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domingo, 10 de dezembro de 2017



CATEDRAIS GÓTICAS



Por Oliveira Pereira (Oriente de Portugal)

Por terem um conhecimento secreto, os Cavaleiros da Ordem do Templo, para além de muitos outros feitos, notabilizaram-se na construção das Catedrais góticas, essencialmente, porque tinham o conhecimento de que construir significava muito mais do que edificar uma estrutura física. Na verdade, tanto para a Ordem do Templo como para todo o verdadeiro crente, construir significa ter a capacidade de gerar espaços e lugares que propiciam a união da Terra ao Céu, o que se traduz que através da construção o Homem liga-se ao Divino e ao Sagrado, formando deste modo a Unidade Harmoniosa. Os Cavaleiros Templários tinham a interiorização e o conhecimento necessário para compreender os valores harmónicos que emanam de uma construção religiosa, e em particular de uma Catedral gótica. Porém, não é necessário sermos Iniciados nos mistérios da Ordem do Templo para sentirmos o sagrado de uma Catedral gótica, uma vez que este emana tanto nas suas dimensões e volume, como das imagens que ostenta e da qualidade da luz que é filtrada pelos seus vitrais e que é projetada no seu interior, moldando sombras e criando mistérios.

A CAMINHADA NO INTERIOR DE UMA CATEDRAL GÓTICA

Ao entrarmos numa Catedral gótica, entramos pela porta que dá acesso à nave principal, e por essa via, tanto podemos caminhar com os traços que marcam o nosso sacrifício, como podemos caminhar com satisfação, uma vez que a emoção com que iniciamos a nossa caminhada nesse espaço sagrado, só depende de como foi construída a nossa Catedral interior. Entremos, pois, no interior da Catedral imbuídos de fé e de esperança. Logo à entrada (nas poucas Catedrais góticas ainda existente), podemos encontrar o chamado “Labirinto de Salomão”, por ser o símbolo da Sabedoria, que no mais puro sentido alquímico, tem o mesmo significado que é atribuído ao mito grego de Teseu, o herói que entra num labirinto para combater o Minotauro. E, que após ter vencido o monstro metade homem, metade touro, consegue regressar, graças ao fio que sua esposa Ariadne (aranha) lhe dera. Porém, para o cristão, o labirinto de uma Catedral gótica assume um simbolismo mais consentâneo com a sua filosofia, o qual para ele passa a significar o caminho que une a Terra com o Céu. Assim, ao percorremos os seus labirínticos caminhos, procuramos chegar à nossa salvação eterna e, para que isso seja possível, simbolicamente temos que enfrentar a morte e a ressurreição, até chegarmos à Jerusalém celeste, ao Santo Graal.

Na verdade, ao caminharmos neste labirinto, estamos simbolicamente a caminhar nos caminhos que iremos percorrer em toda a nossa vida. Pois, mais cedo, ou mais tarde, entraremos em contato com o nosso monstro interior, isto é, entraremos em contato com as nossas imperfeições. E, quem consegue combater e vencer os seus próprios defeitos (o Minotauro) e possui o fio de Ariadne (o símbolo do conhecimento iniciático) consegue ver a verdadeira Luz e encontrar o Santo Graal.

Assim, vencido o labirinto, continuamos a caminhar ao longo da nave central, e encontrar tanto à nossa direita, como à nossa esquerda, duas ou mais filas de compridos bancos de madeira, que simbolicamente são as muitas Moradas da Casa de Deus, dado que em cada assento, haverá sempre um lugar para quem o procure.

Nessa caminhada em direção ao trono da Divindade, estamos compenetrados, pelo que não nos distraímos, nem com a estatuária esguia que nos olha por cima, nem com as histórias sagradas que se projetam no chão sagrado. Seguimos sempre em frente, pois sabemos que encontramos o Altar ao fundo dessa comprida nave, no qual se consagra o pão e o vinho, símbolo da matéria e do espírito, e que por essa razão, é o portal da pureza e da perfeição, a partir do qual não existem mais paixões, nem mais mesquinhez humana. Comungando nesse altar, sabemos que purificamos e limpamos o nosso espírito, das impurezas, das imperfeições de carácter, e das culpas que ao longo da vida vamos formando. Contudo, será somente através do nosso puro e sincero arrependimento, que purificaremos o nosso Eu Interior, e com este limpo e purificado, sabemos que somos eternos, dado que estamos imbuídos da pura Perfeição e da Pureza da Luz Sagrada.

Assim, para alcançarmos essa mística Luz branca que vem do Oriente, temos que continuar a caminhar pela comprida nave da Catedral, rodear a fonte dos transeptos, e obrigatoriamente, voltar o nosso rosto para o Oriente, para a direção onde nasce o Sol, para a direção que foi o berço das grandes tradições espirituais. Pelo que ao saímos do transepto das trevas, obrigatoriamente seguimos em direção à Luz. E, nessa direção, poucos passos adiante, sentimos logo a atmosfera que nos convida à introspecção e à reflexão.

Após termos alcançado o altar dos sacrifícios, chegamos pôr fim ao local onde se situa o Coral Gregoriano, local onde cantam os Anjos e todos os Seres Perfeitos e imaculados, que acolhem todos aqueles que abandonam a sua prisão de carne e ossos, para, finalmente, retornarem ao seu verdadeiro Lar Eterno. E, deste local onde pairam os seres perfeitos e imaculados, por fim, avistamos o Altar Mor.

Chegados ao local onde recebemos a luz que vem do Oriente, a direção que simboliza a Luz de Deus, Aquele que foi O Grande Arquiteto de todo o Universo, embora lá esteja a representação do Mestre Perfeito que nos indicou o Seu caminho, mais consentâneo com os escritos gnósticos, que nos apresentam um Jesus mais humano e menos divino do que os evangelhos ditos canónicos. Imbuídos da mais pura Fé, sabemos que no coração deste palácio da Divindade, só terão lugar os que abandonaram todas as paixões e todas as misérias humanas, caso contrário, serão obrigados a percorrer o árduo caminho em direção ao Ocidente, e sair da Paz Eterna, para a confusão do mundo profano, de aprendizagem e evolução.

Uma das sete leis de Hermes diz-nos que o que está em baixo é igual ao que está em cima, o que também é válido para as Catedrais góticas, pois se os pináculos de uma Catedral gótica furam os Céus, as suas criptas perfuram e escondem-se nas entranhas da terra. Lá, que é o paradeiro das ossadas e dos espíritos vagabundos. E, que por estar sempre envolta no eterno manto do silêncio, da humidade e da escuridão, atraem sobre elas densos mistérios, pelo que são poucos aqueles que se aventuram sem secretos medos, por aqueles escuros e húmidos labirintos. Nesses lúgubres lugares, podemos encontrar numerosas colunas, encimadas com atarracados capitéis, onde a elegância e a riqueza cedeu o lugar à solidez e à robustez. Na verdade, nesta parte intima da Catedral gótica, domina o poder das trevas, que no seu escuro manto, abraça e esconde o asilo dos mortos e a necrópole dos ilustres. E, tal como nas catacumbas romanas, que foram na antiguidade o cemitério dos cristãos, neste lugar de mistério e de medos, também existe lajes de pedra, mausoléus de mármore e sepulcros em ruínas, que nos dão a conhecer fragmentos do passado, e que nos profetizam, que neste mundo nada somos, e tal como aqueles que antes de nós viveram e, ali repousam, um dia também ao pó regressaremos. E, porque esta mensagem é uma verdade intemporal, qualquer mortal receia entrar neste mundo de trevas e de fantasmas. E tanto mais que a panóplia de horrendas figuras que decoram as fachadas da Catedral gótica, parecem anunciar, que naqueles escuros labirintos existem cavernas onde vivem os ciclopes, ou quiçá, ainda pior, podem dar acesso ao portal do inferno.

Na verdade, cada parede, cada coluna destes livros de pedra esculpida, contam ao visitante uma surpreendente odisseia humana, ao mesmo tempo que nos ensina qual é o Caminho Reto, que nos permite não nos desviarmos, nem para os bancos da esquerda, nem para os bancos da direita, a fim de podermos atingir a plenitude do Altar Mor, e de lá, jamais retornar, a menos que seja para auxiliar um nosso irmão, que ainda não tenha conseguido encontrar o seu caminho, e que por isso, vagueia perdido entre os bancos das naves laterais. Assim, ao prestarmos esse auxilio, passaremos a conhecer um dos significados dos dois cavaleiros sobre um único Cavalo. Que é sem dúvida, o voluntário que foi amparar o seu Irmão Menor de Armas, que se achava perdido entre as ilusões do mundo, e a hipnose provocada pela luxúria, cumprindo desse modo o seu juramento sagrado.

A CATEDRAL INTERIOR

Se interrogarmos o mais comum dos mortais, para que nos explique o que é uma Catedral gótica? De certo, que ele nos dará como resposta, que uma Catedral é o Palácio de Deus. Mas, se a intensidade da fé desse mortal for imprecisa e pouco segura, então, ele dar-nos-á como provável resposta: que uma Catedral é um lugar destinado à meditação e à oração. Porém, se interrogarmos um herdeiro das herméticas tradições Templárias, provavelmente, responder-nos-á qualquer coisa como: uma Catedral, tanto poderá ser o nosso “Caminho na Terra”, como poderá ser o nosso “Templo Interior”. Pois, tal como aqueles belos livros de pedra rendilhada com os seus pináculos a furar os Céus, escondem e expõem conhecimentos, pois tal como aqueles colossos, o nosso “Templo Interior” também expõe as nossas virtudes, e esconde os nossos erros; mostra as nossas esperanças, e ofusca as nossas decepções.

Assim, o Iniciado consciente da sua Fé, constrói na Terra a sua Catedral Interior para que a sua vida nesta seja correspondente àquela que espera vir a ter nos Céus, e deste modo, o Iniciado parte simbolicamente de Postulante a Escudeiro, e ao concluir a edificação da sua Catedral Interior, chega finalmente ao grau de Cavaleiro. Aliás, no contexto medieval, a Catedral gótica também tinha a imagem de ser o Céu na Terra, dado que oferecia ao crente uma forte impressão do sagrado e do Divino, tanto pelo seu forte simbolismo, que se agarra às paredes, que se esconde nos nichos e que se suspende das abóbadas, como pela majestade e solenidade das imagens dos apóstolos e de Deus a olharem-no de cima para baixo, como que a analisarem o seu verdadeiro íntimo. E, tal como a Catedral de pedra, é erguida de harmonia com o Verbo e, não por consequência de um qualquer racionalismo, também nós erguemos a nossa Catedral interior na mais pura base de uma forte formação moral; nas ações que praticamos no dia a dia; e pela beleza dos nossos pensamentos, os quais poderão conduzir-nos para além do finito, do tempo e do espaço que conhecemos como mortais.

Por outro lado, se a Catedral de Pedra representa nitidamente os dois mundos da vida na Terra: o mundo exterior, onde a história da imortalidade é vivenciada na estatuária e nas histórias que são contadas através dos coloridos vitrais, e a do mundo interior, o qual é representado pelo espaço, pela grandiosidade, pelo silêncio, pela paz, e pela pura luz que vem do alto. Na verdade, o sagrado de uma Catedral Interior, está no nosso pensamento, que nos conduz à imaginação de um Universo transcendente, berço de infinitas vidas. Pelo que tal como a Divindade habita na Catedral de pedra, podemos considerar também, que o nosso “Eu” habita na nossa Catedral Interior, em perfeito silêncio e em harmonia com Esta. Por isso podemos também considerar que o mundo exterior a este Templo Interno, é um mundo profano, confuso e cheio de ruído, que nos impossibilita concretizar a nossa verdadeira missão espiritual, neste minúsculo ponto azul.

Os Cavaleiros Templários, que para além de outros feitos, se notabilizaram na construção das Catedrais góticas, essencialmente, por terem o conhecimento secreto de que construir significava muito mais do que edificar uma estrutura de pedra, uma vez que tanto para eles, como para aquele que é o verdadeiro crente, construir significa ter a capacidade de gerar espaços e lugares que propiciam a união da Terra ao Céu, o que faz com que através da construção, o Homem se ligue ao Divino e ao Sagrado, formando deste modo a unidade. Pelo que através deste conhecimento secreto os Cavaleiros Templários tinham a interiorização e o conhecimento necessário para compreender os valores harmónicos que emanam de uma Catedral gótica.

Todavia, não é necessário sermos Iniciados nos mistérios dos Cavaleiros do Templo, para sentirmos o sagrado de uma Catedral Gótica, uma vez que este está expresso tanto nas suas dimensões e volumetria, como está expresso nas imagens que ostenta e na qualidade da luz que é filtrada e projetada para o seu interior. Agora, que já conhecemos a nossa Catedral Interior, entremos na nossa câmara de reflexão, pelo holograma da porta da Deusa, à semelhança e imagem da porta que nos permitiu entrar nesta nave planetária, para que o nosso recolhimento espiritual seja meditativo e primordial, tal como o faríamos no interior de uma Catedral de pedra. Pois, tal como naquela, quando entramos na nossa Catedral Interior, para além de suspendemos a confusão dos nossos pensamentos, suspendemos também o turbilhão dos nossos apegos e dos nossos anseios, e neste estado de pureza e de leveza absoluta, preparamo-nos para aumentar a pequena Luz que habita no nosso “Eu”, uma vez que é quando com sinceridade nos entregamos à meditação e à reflexão, que aquela pequena e tímida Luz que habita no nosso peito, aumenta de intensidade. Essa tímida Luz que conhece os nossos mais íntimos segredos, não tem comparação com outro qualquer fenómeno, uma vez que apesar de pequena, agiganta-se no nosso coração, toma-o por completo e, propaga-se ao nosso pensamento e a todo o ambiente que nos rodeia e nos envolve, fundindo-se instantaneamente com a Luz que ilumina este minúsculo ponto galáctico.

Agora que conheces a existência de uma Catedral Interior em cada um de nós, quando visitares o teu Templo sagrado, lembra-te deste artigo, pois entraste no palácio de Deus, e por conseguinte, aproveita esse momento para purificar o teu pensamento, por forma a que o teu espírito esteja sempre pronto para integrar essa Luz Eterna, que em cada dia nos ilumina com a sua Sabedoria, com a sua Beleza e que nos dá a sua Força, para continuarmos a nossa viagem galáctica que um dia iniciámos, e que nunca chegaremos a ver o seu término.

O ESOTERISMO DE UMA CATEDRAL GÓTICA

Numa Catedral gótica, encontramos bizarras figuras que se agarram aos pináculos, colam-se aos arcobotantes, prendem-se aos muitos frisos de pedra talhada, suspendem-se nas abóbadas, e até se escondem nos mais recônditos nichos e nos mais sombrios recantos, que pela sua profusão e simbolismo, parecem contradizer o fim para que aquelas joias da arquitetura foram edificadas, dado que fazem parte integrante da decoração de uma Catedral gótica, uma panóplia de figuras que bem poderiam ser consideradas sacrílegas, ou no mínimo heréticas, que vão desde as horrendas gárgulas, até aos ameaçadores dragões alados e aos vampiros de aspecto assustador, passando pelos misteriosos ciclopes, até às figuras que entroncam e dão vida aos contos e às lendas da mitologia celta, como sejam as figuras do homem verde e do seu deus “Pan”, que por ter sido apresentado aos cristãos, libidinoso e o principal figurante em ritos considerados por estes de deboche e de libertinagem, durante muito tempo, foi confundido com o próprio demônio cristão.

Todavia, apesar desta figura metade homem e metade bode, semelhante a muitas representações do “Bafomé” dos Templários, causar ao homem medieval calafrios e medos justificados, para nossa grande surpresa, não deixou de ornamentar com grande destaque, os frisos dos pórticos da maioria das Catedrais góticas. Pelo que esta figura de aspecto horripilante, tal como o símbolo Templário de que muito se assemelha, parece ter sido ali colocado, para transmitir ao Iniciado, que transpõe o pórtico da Catedral gótica, de que está a entrar num espaço sagrado, que o transcenderá à essência Divina e, que uma vez catapultado para essa dimensão cósmica, se confundirá com o próprio Deus, uma vez que neste espaço sagrado lhe é transmutado o verdadeiro sentido da humanização.

Para além desta criativa e surpreendente estatuária de aspecto horripilante e sacrílego, convivem lado a lado com estes monstros de pedra esculpida, uma fauna não menos bizarra e peculiar, uma vez que apesar de ser considerada pela cristandade medieval, maldita e pagã, não deixaram de ornamentar estes colossos símbolos da fé cristã. É o caso do grifo, que é uma figura mitológica meio leão, meio águia, e que a antiga Igreja Cristã considerava ser o invólucro do demónio; ou até mesmo o cavalo, que por esta Igreja foi durante muito tempo considerado ser a montada das forças das trevas; e muitos outros animais considerados por esta malditos e impuros, fazem parte integrante da decoração das Catedrais góticas, como é o caso do bode, que para aquela Igreja era o símbolo da luxúria; a loba, que esta considerava ser o símbolo da avareza; o tigre, que considerava ser o símbolo da arrogância; o escorpião, considerado ser o símbolo da traição; o leão, considerado ser o símbolo da violência; o corvo, considerado ser o símbolo da malícia; a raposa, considerada ser o símbolo da heresia; a aranha, considerada ser o símbolo do diabo; o sapo, considerado ser o símbolo do pecado, e muitos outros animais com conotações sacrílegas ou perniciosas para esta.

Para além desta intrigante e peculiar fauna, fazem parte da decoração de algumas Catedrais góticas os símbolos alquímicos, andróginos, hermafroditas e também os símbolos que representam a eterna busca da juventude pelo homem, os quais, pelo menos em duas Catedrais, estão bem explícitos e muito visíveis. Um na Catedral de Chartres, numa gravura, onde está representada a rainha de Sabá exibindo uma barba, e outro na Catedral de Nantes, onde também numa gravura, está representada uma figura de um homem que aparente estar na flor dos anos, a olhar para um espelho, cuja parte posterior da cabeça é a de um homem que já viu e suportou bastantes invernias.

Na verdade, os símbolos alquímicos, que foram muito do agrado dos antigos maçons operativos, em todos os tempos têm sido considerados a fonte inesgotável de conhecimentos que prolongam a vida, e o cerne da longevidade, se não mesmo o segredo da verdadeira imortalidade física. E, por terem sido incluídos na decoração das Catedrais góticas, muitas delas financiadas pelos Cavaleiros Templários, descortinam-nos a pretensão que estes Cavaleiros tinham em quererem alcançar o último poder, o poder da imortalidade.

Um outro elemento patente na decoração de uma Catedral gótica, não menos surpreendente e intrigante, e que por sinal, também foi muito do agrado e apreço dos Cavaleiros do Templo são as misteriosas e enigmáticas Rosáceas, as quais são a primeira representação luminosa da transfiguração, a “roda” para os alquimistas, por representar o tempo necessário para o fogo transmutar a matéria e, o livro pintado para o ensino do sagrado através da arte vitral.


Na verdade, para além de outras possíveis caracterizações, o gótico distingue-se pelo intenso trabalho dos antigos maçons operativos, que com o malho e o cinzel, souberam manifestar fisicamente através destes colossos o seu génio e o seu próprio trabalho interior, dado que estes monumentos refletem a sua obra interna e externa. Pelo que podemos considerar que estes monumentos da cristandade substituíram o pergaminho, uma vez que a ornamentação esculpida, veio a ajudar a divulgar mensagens proibidas na impressão. Provavelmente, uma das principais razões porque foram as grandes Catedrais em pedra decoradas com a diversa, bizarra e sacrílega decoração, a qual ainda hoje, transmite aos crentes uma mensagem exotérica, e aos iniciados, uma mensagem esotérica. Porém, o conhecimento que estes templos emanam a quem os visita, nada poderá ser considerado mais laico, e pela profusão das imagens moldadas pela luz baça que vem do alto, nada poderá ser considerado mais humano.


O VENTRE DA DEUSA

Poucos são os visitantes duma Catedral gótica, que com um olhar crítico e observador, olharam para os portais góticos desses majestosos monumentos da cristandade. Contudo, pelas velhas portas de carvalho já carcomidas pelo tempo, incontáveis gerações de cristãos atravessaram-nas, certamente, imbuídos da mais pura fé. Provavelmente, muitos deles até pararam para apreciar com algum deleite os seus belos frisos de pedra talhada. Todavia, poucos foram aqueles, que conseguiram descodificar o segredo da sua forma ogival. Que sendo arcos de edificações Templárias, na certa, contêm uma mensagem mística e oculta que se destina aos seus Iniciados.

A história diz-nos que os Templários foram grandes devotos do feminino. A literatura de ficção fala-nos de ritos carnais e obscenos entre os dois sexos. Contudo, tanto a história como a literatura dizem-nos que a devoção que os Templários nutriam pela mãe de Jesus Cristo, Maria, era muito profunda, o que não nos surpreende, uma vez que encontramos nesta devoção, muitas semelhanças com a devoção prestada a Maria pela Ordem de Cister, sobretudo, pela figura do abade S. Bernardo, que foi o grande inspirador da Ordem do Templo, e também o grande divulgador do culto Mariano. Assim, através desta conotação podemos deduzir, que a Ordem do Templo nutria também uma grande simpatia pelo culto Mariano e, por sua vez, ao culto da Grande Deusa. Sendo esta a razão, porque aqueles grandes Senhores de manto branco representaram nos pórticos das Catedrais góticas, a parte mais intima da Deusa, a sua vulva.

Na verdade, o culto da Virgem é um dos arquétipos mais fortes de toda a história da humanidade. Desde os mais remotos tempos, que existe uma relação prototípica entre a Virgem e a Lua. Essa Virgem-Lua, que no contexto teológico cristão, dá pelo nome de Maria, e no contexto gnóstico, dá pelo nome de Maria Madalena. Mas, que tanto num contexto, como no outro, é aquela que reflete e difunde na Terra a luz mística do Cristo-Sol.

Por outro lado, as “Deusas” e as “Virgens” mediante um processo de sincretismo, todas elas descendem da Grande Mãe. E, as inscrições contendo explicitamente o nome de Isis, numa estátua da “Virgem”, que fora descoberta na Catedral de São Estevam, em Metz, eliminam qualquer dúvida sobre a correspondência entre Maria e a Grande Mãe. Aliás, a própria Catedral de Chartres, uma das Catedrais góticas mais conhecidas no mundo cristão, tal como muitas outras Catedrais cristãs dedicadas à Virgem Maria, ou à outra Maria, foram erigidas num local de peregrinação consagrado à Grande Deusa, antes do cristianismo. Pelo que em Chartres, continua a ser homenageada a Virgem e Mãe, só que, em vez de se chamar Ísis, Ceres, Tara, Deméter ou Ártemis, tem o nome de Maria, ou seja, a Grande Deusa assume uma miríade de nomes. E, para reforçar esta metamorfose, Maria tal como as anteriores grandes Deusas, manifesta também uma ligação arquetípica com a água, o precioso líquido da vida e do baptismo. Aliás, todos os cultos relacionados com a Grande Mãe, invariavelmente, estão relacionados com os poderes regeneradores da água. Para além destes arquétipos e lendas atribuídas às “Deusas”, estas ainda estão associados ao arquétipo feminino da fecundação, o qual desde os tempos pré-históricos está muito associado à fecundidade da terra. Daí as “Virgens” ou as “Deusas” serem geralmente representadas com uma criança ao colo e, muitas delas apresentarem a cor da terra.

Em termos Alquímicos, as “Virgens Negras” simbolizam a matéria no seu estado primordial, uma vez que nessa velha ciência, a cor preta é considerada a primeira fase da Grande Obra, por corresponder ao estado de fermentação, de putrefacção e de ocultamento. Enquanto que a cor branca, pelo contrário, corresponde à iluminação e à elevação espiritual. Pelo que as estátuas da Virgem Maria eram tidas pelos Templários como simples objeto de devoção, enquanto que para estes Iniciados, as imagens de Maria Madalena representavam o princípio cósmico da criação e da regeneração da vida.

Todavia, o culto prestado à Grande Deusa em muitas Catedrais góticas, não se deve essencialmente à influência Templária, como foi o caso da Catedral de Chartes, acima mencionado, deve-se também ao facto de nas localidades onde foram construídas as Catedrais já se praticar há muito o culto à Grande Deusa, ou em outros casos por terem sido edificadas sobre antigos lugares de culto a deusas pagãs. Uma atitude que fora corroborada pelo próprio Papa Gregório, que exortou o clero de então a permitir que os aldeões das províncias pagãs recentemente convertidas, pudessem continuar a celebrar as suas antigas festas e erguer imagens em antigos locais de peregrinação onde foram erguidas igrejas cristãs. Aliás, esta foi uma prática constante da Igreja para a cooptação dos povos recém convertidos à fé cristã.

Na verdade, a Catedral gótica, que secretamente se tornou a casa da Grande Deusa, foi edificada de forma a se assemelhar ao ventre desta, por forma a atrair e prender o crente no seu interior, como a chama bruxuleante atrai e hipnotiza o incesto noctívago, pois a luz espectral e policroma dos altos vitrais que irradia para o seu interior, convida-o ao silencio e à oração, predispondo-o à meditação. Portanto, o ventre da Grande Deusa, é o refúgio hospitaleiro de todos os infortúnios. É o asilo inviolável dos perseguidos, e o sepulcro dos nobres e ilustres. É o centro da atividade pública e a apoteose do pensamento do conhecimento e da arte. É a cidade dentro da própria cidade. O seu aspecto abobadado de ventre fecundo, tal como as grutas e as cavernas, simboliza a vida que se dá ao crente em forma de renascimento espiritual. E, com base nesta simbologia, justifica-se qual foi a razão porque os portais das Catedrais góticas foram construídos de forma afunilada, e porque ostentam uma rosácea por cima destes, à semelhança de um clitóris, o único órgão do corpo humano concebido somente para dar prazer, o que torna a rosácea num ornamento pouco católico.

Na verdade, o feminino está sempre latente nestas grandiosas construções sagradas. A grande Rosácea, que espelha e projeta o pôr-do-sol para o interior do Templo, para além de lhe conferir uma luminosidade rubra, que é a cor da perfeição, está sempre rasgada nas fachadas das Catedrais a Ocidente, a direção tradicionalmente consagrada às divindades femininas. Mas, se dúvidas houvesse ainda quanto ao arquetípico feminino que está associado às Rosáceas, depressa se desvaneceria, uma vez que compõe a grande rosácea aquilo a que se chama de “teia de aranha”, que é uma referência inequívoca à Grande Deusa, na sua plena manifestação de fiandeira e de senhora do destino do homem, o que a transforma em mais um estranho símbolo para um Templo cristão. E, tanto mais quando os mistérios do feminino assentam exclusivamente num conceito carnal, místico e religioso, onde a sua energia e poder provém da sexualidade e a sabedoria do conhecimento da rosa. Rosa que foi também usada pelos trovadores e pelos alquimistas, como anagrama de Eros, ou do amor sexual. Aliás, existe uma lenda atribuída aos Templários que nos diz que “quem ousar erguer o véu de Isis e interpretar com sabedoria e inteligência os seus segredos e mistérios, obterá o baptismo da Sabedoria e será superior em Glória, Poder e Força”. Aliás, os iniciados nos mistérios de Isis reconhecem nesta lenda, a fórmula esotérica muito usada pelos alquimistas espirituais: “A primeira matéria recolhe-se no sexo de Isis”.

Assim, pela magia da vulva, o visitante é atraído ao interior da Catedral gótica, com o respeito que é devido à Grande Deusa. Num profundo silêncio e com disposição à interiorização, de conformidade com o espaço que pisa. Junto a uma pia de água benta, quase sempre representada por uma gigantesca concha octogonal, símbolo da natividade da Deusa, com as pontas dos dedos embebidas nesse precioso líquido da vida, dá início ao ritual da água, e com este se purifica, para poder receber a Luz sagrada.


Oliveira Pereira

A ARTE DE MEMÓRIA E MAÇONARIA

Tradução J. Filardo

por Clarence A. Anderson


O Pensador, Rodin

Quando um candidato entra no caminho iniciático da Maçonaria, uma das primeiras coisas que ele descobre é que há uma grande quantidade de memorização envolvida. Os oficiais executam o ritual de memória, e longas palestras memorizadas lhe são apresentadas. Finalmente, talvez para sua consternação, ele descobre que deve memorizar um diálogo antes que possa avançar para o próximo grau.

Por que a memorização é tão importante em Maçonaria? Como a prática de decorar o ritual entra na Maçonaria? A memorização ainda tem valor nos tempos modernos? Considerando a importância tradicionalmente dada à memória na Maçonaria, surpreendentemente pouco foi escrito sobre isso. Uma busca em enciclopédias maçônicas e livros de referência revela praticamente nada.

Um dos poucos livros a lidar com as origens da memorização na Maçonaria é As Origens da Maçonaria, o século da Escócia 1590-1710, de David Stevenson.[i] Stevenson ressalta que as primeiras referências à memória na Maçonaria ocorrem nos Estatutos Schaw. William Schaw foi nomeado Mestre de Obras do Rei para James VI da Escócia (mais tarde James I da Inglaterra) em 1583. Como Mestre das Obras, Schaw era membro da corte real e era responsável pela manutenção de todos os edifícios reais. Em 1598 e 1599, a Schaw emitiu regulamentos para o comércio de construção na Escócia. Eles estavam basicamente preocupados com os regulamentos de saúde e segurança, mas também continham regras para a organização dos pedreiros trabalhadores.[ii]

Os Primeiros Estatutos Schaw, de 1598, exigiam a seleção de Aintenders (instrutores) para cada novo companheiro em sua admissão. Nas atas iniciais das lojas de Edimburgo e Haven de Atchison mostram que geralmente eram os companheiros mais recentemente admitidos que eram selecionados como instrutores. Como os candidatos teriam que provar sua proficiência técnica antes de serem admitidos, parece razoável supor que a função de intendente era instruir o novo companheiro em trabalho secreto. Isto é confirmado pelo Manuscrito Dumfries no. 3 do século XVII, que diz:

“Então, deixe a pessoa que, então, é feita um maçom, escolher da loja um maçom que deve instruí-lo naqueles segredos que nunca devem ser escritos, e ele o deve chamará Tutor. Então seu tutor o levará para o lado e lhe mostrará todo o mistério, e, em seu retorno, ele pode exercitar com o restantes de seus colegas pedreiros.[iii]

A primeira referência explícita ao uso da memória na Maçonaria está nos Segundos Estatutos Schaw de 1599:

“[O] Vigilante da Loja …” testará a arte da memória e ciência dela de cada companheiro e cada aprendiz de acordo com a sua vocação e, caso tenham perdido algum ponto dela. . . pagará a penalidade como segue por sua preguiça. . . “.

Aqui, Schaw está criando uma regra especial que todos os membros da Loja devem ser testados anualmente quanto à capacidade de memorizar algo. Infelizmente, não está claro o que é aquilo, mas parece ter algo a ver com o ritual e as cerimônias da loja.[iv]

Nós sabemos pouco sobre o ritual na Escócia no período em torno de 1600. Os primeiros materiais escritos datam de cerca de um século depois. Quaisquer que sejam os detalhes do ritual, isso era visto de alguma forma ligado ao esotérico. Este pode ter sido um dos fatores que atraia homens que não eram trabalhadores pedreiros para se juntarem à organização. Uma prova que mostra como a Maçonaria era considerada no início do século XVII é um poema de George Adamson, The Muses Threnodie, publicado em 1638, após a morte de Adamson, mas provavelmente escrito por volta de 1630. Contém as linhas:

Porque o que pressagiamos não está em bruto,
Porque nós irmãos da Rosa Cruz
Temos a Palavra do Maçom e segunda vista,
Coisas para vir podemos contar certo.[v]

Aqui, a Maçonaria é retratada como de alguma forma dando aos seus praticantes o poder de prever o futuro, e a Maçonaria está ligada ao Rosicrucianismo. Este link se tornará importante, ao considerarmos a arte da memória.

Stevenson aponta que quando Schaw se referia à Arte da memória, ele não estava apenas usando um termo extravagante para a capacidade de memorizar. [vi] A Arte da memória, ou ars memorativa, era uma técnica específica para memorizar coisas, bem conhecida na época em que Schaw estava escrevendo, que tinha suas origens nos tempos Clássicos. [vii] Originalmente, a intenção da arte da memória era aumentar grandemente a capacidade natural da memória humana. Os praticantes da arte da memória tentaram encontrar maneiras de manter, recuperar e usar uma grande quantidade de informações. Nos tempos medievais e renascentes tardios, a arte da memória gradualmente tornou-se altamente simbólica. Os neoplatonistas e hermeticistas gradualmente a adaptaram para desenvolvê-la em uma forma especial de conhecimento, uma maneira especial de se relacionar com o universo. É nesta tradição que Stevenson encontra as origens do uso maçônico da memória.

A história tradicional é que a arte da memória se originou com o poeta grego Simonides de Ceos, cerca de 500 aC. De acordo com a lenda, um nobre da Tesália contratou Simonides para compor uma ode, a ser recitada em um banquete celebrando as vitórias atléticas do nobre. O nobre concordou em pagar um certo preço pela ode. Simonides incluiu algumas linhas na ode em homenagem a Castor e Pollux, deuses gregos do boxe e da equitação. O nobre reclamou que a ode deveria ter se dedicado inteiramente a ele, e disse que pagaria apenas metade do preço acordado. Ele disse a Simonides que cobrasse a outra metade de sua taxa de Castor e Pollux. Pouco tempo depois, um mensageiro disse a Simonides que dois jovens estavam esperando fora do salão do banquete para vê-lo. Quando Simonides saiu, ninguém estava lá, mas, assim que ele deixou o prédio, o telhado desmoronou, matando todos lá dentro. Naturalmente, a lenda é que os dois jovens eram Castor e Pollux, que tinham vindo pagar a metade dos honorários. A história conta que os corpos dos convidados estavam tão mutilados que não podiam ser identificados. Simonides, no entanto, conseguiu lembrar-se de onde cada convidado estava sentado e, por isso, os corpos foram identificados. Pensando nisso, Simonides percebeu que esse método de lembrar coisas poderia ser usado para outros fins. Ele desenvolveu um sistema de memorização e o ensinou com grande sucesso. [viii]

As características essenciais da arte tradicional da memória são que um edifício é retratado na mente, as partes do edifício são visualizadas em uma determinada ordem, e várias imagens são associadas às partes do edifício. As imagens lembrariam ao praticante o que ele estava tentando lembrar. Quando estava tentando lembrar algo, o praticante caminharia mentalmente pelo prédio. Quando ele chegasse, por exemplo, a uma certa estátua, ele se lembraria da imagem que ele havia associado a ela, por exemplo, uma espada e um escudo, e isso lembraria o que desejava lembrar, que o próximo ponto de seu discurso envolvia guerra. Idealmente, as imagens deveriam ser impressionantes e memoráveis. Os oradores e políticos romanos usavam a arte da memória para que pudessem pronunciar longos discursos com precisão. Pode-se imaginar um antigo orador passeando pela cidade, procurando um edifício adequado com muitos locais distintivos, onde ele poderia ancorar suas associações mnemônicas, e em seguida, passando lentamente por ele enquanto ensaiava seu discurso. O elemento-chave deste sistema é o uso de imagens mentais em configurações ordenadas, muitas vezes arquitetônicas, e tornou-se a base para desenvolvimentos posteriores.

Nos tempos medievais e renascentistas, juntamente com as configurações arquitetônicas usadas na arte clássica da memória, os praticantes faziam uso de todo o cosmo ptolemaico de esferas concêntricas como cenário para suas imagens de memória. Hermeticistas do Renascimento levaram isso um passo adiante. Eles argumentavam que, se a memória humana podia ser reorganizada à imagem do universo, ela se tornou-se um reflexo de todo o reino das Ideias platônicas e, portanto, a chave para o conhecimento universal. O microcosmo da memória refletiria o macrocosmo do universo.[ix] As imagens colocadas em um edifício não precisam ser usadas para associar e lembrar ideias externas arbitrárias. As próprias imagens podem ser usadas para lembrar o observador de certas ideias. A ênfase muda de expansão da memória para a busca de uma linguagem universal de símbolos. O templo da memória pode se tornar não apenas um método para lembrar discursos, mas uma ferramenta para ensinar.

Frances Yates escreveu:

“Não é fácil para nós reconquistar o espírito em que os príncipes do Renascimento planejaram e mobilizaram seus palácios e terrenos, como uma espécie de sistema de memória viva, através do qual em elaborados arranjos de lugares e imagens, todo o conhecimento, toda a enciclopédia, poderia ser armazenado em uma memória… e também, talvez, induzir uma atmosfera através da qual relações ocultas pudessem ser percebidas e harmonias ocultas do universo pudessem ser ouvidas “. [x]

O próximo passo lógico seria construir um edifício especificamente utilizado para ser usado para a arte da memória, para incorporar todo o conhecimento humano. Existe pelo menos um exemplo conhecido. Giulio Camillo (1480-1544) construiu um teatro portátil de madeira no qual apenas duas pessoas podiam entrar. Segundo Camillo, a estrutura continha lugares de memória e imagens que poderiam conter todo o conhecimento humano. [xi]

Talvez o sistema mnemônico mais desenvolvido e complexo na época fosse o de Giordano Bruno. [xii] Um dos estudantes de Bruno, Alexander Dicson (ou Dickson) era um cortesão de James VI da Escócia. É altamente provável que ele conhecesse William Schaw, e possa ter sido a fonte do interesse de Schaw pela arte da memória. [xiii]

Stevenson sugere que a tentativa de construir um teatro de memória físico é a origem da Loja maçônica simbólica. Ou seja, nossos edifícios de lojas e painéis de loja, em maior ou menor grau, são uma encarnação de uma loja ideal, que existe em sua forma máxima somente em nossas mentes. Os maçons do século XVII provavelmente usavam giz ou carvão para marcar um diagrama dessa loja ideal em qualquer sala em que eles se reunissem. Os mais antigos catecismos maçônicos preservados são do final do século XVII e mostram que os maçons desta época tinham uma imagem mental da Loja essencialmente a mesma que é dada na palestra moderna do grau de Aprendiz. [xiv] Comparado aos sistemas de memória de Giordano Bruno ou Giulio Camillo, uma loja maçônica é um templo de memória muito simples. Em vez de tentar apresentar todo o conhecimento humano, uma loja apenas sugere caminhos que o iniciado pode querer explorar. É talvez por esta mesma razão que a Maçonaria continua a ser uma força vital, enquanto os sistemas elaborados de memória do passado estão quase esquecidos.

Os edifícios imaginários utilizados para a arte da memória às vezes são chamados de teatros de memória. Robert Fludd, escritor do século XVII sobre o Rosicrucianismo, escreveu extensivamente sobre a arte da memória e sugeriu o uso de um prédio de teatro real para ancorar as imagens da memória. A.T. Mann, em seu livro Arquitetura sagrada, sugere que locais específicos em um teatro isabelino ou jacobita tenham significados simbólicos específicos, de modo que o lugar onde um personagem entrou, saiu e atuou dava indícios quanto ao estado de espírito.[xv]Pode valer a pena investigar se essa ideia poderia ser aplicada às Lojas Maçônicas. Outra possível relação entre o teatro isabelino e jacobino e as Lojas maçônicas é que a frente do teatro tinha uma cobertura, chamada Aheavens, retratando o zodíaco e outros corpos celestes. [xvi]Isso lembra o céu coberto de Astar que nos é dito simbolicamente cobre a loja, e que às vezes é representado no teto da sala da Loja.

Na vida moderna, livros e computadores são fontes fáceis de informação. Conferencistas podem usar notas ou teleprompters. Mesmo assim, a arte da memória ainda tem valor. Um dos objetivos da prática tradicional é maximizar as capacidades humanas como ferramentas para a transformação interior. A arte da memória é valiosa para nós hoje, não só porque ela desenvolve a memória, e nos permite reter uma grande quantidade de informações, mas também porque exige de nós que usemos outras capacidades, tais como atenção, imaginação e imagens mentais, que são úteis para o nosso desenvolvimento geral.[xvii]

Cada Loja é, de fato, um Templo da Memória(1), projetado para provocar efeitos específicos através da lembrança de suas imagens e símbolos, e nossos movimentos físicos à medida que avançamos através da loja. Cada grau enfatiza um aspecto deste Templo. A palestra do grau de Aprendiz nos lembra o nosso lugar no esquema cósmico das coisas, o macrocosmo. O grau de Companheiro nos traz de volta à terra, enquanto nos movemos através do mundo material. O grau de Mestre Maçom traz a espiral ainda mais para dentro, para dentro de nós, para o microcosmo da psique humana. Assim, a arte da memória continua a ser uma parte essencial da iniciação maçônica. O método da iniciação maçônica é ensinar-nos a construir, e a viver, um templo da memória, um templo repleto de símbolos que nos lembrem daquele edifício espiritual, daquela casa não feita com as mãos, eterna nos céus.

(1) - Acredito que se configura nos dias atuais os Templos de Memória em locais onde se reúne uma ou várias. As Lojas são entidades jurídicas da qual são afiliados, sob a jurisdição de uma potência maçônica, vários obreiros e cada uma recebe o seu nome distintivo. A memorização, neste caso é relativa aos símbolos contidos no Templo e que são velados por alegorias.
A observação feita aqui, não quer, de forma alguma contradizer o brilhante trabalho acima desenvolvido, mas tão somente demonstrar que quando falamos, no ritual, sobre a medida da Loja, deveria ser dito: a medida do templo.  (José Roberto Cardoso - Pedreiro de Cantaria)

NOTAS

[i] David As Origens da Maçonaria: o século da Escócia 1590 – 1710, Cambridge University Press, 1988.

[ii] Cooper, Robert L. D., A Maçonaria de Schaw, The Short Talk Bulletin, Vol 89, No. 7, July 2002, The Masonic Service Association of America, Silver a Spring MD, pp. 3-4.

[iii] Carr, Harry, ed., Os primeiros catecismos maçônicos, 1943, reimpresso pela Kessinger Publishing Co., Kila MT (reimpressão sem data).

[iv] Cooper, p. 5

[v] Stevenson, p. 126

[vi] Stevenson, p. 49

[vii] Yates, Frances, A arte da memória, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[viii] Fuller, Henry H., A arte da memória, National Publishing Co., St. Paul MN, 1898.

[ix] Greer, John Michael, Ars Memorativa: Uma Introdução à Arte Hermética da Memória. Http://www.monmouth.com/~equinoxbook/memory.html

[x] Yates, Frances, O Iluminismo Rosacruz Barnes and Noble, Nova Iorque, 1996, p. 68.

[xi] Mann, AT, Arquitetura sagrada, Element, Rockport MA, 1993, pp. 158-163.

[xii] Yates, Frances, Giordano Bruno e a tradição hermética, University of Chicago Press, Chicago, 1991.

[xiii] Stevenson, pp. 87-96

[xiv] Carr, supra.

[xv] Mann, supra, pp. 168 ff.

[xvi] Yates, Frances, Teatro do Mundo, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[xvii] Greer, supra.

terça-feira, 28 de novembro de 2017


O CONTRIBUTO DA MAÇONARIA PARA A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
PARTE I

por  Luiz Marcelo Viegas

INTRODUÇÃO

O tema em questão é de relevante importância histórica e política, principalmente por estar inserido entre os marcos de nossa História. Sabendo-se que esse tema é muito comentado, porém com poucos trabalhos publicados, continua sendo atraente para a busca de uma exploração maior.

Ao longo dos tempos muito se tem lido sobre a Maçonaria como uma instituição de marcante participação e influência na política.

Na história da política brasileira lê-se bastante que a mesma teve relevante participação, principalmente na Independência do Brasil e na Abolição da Escravidão.

O tema desse trabalho é sobre a participação da maçonaria, especificamente sua atuação para a Abolição, com destaque para o período entre 1815 a 1900, sua participação no processo de abolição da escravidão no Brasil.

Esse trabalho foi fruto de uma investigação, que procurou entender como era constituída a maçonaria no séc. XIX, qual a sua força política e social e como influenciou politicamente a Abolição no Brasil.

Será que a maçonaria tinha realmente força política para decidir no voto a abolição? E dentro da maçonaria havia uma coesão quando o assunto era abolição? Havia uma posição oficial da maçonaria quanto a esse assunto? Quais eram as formas de atuação da maçonaria para abolir a escravidão? Qual era o pensamento da maçonaria nesse século que fazia concordar com os ideais de abolição? A maçonaria só lutou pela abolição no Brasil ou em outros países também? Quais os principais nomes de maçons que tiveram participação no abolicionismo nesse período? E depois da abolição, será que os afrodescendentes foram largados à própria sorte? E como atuou a maçonaria imediatamente após a abolição?

Atualmente, a maçonaria começa a revelar um pouco da sua história, porém o que se encontra com facilidade nos sites, documentos e toda literatura produzida por maçons são registros enaltecedores, cabe-nos criticá-los. Existe um movimento de “abertura” das lojas para visitação pública, existem as reuniões secretas e as abertas, muitos livros estão sendo publicados, revistas especializadas em maçonaria revelam segredos da iniciação, de sua atuação no mundo e da vida dos seus membros. Mesmo assim muitas questões ainda precisam ser respondidas sobre a atuação da maçonaria na Abolição, e suas ações específicas nessa causa, bem como a urgência de se explorar o assunto por sua importância e falta de trabalhos publicados sobre esse tema. Portanto, tornar-se-á interessante explorar essa participação, o quanto mais possível, pois o próprio autor teve e sempre terá a ânsia e o desejo da verdade, embora sabendo que dificilmente os encontrará na sua plenitude.

É mister revelar se a maçonaria teve influência, através de seus seguidores, na formação de opinião para a construção do pensamento político; na manutenção de entidades filantrópicas para a libertação e emancipação do negro; na organização de quermesses e outros eventos para angariar recursos para compras de alforrias; no debate e na iniciativa de construção de uma educação emancipadora de caráter universal para o filho do pobre e do negro; na direção de jornais abolicionistas; no exército na figura do marechal Deodoro e de Floriano Peixoto, entre outros, que se recusaram a perseguir negros fugidos, e na ação individual de maçons como José do Patrocínio, Ruy Barbosa, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, José Maria da Silva Paranhos (tanto pai quanto filho, Visconde e Barão do Rio Branco, respectivamente), João Cordeiro e Francisco José do Nascimento (mais conhecido como Dragão da Abolição).

A maçonaria parece ter tido membros em diversas esferas, e na política não foi diferente. Exemplo disso é que o gabinete do Imperador D. Pedro I, era composto principalmente por pessoas que pertenciam aos quadros da instituição, com destaque especial para José Bonifácio de Andrade e Silva; e todas as leis libertadoras de escravos tiveram como seus autores maçons, como as leis Eusébio de Queirós, do Ventre Livre e dos Sexagenários.

Como instituição, a Maçonaria foi uma força, se comparada à Igreja Católica muito mais antiga e poderosa, que logo cedo se posicionou contra a escravidão. A Igreja Católica, só manifestou-se abertamente contra a escravidão em 1887, às vésperas da Abolição. Porque tantos expoentes da abolição como os citados acima saíram dos quadros da Maçonaria e tão poucos dos quadros da Igreja? E por que, dentre estes poucos que encontramos nos quadros da Igreja, coincidentemente os mesmos se encontram também nos quadros da Maçonaria, como Diogo Antonio Feijó?
Formação da Maçonaria no Brasil e sua atuação no processo de abolição e emancipação

A moderna maçonaria, como conhecemos hoje, teve origem na Inglaterra em 24 de junho de 1717. Em 1723, o reverendo presbiteriano James Anderson publicou as Constituições da Maçonaria. Este momento é importante e histórico para a Maçonaria, pois aqui se inicia a Maçonaria Simbólica ou Moderna e encerra-se o longo período considerado como Maçonaria Operativa, em que a Ordem Maçônica estava diretamente ligada à arte da construção, reunindo-se em guildas de pedreiros, responsáveis pela edificação de templos e prédios. É alicerçada nestas Constituições de Anderson que a Maçonaria Simbólica ou Moderna permanece, de forma quase intacta, até hoje.

Todavia, grande parte concorda que as feições da maçonaria moderna remontam a 1717, marco da formação da Grande Loja de Londres que converteu a Ordem em uma espécie de escola de formação humana de caráter cosmopolita e secreto, reunindo homens de diferentes raças, religiões e línguas com objetivo de alcançar a perfeição por meio do simbolismo de natureza mística e/ou racional, da filantropia e da educação (Benimeli, 1984, p. 464). Nesse período, a maçonaria abandonou sua origem ligada às velhas confrarias de pedreiros da época medieval, permitindo a admissão de novos elementos, sem a obrigatoriedade de serem ligados às corporações de ofício ou às sociedades de construtores: eram os “maçons aceitos”. [1]

No Brasil, a primeira loja que se tem notícia surgiu na Bahia, em 17 de julho de 1797, na fragata francesa La Preneuse, cujo nome foi dado de “Cavaleiro da Luz” e foi fundada pelo comandante Larcher, José Borges de Barros e o Tenente Hermógenes Aguiar Pantoja. Antes dessa data, aqui existia apenas agrupamentos com características maçônicas, como gabinetes de leitura e associações, funcionando como clubes ou academias.

A introdução da “Ordem” no Brasil resultou das transformações ocorridas em Portugal a partir das reformas pombalinas. A sociabilidade maçônica foi trazida na bagagem dos jovens brasileiros que iam estudar na Universidade de Coimbra (aliás, reformada por Pombal em fins do século XVIII). Muitos desses estudantes brasileiros prosseguiam seus estudos em universidades inglesas e francesas, nas quais aprofundavam seus vínculos com os círculos maçônicos. A Faculdade de Medicina de Montpellier, muito procurada pelos estudantes brasileiros na época, constituía-se num dos núcleos de pedreiros livres[2] no sul da França.

A primeira Loja Maçônica regular do Brasil, a que se denominou “Reunião”, foi fundada em 1801, no Rio de Janeiro, tinha fins puramente político-sociais e era filiada ao Oriente da França. Dois anos mais tarde, o Grande Oriente Lusitano, ou seja, de Portugal, desejando propagar no Brasil a verdadeira doutrina maçônica, nomeou três delegados com poderes para criar mais lojas no Rio de Janeiro, surgiram então as lojas “Constância” e “Filantropia”.

Muitos aceitam que a primeira loja maçônica foi fundada no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1815, ficou conhecida como Loja Maçônica Comércio e Artes[3], a Primaz do Brasil. Criada em 1815, inativa após o alvará governamental de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas, e reerguida em 1821; foi dividida em três Lojas, daí resultando, além dela mesma, a União e Tranqüilidade e a Esperança de Niterói.

A maçonaria brasileira desde o seu início, apesar de ter se tornado um espaço de sociabilidade por excelência, durante todo o período de lutas pela independência política do Brasil e abolição da escravidão, não conseguiu manter uma coesão. Ela vivenciou dissidências, rachas e grupos rivalizando-se dentro das próprias lojas. Logo, percebe-se que, ao estudar a contribuição da maçonaria para a Abolição, ela, durante esse processo, terá uma participação importante, mas não unânime.

Nos momentos decisivos do processo de nossa emancipação política, as divergências manifestaram-se dentro da maçonaria. Criou-se uma oposição entre “republicanos” (ou “democratas”), capitaneados por Gonçalves Ledo, e os simpatizantes da monarquia centralizada, liderados por José Bonifácio. Com o término do Primeiro Reinado, dois “Grandes Orientes” são organizados: o Grande Oriente do Brasil, sob o comando de Bonifácio, e o Grande Oriente Nacional Brasileiro da Rua do Passeio, 171, constituído pelos inimigos políticos dos Andradas.

Nos primeiros dias após a proclamação da independência, de 7 de setembro de 1822, iam adiantadas as escaramuças entre os dois grupos, dentro do Grande Oriente, os quais culminariam com o golpe aplicado por Ledo, ao conseguir destituir Bonifácio do Grão-Mestrado, à socapa e fora de assembleia geral, empossando D. Pedro no cargo, a 4 de outubro de 1822. O troco seria no terreno político, com Bonifácio mostrando ao imperador que a luta da independência exigia um período de calmaria política interna, que estava sendo quebrada pelo grupo adversário, com exigências descabidas a D. Pedro e uma rede de intrigas, que poderiam minar a luta externa. As exigências descabidas eram: o juramento prévio de D. Pedro à Constituição ainda não votada e aprovada e a assinatura de três papéis em branco. Diante disso, enquanto José Bonifácio instaurava processo contra os membros do grupo de Ledo, D. Pedro enviava a este a ordem para fechar o Grande Oriente, o que aconteceria a 25 de outubro de 1822.
(…)
Durante praticamente todo o período restante do Primeiro Império, as Lojas brasileiras permaneceram em recesso, só começando a ressurgir quando o cenário nacional caminhava para uma grave crise política, que iria levar, a 7 de abril de 1831, à abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro II, então com pouco mais de cinco anos de idade, ao qual, alguns dias depois, ele escreveria uma carta, como se adulto fosse o herdeiro, plena de dramaticidade. Em 1830, então, ressurgia a Maçonaria brasileira, com a criação do Grande Oriente Nacional Brasileiro, o qual ficou, também, conhecido como Grande Oriente da rua de Santo Antônio e, posteriormente, Grande Oriente do Passeio, em alusão aos locais em que se instalou, no Rio de Janeiro. [4]

Nas décadas finais do Segundo Reinado, o Grande Oriente do Brasil (GOB) voltou a dividir-se: havia o Grande Oriente do Vale do Lavradio, aglutinando os maçons defensores da monarquia e influenciados pela maçonaria inglesa; e o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, que reuniu os maçons republicanos e que estava alinhado à maçonaria francesa. Depois disso, após a Proclamação da República, veio a “federalização” da maçonaria brasileira, com o surgimento dos “Grandes Orientes” estaduais, principalmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul (1893) e também em Minas Gerais (1894). Somente entre 1883 e 1927, a maçonaria brasileira esteve unida pelo do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil.

Na metade do XIX havia os maçons que acreditavam que a abolição deveria acontecer imediatamente, outros que a abolição causaria a falência do Brasil, e esse não era um receio apenas de integrantes da maçonaria, como escreve Emília Viotti da Costa:

Em defesa da escravidão, continuava-se a repetir velhos argumentos, usados desde o Período Colonial. Dizia-se que a escravidão era benéfica para o negro, pois que o retirava da barbárie em que vivia para introduzi-lo no mundo cristão e civilizado. Afirmava-se que o negro não era capaz de sobreviver em liberdade. Alguns, embora reconhecessem que a escravidão fosse condenável em termos morais, argumentavam que ela era um mal necessário, pois a economia nacional não poderia funcionar sem o escravo. A abolição da escravatura, diziam eles, seria a ruína do país. Essa foi a opinião que acabou por predominar entre as elites. [5]

Havia os que simplesmente eram contra a libertação dos escravos. Um caso notório como esse se deu dentro da Loja América de São Paulo, como contou mais tarde, em discurso no dia 17 de dezembro de 1909, na faculdade de direito de São Paulo, o próprio Ruy Barbosa o acontecido na referida loja por ocasião da proposta de lei maçônica de libertação do ventre das escravas:

Da pragmática tradicional éramos tão pouco escrupulosos que, contra as regras constitucionais da Ordem, senão lembraram de me conferir o grau de mestre para me elevarem a orador da Loja. Desse posto me bati contra o seu ilustre venerável, o Dr. Antônio Carlos, meu lente então de Direito Comercial, em defesa de um projeto meu, que obrigava todos os membros daquela casa a libertarem o ventre das suas escravas, e punha como condição prévia de admissão esse compromisso aos futuros iniciados. A minha proposta vingou, renunciando o douto professor a dignidade, que entre nós exercia. De modo que aquele grupo de estudantes liberais, acidentalmente congregados sob o rito maçônico, toca a honra da precedência na ideia, que, dois anos depois, o ato de 28 de Setembro veio a converter em Lei do país. [6]

O dr. Antonio Carlos era o Venerável da Loja e professor de Ruy Barbosa, havia renunciado à dignidade por não concordar com a proposta de libertação do ventre. Da mesma Loja América, faziam parte também Castro Alves e Joaquim Nabuco.

Existe uma correlação entre o vanguardismo político e a maçonaria no Brasil, basta ver que os primeiros pensamentos revoltosos contra a metrópole surgiram da permanência de estudantes brasileiros na França.
Um fato histórico que reforça a importância da maçonaria no Brasil no início do século XIX é a inusitada resposta do então Príncipe Regente D. João ao receber uma lista dos maçons que deveriam ser presos, dizendo, diante do tamanho da lista, que “foram estes que me salvaram”.
Outro exemplo da importância da maçonaria no Brasil é observada quando da partida da família real para Portugal, deixando no Brasil um príncipe regente cercado de maçons, que constituíam à época a elite econômica e pensante do país. O príncipe fora aprovado em assembleia maçônica, sendo iniciado em agosto de 1822 e recebido o nome simbólico de Guatimozin e em poucos dias fora aprovado para o grau de Mestre Maçom da loja “Comércio e Artes”. [7]

Se por um lado os maçons eram próximos e estimados pelo imperador, por outro, a grande parte que se considerava liberal, não tinha maioria política representada na Câmara e não representava o poder econômico do império, portanto, não tinha força para impor uma abolição antes da segunda metade do XIX. O que, se tivesse acontecido antes desse período, teria se configurado numa revolução.

Na Europa do séc. XVIII, a burguesia criara conceitos novos, que vieram pouco a pouco destruir a visão de mundo que justificava a ordem tradicional, conceitos que levaram à Revolução Francesa. Lá sim, uma revolução havia acontecido, onde, hoje, autores apontam afinidades entre a Revolução Francesa e a maçonaria (porque entre outras coisas aquela teria sido inspirada nos mesmos princípios universais: Liberdade, Igualdade e Fraternidade), fato é que ainda se discute a real participação da maçonaria na Revolução:

Para uns, a maçonaria foi a reboque da revolução aproveitando-se despudoradamente da sua influência para recolher dividendos políticos e sociais a fim de melhor abrir o caminho para a conquista do poder. Para outros a maçonaria teria sido a Alma Mater da revolução toda ela impregnada do espírito maçônico.
Possivelmente nem uns nem outros terão a razão do seu lado. Talvez ela esteja numa situação intermédia, porque se a revolução não foi um plano estritamente maçônico não há dúvida que ela teve como figuras de proa pessoas reconhecias e assumidamente maçons, tais como: D’Alembert, Diderot, Helvécio, D’Holbach, Voltaire, Condorcet, etc. [8]

Da burguesia francesa revolucionária, assim como dos militares e nobres revolucionários, boa parte integravam a maçonaria, e o ideal que os uniam à Revolução era o Liberalismo, pois esse afinal, era o pensamento de vanguarda. Contudo, na França revolucionária, é nos ideais liberais do pensamento de Rousseau, e de outros, que encontramos as origens teóricas do abolicionismo:

No pensamento revolucionário do século XVIII encontram-se as origens teóricas do abolicionismo. Até então, a escravidão fora vista como fruto dos desígnios divinos; agora ela passaria a ser vista como criação da vontade dos homens, portanto transitória e revogável. Enquanto no passado considerara-se a escravidão um corretivo para os vícios e a ignorância dos negros, via-se agora, na escravidão, sua causa. Invertiam-se, assim os termos da equação. Passou-se a criticar a escravidão em nome da moral, da religião e da racionalidade econômica. Descobriu-se que o cristianismo era incompatível com a escravidão; o trabalho escravo, menos produtivo do que o livre; e a escravidão uma instituição corruptora da moral e dos costumes.
Enquanto na Europa a revolução burguesa produzia seus frutos, no Brasil, os colonos que se sentiam cada vez mais reprimidos pela política metropolitana acolhiam com entusiasmo as novas ideias revolucionárias. No bojo dessas ideias havia, entretanto, algumas contradições fundamentais. Como conciliar o direito de propriedade que os senhores tinham sobre seus escravos com os direitos que os escravos tinham (como homens) à sua própria liberdade? Como conciliar a sujeição do escravo com a igualdade jurídica, que, segundo a nova filosofia, era um direito inalienável do homem?
(…)
Na época da Independência, os escravos viram suas aspirações à liberdade frustradas. Se bem que a Carta Constitucional de 1824 incluísse um artigo transcrevendo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (cópia idêntica à original francesa de 1789), na qual se afirmava que a liberdade era um direito inalienável do homem, manteve-se escravizada quase a metade da população brasileira. A Constituição ignorou os escravos. Sequer reconheceria sua existência. A eles não se aplicavam as garantias constitucionais.
Não obstante esse flagrante desrespeito à humanidade do escravo, a consagração dos princípios liberais pela Constituição foi o primeiro passo em direção à criação de uma consciência crítica em relação ao sistema escravista. A questão que se apresentaria a partir daí era como justificar a escravidão em uma sociedade em que se aceitavam os novos princípios liberais. Como negar aos escravos os direitos humanos que, em princípio, aplicavam-se a todos?
Na época da Independência e muitos anos depois, a maioria da classe dominante no Brasil continuava a depender inteiramente do trabalho escravo. Por isso, fariam ouvidos surdos aos argumentos de uns poucos indivíduos que, identificados com as novas ideias ilustradas então em voga na Europa, denunciavam a contradição entre liberalismo e escravidão e condenavam a escravidão em termos morais, religiosos e econômicos. [9]

E isso foi feito, aos argumentos liberais de maçons, fizeram-se ouvidos surdos. Mas isso era sabido pelos maçons, a abolição viria por um processo, cada coisa a seu tempo. A luta dos liberais maçons no Brasil seria direcionada para a conscientização da população com jornais; para a criação de escolas públicas de formação liberal e laica, ou ajudando a pensar uma escola ideal, laica e pública para o Brasil, como assim foram os pareceres do ilustre maçom Ruy Barbosa[10]; seria pela filantropia; pela compra de alforrias; participação em fugas; projetos de leis; processos judiciais, etc. A maçonaria perseguiria os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, preparando a elite pensante para um novo tempo, inspirados pela Revolução Francesa. Nesse ponto, como organização, a maçonaria coordenou singularmente, o maior movimento abolicionista do Brasil.

A partir da Revolução Francesa, o Grande Oriente de França, constituído em 1773, ganha prestígio e emana as suas filosofias liberais, deístas, progressistas e enciclopedistas para as obediências em formação na Europa e na América. Vai disputar sua influência com as grandes lojas de Londres.

A influência da Grande Loja da França fez-se sentir na ainda frágil maçonaria portuguesa, e dessa para a brasileira. A filosofia francesa iria inspirar os maçons portugueses e brasileiros, agora que começariam a ser recrutados no seio da classe política e arrastando assim os ideais liberais que iriam marcar fortemente a política no Brasil no fim do século XIX.

A maçonaria brasileira participou do processo abolicionista como nenhuma de outro país participou, isso porque a abolição no Brasil foi tardia. Aqui, o florescimento da maçonaria, e seus ideais liberais na sociedade, chocou-se com a vigência da escravatura.

A maçonaria francesa, após a Revolução e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, viu abolida a escravidão em 4 de Fevereiro de 1794 na Convenção Nacional; o primeiro ministro reformista Marquês de Pombal, maçom inciado em Londres, aboliu a escravidão em Portugal e nas colônias da Índia a 12 de Fevereiro de 1761; mediante a Declaração de Emancipação (promulgada pelo presidente Abraham Lincoln – que chegou a visitar Lojas Maçônicas querendo ser um iniciado, mas a campanha presidencial o levou para outro destino -, na que foi declarada a liberdade de todos os escravos em 1863 e entrou em efeito pela primeira vez no final da Guerra Civil em 1865) os abolicionistas americanos obtiveram a libertação dos escravos nos estados em que continuava havendo escravidão, a despeito disso muitas Lojas norte-americanas, como a Grande Loja de Nova York, eram racistas e não aceitavam negros; A 23 de Agosto de 1833 foi aprovada o Slavery Abolition Act (Ato de Abolição da Escravidão) pelo qual desde 1 de Agosto de 1834 ficavam livres todos os escravos das colônias britânicas; a maçonaria brasileira foi a única a ter um posição oficial em relação à escravatura, formalizada por meio de uma lei interna.

Um projeto de Lei, apresentado pela Loja “América”, ao Grande Oriente Brasileiro em 4 de abril de 1870, ao Vale dos Beneditinos e subscrito por Ruy Barbosa, comprova a posição da mocidade maçônica, contrária à escravatura. É interessante por comprovar documentalmente o pensamento da maçonaria logo após a fundação da Loja “América” – o da necessidade da emancipação e não de uma simples “alforria generalizada”:

A Loja “América” apresenta à sábia consideração do Gr.’. Or.’. do Vale dos Beneditinos o seguinte projeto, requerendo sua conversão em lei geral e obrigatória para toda a Maçonaria estabelecida no país.
Art. 1º: Sendo verdade inconcussa que a emancipação do elemento servil e a educação popular são hoje duas grandes ideias que agitam o espírito público e de que depende essencialmente o futuro da nação, a Maçonaria brasileira declara-se solenemente a manter e propagar esses dois princípios, não só pelos recursos intelectuais da imprensa, da tribuna e do ensino, como também por todos os meios materiais atinentes a apressar a realização dessas ideias entre nós. (…)

A Abolição não foi mérito de um único grupo ou setor da sociedade, muitos fatores concorreram para que a escravidão se tornasse uma instituição abolida: a mecanização das fazendas, a substituição da mão-de-obra pela dos imigrantes, a pressão internacional, as ferrovias, a própria resistência dos escravos, o advento do liberalismo, os jornais, os abolicionistas, e as diversas instituições que lutavam pela abolição – dentre elas, a maior foi a Maçonaria.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[1] – BENIMELI apud BARATA, A. M. Freemasonry and Brazilian enlightenment. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, p. 78-79, jul./out. 1994.

[2] – Sua origem é localizada nas corporações de ofício dos pedreiros da Idade Média, no final do século XIV. Naquela época, não havia escolas capazes de ensinar as técnicas da construção em pedra, utilizadas principalmente em catedrais. Somente nas corporações, também chamadas guildas, aprendizes e mestres dividiam a ciência do talhe e se reuniam após o expediente para discutir o andamento das obras e defender sua profissão, como em um sindicato. Levavam às reuniões os instrumentos de trabalho, utilizados na composição dos projetos arquitetônicos – como o esquadro e compasso, que se tornaram símbolos da Ordem -, ou na atividade braçal – avental, malho e cinzel. Assim surgia a “maçonaria operativa”, preocupada com coisas práticas e restritas ao ofício

[3] – Site da Loja Comércio e Artes. Disponível em: . Acesso em: 10 dezembro 2009.

[4] – CASTELLANI, José. A maçonaria na década da Abolição e da República. Londrina: Editora A Trolha, 2001.

[5] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[6] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[7] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[8] – Respeitável Loja Ocidente de Portugal. Disponível em:. Acesso em 21 janeiro 2010.

[9] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[10] – FUNDAÇÃO CASA DE RUY BARBOSA. Obras completas de Rui Barbosa. Tomos publicados: Reforma do Ensino Secundário e Superior. Vol. 9, t. 1, 1882; Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública. Vol. 10, t. 1 e 4, 1883.

Parte II

A Elite dos bacharéis: maçonaria como espaço acadêmico

Se a maçonaria teve influência na corte e cooptava seus membros da elite do país, e sendo elite, porque a vontade da maçonaria, de libertar os escravos, não se fez prevalecer no governo para que a abolição fosse antecipada?

Para responder essa pergunta é preciso investigar o que é “elite”, quais os tipos, como ela é formada, e qual o poder de cada tipo, por fim, saber em qual tipo de elite a maçonaria se enquadrava. Partindo daí, indo mais além, como atuava essa elite maçônica, o que significava pertencer a esse tipo de sociabilidade?

Citando Adrius Estevam de Noronha que escreve:

O termo elite possui uma flexibilidade conceitual ampla, mas é utilizado majoritariamente em pesquisas para classificar setores que detém o poder político ou econômico. Além disso, o conceito nomeia estratos sociais vinculados à burocracia, ao conhecimento, à religião, sem mencionar os grupos estrategicamente organizados em sociedades secretas, como a maçonaria. [11]

Antes disso ele afirma:

De acordo com Duma[12] (2003, p. 101), os critérios tradicionais para caracterizar “elite” podem ser identificados por cinco pontos fundamentais: “o nível de fortuna, o peso da genealogia, as funções ocupadas, a questão da identidade de um grupo e a maneira pela qual ela vai se definir através de um culto da distinção e da aparência”.

Mais adiante no mesmo artigo ele faz uma tipificação do conceito de elite:

O conceito de elite apresenta, como se percebe, uma descrição bastante variável. Em todas as organizações sociais, as relações de poder fazem parte e uma complexa estrutura psicológica, cultural e social. E sempre haverá um setor que detém o mando ou coordena as ações de um determinado grupo. Portanto, em termos teóricos, é necessária uma tipificação do conceito de elite política, econômica, intelectual, sindical, agrária ou burocrática. 

Continua citando Weber[13] na sua tese em torno dos Três Tipos Puros de Dominação:

A partir da definição do “tipo ideal”, Weber caracteriza as três formas de dominação: a racional, a tradicional e a carismática. Estas três formas possuem a chamada “crença na legitimidade”, mecanismo que é incorporado ao direito e utilizado pela burocracia estatal. A dominação racional se consolida na esfera jurídica como poder incorporado pela sociedade. A dominação burocrática seria, tecnicamente, seu tipo mais puro, que pode ser modificado mediante um estatuto que sancione seu funcionamento e está centrado na disciplina do serviço. Esse processo será encontrado na estrutura moderna da empresa capitalista e no Estado Nacional, apesar de Weber afirmar que a burocracia não é o único tipo de dominação legal. 

Como a vertente dos freemasons e dos franc-maçonneries, que influenciaram a maçonaria luso-brasileira, sempre estive alinhada com o Iluminismo, vale citar, para que seja possível um melhor entendimento, o seguinte trecho do artigo de Adrius Estevam:

Já o pensamento de Hobbes acerca do Estado Moderno estabelece a ponte entre o Renascimento e o Iluminismo, representando mais um passo no processo de autonomização e laicização do Direito e do Estado. (…)
A elite política insere-se nas instituições do Estado e utiliza esse poder de força coercitiva para o exercício de sua dominação.(…) A racionalização do pensamento jurídico ganha corpo nas análises de Hobbes. Para Maltez[14], o direito no sistema de Hobbes é identificado diretamente com o poder. Vale destacar que o impacto das ideias do Renascimento produz a teoria fundamental para o Estado Moderno e estrutura a forma de dominação da elite política neste Estado. 

Como se percebe, o enquadramento da maçonaria na tipificação do conceito de elite no Brasil é complexo. Isto porque a maçonaria foi elitista sim, mas uma fraternidade heterogênea: não se apresenta formada por uma elite política, mais que isso, tem em seus quadros, médicos e poetas; não formada por uma elite econômica, tem estudantes de direitos e jornalistas abolicionistas; não por uma elite intelectual somente, porque indubitavelmente também teve um importante papel político; e também não somente agrária ou burocrática.

E sobre complexidade o mesmo artigo de Adrius Estevam segue citando Gramsci[15], que formulou suas ideias no séc. XX:

De acordo com Gramsci, na medida em que a sociedade se torna complexa, fruto da modernização econômica e social, os atores políticos buscam se estruturar politicamente, através de movimentos minuciosamente calculados e estratégicos, dentro da sociedade civil, tendo como objetivo buscar apoio fornecido pela burocracia das instituições sociais. Nesse caso, os grupos jornalísticos, as burocracias das associações empresariais e dos centros culturais passam dos bastidores para o centro do palco na arena política.

Concluindo, até aqui, por ser heterogênea, a maçonaria acabou atuando em diversos estratos da complexa organização social brasileira. Por isso, atenta às transformações do seu tempo, atuou de maneira diversificada e coordenada, no intuito de garantir sua dominação racional, ou que pelo menos seus ideais liberais assim as tivesse garantida, se consolidando na esfera “jurídico-burocrática”, visto que, como citado acima, o direito e suas nuances, estão diretamente ligados ao poder. E correspondendo à Gramsci, ampliada a atuação dos maçons entre os grupos jornalísticos, nas burocracias das associações empresariais e dos centros culturais, ela passou dos bastidores para o centro do palco na arena política, mas tudo foi a seu tempo.

E de que maneira a maçonaria tratou de garantir sua Dominação Racional? De maneira influente e proeminente na criação das duas primeiras Academias de Direito do Brasil: a de Olinda e de São Paulo, que ficava no Largo de São Francisco.

Sobre isso, José Carlos de Araújo Almeida Filho, na sua dissertação de mestrado para a Universidade Gama Filho, na área de concentração Direito, Estado e Cidadania com o título O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX, já na introdução esclarece:

Durante a pesquisa realizada em torno da origem do Ensino Jurídico e da Maçonaria, identificamos uma sociedade secreta instalada na Faculdade de Direito de São Paulo – a primaz no Brasil, juntamente com a de Olinda –, denominada Burschenschaft, ou, simplesmente, Bucha, como ficou conhecida. A Burschenschaft alemã, inspiradora da Bucha, fora uma sociedade secreta estudantil com nítidos propósitos de abalar o poder.

A sociedade em questão nasceria poucos anos depois da instalação dos Cursos Jurídicos e foi de grande importância nos destinos políticos e jurídicos do Brasil. Afonso Arinos, citado pelo Prof. Alberto Venâncio, instiga-nos ao afirmar que “seria altamente interessante a pesquisa que comprovasse as ligações entre a Burschenschaft Paulista e o acesso aos mais altos postos políticos desde o Império”. Os mais altos postos políticos se mesclam, no ecletismo característico do Séc. XIX, com o Direito em todas as suas ramificações e áreas de atuação. 

(…)

Desta forma, duas elites são construídas (ou instaladas) no Brasil, e com uma ligação entre as mesmas – a maçônica e a dos bacharéis. A elite maçônica se constituiu pela acessão ao poder. E quem detinha o poder, até, pelo menos, o início do Séc. XX, eram os estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que, em sua grande maioria, faziam parte da Bucha.[16]

Esse trabalho de José Carlos possui quatro capítulos. No primeiro, trata de conceituar o que é a Maçonaria e os primeiros passos para a construção dos cursos de direito; o segundo debate a localização dos cursos de direito, as ideias de cientificismo nos cursos e a influência maçônica e da Bucha; no terceiro a Bucha, a inexistência de partidos políticos e a República; por fim a contribuição dos símbolos maçônicos e do positivismo na formação dos cursos de direito.

Então no primeiro capítulo do seu trabalho ele já expõe alguns resultados de sua pesquisa que liga os maçons à formação dos cursos de direito:

Com base na pesquisa destes autores, encontramos um elo entre Maçonaria, sociedades secretas e movimentos pelo poder. Nesta inserção histórica e política, analisar-se-á o porquê dos Cursos Jurídicos no Brasil terem sido criados logo após a Independência do Brasil e, ainda, a razão de se encontrarem em São Paulo e Olinda. Ainda hoje se afirma ser a escola paulista positivista.
Havia necessidade de manter o poder com intelectuais e bacharéis – e esta manutenção consistia na ideia de talhar profissionais para ocuparem os mais altos cargos do Império – razão pela qual no Séc. XIX surge a figura descrita pela Ciência Política como Elite dos Bacharéis. Contudo, à inexistência de qualquer curso no Brasil, os mais abastados poderiam estudar em Coimbra e, com isto, poucos eram os bacharéis da época. Com a instalação dos Cursos Jurídicos no Brasil, moldados pela Maçonaria da época e instalados longe da Corte, por fortes motivos políticos, inicia-se uma nova fase no pensamento brasileiro.
Bacharéis para poder sustentar o poder, com conhecimentos jurídicos. Contudo, de forte natureza racionalista, como a própria Maçonaria e, posteriormente, com o advento da República, de forte caráter comtiano.

Mas José Carlos bebe da fonte de Teotônio Simões[17], que também desenvolveu uma tese de doutoramento sobre Os Bacharéis na Política, onde também aponta a ligação dos maçons e da Bucha com os cursos de direito:

Cogitações à parte, o fato é que, após Waterloo (1815), surgiria na Alemanha uma outra Sociedade, a Burschenschaft, integrada, entre outros, por remanescentes dos Iluminados. Um dos integrantes desta Sociedade organizaria, em São Paulo, na Academia de Direito, a sociedade secreta do mesmo nome, e seus membros também fariam parte da Maçonaria. A ligação dos Iluminados com os futuros bacharéis em Direito do Brasil ainda se daria através de Coimbra, de Verney e de Pombal, indiretamente.

Também se apóia na tese de Wander Bastos[18], que igualmente afirma ter existido uma elite imperial forjada no seio da Maçonaria e que perduraria até a Proclamação da República.

José Carlos ainda insere um gráfico que aponta o elevado número de bacharéis na política, e o local de formação, se foi por Portugal, Brasil ou outro país:


Então desta forma estava justificada a criação dos Cursos Jurídicos em 1827, ipso facto, ora que produziu a Elite dos Bacharéis. Essa atuação tática se mostra coerente com os ideais burgueses, de garantia e estabilidade de seus cargos. E ainda nas palavras de José Carlos, “justifica-se a manutenção no poder, tendo em vista a garantia [grifo meu] jurídica calçada no direito posto”.

Em Portugal, e também no Brasil, havia as Sociedades Filantrópicas, que eram, na maioria das vezes, Lojas Maçônicas sob denominações diversas, por causa das perseguições da inquisição. Desse modo, concomitante com a Bucha, tendo membros como Padre Antonio Diogo Feijó, Antonio Mariano de Azevedo Marques, Antonio Carlos Nogueira, dentre outros, tinha assim como ela (a Bucha), missão de angariar fundos para a manutenção das brilhantes mentes, dar suporte a eles e captar essas brilhantes mentes de São Paulo para a Maçonaria, cingindo com a propagação da função social do advogado.

Citando José Castellani[20], podemos ver como o Curso de Direito, ora, se tornava uma extensão da maçonaria, pois seus personagens e as questões da época que os afligiam, eram os mesmos da Academia e da Ordem, lentes e alunos frequentavam os mesmos âmbitos:

Antônio Carlos – sobrinho de José Bonifácio de Andrada e Silva – Venerável Mestre (Presidente) da Loja América, era lente da Faculdade de Direito e Rui, seu aluno. Apesar disso, este, assumindo o cargo de Orador da Loja, entrava, muitas vezes, em choque com a opinião do mestre, em Loja, principalmente em torno do movimento pela abolição da escravatura no Brasil, expondo suas ideias e fundamentando a sua discordância, com absoluto destemor, apesar de se expor a represálias no âmbito da Faculdade. Felizmente, Antônio Carlos era um homem de grande equilíbrio e descortino e entendeu as razões do seu aluno, jamais levando assuntos de Loja para outros locais. 

A formação dos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, também se dava extracurricularmente, através dos círculos de romantismo, com grande apego das ideias liberais. Havia uma educação informal nos corredores da Arcada, de ideais influenciados pela maçonaria. Maçonaria e Academia se confundiam em espaço social e espaço acadêmico. Onde uma começava? Onde outra terminava?

Longe de ser simples, essa confusão, proporcionou uma sociabilidade, pelas Lojas, que contribuiu para a construção e mobilização das diversas forças sociais, não somente um canal de propagação do ideário liberal, que era o mote dos estudantes de direito, mas como espaço de construção de uma cultura política marcada pela prática do debate, da representação, da elaboração de leis e da substituição do nascimento pelo mérito como fundamento. Enfim, a Maçonaria, nesse contexto, foi também um espaço acadêmico, contribuindo na educação de diversos líderes, que no objeto dessa monografia, vale citar, comporão a lista dos maiores abolicionistas da história do Brasil, e o que todos esses ilustres maçons tinham em comum? A Bucha e o Curso de Direito: Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Eusébio de Queiroz, José do Patrocínio e Luiz Gama, dentre outros.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[11] – NORONHA, Adrius Estevam. Instituições e elite política de Santa Cruz do Sul no contexto de internacionalização da Economia Fumageira (1960-1970). 2006. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Regional). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Rio Grande do Sul Brasil.

[12] – DUMA, Jean. Sobre as elites: abordagem historiográfica. Revista História. São Leopoldo: UNISINOS, v. 07, nº 08, p. 89 – 103, 2003.

[13] – WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Régis Barbosa, Elsabe Barbosa. 3ª edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000.

[14] – MALTEZ, José Adelino. Princípios de Ciência Política: Introdução à Teoria Política. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, 1996.

[15] – Antonio Gramsci (Ales, 22 de janeiro de 1891 — Roma, 27 de abril de 1937) foi um político, cientista político, comunista e antifascista italiano.

[16] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[17] – SIMOES, Teotonio. Os Bacharéis na Política – A Política dos Bacharéis.

[18] – BASTOS, Aurélio Wander. O Ensino Jurídico no Brasil. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2000.

[19] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[20] – CASTELLANI, José. Piratininga – História da Loja Maçônica Tradição de São Paulo. São Paulo: OESP, 2000.

Parte III


Filantropia para libertação

Tenório de Albuquerque em seu livro “A Maçonaria e A Libertação dos Escravos”[22] informando sobre os preceitos maçônicos, logo nas primeiras páginas do livro, coloca como primeiro desses preceitos Amar a Humanidade. Uma Loja que não atua filantropicamente junto à sociedade não está integralmente cumprindo a Tríade da Ordem.

A tão proclamada “Fraternidade Maçônica”, não é apenas um sentimento entre Irmãos, ela deve ultrapassar as paredes do Templo e alcançar a Humanidade. É neste ponto em que há o encontro da “fraternidade” com a “filantropia”.

A etimologia da palavra filantropia deriva do grego (filos, amor e antropos, homem), daí significar amor pela humanidade.

Diversas foram as ações de Lojas, e também de maçons individualmente, no sentido de atenuar ou acabar com o sofrimento do negro durante a escravatura no Brasil. Tanto que se somarmos as ações empregadas pelos Irmãos e pelas Lojas, esse conjunto se verificará um grande esforço organizado em prol dos escravos no séc. XIX, realizados por membros de uma instituição, seja fundando sociedades abolicionistas, grupos radicais, jornais, comprando alforrias, financiando advogados, etc.

Vale citar agora algumas dessas ações, cuidando para que não seja meramente uma citação cronológica, mas evidenciando a amplitude e o alcance dessas ações. Verificar-se-á que em praticamente todas as regiões do país, de várias formas agiram os bodes negros[23].

A Loja Perseverança III, paulista de Sorocaba, tem em seus registros, o fato de ter sido a primeira instituição do gênero a constituir-se formal e especificamente com o objetivo de trabalhar pela abolição da escravatura e pela educação tanto dos antigos trabalhadores quanto da nascente classe operária sorocabana[24], em 1869, numa proposta idealizada por Ubaldino do Amaral:

Trago, subscrita por essa presidência, por Leite Penteado e por mim, a seguinte proposição que esperamos merecer a aprovação da Oficina:
A loja de iniciação será de 25$000;
A mensalidade de 15$000;
Colocar-se-há na Officina uma caixa, denominada “Emancipação” na qual os iniciandos, a convite do Venerável e de qualquer Irmão quando queiram, depositarão suas offertas;
O produto dessa caixa será exclusivamente destinado à libertação de crianças do sexo feminino, de 2 a 5 annos de idade;
As crianças assim libertadas ficam sob a proteção da Loja;
Serão absolutamente prohibidos os banquetes, ceias, copos d’agua, que o uso tem admitido nas iniciações, devendo o Venerável convidar os recipientes para converter as quantias que dispenderiam com isso em donativos à CAIXA DE EMANCIPAÇÃO;
Serão criadas escolas para adultos e menores. As escolas serão nocturnas e mantidas pela Officina, para o ensino gratuito das primeiras letras. [25]

Porém, a Loja Perseverança, de Paranaguá (PR), foi a primeira tomar medidas de âmbito interno como forma de contribuir para libertação dos escravos:

À Glória do Supremo Architecto do Universo e sob os auspícios do Grande Oriente e Supremo Conselho do Brasil, a todos os Maçons:

Resolução adoptada e promulgada em 18 de Novembro de 1867, pelo seu Venerável de Honra Perpétuo, Dr. Alexandre Busquet, Delegado do Grão-Mestre em Paranaguá:

Considerando que a missão da Maçonaria é guiar os povos no caminho da Civilisação [sic], da Liberdade e do Progresso, e tornar sempre a iniciativa das medidas tendentes à felicidade do gênero humano, preenchidas as formalidades exigidas pelos artigos 257, 258 e capítulos 278 e 281, à unanimidade dos votos,

Decreta

Art. 1º – Todos os fundos, tanto da Thesouraria como de Beneficência, que excederem de seus gastos normaes, d’agora em diante, sejam empregados em libertar escravos de qualquer cor, unicamente do sexo feminino, que não tenham mais de 4 annos de edade.

Art. 2º – Todos os annos, no dia 23 de Junho, véspera da festa de São João, a Loja reunida em sessão magna procederá ao sorteio das libertadas. Os nomes das agraciadas serão profanamente publicados no dia seguinte, 24 de junho.

Art. 3º – Contemplar-se-hão somente, seste sorteio, as escravas mães de melhor conducta e residentes neste Município. A escolha dos nomes que deverão entrar na urna será feita em sessão exonomica que precedera de 23 de Junho, em Loja plena, previamente convocada pelo Venerável. (…) [26]

Mais tarde a “Augusta e Centenária Portadora da Cruz de Perfeição Maçônica Loja Simbólica Acácia Riograndense”, fundada no dia 17 de setembro de 1876, por João Landell, um médico formado na Inglaterra, se torna a primeira desse estado a abraçar a causa abolicionista, comprando de início, cartas de alforria para cinco escravas negras, porém, essa criou a primeira Sociedade de Emancipação de Escravos do Brasil, também em março de 1869, na cidade do Rio Grande. A referida Sociedade foi uma iniciativa direta da Loja maçônica “Acácia Rio-Grandense” e tinha por finalidade a manumissão de escravas na idade fértil de procriação, entre 8 e 25 anos, essa era uma prioridade que é encontrada em diversas sociedades emancipadoras maçônicas. Seu idealizador foi o maçon João Frick. Quem conta sobre os estatutos dessa Sociedade é Carmem G. Burgert Schiavon, Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no seu artigo “A primeira sociedade de emancipação de escravos do Brasil”[27]:

Art. 1º – O fim da sociedade é promover a emancipação de escravos na província do Rio Grande.

Art. 3º – Cada sócio tem a obrigação de angariar subscritores para a sociedade.

Art. 4º – A contribuição anual é de 6$000 para o fundo de emancipação.

Art. 5º e 6º – Todo o fundo de emancipação é para alforriar escravas; quaisquer despesas miúdas de anúncios, impressos etc., são por conta dos sócios fundadores; – só poderão ser alforriadas escravas entre oito e vinte e cinco anos.

Art. 7º – A alforria será por sorteio sobre o número de ordem das escravas matriculadas; e estas para se habilitarem contribuirão com 5$000 réis, e trarão o consentimento de seus senhores e a declaração da quantia que estes pretendem pela liberdade.

Art. 9º 10º 11º – O sorteio terá lugar cada vez que haja dinheiro para uma alforria; e logo que à escrava saia a sorte da liberdade, a Diretoria da Sociedade tratará com o senhor sobre o preço da alforria; se não chegarem a um acordo, entrará o número outra vez para a urna, e se procederá a novo sorteio.

Carmem G. Burgert não conseguiu encontrar os estatutos por completo, e informa que para realizar a sua matrícula junto à Sociedade de Emancipação, a escrava deveria pagar uma espécie de taxa de inscrição no valor de 5$000 réis e apresentar uma carta com a autorização do seu proprietário para a realização de sua inscrição junto à Sociedade (o valor a ser pago por sua alforria também deveria constar nesta carta). Continua Carmem:

A forma para a realização da libertação, como previa o estatuto, consistia no sorteio, e assim o fizeram. O primeiro número contemplado foi o três, que pertencia à escrava Amélia (sua proprietária solicitava a quantia de 2:000$000 para sua libertação); o outro número sorteado foi o oito, pertencente à escrava Cecilia, a qual seria libertada mediante o pagamento de 800$000 réis. Após os sorteios, partiram o Sr. João Landell (presidente da Sociedade) e o Sr. João Frick para a compra das alforrias das respectivas escravas.

A primeira visita foi à residência de Clara Vieira de Castro, proprietária da escrava Amélia. Na conversa com D. Clara, disseram-lhe que a diretoria da Sociedade havia decidido pagar, pela libertação da referida escrava, a quantia de 1:200$000 réis (mesmo sabendo que a exigência da proprietária era de 2:000$000 réis). A proprietária salientou que esse ponto não importava, pois, como estimava muito o trabalho da mucama, não pretendia libertá-la e que só havia permitido a sua inscrição, porque a mesma tinha insistido muito e que o fizera “por condescendência com a escrava, mas nunca com a ideia de que a sociedade a emancipasse”.

Diante dessa circunstância, o número da escrava Amélia foi novamente reposto e procedeu-se a novo sorteio. Para surpresa, outra vez foi sorteado o número três, ou seja, o da referida escrava. Como forma de solucionar o problema, os organizadores pensaram, inicialmente, na devolução dos 5$000 da mucama Amélia e na sua retirada do sorteio, tendo em vista que a Sociedade, conforme os estatutos, não poderia pagar mais de 1:2000$000 réis. Entretanto, a Sociedade rejeitou esta proposta e resolveram expor o acontecido à proprietária da escrava.

Contudo, de acordo com o relato de João Frick, logo a escrava Amélia ficou sabendo do ocorrido e ela mesma conseguiu, em apenas 3 dias, a quantia de que precisava para a compra da sua libertação (os 800$000 réis que estavam faltando).

Não é difícil encontrar em atas de Lojas maçônicas, sempre numa ocasião festiva, ou em inaugurações a distribuição de alforrias, exemplo da Ata de fundação da Loja Philantropia e Liberdade:

Aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 E:. V:. e 5835 V:. L:., reunidos em sua sede, sito à Rua da Igreja, nº 67, em lugar Claríssimo, Forte e Terrível aos tiranos, situado abaixo da abóbada celeste do Zenith, aos 30º sul e 5º de latitude da América Brasileira, ao Vale de Porto Alegre, Província de São Pedro do Rio Grande, nas dependências do Gabinete de Leituras onde funciona a Loj:. Maç:. Philantropia e Liberdade, com o fim de, especificamente, traçarem as metas finais para o início do movimento revolucionário com que seus integrantes pretendem resgatar os brios, os direitos e dignidade do povo Riograndense. A sessão foi aberta pelo Ven:. Mestre, Ir:. Bento Gonçalves da Silva. Registre-se, a bem da verdade, ainda as presenças dos IIr:. José Mariano de Mattos, ex- Ven:., José Gomes de Vasconcellos Jardim, Pedro Boticário, Vicente da Fontoura, Paulino da Fontoura, Antônio de Souza Neto e Domingos José de Almeida, o qual serviu como secretário e lavrou a presente ata. Logo de início o Ven:. Mestre, depois de tecer breves considerações sobre os motivos da presente reunião, de caráter extraordinário, informou a seus pares que o movimento estava prestes a ser desencadeado. A data escolhida é o dia vinte de setembro do corrente, isto é, depois de amanhã. Nesta data, todos nós, em nome do Rio Grande do Sul, nos levantaremos em luta contra o imperialismo que reina no país. Na ocasião, ficou acertada a tomada da capital da província pelas tropas dos IIr:. Vasconcellos Jardim e Onofre Pires, que deverão se deslocar desde a localidade de Pedras Brancas, quando avisados. Tanto Vasconcellos Jardim como Onofre Pires, ao serem informados, responderam que estariam a postos, aguardando o momento para agirem. Também se fez ouvir o nobre Ir:. Vicente da Fontoura, que sugeriu o máximo cuidado, pois certamente, o Presidente Braga seria avisado do movimento. O Tronco de Beneficência fez a sua circulação e rendeu a medalha cunhada de 421$000, contados pelo Ir:. Tes:. Pedro Boticário. Por proposição do Ir:. José Mariano de Mattos, o Tronco de Beneficência foi destinado à compra de uma Carta da Alforria de um escravo de meia idade, no valor de 350$000, proposta aceita por unanimidade. Foi realizada poderosa Cadeia de União, que pela justiça e grandeza da causa, pois em nome do povo Riograndense, lutariam pela Liberdade, Igualdade e Humanidade, pediam a força e a proteção do G:. A:. D:. U:. para todos os IIr:. e seus companheiros que iriam participar das contendas. Já eram altas horas da madrugada quando os trabalhos foram encerrados, afirmando o Ven:. Mestre que todos deveriam confiar nas LL:. do G:. A:. D:. U:. e, como ninguém mais quisesse fazer uso da palavra, foram encerrados os trabalhos, do que eu, Domingos José de Almeida, Secretário, tracei o presente Balaústre, a fim de que a história, através dos tempos, possa registrar que um grupo de maçons, homens livres e de bons costumes, empenhou-se com o risco da própria vida, em restabelecer o reconhecimento dos direitos desta abençoada terra, berço de grandes homens, localizada no extremo sul de nossa querida Pátria. Oriente de Porto Alegre, aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 da E:. V:., 18º dia do sexto mês, Tirsi, da V:. L:. do ano de 5835.|Ir Domingos José de Almeida – Secretário.[28]

O mesmo podendo-se dizer, do outro canto do país, da “Fraternidade Cearense”, conforme Tenório D’Albuquerque[29]:

A Loja Maçônica “Fraternidade Cearense”, onde estavam alistadas a nobreza e a opulência de Fortaleza, alforriava a bom preço, nas suas festas levas inteiras de cativos, e nas famílias de maçons os grandes regozijos eram registrados com cartas de liberdade. Sucessivas eram as subscrições populares para o mesmo fim, e de sua parte, o governo deu o ponto alto instituindo um fundo especial de 15 contos de réis por ano, para a manumissão de cem escravos que fossem nascendo e levados à pia batismal, de preferência do sexo feminino, (Lei nº 1.254, de 28 de dezembro de 1868).

O Ceará foi o primeiro estado a abolir a escravidão, em conseqüência da sua forte participação, o presidente do estado, Dr. Sátiro Dias, foi afastado do governo do Ceará pelo Conselheiro Lafayete. Ainda sobre a atuação no Ceará, Tenório D’Albuquerque continua:

Governava o Ceará, o maçon Dr. Sátiro Dias. A Maçonaria do Ceará, também se condoera da situação aflitiva dos escravos, comungava com eles, em sua imensa dor, compartilhava moralmente de seus suplícios. Era intenso, eficiente, diuturno, o trabalho maçônico, em prol da libertação da escravatura. Reuniram-se os maçons para epilogar a tragédia dos africanos. Tomaram uma deliberação decisiva e, no dia 25 de março de 1884, o Dr. Sátiro Dias assinava um decreto extinguindo a escravidão no Ceará, emancipando todos os seus escravos restantes, nada menos de 19.588.

Mais curioso foi a atuação da Sociedade Cearense Libertadora, fundada em 1880, contando com 225 sócios no momento da fundação. Seu membro, João Cordeiro, protagonizou uma ação que havia começado com um juramento em cima de um punhal, que ele havia atirado sobre a mesa numa reunião maçônica. Os que juraram, prometeram matar ou ser morto em bem da abolição. Os estatutos da revolucionária organização maçônica eram resumidos: Art. 1º Um por todos e todos por um; Parágrafo Único – A Sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu alcance. Os sócios ainda tomaram nomes de guerra. Juntar-se-á a essa sociedade Francisco José do Nascimento, mais conhecido como Dragão do Mar, que liderou um movimento de recusa de embarques de escravos nas praias do Ceará. Além desses atos mais extremos, como furto de negros, a sociedade também fundou o jornal “Libertador”.

Foi Mossoró, no Rio Grande do Norte, a primeira cidade do Brasil a abolir a escravidão. Também lá a participação da maçonaria foi relevante. A ideia de fundar uma sociedade libertadora veio do Ceará, quando o casal Romualdo Lopes e D. Amélia Dantas, chegaram em Mossoró em 1882, trazendo uma mensagem da maçonaria de Fortaleza para a de Mossoró. Essa mensagem concitavam os maçons a ingressarem na luta à favor dos negros.

(…) E foi o próprio Romualdo que promoveu a fundação da “Libertadora Mossoroense”, entidade criada para esse fim.

Na noite de 24 de dezembro de 1882, véspera de natal, há uma sessão solene na Maçonaria destinada a alforriar as escravas Herculana, pertencente à viúva Irinel Soter Caio Wanderley e Luzia, da firma Cavalcanti & Irmãos. No momento em que alforriavam estas escravas, D. Amélia Dantas, num rasgo de entusiasmo, se ergue da cadeira e beija chorando as escravas libertas. Despertava, nesse momento, para a imortalidade. [30]

Portanto a ideia não foi original de Mossoró, ela foi exportada de Fortaleza pela maçonaria. Embora em Mossoró a libertação tivesse vindo antes do Ceará.

Mas essas sociedades libertadoras, e outros empreendimentos, fundados por maçons, não eram constituídos somente por maçons, mas também pelos que não eram, pois uma sociedade não maçônica, embora dirigida por maçons, poderia congregar mais participantes e essa conexão traria mais força à luta. Sobre isso encontramos um paralelo com o livro de Tenório D’Albuquerque[31]:

A ideia da abolição da escravatura vingou em Mossoró. Os mossoroenses abraçaram-na com entusiasmo, especialmente a Loja Maçônica 24 de Junho que naquela época (1882), estava em pleno florescimento. (…) Ainda assim em 1882 eram alforriados os primeiros escravos, pela verba do “fundo de emancipação” e por donativos de particulares, membros da Sociedade da Maçônica 24 de Junho.
(…)
Por iniciativa da Loja 24 de Junho, fundada em 1873. Criouse a Sociedade Libertadora Mossoroense, em 6 de janeiro de 1883. A sua primeira diretoria ficou assim constituída: Joaquim Bezerra da Costa, presidente; Romualdo Lopes Galvão, vice dito; Dr. Paulo Leitão Loureiro de Albuquerque, secretário; Cel. Francisco Gurgel de Oliveira; Manuel Cirilo dos Santos, Salvador Bráulio de Albuquerque Montenegro, Manoel Benício de Melo, Conrado Maia (era o suíço Meyer), Francisco Romão Figueira.
Eram maçons, os que estão grifados. Como se vê predominavam na diretoria os elementos da Maçonaria.

Em São Paulo, novamente é citada a Loja América por sua ação libertadora, dessa vez por Elciene Azevedo[32], vale notar a característica urbana predominante no movimento abolicionista:

As lojas maçônicas situadas nos núcleos suburbanos também se constituíram em importantes espaços de discussões e ações antiescravistas. Sem apresentarem o radicalismo das associações libertadoras surgidas nos últimos anos da escravidão brasileira, auxiliavam escravos a conquistarem suas alforrias. A Loja América, estabelecimento comercial localizado em São Paulo, mantinha um fundo dedicado à emancipação de escravos e também financiava ações de liberdades. A loja direcionava os advogados pertencentes à maçonaria para defenderem os escravos requerentes e pagavam os encargos judiciais.

Como veremos mais adiante, um desses advogados, como citado por Elciene Azevedo, foi Luiz Gama. E aqui cabe ressaltar, o suporte dado aos abolicionistas maçons, no caso de Gama de apóia-lo e através da bucha mantê-lo na faculdade de Direito; no caso de José do Patrocínio ajudando nos custos da viagem ao Ceará em 1882, para incentivar aquela campanha abolicionista.

Na mesma linha nos informa sobre Vitória, no Espírito Santo, Mariana de Almeida Pícoli, em sua Dissertação de mestrado[33]:

Destacam-se neste contexto as irmandades religiosas e a loja maçônica União e Progresso, ambos locais de encontro dos membros da elite. A loja maçônica representou um profícuo espaço de debate político durante os últimos anos da escravidão em Vitória. Entre seus frequentadores encontravam-se José Feliciano Moniz Freire e seu filho José de Mello Carvalho Moniz Freire, ambos os redatores dos principais jornais antiescravistas da capital o Jornal da Victoria e o A Província do Espírito Santo, respectivamente. Este último em sociedade com Cleto Nunes, outro importante integrante da maçonaria e contando com a participação de Francisco de Lima Escobar, Francisco Urbano Vasconcelos, Manoel Pinto Aleixo Netto, Alpheo Monjardim, Tito Machado, Basílio Carvalho Daemon, entre outros representantes engajados na campanha contra a escravidão. Afonso Cláudio, figura de destaque do movimento abolicionista, embora não fosse maçom, lecionava no Liceu da loja maçônica União e Progresso como professor de História. [34]

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[22] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[23] – Como são conhecidos popularmente os maçons no Brasil.

[24] – Site da Loja Perseverança III, Disponível em: . Acesso em: 10 fevereiro 2010.

[25] – CASTELLANI, José. Os maçons e a abolição da escravatura. Londrina: A Trolha, 1998.

[26] – IDEM.

[27] – SCHIAVON, Carmem G. Burgert. A primeira sociedade de emancipação de escravos do Brasil. 4º. Encontro escravidão e liberdade no Brasil meridional, Curitiba, 1, 2009.

[28] – Wikisource: Ata Nº 67 da Loja Maçônica Philantropia e Liberdade.

[29] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[30] – GERALDO, Maia. Tributo à uma abolicionista. O Mossoroense, Mossoró, fevereiro de 2009, Nossa História.

[31] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[32] – AZEVEDO, Elciene. Orfeu de Carapinha: a trajetória de Luiz da Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas: Editora da UNICAMP, 1999.

[33] – PÍCOLI, Mariana de Almeida. Ideias de liberdade na cena política capixaba: o movimento abolicionista em Vitória (1869/1888). 2009. 142 fls. Dissertação (Mestrado Centro de Ciências Humanas e Naturais). Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo.

[34] – IDEM.