terça-feira, 13 de junho de 2017



A MAÇONARIA ESPECULATIVA

Autor: João Anatalino

A RENASCENÇA 

No início do século XVI começa então a abertura cultural denominada Renascença. Assiste-se a uma revalorização do homem a partir dos antigos modelos greco-romano de beleza e competência pessoal. O culto ao homem, eclipsado durante a Idade Média pela valorização do ideal ascético, começa a ganhar os principais centros intelectuais da Europa. A ciência se renova pelo apelo à razão mais do que à fé. Teorias reacionais de explicação do Universo contrastam com as velhas ideias admitidas pela Igreja. Explode a Reforma Protestante desencadeada pela rebeldia do frade alemão Marinho Lutero.

No meio disso tudo acontece uma revalorização do pensamento9 hermético e das teses gnósticas. Filósofos como Giordano Bruno, Thomas Morus, Marcilio Ficcino, Pico de La Mirandola e outros ressuscitam as ideias de utopias políticas e religiões solares, em contraste com a ideia dominante do Catolicismo universal, centrada na filosofia de Aristóteles e no heliocentrismo de Ptolomeu. Outros filósofos e artistas como Leonardo da Vinci, Erasmo de Roterdã e Nicolau Maquiavel, lançam as bases de uma nova ética e uma nova moral, enquanto cientistas como Galileu Galilei e Copérnico descortinam novos horizontes para a ciência.

Toda essa efervescência cultural logo se faria sentir no território mais sutil dos sentimentos humanos que é a religião. A corrupção do clero católico e principalmente as motivações políticas e econômicas desencadearam a revolução protestante conhecida como Reforma, mas foi, sem dúvida a onda de liberdade de pensamento que se espalhou pela Europa durante os anos de Renascença que destruiu o monopólio da Igreja Católica sobre o espírito da sociedade ocidental. Desse caldo de cultura viria a surgir o frade Martinho Lutero para incendiar de vez o pensamento ocidental com as bases de sua Reforma religiosa.


MARTINHO LUTERO E OS ROSA-CRUZES

Martinho Lutero (1483-1546) foi o desencadeador do movimento conhecido como Protestantismo. Não há qualquer informação que ligue a figura do inspirador da Reforma religiosa à Maçonaria, nem qualquer referência que possa sugerir uma interação dele com os maçons operativos. Mas, na altura em que ele dava início ao maior e mais importante cisma que o Cristianismo viria a sofrer em sua história, estes já constituíam um importante fenômeno cultural, difundido por toda a Europa, principalmente na Alemanha, onde ele começou sua pregação.

Em razão da liberdade de consciência e da condição de pedreiros livres que ostentavam, podendo mover-se livremente pelo território europeu sem os incômodos burocráticos a que estavam sujeitos os demais cidadãos, esses profissionais e os intelectuais que eles haviam admitido em suas corporações, devem ter constituído um importante canal para as ideias do frade alemão. Assim, face às ligações já apontadas, que Martinho Lutero mantinha com os círculos místicos da Alemanha, não seria imprudente aponta-lo como simpatizante das ideias daquele grupo precursor que viria dar origem ao movimento Rosa-Cruz, fundado pelo alquimista Joahnnes Valentin Andreas no início do século XVII, cuja influência na Maçonaria foi fundamentalmente para o direcionamento que ela tomou como fenômeno cultural.

No início do século XVII aparecem os Manifestos Rosa-Cruzes. Em outras obras de nossa autoria já tratamos desse curioso fato cultural com mais pormenores.[1] Por enquanto é suficiente dizer que graças às pesquisas de Serge Huttin e Frances Yates sabe-se hoje que a Rosa-Cruz, como instituição, naquela época, jamais existiu. Tratou-se, na verdade, de um grupo de pensadores místicos, predominantemente alemães, que diziam estar de posse de grandes segredos capazes de mudar a face da história da humanidade.[2]

Tais assertivas excitaram, como é óbvio, a imaginação popular e não poucos intelectuais se sentiram atraídos pela “Fraternidade da Rosa-Cruz”. Esses pensadores, na verdade, nada mais faziam do que divulgar teses e tradições herméticas desenvolvidas por alquimistas e filósofos gnósticos. Seus segredos eram aqueles que os alquimistas diziam ter descoberto em seus “magistérios”. Grupos desses “rosacrucianos” faziam parte ativa das Lojas Especulativas alemãs, francesas e inglesas e tinham introduzido nos rituais dessas Lojas símbolos, alegorias, evocações e ensinamentos extraídos da tradição hermética e gnóstica. O termo “rosacruciano” tornou-se sinônimo de livre-pensador. Todo intelectual que não se conformava com a “saia justa” que as autoridades religiosas queriam impor ao pensamento se dizia ou se julgava um “rosacruciano”. Voltaire, Isaac Newton, Leonardo da Vinci, Michelangelo, entre outros eram tidos como “rosacrucianos”.

Durante todo o século XVII as Lojas Especulativas da Europa conviveram com essa verdadeira Babel intelectual que se tornara a prática maçônica. Maçons alquimistas, maçons gnósticos, maçons cavaleiro, cada qual conforme escreveu H. P. Marcy, “interpretando à sua vontade as Velhas Constituições (as Old Charges), criando uma profusão de maneiras de fazer uma iniciação, de conduzir uma reunião, de interpretar os símbolos e os ensinamentos maçônicos”.[3]

Essa diversidade, prossegue o autor, poderia “destruir a unidade moral que permanecia como único vínculo entre os maçons aceitos. A confusão aumenta todos os dias e a velha instituição ameaça falir sem esperança de recuperação”.[4]

Em tese, podemos dizer que os Manifestos Rosa-Cruzes foram os correspondentes herméticos da doutrina professada na Maçonaria Especulativa e anteciparam em mais de um século os estatutos da Ordem, porquanto agasalharam em suas propostas a ideia de irmandade que a ordem maçônica mundial iria perseguir em seus objetivos.[5]


OS MAÇONS ACEITOS

Um sistema de pensamento que fosse tolerante o suficiente para agasalhar todas as vertentes do pensamento religioso e secular não podia se filiar a nenhum credo, nem podia propagar suas ideias pela forma acadêmica regular. Em algum momento, provavelmente no início do século XVII, a tradição hermética entrou nos ritos praticados pelos maçons das Lojas Operativas, transformando-as em Lojas Especulativas. Como isso se deu não é matéria pacífica, mas de forma geral se admite que esse fato aconteceu pela admissão, entre os profissionais da construção, de membros não pertencentes a suas categorias.

Esses eram os chamados “maçons aceitos”. Entre eles se encontravam militares, filósofos, intelectuais, professores, membros do clero, comerciantes, etc., pessoas que de alguma forma procuravam um meio seguro de expressar seus pensamentos sem precisar renunciar às suas crenças.

Não há consenso entre os historiadores de quem teria sido o primeiro maçom especulativo, ou seja, a primeira pessoa não pertencente aos quadros profissionais dos pedreiros livres a ser admitida como membro em suas Lojas. O mais antigo registro de uma iniciação desse tipo é o de John Bosswell, lorde de Aushimleck, que em 8 de junho de 1600 foi recebido como maçom aceito na Saint Mary´s Chapell Lodge (Loja da Capela de Santa Maria), em Edimburgo, na Escócia. Essa Loja teria sido fundada em 1228 no canteiro de obras preparado para a construção da Capela de Santa Maria, naquela cidade, que então era a mais importante da Escócia. Era costume, n aquela época, a organização de Lojas entre os pedreiros, pois assim se chamavam às assembleias dos obreiros que se reuniam para discutir sobre os assuntos referentes às obras e à profissão.

Após a iniciação de Lorde Bosswel, o processo de aceitação de maçons não profissionais se tornaria comum. Logo se espalharia pelos canteiros de obras da Escócia, Inglaterra, Alemanha, França e outros países de tal maneira que, ao fim do século XVI, o número de maçons aceitos – então chamados de especulativos – ultrapassou os operativos. Assim, na primeira metade do século XVII, encontram-se registros de várias pessoas importantes na sociedade de seus respectivos países sendo admitidos nas Lojas dos pedreiros livres. Nomes como os de William Wilson, aceito em 1622, Robert Murray, tenente-general do exército escocês, posteriormente Mestre Geral de todas as Lojas do Exército; o coronel Henry Mainwairing, recebido, em 1646, em uma Loja de Warrington, no Lancashire, e o famoso antiquário e alquimista Elias Ashmole, recebido na mesma Loja e no mesmo dia (16 de outubro) que o Coronel Henry.

Na área da arquitetura, a essa altura, os maçons operativos já haviam perdido a maior parte de seu prestígio, uma vez que a forma arquitetônica tradicional deles, a gótica, havia caído em desuso, eclipsada pelo modelo neoclássico. Porém, em 2 de setembro de 1666, um grande incêndio irrompeu na cidade de Londres, destruindo mais da metade da cidade – cerca de 40 mil casas e 86 igrejas. Nessa ocasião, os maçons operativos foram chamados para participar do esforço de reconstrução da cidade, sob a direção do renomado mestre arquiteto Cristopher Wren, que foi logo iniciado maçom. Foi no canteiro de construção da igreja de S. Paulo, presidido por ele, que em 1691, foi fundada a Loja São Paulo (em alusão à igreja), conhecida como Loja da taberna “O Ganso e a Grelha”, uma das quatro que, em 1717, iria, juntamente com as outras três Lojas londrinas, se unir para a fundação da Grande Loja de Londres. Nasceria dessa fusão a Maçonaria Moderna, em sua forma institucional.[6]

Geralmente se costuma atribuir a Elias Ashmole a introdução do hermetismo na Maçonaria. Esse intelectual inglês, que entrou para a Ordem em 1641, conforme suas próprias anotações, era um notável hermetista especializado em alquimia e estudioso das tradições da cavalaria. É impossível não pensar que um indivíduo com esse perfil não tivesse prestado qualquer contribuição de vulto nesse sentido. Todavia em 1641, como vimos, as Lojas Maçônicas já praticavam ritos enxertados com a tradição hermética e “aceitavam” pessoas não ligadas ao ofício de construtor. E essa prática já vinha de longa data, a se acreditar nas pesquisas de Jean Palou e Robert Ambelain.[7]

Por outro lado, a primazia de John Bosswel como sendo o primeiro maçom aceito de que se tem notícia tem sido contestada por alguns autores que afirmam que, em uma Loja de Bolonha, Itália, já existia, no século XIII, dez Irmãos admitidos nessa condição. Essa informação estaria contida na chamada Carta de Bolonha, datada de 1248, o que faz desse documento o mais antigo texto maçônico até hoje recenseado.

Efetivamente, a publicação da Carta de Bolonha, presumindo que se trata de um documento verdadeiro, coloca em xeque as teses de que a Maçonaria Especulativa teria origem principalmente nas Ilhas Britânicas, a partir da admissão de lorde Bosswel e outras figuras importantes da sociedade inglesa e escocesa. Em documento, oriundo de uma Loja Italiana, mostra que a tradição de ordenar como Companheiro Maçom profissionais de outras categorias já era usada no século XIII, e não se iniciou no século XVI como usualmente se pensava.[8]

Assim, o que se pode presumir é que Ashmole e seu grupo de hermetistas entraram para a Maçonaria como consequência dessa prática, mas não se constituíram, de forma alguma, em sua causa. É possível que Ashmole tenha de algum modo executado um trabalho de organização, desenvolvimento e propagação dos ritos maçônicos na nova formulação que as Loja Especulativas inglesas estavam praticando, desde que nelas se introduziram os cultores da tradição hermética, mas disso, como de retos, não temos provas que confirme essa assertiva.


A CONSTITUIÇÃO DE ANDERSON


Foi para pôr um fim a essa confusão que as quatro Grandes Lojas de Londres se fundiram no ano de 1717, dando início à chamada Maçonaria Moderna. Moderna porque a parte desse acontecimento a Ordem Maçônica, que era um conjunto de homens que se reuniam para praticar a arte do livre pensar, ganhou um regulamento, como se o pensamento pudesse ser regulado. M. Lapage, bastante sagaz a respeito, comentou lastimosamente que “a partir do dia nefasto em que (...) a Maçonaria se deu chefes e regulamentos gerais (...) os maçons rejeitaram a mais bela ideia maçônica, isto é, “o maçom livre na Loja livre”.[9]

Evidentemente, a tentativa dos maçons londrinos, de pôr ordem no caos (Ordo ab Chao), não foi aceita pacificamente no mundo maçônico. Fosse na Alemanha, ou na França, onde as tradições templárias e herméticas tenham deitado raízes profundas nas práticas maçônicas, uma chamada ordem, feita especialmente por ingleses, só podia mesmo causar repulsa e consternação. Nem os trabalhos de Desaguilier, Ransay, Radcliffe e outros chamados “pais da Maçonaria Moderna” foram suficientes para acalmar os ânimos. Maçonaria Escocesa, Francesa, Alemã, Martinista, de Boillon, etc., eram títulos dados a diferentes ramos que se espalhavam pelas Ilhas Britânicas e pelo continente europeu e americano nos meados do século XVIII, dando origem a uma profusão de rituais, sistemas e filiações que se dividiram em ritos propriamente ditos, como o Rito Escocês Antigo e Aceito, o rito Escocês Retificado, o Rito Adoniramita, o Rito da Estrita Observância, o Rito de Heredon, o rito de Mênfis, O Rito de York, o Rito Templário, de Misrain, etc.

Hoje, pacificada a disputa que se estabeleceu entre as diversas confissões maçônicas, disputas que no mais das vezes refletiram os embates políticos que deram origem ao mundo moderno, podemos dizer que essa luta continua, entretanto, no terreno conceitual. Há maçons que propugnam por uma Maçonaria mais atuante nos assuntos políticos e sociais, ora agindo filantropicamente, ora participando de cruzadas políticas em favor desta ou daquela ideia. Há os maçons que veem a Ordem como uma escola de pensamento onde se deve cultivar exclusivamente moral e ética, e há também os que levam a sério a ideia de uma Maçonaria Simbólica e iniciática, nos melhores moldes dos especulativos anteriores a 1717.

Para nós o que fica não é a filiação a esta ou aquela linha de pensamento ou ação, mas sim a ideia de que a Maçonaria como filosofia de vida e exercício espiritual é um conjunto de arquétipos emuladores de virtude e catalizadores dos mais nobres sentimentos que uma pessoa pode desenvolver. E é nesse sentido que se deve estuda-la e praticá-la. As consequências que daí são extraídas ficam por conta dos objetivos de cada Irmão. O Tesouro Arcano que ela contém pode ser aproveitado por todos os Irmãos, independentemente da concepção que ele faça da Arte Real. O caráter sem mácula (erguer templos à virtude) e a luta contra toda forma de opressão ao espírito humano (cavar masmorras ao vício) são a pedra filosofal a ser encontrada pelo maçom. A vida escolhida é opção de cada um.[10]

(Texto extraído do Livro "O Tesouro Arcano", Ed. Madras, João Anatalino Rodrigues)

[1] Conhecendo a Arte Real, citada. 
[2] Serge Huttin, História da Alquimia, São Paulo, Cultrix, 1987 e Frances Yates, O iluminismo Rosa-Cruz, São Paulo, Cultrix, 1967. 
[3] Jean Palou, op. Ci. P. 35 
[4] Idem, op. Cit. P. 48 
[5] São vários os trabalhos alquímicos que tratam da filosofia rosa-cruz. Os dois manifestos mais famosos, entretanto, são o “Fama e Fraternitatis” e o “Confessio Fraternitatis”, ambos publicados pela primeira vez em 1614 e 1615 respectivamente. Os Manifestos Rosa-Cruzes falam da criação de uma “fraternidade mundial de sábios”, congregada para a prática do bem e o desenvolvimento das ciências, objetivo que também faz parte dos postulados da Maçonaria. 
[6] Jean Palou, A Maçonaria Simbólica e Iniciática, op. Cit. 
[7] Idem, p. 78. Robert Ambelain, A Franco-Maçonaria, Ibrasa, São Paulo, 1999. 
[8] Eugênio Bonvicini, Maçonaria do Rito Escocês. Ed. Athanor, Roma, 1988.
[9] Ibidem. P. 50.
[10] Alusão à prática da alquimia, segundo a qual a pedra filosofal pode ser obtida pela via seca ou pela via úmida.

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