quinta-feira, 12 de outubro de 2017


OS MONGES MALDITOS

CAPÍTULO III

ESPIONAGEM E TRAIÇÃO


João Anatalino Rodrigues

Jacques de Molay tinha muitas razões para se preocupar, pois Filipe, o Belo, e seus ministros Nogaret e Marigny, já andavam tramando um ataque á Irmandade há algum tempo. Há cerca de dois anos antes da invasão do castelo do Templo ser decidida, Nogaret havia plantado entre os Templários uma dezena de espiões para obter informações sob o que se passava no interior da organização. 

A maioria desses espiões havia abastecido o ministro com uma série de informações, mas elas eram tão desencontradas que ele não pudera usá-las até então. É que a maioria desses espiões não conseguira passar dos primeiros graus de iniciação na Ordem e assim não tinham entrado na posse dos segredos mais profundos, que só os mais altos dignatários possuíam. 

Essa era uma consequência normal da forma como a Ordem estava estruturada. Na prática, havia uma cadeia iniciática que todo Irmão deveria cumprir para crescer na hierarquia da organização. Embora a cerimônia de recepção de um noviço fosse precedida de um ritual, no qual ele jurava cumprir a regra da Irmandade e fazia votos de castidade, pobreza e estrita obediência ás ordens superiores, esse ritual era simples e nada de estranho se exigia dele. Ele já estava previsto nas regras que São Bernardo havia escrito para eles e todos podiam ter conhecimento delas. Mas havia outras coisas que não constavam das Regras. Elas se referiam á certos atos litúrgicos acrescentados ao longo do tempo no cerimonial de iniciação na Ordem, e estes não faziam parte desse documento. Um desses atos, que talvez provocasse alguma consternação ao iniciando era o beijo ritual, que o Preceptor dava na boca do noviço. Mas isso, segundo se dizia, era normal em quase todas as cerimônias de recepção praticadas nas demais Ordens monásticas. Havia também aquela outra prática, que a maioria achava mais estranha ainda, que consistia no ato de negar Cristo por três vezes e cuspir na cruz. Mas aquilo, diziam os Preceptores, era apenas uma encenação, necessária para provar a coragem e a firmeza do noviço. Se havia um significado mais profundo nessa ritualística, só os altos dignatários do Templo sabiam e isso não era comunicado aos neófitos.

O problema vinha depois, quando o noviço era entregue aos veteranos para que estes lhes dessem as “primeiras instruções”. Aí sim, segundo o relato dos espiões, todo o caráter infame da Ordem era revelado, pois então a eles era dito que os votos de castidade feitos pelo neófito na sua admissão só se referiam ao uso de mulheres, e que se o Irmão não pudesse resistir aos apelos da carne ele estaria livre para aliviar-se com outro Irmão. E ele era logo convidado a praticar atos de sodomia, em obediência a tais preceitos. Os noviços que se recusavam a ceder a tais impulsos eram severamente castigados.

Como todos eles se recusaram a servir sexualmente aos veteranos, disseram os espiões, foram logo colocados em ocupações subalternas e não puderam compartilhar dos “segredos” divulgados nos Capítulos mais avançados da Ordem. Por isso não dispunham de maiores informações a respeito do que se passava nos círculos mais altos da Irmandade. 

Somente um desses espiões, um sujeito chamado Esquin de Floyran, havia conseguido subir na hierarquia da organização templária. Ele fora Preceptor durante algum tempo na província de Bézier e Prior em Montfalcon. Mas fora preso e castigado e depois expulso da Ordem por conduta inadequada. Segundo constava, ele desviara dinheiro da organização para utilização em proveito próprio. Esse cavaleiro, provavelmente por vingança, já havia se apresentado ao rei de Aragão, Jaime II, com uma série de acusações contra a Ordem, mas aquele monarca tinha em alta conta a Irmandade e não dera importância ás suas denúncias. Ele foi então a Nogaret, que o levou á presença de Filipe, no castelo real de Loches, onde ele fez um relato completo das cerimônias de iniciação dos Templários e das práticas obscenas que, segundo ele, os Irmãos adotavam no claustro.

– Como Preceptor em Bézier vós iniciastes vários candidatos nos quadros da Irmandade. É verdadeira essa informação? – perguntou Guilherme de Nogaret ao traidor.

– Sim, Excelência, é verdade – respondeu Floyran.

– Então conheceis bem as práticas realizadas nas cerimônias de iniciação?

– Sim, Excelência. 

– Podeis relatá-las para nós?

Filipe, com o queixo entre as mãos, braços apoiado no tampo da grande mesa de carvalho, postura que lhe era tradicional, fixou no rosto do traidor os seus grandes olhos azuis. Costumava fazer isso com todas as pessoas com quem falava. Era um olhar frio, penetrante, que parecia vir do rosto de um deus de pedra, que não obstante a ausência de movimentos oculares emanava uma atração irresistível da qual as pessoas não conseguiam escapar. Passava uma sensação de implacabilidade e frieza que costumava gelar o sangue da pessoa a quem ele era dirigido. Funcionava como se fosse uma pinça que extraia de dentro da própria alma do interrogado a informação que estava buscando.

Mas o renegado templário não se mostrou intimidado pela pressão daqueles olhos frios e percrustadores. Filipe logo viu que aquele indivíduo não tinha medo dele. Talvez tivesse percebido a importância das informações que estava dando. Porque se o próprio rei se dignara a recebê-lo pessoalmente, então devia tratar-se de assunto de muita relevância. Quem sabe pudesse obter um bom preço por elas. 

– Fiquei preso nas masmorras do Templo por cerca de cinco anos, Majestade, e minha memória já não é tão boa. Além disso, se a Irmandade souber que eu estou revelando os seus segredos, a minha vida não valerá uma libra de sal – disse Esquin de Floyran, olhando diretamente para o rei, ao invés de responder á Nogaret.

Filipe entendeu. Balançou levemente a cabeça em sinal de concordância. “Eis aí um pilantra esperto”, pensou.

– Se vós disserdes tudo que sabeis sobre os costumes secretos dos Templários poderemos aquilatar o quanto valem essas informações. Quanto á vossa segurança, ficareis protegido em uma das nossas senescalias até que tenhamos dado um jeito nesses patifes – disse Nogaret.

O traidor olhou para o rei, como se esperasse uma confirmação. O rei assentiu com um menear de cabeça.

– Bom, vejo que isso interessa muito á Vossas Excelências. Sendo assim, vou fazer um esforço para lembrar-me de tudo – disse o antigo Templário, mostrando um sorriso amarelo, de poucos e puídos dentes.

Esquin de Floyran, depois de alguns minutos de estudada postura, na qual simulava estar fazendo um enorme esforço para puxar pela memória, afirmou, com toda a convicção, que os Templários, há muito tempo já não tinham mais fé nos preceitos e na doutrina da Santa Madre Igreja. Em consequência, estavam praticando uma religião muito diferente daquela que os bons cristãos professavam. 

─ No cerimonial de recepção ─ disse ele ─ os noviços são constrangidos a negar Cristo por três vezes e a cuspir sobre a cruz. Quando alguns deles perguntam a razão dessa barbaridade, lhes é respondido que aquilo é apenas uma cerimônia ritual sem importância, que faz parte das regras de admissão. Os que se negam a fazê-lo são presos numa masmorra e submetidos a vários constrangimentos físicos e morais. Os que sucumbem á essas exigências são recepcionados e recebem o beijo ritual, que o Preceptor lhes dá na boca. Depois ele é convidado a beijar o umbigo e o ânus de um Irmão veterano em sinal de submissão. 

─ Vós também fostes submetido a esse ritual obsceno quando da vossa admissão na Ordem? ─ perguntou Nogaret.

─ Sim, Excelência. Todos são. Segundo fui informado, esses rituais são praticados desde que o venerável Grão- Mestre Robert de Creon governou a Ordem e os introduziu na cerimônia de recepção.

─ E qual a razão dessas barbaridades? ─ inquiriu Filipe, pela primeira vez, com uma estudada postura de horror na face marmórea.

─ Eles dizem que a história do Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo nos é ensinada pelos catecismos, é falsa. Foi uma história inventada pela Igreja para justificar e conservar o poder que ela tem sobre as almas das pessoas. 

─ Como assim? ─ perguntou Nogaret, que já entrevia nessas informações a confirmação de que os Templários estavam contaminados por algum tipo de heresia, que ele, aliás, já conhecia bem. Essa informação poderia ser a chave que ele estava procurando para abrir as portas da fortaleza templária e demoli-la por dentro. Por isso insistiu com o traidor para que ele descesse aos detalhes.

─ Eles dizem que Jesus Cristo não era filho de Deus, pois Deus é um só e não tem filho. Que ele não nasceu de uma virgem, porque era filho de José, um carpinteiro, um homem comum e Maria, também uma mulher comum. Que morreu na cruz por conta dos seus próprios pecados e ambições e não ressuscitou de verdade, como os evangelhos dizem ─ afirmou o ex-templário, com uma convicção que não deixava dúvidas.

─ E como justificam tais blasfêmias? ─ perguntou Nogaret.

─ Não sei ao certo, Excelência, pois essas informações só os altos dignatários da Ordem detém. Alguns dizem que os Irmãos que fundaram a Ordem tinham provas de que Jesus foi um homem comum e que elas estavam bem guardadas em uma das nossas preceptorias, cuja localização só o Grão-Mestre sabe ─ respondeu Floyran. 

─ E que provas são essas? ─ perguntou Filipe, que parecia cada vez mais interessado.

─ Não me foi informado exatamente o que seria Majestade, mas parece que se trata de documentos escritos e relíquias do corpo de Nosso Senhor, que eles teriam encontrado no Santo Sepulcro.

─ Alguma vez vistes essas relíquias? ─ perguntou Nogaret, franzindo a testa.

─ Não as verdadeiras, Excelência ─ respondeu Floyran ─, mas em alguns Capítulos mais avançados, segundo alguns Irmãos me disseram, são mostradas a réplica de um crânio, com ossos de tíbias arranjadas em forma de cruz em baixo dele. E a todos é dado entender que tais relíquias se referem aos ossos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Outros dizem que se tratam dos ossos de São João Batista, que segundo alguns dos Irmãos mais graduados, foi o verdadeiro Cristo e não Jesus. 

─ Que barbaridade! ─ disse Filipe, sacudindo negativamente a cabeçorra de mármore.

─ Uma bestialidade! ─ completou Nogaret.

Depois entrou no assunto que parecia incomodá-lo, ou fasciná-lo mais.

─ Dizem que nas iniciações templárias os noviços são forçados a dar beijos obscenos nas partes íntimas dos Irmãos, isso é verdade?

─ Sim, Excelência, essa é a pura verdade.

─ E qual a razão dessa obscenidade? ─ inquiriu Nogaret.

─ Eles dizem que esses beijos são rituais e têm uma finalidade sagrada que só os iniciados dos Capítulos mais adiantados podem conhecer, Excelência.

─ Que tipo de sacralidade pode conter em se beijar a bunda de alguém? ─ perguntou Filipe, com sarcasmo.

─ Não me foi dado saber ─ Majestade. ─ Também se beijava nos lábios e no umbigo. O porquê disso, como já disse, só os Mestres de mais alto grau sabem. 

─ São mesmos uns depravados ─ murmurou Filipe.

─ E quanto á pratica da sodomia. É verdade que tais coisas ocorrem dentro do Templo? ─ perguntou Nogaret.

─ De todos é exigido o voto de castidade ─ respondeu Floyran. ─ Mas aos noviços é dito que se eles não tiverem forças suficientes para resistir aos impulsos da carne, que eles tinham a licença para se aliviarem com seus Irmãos. Que isso não era pecado, pois a proibição só se referia á mulheres. E o que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo também fora adepto dessas práticas. 

─ Meu Deus! Que blasfêmia ─ murmurou Filipe.

─ Praticastes, alguma vez, conjunção carnal com vossos Irmãos? ─ perguntou Nogaret.

─ Nunca! ─ afirmou o renegado templário.

─ Mas recomendastes isso a todo noviço que recepcionastes em vossa preceptoria? ─ tornou Nogaret.

─ Não, Excelência. Eu deplorava tais comportamentos e me recusava a recomendá-los aos noviços. Por isso fui expulso da Ordem e amarguei cinco anos nas masmorras do Templo.

Filipe e Nogaret sabiam que o traidor Esquin de Floyran estava mentindo a esse respeito. Tinham conhecimento que ele havia sido expulso da Irmandade e cumprira pena de prisão por roubo, peculato e outros comportamentos proibidos pelas regras da Ordem, mas no momento não estavam preocupados com isso. Eles já tinham o necessário para começar a minar a fortaleza do inimigo. Aliás, essas informações já circulavam á boca pequena, em círculos muito restritos. Na verdade, a Ordem do Templo se tornara uma sociedade secreta, semelhante a certas seitas que a Igreja condenava. Uma das coisas que mais incomodava á Igreja era o fato de que as iniciações templárias eram geralmente realizadas á noite, e de forma tão secreta, que a cripta onde eles eram realizados tinha que ser guardada por cavaleiros armados. Somente cavaleiros e monges portadores dos mais altos graus podiam entrar. A promessa solene de não revelá-los a ninguém que não fosse daquele grau era outra coisa que causava desconfiança. Segundo os informantes, a inconfidência era punida com a prisão perpétua, e ás vezes, até a morte. 

Não importava a Filipe e certamente menos ainda a Nogaret, que sua testemunha, além de ser um proscrito, tivesse vindo da região do Languedoc, sua terra natal, onde florescera a Heresia Albigense. E que as práticas que estava imputando aos Templários eram de conhecimento público, pois já haviam sido atribuídas aos habitantes daquela região tempos atrás. 

Os Cátaros haviam sido suprimidos em uma cruzada que ceifara a vida de milhares de pessoas. Mas a memória dessa seita e das crenças que eles professavam ainda estava muito presente na cultura da região e os Templários tinham uma forte representatividade ali. Dizia-se até que eles eram os herdeiros naturais dos Cátaros e tinham adotado, em suas práticas e na doutrina que professavam intramuros, uma boa parte da tradição dos popelicans. Em outras palavras, a Heresia Albigense, como era chamada a crença dos Cátaros, fora suprimida externamente, mas internamente sobrevivia entre os Templários.

Não foi difícil para Nogaret achar outras testemunhas para corroborar o depoimento do ex-templário traidor. Logo foi procurado por vários outros indivíduos, proscritos da Ordem, dispostos a falar cobras e lagartos contra os seus antigos Irmãos, em troca de algum estipêndio. 

Munido dessas informações Filipe havia se encontrado com o papa Clemente V em Poitiers, alguns meses antes do seu assalto ao Templo e apresentado a sua lista de acusações contra os Templários. 

– Todas essas informações foram confirmadas por antigos membros da Ordem e Vossa Santidade poderá comprová-las pessoalmente – disse o rei.

– Mas se foram feitas por antigos cavaleiros expulsos da Ordem, elas não poderiam estar contaminadas pelo desejo de vingança? – objetou o papa. 

– Essa possibilidade existe – respondeu Filipe – mas não podemos descartá-las apenas por causa disso. Há muito tempo que se fala das estranhas práticas adotadas pelos monges do Templo em suas iniciações e nas reuniões dos Capítulos. E esse caráter de segredo que eles teimam em manter é muito suspeito.

– Tendes razão quanto a isso – disse o papa. – Mas eu gostaria de deixassem comigo esses depoimentos para que eu possa estudá-los com cuidado – sugeriu, timidamente.

– Isso pode durar muitos anos e os Templários, enquanto isso, poderão destruir todas as provas – protestou o rei.

– Permita-me Vossa Majestade que eu reflita um pouco mais sobre essa questão. Trata-se de um assunto extremamente delicado que precisa ser tratado com muito critério – insistiu Clemente V, como se estivesse constrangido perante a insistência do rei.

– Vossa Santidade é soberano nessa questão – respondeu Filipe. – Mas peço que leveis em consideração o perigo que a fé cristã está correndo se essas acusações forem verdadeiras. Não podemos nos esquecer da Heresia Albigense. O quanto custou em recursos para a Santa Madre Igreja eliminá-la. 

– Hei de dar a esse assunto a importância que ele merece ─ respondeu o papa, pensando, intimamente, o quanto as pessoas podiam ser hipócritas na defesa dos seus interesses.

Em Chipre, onde Jacques de Molay se encontrava na ocasião, despachos vindos da França o haviam alertado sobre os encontros havidos entre Filipe e o papa e as declarações dadas por Esquin de Floyran. A Ordem tinha informantes dentro da corte do rei e também junto ao papado. Há muito que ele já sabia que o ministro Nogaret andava procurando antigos membros da Ordem para interrogá-los sobre as práticas da Irmandade. Estava seguro quanto a isso, mas assustou-se quando descobriu que tais cavaleiros desapareceram e estariam, provavelmente, reclusos em alguma fortaleza, sob a guarda de Nogaret, ou mesmo de Guilherme de Paris, o chefe da Inquisição na França. Com essa preocupação na cabeça, ele fora até Poitiers, onde o papa se encontrava, para uma entrevista com ele.

– Creio que o Irmão Grão-Mestre tem conhecimento das acusações que estão sendo levantadas contra o Templo – disse Clemente V, solenemente.

– Tenho ouvido algumas insinuações, Santidade – respondeu o Grão-Mestre. 

– O que respondeis sobre isso? – perguntou o papa.

– Que são calúnias e grosseiras difamações. Vossa Santidade sabe muito bem que a nossa Irmandade é extremamente dedicada á Santa Madre Igreja e jamais praticaria qualquer ato que profanasse a nossa fé – respondeu de Molay. 

– Essas acusações – continuou – pelo que me foi informado, foram feitas por antigos cavaleiros expulsos da Ordem por causa do comportamento incompatível com as regras da Irmandade. São mentiras urdidas pelo ódio e pelo espírito de vingança desses fascínoras.

A face pálida do Grão-Mestre do Templo estava vermelha de uma indignação que as espessas barbas não conseguiam ocultar. Nesse instante, Clemente V percebeu o quanto Jacques de Molay estava velho e frágil. Teve pena e comiseração pelo ancião, que embora ainda ostentasse uma figura imponente, em seu vistoso manto branco, ornado com a respeitada cruz vermelha no peito, parecia o retrato da degeneração que uma vida ascética e sujeita a tantas pressões, como deveria ser a vida de um monge-soldado com tais responsabilidades, provocava nas pessoas a ela sujeita. Pensou nele mesmo e no quanto a sua própria saúde havia piorado nos últimos tempos, desde que fora eleito papa. O peso daquela tiara estava ficando cada dia maior. 

– Creio piamente em vossas palavras – disse o papa. – Tenho certeza de que se trata de calúnias urdidas com maldade, inveja e desejo de vingança – completou.

– Tenho confiança no julgamento de Vossa Santidade – respondeu o Grão-Mestre. – Não obstante – continuou –, penso que seria conveniente, para a Ordem e para a Igreja, que se abrisse um inquérito para apurar tudo isso, de modo que não paire nenhuma dúvida sobre a isenção de Vossa Santidade. 

– Essa medida, será, sem dúvida, uma necessidade e a solução ideal – concordou o papa, que intimamente já se decidira por ela. Ficou aliviado ao ver que o próprio de Molay concordava com ela e ele mesmo a sugeria. 

– Podeis ficar tranquilo – disse o papa, batendo amigavelmente no ombro do imponente ancião. – O Templo não corre nenhum perigo – completou.

Todavia, Clemente V não se apressou em cumprir o prometido a de Molay. Dormiu sobre a promessa de abrir o propalado inquérito, mas nem bem o comandante templário tinha deixado a sua presença ele se pôs a escrever uma carta ao rei Filipe, o Belo, dando conta do resultado da sua entrevista com ele. Informou o rei do inquérito que pretendia abrir para apurar as acusações feitas contra os Templários e da reiterada recusa do Grão-Mestre á proposta de fundir o Templo com o Hospital numa única Ordem. Na mesma missiva, ele pediu ao rei que este enviasse todos os relatórios que possuia sobre o caso e prometeu deixá-lo a par de tudo que fosse apurado.

Assim, o papa achava que podia aplacar a sanha de Filipe contra a Ordem. Mas enganava-se redondamente. O rei não queria, de modo algum, deixar o assunto nas mãos da Igreja. Sabia que Clemente V jamais seria capaz, por si mesmo, de fazer alguma coisa contra o Templo. A Igreja estava por demais ligada à sua Commilitonum Christi Templique para que ele tivesse a coragem de tomar qualquer medida que pudesse prejudicá-la.

Mas Filipe tinha seus próprios planos a respeito. Já decidira suprimir a Ordem do Templo e apossar-se dos seus bens. Não deixaria que a Igreja o impedisse de fazê-lo. Evidentemente, sabia que esse não seria um plano de fácil execução. A Ordem tinha seus defensores, mesmo no seu próprio palácio. Seu irmão, Carlos de Valóis, era um deles. Sua filha Isabel, casada com Eduardo II, herdeiro do trono da Inglaterra, era outra. Afinal, Jacques de Molay fora seu padrinho de batismo. Um acirrado debate foi travado entre os ministros e conselheiros do rei em meados de agosto de 1307.

– Vossa Majestade não pode deixar esse assunto nas mãos do papa – insistiu Nogaret. – Ele não é isento e jamais tomará qualquer atitude contra os Templários.

Enguerrand de Marigny, o ministro das finanças, era da mesma opinião. – Vossa Majestade deve invocar para si essa competência – disse ele. – Está dentro de vossa autoridade uma decisão sobre esse assunto, visto que o Templo, sendo proprietário de terras no território francês é, por direito, vosso vassalo.

Carlos de Valóis discordava. – O Templo não está sujeito á autoridade real, mas apenas ao papa – argumentou. – Se Vossa Majestade tomar qualquer medida contra a Ordem, sem a anuência dele, além de ilegal, provocará a reação da Igreja e seus aliados.

– A autoridade do rei sobre seus vassalos supera a do papa – insistiu Marigny. – Não é assim, Messieur de Presles?

– Assim penso, Messire Marigny – respondeu servilmente Raul de Presles, secretário do rei e advogado da corte. 

─ Concordo com Messieur de Presles ─ disse Guilherme de Plaisians, também conselheiro e advogado do rei. ─ Os Templários, como todos nós sabemos, comem o pão da promiscuidade e bebem a água da desolação ─ disse ele, repetindo uma frase que tinha ouvido de um padre franciscano, velho inimigo da Ordem.

– Ademais – insistiu Nogaret – o próprio papa desconfia que alguma coisa de muito ruim está acontecendo dentro da Ordem. Senão não teria manifestado a intenção de investigá-la. Voss

Majestade tem bastante ascendência sobre ele. Não acredito que ele seja capaz de qualquer reação mais séria se Vossa Majestade tomar esse assunto em vossas mãos.

– Não esqueçais – disse Carlos Valóis – que o Templo é a mais veneranda e respeitável Ordem de Cavalaria existente em toda a cristandade. Ao atentarmos contra ela estaremos atentando contra toda uma instituição. 

─ A Cavalaria é outra instituição que precisa ser revista ─ retrucou Nogaret. ─ Mas nesse momento é dos Templários que estamos tratando. E como sabemos, como Ordem de Cavalaria não tem mais sentido a sua manutenção. 

─ Mas é a Igreja que tem que decidir isso e não vós, Messire de Nogaret, nem este Conselho ─ disse Valóis.

– A defesa da fé justifica essa medida – respondeu Nogaret.

─ É mesmo o zelo pela fé que vos move, Messire de Nogaret? ─ perguntou Valóis, com sarcasmo.

─ Eu o faço pelo zelo com a fé cristã e pelo bem do povo e do Estado francês, coisas que não parecem interessar-vos ─ respondeu Nogaret. 

─ Ou será para o vosso próprio bem?─ retrucou Valóis.

– Podemos fazê-lo com ou sem a aprovação formal do papa – interveio Guilherme de Plaisians, interrompendo aquele perigoso diálogo.

– Como? – perguntou Carlos de Valois ─ voltando-se para o advogado da Corte.

– Denunciando a Ordem ao Tribunal da Inquisição – disse ele. – Se a denúncia for formalizada, nem o papa poderá impedir que o processo seja desencadeado.

– É isso mesmo – disse Raul de Presles, pegando o gancho. ─ O Tribunal da Inquisição tem poderes para iniciar um inquérito sem precisar da aprovação do papa.

─ Contra pessoas, sim ─ lembrou Marigny ─ mas não contra uma Ordem instituida pela Igreja. 

─ Isso é apenas uma filigrana jurídica. Se conseguirmos incriminar seus líderes, o papa será obrigado a agir contra a Ordem toda ─ disse Nogaret, com os olhos brilhando, como se tivesse chegado a uma conclusão irrefutável. – E como Guilherme de Paris é o Inquisidor-Mor, não vejo nenhuma dificuldade em iniciarmos esse processo. Afinal, ele deve o cargo à Vossa Majestade ─ concluiu o ministro Guarda-Selos, dirigindo-se ao rei.

─ E creio que não teremos nenhuma dificuldade em trazer o Inspetor- Visitador da Ordem, Hugues de Peyráuld, para o nosso lado. Com um pouquinho de pressão e algumas promessas ele nos dirá tudo que precisamos saber para acabarmos com esses hereges sodomitas ─ concluiu Marigny.

Durante todo esse debate, Filipe, o Belo, tinha se mantido na sua postura favorita. Cotovelo apoiado no espaldar do trono, cabeça apoiada nas mãos, olhos passeando de um a outro conselheiro, não dissera uma única palavra. Era próprio dele essa postura. Adorava ver seus ministros e conselheiros se digladiando. Quem não o conhecesse bem diria que ele estava enfadado por ter que estar ali, perdendo tempo com tal assunto, quando poderia estar caçando, cavalgando ou praticando exercícios das lides cavaleirescas, que eram a sua grande paixão. Mas sua postura não verbal mostrava muito pouco do que se passava em sua mente. Por isso ele era conhecido como o “Rei de Mármore”.

Intimamente ele já tinha a convicção de que os Templários eram todos culpados das acusações que lhes eram feitas. E se convencera também que cabia a ele, como defensor da verdadeira fé, suprimir esse cancro que ameaçava toda a cristandade. E se o papa se sentia impotente para fazê-lo, ele, Filipe, o Belo, tomaria sobre seus ombros esse pesado fardo. A História julgaria quem tinha razão. E se a História viesse a provar, mais tarde, que ele estava errado, ele não estaria mais ali para pagar pelo seu erro. No momento, a única coisa certa a fazer era, na verdade, salvar a França da bancarrota e segurar a sua própria coroa, que certamente escaparia das suas mãos se o reino quebrasse de vez.

Foi então que o rei se levantou e disse as únicas palavras que pronunciou naquela fatídica reunião.

– Messire Nogaret, preparai a acusação e enviai-a ao Tribunal do Santo Ofício. Antes, convocais todos os bailios e senescais das cidades onde há preceptorias templárias para uma reunião aqui no palácio. Temos que fazer os nossos planos.

E com certa indolência, levantou-se e deixou a sala de reuniões. Quem o visse pensaria em uma estátua de mármore, que de repente tinha adquirido vida.














OS MONGES MALDITOS 

CAPÍTULO II

O REI OBSTINADO, MONGE TEIMOSO

João Anatalino Rodrigues

Filipe IV, rei da França, apelidado o Belo, era um homem de incrível tenacidade, combinada com uma desmedida ambição. Aliava a política à religião de uma forma tão compacta que não conseguia, ou não queria, distinguir uma coisa da outra. Sua filosofia política era informada pela teologia, o que fazia dele muito mais um rival do papa em seu desejo de ser visto como o principal defensor da fé cristã, do que um rei, cujo compromisso era reinar em benefício de um povo. Aliás, as tarefas do reino, no que concernia à política interna, a administração, a economia e demais tarefas de um monarca, ele deixava por conta de seus ministros, bailios e senescais. Suas principais ocupações, além daquelas concernentes a religião, eram as campanhas militares e as artes cavalarianas, nas quais era mestre.

Embora ostentasse um ar de majestática ausência em relação aos problemas do dia a dia do reino, quem o conhecia de fato sabia que essa postura era mera aparência. Uma face fina, de penetrantes olhos azuis, com uma testa alta e um queixo pronunciado compunham o conjunto de uma cabeça, que se diria, de uma beleza invulgar, não fosse a desagradável impressão de implacabilidade que a imponência daquele colosso ─ que parecia construído em mármore, ─ passava aos seus interlocutores. Recebera o apelido de “Belo”, justamente pela majestade da sua cabeça coroada, que encimava um tronco robusto de homem alto, de largas espáduas e longas pernas, o que fazia dele um indivíduo imponente, cuja portentosa presença física intimidava qualquer oponente. 

Mas não era no rosto de perfeitíssimas feições que ele mostrava a sua férrea disposição. Era nos olhos azuis, de uma frieza glacial, que ele espelhava a profundeza do seu pensamento e refletia a inflexibilidade de uma vontade que não se detinha diante de nada para realizar os seus intentos.

“Se os olhos são a janela da alma, esse rei não tem nenhuma” dizia um bispo, inimigo de Filipe, “pois ele não era um homem nem uma besta. Era uma estátua de mármore, uma coruja, que só observava, com seus olhos frios e distantes, o mundo à sua volta.” 

Essa era a impressão que o rei da França passava ás pessoas que o conheciam. Alguém que se metesse a procurar nos seus olhos, ou no rosto de expressão marmórea, um sinal do que se passava na sua mente, ficaria decepcionado. Seus olhos simplesmente não se mexiam e os músculos da face formavam uma máscara praticamente impassível. Falava pouco e observava muito. Nas audiências públicas, ou nas reuniões do Conselho, ele lembrava, de fato, uma estátua de mármore. Mantinha o proeminente queixo apoiado entre as mãos de dedos longos e fortes, que eram como galhos que saiam de seus braços; estes eram dois possantes troncos que se assemelhavam á colunas apoiadas na base dos cotovelos, a ponto de parecer que estavam fincados nos tampos da mesa, ou nos braços do trono, como se fossem estruturas de pedra lavrada por hábeis maçons cinzeladores de obras de arte. 

Por conta dessa impassibilidade seus inimigos lhe haviam dado o apelido de “rei de mármore”. Mas por dentro daquela imobilidade de estátua de pedra, habitava o gênio implacável de um homem determinado a realizar seus intentos a qualquer custo.

A seu modo, Filipe era um homem religioso, que acreditava, de fato, nas virtudes do cristianismo e nos postulados da Igreja Romana. Talvez nem tanto por convicção de que a fé católica fosse a verdadeira representação da vontade de Cristo na terra, mas porque era a que mais lhe convinha, já que a Igreja de Roma representava, em praticamente todos os estados europeus, a fonte do poder espiritual e a última palavra quanto se tratava de homologar o poder temporal. Filipe havia, na verdade, sobrepujado o poder da Igreja, forçando a eleição de um papa que lhe era submisso. Além disso, ainda obrigara a corte papal a sair de Roma e a trouxera para Poitiers, em terras francesas, de onde depois ela seria removida para Avignon, onde ele poderia, a qualquer momento, pressioná-la quando lhe conviesse. Assim, a Igreja estava agora sob seu controle, com o papa sob sua guarda e bispos indicados por ele em todas as dioceses importantes da França. 

Afora isso, Filipe, o Belo, tinha vencido praticamente todas as resistências internas ao seu projeto de um forte Estado nacional. Através de alianças políticas e casamentos arranjados, ou mesmo por conta de eliminação física e imposição por força armada, ele reduzira o poder da nobreza a um mínimo controlável. A França, sob seu reinado, se tornara a nação mais poderosa da Europa, com um nível de unificação política que só fora alcançado séculos antes, sob o império de Carlos Magno e seria repetida séculos depois, sob a dinastia dos Bourbons. 

Talvez esse fosse seu sonho: repetir o feito do seu antepassado famoso, tornando-se o líder da cristandade. Carlos Magno fora o único monarca, depois da queda de Roma, a ser considerado um verdadeiro sucessor dos antigos imperadores romanos. A própria Igreja o havia revestido nessa condição e essa era a ambição de Filipe, o Belo. Por isso é que enquanto passeava pela Europa sua fama de rei piedoso e defensor inflexível da fé cristã, ao mesmo tempo ele procurava debilitar a Igreja que a representava, impondo-lhe um líder politicamente enfraquecido, contestado pelo restante da cristandade, e um clero submisso que se preocupava mais em atender aos desígnios do rei do que da instituição a que pertencia. 

Mais não fora, ele pertencia a uma dinastia, cujas ligações com a Igreja de Roma eram históricas. Os Capetos, desde seu fundador, Hugues I, sempre se arvoraram em defensores da fé católica, e nada menos que Luís IX, o famoso avô de Filipe, havia sido recentemente canonizado por sua intransigente defesa dos valores cristãos. Destarte, Filipe IV, o Belo, havia sido educado nos ardores de uma fé que não conhecia nem admitia qualquer sinal de controvérsia. Segundo se dizia dele, Filipe acreditava piamente na tese dos direitos divinos do rei e que havia sido “ungido com os santos óleos que vieram do céu, trazido por uma pomba por ocasião da coroação do seu primeiro antecessor, Clóvis I.” 

Politicamente ele seguia a tendência da época, de buscar a consolidação do Estado em uma monarquia forte e centralizada, onde o poder real não estivesse tão sujeito á ser minado pela nobreza feudal e influenciada pelo poder da Igreja. Consciente como era das incertezas políticas do seu tempo, não permitiria que na França ocorresse a mesma coisa que ocorrera com o rei da Inglaterra, João, o Sem Terra, cerca de cem anos antes, o qual fora obrigado a assinar uma Magna Carta, documento que contestava o direito divino dos reis e concedia aos barões ingleses uma liberdade que estava além do seu controle. Por isso ele, Filipe, lutara, com unhas de dentes, contra os privilégios da nobreza e trabalhara contra suas próprias convicções, de adepto das tradições cavaleirescas, para fortalecer o poder central.

Não obstante, encontrara em Jacques de Molay um adversário à altura. O velho Grão-Mestre da Ordem do Templo era um osso duro de roer. Homem teimoso e cioso de sua autoridade como comandante supremo de uma organização que só devia satisfação ao papa, Filipe via nele o principal óbice ao seu projeto de liquidar com o último bastião de resistência ao seu projeto de um Estado nacional. 

Na verdade, as relações entre os Templários e a coroa francesa já andavam tensas desde algum tempo. O rei devia muito dinheiro a Ordem. Era comum ele se valer dos fundos Templários para socorrer o empobrecido tesouro real, sucessivamente esvaziado pelas campanhas militares em que os reis franceses, incluindo ele próprio, se envolviam. 

Filipe, o Belo, já não sabia onde mais poderia levantar dinheiro para cobrir o enorme deficit em que se encontravam as contas do reino. No ano anterior ele havia expropriado os judeus e sangrado os banqueiros lombardos, duas outras fontes de renda das quais ele normalmente se valia para recompor o debilitado orçamento real. Aumento de impostos e desvalorização da moeda eram outros recursos comumente empregados para equilibrar as contas públicas, mas essas se revelaram estratégias perigosas, que já tinham lhe dado muita dor de cabeça no passado recente. Eram expedientes que, pelo menos naquele momento, ele queria evitar. Dessa forma, só restava a propalada riqueza do Templo, que ele sabia ser imensa. 

Mas a fama de obstinação e integridade que acompanhava o inflexível comandante do Templo preocupava o rei e aparecia como um óbice a realização do seu projeto. Tivera uma prova disso no ano anterior, quando um incidente o colocara em rota de colisão com Jacques de Molay e lhe mostrara o quanto aquele velho monge-cavaleiro, obtuso e arrogante, iria servir de freio ás suas ambições.

Para fazer face ás altíssimas despesas que tinha com a guerra contra a Inglaterra, em 1304, Filipe reduzira o peso em ouro da moeda francesa, provocando a sua desvalorização em quase dois terços. Isso gerou de imediato uma enorme inflação que atingiu, particularmente, a grande massa do povo, que de uma hora para outra ficou sem condições até de comprar a própria comida. Em consequência, a fome, o desemprego e a desordem se espalharam por todo o país e acabaram desencadeando uma grande revolta popular. Em Paris, o povo faminto e desesperado assaltou o palácio real e obrigou o rei e sua corte a procurar refúgio nas dependências do edifício do Templo, único lugar seguro na cidade naqueles dias. 

Foi nessa ocasião que o rei, vendo a opulência do tesouro templário, aguçou a sua cobiça e começou a pensar numa estratégia para se apoderar dele. A ideia, proposta inicialmente por Enguerrand de Marigny, então seu Intendente das Finanças, e apoiada por Guilherme de Nogaret, o Chanceler do reino, era, em princípio, lançar uma taxação sobre as rendas do Templo e do clero em geral. Porém, a firme recusa de Jacques de Molay em renunciar ás prerrogativas que o Templo possuía, de imunidade a qualquer tipo de taxação, frustrou as intenções de Filipe e fizeram com que ele recuasse no seu intento. No entanto, deve ter contribuído bastante para acirrar sua disposição, já bastante forte, de destruir os Templários e apoderar-se de seus bens. Essa situação foi discutida em uma reunião do Conselho Real, logo após o incidente da revolta popular, onde se buscavam soluções para debelar a terrível crise financeira que assolava o país.

─ Os Templários ─ disse o rei ─ possuem uma incalculável riqueza, enquanto o povo francês passa fome. Essa situação é intolerável. 

─ Concordo plenamente com Vossa Majestade ─ respondeu Marigny. ─ Por direito, os bens do Templo pertencem ao povo da França, pois provém de doações feitas por nobres franceses e de rendas obtidas com a exploração desses bens e dos privilégios a eles concedidos. Essas doações foram feitas para que as Ordens de Cavalaria pudessem manter as possessões cristãs na Terra Santa. Agora elas não mais existem. Portanto, as Ordens também perderam a sua razão de existir.

─ Não seria nenhum mal feito se retornassem a coroa no caso de serem extintas ─ interviu Nogaret, cuja cabeça de advogado já andara pensando em uma solução jurídica para o caso. 

─ Embora os Hospitalários ainda sejam úteis, devidos aos serviços públicos que prestam ─ disse Marigny.

─ Realmente ─ respondeu Nogaret, cuja preocupação estava centrada no Templo. ─ Tendes razão quanto ao Hospital, mas quanto ao Templo, não há mais razão para que continue existindo.

─ Porém ─ interviu Carlos de Valois ─ dirigindo-se a Marigny ─ o papa dificilmente concordará com isso. Não podemos esquecer que o Templo é uma organização eclesiástica e somente a Igreja tem poderes para dissolvê-la. E principalmente para dispor de seus bens, que ao que parece, é a vossa principal motivação para espoliar a Irmandade.

─ Tendes razão quanto a isso ─ respondeu Nogaret, evitando comprar a provocação de Valóis ─, mas podemos pensar em algumas soluções jurídicas para contornar esse obstáculo, se a Ordem for extinta. ─ E como podereis extinguir uma Ordem religiosa que não deve obediência aos poderes seculares, mas somente ao papa? ─ insistiu Valóis.

─ Estamos pensando numa fórmula ─ interviu Marigny.

─ Pensai depressa ─ disse Filipe. ─ O tempo urge. Uma nova revolta popular pode representar a nossa ruína.

─ Não se poderia simplesmente impor uma taxação sobre as rendas do Templo? Diz-se que elas são altíssimas ─ sugeriu Luís, o Cabeçudo, filho mais velho de Filipe.

─ Anualmente arrecadam mais do que uma república italiana de grande porte ─ disse Marigny. ─ Mas essa solução já foi tentada e fracassou, pois o Templo, por lei, é imune à taxação.

─ E se os desapropriássemos, pura e simplesmente? ─ perguntou Filipe, o Longo, segundo filho do rei.

─ Enquanto a Ordem existir e estiver protegida pelas leis em curso, isso é impossível ─ respondeu Marigny. ─ Temos que primeiro acabar com ela ─ completou.

─ Mais cedo ou mais tarde é o que teremos que fazer. Por enquanto ─ disse Nogaret ─ o melhor é negociar com o Templo um empréstimo. Isso aliviaria as dificuldades atuais do tesouro e nos daria mais algum tempo para preparar uma estratégia.

─ A coroa já deve muito dinheiro ao Templo ─ lembrou Carlos de Valóis. ─ O próprio tesouro pessoal de Vossa Majestade, ao que sei, está penhorado com eles. Achais mesmo que eles vão confiar mais dinheiro a quem não paga nem o que já deve?

─ De Molay não ─ disse Marigny. Ele é um velho obtuso e turrão. Não conseguiríamos arrancar um mísero florim dele. Mas Hugues de Peyráuld, o Inspetor-Visitador, é nosso amigo e aliado. Ele não nos negará esse favor. 

─ E o cavaleiro de La Tour, tesoureiro do Templo em Paris, também não se oporá. Afinal, ele só está nesse cargo por indicação de Vossa Majestade ─ lembrou Nogaret.

─ Mas eles não podem fazer isso sem a anuência do Grão-Mestre geral ─ objetou Carlos de Valóis.

─ Na ausência dele sim ─ respondeu Nogaret. ─ E ao que me consta, Jacques de Molay está em Chipre e não voltará tão cedo. 

─ Então vamos aproveitar a ausência dele e correr com isso ─ concluiu o rei. ─ Negociai esse empréstimo antes que o velho turrão volte ─ ordenou ele á Marigny.

─ Sim, Majestade. Farei isso imediatamente ─ disse Marigny. 

─ Á César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Não é isso o que dizem as escrituras? ─ arrematou ele, levantando-se do seu trono e dando por encerrada a reunião.

“Todo César, um dia, também encontra os punhais de Cássio, Bruto e Casca”, pensou Carlos de Valóis, com um esgar de sorriso, que não escapou á Nogaret. 

─ Messire de Valóis parece não gostar muito das nossas propostas ─ disse ele.

─ O que me incomoda, Messire de Nogaret, não são as vossas propostas, mas os sentimentos e as motivações que o levam a fazê-las ─ respondeu Valóis.

Não é difícil imaginar porque o rei e seus ministros, vendo a riqueza ostentada pelo Templo, em contraste com a miséria que grassava pelo restante do país, logo tivessem pensado em uma solução dessas. Aos olhos daqueles senhores, nada parecia mais correto e natural. A riqueza do Templo, na França, havia sido amealhada através de donativos feitos pelos nobres franceses e pelo povo para que os Templários e os Hospitalários, como soldados de Cristo, defendessem as possessões cristãs conquistadas durante as cruzadas. Mas as cruzadas terminaram e o reino cristão do Oriente não existia mais. Não havia mais nenhuma possessão cristã na Terra Santa para ser mantida com esses recursos. 

Por outro lado, os Templários não eram mais uma Ordem militar. Pelo menos, não tinham mais essa característica. Se quisessem continuar monges, tudo bem. Que sua fidelidade fosse dada ao papa e a Roma, mas sua riqueza pertencia ao povo da França e a seu rei. Todas as Ordens religiosas deviam adotar as ideias dos franciscanos, pensavam Nogaret e Marigny. Viver de acordo com suas propostas teológicas e estatutárias. Ascetismo, pobreza, assistência aos doentes e desabrigados, educação do povo. Nada de acumular poder econômico e político. A riqueza material era incompatível com o objetivo das Ordens religiosas. Destarte, nada mais justo do que se apropriar, pura e simplesmente, dos bens que elas possuíam.

Assim, Marigny, em nome do rei da França, solicitou ao tesoureiro do Templo, um monge chamado Jean de La Tour ─ que por sinal já tinha servido o rei como seu próprio tesoureiro ─ um empréstimo no valor de 300 mil florins em ouro. Era uma soma milionária, que correspondia à renda anual de uma cidade como Bolonha ou Siena, ricas repúblicas italianas que haviam enriquecido no comércio com o Oriente. Não podendo resistir a persuasão do rei, o tesoureiro do Templo, em Paris, entregou-lhe toda essa fortuna, sem pedir o aval do Grão-Mestre Jacques de Molay, que nessa altura encontrava-se em Chipre, cuidando dos interesses da Irmandade. Também não exigiu do monarca francês nenhuma garantia de que esse empréstimo seria ressarcido. Contou, para isso, com a cumplicidade de Hugues de Peyráuld, o Inspetor-Visitador da Ordem, segundo em comando, logo após de Molay.

Em princípios de 1307, de Molay chegou a Paris e tomou conhecimento da temerosa operação realizada por Jean de La Tour. Foi logo destituindo o pródigo tesoureiro, aplicando-lhe uma duríssima sanção, que acabou por levá-lo a um confinamento, na Torre do Templo.

Tudo isso estava previsto nas regras da Ordem. Os Templários haviam feito sucesso como financistas justamente pela honestidade e pelo zelo com que administravam os bens que lhes eram entregues. A fidúcia era a sua maior garantia. Por outro lado, o dinheiro que a Ordem manipulava não lhes pertencia. Constituía propriedade das pessoas que investiam em seus negócios, dos depositantes de suas casas bancárias e principalmente, da Igreja, pois o Templo era uma Ordem monástica. E embora fosse autônoma em sua administração, ela devia obediência ao papa e satisfação aos seus parceiros comerciais. 

Compreende-se a ira de que Jacques de Molay foi tomado quando, ao mandar examinar os livros do Templo em Paris, como usualmente fazia quando voltava de uma viagem, descobriu a “ação entre amigos” realizada pelo seu tesoureiro em proveito do rei da França. 

─ Irmão tesoureiro ─ disse De Molay a La Tour ─ posso entender que tenha sido pressionado e resolveu, por sua conta, liberar esse empréstimo ao rei, mas vós sabeis que não tinha autoridade para isso, não é? 

─ Sim, Irmão Grão-Mestre ─ respondeu de La Tour, com certa arrogância ─, mas eu fui autorizado pelo Irmão Peyráuld. Ele, como Inspetor – Visitador da Ordem garantiu-me que a operação podia ser realizada. 

─ Então ambos terão que responder por essa violação das nossas regras ─ disse de Molay. ─ Que confiança poderemos inspirar em nossos parceiros se entregarmos, sem garantias, aquilo que não é nosso? Sabeis que toda a nossa estrutura está amparada na fidúcia. Se perdermos a confiança de quem entrega seus bens à nossa guarda, será o fim da nossa Ordem. 

─ Mas estamos falando do rei da França ─ insistiu De La Tour.

─ E eu estou falando de uma organização que representa toda a cristandade ─ retrucou de Molay.

E a coisa ficou assim. De um lado a vontade política de um rei obstinado, de outro a resistência ética de um monge teimoso. O conflito se tornara inevitável.

Essa era a questão. Os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo do Rei Salomão tinham se tornado os homens mais ricos da Europa. Era um estranho paradoxo. A Ordem era rica, mas seus membros não podiam dispor de absolutamente nada dessa riqueza para uso próprio. Os Templários, salvo aqueles que se corrompiam e acabavam se aproveitando da situação em proveito próprio ─ e sempre os há, em todos os tempos e lugares ─ viviam de maneira simples e morriam pobres. Porque nessa forma de viver estava a sua divisa: Non nobines Domini, non nobis, sed nomine tuo da gloriam. 

Assim, destituir e mandar prender Jean de La Tour era o mínimo que ele podia fazer. Mas de La Tour, como tesoureiro da Ordem, não manipulara tanta riqueza em vão. Ele tinha estendido a sua rede de influências por toda a nobreza francesa e gozava de alto prestígio entre as autoridades civis e eclesiásticas. Além de tudo, granjeara a amizade e a proteção do Inspetor-Visitador, Hugues de Peyráuld. 

Entretanto, De Molay logo descobriria que o vultoso empréstimo concedido ao rei não tinha sido obra apenas de La Tour, mas também havia sido realmente autorizado pelo próprio Hugues de Peyráuld na qualidade de maior autoridade do Templo, na Europa, na ausência do Grão-Mestre geral. 

O conflito entre Jacques de Molay e seu segundo em comando acirrou-se. Ele já vinha de algum tempo, mais propriamente da época em que de Molay fora eleito Grão-Mestre geral. Hugues de Peyráuld fora o seu rival direto para esse cargo e contara com o apoio de Filipe, o Belo. Mas sendo a Ordem independente e a eleição realizada internamente, onde só votava um colegiado formado pelos seus próprios membros, a influência de Filipe, o Belo, foi mitigada, pois um grande número dos eleitores se encontrava fora da França, longe, portanto, das pressões que ele pudesse fazer. Assim, de Molay ganhara a eleição, com o apoio do papa da época, e tanto o rival Peyráuld quanto Filipe, por certo, não devem ter ficado nem um pouco contentes com essa situação. 

Entretanto, o caso da destituição e prisão do tesoureiro do Templo, em Paris, provocou a ira do rei. Ele exigiu imediatamente a liberdade e a reintegração de Jean de La Tour em seu cargo de tesoureiro, com o que o velho e teimoso comandante Templário não concordou. Irritado, o rei solicitou ao papa que interferisse no processo, pois este, como comandante supremo da Ordem, era a única autoridade a quem ele poderia recorrer, no caso.

Clemente V não tinha a têmpera do irascível monge-cavaleiro. Sem coragem para afrontar o rei, foi logo atendendo ao seu pedido. Dessa forma, sendo o papa seu superior hierárquico, de Molay não pode negar e foi obrigado a libertar e reintegrar o pródigo tesoureiro no seu cargo. 

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Jacques de Molay cumpriu a ordem, mas ficou tão irado, que amassou e jogou a carta do papa no fogo, episódio que Peyráuld deve ter aproveitado para indispor ainda mais o velho e teimoso monge comandante com o Supremo Pontífice.

Além disso, de Molay tinha pensado em substituir Hugues de Peyráuld no cargo de Inspetor-Visitador da Ordem. Não desconhecia as relações pouco profissionais que este mantinha com o rei francês e temia que ele estivesse mais interessado em resolver os problemas de Filipe do que defender os interesses da Ordem. A par disso havia aquelas insinuações, feitas por alguns Irmãos, de que Peyráuld andava confidenciando demais com Nogaret, e que muitas das maledicências que esse ministro estava assacando contra a Ordem teria como fonte de informação o próprio Inspetor-Visitador. De Molay não queria crer nisso, mas do jeito que as coisas estavam caminhando, seria melhor se prevenir. Mas não só teve que engolir a reintegração do pródigo de La Tour como tesoureiro, como também a confirmação de Peyráuld no cargo de Inspetor-Visitador. 

Tudo isso deve ter dado o que pensar a de Molay. Ele agora tinha certeza que as coisas não iriam parar por aí. O inquérito que ele solicitara ao papa estava demorando muito para ser iniciado. A campanha de difamação que os advogados de Filipe estavam fazendo contra a Ordem estava ficando cada dia mais forte. 

Era preciso pôr as barbas de molho.

Era a manhã do dia seis de outubro de 1307. Os soldados que guardavam a porta Saint Denis não estranharam aquele estranho cortejo de cinquenta cavaleiros templários escoltando quatro carroças carregadas com feno, deixando a cidade de madrugada. Era uma cena cotidiana aquela. Usualmente o Templo, em Paris, costumava mandar suprimentos ás demais preceptorias localizadas em outras cidades da França. Afinal, Paris era a sede da organização. Dali saíam armas, vestimentas, armaduras, mantimentos, forragem para os animais e outros produtos que o Templo recebia de suas propriedades e distribuía ás suas unidades em outras localidades. Isso era comum, embora a maioria das preceptorias templárias, especialmente nas cidades mais importantes da França, fossem praticamente autossuficientes na produção de alimentos e outros implementos. 

De qualquer modo, a troca de mercadorias era comum entre as unidades da Ordem. Dessa forma, nenhuma estranheza causou aquele comboio, capitaneado pelo próprio Preceptor de Paris, o monge-cavaleiro Gerard de Villiers, que ao passar diante do sargento comandante dos arqueiros encarregados de vigiar aquela porta, saudou-o com o braço estendido e a mão aberta com o polegar em riste formando um ângulo reto com o indicador, sinal característico dos Templários para saudar pessoas não pertencentes a Ordem. O sargento, que não gostava daqueles arrogantes cavaleiros de manto branco, não fez mais que uma imperceptível reverência com a cabeça.

“Bando de veados filhos da puta”, murmurou, olhando o cortejo de carroças que passava e os altaneiros cavaleiros em suas cotas de malha metálica, cobertas pelo manto branco, com a cruz vermelha no peito. Nem estranhou o peso das enormes carroças, que eram arrastadas, cada uma por quatro fortes cavalos. Passaram, rangendo nos eixos, pela grande e pesada porta da cidade, tomando, em seguida, a estrada para o castelo de Gisors. Nada de estranho havia nisso porquanto Gisors era uma das preceptorias templárias mais próximas de Paris. Isso pareceu normal para o rude sargento. O que não lhe parecia racional era ocupar tantos cavalos para transportar uma carga que devia ser tão leve. Mas aqueles Templários eram mesmo uns pródigos. Eram tão ricos e arrogantes que não se importavam com a ostentação. Só pensava no aborrecimento de ter que sair do seu sossego, naquela hora da madrugada, para abrir o portão para aqueles desgraçados cavaleiros de mantos brancos, que passavam por ele e o cumprimentavam daquela forma altaneira e fria, como se ele fosse um verme.

Se tivesse a curiosidade de ver o que se escondia em baixo daquele feno todo, algumas semanas depois o carrancudo sargento provavelmente teria subido de posto, ou no mínimo ganharia uma gorda recompensa. Pois naqueles carroções, cujas rodas deixavam profundos sulcos na estrada, estavam sendo transportados, nada mais, nada menos, que todo o tesouro do Templo de Paris, que Jacques de Molay, no maior segredo, contando apenas com a cumplicidade do Preceptor de Paris e um grupo de fiéis cavaleiros, estava pondo a salvo. De Gisors o tesouro seria depois levado por barcaças, que desceriam o Sena até o Porto de La Rochelle, onde seria embarcado em navios templários lá ancorados. Dali seguiria, parte para a Escócia, parte para Portugal, onde ficaria fora do alcance dos inimigos da Irmandade. 

Isso era parte do plano que o comandante do Templo arquitetara, para o caso de acontecer o que ele temia, ou seja, um ataque frontal à Irmandade, como se prenunciava naqueles primeiros dias de outubro de 1307. Isso ele tinha certeza que aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Só não sabia quando seria. Por isso havia traçado planos para uma possível sobrevivência da Ordem, que seria posto em prática caso alguma coisa acontecesse e ele ficasse impossibilitado de dirigi-la. Daí o seu empenho em salvaguardar o tesouro monetário da Irmandade. Iriam precisar dele no futuro. Esse tesouro agora estava a salvo. Mas sua maior preocupação, agora, era o outro tesouro. Esse, se caísse em mãos estranhas, poderia sim, causar uma catástrofe sem precedentes em todo o mundo cristão.














OS MONGES MALDITOS

CAPÍTULO I

SEXTA FEIRA TREZE

João Anatalino Rodrigues.

Naquela sexta-feira, dia 13 de outubro de 1307, o outono em Paris tinha alcançado o seu momento mais deslumbrante. Os belos matizes dos seus lindos parques e florestas, que no verão combinavam uma profusão de cores vivas e brilhantes, haviam se transformado num amarelo pálido e opaco. E à medida que o sol tímido e distante deixava as ruas, e as sombras da tarde ocupavam os lugares que sua luz abandonava, eles iam adquirindo tons de cinza, como se o pintor daquela aquarela estivesse procurando as melhores combinações de tintas para casar a natureza da paisagem com a melancolia que a estação outonal naturalmente inspira nas pessoas. As folhas secas, caídas dos plátanos enfileirados ao longo das ruas do vetusto burgo, como se fossem sentinelas silenciosas a guardá-las, formavam um tapete quebradiço que durante o dia se desmanchava com um crack, crack irritante quando as pessoas pisavam sobre elas. E á tarde, quando o vento do outono soprava os restos das folhas esmigalhadas, elas rolavam como se fosse um exército de insetos em movimento pelas ruas empoeiradas e silenciosas da romântica e misteriosa capital francesa. 

Mas naquela insólita hora da madrugada tudo era silêncio na velha Cité e nenhuma alma viva se aventurava a enfrentar as sombrias vielas da cidade, que ainda dormia a sono solto. O frio já chegara à Paris naquela época e seus habitantes, concentrados em uma compacta mancha urbana espalhada ao longo das duas margens do Sena, que fazia o burgo parisiense se parecer com uma gigantesca aranha com pernas feitas de ruas escuras e mal cheirosas, não teriam deixado, por motivo algum, o calor de suas camas para ver o pelotão de soldados armados, que naquele momento saia pelo grande portão do Hotel de Ville, sede da prefeitura de Paris, em marcha forçada, tomando o rumo do Castelo do Templo. 

O castelo do Templo ocupava um quarteirão inteiro na margem esquerda do famoso rio, para quem olhasse Paris, posicionado em frente ao grande portal da catedral de Notre Dame. Cerca de um quilômetro e meio de uma boa caminhada por ruas estreitas e um tanto soturnas, separava os dois grandes prédios, o Hotel de Ville e o Castelo do Templo; no meio deles a imponente Catedral de Notre Dame, que juntamente com o Palácio do Louvre, residência do rei e sede do governo, eram os quatro maiores edifícios da capital francesa. 

O bairro do Templo constituía um emaranhado de casas e lojas, algumas delas com até quatro andares, dispostas ao longo de um conjunto de vielas, distribuídas em torno de um grande e soturno edifício que se plantava bem no meio daquela compacta e cinzenta massa de construções, construídas, em sua maioria, com paredes-meias, como se tivessem sido erguidas, umas para amparar as outras. Ali viviam cerca de duas mil pessoas ─ os chamados “Homens dos Templários” ─, como eram conhecidas as pessoas que trabalhavam para o Templo de Paris. Assim era chamada a multidão de pedreiros, carpinteiros, estucadores, palafreneiros, ferreiros, tanoeiros e outros trabalhadores que prestavam serviço á formidável organização multinacional que se tornara a Ordem do Templo. 

O gigantesco edifício plantado bem do meio daquele confuso conjunto de construções era o castelo do Templo de Paris, sede da poderosa Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominic, nome latino da maior e mais famosa Ordem de Cavalaria do mundo cristão. Nele habitavam os Cavaleiros Templários propriamente ditos, os homens dos “blanc mantoux”, integrantes da milícia de monges guerreiros que durante os dois últimos séculos haviam construído uma história de lendas, mistério e grandeza jamais vista antes.



Eram as primeiras horas da madrugada da sexta-feira, 13 de outubro de 1307 e nem os passos dos soldados, com suas botas de grossas solas de couro, reforçadas com chapinhas de aço nos calcanhares, ressoando no piso irregular das ruas, ou o som do trotar dos cavalos, golpeando as pedras do calçamento com seus cascos ferrados, como se estivessem tirando fagulhas de pederneiras para acender uma fogueira, teria feito o bom povo parisiense perder o sono e abrir os postigos das suas janelas para ver o que estava acontecendo. Se o fizesse veria uma tropa de cerca de cem arqueiros a pé, comandados em grupos de dez a dez por um sargento à cavalo; e à frente desse vistoso batalhão de soldados, alguns deles portando balestras, outros carregando piques, dois garbosos capitães a cavalo, vestidos com suas cotas de malha e armaduras de combate. E na cabeça os vistosos elmos de cavaleiro, abaixados para o combate. No meio dos dois, um garboso senhor vestido com calça e casaco de veludo preto, com uma túnica longa por cima, trotava altaneiro em um vistoso cavalo branco, como se fosse um rei saindo para uma caçada. Os capitães se chamavam Alan Perreilles e Reinaldo de Roies. O primeiro era o chefe de polícia da prefeitura de Paris e o segundo respondia pelo cargo de capitão comandante dos arqueiros do rei. O importante cavaleiro que se apresentava, imponente, no meio dos dois, era Messire Guilherme de Nogaret, o poderoso chanceler do reino, Guardião do Selo Real de França.

Aonde iria aquele apressado contingente de soldados àquela insólita hora? A neblina que subia do Sena cobria toda a Cité com uma nuvem espessa e úmida. Em contato com as armaduras dos capitães da tropa, o esbranquiçado vapor que impregnava o ar liquidificava e se transformava em espessas gotas de água que escorriam pelas juntas metálicas das armaduras dos cavaleiros, dando-lhes um brilho escamoso e frio, que fazia parecer ainda mais assustador aquele cortejo de soldados armados, perturbando o silêncio da madrugada com o barulho da sola de suas botas e dos cascos dos seus cavalos ferrados. 

O que estaria acontecendo? Paris estaria sendo invadida por um exército inimigo? 

Não foi senão ali pelas seis horas da manhã, quando os vendedores ambulantes começavam a montar suas barracas no Les Champeaux e os comerciantes do Halles de Paris, o seu mercado municipal, estavam abrindo suas portas, que as notícias começaram a correr. Primeiro à boca pequena, nos círculos mais próximos à Corte, depois apregoadas pelas praças, tavernas e casas de comércio e de tolerância, alcançando logo as sedes das guildas, os edifícios públicos e os espantados cidadãos das ruas, que não conseguiam acreditar no que ouviam. 

A cidade foi tomada por um verdadeiro frenesi, que somente as guerras, as grandes tragédias, ou os acontecimentos marcantes, como a morte de um rei ou a eleição de um novo papa, conseguiam eliciar. 

A notícia que convulsionava os habitantes de Paris era simplesmente a seguinte: O Castelo de Paris, sede da poderosa Ordem do Templo, havia sido ocupado pela polícia do rei e um grande número de Cavaleiros Templários encontrava-se, agora, na prisão. O próprio Grão-Mestre da poderosa Irmandade, o monge-cavaleiro Jacques de Molay, juntamente com mais três grandes dignatários da Ordem, o Preceptor da Normandia, Geoffroy de Charney, o Preceptor da Aquitânia, Geoffroy de Gonneville e o Inspetor-Visitador da Ordem, Hugues de Peyrald e mais cento e quarenta Irmãos do Templo, entre cavaleiros, sargentos, monges e outros serviçais, haviam sido detidos e estavam agora sob a guarda dos senescais do rei. 

Essa era uma notícia difícil de acreditar. A Ordem do Templo, Irmandade de monges-guerreiros existente há mais de dois séculos, havia se tornado um poder paralelo dentro do reino da França e seu oficial comandante, uma das figuras mais respeitadas do mundo cristão. Além disso, era considerado amigo do rei francês, protegido do papa e mantinha sob o seu comando um exército de combatentes, mais numeroso e melhor preparado do que as próprias forças armadas do reino de França. 

De fato, a Ordem do Templo era mais rica e melhor organizada administrativamente do que o próprio estado francês. Boa parte da estrutura burocrática do reino era exercida pelos “Homens dos Templários”. A Ordem prestava serviços públicos importantes a população. Dava esmolas aos pobres e mantinha asilos e hospitais. Geria uma boa parte da economia do reino. Eram os principais banqueiros do rei e dos nobres franceses. O que teria levado o rei Filipe, o Belo, a desencadear uma tão ousada e temerária ação contra uma organização que exercia um papel tão importante na vida pública do país? 

No dia anterior, 12 de outubro, o próprio Grão-Mestre geral do Templo, o monge-cavaleiro Jacques de Molay, posara junto ao rei no funeral de Catherine de Courtenay, esposa de seu irmão, o cavaleiro Charles de Valois. Até segurara um dos cordões da mortalha da defunta, durante o cortejo fúnebre da distinta dama. Esse era um direito seu, devido à alta posição que mantinha entre os pares de França. Destarte, nada prenunciava, na atitude do rei, a arrojada ação que ele viria a desencadear no dia seguinte contra a poderosa Irmandade. 

No entanto, o já idoso monge-cavaleiro pressentira alguma coisa na atitude do monarca. Notara que ele evitara dirigir-lhe a palavra e até de se aproximar dele. Permanecera frio e distante, como se fizesse por evitá-lo. Essa era uma atitude inusitada, porquanto, até aquele momento, os dois sempre tinham mantido boas relações, pessoais e diplomáticas. Jacques de Molay gozava inclusive do compadrio do rei, pois tinha sido padrinho de batismo de sua filha Isabel, agora rainha da Inglaterra. A jovem rainha inglesa amava e respeitava o velho monge-guerreiro e sempre o visitava quando vinha a Paris. O mesmo fazia o Grão-Mestre do Templo toda vez que ia a Londres. Assim, os laços de família entre Filipe, o Belo, e o comandante templário pareciam bastante estreitos e afetivos até aquele momento. 

Mas tudo era enganoso, como de Molay logo iria perceber. A mesma frieza ele havia sentido na postura dos dois ministros mais poderosos do reino, Messires Guilherme de Nogaret e Enguerrand de Marigny. Esses dois ministros eram os mais importantes conselheiros de Filipe, o Belo, e segundo se dizia, representavam o verdadeiro poder por trás do trono. Eles eram os dois braços do rei. Exerciam tanta influência sobre o monarca, que chegava a provocar violentos ciúmes em Carlos de Valóis, o irmão caçula do rei. 

Jacques de Molay estava bem informado das manobras desses ministros contra a organização que ele comandava. Era coisa que já vinha de algum tempo. Uma suja campanha de calúnias e difamações tinha sido desencadeada por esses dois ministros com a finalidade de prejudicar a Irmandade. Com esses perigosos indivíduos ele sabia que teria que pisar em ovos. Falar o menos possível, não dar quaisquer declarações que pudessem fornecer munição a eles, evitar até mesmo aproximação com os dois traiçoeiros cortesãos. Assim, de Molay ficou satisfeito pelo fato de nenhum deles ter se aproximado dele naquela ocasião e até evitado puxar conversa com ele. 

O mesmo não acontecia com Carlos de Valois, o irmão mais novo do rei Filipe, o Belo. Este era um cavaleiro valente e audaz, que sempre demonstrara muito respeito pelos Templários. Jacques de Molay tinha afeto e amizade por ele. Os dois eram cavaleiros, antes de tudo. Comungavam dos mesmos ideais. A Cavalaria era, para ambos, uma instituição santificada, depositária das melhores virtudes e praticante das ações mais meritórias. Representava uma tradição reconhecida e amada pelo povo, o núcleo de onde saiam seus heróis. “A Cavalaria”, dizia Valóis, “era a moldura mais perfeita da nobreza”. Todos os nobres eram cavaleiros, embora nem todos os cavaleiros fossem oriundos da nobreza. Mas a própria condição de cavaleiro já dava ao seu possuidor, ainda que não tivesse sangue azul, uma aura de nobreza.

Não era o que pensavam os ministros Guilherme de Nogaret e Enguerrand de Marigny. Para os dois burocratas ─ ambos nascidos no seio da burguesia ─ a Cavalaria não passava de uma instituição superada. Era o resquício de uma nobreza envilecida e corrompida, que perdera a sua importância para a cristandade após o fracasso das cruzadas. Aferrada ás suas tradições, essa nobreza perdulária e inútil defendia com unhas e dentes antigos privilégios que os novos tempos, em que os reinos europeus começavam a se organizar em estados nacionais, não mais podiam suportar. 

Aliás, as Ordens de Cavalaria ainda existentes nos reinos europeus constituíam um poderoso obstáculo à organização de um estado nacional. Especialmente as duas mais poderosas Irmandades constituídas pelos cruzados na Terra Santa: a Ordem do Templo e a Ordem do Hospital de São João. Juntas, essas duas instituições possuíam um quarto das terras no reino de França e geriam uma substancial parte da economia do reino. Nogaret e Marigny pensavam que a Cavalaria poderia subsistir como força militar, desde que controlada pelo Estado, mas nunca como uma organização de poder econômico e político paralelo, como sempre fora desde que Carlos Magno a instituíra e lhe conferira um status de instituição quase religiosa, com leis e fundamentos próprios, que muitas vezes se sobrepunham às próprias autoridades seculares. 

Fora o próprio Carlos de Valois que advertira de Molay sobre as acusações que Guilherme de Nogaret havia feito contra a Irmandade e o aconselhara a procurar o papa Clemente V para pedir a abertura de um inquérito, antes que o próprio Pontífice Supremo tomasse a decisão de fazê-lo, a pedido do rei Filipe. 

Valois não acreditava, segundo ele mesmo dissera ao Grão-Mestre do Templo, nas torpes imputações que estavam sendo feitas aos Templários. 

– Tenho certeza de que são calúnias e difamações, feitas por pessoas que odeiam os Templários e desejam destruí-los – disse ele a de Molay. – Mas, de qualquer modo, eu vos aconselho a tomar muito cuidado, especialmente com Messires Nogaret e Marigny. Eles estão tramando alguma coisa contra o Templo.

─ Agradeço o vosso conselho ─ respondeu o Grão-Mestre. ─ Eu já conversei com o Santo Padre a respeito e estou a par dessas insídias. 

─ Assim mesmo, ficai de olho aberto, pois algo está para acontecer ─ aconselhou Valois.

─ Se estais a par de alguma ação contra nós, agradeceria se pudesse nos informar ─ pediu de Molay. 

─ Não sei bem o que seja ─ respondeu Valóis. ─ Mas, a cerca de um mês atrás o rei despachou ordens cifradas para todas as senescalias do reino. Só ele, Nogaret e Marigny sabem o conteúdo dessas ordens.

Destarte, Jacques de Molay tinha muitos motivos para se preocupar naquele dia, quinta-feira, 12 de outubro de 1307, quando caminhava junto ao esquife de Catarina de Courtenay, segurando um dos cordões da mortalha da esposa de Carlos de Valois, cunhada do rei Filipe, o Belo. 

Não saia da sua cabeça os acontecimentos dos últimos meses. Sentia que alguma coisa estava no ar. Primeiro, a maneira evasiva com que o papa andava respondendo ás suas cartas. 

Depois havia aquele comportamento frio e distante que Filipe o Belo, havia adotado com ele nos últimos tempos. Afinal, ele era o padrinho da filha do rei. Tinha mantido, até então, uma amistosa relação de amizade com ele e uma proveitosa aliança política, militar e econômica, que aproveitava mais ao rei do que a própria Ordem do Templo. Não era segredo para ninguém que o Templo era o principal credor do estado francês e do monarca, pessoalmente. O próprio tesouro pessoal de Filipe estava, nesse momento, sob a guarda do tesoureiro do Templo de Paris, empenhado por conta de dívidas que ele contraíra com a Irmandade. 

Essa era outra questão que preocupava o atormentado Grão-Mestre. A Ordem do Templo, da qual ele era o comandante supremo, se tornara uma organização multinacional, apátrida e independente, que tinha interesses em todos os reinos europeus. Sua política era manter-se acima dos conflitos dinásticos, evitando se envolver diretamente neles. Isso lhe proporcionara, até então, gordos dividendos, pois tendo se tornado o principal banqueiro dos reinos europeus, ela aumentara de tal maneira sua fortuna e a influência política, que a muitos soberanos e também a vários setores da própria Igreja, causava uma ácida inveja. 

Geralmente era ao Templo que os nobres, os soberanos, o clero e o próprio papa recorriam para afiançar os acordos e as tréguas resultantes dos conchavos que se faziam nos bastidores políticos da época. Lugar comum era o Templo figurar como fiador e avalista de resgates e pagamentos das indenizações firmadas nessas ocasiões. Também concedia vultosos empréstimos a nobres, reis, bispos e até aos papas, para financiar projetos de construção civil, saneamento básico, aquedutos, igrejas e outras obras de interesse das autoridades seculares e eclesiásticas. E principalmente para custear as intermináveis campanhas militares, nas quais a nobreza feudal estava sempre envolvida. 

Assim, como maior banqueiro da Europa cristã, a Ordem praticava uma política de neutralidade, evitando se envolver diretamente nos conflitos dinásticos, embora isso nem sempre fosse possível. Seu objetivo visível era e devia continuar sendo a manutenção da luta contra os inimigos da fé cristã, ou seja, no caso, os sarracenos. Em função desse objetivo ela acumulara a imensa fortuna que possuía, constituída principalmente pelas rendas das terras e bens doados por nobres que haviam ingressado nos quadros da Irmandade no passado. 

Uma milícia de monges guerreiros, cuja função era defender o reino de Cristo na terra, eis a razão de existir da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo do Rei Salomão. Para isso fora fundada e dotada pela nobreza de toda a cristandade e referendada pela Igreja. Não obstante, nos últimos cem anos, desde que os reinos cristãos na Terra Santa haviam sido destruídos pelos mamelucos comandados pelo Sultão Saladino, ela se notabilizara por uma atuação mais política e econômica do que militar e religiosa. Militarmente, não participava de nenhuma campanha importante desde 1302, quando o próprio Jacques de Molay tentara, com o apoio inclusive de Filipe, o Belo, costurar uma aliança com os mongóis para recuperar Jerusalém. E quanto á religião, muita coisa, na sua liturgia e nas próprias crenças professadas internamente, havia mudado desde a sua fundação.

Com sua sede militar na ilha de Chipre e a administrativa em Paris, o Templo havia se tornado uma organização multinacional, que em reinos como Portugal, Aragão e Castela, por exemplo, fazia o papel de exército regular e em países como a Inglaterra e França desempenhavam funções estatais de grande relevância. Eles controlavam uma boa parte do aparelho burocrático desses reinos. Arquivos notariais, registros públicos, policiamento de estradas, arrecadação de impostos, comércio exterior e atividade bancária, eram algumas das atividades que os reis dessas nações delegavam ao Templo. Afora isso, os Templários possuíam seus portos particulares, administravam feiras e mercados de sua propriedade, mantinham seus próprios tribunais e possuóa, também, vilas inteiras, com suas aldeias e fazendas. Destarte, o Templo tinha interesses em todos os reinos da Europa e necessitava, por força dessa estrutura multinacional, manter boas relações com os poderes reinantes nesses países. Na estrutura feudal dos reinos europeus, o Templo, juntamente com a Igreja, era um dos maiores suzeranos, e essa relação de suzerania e vassalagem que as duas estruturas mantinham com o poder secular, não raro, era causa de sérios conflitos políticos. Dessa forma, para qualquer monarca que estivesse tentando fazer do seu reino um estado nacional, centrado na autoridade de um soberano, a primeira coisa a fazer seria enfraquecer a autoridade da Igreja; e em segundo, liquidar com a instituição do feudalismo. E por fim, destruir as Ordens militares ─ em especial a Ordem do Templo ─ enquanto organização secular, pois esta, além de representar um braço armado da Igreja ─ e muito bem armado ─ era também a lídima representante da mais importante tradição feudal: a Cavalaria.

A primeira, Filipe já havia conseguido com a eleição do papa Clemente V. A segunda, representada pela sujeição dos barões e a liquidação dos poderes da nobreza feudal era um processo que já estava praticamente concluído. A terceira etapa começava agora, com o assalto á fortaleza do Templo. Aquela sexta-feira, dia 13 de outubro de 1307, ficaria conhecida no imaginário popular como sendo um dia aziago, um dia em que as potências ocultas foram liberadas para desencadear um processo que o mundo nunca mais esqueceria.

domingo, 8 de outubro de 2017


DIÁLOGO ENTRE SIMÃO E FELIPE.


Breves comentários: Pedreiro de Cantaria.

Este diálogo foi editado por D. Knoop, GP Jones e D. Hamer, Early Catecismos maçônicos, Manchester University, 1963 e também por Philippe Langlet (recop.), Les textes fondateurs de la franc-masonnerie, Paris, 2006, pp. 561-583, com comentários. Traduzido para espanhol por JM del Río, "Vários documentos maçônicos", em Symbols, Zaragoza, 1997, pp 247-249.

Nele foi encontrado a inscrição quase ilegível: “Sr. John Page...nº 5...Bristol” e foi recebido posteriormente pelo falecido Ir.´. (Lister) Salisbury do ir.´. Cramphorn, depois de ter entregue este livro à imprensa.

Abro aqui um parêntese para observar que não existe futuro sem passado e que a maçonaria é mais antiga do que muitos pensam, divergindo tão-somente na forma.

Isso quer dizer que a maçonaria especulativa está assentada em um colchão de tradições antigas.

Se voltarmos às mais priscas eras iremos encontrar vestígios da maçonaria, tanto no que diz respeito a um sistema organizado de beneficência, quanto da proteção social e do trabalho. 

No Livro o 12º Planeta de Secharia Sitchin nos traz informações interessantes e dentre elas há o seguinte relato: “.....o profeta Ezequiel foram mostrados planos muito detalhados para o segundo templo "numa visão divina" por "uma pessoa que tinha aparência de bronze e que segurava na mão uma fita de linho e uma vara de medições". Ur-Nammu, governador de Ur, descrevia num milênio anterior como seu deus lhe ordenara que construísse para ele um templo e lhe dera instruções apropriadas, estendendo-lhe a vara de medições e a fita de linho enrolada para a execução da tarefa.


Mil e duzentos anos antes de Moisés, Gudea afIrmou o mesmo. As instruções, registrou ele numa inscrição muito longa, foram-lhe dadas numa visão. "Um homem que brilhava como os céus", ao lado de quem repousava. "um pássaro divino", "ordenou-me que construísse o seu templo". Este "homem" que tinha "uma coroa em sua cabeça" era, obviamente, um deus que foi mais tarde identifIcado como sendo o deus Ningirsu.

Há, em uma passagem bíblica algo muito parecido com o relato acima em Isaias 28 – 16, 17:

16. Portanto assim diz o Senhor Deus. Eis que ponho em sião como alicerce uma pedra, uma pedra provada, pedra preciosa de esquina, de firme fundamento, aquele que crer não se apressará;

17. E farei o juízo da linha de medir, e a justiça o prumo; e a saraiva varrerá o refúgio da mentira, e as águas inundarão o esconderijo.

Mas o que há tão comum? A linha de medir, o prumo, etc.

Mas, isso é assunto para um estudo muito aprofundado, embora existam aqueles que negam a história e o vínculo citado. Vamos ao Diálogo a seguir: 

Diálogo entre Simão, maçom da cidade e Felipe, maçom que estava de passagem:

Simão: senhor, acabo de receber uma carta neste pedaço de papel. Peço-lhe que me diga o que deseja.
Felipe: estou de passagem e procurando uma certa associação e, tendo ouvido que você é um irmão maçom, me é permitido fazer contato congido. 
Simão: sois Maçom?
Felipe: sim, como tal sou tido por todos os companheiros e irmãos.
Simão: s como saberei que sois maçom?
Felipe: s palavra é justa.
Simão: se é justa, dá-me a justa.
Felipe: vou soletrar para você
Simão: dá-me a primeira letra e eu lhe darei a segunda.
Felipe: B
Simão: O
Felipe: A
Simão: Z
Felipe: a palavra é Boaz, mas dado que não vos conheço, e que, por razões de prudência não devemos responder a mais de três perguntas, pois poderíamos ser enganados por um impostor, eu te pergunto: quais são vossos sinais? 
Simão: nossos sinais são todos esquadros, ângulos e perpendiculares
Felipe: quais são vossos toques?
Simão: todos são fraternais apertos de mão e graças aos quais os irmãos se reconhecem entre si.
Felipe: quais são os pontos de vossa recepção?
Simão: ouvir e guardar os segredos de um maçom?
Felipe: como foste recebido maçom?
Simão: por três golpes dados na porta, o último depois de um duplo, dado com um intervalo e com mais força.
Felipe: qual é a primeira pergunta que o mestre faz quando de sua recepção?
Simão: me perguntou se era por minha própria e livre vontade que eu me apresentava para ser maçom. Respondi que sim.
Felipe: que vistes antes de ser feito maçom?
Simão: nada que pudesse compreender.
Felipe: que vistes depois?
Simão: três grandes luzes?
Felipe: como as chamais?
Simão: o sol, a lua e o mestre.
Felipe: onde estava vosso mestre?
Simão: no Oriente
Felipe: por quê no Oriente?
Simão: para esperar o amanhecer, a fim de enviar os homens ao trabalho.
Felipe: onde estavam os vigilantes?
Felipe: por quê no Ocidente?
Simão: para esperar que o sol se oculte a fim de que os homens deixem o trabalho.
Felipe: onde estavam os companheiros de ofício?
Simão: ao Sul
Felipe: por quê ao Sul?
Simão: para receber e instruir a todos os novos irmãos.
Felipe: onde estavam os aprendizes recebidos?
Simão: ao norte, para ouvir e calar e esperar o Mestre.
Felipe: disseste que vistes três grandes luzes: não vistes outra luz?
Simão: sim, uma, que superava em muito ao sol e a lua.
Felipe: o que era?
Simão: a luz do evangelho.
Felipe: porque foste feito maçom?
Simão: pelo amor da letra G
Felipe: o que significa?
Simão: geometria
Felipe: por que Geometria?
Simão: porque ela é a raiz e o fundamento de todas as artes e ciências.
Felipe: diga-me, eu lhe rogo, quanto dinheiro você tinha na sua bolsa, quando foste feito maçom?
Simão: absolutamente nenhum.
Felipe: e como foste feito maçom?
Simão: nem nu, nem vestido, nem 
Simão: nem nu nem vestido, nem de pé ou deitado ou ajoelhado, nem calçado e nem descalço, mas em bom estado.
Felipe: e como era esse estado?
Simão: tinha um joelho descoberto na terra, um compasso aberto em forma de esquadro sobre meu peito. E então, nesta postura, eu prestei o solene e sagrado juramento de maçom.
Simão: eu prometo solenemente, e declaro diante de Deus e diante desta assembléia respeitável, que guardarei o silêncio e nunca revelarei o que ouvi, ou seja, os segredos ou segredos dos Maçons ou da maçonaria que me tenham sido confiados, seja para um homem, mulher ou criança; Não os imprimirei, nem os colarei ou gravarei de qualquer forma que permita descobrir os segredos de um Maçom ou da Maçonaria. Isso, sob pena de ter meu coração arrancado, a língua e a garganta cortadas, meu corpo amarrado, puxado e destruído por cavalos selvagens e enterrado nas areias da praia, onde a maré subiu todas as 24 horas; ou sob pena de meu corpo ser reduzido a cinzas e dsperto para os quatro ventos, de modo que a menor lembrança de mim subsistirá. Que Deus venham em meu auxílio. Logo após, o primeiro Vigilante me colocou um avental branco dizendo-me estas palavras: “eu vos ponho a marca distintiva dos maçons, que é mais antiga e mais honorável que a Ordem dos Cavaleiros da Jarreteira.
Felipe: estou contente de constatar que sois maçom, depois do que me haveis repetido de vosso juramento. Se queres, podeis perguntar-me o que pensais oportuno.
Simão: gostaria de perguntar-te onde está vossa Loja.
Felipe: no vale de Josapha, fora do alcance das fofocas das galinhas, do canto do galo e do ladrar de um cão.
Simão: qual é a altura de vossa Loja?
Felipe: é tão alta como o céu, e tão profunda como a terra.
Simão: quantos pilares tem vossa Loja?
Felipe: três.
Simão: como os chamais?
Felipe: sabedoria, Força e Beleza.
Simão: o que representam?
Felipe: a sabedoria cria, a força sustenta e a beleza adorna.
Simão: de que Loja sois?
Felipe: da muito respeitável loja de São João.
Simão: quantos sinais possuem um maçom?
Felipe: cinco.
Simão: como os chamais?
Felipe: o sinal pedestre, o sinal manual, o sinal
Felipe: cinco.
Simão: como o chamais:
Felipe: o sinal pedestre, manual, peitoral, gutural e oral.


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