quinta-feira, 12 de outubro de 2017

OS MONGES MALDITOS

CAPÍTULO XXV

A MALDIÇÃO DO GRÃO-MESTRE

João Anatalino Rodrigues

Os jardins do palácio real ficavam de frente para a Ilha dos Judeus. Uma das torres do palácio, a chamada Torre da Água, tinha uma galeria que dava de frente para ela. Dali se obtinha uma bela vista da Praça de Notre Dame e de todas as cercanias da Ilha de La Cité. Desse sítio, o rei, acompanhado pelos seus conselheiros, poderia assistir á execução. 

Em pé, na galeria da torre, o rei, acompanhado de seus filhos e conselheiros observava o cortejo que se formava na Praça da Catedral para acompanhar os dois altos dignatários do Templo até a pequena ilhota, que não era mais que uma pequena mancha de terra em meio ás águas escuras do rio. Percorreu com os olhos a massa que seguia o cortejo conduzindo os prisioneiros e viu, com algum prazer, que o povo estava ao seu lado. Havia um entusiasmo espontâneo naqueles rostos que sorriam, gritavam e lançavam insultos e impropérios aos dois anciãos. 

Uma prancha de madeira, á guisa de ponte, foi estendida entre a praça da catedral e a pequena ilha, onde a pilha de lenha fora erguida. Pouco mais de dez metros de uma água escura e viscosa separava a Praça de Notre Dame da Ilha dos Judeus. Há pouco mais de vinte metros, do outro lado, estavam os jardins do palácio real. Uns vinte metros adiante, ficava a galeria da Torre da Água, onde o séquito de Filipe se ajuntara para ver o macabro espetáculo. Dali eles podiam ver e ouvir muito bem o que acontecia na praça e na ilha.

Os condenados foram guiados pela prancha até o terreno da pequena ilha. Por uma escada, foram levados até o topo da pilha de lenha, onde dois arqueiros os amarraram ao poste, com as mãos para trás, um de costas para o outro. 

Os arqueiros que os havia amarrado desceram e logo em seguida subiu um padre.

– Vós fostes homens de Cristo e lutastes por ele. Mas perdestes a fé e injuriastes a sua Igreja. Este é o momento de vos reconciliardes com ele, a quem negastes, e mostrar sincero arrependimento, para que vossas almas sejam salvas – disse o padre.

Jacques de Molay olhou para o padre e disse: 

─ Ficai com vossa Igreja, vosso rei e com vosso papa. Eles logo terão o que merecem. Deixai-me apenas voltar os olhos para o céu e orar. Este é o momento próprio. Eu vou morrer agora e Deus sabe que injustamente. Mas logo a desgraça alcançará quem nos condena sem justiça. Deus vingará a nossa morte. Morro com esta convicção. Só quero, agora, voltar meu rosto para a Virgem, nossa mãe, e orar. 

Então virou o rosto para Notre Dame e começou a pronunciar uma oração, em voz baixa, numa língua desconhecida do padre. O padre persignou-se, como se o condenado estivesse invocando um demônio.

– Confessai os vossos pecados e dizei se estais sinceramente arrependidos, para que possais receber o perdão de Deus e os sacramentos da extrema-unção, sem a qual vossas almas não encontrarão repouso no outro mundo – insistiu o padre.

─ Nada temos a confessar ─ disseram ambos os prisioneiros. A nossa pureza já as entregamos á Deus.

O padre balançou a cabeça, como quem reconhecia a inutilidade de tudo aquilo. Por fim, persignou-se e começou a descer a escada.

Do alto da galeria da Torre, Filipe e seus conselheiros observavam tudo. O gesto do padre, ao balançar a cabeça, desconsolado, não escapou a Nogaret.

– Até com a morte a fungar no cangote deles, esses malditos hereges não se entregam – disse ele.

– Eles são cavaleiros, Messire Nogaret – disse Carlos de Valois.

A tirada não escapou a Filipe. 

– Cavaleiros que perderam seus títulos, sua fé e sua honra – disse o rei. – São podres e queimarão como carne podre – completou com desprezo. 

Um silêncio sepulcral invadiu a praça quando o padre terminou a sua ladainha mortuária, feita em latim. Alain de Parreiles fez um sinal a um arqueiro que portava um archote de estopa embebida em óleo. O archote foi aceso e no momento em que as chamas azuladas brilhavam na já quase noite que se iniciava, um murmúrio se ergueu junto ao populacho que se aglomerava na praça, em frente á pequena ilha. A um sinal do capitão, o arqueiro enfiou o archote no meio da pilha de lenha, que começou a crepitar. Línguas de fogo surgiram em meio á madeira seca e uma fumaça espessa primcipiou a subir. 

Não havia se passado cinco minutos e a enorme pilha de madeira seca se transformara numa impressionante pira crepitante, de achas que estalavam e brasas que caiam, soltando infernais línguas de fogo que começaram a lamber os esvoaçantes mantos dos prisioneiros. 

– Vejam – gritou um dos espectadores que estava na frente da multidão – eles começam a assar. 

Para ele e para aquela turba que ali se aglomerava, aquele era um espetáculo verdadeiramente atraente. As línguas de fogo dançavam como ninfas infernais, exercendo sobre a plateia um fascínio diabólico. Havia algo de sensual naquilo. As pessoas gozavam um prazer mórbido ao ver os dois velhos cavaleiros se contorcendo no poste, como se estivessem se esfregando nele em busca de um orgasmo. As chamas refletiam nos olhos brilhantes da turba fascinada, como se fossem fogos de Santelmo, em noites de tempestade no mar. 

– Vejam – gritavam os espectadores. – Eles não parecem tão arrogantes agora. 

─ Assam como os porcos que são!

Foi então que ocorreu o fenômeno. De repente, uma rajada de vento soprou sobre a ilha e a fumaça se dissipou. A turba, fascinada, pode divisar bem os dois anciãos em meio ás chamas, que já começavam a se aproximar de seus corpos. Filipe, o Belo, seus filhos e conselheiros, postados na sacada da Torre da Água, também não puderam deixar de notar o inusitado da situação. A própria madeira em chamas parara de crepitar. Um silêncio fantasmagórico se espalhou pela ilha. As pessoas esticaram os pescoços para ver e aguçavam os ouvidos para ouvir. O Grão-Mestre ia falar.

– Nekan, Adonai. Chol-begoal! ─ gritou o ancião. 

– O que ele disse? – perguntou Filipe.

– Ele clama a Deus – disse Enguerrand, que havia reconhecido a palavra Adonai.

– Devia ter feito isso antes – comentou Nogaret, com sarcasmo. – Deus não pode salvá-lo agora.

A observação impiedosa não escapou a Jean de Marigny, que conhecia bem a história de vida de Nogaret.

– Não devieis blasfemar, Messire de Nogaret – disse Marigny.

Nogaret sorriu. Marigny, que tinha conhecimento de latim e hebraico pensou que o inflexível ministro de finanças do rei não teria sorrido se fosse judeu e soubesse o que queria dizer aquelas misteriosas palavras do ancião, cujas chamas já começavam a consumir as bordas do seu manto. Ele, que temia os encantamentos e os bruxedos, certamente não iria se sentir confortável se soubesse o que significavam aquelas misteriosas palavras.

Com efeito, Jacques de Molay, em meio ás chamas que começavam a consumir suas carnes, clamava por vingança. Chamava pelo anjo vingador, o Elohin da vingança, conhecido pelos cabalistas pelo nome de El Nekan. 

– Ele deve estar invocando algum demônio – disse Luís, o Cabeçudo, filho mais velho de Filipe, persignando-se.

– Seria próprio desses hereges – comentou Enguerrand.

– Nenhum demônio pode salvá-lo agora – disse o rei.

E foi então que as chamas começaram a queimar as roupas do altivo ancião. A sua longa barba hirsuta, que antes balançava ao vento, se transformou numa lavareda azulada; e um cheiro de carne queimada se espalhou pelos ares misteriosamente parados, para àquela hora e local. Então Jacques de Molay, reunindo as forças que lhe restavam, olhou para a balaustrada, onde Filipe, o Belo, seus filhos e conselheiros, estavam presenciando a cena e gritou: 

– Rei Filipe, papa Clemente! Antes que se passe um ano estais convocados para comparecer perante o tribunal de Deus para serdes julgados por este crime! Malditos sóis vós e a vossa descendência, até a décima terceira geração!

Então, como se uma mão tivesse desligado o tempo e os sons do mundo e de repente os tivesse ligado de novo, o vento voltou a soprar sobre a ilha. As línguas de fogo subiam, aumentando de tamanho. Recomeçaram sua estranha e diabólica dança em volta dos corpos dos dois anciãos, que a essa altura já haviam perdido a consciência. A fogueira, constantemente alimentada com madeira pelos arqueiros do rei, começou a crepitar novamente. 

Os corpos dos dois altos dignatários da Ordem do Templo tinham se transformado em dois tições fumegantes. Não se podia mais distingui-los dos pedaços de madeira que ardiam. O cheiro de carne queimada era agora quase insuportável. As madeiras, transformadas em cinzas, começaram a desmoronar. Em poucos minutos, os dois torrões, nos quais tinham se transformado os corpos de Jacques de Molay e Geoffroy de Charney, afundaram em um mar de cinzas, chamas e fumaça. 

No alto da balaustrada da Torre das Águas, Filipe olhava o dantesco espetáculo. Não pronunciara palavra quando o GrãoMestre do Templo lançara a sua maldição sobre ele, sua família e o papa. 

– Acabou, Majestade – disse Nogaret.

– É, acabou – respondeu o rei, maquinalmente.

– Pareceis preocupado, Majestade – disse Carlos de Valois. – Não estais levando a sério a maldição que o velho Grão-Mestre vos lançou, estais?

– Não essa maldição, meu Irmão, não essa maldição – disse, pensativamente, o rei. 

E, inconscientemente, voltou sua vista para o colosso maciço que era a Catedral de Notre Dame. Na luz do crepúsculo que se esvanecia e no contraste com a fantasmagoria das chamas, que ainda saiam da fogueira, o reflexo que elas projetavam nas águas do Sena lhe trazia um estranho sentimento. Sem querer, seus olhos pousaram nas estranhas figuras que ornavam o frontispício do majestoso edifício. 

– Nekan, Adonai – uma voz murmurou, nas suas costas. Filipe se admirou ao ver que alguém estivera seguindo seus pensamentos e pronunciara exatamente as palavras que seu cérebro acabara de articular, mas a língua não ousara pronunciar.

O rei se virou maquinalmente, como se uma lâmina em brasa tivesse sido encostada nas suas costas. Mas só viu o seu ministro, Guilherme de Nogaret, olhando fixamente, como ele, no momento anterior, para as estranhas carrancas que os Obreiros do Bom Deus, os Mestres da Compagnonnage, haviam esculpido no frontispício de Notre Dame. 

─ O que significa Nekan, Adonai? ─ Perguntava, a si mesmo, o inflexível Ministro dos Selos Reais. 

Mais preocupado teria ficado o ministro se tivesse visto, na madrugada daquela noite, aqueles sete indivíduos usando mantos negros, que se aproximaram da fogueira e recolheram um punhado de cinzas. Como se cumprindo estranho ritual, que mais parecia uma dança fantasmagórica, eles sopraram as cinzas na direção do palácio real, recitando, em voz pausada e mântrica, o cântico do Mac benagh.






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