segunda-feira, 15 de maio de 2017


O TEMPLO E A LOJA.



Autor: João Anatalino

Do alto dos andaimes de Notre Dame, Jean de Longwy contemplava Paris. O quanto essa cidade havia crescido nos últimos anos! De fato, Filipe, O Belo, com suas maquinações, com sua volúpia em transformar a França em um estado nacional, fora responsável também por uma grande transformação na paisagem urbana das cidades francesas, especialmente na sua capital. Quase todos os núcleos urbanos, de uma maneira geral, haviam encorpado. Ocorrera uma migração em massa dos campos para a cidade, em razão das novas leis que Filipe impusera ao país, tornando mais fácil e menos onerosa a libertação dos servos da gleba, antiga e detestável lei que vinculava as pessoas á terra, como se elas fizessem parte da propriedade e passíveis de serem transferidos com ela, como se fazia com os animais e demais utensílios que nela existia.

Esse era o sistema feudal. Ele atava as pessoas em um elo de suserania e vassalagem, onde os barões mais aquinhoados mantinham uma rede de nobres menos providos de fortuna, através de uma cadeia de vassalagem que começava no mais simples dos cavaleiros e terminava na pessoa do rei, o maior de todos os suseranos. 

E na base desse sistema, o povo. Não havia fazenda que não pertencesse a um nobre, nem cidade ou aldeia que não fizesse parte dos domínios de algum barão. O rei concedia os feudos aos seus escolhidos e os escolhidos faziam os seus próprios vassalos. E o povo, nas cidades, aldeias e fazendas de cada feudo eram os braços e pernas que sustentavam o sistema, trabalhando para produzir a riqueza que os mantinha. 

Por isso é que ocorria, ás vezes, de um vassalo se tornar mais rico e poderoso que seu próprio suserano. O poder sempre dependia do tamanho e da riqueza que as propriedades feudais garantiam para o seu senhor. Feudos como a Aquitânia, a Normandia, o Artois, eram territórios disputadíssimos, pois contavam entre os mais ricos no reino da França. Daí a constante disputa entre os reis de Inglaterra e França, pois a Normandia, e algumas possessões na Aquitânia pertenciam ao rei da Inglaterra, que por essa razão, era vassalo do rei da França. Essa estranha relação de suserania entre um rei e outro frequentemente era motivo para conflitos. Esses conflitos, de um modo geral, sempre eram resolvidos por casamentos entre as duas casas reais. Ora um príncipe francês casava-se com uma princesa inglesa, ora era o contrário, uma princesa francesa que se casava com um membro da família real inglesa.

Isso foi o ocorreu com os dois reis, de França e Inglaterra. A guerra que havia se iniciado entre os dois países em 1294 só terminou em 1303, pela assinatura do Tratado de Paris, quando Filipe, o Belo, deu sua filha Isabel, então com onze anos de idade, em casamento para Eduardo, herdeiro do trono inglês. Esse casamento iria, mais tarde, ser o estopim de uma nova guerra entre os dois países, quando o filho de Isabel de França e Eduardo II, da Inglaterra, viria a reivindicar o trono francês. Esse foi o motivo político da Guerra dos Cem Anos.

Sentado nos andaimes montados no frontispício da catedral de Notre Dame, Jean de Longwy olhava para a Ilha dos Judeus e pensava nos acontecimentos dos últimos anos. A extinção da Ordem do Templo, a cremação dos seus comandantes, as mortes, do rei, dos seus ministros, do papa... As dificuldades pelas quais a França passava no momento, com as péssimas colheitas, os invernos rigorosos, as revoltas populares, a política interna e externa instáveis, as guerras externas. Eram calamidades que pareciam não ter fim.

No entanto, as dificuldades da família real e as mudanças políticas ocorridas no seio do poder tinham sido benéficas para ele. O poder conquistado por Carlos de Valois junto aos filhos de Filipe, o Belo, que se tornaram reis, trouxe-lhe bons dividendos. Valois era partidário das antigas tradições feudais, e seu apoio á Liga dos Barões borgonheses fez com seu poder aumentasse dentro do reino. Ele era, agora, um dos principais barões de França. 

Longwy vinha constantemente á capital francesa, inspecionar serviços e atender a outros afazeres, próprios de um importante dignatário como ele era, e como mestre da poderosa confraria dos construtores civis, a Compagnionnage.

Sobrinho de Jacques de Molay, fora a ele que o velho grão-mestre do Templo, em um dos seus últimos encontros realizado na masmorra do Castelo de Paris, dias antes de ser levado á fogueira, delegara amplos poderes para reestruturar a Ordem em França, que havia sido formalmente dissolvida pela bula papal Vox in Excelso, em 22 de março de 1312. Jean de Longwy, naquela ocasião, apresentara á de Molay um balanço do que restara da Ordem do Templo.

– Todas as nossas 556 preceptorias em França foram ocupadas pela polícia do rei – disse Longwy.

– E o que houve com os nossos irmãos?– perguntou de Molay.

– Seiscentos e vinte foram presos e até agora temos notícia que cerca de cento e quarenta morreram, queimados em fogueiras, ou em consequência das torturas ou de doenças, nas masmorras – disse Longwy.

– Malditos! – vociferou o grão mestre. – Um dia haverão de pagar por isso. Deus não pode deixar impune essa infâmia!

– Se Deus não fizer, nós o faremos – disse Longwy, levantando-se e olhando cautelosamente pelo postigo da porta da cela, para ver se alguém os estava escutando. 

– Então tendes um plano em mente? Perguntou, esperançoso, Jacques de Molay.

– Enquanto estiverdes preso aqui em Paris, não podemos nutrir qualquer esperança de libertar-vos– disse Longwy. – Este castelo, como sabeis, é inexpugnável e está muito bem guardado pelas tropas do rei. – Mas nós sabemos que o papa não quer a vossa execução, nem dos altos dignatários do Templo. Então creio que logo sereis solto, ou condenado á clausura em uma cela em alguma Ordem, de onde podereis vos evadir, ou até continuar a nos comandar.

– Não tenho mais essa esperança, irmão. A Ordem do Templo nunca mais será o que foi. No entanto – ponderou o velho monge, cofiando a hirsuta e desgrenhada barba – dissestes que apenas seiscentos e vinte dos nossos irmãos foram presos, não é isso?

– Sim, meu irmão– respondeu Longwy.

– Então a maior parte dos nossos cavaleiros escapou, não é? Se não estou errado, nós tínhamos três mil e duzentos membros em França, entre cavaleiros, sargentos e monges. 

– Sim, irmão grão-mestre. E dos nossos trezentos e cinquenta monges cavaleiros, mais de cem escaparam para outros reinos ou se refugiaram nas montanhas de Lyon. Aliás – continuou Longwy – só nas montanhas de Lyon há mais de mil e quinhentos refugiados do Templo aguardando as nossas ordens para agir.

– Dizei a eles para esperar até que esse processo se finde e conforme for o resultado, vós os comandareis nas ações. Por enquanto não é conveniente nenhuma reação, pois como dizeis, se o papa está indeciso em relação ao que fazer conosco, então ainda existe uma esperança – disse de Molay. 
– De qualquer modo, nós cumprimos vossas instruções – informou Longwy. – O tesouro do Templo já foi destinado conforme estipulastes. Continuará servindo aos propósitos da Ordem. Ajudará os escoceses na sua luta pela liberdade e financiará nossos irmãos portugueses na sua luta contra os infiéis. Servirá também aos nossos propósitos de vingança. Com isso, aconteça o que acontecer, a Ordem continuará viva.
– Fico feliz em saber disso, meu irmão. Se eu tiver que morrer pela nossa causa, morrerei sabendo que nosso sacrifício não foi em vão – disse Jacques de Molay. – A propósito, nosso irmão Larmenius de Chartres, em Chipre, já tem suas instruções também, de como dar continuidade ao nosso ideal, mesmo que seja na clandestinidade. Prestai a ele toda a colaboração necessária e mantei sempre contato com os nossos irmãos de Ultramar.
– Sim, irmão grão-mestre. A nossa confraria de maçons tambémestá se preparando para dar continuidade aos nossos ideais de espírito. Quanto a isso podeis ficar sossegado. Estamos já procurando realizar uma fusão entre os ritos de iniciação e passagem, praticados pelos nossos iniciados e os ritos praticados pela Ordem. Com o tempo, o Templo e as Lojas dos maçons se tornarão uma única organização – disse Longwy.

– Posso então ficar tranquilo em relação aos nossos segredos iniciáticos – disse de Molay. – Espero que os tenhais bem de memória, pois como sabeis, tive que mandar queimar todos os livros, documentose rituais que a Ordem utilizava, para que eles não fossem descobertos e usados contra nós – completou.

– Fizestes bem. Esses padres ignorantes jamais iriam entender o verdadeiro significado deles. São tão rústicos que tomam por heresia toda e qualquer sabedoria que não conseguem entender –, disse Longwy. 

– Heresia. Heresia é tudo aquilo que ameaça o poder da Igreja, meu irmão – disse o grão- mestre.
– É verdade, meu irmão. Mas um dia todos os homens serão livres para escolher no que acreditar. Ninguém irá para a fogueira só por ousar ter ideias próprias a respeito de religião, ou por procurar saber como a natureza trabalha para produzir os seus fenômenos– disse Longwy, com um profundo suspiro.

– É um sonho, sem dúvida. Uma utopia pela qual lutamos e derramamos o nosso sangue. Uma pátria universal, onde todas as religiões possam conviver em paz e os homens se guiarem apenas pela consciência do bom e belo que cada uma ensina. Pois esse seria o nosso reino, se triunfássemos, – disse Jacques de Molay. 

─ Um reino onde a religião seria a moral que faz os homens justos e virtuosos e não uma superstição vendida nos púlpitos ─ suspirou Jean de Longwy.

─ A propósito, o que sabeis sobre o destino da nossa sagrada relíquia ─ perguntou de Molay, olhando para todos os lados, como se a confirmar que estavam sós na cela.
─ Sei que ela foi oculta em lugar onde ninguém jamais a encontrará. Podeis ficar tranquilo quanto á isso, irmão grão-mestre.

─ In Arcádia Ego ─ murmurou Jacques de Molay,

─ In Arcádia Ego ─ repetiu Longwy. ─ Oxalá Ele repouse finalmente em paz, e as pessoas aprendam a viver pelo que ele ensinou e não deturpem mais a sua doutrina como justificativa para suas próprias ambições.

─ Esse foi o nosso sonho, irmão. Um reino onde a verdadeira doutrina de Cristo fosse praticada ─, suspirou De Molay. 

─ Foi um belo sonho, meu irmão, e devemos nos orgulhar de tê-lo sonhado ─ disse Longwy.

─ Sim. O sonho de reconstruir o Templo de Salomão. Mas eis que esse Templo também acabou sendo destruído como os outros. Quando será que a humanidade aprenderá a construir um Templo de Jerusalém perene, que seja capaz de resistir ás investidas da cobiça, da inveja e da maldade humana ─ perguntou, desconsolado, Jacques de Molay. 

– Esse sonho não acabou, meu irmão. Um dia haveremos de realizá-lo. O Templo de Jerusalém é a própria humanidade e nela se hospeda tanto o mal quanto o bem. E também sempre haverá nele um Mestre, que como vós e nossos irmãos serão sacrificados para que ele possa existir. Nós, os Obreiros de Salomão, tivemos no nosso arquiteto Hiram Abiff, o sacrificado do primeiro Templo. Jesus foi o sacrificado do segundo. Vós sereis o sacrificado do terceiro. Mas nós continuaremos a erguer templos á virtude e cavar masmorras ao vício. Os Soldados de Cristo e os Obreiros de Salomão, ambos Filhos da Viúva, doravante trabalharão pelo mesmo ideal. A nossa tradição será conservada pelos séculos dos séculos através dos ritos e da arte de construir edifícios e nações. E um dia...

– Oxalá eu pudesse viver para ver esse sonho realizado, meu irmão– disse Jacques de Molay, abraçando fortemente o mestre da Compagnionnage.

Os três abraços cruzados, peito contra peito, cada um seguidopor três batidas nas costas, que os dois Templários se deram, não passaram despercebidos á messier Jean de Janville, que havia chegado silenciosamente, e estava parado, junto á porta da cela, com um pique na mão. 
Jean de Longwy percebeu a presença importuna.

─ Chove sobre o Templo, irmão ─ disse Longwy, ao ver o carcereiro, em pé, na porta da cela.
- Resguardemo-nos das goteiras, então- respondeu de Molay. Imediatamente, de Molay levou a mão direita, em forma de garra, ao lado esquerdo do peito, como se estivesse arrancando o próprio coração. Esse era um gesto que tinha por objetivo ocultar a cruz no peito, quando na presença de profanos. Longwy repetiu o gesto. Esse era um sinal distintivo entre os Templários que se fazia quando, entre eles, pessoas estranhas ao seu convívio eram introduzidas.

À Janville, a estranha troca de sinais não passou despercebida.“Pois é”, pensou o arguto carcereiro: “Bem que me disseram que esses Templários eram mesmo uma gente muito estranha.”

(EXCERTO DO CAPÍTULO XXVIII DO ROMANCE " OS MESTRES MALDITOS)

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