quinta-feira, 12 de outubro de 2017


OS MONGES MALDITOS

CAPÍTULO XI

O FILHO DA HERESIA

João Anatalino Rodrigues

Guilherme de Nogaret era um personagem carismático e ao mesmo tempo, misterioso. Sua origem era pouco conhecida e seus laços de família bastante obscuros. O pouco que se sabia sobre ele era que tinha vindo de uma pequena vila chamada Saint-Félix de Caraman, no condado de Toulouse. Em 1302, já bastante conhecido como jurista, ele foi indicado para assumir o posto de Ministro dos Selos Reais, devido á morte do seu antecessor, Pierre Flote. O Lorde Guarda-Selos, na prática, era um verdadeiro Primeiro-Ministro do reino de França.

Desde cedo sua vida fora dedicada ao estudo das leis, com especialização no direito canônico, pois, segundo pensava, “o inimigo devia ser destruído pelo seu próprio veneno” 

Á noite, depois de ler as respostas de Jacques de Molay e Geoffrey de Charney, ele confabulou com Guilherme de Paris e Nicolau d’ Ennezat.



– O que vós pensais das respostas do Grão-Mestre e do Preceptor da Normandia? – perguntou ele.

– Normais. Não esperávamos que eles confessassem tudo espontâneamente – respondeu Guilherme de Paris.

– Não. Mas eles parecem bem seguros do que dizem – respondeu d’Ennezat. – Suas posturas físicas e suas respostas não são de quem têm a consciência pesada. 

– Talvez eles apenas saibam mentir muito bem – disse Nogaret.

– É possível –, respondeu Guilherme de Paris. De qualquer modo, temos muito tempo para fazer esses malditos hereges confessarem seus horrendos crimes. E também há muita gente para ser esticada no cavalete e levantada na estrapada. Quero ver se esses sodomitas desgraçados vão continuar com essa postura arrogante quando os pés deles forem untados com gordura e assados em fogo lento.

– Vamos submeter os altos dignatários do Templo a tais suplicios? – perguntou, um tanto consternado, o monge d’Ennezat.

– Se for preciso, não devemos ter constrangimento em fazê-lo – respondeu Guilherme de Paris, com firmeza.

– Será que o papa aprovará tais medidas? – perguntou d’Ennezat.

– Ele não estará em Paris para ver o que estamos fazendo – respondeu o Inquisidor-Mor. – E depois que extrairmos as confissões desses degenerados, ele não terá como censurar-nos.

Guilherme de Nogaret concordou com um aceno de cabeça. – E depois – disse ele, com um tom de desprezo – pouco importa se ele concorda ou não. Se ele nos incomodar, faremos com ele a mesma coisa que fizemos com o velho Bonifácio VIII. 

– Clemente V deve sua mitra ao rei Filipe – completou Guilherme de Nogaret. – Não creio que ele crie muitos obstáculos. Mas – ponderou o Lorde Guarda-Selos – para evitar quaisquer surpresas, vamos manter no maior segredo possível qualquer procedimento de força que tivermos que tomar contra esses malditos hereges. As confissões feitas mediante tortura, embora sejam legais do ponto de vista jurídico, do ponto de vista moral, são sempre contestáveis. 

– Certamente que tudo será feito no maior sigilo, obedecendo a todos os procedimentos legais – disse Guilherme de Paris. ─ Não queremos transformá-los em mártires ─ completou.

Guilherme de Nogaret sorriu. Ali estava um aliado ideal. O Inquisidor-Mor, ao que parecia, também odiava os Templários. Não poderia ter escolhido alguém melhor para levar adiante o seu plano.

– Bem. Continuai com o interrogatório e usai todos os elementos de persuasão possíveis. Não devemos ter piedade desses miseráveis – finalizou Nogaret.

A d’ Ennezat é que a coisa não parecia muito bem. Afinal, ele era um membro profissional do clero. Estava a serviço de Guilherme de Paris porque efetivamente acreditava na utilidade da Inquisição. Pensava, realmente, que a heresia era um cancro no seio da cristandade e precisava ser extirpada sem dó nem piedade. As manifestações de heresia, bruxaria, sodomia, idolatria, satanismo, era algo que realmente o horrorisava. Contrariavam tudo de santo e puro que a Igreja de Cristo tanto fizera para ensinar aos homens. Tinham que ser apuradas com rigor e seriedade e combatidas com mão forte. Mas deviam obedecer ao devido processo legal. 

Gostara de ouvir o Inquisidor-Mor dizer que este seria obedecido. Mas ele não apreciara o pouco caso com que Nogaret falara de Clemente V. Afinal, Sua Santidade era o Supremo Pontífice e ele não admitia que alguém, que nem pertencia ao clero, fizesse pouco caso do chefe da Igreja, ainda que não tivesse muito respeito por ele. Ademais, não teria nenhum prazer em ver os membros da Irmandade do Templo sendo torturados somente para satisfazer o desejo de vingança de Nogaret e o ódio de Guilherme de Paris. Ele gostaria que a justiça fosse feita.

– Amanhã ouviremos o Inspetor- Visitador da França, o cavaleiro Hugues de Peyráuld. Devemos prosseguir com a mesma estratégia, dando-lhes ciência das acusações e deixando que ele as confirme ou não? – perguntou d’Ennezat.

– É a lei processual, não é?– respondeu Guilherme de Paris. – Temos que dar a esses patifes a oportunidade de confessar, por si mesmos, antes de extrair-lhes, á força, a verdade. Por mim, eu os poria, de cara, no cavalete, pois acho que eles são culpados como o Diabo. Toda essa lenga-lenga processual é pura perda de tempo. No fim, teremos que submetê-los mesmo ao súplicio. 

– Então por que não poupar tempo e ouvir também o cavaleiro Geoffrey de Gonneville, Preceptor de Aquitânia e Poitou? Sabemos que a resposta deles será a mesma – sugeriu d’ Ennezat. “Para que ficar prolongando a tortura moral se sabemos que logo teremos que empregar a física?” pensou o monge.

– É melhor não atropelar o rito processual – disse Guilherme de Paris. – Os defensores desses miseráveis poderão usar isso em sua defesa. – Depois – completou o Inquisidor-Mor, com um simulacro de sorriso – não existe ferro que não se conforme com o bater do martelo. As nossas masmorras são excelentes bigornas e os nossos carrascos magníficos ferreiros. 

“Bom. Pelo menos isso,” pensou d’Ennezat. O devido processo legal iria ser obedecido.

─ Quanto a Hugues de Peyráuld, creio que não teremos problemas com ele. Ele é nosso ─ disse por fim Nogaret, que tinha ouvido todo aquele diálogo em silêncio.

─ Como assim? ─ perguntou d’Ennezat, que não havia entendido o sentido da fala de Nogaret.

─ Ele tem suas razões para colaborar conosco. Ide devagar com ele ─ respondeu Nogaret, com um sorriso enigmático.

A perspectiva de torturar os três grandes dignatários do Templo, com exceção de Peyráuld, era uma idéia que excitava o Ministro Guarda–Selos Guilherme Nogaret. Afinal, seu ódio pela Igreja iria ter um magnífico canal de escape. Não lhe bastava ter sido um dos principais articuladores da humilhação e morte do papa Bonifácio VIII, quando, na companhia dos irmãos Colonna e seus partidários armados invadira o Castelo de Anagni e fizera o velho Pontífice prisioneiro. Nessa ocasião, permitira que Pierre, sobrinho do Cardeal Collona, esbofeteasse o papa no rosto, causando um dos maiores escândalos de todos os tempos. Por conta disso todos seriam excomungados, mas Nogaret estava pouco se importando com isso. Ele não acreditava em nada disso mesmo. Sua igreja era o reino de França e seu papa o rei Filipe, o Belo. 

Tudo isso acontecera em 1303, mas Guilherme de Nogaret recordava-se bem dessa aventura, que lhe tinha dado um grande prazer, mas também lhe trouxera não poucas preocupações. 

Filipe, o Belo, tinha entrado em rota de colisão com o papa Bonifácio VIII. O conflito evoluíra de tal maneira que o velho Pontífice ameaçara de excomunhão o monarca francês. Este, em resposta, mandou á Roma uma expedição armada com a finalidade de prender o papa e trazê-lo para ser julgado perante um concílio de bispos franceses. A expedição contra o Vaticano foi comandada por ele, Nogaret, pessoalmente. Seu sucesso se devera principalmente ao apoio que lhe foi dado em Roma pelos inimigos declarados de Bonifácio VIII, a família Colonna, comandada pelo sinistro Sciarra Colonna, sobrinho do Cardeal excomungado Jacques Colonna. A família Colonna dominava o partido dos Gibelinos, inimigos figadais de Bonifácio VIII. O papa, abandonado pelos seus aliados romanos, refugiou-se no Castelo de Anagni, onde foi capturado e preso pelos soldados franceses. Nessa ocasião, Sciarra Colonna aproveitou para destilar todo seu ódio contra Bonifácio VIII, agredindo-o fisicamente com um tapa no rosto, ao qual o velho Pontífice respondera, que “entregava a tiara papal e a própria cabeça, mas nunca sua dignidade, pois papa era e assim morreria.” 

Entrementes, a população de Anagni, ao saber do atentado contra Bonifácio VIII, armou-se e assaltou o castelo para libertá-lo. Nogaret, os gibelinos de Sciarra e os soldados franceses, em menor número, fugiram. O papa foi libertado, mas já não era o mesmo homem. O episódio havia comprometido de vez a sua saúde física e mental. Em consequência o velho e combativo Pontífice morreria no mês seguinte. Seria sucedido por Bento XI, que não obstante ter realizado uma trégua com o rei francês, não cedeu, como era desejo deste, ás suas maquinações. Em consequência, morreria envenenado dois anos depois, supostamente a mando de Filipe, o Belo. Para o seu lugar foi eleito o inefável Clemente V. Filipe e Nogaret haviam vencido essa batalha contra a Igreja, pois Clemente V, menos do que um papa, era um refém do rei francês, que o obrigara, inclusive, a mudar a corte papal para Poitiers, em território francês. 

Nogaret queria agora minar a Igreja naquela que era a sua mais poderosa organização: a Ordem do Templo. Afinal, ela possuía mais de quinze mil membros somente no território francês. Só em homens de armas contavam-se mais de dois mil, entre cavaleiros e sargentos. Seria um poderoso braço armado para o papa. Se um dia Clemente V, ou outro Pontífice que tomasse o seu lugar, tivesse a coragem de enfrentar Filipe, os Templários seriam uma arma preciosa para a Igreja. E com a riqueza que eles possuíam, poderiam comprar aliados, equipar um exército, enfim, se tornariam um peso fatal na balança contra qualquer inimigo da Igreja. E agora que as cruzadas já não faziam mais sentido, os Templários não tinham mais utilidade como milícia de Cristo. O que impediria que se tornassem a milícia do papa? 

Assim pensando, Guilherme de Nogaret engajara-se de corpo e alma na campanha de Filipe para destruir a Ordem do Templo. Talvez nem fizesse parte da sua estratégia as insinuações de que os Templários estariam, na verdade, ressuscitando a heresia cátara, pela qual seus antepassados foram queimados na fogueira da Inquisição. Primeiro porque ele mesmo não acreditava nisso, depois porque, sendo ele tão anticlerical, a menor de suas preocupações era a defesa da fé cristã. As questões religiosas não tinham a menor importância para ele. Na sua cabeça, religião era uma superstição que a Igreja inventara para manter controle sobre o espírito do povo. Ele era todo político, seu hálito rescendia a política, sua alma respirava política. Mas, se para atingir seus objetivos fosse preciso usar a religião, então que fosse. Ele se tornaria o mais ferrenho dos católicos, o mais ínclito defensor da fé, o mais inflexível soldado de Cristo...

Filipe queria destruir o Templo por cobiça. Também tinha medo que os Templários pudessem ser usados como arma contra ele. Os motivos de Nogaret eram outros. Era vingança contra as pessoas que haviam chacinados os seus ancestrais, pois fora um exército de cruzados, usando aquela maldita cruz vermelha que havia perpetrado o cruel genocídio a que foram submetidos os seus antepassados. Ele, que era filho da heresia cátara, tinha desprezo pelo Templo e ódio pela instituição que os sustentava, a Igreja de Roma. Os Templários pensava ele, eram a institucionalização eclesiástica do exército cruzado. Aqueles cavaleiros de mantos brancos, com a cruz vermelha no peito, lembravam os malditos soldados de Simão de Montfort, que meio século atrás, haviam chacinado seus ancestrais e destruído a herança da sua família. 

“Agora, é o veneno deles sendo usado contra eles mesmos”, murmurou o descendente dos cátaros, enquanto descia as escadas da masmorra, para inspecionar os instrumentos de tortura que estavam sendo preparados para “amolecer” os altos dignatários do Templo. Sorriu intimamente pensando que seria a própria Inquisição que daria arremate á sua vingança contra a Igreja. O filho da heresia iria usar a própria heresia para se vingar dos algoses da sua família.

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