sexta-feira, 25 de novembro de 2016


OS MONGES MAÇONS

Tradução José Filardo


Loja La Vertu de Clairvaux – 1786

Em 1786, bem dentro da Abadia de Clairvaux, localizada em Aube foi constituída uma Loja de 13 Irmãos Cistercienses, sob os auspícios do Grande Oriente da França. Que um grupo de clérigos pudesse montar uma Loja Maçônica pode, à primeira vista, parecer estranho quando sabemos da animosidade que existia entre o Catolicismo e a Maçonaria. Mas isso seria esquecer muito rapidamente a História …

Essa situação não é, de fato, excepcional nesse final do século XVIII, quando as bulas papais ainda não esvaziaram as lojas dos servos de Deus. Ela revela não uma fratura doutrinária ou ideológica, como muitas vezes é afirmado hoje, mas sim uma verdadeira convergência de ideias. Pouco antes da Revolução, a maior parte das lojas francesas praticava uma Maçonaria exclusivamente orientada para o aperfeiçoamento do homem através do trabalho, e cuja base repousava sobre as três virtudes teologais que são a Fé, a Esperança e a Caridade. Somente a Maçonaria do tipo anglo-saxão continua hoje a manter esse ternário como um pilar fundamental da metodologia maçônica.

Extrato da correspondência endereçada ao Grande Oriente da França, pelos monges cistercienses:

Ao Or.´. de Clairvaux, lugar muito forte e iluminado onde reina a Igualdade, a Paz, a União, o Silêncio e a Amizade, no quarto dia do segundo mês do ano da V.´. L.´. 5785,

Ao Mui Respeitável, Sapientíssimo, Esclarecido e único legítimo G.´. Or.´. de França

Nós estávamos na escuridão da irregularidade; para sair, nós nos dirigimos à R.´. L.´. Union de la Sincérité no Or.´. de Troyes, para que ela nos forneça através de seus raios luminosos os meios para alcançar o caminho que conduz a via do augusto centro tribunal dos verdadeiros maçons; por conseguinte, no quinto dia de abril no ano da V.´. L. `. 5785, traçamos uma prancha que endereçamos a essa R.´. L.´. para envolver os IIr.´. que a compôem a visitar nossos trabalhos e nos indicar a qualidade dos materiais necessários a empregar para fundar o templo que queremos erigir. Esses RR.´. IIr.´. tendo nos feito esse favor e impactados pelo brilho deste primeiro raio de verdadeira Luz, eles nos inspiraram ainda mais o desejo de nos submetermos às Leis e regulamentos de vosso ilustre Areópago; já submetidos de coração e afeto às leis da sabedoria e virtude, aspiramos a felicidade nos engajar por um juramento irrevogável, podeis vós, Mui R.´. IIr.´. nos considerar dignos desse favor, podeis perdoar a irregularidade do nossos primeiros trabalhos, podeis vós, saciando nossos votos, completar nossa felicidade; nós vos exortamos a que se dignem de conceder seus santos votos, dignai vos de aceitar as homenagens de nossa submissão aos seus respeitáveis decretos e constituições que emanam de seu augusto tribunal, dignai-vos de nos agregar aos verdadeiros maçons.

Nós vos pedimos confirmar o título da Loja Vertu; este não é um título desprovido de realidade, nós o gravamos em nossos corações e nossos trabalhos estão sob garantia, ousamos esperar que favoráveis aos nossos desejos vós possais aceitar como nosso Deputado junto ao vosso tribunal o Mui Q.´. Ir.´. Jean Eustache Peuvert, funcionário do Parlamento em Cais d’Orleans, confiantes de que teremos nele um sólido apoio; se puderem em sua sabedoria considerar nossos desejos …

Muitos comentaristas viram no nascimento, mas também na vida tumultuada e efêmera dessa Loja, apenas os conflitos entre visão secular da Maçonaria e a visão secular da religião, a origem daquilo que foi na França um verdadeiro trauma espiritual.

Eles esquecem de enfatizar que as Ordens monásticas são dentro da Igreja Católica bem mais do que apenas ordens religiosas. Elas são uma Ordem dentro da Ordem, porque elas derivam sua identidade em uma história muito mais profunda e mais antiga que a sua assimilação pela Igreja de Roma. Elas eram desde tempos imemoriais, os atores operativos e econômicos de seus territórios, um pouco como também o eram as corporações de construtores antes do advento da Maçonaria.

A busca pelas virtudes teologais foi por muito tempo e quase até a recente generalização do Rito Escocês Antigo e Aceito e do Rito Francês (moderno) pela Maçonaria continental, o primeiro objeto da busca maçônica. Apenas o nome e o “logotipo” de certas Loges atuais lembram essa realidade esquecida.

Portanto, não é surpreendente descobrir que trabalhadores apaixonados pela espiritualidade pudessem tentar completar a sua busca por outros meios que não fossem uma religião dogmática, para emancipar as virtudes essenciais da Escada de Jacó que conduz aos mesmos sonhos da maçonaria, menos religiosos de hoje: a paz e a emancipação social.

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Fontes: 

As mais belas páginas da Maçonaria francesa

Institut maçonnique de France – Dervy 2003

Biografia: 

La Loge de la Vertu à l’Orient de l’Abbaye de Clairvaux (1785-1789)

Pierre Chevallier

Mémoires de la Société Académique de l’Aube

Internet:


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