusco retraimento que se avizinhava da Maçonaria brasileira pelas mãos de Getúlio Vargas. E diante dos Decretos n 859, 860 e 861, Behring assumiu o término da confederação havida desde 1864. Contra-atacou com seu famoso Manifesto, declarando a ruptura total com o Grande Oriente do Brasil e retirou-se daquela Potência em companhia de duzentas Lojas Simbólicas, sendo 108 do Rito Escocês Antigo e Aceito.

A cisão estava consumada e teve início a criação das Grandes Lojas no Brasil.

Behring não agiu às escuras: dirigiu uma circular às Lojas Escocesas, concedendo-lhes plena liberdade para permanecerem jurisdicionadas ao Grande Oriente, sob a condição única de adotarem outro simbolismo de rito existente no Grande Oriente.

O sistema de Grandes Lojas introduziu no Brasil o modelo norte-americano: uma Grande Loja para cada Estado da Federação, sistema que logo recebeu o apoio das Grandes Lojas das américas, inglesa e latina. 

Em 1929, realizou-se em Paris a Quarta Conferência Internacional dos Supremos Conselhos do Grau 33 do Rito escocês Antigo e Aceito, onde compareceu o Supremo conselho (fundado por Francisco Gê), representado por Mário Behring. A informação circulava com lentidão naqueles tempos: telegramas, cartas que às vezes se extraviavam e mensageiros que colocavam as Américas em contato com a Europa por prolongadas viagens de navio. Mesmo assim, três Maçons do Grau 33, José Maria Moreira Guimarães, Lourival Jorte Masarelo Souto e Hyppolito Hermes de Vasconcelos foram nomeados por Octávio Kelly para representar o “Supremo Conselho Reconstituído” do Grande Oriente do Brasil evidente ingerência da administração dos Graus Simbólicos nos Altos Graus (e vice-versa).

No dia 30 de abril, a comissão assim nomeada por Octávio Kelly não logrou ser recebida pelo encarregado da Assembleia dos Supremos Conselhos, René Raymond, que alegou já estar presenta na Conferénce o Supremo Conselho do Brasil representado por Mário Behring. Os três representantes rejeitados enviaram um protestos à Conferénce no dia seguinte. Não obtiveram sucesso, pois presou contra o “Supremo Conselho Reconstituído” do Grande Oriente do Brsil o fato de ele não ser soberano – isto é, estava adstrito a uma Potência Simbólica. 

Nessa mesma Confeénce ficou decidido que o único Supremo conselho regular, reconhecido e única autoridade legal e legítima para o rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil era aquele fundado por Francisco Gomes Brandão e representado, na ocasião, por Mário Behring.

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