terça-feira, 28 de novembro de 2017


O CONTRIBUTO DA MAÇONARIA PARA A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
PARTE I

por  Luiz Marcelo Viegas

INTRODUÇÃO

O tema em questão é de relevante importância histórica e política, principalmente por estar inserido entre os marcos de nossa História. Sabendo-se que esse tema é muito comentado, porém com poucos trabalhos publicados, continua sendo atraente para a busca de uma exploração maior.

Ao longo dos tempos muito se tem lido sobre a Maçonaria como uma instituição de marcante participação e influência na política.

Na história da política brasileira lê-se bastante que a mesma teve relevante participação, principalmente na Independência do Brasil e na Abolição da Escravidão.

O tema desse trabalho é sobre a participação da maçonaria, especificamente sua atuação para a Abolição, com destaque para o período entre 1815 a 1900, sua participação no processo de abolição da escravidão no Brasil.

Esse trabalho foi fruto de uma investigação, que procurou entender como era constituída a maçonaria no séc. XIX, qual a sua força política e social e como influenciou politicamente a Abolição no Brasil.

Será que a maçonaria tinha realmente força política para decidir no voto a abolição? E dentro da maçonaria havia uma coesão quando o assunto era abolição? Havia uma posição oficial da maçonaria quanto a esse assunto? Quais eram as formas de atuação da maçonaria para abolir a escravidão? Qual era o pensamento da maçonaria nesse século que fazia concordar com os ideais de abolição? A maçonaria só lutou pela abolição no Brasil ou em outros países também? Quais os principais nomes de maçons que tiveram participação no abolicionismo nesse período? E depois da abolição, será que os afrodescendentes foram largados à própria sorte? E como atuou a maçonaria imediatamente após a abolição?

Atualmente, a maçonaria começa a revelar um pouco da sua história, porém o que se encontra com facilidade nos sites, documentos e toda literatura produzida por maçons são registros enaltecedores, cabe-nos criticá-los. Existe um movimento de “abertura” das lojas para visitação pública, existem as reuniões secretas e as abertas, muitos livros estão sendo publicados, revistas especializadas em maçonaria revelam segredos da iniciação, de sua atuação no mundo e da vida dos seus membros. Mesmo assim muitas questões ainda precisam ser respondidas sobre a atuação da maçonaria na Abolição, e suas ações específicas nessa causa, bem como a urgência de se explorar o assunto por sua importância e falta de trabalhos publicados sobre esse tema. Portanto, tornar-se-á interessante explorar essa participação, o quanto mais possível, pois o próprio autor teve e sempre terá a ânsia e o desejo da verdade, embora sabendo que dificilmente os encontrará na sua plenitude.

É mister revelar se a maçonaria teve influência, através de seus seguidores, na formação de opinião para a construção do pensamento político; na manutenção de entidades filantrópicas para a libertação e emancipação do negro; na organização de quermesses e outros eventos para angariar recursos para compras de alforrias; no debate e na iniciativa de construção de uma educação emancipadora de caráter universal para o filho do pobre e do negro; na direção de jornais abolicionistas; no exército na figura do marechal Deodoro e de Floriano Peixoto, entre outros, que se recusaram a perseguir negros fugidos, e na ação individual de maçons como José do Patrocínio, Ruy Barbosa, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, José Maria da Silva Paranhos (tanto pai quanto filho, Visconde e Barão do Rio Branco, respectivamente), João Cordeiro e Francisco José do Nascimento (mais conhecido como Dragão da Abolição).

A maçonaria parece ter tido membros em diversas esferas, e na política não foi diferente. Exemplo disso é que o gabinete do Imperador D. Pedro I, era composto principalmente por pessoas que pertenciam aos quadros da instituição, com destaque especial para José Bonifácio de Andrade e Silva; e todas as leis libertadoras de escravos tiveram como seus autores maçons, como as leis Eusébio de Queirós, do Ventre Livre e dos Sexagenários.

Como instituição, a Maçonaria foi uma força, se comparada à Igreja Católica muito mais antiga e poderosa, que logo cedo se posicionou contra a escravidão. A Igreja Católica, só manifestou-se abertamente contra a escravidão em 1887, às vésperas da Abolição. Porque tantos expoentes da abolição como os citados acima saíram dos quadros da Maçonaria e tão poucos dos quadros da Igreja? E por que, dentre estes poucos que encontramos nos quadros da Igreja, coincidentemente os mesmos se encontram também nos quadros da Maçonaria, como Diogo Antonio Feijó?
Formação da Maçonaria no Brasil e sua atuação no processo de abolição e emancipação

A moderna maçonaria, como conhecemos hoje, teve origem na Inglaterra em 24 de junho de 1717. Em 1723, o reverendo presbiteriano James Anderson publicou as Constituições da Maçonaria. Este momento é importante e histórico para a Maçonaria, pois aqui se inicia a Maçonaria Simbólica ou Moderna e encerra-se o longo período considerado como Maçonaria Operativa, em que a Ordem Maçônica estava diretamente ligada à arte da construção, reunindo-se em guildas de pedreiros, responsáveis pela edificação de templos e prédios. É alicerçada nestas Constituições de Anderson que a Maçonaria Simbólica ou Moderna permanece, de forma quase intacta, até hoje.

Todavia, grande parte concorda que as feições da maçonaria moderna remontam a 1717, marco da formação da Grande Loja de Londres que converteu a Ordem em uma espécie de escola de formação humana de caráter cosmopolita e secreto, reunindo homens de diferentes raças, religiões e línguas com objetivo de alcançar a perfeição por meio do simbolismo de natureza mística e/ou racional, da filantropia e da educação (Benimeli, 1984, p. 464). Nesse período, a maçonaria abandonou sua origem ligada às velhas confrarias de pedreiros da época medieval, permitindo a admissão de novos elementos, sem a obrigatoriedade de serem ligados às corporações de ofício ou às sociedades de construtores: eram os “maçons aceitos”. [1]

No Brasil, a primeira loja que se tem notícia surgiu na Bahia, em 17 de julho de 1797, na fragata francesa La Preneuse, cujo nome foi dado de “Cavaleiro da Luz” e foi fundada pelo comandante Larcher, José Borges de Barros e o Tenente Hermógenes Aguiar Pantoja. Antes dessa data, aqui existia apenas agrupamentos com características maçônicas, como gabinetes de leitura e associações, funcionando como clubes ou academias.

A introdução da “Ordem” no Brasil resultou das transformações ocorridas em Portugal a partir das reformas pombalinas. A sociabilidade maçônica foi trazida na bagagem dos jovens brasileiros que iam estudar na Universidade de Coimbra (aliás, reformada por Pombal em fins do século XVIII). Muitos desses estudantes brasileiros prosseguiam seus estudos em universidades inglesas e francesas, nas quais aprofundavam seus vínculos com os círculos maçônicos. A Faculdade de Medicina de Montpellier, muito procurada pelos estudantes brasileiros na época, constituía-se num dos núcleos de pedreiros livres[2] no sul da França.

A primeira Loja Maçônica regular do Brasil, a que se denominou “Reunião”, foi fundada em 1801, no Rio de Janeiro, tinha fins puramente político-sociais e era filiada ao Oriente da França. Dois anos mais tarde, o Grande Oriente Lusitano, ou seja, de Portugal, desejando propagar no Brasil a verdadeira doutrina maçônica, nomeou três delegados com poderes para criar mais lojas no Rio de Janeiro, surgiram então as lojas “Constância” e “Filantropia”.

Muitos aceitam que a primeira loja maçônica foi fundada no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1815, ficou conhecida como Loja Maçônica Comércio e Artes[3], a Primaz do Brasil. Criada em 1815, inativa após o alvará governamental de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas, e reerguida em 1821; foi dividida em três Lojas, daí resultando, além dela mesma, a União e Tranqüilidade e a Esperança de Niterói.

A maçonaria brasileira desde o seu início, apesar de ter se tornado um espaço de sociabilidade por excelência, durante todo o período de lutas pela independência política do Brasil e abolição da escravidão, não conseguiu manter uma coesão. Ela vivenciou dissidências, rachas e grupos rivalizando-se dentro das próprias lojas. Logo, percebe-se que, ao estudar a contribuição da maçonaria para a Abolição, ela, durante esse processo, terá uma participação importante, mas não unânime.

Nos momentos decisivos do processo de nossa emancipação política, as divergências manifestaram-se dentro da maçonaria. Criou-se uma oposição entre “republicanos” (ou “democratas”), capitaneados por Gonçalves Ledo, e os simpatizantes da monarquia centralizada, liderados por José Bonifácio. Com o término do Primeiro Reinado, dois “Grandes Orientes” são organizados: o Grande Oriente do Brasil, sob o comando de Bonifácio, e o Grande Oriente Nacional Brasileiro da Rua do Passeio, 171, constituído pelos inimigos políticos dos Andradas.

Nos primeiros dias após a proclamação da independência, de 7 de setembro de 1822, iam adiantadas as escaramuças entre os dois grupos, dentro do Grande Oriente, os quais culminariam com o golpe aplicado por Ledo, ao conseguir destituir Bonifácio do Grão-Mestrado, à socapa e fora de assembleia geral, empossando D. Pedro no cargo, a 4 de outubro de 1822. O troco seria no terreno político, com Bonifácio mostrando ao imperador que a luta da independência exigia um período de calmaria política interna, que estava sendo quebrada pelo grupo adversário, com exigências descabidas a D. Pedro e uma rede de intrigas, que poderiam minar a luta externa. As exigências descabidas eram: o juramento prévio de D. Pedro à Constituição ainda não votada e aprovada e a assinatura de três papéis em branco. Diante disso, enquanto José Bonifácio instaurava processo contra os membros do grupo de Ledo, D. Pedro enviava a este a ordem para fechar o Grande Oriente, o que aconteceria a 25 de outubro de 1822.
(…)
Durante praticamente todo o período restante do Primeiro Império, as Lojas brasileiras permaneceram em recesso, só começando a ressurgir quando o cenário nacional caminhava para uma grave crise política, que iria levar, a 7 de abril de 1831, à abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro II, então com pouco mais de cinco anos de idade, ao qual, alguns dias depois, ele escreveria uma carta, como se adulto fosse o herdeiro, plena de dramaticidade. Em 1830, então, ressurgia a Maçonaria brasileira, com a criação do Grande Oriente Nacional Brasileiro, o qual ficou, também, conhecido como Grande Oriente da rua de Santo Antônio e, posteriormente, Grande Oriente do Passeio, em alusão aos locais em que se instalou, no Rio de Janeiro. [4]

Nas décadas finais do Segundo Reinado, o Grande Oriente do Brasil (GOB) voltou a dividir-se: havia o Grande Oriente do Vale do Lavradio, aglutinando os maçons defensores da monarquia e influenciados pela maçonaria inglesa; e o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, que reuniu os maçons republicanos e que estava alinhado à maçonaria francesa. Depois disso, após a Proclamação da República, veio a “federalização” da maçonaria brasileira, com o surgimento dos “Grandes Orientes” estaduais, principalmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul (1893) e também em Minas Gerais (1894). Somente entre 1883 e 1927, a maçonaria brasileira esteve unida pelo do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil.

Na metade do XIX havia os maçons que acreditavam que a abolição deveria acontecer imediatamente, outros que a abolição causaria a falência do Brasil, e esse não era um receio apenas de integrantes da maçonaria, como escreve Emília Viotti da Costa:

Em defesa da escravidão, continuava-se a repetir velhos argumentos, usados desde o Período Colonial. Dizia-se que a escravidão era benéfica para o negro, pois que o retirava da barbárie em que vivia para introduzi-lo no mundo cristão e civilizado. Afirmava-se que o negro não era capaz de sobreviver em liberdade. Alguns, embora reconhecessem que a escravidão fosse condenável em termos morais, argumentavam que ela era um mal necessário, pois a economia nacional não poderia funcionar sem o escravo. A abolição da escravatura, diziam eles, seria a ruína do país. Essa foi a opinião que acabou por predominar entre as elites. [5]

Havia os que simplesmente eram contra a libertação dos escravos. Um caso notório como esse se deu dentro da Loja América de São Paulo, como contou mais tarde, em discurso no dia 17 de dezembro de 1909, na faculdade de direito de São Paulo, o próprio Ruy Barbosa o acontecido na referida loja por ocasião da proposta de lei maçônica de libertação do ventre das escravas:

Da pragmática tradicional éramos tão pouco escrupulosos que, contra as regras constitucionais da Ordem, senão lembraram de me conferir o grau de mestre para me elevarem a orador da Loja. Desse posto me bati contra o seu ilustre venerável, o Dr. Antônio Carlos, meu lente então de Direito Comercial, em defesa de um projeto meu, que obrigava todos os membros daquela casa a libertarem o ventre das suas escravas, e punha como condição prévia de admissão esse compromisso aos futuros iniciados. A minha proposta vingou, renunciando o douto professor a dignidade, que entre nós exercia. De modo que aquele grupo de estudantes liberais, acidentalmente congregados sob o rito maçônico, toca a honra da precedência na ideia, que, dois anos depois, o ato de 28 de Setembro veio a converter em Lei do país. [6]

O dr. Antonio Carlos era o Venerável da Loja e professor de Ruy Barbosa, havia renunciado à dignidade por não concordar com a proposta de libertação do ventre. Da mesma Loja América, faziam parte também Castro Alves e Joaquim Nabuco.

Existe uma correlação entre o vanguardismo político e a maçonaria no Brasil, basta ver que os primeiros pensamentos revoltosos contra a metrópole surgiram da permanência de estudantes brasileiros na França.
Um fato histórico que reforça a importância da maçonaria no Brasil no início do século XIX é a inusitada resposta do então Príncipe Regente D. João ao receber uma lista dos maçons que deveriam ser presos, dizendo, diante do tamanho da lista, que “foram estes que me salvaram”.
Outro exemplo da importância da maçonaria no Brasil é observada quando da partida da família real para Portugal, deixando no Brasil um príncipe regente cercado de maçons, que constituíam à época a elite econômica e pensante do país. O príncipe fora aprovado em assembleia maçônica, sendo iniciado em agosto de 1822 e recebido o nome simbólico de Guatimozin e em poucos dias fora aprovado para o grau de Mestre Maçom da loja “Comércio e Artes”. [7]

Se por um lado os maçons eram próximos e estimados pelo imperador, por outro, a grande parte que se considerava liberal, não tinha maioria política representada na Câmara e não representava o poder econômico do império, portanto, não tinha força para impor uma abolição antes da segunda metade do XIX. O que, se tivesse acontecido antes desse período, teria se configurado numa revolução.

Na Europa do séc. XVIII, a burguesia criara conceitos novos, que vieram pouco a pouco destruir a visão de mundo que justificava a ordem tradicional, conceitos que levaram à Revolução Francesa. Lá sim, uma revolução havia acontecido, onde, hoje, autores apontam afinidades entre a Revolução Francesa e a maçonaria (porque entre outras coisas aquela teria sido inspirada nos mesmos princípios universais: Liberdade, Igualdade e Fraternidade), fato é que ainda se discute a real participação da maçonaria na Revolução:

Para uns, a maçonaria foi a reboque da revolução aproveitando-se despudoradamente da sua influência para recolher dividendos políticos e sociais a fim de melhor abrir o caminho para a conquista do poder. Para outros a maçonaria teria sido a Alma Mater da revolução toda ela impregnada do espírito maçônico.
Possivelmente nem uns nem outros terão a razão do seu lado. Talvez ela esteja numa situação intermédia, porque se a revolução não foi um plano estritamente maçônico não há dúvida que ela teve como figuras de proa pessoas reconhecias e assumidamente maçons, tais como: D’Alembert, Diderot, Helvécio, D’Holbach, Voltaire, Condorcet, etc. [8]

Da burguesia francesa revolucionária, assim como dos militares e nobres revolucionários, boa parte integravam a maçonaria, e o ideal que os uniam à Revolução era o Liberalismo, pois esse afinal, era o pensamento de vanguarda. Contudo, na França revolucionária, é nos ideais liberais do pensamento de Rousseau, e de outros, que encontramos as origens teóricas do abolicionismo:

No pensamento revolucionário do século XVIII encontram-se as origens teóricas do abolicionismo. Até então, a escravidão fora vista como fruto dos desígnios divinos; agora ela passaria a ser vista como criação da vontade dos homens, portanto transitória e revogável. Enquanto no passado considerara-se a escravidão um corretivo para os vícios e a ignorância dos negros, via-se agora, na escravidão, sua causa. Invertiam-se, assim os termos da equação. Passou-se a criticar a escravidão em nome da moral, da religião e da racionalidade econômica. Descobriu-se que o cristianismo era incompatível com a escravidão; o trabalho escravo, menos produtivo do que o livre; e a escravidão uma instituição corruptora da moral e dos costumes.
Enquanto na Europa a revolução burguesa produzia seus frutos, no Brasil, os colonos que se sentiam cada vez mais reprimidos pela política metropolitana acolhiam com entusiasmo as novas ideias revolucionárias. No bojo dessas ideias havia, entretanto, algumas contradições fundamentais. Como conciliar o direito de propriedade que os senhores tinham sobre seus escravos com os direitos que os escravos tinham (como homens) à sua própria liberdade? Como conciliar a sujeição do escravo com a igualdade jurídica, que, segundo a nova filosofia, era um direito inalienável do homem?
(…)
Na época da Independência, os escravos viram suas aspirações à liberdade frustradas. Se bem que a Carta Constitucional de 1824 incluísse um artigo transcrevendo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (cópia idêntica à original francesa de 1789), na qual se afirmava que a liberdade era um direito inalienável do homem, manteve-se escravizada quase a metade da população brasileira. A Constituição ignorou os escravos. Sequer reconheceria sua existência. A eles não se aplicavam as garantias constitucionais.
Não obstante esse flagrante desrespeito à humanidade do escravo, a consagração dos princípios liberais pela Constituição foi o primeiro passo em direção à criação de uma consciência crítica em relação ao sistema escravista. A questão que se apresentaria a partir daí era como justificar a escravidão em uma sociedade em que se aceitavam os novos princípios liberais. Como negar aos escravos os direitos humanos que, em princípio, aplicavam-se a todos?
Na época da Independência e muitos anos depois, a maioria da classe dominante no Brasil continuava a depender inteiramente do trabalho escravo. Por isso, fariam ouvidos surdos aos argumentos de uns poucos indivíduos que, identificados com as novas ideias ilustradas então em voga na Europa, denunciavam a contradição entre liberalismo e escravidão e condenavam a escravidão em termos morais, religiosos e econômicos. [9]

E isso foi feito, aos argumentos liberais de maçons, fizeram-se ouvidos surdos. Mas isso era sabido pelos maçons, a abolição viria por um processo, cada coisa a seu tempo. A luta dos liberais maçons no Brasil seria direcionada para a conscientização da população com jornais; para a criação de escolas públicas de formação liberal e laica, ou ajudando a pensar uma escola ideal, laica e pública para o Brasil, como assim foram os pareceres do ilustre maçom Ruy Barbosa[10]; seria pela filantropia; pela compra de alforrias; participação em fugas; projetos de leis; processos judiciais, etc. A maçonaria perseguiria os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, preparando a elite pensante para um novo tempo, inspirados pela Revolução Francesa. Nesse ponto, como organização, a maçonaria coordenou singularmente, o maior movimento abolicionista do Brasil.

A partir da Revolução Francesa, o Grande Oriente de França, constituído em 1773, ganha prestígio e emana as suas filosofias liberais, deístas, progressistas e enciclopedistas para as obediências em formação na Europa e na América. Vai disputar sua influência com as grandes lojas de Londres.

A influência da Grande Loja da França fez-se sentir na ainda frágil maçonaria portuguesa, e dessa para a brasileira. A filosofia francesa iria inspirar os maçons portugueses e brasileiros, agora que começariam a ser recrutados no seio da classe política e arrastando assim os ideais liberais que iriam marcar fortemente a política no Brasil no fim do século XIX.

A maçonaria brasileira participou do processo abolicionista como nenhuma de outro país participou, isso porque a abolição no Brasil foi tardia. Aqui, o florescimento da maçonaria, e seus ideais liberais na sociedade, chocou-se com a vigência da escravatura.

A maçonaria francesa, após a Revolução e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, viu abolida a escravidão em 4 de Fevereiro de 1794 na Convenção Nacional; o primeiro ministro reformista Marquês de Pombal, maçom inciado em Londres, aboliu a escravidão em Portugal e nas colônias da Índia a 12 de Fevereiro de 1761; mediante a Declaração de Emancipação (promulgada pelo presidente Abraham Lincoln – que chegou a visitar Lojas Maçônicas querendo ser um iniciado, mas a campanha presidencial o levou para outro destino -, na que foi declarada a liberdade de todos os escravos em 1863 e entrou em efeito pela primeira vez no final da Guerra Civil em 1865) os abolicionistas americanos obtiveram a libertação dos escravos nos estados em que continuava havendo escravidão, a despeito disso muitas Lojas norte-americanas, como a Grande Loja de Nova York, eram racistas e não aceitavam negros; A 23 de Agosto de 1833 foi aprovada o Slavery Abolition Act (Ato de Abolição da Escravidão) pelo qual desde 1 de Agosto de 1834 ficavam livres todos os escravos das colônias britânicas; a maçonaria brasileira foi a única a ter um posição oficial em relação à escravatura, formalizada por meio de uma lei interna.

Um projeto de Lei, apresentado pela Loja “América”, ao Grande Oriente Brasileiro em 4 de abril de 1870, ao Vale dos Beneditinos e subscrito por Ruy Barbosa, comprova a posição da mocidade maçônica, contrária à escravatura. É interessante por comprovar documentalmente o pensamento da maçonaria logo após a fundação da Loja “América” – o da necessidade da emancipação e não de uma simples “alforria generalizada”:

A Loja “América” apresenta à sábia consideração do Gr.’. Or.’. do Vale dos Beneditinos o seguinte projeto, requerendo sua conversão em lei geral e obrigatória para toda a Maçonaria estabelecida no país.
Art. 1º: Sendo verdade inconcussa que a emancipação do elemento servil e a educação popular são hoje duas grandes ideias que agitam o espírito público e de que depende essencialmente o futuro da nação, a Maçonaria brasileira declara-se solenemente a manter e propagar esses dois princípios, não só pelos recursos intelectuais da imprensa, da tribuna e do ensino, como também por todos os meios materiais atinentes a apressar a realização dessas ideias entre nós. (…)

A Abolição não foi mérito de um único grupo ou setor da sociedade, muitos fatores concorreram para que a escravidão se tornasse uma instituição abolida: a mecanização das fazendas, a substituição da mão-de-obra pela dos imigrantes, a pressão internacional, as ferrovias, a própria resistência dos escravos, o advento do liberalismo, os jornais, os abolicionistas, e as diversas instituições que lutavam pela abolição – dentre elas, a maior foi a Maçonaria.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[1] – BENIMELI apud BARATA, A. M. Freemasonry and Brazilian enlightenment. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, p. 78-79, jul./out. 1994.

[2] – Sua origem é localizada nas corporações de ofício dos pedreiros da Idade Média, no final do século XIV. Naquela época, não havia escolas capazes de ensinar as técnicas da construção em pedra, utilizadas principalmente em catedrais. Somente nas corporações, também chamadas guildas, aprendizes e mestres dividiam a ciência do talhe e se reuniam após o expediente para discutir o andamento das obras e defender sua profissão, como em um sindicato. Levavam às reuniões os instrumentos de trabalho, utilizados na composição dos projetos arquitetônicos – como o esquadro e compasso, que se tornaram símbolos da Ordem -, ou na atividade braçal – avental, malho e cinzel. Assim surgia a “maçonaria operativa”, preocupada com coisas práticas e restritas ao ofício

[3] – Site da Loja Comércio e Artes. Disponível em: . Acesso em: 10 dezembro 2009.

[4] – CASTELLANI, José. A maçonaria na década da Abolição e da República. Londrina: Editora A Trolha, 2001.

[5] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[6] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[7] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[8] – Respeitável Loja Ocidente de Portugal. Disponível em:. Acesso em 21 janeiro 2010.

[9] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[10] – FUNDAÇÃO CASA DE RUY BARBOSA. Obras completas de Rui Barbosa. Tomos publicados: Reforma do Ensino Secundário e Superior. Vol. 9, t. 1, 1882; Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública. Vol. 10, t. 1 e 4, 1883.

Parte II

A Elite dos bacharéis: maçonaria como espaço acadêmico

Se a maçonaria teve influência na corte e cooptava seus membros da elite do país, e sendo elite, porque a vontade da maçonaria, de libertar os escravos, não se fez prevalecer no governo para que a abolição fosse antecipada?

Para responder essa pergunta é preciso investigar o que é “elite”, quais os tipos, como ela é formada, e qual o poder de cada tipo, por fim, saber em qual tipo de elite a maçonaria se enquadrava. Partindo daí, indo mais além, como atuava essa elite maçônica, o que significava pertencer a esse tipo de sociabilidade?

Citando Adrius Estevam de Noronha que escreve:

O termo elite possui uma flexibilidade conceitual ampla, mas é utilizado majoritariamente em pesquisas para classificar setores que detém o poder político ou econômico. Além disso, o conceito nomeia estratos sociais vinculados à burocracia, ao conhecimento, à religião, sem mencionar os grupos estrategicamente organizados em sociedades secretas, como a maçonaria. [11]

Antes disso ele afirma:

De acordo com Duma[12] (2003, p. 101), os critérios tradicionais para caracterizar “elite” podem ser identificados por cinco pontos fundamentais: “o nível de fortuna, o peso da genealogia, as funções ocupadas, a questão da identidade de um grupo e a maneira pela qual ela vai se definir através de um culto da distinção e da aparência”.

Mais adiante no mesmo artigo ele faz uma tipificação do conceito de elite:

O conceito de elite apresenta, como se percebe, uma descrição bastante variável. Em todas as organizações sociais, as relações de poder fazem parte e uma complexa estrutura psicológica, cultural e social. E sempre haverá um setor que detém o mando ou coordena as ações de um determinado grupo. Portanto, em termos teóricos, é necessária uma tipificação do conceito de elite política, econômica, intelectual, sindical, agrária ou burocrática. 

Continua citando Weber[13] na sua tese em torno dos Três Tipos Puros de Dominação:

A partir da definição do “tipo ideal”, Weber caracteriza as três formas de dominação: a racional, a tradicional e a carismática. Estas três formas possuem a chamada “crença na legitimidade”, mecanismo que é incorporado ao direito e utilizado pela burocracia estatal. A dominação racional se consolida na esfera jurídica como poder incorporado pela sociedade. A dominação burocrática seria, tecnicamente, seu tipo mais puro, que pode ser modificado mediante um estatuto que sancione seu funcionamento e está centrado na disciplina do serviço. Esse processo será encontrado na estrutura moderna da empresa capitalista e no Estado Nacional, apesar de Weber afirmar que a burocracia não é o único tipo de dominação legal. 

Como a vertente dos freemasons e dos franc-maçonneries, que influenciaram a maçonaria luso-brasileira, sempre estive alinhada com o Iluminismo, vale citar, para que seja possível um melhor entendimento, o seguinte trecho do artigo de Adrius Estevam:

Já o pensamento de Hobbes acerca do Estado Moderno estabelece a ponte entre o Renascimento e o Iluminismo, representando mais um passo no processo de autonomização e laicização do Direito e do Estado. (…)
A elite política insere-se nas instituições do Estado e utiliza esse poder de força coercitiva para o exercício de sua dominação.(…) A racionalização do pensamento jurídico ganha corpo nas análises de Hobbes. Para Maltez[14], o direito no sistema de Hobbes é identificado diretamente com o poder. Vale destacar que o impacto das ideias do Renascimento produz a teoria fundamental para o Estado Moderno e estrutura a forma de dominação da elite política neste Estado. 

Como se percebe, o enquadramento da maçonaria na tipificação do conceito de elite no Brasil é complexo. Isto porque a maçonaria foi elitista sim, mas uma fraternidade heterogênea: não se apresenta formada por uma elite política, mais que isso, tem em seus quadros, médicos e poetas; não formada por uma elite econômica, tem estudantes de direitos e jornalistas abolicionistas; não por uma elite intelectual somente, porque indubitavelmente também teve um importante papel político; e também não somente agrária ou burocrática.

E sobre complexidade o mesmo artigo de Adrius Estevam segue citando Gramsci[15], que formulou suas ideias no séc. XX:

De acordo com Gramsci, na medida em que a sociedade se torna complexa, fruto da modernização econômica e social, os atores políticos buscam se estruturar politicamente, através de movimentos minuciosamente calculados e estratégicos, dentro da sociedade civil, tendo como objetivo buscar apoio fornecido pela burocracia das instituições sociais. Nesse caso, os grupos jornalísticos, as burocracias das associações empresariais e dos centros culturais passam dos bastidores para o centro do palco na arena política.

Concluindo, até aqui, por ser heterogênea, a maçonaria acabou atuando em diversos estratos da complexa organização social brasileira. Por isso, atenta às transformações do seu tempo, atuou de maneira diversificada e coordenada, no intuito de garantir sua dominação racional, ou que pelo menos seus ideais liberais assim as tivesse garantida, se consolidando na esfera “jurídico-burocrática”, visto que, como citado acima, o direito e suas nuances, estão diretamente ligados ao poder. E correspondendo à Gramsci, ampliada a atuação dos maçons entre os grupos jornalísticos, nas burocracias das associações empresariais e dos centros culturais, ela passou dos bastidores para o centro do palco na arena política, mas tudo foi a seu tempo.

E de que maneira a maçonaria tratou de garantir sua Dominação Racional? De maneira influente e proeminente na criação das duas primeiras Academias de Direito do Brasil: a de Olinda e de São Paulo, que ficava no Largo de São Francisco.

Sobre isso, José Carlos de Araújo Almeida Filho, na sua dissertação de mestrado para a Universidade Gama Filho, na área de concentração Direito, Estado e Cidadania com o título O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX, já na introdução esclarece:

Durante a pesquisa realizada em torno da origem do Ensino Jurídico e da Maçonaria, identificamos uma sociedade secreta instalada na Faculdade de Direito de São Paulo – a primaz no Brasil, juntamente com a de Olinda –, denominada Burschenschaft, ou, simplesmente, Bucha, como ficou conhecida. A Burschenschaft alemã, inspiradora da Bucha, fora uma sociedade secreta estudantil com nítidos propósitos de abalar o poder.

A sociedade em questão nasceria poucos anos depois da instalação dos Cursos Jurídicos e foi de grande importância nos destinos políticos e jurídicos do Brasil. Afonso Arinos, citado pelo Prof. Alberto Venâncio, instiga-nos ao afirmar que “seria altamente interessante a pesquisa que comprovasse as ligações entre a Burschenschaft Paulista e o acesso aos mais altos postos políticos desde o Império”. Os mais altos postos políticos se mesclam, no ecletismo característico do Séc. XIX, com o Direito em todas as suas ramificações e áreas de atuação. 

(…)

Desta forma, duas elites são construídas (ou instaladas) no Brasil, e com uma ligação entre as mesmas – a maçônica e a dos bacharéis. A elite maçônica se constituiu pela acessão ao poder. E quem detinha o poder, até, pelo menos, o início do Séc. XX, eram os estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que, em sua grande maioria, faziam parte da Bucha.[16]

Esse trabalho de José Carlos possui quatro capítulos. No primeiro, trata de conceituar o que é a Maçonaria e os primeiros passos para a construção dos cursos de direito; o segundo debate a localização dos cursos de direito, as ideias de cientificismo nos cursos e a influência maçônica e da Bucha; no terceiro a Bucha, a inexistência de partidos políticos e a República; por fim a contribuição dos símbolos maçônicos e do positivismo na formação dos cursos de direito.

Então no primeiro capítulo do seu trabalho ele já expõe alguns resultados de sua pesquisa que liga os maçons à formação dos cursos de direito:

Com base na pesquisa destes autores, encontramos um elo entre Maçonaria, sociedades secretas e movimentos pelo poder. Nesta inserção histórica e política, analisar-se-á o porquê dos Cursos Jurídicos no Brasil terem sido criados logo após a Independência do Brasil e, ainda, a razão de se encontrarem em São Paulo e Olinda. Ainda hoje se afirma ser a escola paulista positivista.
Havia necessidade de manter o poder com intelectuais e bacharéis – e esta manutenção consistia na ideia de talhar profissionais para ocuparem os mais altos cargos do Império – razão pela qual no Séc. XIX surge a figura descrita pela Ciência Política como Elite dos Bacharéis. Contudo, à inexistência de qualquer curso no Brasil, os mais abastados poderiam estudar em Coimbra e, com isto, poucos eram os bacharéis da época. Com a instalação dos Cursos Jurídicos no Brasil, moldados pela Maçonaria da época e instalados longe da Corte, por fortes motivos políticos, inicia-se uma nova fase no pensamento brasileiro.
Bacharéis para poder sustentar o poder, com conhecimentos jurídicos. Contudo, de forte natureza racionalista, como a própria Maçonaria e, posteriormente, com o advento da República, de forte caráter comtiano.

Mas José Carlos bebe da fonte de Teotônio Simões[17], que também desenvolveu uma tese de doutoramento sobre Os Bacharéis na Política, onde também aponta a ligação dos maçons e da Bucha com os cursos de direito:

Cogitações à parte, o fato é que, após Waterloo (1815), surgiria na Alemanha uma outra Sociedade, a Burschenschaft, integrada, entre outros, por remanescentes dos Iluminados. Um dos integrantes desta Sociedade organizaria, em São Paulo, na Academia de Direito, a sociedade secreta do mesmo nome, e seus membros também fariam parte da Maçonaria. A ligação dos Iluminados com os futuros bacharéis em Direito do Brasil ainda se daria através de Coimbra, de Verney e de Pombal, indiretamente.

Também se apóia na tese de Wander Bastos[18], que igualmente afirma ter existido uma elite imperial forjada no seio da Maçonaria e que perduraria até a Proclamação da República.

José Carlos ainda insere um gráfico que aponta o elevado número de bacharéis na política, e o local de formação, se foi por Portugal, Brasil ou outro país:


Então desta forma estava justificada a criação dos Cursos Jurídicos em 1827, ipso facto, ora que produziu a Elite dos Bacharéis. Essa atuação tática se mostra coerente com os ideais burgueses, de garantia e estabilidade de seus cargos. E ainda nas palavras de José Carlos, “justifica-se a manutenção no poder, tendo em vista a garantia [grifo meu] jurídica calçada no direito posto”.

Em Portugal, e também no Brasil, havia as Sociedades Filantrópicas, que eram, na maioria das vezes, Lojas Maçônicas sob denominações diversas, por causa das perseguições da inquisição. Desse modo, concomitante com a Bucha, tendo membros como Padre Antonio Diogo Feijó, Antonio Mariano de Azevedo Marques, Antonio Carlos Nogueira, dentre outros, tinha assim como ela (a Bucha), missão de angariar fundos para a manutenção das brilhantes mentes, dar suporte a eles e captar essas brilhantes mentes de São Paulo para a Maçonaria, cingindo com a propagação da função social do advogado.

Citando José Castellani[20], podemos ver como o Curso de Direito, ora, se tornava uma extensão da maçonaria, pois seus personagens e as questões da época que os afligiam, eram os mesmos da Academia e da Ordem, lentes e alunos frequentavam os mesmos âmbitos:

Antônio Carlos – sobrinho de José Bonifácio de Andrada e Silva – Venerável Mestre (Presidente) da Loja América, era lente da Faculdade de Direito e Rui, seu aluno. Apesar disso, este, assumindo o cargo de Orador da Loja, entrava, muitas vezes, em choque com a opinião do mestre, em Loja, principalmente em torno do movimento pela abolição da escravatura no Brasil, expondo suas ideias e fundamentando a sua discordância, com absoluto destemor, apesar de se expor a represálias no âmbito da Faculdade. Felizmente, Antônio Carlos era um homem de grande equilíbrio e descortino e entendeu as razões do seu aluno, jamais levando assuntos de Loja para outros locais. 

A formação dos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, também se dava extracurricularmente, através dos círculos de romantismo, com grande apego das ideias liberais. Havia uma educação informal nos corredores da Arcada, de ideais influenciados pela maçonaria. Maçonaria e Academia se confundiam em espaço social e espaço acadêmico. Onde uma começava? Onde outra terminava?

Longe de ser simples, essa confusão, proporcionou uma sociabilidade, pelas Lojas, que contribuiu para a construção e mobilização das diversas forças sociais, não somente um canal de propagação do ideário liberal, que era o mote dos estudantes de direito, mas como espaço de construção de uma cultura política marcada pela prática do debate, da representação, da elaboração de leis e da substituição do nascimento pelo mérito como fundamento. Enfim, a Maçonaria, nesse contexto, foi também um espaço acadêmico, contribuindo na educação de diversos líderes, que no objeto dessa monografia, vale citar, comporão a lista dos maiores abolicionistas da história do Brasil, e o que todos esses ilustres maçons tinham em comum? A Bucha e o Curso de Direito: Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Eusébio de Queiroz, José do Patrocínio e Luiz Gama, dentre outros.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[11] – NORONHA, Adrius Estevam. Instituições e elite política de Santa Cruz do Sul no contexto de internacionalização da Economia Fumageira (1960-1970). 2006. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Regional). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Rio Grande do Sul Brasil.

[12] – DUMA, Jean. Sobre as elites: abordagem historiográfica. Revista História. São Leopoldo: UNISINOS, v. 07, nº 08, p. 89 – 103, 2003.

[13] – WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Régis Barbosa, Elsabe Barbosa. 3ª edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000.

[14] – MALTEZ, José Adelino. Princípios de Ciência Política: Introdução à Teoria Política. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, 1996.

[15] – Antonio Gramsci (Ales, 22 de janeiro de 1891 — Roma, 27 de abril de 1937) foi um político, cientista político, comunista e antifascista italiano.

[16] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[17] – SIMOES, Teotonio. Os Bacharéis na Política – A Política dos Bacharéis.

[18] – BASTOS, Aurélio Wander. O Ensino Jurídico no Brasil. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2000.

[19] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[20] – CASTELLANI, José. Piratininga – História da Loja Maçônica Tradição de São Paulo. São Paulo: OESP, 2000.

Parte III


Filantropia para libertação

Tenório de Albuquerque em seu livro “A Maçonaria e A Libertação dos Escravos”[22] informando sobre os preceitos maçônicos, logo nas primeiras páginas do livro, coloca como primeiro desses preceitos Amar a Humanidade. Uma Loja que não atua filantropicamente junto à sociedade não está integralmente cumprindo a Tríade da Ordem.

A tão proclamada “Fraternidade Maçônica”, não é apenas um sentimento entre Irmãos, ela deve ultrapassar as paredes do Templo e alcançar a Humanidade. É neste ponto em que há o encontro da “fraternidade” com a “filantropia”.

A etimologia da palavra filantropia deriva do grego (filos, amor e antropos, homem), daí significar amor pela humanidade.

Diversas foram as ações de Lojas, e também de maçons individualmente, no sentido de atenuar ou acabar com o sofrimento do negro durante a escravatura no Brasil. Tanto que se somarmos as ações empregadas pelos Irmãos e pelas Lojas, esse conjunto se verificará um grande esforço organizado em prol dos escravos no séc. XIX, realizados por membros de uma instituição, seja fundando sociedades abolicionistas, grupos radicais, jornais, comprando alforrias, financiando advogados, etc.

Vale citar agora algumas dessas ações, cuidando para que não seja meramente uma citação cronológica, mas evidenciando a amplitude e o alcance dessas ações. Verificar-se-á que em praticamente todas as regiões do país, de várias formas agiram os bodes negros[23].

A Loja Perseverança III, paulista de Sorocaba, tem em seus registros, o fato de ter sido a primeira instituição do gênero a constituir-se formal e especificamente com o objetivo de trabalhar pela abolição da escravatura e pela educação tanto dos antigos trabalhadores quanto da nascente classe operária sorocabana[24], em 1869, numa proposta idealizada por Ubaldino do Amaral:

Trago, subscrita por essa presidência, por Leite Penteado e por mim, a seguinte proposição que esperamos merecer a aprovação da Oficina:
A loja de iniciação será de 25$000;
A mensalidade de 15$000;
Colocar-se-há na Officina uma caixa, denominada “Emancipação” na qual os iniciandos, a convite do Venerável e de qualquer Irmão quando queiram, depositarão suas offertas;
O produto dessa caixa será exclusivamente destinado à libertação de crianças do sexo feminino, de 2 a 5 annos de idade;
As crianças assim libertadas ficam sob a proteção da Loja;
Serão absolutamente prohibidos os banquetes, ceias, copos d’agua, que o uso tem admitido nas iniciações, devendo o Venerável convidar os recipientes para converter as quantias que dispenderiam com isso em donativos à CAIXA DE EMANCIPAÇÃO;
Serão criadas escolas para adultos e menores. As escolas serão nocturnas e mantidas pela Officina, para o ensino gratuito das primeiras letras. [25]

Porém, a Loja Perseverança, de Paranaguá (PR), foi a primeira tomar medidas de âmbito interno como forma de contribuir para libertação dos escravos:

À Glória do Supremo Architecto do Universo e sob os auspícios do Grande Oriente e Supremo Conselho do Brasil, a todos os Maçons:

Resolução adoptada e promulgada em 18 de Novembro de 1867, pelo seu Venerável de Honra Perpétuo, Dr. Alexandre Busquet, Delegado do Grão-Mestre em Paranaguá:

Considerando que a missão da Maçonaria é guiar os povos no caminho da Civilisação [sic], da Liberdade e do Progresso, e tornar sempre a iniciativa das medidas tendentes à felicidade do gênero humano, preenchidas as formalidades exigidas pelos artigos 257, 258 e capítulos 278 e 281, à unanimidade dos votos,

Decreta

Art. 1º – Todos os fundos, tanto da Thesouraria como de Beneficência, que excederem de seus gastos normaes, d’agora em diante, sejam empregados em libertar escravos de qualquer cor, unicamente do sexo feminino, que não tenham mais de 4 annos de edade.

Art. 2º – Todos os annos, no dia 23 de Junho, véspera da festa de São João, a Loja reunida em sessão magna procederá ao sorteio das libertadas. Os nomes das agraciadas serão profanamente publicados no dia seguinte, 24 de junho.

Art. 3º – Contemplar-se-hão somente, seste sorteio, as escravas mães de melhor conducta e residentes neste Município. A escolha dos nomes que deverão entrar na urna será feita em sessão exonomica que precedera de 23 de Junho, em Loja plena, previamente convocada pelo Venerável. (…) [26]

Mais tarde a “Augusta e Centenária Portadora da Cruz de Perfeição Maçônica Loja Simbólica Acácia Riograndense”, fundada no dia 17 de setembro de 1876, por João Landell, um médico formado na Inglaterra, se torna a primeira desse estado a abraçar a causa abolicionista, comprando de início, cartas de alforria para cinco escravas negras, porém, essa criou a primeira Sociedade de Emancipação de Escravos do Brasil, também em março de 1869, na cidade do Rio Grande. A referida Sociedade foi uma iniciativa direta da Loja maçônica “Acácia Rio-Grandense” e tinha por finalidade a manumissão de escravas na idade fértil de procriação, entre 8 e 25 anos, essa era uma prioridade que é encontrada em diversas sociedades emancipadoras maçônicas. Seu idealizador foi o maçon João Frick. Quem conta sobre os estatutos dessa Sociedade é Carmem G. Burgert Schiavon, Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no seu artigo “A primeira sociedade de emancipação de escravos do Brasil”[27]:

Art. 1º – O fim da sociedade é promover a emancipação de escravos na província do Rio Grande.

Art. 3º – Cada sócio tem a obrigação de angariar subscritores para a sociedade.

Art. 4º – A contribuição anual é de 6$000 para o fundo de emancipação.

Art. 5º e 6º – Todo o fundo de emancipação é para alforriar escravas; quaisquer despesas miúdas de anúncios, impressos etc., são por conta dos sócios fundadores; – só poderão ser alforriadas escravas entre oito e vinte e cinco anos.

Art. 7º – A alforria será por sorteio sobre o número de ordem das escravas matriculadas; e estas para se habilitarem contribuirão com 5$000 réis, e trarão o consentimento de seus senhores e a declaração da quantia que estes pretendem pela liberdade.

Art. 9º 10º 11º – O sorteio terá lugar cada vez que haja dinheiro para uma alforria; e logo que à escrava saia a sorte da liberdade, a Diretoria da Sociedade tratará com o senhor sobre o preço da alforria; se não chegarem a um acordo, entrará o número outra vez para a urna, e se procederá a novo sorteio.

Carmem G. Burgert não conseguiu encontrar os estatutos por completo, e informa que para realizar a sua matrícula junto à Sociedade de Emancipação, a escrava deveria pagar uma espécie de taxa de inscrição no valor de 5$000 réis e apresentar uma carta com a autorização do seu proprietário para a realização de sua inscrição junto à Sociedade (o valor a ser pago por sua alforria também deveria constar nesta carta). Continua Carmem:

A forma para a realização da libertação, como previa o estatuto, consistia no sorteio, e assim o fizeram. O primeiro número contemplado foi o três, que pertencia à escrava Amélia (sua proprietária solicitava a quantia de 2:000$000 para sua libertação); o outro número sorteado foi o oito, pertencente à escrava Cecilia, a qual seria libertada mediante o pagamento de 800$000 réis. Após os sorteios, partiram o Sr. João Landell (presidente da Sociedade) e o Sr. João Frick para a compra das alforrias das respectivas escravas.

A primeira visita foi à residência de Clara Vieira de Castro, proprietária da escrava Amélia. Na conversa com D. Clara, disseram-lhe que a diretoria da Sociedade havia decidido pagar, pela libertação da referida escrava, a quantia de 1:200$000 réis (mesmo sabendo que a exigência da proprietária era de 2:000$000 réis). A proprietária salientou que esse ponto não importava, pois, como estimava muito o trabalho da mucama, não pretendia libertá-la e que só havia permitido a sua inscrição, porque a mesma tinha insistido muito e que o fizera “por condescendência com a escrava, mas nunca com a ideia de que a sociedade a emancipasse”.

Diante dessa circunstância, o número da escrava Amélia foi novamente reposto e procedeu-se a novo sorteio. Para surpresa, outra vez foi sorteado o número três, ou seja, o da referida escrava. Como forma de solucionar o problema, os organizadores pensaram, inicialmente, na devolução dos 5$000 da mucama Amélia e na sua retirada do sorteio, tendo em vista que a Sociedade, conforme os estatutos, não poderia pagar mais de 1:2000$000 réis. Entretanto, a Sociedade rejeitou esta proposta e resolveram expor o acontecido à proprietária da escrava.

Contudo, de acordo com o relato de João Frick, logo a escrava Amélia ficou sabendo do ocorrido e ela mesma conseguiu, em apenas 3 dias, a quantia de que precisava para a compra da sua libertação (os 800$000 réis que estavam faltando).

Não é difícil encontrar em atas de Lojas maçônicas, sempre numa ocasião festiva, ou em inaugurações a distribuição de alforrias, exemplo da Ata de fundação da Loja Philantropia e Liberdade:

Aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 E:. V:. e 5835 V:. L:., reunidos em sua sede, sito à Rua da Igreja, nº 67, em lugar Claríssimo, Forte e Terrível aos tiranos, situado abaixo da abóbada celeste do Zenith, aos 30º sul e 5º de latitude da América Brasileira, ao Vale de Porto Alegre, Província de São Pedro do Rio Grande, nas dependências do Gabinete de Leituras onde funciona a Loj:. Maç:. Philantropia e Liberdade, com o fim de, especificamente, traçarem as metas finais para o início do movimento revolucionário com que seus integrantes pretendem resgatar os brios, os direitos e dignidade do povo Riograndense. A sessão foi aberta pelo Ven:. Mestre, Ir:. Bento Gonçalves da Silva. Registre-se, a bem da verdade, ainda as presenças dos IIr:. José Mariano de Mattos, ex- Ven:., José Gomes de Vasconcellos Jardim, Pedro Boticário, Vicente da Fontoura, Paulino da Fontoura, Antônio de Souza Neto e Domingos José de Almeida, o qual serviu como secretário e lavrou a presente ata. Logo de início o Ven:. Mestre, depois de tecer breves considerações sobre os motivos da presente reunião, de caráter extraordinário, informou a seus pares que o movimento estava prestes a ser desencadeado. A data escolhida é o dia vinte de setembro do corrente, isto é, depois de amanhã. Nesta data, todos nós, em nome do Rio Grande do Sul, nos levantaremos em luta contra o imperialismo que reina no país. Na ocasião, ficou acertada a tomada da capital da província pelas tropas dos IIr:. Vasconcellos Jardim e Onofre Pires, que deverão se deslocar desde a localidade de Pedras Brancas, quando avisados. Tanto Vasconcellos Jardim como Onofre Pires, ao serem informados, responderam que estariam a postos, aguardando o momento para agirem. Também se fez ouvir o nobre Ir:. Vicente da Fontoura, que sugeriu o máximo cuidado, pois certamente, o Presidente Braga seria avisado do movimento. O Tronco de Beneficência fez a sua circulação e rendeu a medalha cunhada de 421$000, contados pelo Ir:. Tes:. Pedro Boticário. Por proposição do Ir:. José Mariano de Mattos, o Tronco de Beneficência foi destinado à compra de uma Carta da Alforria de um escravo de meia idade, no valor de 350$000, proposta aceita por unanimidade. Foi realizada poderosa Cadeia de União, que pela justiça e grandeza da causa, pois em nome do povo Riograndense, lutariam pela Liberdade, Igualdade e Humanidade, pediam a força e a proteção do G:. A:. D:. U:. para todos os IIr:. e seus companheiros que iriam participar das contendas. Já eram altas horas da madrugada quando os trabalhos foram encerrados, afirmando o Ven:. Mestre que todos deveriam confiar nas LL:. do G:. A:. D:. U:. e, como ninguém mais quisesse fazer uso da palavra, foram encerrados os trabalhos, do que eu, Domingos José de Almeida, Secretário, tracei o presente Balaústre, a fim de que a história, através dos tempos, possa registrar que um grupo de maçons, homens livres e de bons costumes, empenhou-se com o risco da própria vida, em restabelecer o reconhecimento dos direitos desta abençoada terra, berço de grandes homens, localizada no extremo sul de nossa querida Pátria. Oriente de Porto Alegre, aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 da E:. V:., 18º dia do sexto mês, Tirsi, da V:. L:. do ano de 5835.|Ir Domingos José de Almeida – Secretário.[28]

O mesmo podendo-se dizer, do outro canto do país, da “Fraternidade Cearense”, conforme Tenório D’Albuquerque[29]:

A Loja Maçônica “Fraternidade Cearense”, onde estavam alistadas a nobreza e a opulência de Fortaleza, alforriava a bom preço, nas suas festas levas inteiras de cativos, e nas famílias de maçons os grandes regozijos eram registrados com cartas de liberdade. Sucessivas eram as subscrições populares para o mesmo fim, e de sua parte, o governo deu o ponto alto instituindo um fundo especial de 15 contos de réis por ano, para a manumissão de cem escravos que fossem nascendo e levados à pia batismal, de preferência do sexo feminino, (Lei nº 1.254, de 28 de dezembro de 1868).

O Ceará foi o primeiro estado a abolir a escravidão, em conseqüência da sua forte participação, o presidente do estado, Dr. Sátiro Dias, foi afastado do governo do Ceará pelo Conselheiro Lafayete. Ainda sobre a atuação no Ceará, Tenório D’Albuquerque continua:

Governava o Ceará, o maçon Dr. Sátiro Dias. A Maçonaria do Ceará, também se condoera da situação aflitiva dos escravos, comungava com eles, em sua imensa dor, compartilhava moralmente de seus suplícios. Era intenso, eficiente, diuturno, o trabalho maçônico, em prol da libertação da escravatura. Reuniram-se os maçons para epilogar a tragédia dos africanos. Tomaram uma deliberação decisiva e, no dia 25 de março de 1884, o Dr. Sátiro Dias assinava um decreto extinguindo a escravidão no Ceará, emancipando todos os seus escravos restantes, nada menos de 19.588.

Mais curioso foi a atuação da Sociedade Cearense Libertadora, fundada em 1880, contando com 225 sócios no momento da fundação. Seu membro, João Cordeiro, protagonizou uma ação que havia começado com um juramento em cima de um punhal, que ele havia atirado sobre a mesa numa reunião maçônica. Os que juraram, prometeram matar ou ser morto em bem da abolição. Os estatutos da revolucionária organização maçônica eram resumidos: Art. 1º Um por todos e todos por um; Parágrafo Único – A Sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu alcance. Os sócios ainda tomaram nomes de guerra. Juntar-se-á a essa sociedade Francisco José do Nascimento, mais conhecido como Dragão do Mar, que liderou um movimento de recusa de embarques de escravos nas praias do Ceará. Além desses atos mais extremos, como furto de negros, a sociedade também fundou o jornal “Libertador”.

Foi Mossoró, no Rio Grande do Norte, a primeira cidade do Brasil a abolir a escravidão. Também lá a participação da maçonaria foi relevante. A ideia de fundar uma sociedade libertadora veio do Ceará, quando o casal Romualdo Lopes e D. Amélia Dantas, chegaram em Mossoró em 1882, trazendo uma mensagem da maçonaria de Fortaleza para a de Mossoró. Essa mensagem concitavam os maçons a ingressarem na luta à favor dos negros.

(…) E foi o próprio Romualdo que promoveu a fundação da “Libertadora Mossoroense”, entidade criada para esse fim.

Na noite de 24 de dezembro de 1882, véspera de natal, há uma sessão solene na Maçonaria destinada a alforriar as escravas Herculana, pertencente à viúva Irinel Soter Caio Wanderley e Luzia, da firma Cavalcanti & Irmãos. No momento em que alforriavam estas escravas, D. Amélia Dantas, num rasgo de entusiasmo, se ergue da cadeira e beija chorando as escravas libertas. Despertava, nesse momento, para a imortalidade. [30]

Portanto a ideia não foi original de Mossoró, ela foi exportada de Fortaleza pela maçonaria. Embora em Mossoró a libertação tivesse vindo antes do Ceará.

Mas essas sociedades libertadoras, e outros empreendimentos, fundados por maçons, não eram constituídos somente por maçons, mas também pelos que não eram, pois uma sociedade não maçônica, embora dirigida por maçons, poderia congregar mais participantes e essa conexão traria mais força à luta. Sobre isso encontramos um paralelo com o livro de Tenório D’Albuquerque[31]:

A ideia da abolição da escravatura vingou em Mossoró. Os mossoroenses abraçaram-na com entusiasmo, especialmente a Loja Maçônica 24 de Junho que naquela época (1882), estava em pleno florescimento. (…) Ainda assim em 1882 eram alforriados os primeiros escravos, pela verba do “fundo de emancipação” e por donativos de particulares, membros da Sociedade da Maçônica 24 de Junho.
(…)
Por iniciativa da Loja 24 de Junho, fundada em 1873. Criouse a Sociedade Libertadora Mossoroense, em 6 de janeiro de 1883. A sua primeira diretoria ficou assim constituída: Joaquim Bezerra da Costa, presidente; Romualdo Lopes Galvão, vice dito; Dr. Paulo Leitão Loureiro de Albuquerque, secretário; Cel. Francisco Gurgel de Oliveira; Manuel Cirilo dos Santos, Salvador Bráulio de Albuquerque Montenegro, Manoel Benício de Melo, Conrado Maia (era o suíço Meyer), Francisco Romão Figueira.
Eram maçons, os que estão grifados. Como se vê predominavam na diretoria os elementos da Maçonaria.

Em São Paulo, novamente é citada a Loja América por sua ação libertadora, dessa vez por Elciene Azevedo[32], vale notar a característica urbana predominante no movimento abolicionista:

As lojas maçônicas situadas nos núcleos suburbanos também se constituíram em importantes espaços de discussões e ações antiescravistas. Sem apresentarem o radicalismo das associações libertadoras surgidas nos últimos anos da escravidão brasileira, auxiliavam escravos a conquistarem suas alforrias. A Loja América, estabelecimento comercial localizado em São Paulo, mantinha um fundo dedicado à emancipação de escravos e também financiava ações de liberdades. A loja direcionava os advogados pertencentes à maçonaria para defenderem os escravos requerentes e pagavam os encargos judiciais.

Como veremos mais adiante, um desses advogados, como citado por Elciene Azevedo, foi Luiz Gama. E aqui cabe ressaltar, o suporte dado aos abolicionistas maçons, no caso de Gama de apóia-lo e através da bucha mantê-lo na faculdade de Direito; no caso de José do Patrocínio ajudando nos custos da viagem ao Ceará em 1882, para incentivar aquela campanha abolicionista.

Na mesma linha nos informa sobre Vitória, no Espírito Santo, Mariana de Almeida Pícoli, em sua Dissertação de mestrado[33]:

Destacam-se neste contexto as irmandades religiosas e a loja maçônica União e Progresso, ambos locais de encontro dos membros da elite. A loja maçônica representou um profícuo espaço de debate político durante os últimos anos da escravidão em Vitória. Entre seus frequentadores encontravam-se José Feliciano Moniz Freire e seu filho José de Mello Carvalho Moniz Freire, ambos os redatores dos principais jornais antiescravistas da capital o Jornal da Victoria e o A Província do Espírito Santo, respectivamente. Este último em sociedade com Cleto Nunes, outro importante integrante da maçonaria e contando com a participação de Francisco de Lima Escobar, Francisco Urbano Vasconcelos, Manoel Pinto Aleixo Netto, Alpheo Monjardim, Tito Machado, Basílio Carvalho Daemon, entre outros representantes engajados na campanha contra a escravidão. Afonso Cláudio, figura de destaque do movimento abolicionista, embora não fosse maçom, lecionava no Liceu da loja maçônica União e Progresso como professor de História. [34]

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[22] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[23] – Como são conhecidos popularmente os maçons no Brasil.

[24] – Site da Loja Perseverança III, Disponível em: . Acesso em: 10 fevereiro 2010.

[25] – CASTELLANI, José. Os maçons e a abolição da escravatura. Londrina: A Trolha, 1998.

[26] – IDEM.

[27] – SCHIAVON, Carmem G. Burgert. A primeira sociedade de emancipação de escravos do Brasil. 4º. Encontro escravidão e liberdade no Brasil meridional, Curitiba, 1, 2009.

[28] – Wikisource: Ata Nº 67 da Loja Maçônica Philantropia e Liberdade.

[29] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[30] – GERALDO, Maia. Tributo à uma abolicionista. O Mossoroense, Mossoró, fevereiro de 2009, Nossa História.

[31] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[32] – AZEVEDO, Elciene. Orfeu de Carapinha: a trajetória de Luiz da Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas: Editora da UNICAMP, 1999.

[33] – PÍCOLI, Mariana de Almeida. Ideias de liberdade na cena política capixaba: o movimento abolicionista em Vitória (1869/1888). 2009. 142 fls. Dissertação (Mestrado Centro de Ciências Humanas e Naturais). Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo.

[34] – IDEM.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017



YAKIN E BOAZ - LUZES NA ÁRVORE DA VIDA

Tradução J. Filardo
Por Solange Sudarkis




O texto conta que havia uma árvore de vida onde os nossos primeiros antepassados ​​se tornaram humanos. Tornando-se demasiado humanos e muito gananciosos, eles tiveram que deixar o que parecia ser um paraíso; e devia ser o final de março, quando eles foram expulsos. Guardas sem carne foram contratados para negar-lhes acesso; vamos chamá-los Gabriel e Rafael. Depois de uma investigação, descobrimos essas duas personagens, escondidas sob o nome de Yakin e Boaz [i] as duas colunas na entrada de um edifício, o Templo de Salomão, um outro tipo de paraíso, mais conhecido sob o nome de “pardes”, ou jardim. Ali, os sábios em misticismo consideraram por meio de elaborações espirituais que se poderia conceituar que havia ali uma outra árvore da vida, a árvore das Sephiroth.

Posando como uma constante fundamental, tanto em rituais quanto em lojas, embora muitas vezes tratados em papelão, Yakin e Boaz nos interrogam sobre a sua relação com essa metáfora de árvore. Justificadamente, temos o direito de buscar sua conivência especulativa, porque a famosa árvore da Cabala, a árvore das Sephiroth, se apresenta, de fato, também sob a forma de pilares de onde a comparação com nossas duas colunas, aliás nossos dois pilares, pode parecer evidente para muitos. Por contágio semântico que representa cada um desses dois lados?

Em sua separação: a dualidade e dualismo

Sua separação aparente: a dualidade

– A dualidade se estabelece com base na lateralização, a direita e esquerda [ii]tão precisamente explícita tanto para as colunas do templo maçônico quanto para os dois pilares da árvore das Sephiroth. Yakin está à direita ao sair do templo, Boaz à esquerda. As colunas fazem do termo “dois”, o binário, o princípio fundamental essencial da existência do mundo sensível e da vida do gênero humano.

O Zohar chama Kether “o crânio” Chokmah e Binah, “o cérebro”; o hemisfério cerebral direito é atribuído a Chokmah (a Sabedoria) e o esquerdo a Binah (a inteligência). As colunas do templo, semelhantes a estas duas Sephirotes correspondem a todas as dualidades: Sujeito-objeto, agente-paciente, ativo-passivo, positivo-negativo, pai-mãe, esquerda-direita, dar-receber agir-sentir, espírito-matéria, sol-lua, abstrato-concreto…

– Assim que se introduz qualquer oposição, tanto espacial quanto qualitativa, podemos também considerar a dualidade assim aparente, como uma demonstração de Relações dos princípios arquetípicos do masculino e feminino.

Em J.’. a via ativa da manifestação, o princípio masculino, em B.’., a via passiva, o princípio feminino. Estas colunas pertencem ao mundo da formação (Yetzirah). Os pilares exteriores Yakin e Boaz, são os reflexos claramente diferenciados em macho e fêmea do homem andrógino, aparecido no mundo da Criação (Beriá) e separados em Adão e Eva em Yethsirah.

Os textos não dizem que eles são simétricos nem semelhantes. Uma das colunas é descrita pela sua altura, a outra pelo seu diâmetro [iii]. Seria um erro de interpretação que as tornam iguais. Estabelece-se assim uma correspondência, uma alteridade sem identificação, daquela que é alta daquela que é larga. Isso é afirmar a diferença, manter e deixar livre a dimensão da estranheza e do outro lugar.

Isto significa que o outro não é sempre o mesmo. O outro só é então oposto a seu outro; Boaz e Yakin se contemplam. J.’. e B.’., 10 e 2, em valor gemátrico, onde temos germe e matriz [iv]escolhidos e nomeados obviamente, com uma intenção hermenêutica.

Em todas as tradições antigas, o cilindro delgado é uma representação fálica; assim como a romã está associada ao ovário gerador. A associação desses dois símbolos não poderia ser mais explícita para as Colunas que evocariam, evidentemente, um simbolismo sexual de geração e fecundação.

Da luz original que encheria uniformemente e sem diferença de grau antes do tsimtsum (o recuo divino que permite preencher o Aïn sof), surge uma luz que emana no vazio deixado pelo tsimtsum. Esta luz que emana contém todas as Sefiroth e se divide em dois raios, um interior, a alma, e outro o mundo da separação. Todas as Sephiroth emitem e recebem luz, mas esta luz pode ser mais ou menos intensa. Diz-se que a emissão de luz é de natureza masculina, enquanto a recepção é de natureza feminina. Cada uma das 10 Sephirotes recebe o influxo que lhe chega a partir do Ain Sof e se derrama, por sua vez. Podemos então nos perguntar: como é que algumas Sephiroths são chamadas machos e outras fêmeas, embora todas sejam andróginas? Geralmente, as Sefiroths machos são energias expansivas e criativas, e as Sefiroths fêmeas são restrições e estabilizações dessas forças.

A energia e a matéria são formas andrógenas da unidade que no pleroma hebraico também são consideradas princípios masculinos e femininos. Estes princípios só podem ter uma coexistência dramática onde o princípio feminino é a fonte da vida, mas também de morte para o princípio masculino, é a forma limitando a energia; daí a opor a mulher ao homem não é perigoso? Sim, mas o andrógino original não é a dualidade do hermafrodita, nem a dos híbridos mencionados na introdução. É dizer e repetir que somos macho e fêmea, como imagem da criação. É uma consubstancialidade da unidade vista em seus aspectos diferenciados, mas é a unidade que ainda é uma questão. Assim, na Doutrina Secreta de Blavatsky “em um estado absoluto, o único princípio sob seus dois aspectos de ideação pré-cósmica (energia) e substância pré-cósmica (matéria) é unissexual, incondicional e eterno. Sua emanação é andrógina. Quando esta radiação se irradia por sua vez, a toda a sua radiação é andrógina, mas tornam-se os princípios masculino e feminino em seus aspectos inferiores (criação, formação). Isto é o que diz também Einstein: “Eu prefiro olhar para a matéria e energia não como fatores produzindo os mesmos graus de curvatura do universo, mas como elementos de percepção desse universo.”

– Encontramos esta separação da androginia nas iniciais do nome das colunas.
A letra Yod inicial de Yakin décima Letra-Força alfabeto hebraico sagrado representa um retorno à Unidade; é uma espécie de Alephאinternalizada. A fonte de Vida representado pela letra Aleph, que é a semente de todas as coisas, torna-se Yod uma Força Motriz que estimula a partir de dentro, e que dá a possibilidade de criar. O Yod estabelece a base racional para compreender a mecânica da obra. Yod é um elemento Air criativo e transformador. No mundo material ele representa a fase em que as sementes de Pensamento, transportadas pelo Ar, são aspiradas e incorporadas ao organismo.

De acordo com a Cabala, a letra Yod é um sinal que tem duas determinações: uma é formada e revelada, o signo Yod desenhado (o desenho original do signo é um braço estendido, transformado em um ponto, a direção é uma mão fechada em um punho); o outro não é formado nem revelado, o ponto conceitual propriamente dito. Estes dois aspectos da letra Yod são também chamados “desbloqueado ou implantado” ou real e “bloqueado ou não implantado, conteúdo”, ou irreal.

O ponto importante é o resultado do recuo divino chamado “tsimtsum” a partir do qual é criado o universo. Na árvore da vida, este ponto Yod, colocado no nível da Sabedoria (Chokhmah) emite duas luzes das quais uma, infinita, se desvanece em direção ao alto. A luz acaba por descer e revela o sinal Yod explícito, graças ao qual o universo e seu conteúdo existem e são tornados tangíveis. É coluna Yakin, que também é traduzida como: o estabelecido.

Segundo a tradição, o ponto inicial é implantado como uma linha para baixo, num signo Vav, em seguida, em uma segunda linha para formar um plano, o sinal Daleth. E de fio em agulha, o ponto inicial é a origem de todas as letras e da escrita.

Mas, por outro lado, o Yod se revela em sua escrita explícita “yod-vav-daleth” para nos confirmar sua implantação progressiva.

O significado da letra Yod é o braço e, por extensão, a mão. As duas mãos entrelaçadas formam um local de encontro; ambas as mãos cerradas, um vínculo de fraternidade; as mãos abertas, a imagem de um apoio, de uma compreensão; a mão é um sinal da ação e da reação. A mão indica, materializa e faz existir um conceito ou ideia.

O valor da letra Yod é dez, volta à unidade através da dualidade e multiplicidade. Há dez palavras criativas do mundo e dez mandamentos para mantê-lo.

A letra Beth, inicial de Boaz representa uma condensação da aquisição, internalização da luz. Para que a energia possa se manifestar em qualquer nível, ele deve passar por uma fase de interiorização e de condensação. Esta condensação da Força Primordial produz o Amor. Em nível humano é um amor não revelado, mas que, agindo a partir do interior faz avançar no caminho da obra. A letra Beth simboliza a casa, o receptáculo da força criativa do Yod. De acordo com o simbolismo das letras, o iniciado deveria primeiro passar por Yod, entidade masculina, força produtiva, racionalidade no conhecimento e, então, quando ele souber ler e escrever, ele poderá se aproximar de Beth elemento feminino, despertando o amor não mais passional e construir sua Casa, seu templo interior no qual o trabalho da força criadora se desenvolverá facilmente.

O sentido principal de Beth é a casa, um edifício, uma construção. “É através da Sabedoria que se edifica uma casa, e é pelo discernimento que ela se consolida” (Provérbios 23: 3). Beth está no caminho de discernimento na Árvore da Vida. Esta letra tem a forma de um abrigo fechado por três lados e aberta para a esquerda. Beth é igualmente o Templo, o palácio divino, a manifestação do absoluto. De acordo com a mesma Tradição, os três lados de sinal Beth representam o que é revelado, o quarto lado não traçado é o segredo ou o selo divino. De acordo com a tradição da Cabala, a abertura de Beth para o Norte, de onde sopra o vento fresco, a riqueza, mas também as más intenções. Colocado à esquerda ao sair do templo, ao norte, Boaz é consistente com sua inicial.

Vindo do exterior, o rigor pode encontrar no interior de “Beth” o calor da misericórdia. A abertura de Beth é a liberdade de escolha, seja a tentação da inclinação para o mal, seja a compaixão e o amor. Cabe ao homem de escolher o caminho certo.

Outro significado desta letra é a mulher, o feminino. Beth é uma preposição que denota tanto a interioridade quanto o acompanhamento. Mulher e casa sugerem a suavidade de um lar ao abrigo das vicissitudes, mas para passar de uma ao outro, de “bat”, a mulher para “beyt”, a casa, é preciso adicionar a letra Yod, imagem da lei moral, através dos dez mandamentos (veja Yod, acima). A construção de um interior não pode se identificar com o feminino cujo fundamento é a lei moral; então, o espírito que prevalece é uma alma superior.

O valor de Beth é dois. Beth é o batente de uma porta. Em aramaico, “bab” com um duplo Beth é uma porta dupla: a primeira letra das Escrituras, esta letra foi escolhida para criar o universo. As duas primeiras palavras da Bíblia começam com um Beth: a primeira palavra é um recipiente, interior oferecido, o de um Começo (bereshit). A segunda palavra “criada” (bara), onde Beth é a filha da unidade, a diferenciação e o discernimento sendo o prelúdio de toda a criação. Dupla, a letra Beth é a primeira manifestação do múltiplo.

No plano divino, Beth é o paradoxo de paradoxos: o universo tem uma realidade fora do divino? Se o divino é a singularidade e a totalidade, existe um lugar para o homem? Daí a impressão íntima de ser e não ser ao mesmo tempo, o sentimento que vai vem da onda existencial. A realidade é dual: na tradição bíblica, cada coisa é (ou tem) seu oposto, Beth é tanto interior quanto exterior.

Em hebraico, pai e mãe começam com aleph, filho e filha começam por Beth: Beth é assim a segunda geração, aquela que já recebeu o ensinamento de seu mais velho, Aleph. No entanto Beth é também a casa do estudo, o abrigo da Torah, a nova geração também aprende por ela mesma. O ensino deve ser sempre repetido duas vezes: aprender em aramaico é repetir duas vezes.

Beth é, portanto, um abrigo precário da dualidade existencial, a porta aberta para o exercício da responsabilidade do homem e seu livre arbítrio, abrigo consolidado pelo julgamento e o estudo da lei.

– As cores de Yakin e Boaz, o vermelho e o branco, participam de sua dualidade. As duas colunas de bronze, em nossos templos, coloridas, e Yakin, macho em branco e Boaz fêmea em vermelho[v]. O Zohar atribui uma cor específica a cada uma das Sefiroth: branco a Chokhmah; vermelho a Binah [vi]; verde a Tiphereth e negro a Malkhuth. Este sistema de cores é paralelo ao dos 4 mundos, a que também são atribuídas cores; em particular, o mundo de Atziluth está associado ao branco, o mundo da Briah ao vermelho; no entanto, estas atribuições variam segundo os cabalistas e os sistemas.

As cores que são visíveis ao olho, ou que são representados em espírito, podem ter um efeito sobre o espiritual, embora as próprias cores sejam físicas “(Moses Cordovero, Pardes Rimonim “porta de cores”). Yakin está, portanto, associado à sephira da sabedoria Chokma [vii]e Boaz, com a da inteligência, Binah [viii].

Quando se diz, I Reis 7, 14, que Hiram estava “cheio de sabedoria, de inteligência e de saber [ix]“(tomando também essas mesmas qualidades que tinha recebido Bezalel [x] o mestre de obras do primeiro templo nômade sob Moisés), é, também, tornado muito claramente uma junção semântica das duas colunas com os dois Sephiroths, o a sabedoria, Chokma, e o da inteligência, Binah (também chamado Tébouna).

Sabemos que, para os hebreus, a Lei (aquela das tábuas de mesmo nome) e a justiça, a equidade em sua aplicação (que pode ser encontrado sob os nomes de mishpat e tsedeq) foram fundadoras da governança desse povo e das relações entre eles. “Ai daquele que constrói sua casa pela injustiça, e seus aposentos pela iniquidade [xi]!”.

Neste sentido, Lei e justiça poderiam naturalmente ser entendidos como rigor e misericórdia. O julgamento vermelho e a misericórdia branca, porque o branco e o prata são as cores tradicionalmente associadas à gentileza; o vermelho e o ouro associados ao julgamento; Yakin. tsedeq e Boaz mishpat!

Entretanto, note-se: em alquimia, as cores não são as mesmas. Yakin, porque é a energia criativa masculina, a força expansiva que parte do centro de todo o ser, o enxofre que representa o coagula, o Fixo, isto é, o estado condensado e corpuscular da matéria, sua cor é o vermelho.

Quanto a Boaz, é a receptividade feminina, é a energia proveniente do exterior que penetra tudo: o é o mercúrio, a “mãe cura”, o Solve, o Volátil, ou seja, o aspecto vibratório e ondulatório da matéria; sua cor é o azul.

O templo maçônico escolheu para suas colunas a cor de sua correspondência com os pilares da árvore da vida, o vermelho e o branco.

O entrelaçamento de sua natureza: o dualismo

O dualismo da aparente oposição nos leva à coincidência dos opostos. Inseparáveis, indivisíveis, as colunas formam uma espécie de diálogo; o equilíbrio de suas forças de luz é uma estrutura da criação.

Boaz traduz a força, mas não a força física, ela evoca uma força superior, a força espiritual da consciência da indestrutibilidade do ser real, o Espírito.

Yakin expressa a solidez, a estabilidade; ela significa que o iniciado passou a fase de flutuações humanas e alcançou o estado de Ser parado no eterno presente.

Diz-se que a união das duas colunas gera uma terceira, no meio, que representa de um ponto de vista esotérico, homem e a humanidade. A combinação das duas forças opostas produz o pilar central: o homem perfeito. Diz-se também que o Templo, localizado entre as duas colunas seria então Kether, a coroa, o Pai-Mãe.

O trabalho de iniciação consistirá em equilibrar essas duas polaridades, para dar nascimento à Beleza, que não será estética, mas a sublime Harmonia criada pela Força e guiada pela Sabedoria.

Em sua inter-relação: a Luz

As duas colunas trazem em seus significados toda árvore sefirótica. A sabedoria é uma árvore da vida para aqueles que a abraçam aqueles que se apoiam nela estão em marcha [xii].

Chokhmah e Binah, Yakin e Boaz, como acabamos de ver são associados à Sabedoria e Inteligência; necessário é agora compreender o alcance da associação Sabedoria-Inteligência.

Embora seja útil considerar as sephiroths separadamente, é preciso ter em mente que eles estão constantemente interagindo. Suas influências se derramam continuamente na realidade.

Este fluxo constante garante a estabilidade da Árvore. Por sua vez, as Sephiroths desempenham um papel de emissor e de receptor. Assim Chokhmah é passiva em relação a Kether e ativa em relação a Binah. Além disso, uma sephira é influenciada pelas Sephiroths que estão diretamente ligadas a ela, mas também de todas aquelas que a precedem.

A primeira sephira, esfera de manifestação, é colocada mais alto do que as outras no pilar do meio. Ela se une com a segunda sephira do pilar à direita e ela própria se une sobre o mesmo plano à terceira Sephirah no pilar esquerdo formando assim um triângulo, dito triângulo supremo. Esta triangulação surgida do nada, da origem, é muito especial. É o começo. É como uma frase ou ideia em germe, mas que só encontrará a realização, em uma fase posterior: uma ideação do universo.

Kether, se traduz por coroa, a primeira Sephirah é colocada, assim, no cume, no início da manifestação primordial. Ela representa um tipo de cristalização primitiva daquilo que até agora não foi manifestado e permanece incognoscível por nós.

Não existe em Kether nenhuma forma mais exclusivamente da intenção pura, que ela pudesse ser: é uma existência latente separada por um grau da origem, do não-ser; do Aïn-sof. Esta sephira contém tudo o que foi, é, e será, ao mesmo tempo. Ela é o que está se tornando. É com a existência manifestada nos pares de opostos que esta unidade terá um sentido acessível, mas em Kether ainda não há diferenciação alguma. Ela permanece ela mesma nela mesma. Essas diferenciações no-la fazem parecer inteligível somente quando Chochmah e Binah, nomes da 2ª e 3ª Sephiroth, terão sido emanados.

Kether é a mônada existente sem atributos perceptíveis, mas apesar de tudo contendo-os todos. Por isso, ela contém as potencialidades de todas as coisas. Não podemos definir Kether, só podemos nos referir a ela. A experiência espiritual atribuída a Kether é chamado União com Deus: objetivo e fim de toda a experiência mística ou alquímica. Não é surpreendente localizar aqui como virtude, aquela da realização, da conclusão da grande obra alquímica, o retorno final. O ponto porque ele não tem dimensão é naturalmente associado a ela como um símbolo referente. Mas encontraremos outros títulos para ela, tais como Existência das existências, o ponto primordial, o ponto no círculo, o macroprosopo inicial, a luz interna, Ele, a cabeça branca e seu arcanjo é Metatron.

A energia de Kether se desdobra e este dinamismo primeiro, este ponto em movimento traça uma linha que vai em direção à segunda sephira chochmah: a Sabedoria. Esta expansão da força não-organizada e não compensada seria, antes, uma energia incontrolável: o grande estímulo do Universo. Mas é impossível compreende-la sem associa-la a Binah terceira sephira da árvore e primeira sephira organizadora e estabilizante, Binah: a compreensão. Se os títulos dados a Chochmah são Ab, o Pai Supremo, Tetragrammaton, IHVH, Yod do Tetragrama (muitas vezes representada em francês ela letra J) e se os símbolos ligados a ela são o falo, o lingam, a pedra que mantém de pé, a torre, a vara do poder que se veste, não ficaremos surpreso ao ver e entender em Binah (a compreensão), ima, a mãe sombria Elhoim, a brilhante mãe fértil, o Grande Mar, Mara, raiz de Maria e reconhece-las na taça, o cálice, o Yoni, a roupagem exterior de dissimulação (termo Hindu e gnóstico que designa os órgãos sexuais da mulher).

Assim, Kether é o ser puro, todo-poderoso, mas não ativo. Quando uma atividade dela emana, o que chamamos Chochmah é um fluxo descendente de atividade pura, que é a força dinâmica do universo e que se estabiliza em Binah. Ele então toma forma em Binah. A Unidade de Kether é uma mônada dando a si mesmo a ver em duas Sephiroths. Elas formam assim a tríade Suprema. A unidade do início, em seus dois aspectos diferenciados pode ser representada por um triângulo: Kether, Chokmah, Binah. Os cabalistas chamam a primeira tríade KaHaB כחב, sigla composta pelos nomes originais dessas Sephiroths.

O Delta de nossos templos é um triângulo deste tipo? Sim, nós ainda diríamos que fixamos aqui a tríade suprema, mas é também a mônada pitagórica. Nosso Delta é a consubstancialidade do Espírito manifestado (a energia), a matéria (a forma) e do universo seu filho. Ele é colocado no lado dos mundos superiores, quer dizer para nós no oriente. No outro extremo, no mundo da formação, considerado inferior porque mais distante da origem, temos o mesmo simbolismo. Sob uma outra forma, J\ e B\ representam, na fase do mundo da dualidade, os dois aspectos diferenciados, mas separados da unidade ideal do Delta que os contém em ideação onde eles se ainda se encontram reunidos na perfeição andrógina. Pode-se dizer que a partir do topo do Delta passando pelos seus pontos baixos, ligado às colunas do Templo são traçados os pilares da árvore da vida, ao mesmo tempo as esferas de luz e os caminhos pelos quais se atualiza a transcendência.

Porque existe “e” na androginia inaugural, a gênese nos propõe, a partir deste “e”, uma categoria de pensamento. O que se propõe, não é que Deus existe ou não; é que é preciso que ali exista “e” para que exista relacionamento de natureza, caso contrário é o caos, o magma. Este “e” nos diz para tornar o masculino e o feminino, o Eu e o Você, o individual e o coletivo harmonizados em uma unidade. É preciso rigor e misericórdia. Para que haja o filho ou a filha é preciso haver realmente pai e mãe, ab e ima, caso contrário é o magma psíquico, social, sem o “e” é a desintegração da sociedade. É a barbárie do politeísmo que oferece seus monstros que tem por nome estupro, crime, incesto, eliminação do outro. Quando não há mais conjunção, mesmo quando há indiferença, não há realidade, existem apenas humanidades sem relacionamento de natureza Humana. Não há mais a presença da transcendência humana que é a humanidade na justiça ou a benevolência.

Apresentação das Sephiroths




Kether: a Coroa

o ponto primordial, a grande face, a cabeça branca, a existência de existências, o Ancião dos Dias

A primeira Sephira começa a Árvore e não tem começo. Ela encarna a própria centelha divina. Esta “encarnação” é desprovida de forma, mesmo mental e só pode ser entendida, de acordo com a Cabala, tornando-se um com ela, tornando-se deus. A máxima “Ninguém pode contemplar o rosto de Deus e continuar a viver” parece aplicar-se particularmente a Kether.

Nas tradições e religiões, ela representa o Deus Supremo, o Pai hermafrodita, o Criador. Em um sistema de pensamento, ela pode ser comparada à premissa, o conceito-chave que não tem antecedente e que permite ao sistema se implantar.

A imagem do ponto, objeto sem dimensão é frequentemente associada a Kether. Ela é Coroa, pois confere todo o poder ao homem enquanto ser distinto do seu ser, colocado “acima” dele.

O ponto, o ponto no círculo, o crânio, a centelha divina, o lótus de mil pétalas

Chochmah: a Sabedoria

O pai supremo, o Yod, o Tetragrama, o transbordamento

A segunda Sephira é expansão, um caldo no qual tudo existe de forma indiferenciada. Ela é movimento: o ponto se anima e se torna linha e adquire a primeira dimensão. Chochmah representa o primeiro impulso, o fluxo inexorável, o conceito pai que contém potencialmente todos os outros, o princípio masculino. Ela é sabedoria na medida em que incorpora o estado final antes da fusão total com Deus (consciência cósmica).

A linha reta, o lado esquerdo do rosto, o falo, a pedra de pé, a torre, o bastão de poder, um rosto barbado

Binah: a Compreensão

A mãe sombria, a mãe estéril, a mãe luminosa, a mãe fértil, trono, o grande mar, o reservatório

A terceira Sephirâh se adensa e concentra o fluxo de Chochmah. Binah é associada ao princípio feminino. Ela é a Mãe em toda a sua ambiguidade: aquela que dá a vida, isto é, que molda o ímpeto primeiro para lhe dar forma, mas também aquela que causa a morte, toda limitação do divino sendo condenada à destruição. Esta restrição de Chochmá em Binah marca o nascimento dos Tempos. A linha, canalizada, é moldada e se torna um triangulo. A segunda dimensão aparece e com ela, as premissas da finitude.

Binah é Compreensão, o que já induz uma certa dualidade: entendemos algo (que nos era estranho), desde que se seja sábio (síntese, união).

o corte, o lado direito do rosto, a Vesica Pisces, a vulva, o cálice, uma mulher madura

Chesed: a Misericórdia

Gedulah, bondade, amor, majestade

A quarta Sephira é inteligência coesa e receptáculo de todos os poderes. As formas possibilitadas por Binah são mantidas e alimentadas com Chesed. Ele assegura sua perenidade. Chesed é coesão e multiplicidade. Ela está associada aos princípios da ordem, da síntese e da assimilação. No corpo humano, podemos associa-la ao anabolismo. Em termos de atitude, ela é compaixão e magnanimidade.

a figura geométrica, o braço esquerdo, o tetraedro, a pirâmide, o orbe, a cruz de braços iguais, o cetro, um rei coroado sentado em seu trono

Geburah: a Severidade

Din [justiça], Pa’had [medo], rigor, força

A quinta Sephira é a inteligência radical. Ela é discriminatória: ela vai ao encontro do processo de coesão de Chesed. Ela é força porque dispersa, guerra porque se opõe, caos porque destrói. Ela é coragem, porque vai testar as criações de Chesed. Ela é frequentemente associada ao princípio do Mal e Satanás, o Adversário, “aquele que semeia a discórdia”. Isso não significa que Geburah seja “maléfica” (ver qualidades das Sephiroths). Ordem e Caos são dois princípios essenciais ao equilíbrio do mundo. Deste ponto de vista, não é de se estranhar que a matemática e a física moderna também lhe façam eco.

No corpo humano, Geburah é semelhante ao catabolismo (parte destrutiva do metabolismo levando à transformação da matéria viva em dejetos). Geburah é às vezes chamada Din, a Justiça, por isso a qualificamos de “severa”. Justiça seria mais a ação conjugada do par Chesed, Geburah. Esta última Sephira pode ser então percebida como o equilíbrio que permitirá emitir o julgamento final (decidir).

o pentágono, a espada, a lança, o chicote, um guerreiro sobre seu carro

Tiphereth: a Beleza

O equilíbrio, o rosto pequeno, o filho do rei, o homem

A sexta Sephira é inteligência mediadora e união das influências. Ela é beleza, harmonia de formas e de ideias. É um ponto de equilíbrio, mas também uma encruzilhada: o lugar onde a transmutação das energias é possível. Nesse sentido, ela é associada ao sacrifício (desistir a um bem para alcançar um estado de consciência maior).

O sol que se consome permanentemente para brilhar é o símbolo usado para designar Tiphereth.

O cubo, o peito, o coração, a cruz do calvário, a rosa-cruz, a pirâmide truncada, o sol, uma criança, um deus sacrificado

Netza’h: a Vitória

Firmeza, poder, síntese

A sétima Sephira é inteligência oculta, união do intelecto e da fé. Netza’h está associada à beleza em todas as suas formas. Netza’h é ímpeto místico, confiança e entusiasmo.

Ela é a esfera das emoções, dos sentimentos e, mais geralmente dos ímpetos, das tentativas de compreensão imediata. As andanças de Netza’h então se tornam relâmpagos ou projeções (no sentido de Jung: nós atribuímos cegamente ao ser amado as qualidades que esperamos nele encontrar).

Netza’h é vitória porque ela é meta alcançada, adequação. Ela nutre as tentativas de entendimento em que tentamos entrar em ressonância com o objeto que buscamos entender.

Os rins, as ancas, as pernas (em movimento), a lâmpada, a cintura, a rosa, uma mulher nua

Hod: a Glória

A oitava Sephira é a inteligência absoluta. Hod está associada ao formalismo, à lógica, aos sistemas formais, ao racionalismo. Ela é Glória porque exprime o reconhecimento do saber dominado, codificado e entregue a todos. Hod disseca os impulsos de Netza’h, analisa e contrasta, desmonta e argumenta. O fluxo de Netza’h, canalizado por Hod, engendra uma bulimia de saber, uma versatilidade, uma inventividade extrema. Aquele que procura saber tudo, que “devora” as informações se encontra frequentemente na esfera de Hod. Sob a influência dessa Sephirah, o homem tenta compreender um objeto analisando-o.

Hod é o receptáculo dos conhecimentos fixado (os livros), na medida em que ela é a guardiã dos segredos, do conhecimento e da memória do mundo.

Os rins, as pernas, as nomas, o avental, um hermafrodita, a linguagem

Yessod: o fundamento

fundação, tesouro de imagens

A nona Sephira é inteligência purificadora. Ela projeta o molde das formas, as esculpe, e garante a sua integridade. Ela molda o rio da vida resultante de Netza’h em estruturas complexas desenvolvidas por Hod. Ele seleciona as imagens resultantes da união desses dois princípios para manter apenas os esboços puros e equilibrados. Estas imagens, esses planos, essas arquiteturas se tornarão matéria em Malkuth.

Assim Yesod é a base de toda coisa encarnada. Enquanto união de dois princípios, ela é prazer e gozo. A lua, que regula os ciclos menstruais nas mulheres, está intimamente ligada à Yesod.

Os órgãos genitais, os perfumes, as sandálias, a lua, um homem nu

Malkuth: o Reino

Kallah [a noiva], o limiar, o limiar da morte, o limiar de lágrimas, o limiar do Jardim do Éden, a Shekinah, a mãe inferior, a rainha, a virgem

A décima Sephira é inteligência resplandecente. Ela é o receptáculo de todas as influências. Malkuth representa o último estágio da forma, denso e palpável, incapaz de existir mais concretamente. Ela é nosso universo, nosso planeta, nossos corpos e todas as coisas animadas e inanimadas ao nosso redor.

Malkuth é o Reino das formas imaginadas finalmente realizadas. Malkuth é também o lugar onde os vínculos entre força e forma se degradam e se rompem, o limiar em que “entregamos a alma”, quando o não pode ser assimilado se torna excremento. O desafio humano é, sem dúvida poder ser capaz de controlar um dia a miríade de ​​energias e influências que se agitam em seu reino.

O círculo, os pés, o ânus, o altar do cubo duplo, o diadema, a cruz de braços iguais, uma jovem coroada sentada em seu trono.



NOTAS

[i] Yakin (com substantivo final) + Boaz = 816, em valor reduzido = 9

Gabriel גבריאל Rapha +el ראפאאל: em valor total depois reduzido (aparição, dissimulação) = 73+412+510+20+11+74 = 1180 e 510+111+81+111+111+ 74 = 998, ou seja 1180 + 998 = 3178, em valor reduzido = 9

Yakin e Boaz são semelhantes a Gabriel e Rafael. Eles marcam a entrada do paraíso espiritual, o pardes. Diz-se que somente no templo se poderia realizar a elevação espiritual através dos 4 níveis de estudo do Pardes, domínio reservado do Conhecimento esotérico da Torá.

1 – Pshat: sentido literal do texto que trata o mundo sensível.

2- Remez: Alusão, “Insinuação”. Este é o mais alto nível do estudo, de onde a raiz ram que significa ‘elevado’.

3 – Derash: Interpretação figurativa. É a parábola, a lenda, o provérbio, etc.

4 – Sod: Segredo. Este é o nível esotérico relativo à teosofia, a metafísica e a revelação das coisas sobrenaturais, secretas e misteriosas.

O Pardes é uma referência aos quatro níveis de compreensão da Torá e os quatro ramos de ensino da Torah: Mikrah (versículos) (ensinamentos jurídicos) Talmud (ensinamentos desenvolvidos da Mishná) e Cabala (explicação esotérica da Torá).

[ii] No rito Escocês Antigo e Aceito

Ven.´.: Qual é o seu lugar em loja Primeiro [depois o Segundo] vigilante?

1o. Vig.’. à esquerda da entrada do templo …

2º Vig.’. ..à direita da entrada do templo…

[iii] I Reis 7, 15. Ele moldou os dois pilares de cobre, um dos quais tinha dezoito cúbitos de altura, e uma linha de doze cúbitos media em torno do outro.

[iv] O “Iod” inicial de Yakin representa a masculinidade por excelência. Beth, inicial de Boaz, é considerada essencialmente feminina porque o nome desta letra significa lar, daí a ideia de recipiente, de caverna, de útero.

[v] Glossário teosófico Por Helena Blavatsky. Obra teosófica publicada por Edições Adyar;

[vi] Sobre o simbolismo da cor, nós mantemos esta passagem de Gikatila: o Branco é a substância da Chochmá, que é Misericórdia ao lado da Brancura, e uma parte de Din e de aniquilação do lado de Binah vermelha. Ao contrário, sobre Binah, o segredo da volta, sua substância é vermelha, e o branco é auxiliar para ela. Esta é a razão pela qual, a partir de Chochmá, o atributo Rah’amim (Misericórdia) se derrama do lado direito, que é Abraão“. (Segredo da cor de Gikatila).

[vii] Chochmah.חכמה

Chochmah é um termo hebraico que significa “sabedoria”; e a Kabbalah é a maneira de realizar a “Hockmah nitsarah” a “sabedoria oculta”. Para o cabalista, a Chochmá não é um puro conceito filosófico abstrato, mas uma realidade primordial cuja experimentação leva à reintegração divina, através da união do mundo do Alto e o mundo de Baixo.

A Chochmá é assim a Sabedoria, a Sapientia, a onisciência e onipotência divina.

Tradicionalmente, o lugar de Chochmah na Árvore da Vida é no topo do Pilar da Misericórdia, Misericórdia que se torna evidente considerando este jorro vindo de Kether como um presente tão forte e tão cheio da própria Energia que seu efeito se faz sentir até os planos mais escuros e mais densos dos mundos inferiores.

Esta emanação é chamado de Sabedoria, porque “ela é escondida e misteriosa, uma realidade que não tem limites nem fim, ela é o segredo da Sabedoria, porque ela é uma coisa inatingível que reside no Pensamento” (Moisés de Leon, Fragmento sem título). A partir dela, o Bahir nos diz: “A segunda palavra é Chochmá pois está escrito “יהוה me foi adquirida no início do seu caminho, antes de suas obras mais antigas” (Prov. 8, 22.); e não há ponto de “começo” fora de Chochmah, pois está escrito: “O início da Chockmah é o medo de יהוה” (PS 111, 10). O medo é Yrah – יראה – um dos nomes da Chochmá de acordo com o Shaarei Orah de Gikatilla.

A tradição qualifica assim Chochmá no texto dos Trinta e Dois Caminhos da Sabedoria: “O segundo caminho é o da inteligência Iluminadora: é a Coroa da Criação, o Esplendor da Unidade, igualando este aqui, e ela é exaltada acima de cada cabeça, e os cabalistas a chamam de Segunda Glória“.

Este texto nos mostra claramente que o poder jorrando de Kether (Coroa Suprema) em ação positiva é recebido por Chochmá que o transmite em Ação Positiva dinâmica à Criação. Eis porque Chochmah é chamada a Segunda Glória. Porque dela mesma nada se faz, ele somente agem com Kether onde ela redistribui a Luz às outras Sephiroths. Enquanto Kether é a Vontade Divina, o “eu”, Ani אני da Criação, este deve ainda ser realizado o “Eu” deve se tornar um “Eu sou”, Ehyeh אהוה e isso é realizado em Chochmah.

A Sabedoria de Chochmá revela um conhecimento subjetivo e íntimo que é conhecido como interno e sem recurso a um ensino externo. Chochmah é o reino do Espiritual absoluto que manifesta a Essência. É Chochmá que dá forma ao poder latente e dormente de Kether e é por isso que é nela que o “eu” se torna “Eu sou”. A Luz original emanada de Kether desce ao nível de Chokhmah e a penetra. Em seguida, a Luz de Kether junta-se à Luz da Chokmah, e juntas eles descem sobre as outras Sephiroths.

Em nível de Gematria, podemos deduzir o seguinte:

Heth ח – 8, Kaph כ – 20, Mem מ – 30, He ה – 5; ou seja = 63.

Na análise da grafia das letras, podemos discernir imediatamente que a inicial de Chochmá é Heth, a Barreira, o que deve impedi-la de ir mais longe. Trata-se também do papel desta Sephira, ser uma barreira para o acesso de Kether que é inacessível ao mortal. A este respeito, o Tomer Dévorah (Palmeira de Debora) nos diz “A sabedoria tem duas faces: uma face superior virada para a Coroa (Kether), que não olha para baixo, mas recebe de cima; uma segunda face, inferior, é virada para baixo para vigiar as Sefiroth” (Moses Cordovero, Tomer Devorah, p.83, edições Verdiers).

Ali se diz que não se lê “Chochmá”, Sabedoria, mas “Rosh Mah”, “Cabeça de quem”, este Quem, este Mah מה é o mundo Inferior. Assim, a Sabedoria é o princípio do nosso mundo, a linha que deve ser diretora “. O que responde um pouco ao: ” Que significa ” sabedoria ” (חכמה)? Esperar (‘hakeh – חכ) alguma coisa (mah – מה) ” (O Shekel do Santuário Moisés de Leon).

Chokmah, Sabedoria, é igualmente “o palácio” (hekh, חך) do “qual” (Mah, מה), os segredos do mundo (representados por Mah) estão na Sabedoria divina como se diz: “יהוה me concedeu o princípio do seu caminho, antes de suas obras para sempre“(Prov. 8, 22).

Para entender bem o lugar da Chochmah no ciclo de Emanações divinas, é útil citar aqui o versículo 54 do Sefer ha-Bahir: “Isso se compara a um rei que tinha uma filha boa, agradável, bonita, perfeita. Ele a casou com um príncipe, a vestiu ricamente com ornamentos e coroa. Deu-lhe um grande dote. Pode o rei agora viver fora de sua casa? Você disse: Não. Pode ele ficar o dia todo com ela? Você disse: Não. O que ele fez? Ele colocou uma janela entre ele e ela, e cada vez que a garota precisa de seu pai ou o pai de sua filha, eles se comunicam através desta janela …“.

O Rei representa neste texto a Chokmah (Sabedoria), e a filha, a Malkuth (Reino), o arquétipo do feminino, o lugar da Presença Divina, a Shekhinah. Ela é a garota que deu à luz a todas as coisas. O rei se retira e se restringe a deixar uma “janela” através da qual ele pode se comunicar com sua filha; esta janela limita o espaço, mas pode ser aberta à vontade. É a letra He ה do Tetragrama יהוה, da qual se diz que ela representa os cinco níveis da Alma; elas são veladas, mas servem de ” janela” para Deus.

Estas personificações: pai, mãe, filha são representativas da doutrina do Zohar, porque, tradicionalmente, cada Sephira designa assim uma “pessoa” divina: Chochmah é Abba אב, o Pai. O nível da alma correspondente situa-se no mundo de Atsilouth e se chama Hayah, a vitalidade. Chochmah enquanto imagem do “Pai” divino é o Pai de todos, o Pai Supremo, a força viril e masculina. E Chochmah é o Pai de todos os existentes como se diz: “Que tuas obras são grandes, ó יהוה tu as fizestes todas com sabedoria“(Salmos 104, 24).

Os nomes de Chochmah.

Chochmah também é chamada “A Raiz do Fogo”.

Nomes divinos de duas letras Yah (יה), El (אל); Nome de quatro letras YHWH (יהוה).

Aqui é instrutivo refletir sobre esta transformação do Nome divino em Kether, que é Ehyeh (אהוה) em nome Divino יהוהo Tetragrama em Chochmah. A passagem de Aleph א, 1, Yod י10. A passagem do mundo arquetípico para o mundo da Formação.

Chochmah ainda é chamado de “A Roupa Interior da Glória”, que se pode entender como a luz interior.

Esta Sephira também é chamada Mah’shavah, Pensamento, מחשבהquer dizer o ponto do pensamento secreto do começo da expansão de Kether. A raiz ‘Hashab, חשב significa ” pensamento”. Podemos então ler essa palavra como Mah ‘hashab, מה חשב, ” Que pensamento” o sujeito do Pensamento incognoscível de Kether. Uma outra leitura seria Mach Shahbah, מח שבה, Shahbah significa ” capturar ” e Mach “cérebro”. O que poderia significar que a Sabedoria é a captura de ou pelo cérebro.

A Kabbalah também chama assim a Chochmá: “Moh’a” מח, o cérebro, porque o cérebro é um reflexo da Sabedoria. Com efeito, o cérebro é um receptáculo que se preenche, como a Chokhmah, de Luz do intelecto superior, enquanto beneficia o mundo inferior. O cérebro é uma potencialidade que pode ou não ser usada. Este desenvolvimento deve, naturalmente, ter lugar no trabalho e esforço, a fim de realizar o potencial. E Virya nos diz sobre isso: O desenvolvimento da esfera espiritual que é a Chochmah é conseguido através de esforço; na mística essa vontade é chamada de “Hishtadlouth”. Este termo vem da raiz “shidél” cujo significado é “exortar”, “encorajar”. Permutando-os, a palavra se torna “Lishé”, “revigorar”, “subir a seiva.” A permutação em um outro sentido dá “shéléd”, o “esqueleto”, a estrutura sobre a qual repousa a existência. O Hishtadlouth é o esforço que serve de estrutura para nossa força vital e espiritual.

Segundo o Shaarei Orah de Joseph Gikatila, os seguintes nomes estão associados à Chochmá:

Yesh – יש; Ratson – חצון; Yod rishonah shel Shem (Premier point du Nom) -יוד ראשונה של שם; Aba – אבא; Eden – עדן.

[viii] Binah. בינה

“O que Binah? Binah é produzido pela união de Yod י e de He ה, como seu nome ‘indica (Ben Yah בן יהFilho de Deus); é a perfeição de tudo” (Zohar: Idra Zouta Kadischa). Seu outro nome é Tébouna(תבונה) que se traduz como “Prudência”. A qualidade atribuída a Binah é o Silêncio. O silêncio segue a Sabedoria e se nutre dela! Silêncio – חשה, Hassah em hebraico- onde tudo é elaborado. O Silêncio e a Sabedoria que são mãe da inteligência, a inteligência que é o nome de Binah. A raiz “Bene” בין em hebraico significa “compreender”, “discernir” e בינה significa “compreensão”, “discernimento”. Esta Sephira é assim chamada porque ela é uma expansão do Pensamento. “Agora, graças à continuação da implantação, o praticante chega a discernir uma determinada coisa ou ter alguma compreensão do oculto e dissimulado, o que ele não tinha nem suspeitado, nem discernido antes, porque ele não se ocupava do que está oculto“(Haguiga 13a).

Binah é o poder feminino arquetípico: “No princípio feminino estão ligados todas as criaturas aqui abaixo. É dele que eles derivam sua alimentação e seu saber“(Zohar). Enquanto poder feminino, Binah é a matriz da vida e nela a Kabbalah e a teoria dos Parzufim, distinguem dois aspectos: ama (אמא), A mãe sombria estéril; aima (אימא), a mãe fértil radiante. – Binah é Imma, A mãe. aima dá vida; sua ação faz com que a força originária de Chochmah (que está nos Parzufim, Aba אבא o Pai) não se perde, mas pode cumprir seu caminho harmoniosamente na Manifestação, a inteligência sendo a manifestação da sabedoria, como se diz sobre ele: “O princípio da Sabedoria é adquirir a sabedoria (Chokmah) e com todos esses bens adquirir o a inteligência (Binah)” (Provérbios 4: 7).

Se Chochmah, raiz do Fogo é o princípio masculino, ativo, o Pai Supremo, Binah, quanto a ela, raiz da Água é o princípio feminino, passivo, a Mãe Suprema. Da união do Pai e da Mãe nascem as Sephiroths inferiores.

Como diz Moises de Leon no Livro da Granada: “A Chochmah é a dimensão da santidade chamada Santa, e quando a Chochmá se instala em sua Binah, de acordo com o segredo dos caminhos juntando a ela a Binah leva o nome de Santo dos Santos“.

A posição de Binah na Árvore da vida: no topo do pilar do Rigor, se explica considerando seus aspectos de gestão e limitação. Binah limita o poder penetrante da Chokhmah, e suaviza os efeitos a fim de transmitir às Sefiroths subsequentes e Binah transmite em nível emocional a Sabedoria da Chokhmah.

Em nível de Gematria, temos: 67 (beth, 2 + Jod, 10 + noun, 50+ he, 5): 13 por redução. Ora, 13 é a numeração de Échad, Un, אחד. Por ali vemos assim que, embora começando por Beth que é a letra da Criação e, portanto, da divisão, Binah contém, em seu nome, a Unidade divina intrínseca.

Binah também é chamada Marah, מרה, o grande Mar (Note-se que מרה = Amargura). Aqui encontramos as grandes Águas matriciais pelo Mem מ, inicial de Mayim, as águas.

Binah é ainda Khorsia, o Trono, a sede do poder divino. É o trono onde Malkuth, a Noiva do Microprosopo, é chamada a se sentar. Esta Sephira é intitulada “A roupagem exterior da dissimulação.” É ela que recobre Chochmah, a roupagem Interior da glória, como a substância contém a energia, então formulada. Esta imagem nos inspira a ir ao coração das coisas, a ignorar a aparência exterior.

A Palmeira de Débora diz de Binah: “Como o homem pode se acostumar com à medida do Discernimento (Binah)? Trata-se de retornar pelo arrependimento (teshuvá), nada é mais importante porque este repara todo dano ” (p. 88). Segundo Cordovero (ou Yaqar), aquele que medita sobre o arrependimento leva e recebe o Discernimento.

O Shekhel ha-Qodesh de Moisés de Leon dá os seguintes nomes para Binah: Palácio do Santo, Interioridade, Quinquagésimo Ano (uma pista para as 50 portas da Inteligência), Shofar, o Devir (Olam ha-Ba – עלם הבא). Tradicionalmente, o nome divino associado à Binah é יהוה Elohim. No entanto, no Shekhel ha-Qodesh, a Binah está associada a Eloha, אלה. O Shaarei Orah de Gikatilla nos dá os nomes seguintes que estão associados à Binah: Yovel – יובל; Teshouvah (retorno, arrependimento) – תשובה; Lashon (língua) – לשון; Nadir – נדר; Kipourim (perdão) – כפירים; Anoki (eu) – אנכי; Hayyim (vivo) – חיים.

[ix] תעַהַדַּ–וְאֶת הַתְּבוּנָה–וְאֶת הַחָכְמָה–אֶת וַיִּמָּלֵא

Ele a encheu de sabedoria, de inteligência e de conhecimento, Chochmah, Tabouna (outro nome de Binah) e Daat.

[x] Êxodo 31.3: Sobre Bezalel, “Eu [Deus] o enchi com o espírito de Elohim em sabedoria, em inteligência e em saber”וּבְדַעַת וּבִתְבוּנָהבְּחָכְמָה,

[xi] Jeremias 22, 13.

[xii] Provérbios 3, 13 e 18. Feliz o homem que atingiu a sabedoria, o mortal que implementa a razão … Ela é uma árvore de vida para aqueles que se tornam mestres dela: ligar-se a ela é garantir a felicidade.



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domingo, 12 de novembro de 2017



TRÊS ESTRELAS SOBRE TRÊS CANDELABROS ILUMINAM A LOJA


Tradução J. Filardo

por  Magali Aime


Os jovens iniciados não tiveram a oportunidade de conhecer as lojas iluminadas por velas belíssimas e muito simbólicas. Estas velas deviam ser feitas de cera de abelha pura, evocando o Trabalho, Atividade, Esperança. Se hoje a fada da eletricidade substituiu as velas, o simbolismo permanece muito presente.

Você disse Luz?

Uma primeira observação de aprendiz feita depois de receber a Luz: “nenhuma janela, nenhuma abertura para o exterior. No entanto, sobre o tapete da loja podemos ver janelas. Eu entendi através do meu segundo vigilante que a loja não é iluminada pela luz externa, simplesmente porque a Luz Universal só é visível a partir de dentro “, diz Valery.

O uso de cera e velas é facilmente compreensível. O venerável vai “dar, transmitir” a luz, àquele que conduz o iniciado no caminho da verdade e do conhecimento. A luz é simbolicamente onipresente nas lojas.

Por que o fogo, porque a chama para iluminar o templo?

Encontramos a chama, símbolo da vida na maioria dos rituais de iniciação, religiosos ou rituais de passagem. Em todas as liturgias, o simbolismo da chama é ternário: o corpo, a alma, o espírito. Os autores de textos religiosos falavam de Trindade: a cera representando o pai, o pavio representante o filho, e a chama representando o espírito.

“Eu tive a oportunidade de conhecer a transmissão da luz graças a velas verdadeiras. Há um tipo de magia, quando o venerável dá a luz e acende as estrelas (os candelabros). Eu me sinto mais solenidade, silêncio interior e espiritualidade. Estas novas luzes elétricas me parecem frias. Este é ainda um outro esforço a se fazer sobre si mesmo para entrar no mundo espiritual” lamenta Jean-Michel. E assim, algumas oficinas ignoram esta nova forma e continuam a usar velas.

Uma chama nunca será soprada, mas esmagada pelo malhete ou um cone, pois “nada havia de mais precioso e sagrado, junto aos Persas, que o fogo. (…) porque não há nada que represente tão bem a divindade” escreve Mandeslo.

Então, esses três pilares ou três estrelas?

“Como aprendiz, levei algum tempo para reconhecer as formas arquitetônicas desses pilares candelabros. Dórico, jônico e coríntio, exatamente como a sua atribuição enquanto símbolos”, disse Sandrine agora no grau de companheiro.

Estes três pilares correspondem cada um a um ofício, a uma ordem arquitetônica, a três dos Sephiroths, três sentidos muito fortes que têm um lugar importantes na loja. Eles também definem o espaço, o tempo, o senso de dever do maçom e os três principais ofícios: o pilar dórico simboliza a força que sustenta; ele é atribuído ao primeiro vigilante; o pilar Corinto simboliza a beleza que adorna; ele é atribuído ao segundo vigilante; finalmente, a coluna jônica simboliza a sabedoria que preside a qualidade do trabalho. Ele é atribuído ao Venerável Mestre.

“Logo serão 20 anos de maçonaria, e é sempre a mesma sensação: assim que as três estrelas são acesas, eu me sinto pronto para trabalhar, para escutar, sentir, dividir os trabalhos. O mesmo acontece ao final dos trabalhos, eu sinto uma sensação de completitude. A magia se rompe, este tempo e este espaço são privilegiados vão terminar. Uma questão ainda me atormenta: é saber se lá fora eu me comporto como um Maçom? Se não, para que tudo isso? ”

Devemos pensar em “completitude” assim que o Venerável e os 2 vigilantes apagam as velas dos candelabros como Philipe se sente? Claro que não. Apagar as Estrelas, é dizer os membros da oficina: “juntos acabamos de procurar no mais profundo de nós mesmos a força, sabedoria e beleza; agora é a hora, enriquecidos em nossos pensamentos, de ir para fora e levar a paz, o amor, a alegria”; não é esse o objetivo do Maçom: irradiar para o exterior a luz que brilha no interior?




O QUE É A PALAVRA PERDIDA?


Tradução J. Filardo
Contribuição do Ir.’. J.M. Batalla



A expressão palavra perdida aparece nos rituais do Terceiro grau, onde também se fala da perda dos verdadeiros segredos do mestre maçom. No entanto, parece que as duas expressões são relativamente intercambiáveis; assim o documento Prichard de 1743 e a instrução do Terceiro grau no Rito Escocês escocês da Loja-Mãe Escocesa do Oriente de Avignon de 1774 o dizem:

P: Por que fizeram você viajar?

R: para encontrar o que foi perdido.
P: o que foi perdido?

R: a palavra do Mestre.
P: Como foi perdida a palavra?

R: pela morte de nosso respeitável mestre Hiram.

Um homem morre, recusando-se a entregar uma senha trivial para receber o salário, conhecida por todos os mestres, e um segredo que ele detinha, também desaparece. O segredo não é, portanto, a senha. Então, é um conhecimento que só ele possui? É uma parte de uma palavra a ser pronunciada com outras para torná-la completa e eficiente? A palavra de Hiram seria outra coisa diferente daquela de um só homem? O que pode ser esta palavra para o maçom de hoje? Não nos esqueçamos que a palavra Hiram traz, em si mesma, mistérios e entre suas muitas traduções do hebraico, ela também pode ser lida como HaReM que significa a coisa escondida.

O saber pessoal

Qual seria este saber?
No Rito de York, na morte de Hiram, que diz: “Não há plantas sobre a prancha de traçar para permitir aos trabalhadores continuar o seu trabalho, e o G:. M :. H :. A :. desapareceu. ” Sobre a prancha, o mestre de obra modifica a planta segundo a qual a construção do Templo deverá ser feita. Esta prancha serve permanentemente de ponto de referência para a obra que vai ser realizada à medida que o trabalho progride. Quando a obra está terminada, ela deve ser sobreposta exatamente ao traçado que está sobre a prancha. O conceito teológico da arte de construir pode ser resumido em uma pesquisa de correspondência perfeita entre beleza pura que pertence só a Deus, e o espelho que lhe deve oferecer o arquiteto, através de sua obra, para que ela se revele aos olhos dos homens. Concretamente, o que foi perdido seria que essa capacidade arquitetural de projetar o edifício e terminar a obra?

Mas, vamos mais longe. Hiram foi enviado pelo rei de Tiro a Salomão pelo seu conhecimento tão especial quanto aqueles que possuía Bezalel, o construtor da Arca da aliança do deserto: ele era hábil para trabalhar em ouro, prata, bronze e ferro, pedra e madeira, em estofamentos pintados de púrpura e azul, tecidos de linho fino e de carmesim, e todos os tipos de esculturas e objetos de arte que lhe dão para executar (II Crônicas, 2, 13 e 14) . É graças a três virtudes que o primeiro templo foi construído por Bezalel porque está escrito em Exodo 31,3: “Eu [Deus] o enchi com o espírito de Elohim em sabedoria, em inteligência e em saber” “בְּחָכְמָה וּבִתְבוּנָה וּבְדַעַת”, virtudes que são encontrados em Hiram em I Reis 7, 14 “cheio de sabedoria , inteligência e conhecimento “” אֶת-הַחָכְמָה וְאֶת-הַתְּבוּנָה וְאֶת-הַדַּעַת “Estas três virtudes, conceitos, atributos divinos, tipos de forças, ou níveis de consciência são os processos na obra das estruturas vivas, correspondendo às 3 sefiroths: Chokmah, a sabedoria; Tébouna, ou Binah, a inteligência; Daath, o saber, o conhecimento. A soma dos seus valores gemátricos após redução é equivalente ao que liga as duas colunas Yakin e Boaz [1]que Hiram fundiu. A palavra perdida seria o espírito de Elohim, esta capacidade criativa, como a do Maharal de Praga com o seu Golem de que seria dotado Hiram? John Yarker que, em um artigo sobre o Rito de York e da antiga maçonaria em geral, observa que “na verdade, os trabalhadores conspiraram ilegalmente para extorquir de Hiram Abiff um segredo, aquele do animal surpreendente que tinha poder de cortar as pedras. O segredo que foi perdido pelos três Grãos Mestres é o do inseto shermah (shamir), que era usado para dar um perfeito polimento às pedras. Considerando esta observação de Yarker, o segredo operacional do shamir seria “o que foi perdido”? Da mesma forma, na apresentação do ritual Wooler, parecido com o texto de Yarker, lemos em um catecismo do terceiro grau: “Após a construção do Templo, os obreiros de mais alto nível, conhecidos pelo nome de “Excelentíssimos”, aceitaram os grandes segredos relativos ao nobre In … Sh … que era o segredo dos três Grãos Mestres e [pelo] qual HAB foi morto”; o uso de abreviaturas provando caráter esotérico ou presumido como tal, da informação. Em seu Miscellanae Latomorum, o Dr. William Wynn Westcott propõe uma passagem de um antigo ritual que fala especificamente sobre o segredo do inseto shamir e dos três Grãos Mestres. Eis o nosso interesse maçônico despertado. Esta tradição maçônica é ignorada hoje, mas interessemo-nos neste Shamir; tentemos encontrar algumas fontes desta incrível história. Este shamir milagroso teria sido especialmente criado no início do mundo para este uso operacional. Segundo esta lenda, quando Salomão perguntou aos rabinos como construir o templo sem o uso de uma ferramenta de ferro, para cumprir, é claro, as instruções de Deuteronômio (Êxodo 20:21; Se, contudo, você me construir um altar de pedras, não construa de pedras lavradas, pois, por tocá-las com o ferro, você as profanou), elas chamam sua atenção para o shamir pelo qual Moisés teria gravado o Nome das tribos no peitoral do sumo sacerdote. Vejamos isso mais de perto. Ranulf Higden (1300-1363), em seu Polychronicon cita a lenda do verme de corte de pedra, que ele chama de thamir. Na Enciclopédia Judaica encontramos esta lenda que relata que com a recomendação dos rabinos e para não usar o ferro, Solomon cortava as pedras usando o shamir, um animal, um verme cujo contato bastava para rachar a pedra. Encontramos essa lenda também na literatura árabe e até mesmo no Corão. Na literatura talmúdica, existem muitas referências a Shamir. Qualidades incomuns são atribuídas a ele. Por exemplo, ele poderia desintegrar qualquer coisa, mesmo tão duras quanto pedras. Entre suas posses, Solomon o considerava a mais maravilhosa. Rei Salomão estava ansioso para ter o Shamir, porque ele tinha ouvido falar sobre ele. O conhecimento do Shamir é de fato atribuído por fontes rabínicas a Moisés. Após muito procurar o Shamir do tamanho de um grão de cevada, ele o encontrou em uma terra distante, no fundo de um poço, levado a Salomão, mas, estranhamente, ele perderá suas capacidades e se tornará inativo séculos mais tarde, por volta da época em que o Templo de Salomão foi destruído por Nabucodonosor.

Surpreendente e curioso Shamir? O que é então?

Segundo os autores medievais, Rashi, Maimonides e outros, Shamir era uma criatura viva, um verme; sustentando que Shamir não poderia ser um mineral porque era ativo. Este verme mágico tinha o poder de modificar a pedra, o ferro e o diamante, com um simples olhar. Além disso, as fontes rabínicas transmitiram a descrição da gravação dos nomes das doze tribos sobre as doze pedras preciosas da couraça do sumo sacerdote (peitoral); Moisés o fez não por escultura, mas, escrevendo com um certo fluido e as “mostrando” a Shamir, ou expondo-os à sua ação. Na opinião dos autores modernos, a expressão “mostrado ao Shamir” indica claramente que era o olhar de um ser vivo que realizava a divisão de madeira e pedra. Admite-se que nas fontes talmúdicas e midráshicas, nunca se diz explicitamente que o Shamir era uma criatura viva.3Enquanto Shamir / schamir / Samur, conforme encontrado na expressão, verme do tamanho de um grão, ou outra coisa, uma pedra de acordo com as diferentes fontes literárias?

Uma fonte antiga, A Lenda de Soliman e Testamento de Salomão[2], um livro escrito em grego, provavelmente no início do terceiro século da era atual, refere-se ao Shamir como uma “pedra verde” na página 10 Nota 31: o Shamir seria uma pedra de cristal verde de grande poder. O nome provavelmente deriva de samir / espinho ou afiado. Somente se reconhece a existência de um único shamir. Ele é esculpido em forma de escaravelho da espécies sacer ateuchus. Este é o motivo pelo auql se confundia o shamir com um inseto.

Mas como uma pedra esverdeado teria cortado o mais duro dos diamantes somente com seu olhar? Retomemos o conto de Louis Guinzberg em 1909 em Lendas dos judeus, que, inspirado pela exegese rabínica, conta a história de uma forma muito fantástica: o Shamir foi criado no crepúsculo do sexto dia com outras coisas extraordinárias. Não era maior que um grão de cevada e tinha o poder notável de esculpir os diamantes mais duros. É por isso que era usado para a pedras do peitoral usado pelo sumo sacerdote. Primeiro, traçam-se os nomes das doze tribos sobre as pedras que deviam ser engastadas no peitoral e, em seguida, o shamir foi conduzido sobre as linhas desenhadas e elas foram assim gravadas. Circunstância milagrosa, o traçado não tinha qualquer partícula de pedra. Tinha-se também usado o shamir para talhar as pedras com que foi construído o Templo, porque a lei proibia o uso de utensílios de ferro e todo o trabalho destinado ao Templo. Para mantê-lo, não se pode colocar o shamir em nenhum recipiente de ferro, nem de qualquer metal, que ele faria explodir. Ele deve ser mantido envolto em um cobertor de lã que por sua vez é colocado em uma cesta de chumbo cheia de farelo de cevada. O shamir ficou guardado no Paraíso, até o dia em que Salomão precisou dele. Ele enviou uma águia para ali buscar o verme. Quando da destruição do Templo, o shamir desapareceu [3]. A maneira como o Shamir era mantido em segurança pode nos dar uma pista: “O Shamir não pode ser colocado em um recipiente de ferro para ser guardado ou em qualquer vaso de metal: ele faria explodir tal recipiente. Ele é mantido envolto em lã dentro de uma caixa de chumbo preenchida com farelo de cevada. Esta frase é retirada do Capítulo 48b do Talmud babilônico, e contém um índice importante; porque, com o conhecimento atual, podemos facilmente adivinhar quem ou melhor, o que era o Shamir: uma substância radioativa; sais de rádio, por exemplo, agindo sobre alguns outros produtos químicos podem emitir luminescência de cor amarelo-verde. Isso explicaria como o peitoral do sumo sacerdote foi gravado: as letras foram escritas em tinta, e as pedras foram expostas uma após a outra ao “olhar” ou radiação do shamir. Esta tinta devia conter pó de chumbo ou óxidos de chumbo. As partes das pedras que não foram protegidas pelo chumbo se desintegraram sem deixar partículas de poeira, que de acordo com o Talmud, parecia particularmente maravilhoso. As partes protegidas com tinta de chumbo se destacavam em relevo sobre a superfície das pedras preciosas[4]. O bem mais precioso de Salomão, seu Shamir não sobreviveu ao longo do tempo, tornou-se inativo. A versão habitual da história “o Shamir desapareceu”, não coincide com a tradução exata do texto hebraico. A palavra batel, usada para descrever o fim, ou o desaparecimento do Shamir tem apenas um significado: “Para se tornar inativo”. Nos quatrocentos anos que se passaram desde a construção do primeiro Templo até sua destruição por Nabucodonosor em -587, uma substância radioativa poderia ter-se tornado inativa[5]. O segredo de Hiram seria que o do uso de algum tipo de laser radioativo[6]?

O conhecimento compartilhado

E se a “palavra” era um conjunto de elementos divididos entre vários detentores cuja ignorância de um único levaria à ineficiência de todos? Um pedaço de código, em suma, um pedaço de símbolo! Na lenda, na verdade, três pessoas formam um triângulo: Salomão, o rei de Tiro e Hiram , os três grãos-mestres, a cada um designada uma função específica e indispensável na construção do Templo. Diz a lenda que o rei Salomão, Hiram Abiff, o rei de Tiro (1 Reis: 7:13), e Hiram Abi, da tribo de Dan (2 Chr:. 2:13) se reuniram para elaborar os planos de construção do Templo; Salomão concebeu, Hiram de Tiro forneceu os meios e Hiram realizou o trabalho. Nós aprendemos que o grande conhecimento devia ser guardado por três pessoas até a conclusão do Templo. A palavra lhes teria sido confiada em três partes. Cada membro da tríade seria guardião da palavra sagrada ou de uma fração dela. Era necessária a presença dos “três primeiros Grão-Mestres”, de modo que a ausência ou desaparecimento de um deles tornava essa comunicação impossível, e isso também, necessariamente, pois são necessários três lados para formar um triângulo. Isto significa que cada membro do triângulo constitui a ponta de uma figura dotada de um centro comum. Este centro é o ponto de convergência de três sensibilidades: mágica, espiritual e racional que eles encarnam. Este centro é, portanto, a essência do homem e da natureza, ou seja, a essência da vida que se traduz concretamente em força vital ou energia vital. Como é que, sabendo que a palavra só poderia ser passada através da reunião de 3 (Rei Salomão, rei Hiram de Tiro e Hiram), como é que nenhum deles tinha pensado em passar seu conhecimento a um discípulo para que a cadeia não se quebrasse em caso de desaparecimento? Eles acreditavam erem imortais? Os estudiosos de rituais assemelham a pronúncia do Tetragrama à da “palavra perdida”. Ela devia ser um trissílabo. A sílaba é realmente o elemento indecomponível da palavra falada, mesmo se ele é escrito naturalmente em quatro letras. Com efeito, quatro (4) se refere aqui ao aspecto “substancial” da palavra e 3 ao seu aspecto “essencial”. Note-se também que a própria palavra substituída, na sua pronúncia ritual, em suas várias formas, é sempre composta de três sílabas que são enunciadas separadamente. Considerando-se que entre os hebreus, o sumo sacerdote, o Cohen Gadol, era o único detentor da pronúncia recta dictia e total da palavra sagrada que ele cantava uma vez por ano no santo dos santos, o que poderia significar que a palavra não foi perdida e se Solomão a substituiu é que ele pensava que seu mestre de obra havia cedido à pressão de seus agressores a revelando: era preciso, portanto, alterar a palavra.Neste mesmo sentido, nota-se que durante a destruição do Templo de Jerusalém e a dispersão do povo judeu, a verdadeira pronúncia do nome tetragramático foi perdida; houve de fato um nome substituído, o de Adonai, mas ele nunca foi considerado como o equivalente real daquele que não se sabia mais pronunciar. Com efeito, a transmissão regular da pronúncia exata do principal nome divino, designado como ha-Shem ou o Nome por excelência, estava essencialmente ligada à continuação do sacerdócio cujas funções só poderiam ser exercidas no Templo de Jerusalém; seria ele o centro espiritual da tradição que se perdeu? Os mistérios de sociedades iniciáticas da antiguidade perpetuavam as tradições antigas da humanidade e os novos conhecimentos de organismos científicos para elevar acima de seus semelhantes, iniciados considerados aptos a fazer dela uso útil para todos. Este ensinamento lhes era dado pela palavra de boca à orelha depois de assumido o compromisso por um juramento ameaçador de não a transmitir a outros iniciados, a não ser na mesma forma e condições. Conta-se que eles eram donos de segredos científicos formidáveis ​​e benéficos, cuja alta moral impunha respeito, mas eram provavelmente desviados da sua ação benéfica, para serem transformados em um mau propósito. As iniciações foram interrompidas; os iniciados se extinguiram, levando com eles na morte os segredos que lhes foram confiados. Os segredos dos ritos iniciáticos para a entronização dos faraós, verdadeiros mistérios da linha real do Egito foram perdidos para sempre com a morte do rei Sekenenrê Taâ que morreu sem ter revelado o seu inimigo que os queria arrancar dele.Em alguns casos, em vez da perda de uma língua, fala-se apenas sobre uma palavra, como, por exemplo, um nome divino, caracterizando uma certa tradição e a representando de alguma forma sintética; e a substituição de um novo nome substituindo aquele, marcará então a passagem de uma tradição para outra. Às vezes, também, há menção de “perdas” parciais que ocorreram em determinados momentos críticos ao longo da existência de uma mesma forma tradicional: quando elas foram reparadas pela substituição de algum equivalente, elas significam que uma readaptação da tradição considerada foi então necessária pelas circunstâncias; caso contrário, elas indicam uma diminuição mais ou menos grave daquela tradição que não pode ser remediada mais tarde[7].

O que pode ser a palavra perdida para um Maçom de hoje?

As observações que acabamos de fazer mostram que a palavra perdida seria um saber, ou uma pronúncia, ou um conhecimento espiritual ou mágico, ou, ainda, o traço da passagem de uma tradição para outra. A palavra perdida do Maçom me parece um pouco diferente. Não podemos cometer o erro dos maus companheiros que acreditavam que o segredo do mestre maçom tinha sua origem na comunicação de um saber; nossa pesquisa é bastante diferente, uma vez que se coloca no plano do Conhecimento, aquele do ser e do espírito, da imanência e da transcendência. No exoterismo judaico, a palavra que veio substituir o Tetragrama que não se sabe mais pronunciar é outro nome divino, Adonai, que se forma igualmente por quatro letras, mas que é considerado menos essencial; há ali algo que implica em que se está resignando a uma perda considerada irreparável, e que se procura remediar somente, na medida em que as condições atuais ainda permitem. Na iniciação maçônica, ao contrário, a “palavra substituída” é uma questão que abre a possibilidade de encontrar a “palavra perdida”, de modo a restaurar o estado antes da perda. A palavra perdida destaca a necessidade de uma nova percepção e uma nova linguagem relativa à noção de essência e de presença além da forma. Ela não deve ser entendida como unicamente uma perda na transmissão, mas como o início de um aprendizado de outros elementos de línguas. Temos a nos perguntar sobre como encontrar esta palavra [8]ou com substitui-la por outra de mesmo poder.



[1] Se, como em gematria simples não se da um valor especial às letras finais: Yakin se escreve

“יָכִין“Yod, kaph, yod, noun e tem um valor de 10 + 20 + 10 + 50 = 90; Boaz se escreve “בֹּעַז“Bet Ein, Zain e tem um valor de 2 + 70 + 7 = 79.

Entre as duas há uma diferença, uma presença de 11.

Hakhmah “חָכְמָה” sabedoria, (Heith, kaph, mem, he) ou seja 8 + 20 + 40 + 5 = 73

Tébouna, ou Binah “תְבוּנָה” inteligência (tav, beith, vav, noun, he) ou seja 400 + 2 + 6 + 50 + 5 = 463

Daath, “דַעַת”Conhecimento, saber (dalethh, ein, tav ) ou 4 + 70 + 400 = 474

O conjunto das três virtudes: 73 + 463 + 474 = 1010 ou por redução 11

[2] De acordo com as crônicas de Tabari me d Ibn Djarir, Sabine Baring-Gould, Ahimaaz bin Tsadok, Louis Ginzberg, John D. Seymour.. https://books.google.fr/books?id=-oEaEmuYFPoC&printsec=frontcover&hl=fr#v=onepage&q&f=false

[3]A se aproximar do Urim e do Thumim que são geralmente considerados como objetos relacionados à arte da adivinhação. Em hebraico, a palavra Urim significa luzes e Tumim, perfeições, às vezes traduzido como verdade. Os estudiosos judeus as descrevem como um instrumento usado para dar a revelação e declarar a verdade. Elas desapareceram com a destruição de 1o.Templo, o shamir. por sua vez, desapareceu com a destruição do Segundo Templo. Eles estão todos relacionados ao peitoral usado pelo Sumo Sacerdote de Israel.

[4]A maioria das gemas, como o diamante, a safira, a esmeralda ou o topázio, são descoloridos por radioatividade. Outras gemas, tais como a opala, são compostos por cristais de sílica hidratados. A radiação alfa os desintegra ao quebrar a ligação com a água; esta se evapora sem deixar resíduo.

[5]O rádio perde cerca de um por cento de sua radioatividade a cada 25 anos


[7]A morte de Hiram e a Palavra Perdida de René Guénon:


[8]Rito Emulação
(ao 1o. V.) O que então está perdido?

1o V.- Os verdadeiros segredos dos MM.’. MM.’.
(ao 2o. V.) Como é que eles perderam?

2o V.- Pela morte prematura de nosso M.’. H.’. A.’.
(ao 1o. V.) Onde você espera encontrá-los?

1o. V. – No centro
(ao 2o. V.) O que é o Centro?

2o V.- Um ponto dentro de um círculo que é equidistante de todas as partes da circunferência.
(ao 1o. V.) Por que no centro?

1o. V.- Porque este é o ponto onde o M.’.M.’. não pode falhar.
Nós lhe ajudaremos a reparar essa perda.


Fonte: http://www.solange-sudarskis.over-blog.com