sábado, 26 de agosto de 2017



HISTÓRIA DA MAÇONARIA UNIVERSAL
A ORIGEM ANTIGA DA FRANCOMAÇONARIA´


Revista Hiram Abiff nº 140.
Tradução: Pedreiro de Cantaria

A CADEIA DOS MISTÉRIOS


O estudioso da maçonaria sabe que não existe apenas uma “História” da Ordem. Por isso nos ocupamos de reproduzir o maior número de versões que permitam ao iniciado saber de que se trata e quais são elas. Neste caso vamos reproduzir a que se encontra na página WEB da Grande Loja da Venezuela, por entender que contem suficiente informação para motivar os queridos irmãos a indagar e investigar a fim de ampliar sua visão sobre a magnitude da história que nos antecede e assim ter claro um panorama que nos permita localizar um tanto mais da verdade histórica. Por essa razão é que hoje apresentamos esta versão. Enquanto a origem da maçonaria iniciática se perdem nas noites do tempo, muitos historiadores a consideram nascida de uma associação de pedreiros formada quando da construção da Catedral de Estrasburgo no século XII, outros a atribuem a Olivier Cromwell (1759-1658), Lord Protetor da Inglaterra no século XVI, e até se chegou a afirmar que provém de uma continuação dos Jesuítas. É uma ideia muito divulgada que os maçons operativos da Idade Média tinham uma lenda relacionada com o Templo de Salomão e possuíam um corpo de tradições legados pelos Colégios Romanos e os ensinamentos adquiridos pelos Templários no Oriente Próximo. No entanto, pode-se acrescentar que os mistérios e rituais da maçonaria vêm de transmissões regulares dos mundos do Antigo Egito, Gregos, Romanos, dos ensinamentos Cristãos, dos Cabalistas da Idade Média, da Escola de Alexandria, dos Rosa-cruzes, dos Hermetistas do Renascimento e do século XVIII. Empregando um axioma histórico: o corpo da Maçonaria nasce na Idade Média, porém seu espírito remonta mesmo às origens da civilização, o que faz dos maçons herdeiros e guardiães das tradições dos Patriarcas da Humanidade. 

A TRADIÇÃO HINDU E DOS BRAMANES


Os Mistérios da Índia são de uma antiguidade tão remota que Buret de Long-Champs, supõe terem sido criados cinquenta séculos antes da era vulgar e até mesmo de derivar deles a história geral do mundo. 

A doutrina destes mistérios era toda teogonica e suas aplicações à física se aproximavam, segundo Vassal, a Maçonaria atual. A teogonia dos Brâmanes está consignada no Schasta ou Vedas, escrito em sânscrito há 4.960 anos. Existe um princípio divino impessoal Brahm, que se manifesta em múltiplas reencarnações, das quais as mais importantes são Brahma, Vishnu e Shiva, que formam a trindade da religião hindu. Brahma é o Deus supremo, emanação de Brahm e criador do mundo, dos deuses e dos seres; Vishnu desempenha o papel de preservar o mundo, alma universal presente em tudo e para tudo e Shiva, deus destruidor e fecundador que embora seja de caráter mitológico, é conforme a dos hebreus (os mistérios). Os mistérios dos Brâmanes tinham sobretudo a instrução da classe sacerdotal. Ao que parece, foram, segundo Voltaire, os primeiros teólogos, filósofos e legisladores do mundo, e para eles o sacerdócio era a magistratura, e sua religião a justiça.

Conheciam as doutrinas de iniciação primitiva dos magos, e para eles os mistérios da Índia eram puramente religiosos. Para ingressar na sua Ordem deveria ser um Brâmane de nascimento, isto é, pertencer a casta mais alta de todas as que formam a raça indiana. Durante sua instrução deviam permanecer no mais profundo silêncio. Por espaço de trinta e sete anos sua vida era dura, se alimentavam de ervas e raízes, vestiam de forma muito simples, jejuavam e oravam constantemente e permaneciam horas de pé com os braços levantados tratando de ver uma pequena chama azul sobre seu nariz. 

Pregavam que o mundo havia sido criado por uma inteligência suprema, cuja providência o governa e o conserva no todo; que a alma não morre nunca, mas que passa de um corpo a outro à mercê da metempsicose, e que vai recebendo nas sucessivas vidas as penas ou recompensas que tenha sido credora nas encarnações anteriores, à Lei do Karma. Ensinavam que o universo estava sujeito a corromper-se e ser destruído; declaravam que a vida é um estado de concepção e a morte um verdadeiro nascimento e tinham um profundo respeito por todas as formas viventes. Não admitem diferença entre a alma de um homem e a de um animal, segundo suas doutrinas as almas existem desde a eternidade e foram distribuídas entre todos os seres viventes. 

Foram os Brâmanes que ensinaram aos Egípcios as primeiras ideias dos Mistérios. 

A TRADIÇÃO EGÍPICIA


Talvez o mais antigo povo que exerceu uma grande influência nas culturas de todos os tempos foi o Antigo Egito, terra de grandes iniciados, considerada como o berço dos mistérios, onde a verdade foi coberta com o segredo da alegoria e onde os dogmas da religião foram comunicados pela primeira vez em forma de símbolos. A antiga história do Egito parte da primeira dinastia, fundada por Man ou Mena, há uns 5.000 anos a. C., Mas a história antiga do Egito se estende mais além, a era dos Reis Divinos das Dinastias Atlantes que governavam esse país durante milhares de anos e dos quais nos chegaram tradições, em forma de mitos e lendas que já eram antigas à chegada de Mena. Foi neste povo, onde o Grande Mestre do Mundo chegou da Grande Loja Branca, usando o nome de Tehuti ou Thoth, cujo nome helenizado nos chegou como Hermes, o Trimegisto (o três vezes sábio). 

A iniciação dos Egípcios, conhecidos com o nome de Mistérios de Isis e de Osiris, segundo Vasal, remontam a uns 2.900 a.C. e foram grandes instituições públicas sustentadas pelo Estado e seus ensinamentos compreendiam todas as artes e ciências do Oriente. O centro principal dos trabalhos estava localizado na cidade de Menphis, próximo à Grande Pirâmide. Esta pirâmide foi construída com base em elevados cálculos matemáticos e astronômicos, de maneira que ela representava o Universo, e os iniciados se dedicavam simbolicamente a sua construção, tal como os maçons modernos se dedicam a construção do Templo de Salomão. Os Mistérios estavam agrupados em Mistérios Menores e Mistérios Maiores, divididos em três graus e eram comunicados aos iniciados sob solenes juramentos de segredos, sua instrução estava envolta nos rituais de iniciação, passagem e elevação e é basicamente desta forma que chegou a maçonaria dos Graus, correspondendo cada um deles a um tipo de iniciação ou passagem de graus. 

Assim se tinha os Mistérios Menores que correspondia aos Mistérios de Isis, e se assemelha ao grau de Aprendiz Maçom. Eram cerimônias preparativas para os outros graus superiores, onde o iniciado recebia instruções nas leis físicas da natureza, a necessidade da purificação moral. Os Mistérios Maiores correspondiam ao segundo e terceiro graus. O segundo grau constitui os Mistérios de Serafis, nestes se comunicava instruções práticas sobre o desenvolvimento do corpo mental e seguramente se relacionava com a morte de Osiris. 

O terceiro grau era chamado de Mistérios de Osiris, e correspondia ao Grau de Mestre Maçom. O ritual era muito impressionante, no qual o candidato devia passar por uma representação simbólica da morte, a busca do corpo e a ressurreição de Osiris.

A síntese egípcia deixa vários sinais que a tradição ocidental tomara a seu favor: 

- Uma teologia da ressurreição aportada pelo mito de Osiris; 

- A prática de ciências sagradas destinadas a manter a comunicação entre os diversos mundos humano e divino; 

- A ideia de um verbo criador e a revelação de segredos; 

- Uma cosmografia orientada e ordenada ao redor de um centro, o Templo. Nesta última surge a imagem do templo constará os ensinamentos de todos os esoterismos cujo simbolismo repousa na Arquitetura chamada de Arte Real. 

O Templo obedece a uma cosmografia. Está orientado sobre cálculos astronômicos e sua fundação a ritos precisos, sob a autoridade de Thot. Casa de Deus construída com as ferramentas sagradas do número da geometria, edificada com materiais eleitos, o simbolismo se completa com os hieróglifos que ornam suas paredes. Esta ideia será aproveitada mais adiante pelos judeus na construção do Templo de Salomão.

OS MISTÉRIOS DA GRÉCIA



.Parece ter sido a Grécia o Templo verdadeiro de todos os mistérios antigos e de onde foram transmitidos aos tempos modernos. O fundador dos Mistérios Gregos foi Orfeu, poeta e príncipe de Sicyonios, na Trácia, o qual, depois de ter adquirido os conhecimentos científicos do Colégio de Menphis, viajou pela Grécia até o ano 1.330 a. C, onde regularizou os Mistérios de Eleusis e destruiu os erros que haviam servido de base aos Mistérios da Deusa Ceres. Orfeu ensinou por meio da música, por meio do som, e trabalhou sobre o corpo astral e mental de seus discípulos, purificando-os e engrandecendo-os, lhes mostrou imagens vivas criadas por meio da música e ensinou que o som era imanente em todas as coisas, e que se um homem estivesse em harmonia consigo mesmo, então a Divina Harmonia se manifestaria nele. 

OS MISTÉRIOS DE CERES OU DE ELEUSIS


Os Mistérios de Ceres ou de Eleusis foram divididos por Orfeu em graus: o primeiro chamado Isotérico (público). Estes desenvolviam a teogonia egípcia por meio de seus emblemas e moral, e o segundo chamado Esotérico (particular aos iniciados) onde se ensinava não só o sistema físico da natureza, mas também todos aqueles conhecimentos que pudessem influir diretamente na civilização dos povos. O controle dos Mistérios de Eleusis nos tempos clássicos ficaram em mãos de duas famílias: os Elmópidas, de onde se elegia o Oficial Chefe ou Hierofante e os Keryces ou Heraldos ou portadores da dupla tocha, que eram os segundos na faixa chamada de Dadaukós, o terceiro oficial era o Hieroceryx ou Heraldo (comandante) sagrado eleito dentre os Keryces que cuidavam de forma geral do templo, e tinha a seu cargo os aspirantes durante as provas da iniciação. Um quarto oficial era o Epibomus, ou Servidor do altar, que dirigia os sacrifícios. 

Os Mistérios estavam divididos em dois graus, os Menores e os Maiores. Nos Menores, celebrado no templo de Demeter e Cora, na Agra, próximo de Atenas onde se ensinava sobre a vida depois da morte no mundo intermediário ou astral A cerimônia era celebrada pelo Hierofante assistido pelos oficiais e os iniciados neste grau eram chamados de Mystae, que denota fechar os olhos e significava que ainda estavam cegos para as verdades que se revelariam mais adiante e, como no Egito eram submetidos a duras provas e a um severo treinamento para o desenvolvimento dos sentidos do plano astral e seu objetivo era preparar o neófito para sua recepção nos Mistérios Maiores.

Os Mistérios Maiores eram celebrados em Eleusis durante o mês de setembro e duravam nove dias, em honra as deusas Demeter e Persephone. O Templo de Eleusis se dividia em três partes: o megaron ou santuário, correspondente ao lugar sagrado do Templo de Salomão, o anactorón, ou santo dos santos e o departamento subterrâneo sob o templo. As regiões infernais, e o castigo do iniciado ímpio era simbolicamente representado neste subterrâneo e era um drama de Demeter, Persefone e Plutão. Nesses mistérios o ensinamento da vida depois da morte era estendido até o mundo celestial, e continuava com o estudo da cosmogênesis e antropogênesis. Os iniciados eram chamados de Adoptae e isso significa o que contempla. 

A lição, o dogma, o método de instrução representado por símbolos, o vínculo secreto da fraternidade, deram importância a estes mistérios que perduraram até a queda do Império Romano. O Orfismo influenciará os primeiros cristãos, depois de haver encontrado o pensamento Pitagórico. Será assimilado em alguns de seus princípios esotéricos por grupos iniciáticos sérios na Idade Média como o rosacrucianismo e a maçonaria. Se bem que nós, na Maçonaria, não herdamos a sucessão de Eleusis diretamente. Algo de sua inspiração foi recebido em nossos ritos, os quais tem o mesmo propósito, simbolizam os mesmos mundos invisíveis e sua tarefa é preparar o candidato para a augusta tarefa que se encontra por trás de todos os mistérios. 

A ESCOLA PITAGÓRICA

 

A escola Pitagórica foi criada pelo filósofo Pitágoras, nascido em Samos, no ano de 582 a. C. Durante sua juventude viajou por muitos países do Mediterrâneo onde foi iniciado nos ritos: Egípcios, Eleusinos, Kabíricos e Caldeus e na Índia veio a conhecer Buda. E assim, para a Escola Pitagórica, convergiram muitas tradições e se fundiram em um ensinamento compreensível sobre o lado oculto da vida. A metafísica Pitagórica repousa sobre um monoteísmo, sobre a ideia de que Deus se encontra na origem de tudo e sobre a especulação filosófica e científica resultante da Teoria do Número.

Parte de seus ensinamentos ficaram plasmados nos Versos de Ouro. Pitágoras impôs uma férrea disciplina física e mental, ensinava a pensar, impôs a regra do exercício e a concentração. A iniciação na comunidade compreendia várias fases. O iniciado era submetido a provas físicas e de oratória, isolamento em uma célula onde aprendia a praticar as virtudes do silêncio e do jejum. Pitágoras ensinou os princípios esotéricos da matemática e da geometria. Nessas escolas os alunos estavam divididos em três graus: Os Akoustikoi ou ouvintes, por um período de três a cinco anos onde não tomavam parte nas discussões e recebiam ensinamentos de um Mestre. O segundo grau, os Matematikoi a quem cabia a coordenação do estudo da Matemática, Geometria, Música e as correspondências entre elas. O terceiro grau, os Phisikoi, dedicados a estudar a vida interna. A tradição Pitagórica passou para as escolas Neoplatônicas, de onde muito de seus ensinamentos passaram para mãos cristãs como modelo de suas instituições monásticas, com as quais a franco-maçonaria da Idade Média se relacionou intimamente em seu caráter ativo. Não é estranho que os antigos maçons chamavam Pitágoras de seu “antigo amigo e irmão”.

A TRADIÇÃO JUDÁICA


A tradição egípcia passou para o povo judeu através de Moisés, que foi iniciado nos Altos Mistérios pelos sacerdotes egípcios, o qual, depois, transmitiu estes ensinamentos a classe sacerdotal dos Israelitas. No Antigo Testamento (Samuel 19-20 e Reis II-2-5) se menciona que ao que parece existiam escolas iniciáticas em Naioth sob a direção do profeta Samuel e outras em Bethel e Jericó. Os Mistérios Egípcios foram transmitidos de geração a geração até o momento em que o rei Salomão assumiu o trono de seu pai, Davi. 

O rei Salomão, que governou entre 975 e 926 a. C., se dedicou a unificação de seu povo e com tal fim ergueu o Templo de Jerusalém para que fosse o centro de veneração religiosa e símbolo da unidade nacional. O Templo era um edifício completamente simbólico, seu planejamento, sua construção e ornamentos representavam a síntese de todas as ciências, era o Universo, a Filosofia, o céu, e representava o macrocosmo e os homens no microcosmo. Salomão havia concebido e Hiran Abiff, arquiteto e decorador da cidade de Tiro, o havia construído com elevada inteligência. Para o melhor desenvolvimento da obra dividiu os trabalhadores de acordo com o trabalho que realizavam, em Mestres, Companheiros e Aprendizes, estrutura esta que os maçons tomaram como forma de organização. 

Agora Salomão, que havia sido iniciado nos Mistérios de Eleusis, desejava dar forma judia aos mistérios que, desde Moisés, eram ainda egípcios. Para isso, junto com o rei Hiran de Tiro, convocou uma Assembleia do conselho de Jerusalém e se dedicaram de imediato a adaptação dos rituais. Desta maneira se unem quatro correntes: a egípcia aportada pelos sacerdotes; a grega aportada por Salomão, a Caldeia baseada nos ensinamentos de Zoroastro que manteve o rei Hiran, a qual absorveu, entre outras: os nomes do alfabeto judeu e dos anjos, e uma quarta corrente estranha às outras baseada no rito de Tamuz que foi absorvida por Hiran Abiff, que era fenício. A iniciação de Salomão tinha uma tríplice finalidade: a tolerância, a filantropia e a civilização dos israelitas. A mística judia induz em primeiro lugar uma comunicação direta com a divindade transcendente e de igual modo a cosmologia simbólica vinculada ao templo entra no campo do esoterismo. 

O simbolismo do Templo corresponde ao cosmos e está dividido em três partes que correspondem ao céu, ao mar e a terra. Telas e ornamentos interiores evocam os quatro elementos, os sete braços do candelabro remetem aos sete planetas, as doze colunas interiores aos doze signos do zodíaco. A ordem iniciática e esotérica da franco-maçonaria se inspirará neste simbolismo cósmico para a disposição e a ordem, para a orientação e forma da loja. 

Os franco-maçons querem reedificar o Templo de Salomão sobre as bases da hierarquia inteligente e da iniciação progressiva. 

A experiência mística judia dos primeiros séculos de nossa era, absorveu da gênese do esoterismo ocidental sua própria contribuição mesclando-se com as correntes gregas e latinas e assim chegou a criar novas orientações. A originalidade da mística hebraica reside na assombrosa associação dos elementos que a compõe: prática religiosa, metafísica, ética, teosofia, alegorias, preceitos proféticos e leis. Se estima que a Torah, o livro da lei, foi praticamente concluído no século V a. C., e é formado por cinco livros do Pentateuco, mas a esta lei escrita ditada por Deus à Moisés, se agrega uma lei oral igualmente ditada por Deus e transcrita no ano de 218 d. C., especialmente por Rabi Yehuda Hakadoch, e se chama Mishna; ao corpo de comentários da Mishna se dá o nome de Ghemara. Estes dois livros foram reunidos em um só chamado Talmud (em hebreu quer dizer doutrina). Na opinião de autorizados ritualistas, o terceiro grau de Mestre está classificado como bíblico, também várias tradições e lendas dos graus superiores da Maçonaria, se encontram no Talmud. Se pode ver que a forma judaica dos Mistérios é a que mais influência teve na maçonaria moderna absorvendo entre outros: os três graus, as palavras 


OS MISTÉRIOS DE MITRA



Outras correntes esotéricas que influenciaram no desenvolvimento da filosofia maçônica foram os Mistérios Mitráicos, do grego MEITHRAS, célebre reformador nascido na Medo-Pérsia, no ano de 2.250 a. C., que regenerou e moralizou o sistema dos magos, fundando um culto mais austero adorando os princípios da fecundidade e da regeneração universal, instituído por Zoroastro, como a iniciação nos mistérios de religião que havia fundado na antiga Pérsia. Foi considerado mais tarde como o deus supremo de toda Pérsia, criado pelo mesmo Ormuz. Este culto floresceu especialmente entre os postos militares e rotas de comércio do Oriente Médio, e com o tempo se estenderam pela Europa, até perder sua conexão no século IV d. C. 

Foi essencialmente uma religião de soldados, seu sacramento consistia no pão, vinho e sal que eram consagrados ao deus Mitra, em um ritual carregado de força, pureza e valentia, que ajudava a tornar solidários os membros da fraternidade. Este rito apresenta muitas analogias com o Cristianismo: se idêntica com a luz e o sol, insiste na conduta moral de seus adeptos, dá ênfase a abstinência e o autocontrole, assim como na luta entre o bem e o mal e no triunfo do primeiro pela intermediação do Logos, creem na imortalidade da alma. 

Enquanto se sabia que a iniciação estava escalonada em sete graus, cada um representando por um metal e consagrado a um planeta, de acordo com o conhecimento cada vez mais amplo dos iniciados:

GRAUS ESCALÃO PLANETAS 

1 MILES (Soldado) Chumbo Saturno

2 LEO (Leão) Estanho Venus

3 CORAX (Corvos) Cobre Júpiter

4 PERSES (Persas) Ferro Mercúrio

5 CRYPTIUS (Oculto) Amálgama Marte

6 HELIACOS (Sol) Prata Lua

7 PATRICOS (Padres) Ouro Sol



Somente os iniciados que tenham alcançado o quarto grau podiam participar de modo total nos mistérios, depois do sétimo grau, eles se tornavam os sete Pater Sacrorum (padres encarregado dos sacrifícios).

O aspirante, em princípio, experimentava uma série de provas mediante o que eram introduzidos em cavernas onde os métodos de excitar o assombro e o temor, variavam engenhosamente; se simulava ruídos de animais ferozes, trovões, relâmpagos, batidas com varas e eram obrigados a nadar em rios de fortes correntezas, que tinham por objetivo a purificação pela água, pelo foto, e pelo jejum, provas que duravam entre vinte e quatro e oitenta dias segundo diferentes autores, depois das quais era introduzido em uma caverna chamada spellaeas. As spelaeas eram de pequenas dimensões e representavam o mundo, o duplo movimento dos planetas e o caminho das almas pelas esferas celestes, suas paredes e teto desenhados com signos celestiais. Uma vez na caverna se levava o aspirante a uma sala chamada pronaos e ali eram submetidos a uma espécie de batismo e se preparavam para os sete ensinamentos da iniciação que estava próximo a cruzar. Para alcançar os ensinamentos sobre os sete planetas, era apresentada ao iniciado uma escada ao longo da qual haviam sete portas, cada uma de um metal diferente, simbolizando os atributos do planeta correspondente. Essa escada foi tomada por judeus, na visão da Escada do sonho de Jacó e figura também em emblemas em muitos graus maçônicos. 


OS COLÉGIOS ROMANOS


As tradições judaicas e a corrente Pitagórica foram assimiladas pelos Colégios de Arquitetos pertencentes às Legiões romanas que estiveram acantonadas no Oriente Médio. Esses Colégios foram fundados pelo rei Numa Pompílio no século VII a. C., o qual no afã de acabar com os elementos das culturas rivais dentro do reino, estabeleceu uma religião comum e dividiu os cidadãos em cúrias e tribos e fez o mesmo com os artesãos aos quais agrupou em Corporações sob o nome de COLEGIAE ou COLÉGIOS (Collegia Artificum), a cada colégio foram filiados os artesãos de uma profissão particular e à frente deles estavam os Colégios de Arquitetos (Collegiae Fabrorum). O rei numa, que era profundo conhecedor das leis divinas, adaptou os ritos Egípcios, Gregos e Caldeus a forma Romana de Dionísio, ou Baco, dando aos Colégios um culto e uma organização que lhes eram apropriadas. Estas associações gozavam do direito de formar seus regulamentos próprios e de celebrar contratos seculares e religiosos, desfrutavam da imunidade das contribuições, franquias que se estendeu durante a Idade Média, dando origem a denominação de maçons livres ou franco-maçons. Dedicavam-se a construções de fortalezas, carreteras (vias de transporte), aquedutos, templos e casas em todo o império. 

A organização dos Colégios era muito similar à de nossas Lojas: três Faciiut Collegium, três fazem um Colégio, este era regido por um Mestre, os oficiais imediatos eram os Decuriones ou Guardiães, análogos aos Vigilantes, pois cada Decurio presidia uma parte do Colégio. Haviam outros oficiais tais como: um escriba ou secretário, o qual lavrava o registo de seus procedimentos, um thesaurensis ou tesoureiro, que tinha a seu cargo o contato com a comunidade, um tabulário ou arquivista. Como nestes colégios se combinavam a adoração religiosa com o trabalho do ofício de cada um, havia um sacerdote que dirigia as cerimônias religiosas. Outra analogia com a organização maçônica era que os membros de um colégio estavam divididos em Seniores ou Diretores Superiores do ofício equivalente aos Mestres, e em trabalhadores ou Aprendizes, análogos aos Companheiros e Aprendizes Maçons. Em seus arquivos se encontrou que tinham ritos semirreligiosos que atribuíam interpretações simbólicas a suas ferramentas de trabalho, como o esquadro, o compasso, o nível e o prumo. 

As colonizações romanas foram levadas a cabo pelas legiões do exército. A cada legião se agregava um Colégio, que lhes acompanhava em suas campanhas. Quando colonizavam os locais, estes Colégios permaneciam na colônia para semear a semente da civilização romana, construindo caminhos, aquedutos, quartéis, casas e templos. Os membros dos Colégios trabalhavam seus ritos e com o transcorrer do tempo foram iniciando militares, chegando a ser o teatro de todas as iniciações e demais doutrinas secretas, mesclando-se assim seus ritos com o dos hebreus da palestina e os ritos mitráicos que os soldados de Tito e Vespasiano haviam aprendido quando estavam acantonados na Pérsia. Foi através dos Colégios que a Maçonaria foi introduzida na Europa quando do regresso das legiões a Roma, logo após a queda do Império.

O ESOTERISMO CRISTÃO

Com a definitiva supremacia da Igreja Católica uma nova corrente filosófica vem a agregar-se aos mistérios: o Esoterismo Cristão. Embora negado pela maioria da hierarquia da Igreja, a existência de mistérios pode ser encontrada nos Textos Primitivos. Se trata, pois, de ver, nos Evangelhos um exoterismo[1] justaposto a um esoterismo[2]. O Evangelho de Marcos, o de João e algumas epístolas de Paulo, testemunham um esoterismo, uma palavra revelada, cuja inteligibilidade e compreensão necessitam conhecimento, desde a simples alegoria até uma interpretação que envolve a alma dos mistérios divinos, que penetra no sentido místico dos textos.

Em três grandes princípios estava assentada a doutrina dos Mistérios do Cristianismo primitivo: a unidade de Deus; a liberdade do homem; e a igualdade entre todos os homens. Cristo havia colocado em prática as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Começava por recomendar o amor ao próximo, estimulava a seus irmãos o trabalho e o estudo das ciências e prometia uma vida melhor decorrente dos resultados de sua doutrina e da fé mútua entre os homens e que isso lhes proporcionaria a felicidade suprema.

São os primeiros padres da Igreja como Clemente de Alexandria (160-215 d.C) e Orígenes (185-254 d. C) que iniciam o caminho do esoterismo cristão, em duas de suas obras: Stromas e O Pedagogo, Clemente rechaça o divórcio entre o conhecimento hermético proveniente da Grécia e o transmitido pela revelação Cristã, com esta aproximação trata de promover uma gnosis[3] a definindo como um apetite conjugado da Fé do Saber. Disse Clemente: “quem tiver sido purificado pelo batismo e logo iniciado nos Mistérios Menores (ou seja, tenha adquirido os hábitos da reflexão e o autocontrole) fica maduro para os Mistérios Maiores ou Gnose, ou seja, o conhecimento científico de Deus. Também disse: “não é permitido pela lei revelar aos profanos os Mistérios do Logos”. Quanto a Orígenes (185-254 d. C.) ainda mais que Clemente, chega a casar o neoplatonismo com o pensamento cristão. Assegura a existência de ensinamentos secretos da Igreja, fala da fé popular irracional, que conduz ao que chama de Cristianismo Somático, ou a simples forma física da religião e da fé superior e razoável, baseada no conhecimento oferecido pela sabedoria ou gnose, que conduz ao Cristianismo Espiritual. Em sua obra “A Homilia sobre a Genesis, De Principiis, Contra Ceulsun” se pode ver repetidas referências ao ensinamento oculto, imensamente mais grandioso e que eleva a quem o estuda a um nível muito mais elevado que o que ensina a ortodoxia. Santo Agostinho (354-430) embora não seja um pensador esoterista, seu pensamento será invocar por longo tempo pelos sustentadores do Hermetismo Cristão, nos longos debates com os dogmáticos da Igreja. Em sua obra Confissão ou De Civitae Dei, faz uma referência aos herméticos, e será considerado como a preservação desta unidade. Santo Agostinho rechaça a teurgia e a magia, mas elabora uma doutrina na qual a Alma é a é razoável e servida por um corpo terrestre. A natureza não é rechaçada e certas correspondências regem as relações entre a alma e o corpo. Outro pensador chave que interessa ao esoterismo é Boecio (470-525 d. C.). Sua obra mais lida é De Consolatione Philosophiae, cujo esplendor perdura nos meios maçônicos no século XVIII. Intervém na Cosmologia Platônica, na teoria das Correspondências e princípios de dualidade dinâmica entre polos contraditórios, várias das fórmulas empregadas na Consolação se encontram em rituais maçônicos, como aquela que diz para ficar longe dos vícios e praticar as virtudes.

Em várias Epístolas de São Pedro se pode antever esse esoterismo. Na Epístola sobre os Gálatas acentua a Jerusalém Celeste, evocada no Apocalipse de São João. Outro ensinamento de Paulo é o que define as quatro dimensões do homem interior: largura, altura, comprimento e profundidade, onde se verificam as reminiscências das dimensões de Deus no Livro de Jó.

OUTRAS CORRENTES DE TRADIÇÃO
OS MISTÉRIOS DRUÍDAS



Os druidas eram uma ordem de sacerdotes que existiram na Bretanha e na Gália. A palavra Gaélica Druish significa homem sábio ou sagrado e também mago. Este rito vindo, originalmente, da Grécia através da Escandinávia, o Druidismo, se dividia em três ordens que começavam com os bardos, que eram os Poetas que compunham hinos e cantavam nas cerimônias do culto, os `Profetas ou Eubage[4] eram os adivinhos, tinham a seu cargo o governo civil e a agricultura, e os Druidas ou Vates, que eram os depositários dos dogmas da religião e da filosofia, ocupavam as funções de sacerdotes e juízes. Os sítios de adoração eram também de iniciação, geralmente eram circulares porque essa era a forma do universo, e não tinham telhado porquanto consideravam absurdo reduzir ao Onipotentes a permanência sob um telhado comum. Entre outros instrumentos se sabe que tinham um altar triangular, a espada de Belino e um cofre sagrado. Se fala que suas cerimônias de iniciação requeriam muita purificação física e preparação mental. No primeiro grau se representava a morte simbólica do aspirante culminando no terceiro com sua regeneração, onde este era colocado dentro de um bote. Suas doutrinas eram similares às de Pitágoras. Sustentavam a crença em um Ser Supremo, a reencarnação, o estado futuro das recompensas e dos castigos, a imortalidade da alma. O objetivo de seus ritos místicos era comunicar essas doutrinas empregando uma linguagem simbólica. Muitas lendas ensinam que o cristianismo foi introduzido na Inglaterra muito antes das missões de São Patrício e Santo Agostinho. Alguns historiadores cristãos, como Clemente de Roma e Eusébio, confirmam que São Paulo e outros apóstolos visitaram as ilhas britânicas. O certo é que não foi no século XII quando a Cristandade Céltica foi colocada de acordo com os usos do Cristianismo Romano. Se conta que a antiga Igreja Britânica possuía uma profunda e mística forma de cristianismo derivada de fontes orientais provenientes dos Essênios, que estavam muito vinculados a Jesus por ter sido um de seus membros. Ademais dos sacramentos cristãos, se praticavam ritos de linha mitráica, também usados pelos Essênios e pode ser que tenha havido alguma sucessão de Mistérios Judeus, não vinculados com os Colégios Romanos.

Estas várias linhas de tradição foram retocadas com os Mistérios locais dos Druidas. Assim, os Culdeos[5] de York amalgamaram o misticismo cristão com os ritos nativos, atrelando-os com a Maçonaria Moderna. 


OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS


A Ordem dos Cavaleiros Templários, chamada também os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo do rei Salomão, foi fundada em 118 por Hugues de Payens, Cavaleiro de Borgonha e Godofredo de Sant Omer, Cavaleiro do Norte da França, com a finalidade de proteger os peregrinos na Terra Santa. A Ordem do Templo aparece como referência inevitável na história do esoterismo ocidental. Com efeito, o mito superou a realidade histórica e religiosa, a lenda foi levada à realidade dos fatos e este a perdurar sobre tudo, na Franco-Maçonaria Templária do século XVIII. No século XIII a Ordem estava em seu esplendor máximo com 20.000 cavaleiros disseminados por toda a Europa e Oriente Médio. Um aspecto importante do esoterismo era a Terra Santa, mas as entidades físico-geográficas eram entidades espirituais, os lugares santos eram a expressão do microcosmos humano, de uma iniciação mítica e de uma revelação. Portanto, Jerusalém representa um centro onde o céu e a terra se encontram. 

Os Cavaleiros Templários trouxeram do Oriente um conjunto de cerimônias e símbolos pertencentes a tradição maçônica. Possuíam certos conhecimentos que hoje se ensina no Grau 18 (REAA). O que chamamos “O Sapientíssimo Soberano” era um bispo ou presbítero ordenado, estabelecendo um amalgamento entre os sacramentos egípcios e cristãos. É coisa conhecida que os Templários formavam um ramo de gnosticismo e que haviam adotado as doutrinas dos Ofistas, um símbolo comum em suas cerimônias era a cabeça barbuda que representava o Deus eterno e criador, e que chamavam Baphometus ou Bafomet, palavra grega que significa Batismo de Sabedoria. 

Todo o simbolismo da Ordem evoca a dupla noção temporal espiritual. O famoso Beauseant ou bandeira de guerra, era metade branco para figurar a lealdade aos amigos, e metade negro, o terror dos inimigos. A cruz de oito pontas sobre o manto branco agregava o significado da cruz, o simbolismo mediador do número oito, e se unia ao branco do conhecimento e ao vermelho do Santo Amor, invocado em seu grito de guerra. 

A iniciação templária constava de três graus: Noviço, Cavaleiro e Profeso[6]. No ano de 1307 a Ordem foi suprimida e todos seus membros arrestados e muitos justiçados pela inquisição. A destruição da Ordem do templo não significou o final dos mistérios. Alguns Templários franceses se refugiaram com seus irmãos do Templo da Escócia, onde o mandato de dissolução da Ordem não chegou a ser promulgado, e nesse país suas tradições chegaram a fundir-se com os antigos ritos celtas de Heredon, formando assim uma das correntes que dará origem ao rito Escocês. Desta maneira as tradições de vingança contra o trio formado pelo Papa, o rei e o traidor, se entrelaçou com a tradição egípcia da Maçonaria Negra, culminando com o que hoje se chama grau 30. 


A CAMARADERIA


Outra sobrevivência dos Colégios foi a Camaraderia Francesa ou companheirismo, em francês: Compagnonnage. Com este nome se conhece certas organizações místicas formadas entre obreiros do mesmo ofício, cujo objeto é proporcionar ajuda mútua. Segundo a tradição se acredita que a palavra Compagnonnage é de origem hebraica, sendo proveniente do Templo de Salomão. O termo apareceu no século XII, nas corporações de trabalhadores. Estes para proteger a arte dos seus trabalhos perceberam a necessidade de formar entre seus membros confrarias, cuja proteção devia acompanha-los em suas excursões de trabalho e proporcionar-lhes ajuda fraternal e emprego nas cidades desconhecidas. 

Os Compagnons da Tour (excursão), tem suas lendas que, como os franco-maçons, foram obtidas do Templo de Salomão. Existem três linhas no Companheirismo, cada uma delas baseadas em um precursor diferente: a mais antiga era a dos Filhos de Salomão originalmente composta por construtores de pera (stonemasons) somente; a segunda a dos Filhos do Mestre Santiago que admitiam membros de outros ofícios como seleiros, afiadores, sapateiros, alfaiates; a terceira seguia o Mestre Soubise, originalmente formada por carpinteiros. As três correntes estavam organizadas de acordo com o grau de conhecimento de seus membros em: Aprendizes, Companheiros e Mestres. 

Tinham um sistema de iniciação e para alcançar um grau superior deviam apresentar um exame ou revelação do conhecimento de seu ofício. Para eles o Templo de Salomão era a cúpula da sabedoria e consideravam que os mestres que haviam participado da construção eram iniciados pela Divindade. 

OUTRAS CORRENTES DE TRADIÇÃO

Outra corrente de tradição sobreviveu na Europa e foi os construtores de pedra, que se desenvolveu durante o século XII na Alemanha. Esta se originou de duas correntes, uma inglesa, dos monges celtas e outra italiana, por meio de São Bonifácio. Na Inglaterra as primeiras Lojas (Logges, Luges, Lodges) parecem depois da conquista Normanda no século XI, entre os picapedros e albaniles (pedreiros) que construíram as catedrais de York, Canterbury, etc. Três linhas de tradição confluem na Maçonaria das Uniões Inglesas: uma linha conservada dos mistérios Celtas e Druidas, uma segunda proveniente dos Colégios romanos e uma terceira que chegou com a conquista da Normandia, sob o patrocínio do Arcebispo Lafranc.


[1] Exoterismo vem do grego: exotéricos e, pelo latim: exotericu, que quer dizer: conhecimento passível de ser divulgado para o público. Relacionamos com externo, público e profano. Para passarmos de nível utilizamos as conversões. 

[2] Esoterismo vem do grego: esotericos, que quer dizer: conhecimento complexo e entendimento restrito a um círculo de especialistas. Relacionamos com interno, oculto e reservado. Para passarmos de nível utilizamos as iniciações. 

[3] Ação de conhecer; conhecimento, ciência, sabedoria. 

Conhecimento esotérico da verdade espiritual, combinando mística, sincretismo religioso e especulação filosófica, que diversas seitas dos primeiros séculos da era cristã, consideradas heréticas pela Igreja, acreditavam ser essencial à salvação da alma. 

[4] Padre gaulês, de uma classe média entre os druidas e os bardos, envolvidos no estudo da astronomia, das ciências naturais e da adivinhação. 

[5]Culdeos são alguns monges que gerenciam e preservam uma regra estrita para sustentar seu trabalho e cultura ancestral. 

[6] Aquele que professa uma crença.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017


A CONTRIBUIÇÃO DA MAÇONARIA DA ESCÓCIA


Ir.´. Nelson Morales B. nmob19@yahoo.es
Revista Hiram Abif – Edição 141 – abril e maio de 2012
Tradução: Pedreiro de Cantaria


Temos dito que é um erro assumir que a maçonaria inglesa é a mesma coisa que a maçonaria anglo-saxônica ou britânica.

A seguir, entraremos em maiores detalhes sobre o assunto.

Até o século XIII, a maçonaria da Inglaterra e Escócia, transitavam por caminhos parecidos, digo “parecidos” e me reservo o qualificativo para dizer: similar.

A primeira expressão sobre maçonaria é conhecida na Escócia em 1277, para identificar o local de reunião dos trabalhadores da construção.

Posteriormente, em 1483, aparece a expressão “Masonreys of the lodge”. Em “Loja” quer dizer um agrupamento humano de trabalhadores.

Como podem observar, estamos observando o início da origem corporativa da instituição ou grêmio dos construtores na Escócia.

A relação de confraternização e de corporação de trabalhadores da construção desde o princípio teve uma diferença na Escócia e foi a integração de outros obreiros do Ofício, ou Craft (construtores). Em consequência, a história é precisa em enfatizar que na Escócia não houve, inicialmente, uma Corporação de Ofício relacionados com a edificação

Em 1636, encontramos uma expressão específica atinente à maçonaria, quando surge o termo de franco-maçons mediante o sentido idiomático de “maçons livres” que denotava um status de preferência ou distinção do resto das organizações de trabalhadores manuais: nos referimos a capacidade de exercer livremente o ofício sem a tutela do município ou “burgo” em inglês.

Na Loja de 1230, encontramos o aprendiz identificado como “aprentice” e desde 1598 o Aprendiz Inscrito. No entanto, o Companheiro foi inicialmente conhecido como Companheiro de Ofício e. desde 1598, simplesmente como Companheiro. Agora, temos também ouvido e lido sobre a crise da construção na Inglaterra e a decadência das lojas operativas e o denominado reavivamento da Ordem sob uma fisionomia diferente: “a maçonaria especulativa pelo que dizem os livros e a repetição de tantos trabalhos que asseveram este fato, sem argumentos claros e detalhados”.

Cabe perguntar: este fenômeno da decadência da maçonaria operativa foi generalizado e na mesma data que das ilhas britânicas?

Uma das características muito especiais das Lojas Escocesas era sua “sedentarização” e a “acolhida de membros não operativos”, que se conheciam como nobres ou pedreiros teóricos em seu íntimo o que à luz da história e a comparação com a Inglaterra foi uma medida muito inteligente a acertada para manter a continuidade e preservar as tradições.

Vários irmãos, em alguma oportunidade, me perguntaram onde se encontrava a contribuição da maçonaria escocesa à maçonaria inglesa.

Minha resposta curta é: James Anderson, Lawrence Dermott, o Arco Real, a palavra pedreiro, entre outros.

Curiosamente, a própria maçonaria inglesa não reconheceu qualquer coisa a respeito dos antigos deveres os quais foram adaptados pela dominação da Inglaterra.

Então, ao invés de assinalar que a contribuição da Inglaterra para a Escócia foi os Antigos Deveres que consistiam, principalmente, de três partes: uma religiosa, outra referente a lealdade à coroa inglesa e outra o regulamento, em particular, todas elas atribuídas a uma marca de regras das Ordens Monásticas dos monges Beneditinos, Cistersenses e muitas outras coirmãs da Idade Média.


Catecismos maçônicos de 1596, que estavam bem ocultos e que sobreviveram aos anos, estão sendo encontrados, mas não podem responder às perguntas sobre a existência de duas categorias de maçons: Aprendizes e Companheiros.

Essa era uma outra característica, que não tinha a Grande Loja, senão depois desta inovação na Inglaterra, para ser preciso, no ano de 1736.

Cabe recordar que em 1603 a Escócia foi anexada à Inglaterra, fundindo-se, ambos os reinos, de maneira que começaram a tomar parte dos quadros das Lojas na Escócia, cidadãos não operativos ingleses.

E mais, resulta um tanto contraditório comprovar que este denominado plano de reavivar a maçonaria operativa na Inglaterra para abrir lojas especulativas ocorreu na Escócia e todas essas Lojas evoluíram de operativas para especulativas.

A história é sempre elaborada e contada pelos vencedores, nós, porém, devemos avaliar mais longe o legado dos antigos maçons e grêmios de construtores da Escócia.

Por consequência, os nobres e personagens importantes iniciados na Escócia levaram esta inovação à Inglaterra.

Recapitulando, devemos admitir que não havia nenhuma Loja Inglesa de maçons funcionando de forma separada, mas dentro do mesmo local que eles mesmos ajudaram a escolher.

De maneira que os maçons ingleses não operativos, foram feitos maçons na Escócia ou pelo cerimonial “incorporado” na denominada Loja de Aceitos da companhia de maçons de Londres. Porém, foi deixado para o final outro dilema inglês e é York.

Esta cidade está mais próxima da Escócia que de Londres e dali sua aparência com o sistema maçônico inglês. Reconhecer os maçons de York é reconhecer a gênesis da maçonaria nas ilhas britânicas que este estilo maçônico, que apresenta matizes que claramente fazem a diferença com a linha seguida pela Grande Loja Unida da Inglaterra. 

Para recordar, houve um período de discriminação dos rituais e me atrevo a informar que foi uma consequência política do movimento jacobita que intentou, com o apoio dos jesuítas, recuperar o trono da Inglaterra para um Rei Católico.

Finalmente, que cada qual julgue se é efetivo que a maçonaria especulativa é uma criação inglesa ou se aceitam a tese exposta, de que a ideia foi trasladada ou copiada de outra parte das ilhas britânicas.

Aceitemos, então, que a maçonaria especulativa é uma invenção britânica por evolução de suas tradições de onde destacam os caldeus, os maçons beneditinos e cistercenses, os celtas, druidas, templários, entre outros.

Contudo, pouco se escreveu sobre a relação ao papel dos denominados pedreiros não operativos na fundação da Grande Loja de Londres e lojas subordinadas, entre as quais se encontram: nobres, antiquários, estudiosos, rosacruzes, eclesiásticos, rabinos, a Real Sociedade Inglesa.

Aqueles que geralmente sustenta que aceitam de bom grado tanto o conteúdo dos rituais como de alguns catecismos em curso, não conseguem explicar genuinamente o acontecimento histórico-institucional, precisamente daqueles tempos em que surgiu o que hoje denominamos “Maçonaria Moderna e Especulativa.

É bem conhecida nossa posição relativa aos sucessos protagonizados pelos pastores protestantes James Anderson e Theophile Desaguliers na criação dessa maçonaria, na conformidade das Constituições de 1723, em detrimento da conhecida maçonaria operativa e 

Por essa razão é que publicamos nestas páginas o trabalho do Ir.´. Morales Barrientos uma vez que constitui uma informação para desmentir os equívocos que são do conhecimento do público maçônico

Com este artigo fica demonstrada a existência de Lojas e Obediências na Escócia

Com este artigo é demonstrada a existência de lojas e obediências na Escócia, antes da suposta queda da “operatividade” e nos dá detalhes do porquê do acontecido em Londres no período de 1717/1723.

Não cabe dúvida que o ocorrido em Londres em 1717, não respondeu a uma necessidade de reformular uma maçonaria operativa em franca decadência e inoperabilidade, mas sim dar consequência aos objetivos político-institucionais daqueles que hoje denominamos “livres e aceitos” e que o autor da nota menciona como “uma consequência política do movimento jacobita que intentou, com o apoio dos jesuítas, recuperar o trono da Inglaterra para um rei católico.

Também não temos dúvida, já que investigamos seriamente o tema, dizer que a criação da maçonaria moderna e especulativa, foi uma operação política da monarquia britânica, com o objetivo de neutralizar os princípios liminares da franco-maçonaria, contrários ao feudalismo monárquico e que tinham por objetivo a concepção de um sistema republicano e democrático, como o implantado por Olivier Crowell, quando derrotou a monarquia britânica.

Não cabe qualquer dúvida, tampouco, de que os jacobitas contaram com a ajuda inestimável de todas as monarquias europeias, pois também supunham o sonho de ver triunfar a operatividade. Os acontecimentos históricos ocorridos quando finalmente a “Revolução Francesa” triunfou sobre as iniquidades do feudalismo, tem demonstrado, desde aqueles convulsionados tempos, a nefasta ingerência da nobreza no decurso histórico da ordem, complementando sua infiltração com a instauração de ritos como o Escocês Antigo e Aceito (e uma vasta somatória de vários Ritos) e com a criação (seria melhor dizer administração) dos graus filosóficos e sua filosofia pseudo monárquica, cujo conteúdo desvirtua os fundamentos “racionalistas” da doutrina progressista da franco-maçonaria.

Hoje assistimos a uma negada “decadência”, que manifestamente se adverte na proliferação de novas Obediências, novos Ritos, concepções místicas, esoterismos “primordiais” e introdução, no seio histórico doutrinário, de superstições sincréticas, que pretendem dogmatizar religiosamente a franco-maçonaria.

Dentre essas “heresias” institucionais, se somam as intrigas religiosas do mal definido estabelecimento “judaico-cristão”, cujos alcances não se tem estudado minuciosa e objetivamente, já que cada uma das “religiões positivas” (vale dizer, hierofantes) acumulam “farinha para sua cota”. Hoje não resta dúvida que a atual “lenda do 3ª. Grau” não condiz com a que sustentavam os maçons operativos”, nem com a que aceitavam os maçons das “academias florentinas” lideradas por Leonardo da Vinci... Os três companheiros jubelos (isto é, o povo trabalhador), não foram os que assassinaram Hiram Abif, mas sim os “capitães do poder real e religioso”... como se acreditava nos tempos da” operatividade”; Coisa que, naturalmente, negaram com todo tipo de mentiras, aqueles que haviam aderido ao “moderno e especulativo” criado por Anderson e Desaguliers.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017



O BÁCULO (BASTÃO) DE ASCLEPIO OU ESCULÁPIO, DEUS DA MEDICINA



Se tem cometido o erro de confundir o bastão ou báculo de Esculápio, deus da medicina, com o caduceu de Mercúrio, deus do comércio e mensageiro dos deuses. Este erro tem trazido como consequência que encontremos o caduceu, ou atributo de Mercúrio, como símbolo da medicina, decorando receituários e cartões de apresentação, papeis de sociedades e colégios de medicina, como logotipo em clínicas, consultórios e hospitais e, inclusive, em conselhos de medicina e universidades.


A ORIGEM DO SÍMBOLO

A mitologia grego-romana reconhece Asclépio ou Esculápio como deus da medicina. Nasceu em Epidauro, cidade da Argólida. Seus pais foram Apolo ou Hélio (o Sol) e a princesa Caronis, filha do rei Phlegias de Tesalia. Narra a lenda que estando Caronis já grávida do deus, este foi informado pelo corvo profético – a cuja vigilância a tinha confiado – que lhe era infiel com o Árcade Ischys.

Por ordem de seu irmão Apolo, Artemisa a matou com suas flechas. Porém, quando seu corpo era consumido na pira funerária, Apolo, arrependido, a puxou para fora e arrancou-lhe do ventre o filho Esculápio. 


Naqueles tempos, o corvo gozava de uma linda plumagem prateada, mas, a partir de então, se tornou negra.

Asclépio nasceu como Dionysios, em meio das chamas, de uma mãe querida. Recebeu de Apolo, deus da saúde, suas atribuições curativas. O menino foi levado por seu pai ao monte Pelión para que fosse educado pelo sábio Centauro Quirion, inventor da medicina. O menino aprendeu depressa e logo ultrapassou o mestre. Tornou-se tão hábil na arte de curar que podia ressuscitar os mortos

Os gregos viam em Asclépio o médico divino, o deus curador cuja proteção invocavam durante as enfermidades ou em caso de perigo iminente para a saúde. Dedicaram-lhe como emblema um bastão do qual brotam folhas novas como símbolo de renovação, ou de uma nova vida.

O bastão serviu de apoio nas viagens que empreendeu em auxílio das pessoas com deficiência; a serpente enroscada no mesmo se relaciona com virtudes adivinhatórias (a medicina e a arte de adivinhar andaram juntas na antiguidade). Também era símbolo de renovação e restauração, (a serpente, ao mudar de pele, se renova e se restaura) e, como asseverava Plínio? Do mesmo modo se renova o homem por meio da medicina, já que os medicamentos podem lhe dar um novo corpo.

Também conta a mitologia que Esculápio descobriu o segredo de ressuscitar os mortos: em uma ocasião, durante a cura de um enfermo, uma serpente se enroscou em um bastão que sustentava com a mão.

Esculápio se assustou e a matou, porém, pouco depois, observou que outra serpente introduzia na boca da serpente morta uma erva com a qual lhe devolveu a vida. Ao se dar conta de tal virtude, Esculápio a recolheu e a usou em várias ocasiões, ressuscitando os mortos. Isto explica, de acordo com esta versão, por que o báculo ou bastão de Esculápio se adorna também com folhas e duas serpentes enroscadas, uma frente a outra.

Outra versão conta que Atena deu a Asclépio duas redomas com sangue da Górgona[1] Medusa: uma contendo o sangue extraído das veias de seu lado esquerdo que ressuscitava os mortos e a outra com sangue extraído de seu lado direito que provocava a morte instantânea. Outros mitólogos referem que Atena e Asclépío repartiram o sangue, ele o utilizava para resgatar a vida e ela para destruí-la e instigar a guerra. Na época atual este fato se relaciona com a bioética.


A família de Asclépios era composta por sua esposa, a doce Hepione (a calma), seus filhos Machaon (representante da cirurgia) e Podalirio (representante da medicina interna) e suas filhas Hygia (a saúde), Laso (a curadora) e Panakeia (remédio de todos os males), assim como por Telésforo (gênio da convalescência).

Esculápio é também representado com uma coroa de flores na cabeça, levando na mão um bastão ou báculo rodeado por uma serpente.

O CADUCEU DE HERMES OU MERCÚRIO, DEUS DO COMÉRCIO



Hermes teve muitas virtudes e numerosos vícios, entre os que se destacam está o seu caráter turbulento e ser amigo das brigas. A primeira coisa que fez ao nascer foi roubar o rebanho de Apolo, porém, em geral, é considerado como um deus benéfico para a humanidade. É distribuidor de mercadorias. Dele procedem favores e benefícios, pelo que chega a ser considerado deus do lucro, fosse qual fosse sua procedência. É a divindade das relações pacíficas e dos laços sociais.

Ele se tornou o deus protetor das transações e do comércio em suas variadas e diferentes formas.

É o protetor dos viajantes e o guia e guardião das estradas. É o protetor dos oradores. A ele se invoca para adquirir os dons da memória e da dicção escolhida. E foi ele quem deu a voz a Pandora (uma voz sedutora que tão funesta haverá de ser para o ser humano da linhagem de Hesíodo), mulher formada por Vulcano, enfeitada e embelezada por todas as deidades do Olimpo.

O emblema de Hermes, o caduceu, é um nodoso bastão que Apolo lhe deu em alegria pela lira de sete cordas que aquele deus acabava de inventar, a mesma que lhe entregou como um presente de reconciliação e amizade e que naquele momento colocou entre duas serpentes que lutavam, as quais suspenderam imediatamente a luta enroscando-se na vara, pelo que desde então o caduceu de Mercúrio ou Hermes é o símbolo da paz, usado por arautos e embaixadores encarregados de negociar.

Dotado de maravilho e mágico poder, convertia em ouro tudo quanto tocava, atraia as almas dos mortos e adormecia ou despertava os mortais. Hermes é também arauto das potestades superiores e inferiores.

A veloz carreira deste mensageiro celeste se deve às sandálias douradas que calça e que lhe havia presenteado seu pai, Zeus. Posteriormente, os artistas fixaram asas a essas sandálias, que também foram adaptadas ao caduceu e ao pétaso[2] ou chapéu Tessalio que comumente usava. Mesmo quando ele era pintado ou esculpido com a cabeça descoberta, as asas lhe foram colocadas entre os cabelos.

(Texto extraído da revista Hiram Abiff – tradução de Pedreiro de Cantaria)






[1] A Górgona também vestia um cinto de serpentes entrelaçadas. Na mitologia grega tardia, diziam-se que existiam três Górgonas: as três filhas de Fórcis e Ceto. Seus nomes eram Medusa (Μέδουσα, "a impetuosa"), Esteno (Σθεννώ, "a que oprime") e Euríale (Εὐρυάλη, "a que está ao largo" 

[2] Pétaso (do grego: πέτασος petasos) era um tipo de chapéu usado pelos antigos gregos e romanos, de abas largas e copa pouco elevada, feito normalmente de feltro de lã, couro ou palha.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017



MARCAS DE CANTARIA

Autor: Xavier Musquera

Os signos lapidários que aparecem em silhares, colunas, abóbadas e até nos cantos mais inesperados dos edifícios estão profundamente ligados aos grêmios de construtores. A imensa maioria dos especialistas atribui tais signos a marcas com as quais os pedreiros faziam constar o cumprimento de seu trabalho para poder estabelecer seu salário, o que equivaleria a uma espécie de controle contábil. Outros estudiosos opinam que esses signos estão relacionados com a Astrologia, Alquimia ou inclusive a própria Magia. Alguns deles eram identificados com antigos alfabetos como os que podemos observar em edifícios egípcios, romanos ou gregos.

Se por definição um signo é o que possui um significado, um sentido, quando se trata de signos lapidários, sempre aludem à realizada do que se considera sagrado, o mais importante não é a grafia por si mesma, ou melhor, sua forma, e sim o que isso significa, que vai além da forma, que cumpre apenas a missão de ser um veículo de transmissão. Na realidade, conecta duas realidades entre si, a material e a espiritual, a natural e a sobrenatural, a individual e a universal, humana e divina. Isso fica claramente unificado em razão de uma série de correspondências e analogias que a mensagem torna possível.

Um dos signos mais difundidos é, sem dúvida alguma, a estrela conhecida como de Davi ou Selo de Salomão. Dois triângulos entrelaçados que representam a união do inferior com o superior, o de acima com o de abaixo, o vertical (o celeste) com o horizontal (o terrestre). Outra marca que aparece sob o aspecto da letra Z é uma figuração simbólica do raio, que, em seu fulgor, nascido do Céu, fecunda a terra com sua luz, unindo assim ambos os mundos, o superior e o inferior. A quantidade quase infinita de marcas de cantaria impossibilita uma descrição pormenorizada delas. No entanto, alguns outros exemplos podem ser de utilidade em nossas viagens.

Uma meia-lua ou semicírculo côncavo com um ponto no centro pode estar nos advertindo que nos encontramos diante de um recipiente disposto a receber e hospedar as emissões ou eflúvios celestiais. Essa figura, por sua vez, se converte em um símbolo da “matriz” cósmica e também pode se relacionar com o coração, no qual reside o Espírito no mais profundo do ser. O centro das emoções. Apesar de a cruz ser o símbolo mais representado em suas diferentes formas e em combinação com outros signos como, por exemplo, o círculo (símbolo do mundo ou símbolo solar).




Esses são alguns exemplos ilustrativos que nos aproximam dos autênticos objetivos dos signos lapidários. Eles nos oferecem uma compreensão mais clara de por que os antigos maçons “operativos” e pedreiros medievais os gravaram na pedra; a transmissão de algumas ideias e alguns conceitos relacionados com a cosmogonia, suas leis e princípios fundamentais, sempre utilizando formas geométricas. Tendo em vista que a Geometria era para eles uma ciência sagrada do mesmo modo que a Arquitetura.


Os esquemas básicos geométricos: o círculo, a linha (eixo), o quadrado, o espiral, o triângulo ou a cruz são os que geram todos os outros signos e inclusive o desenho de suas próprias ferramentas, como o martelo, o cinzel, o nível, o prumo, o esquadro, a colher de pedreiro, o compasso, etc. tudo isso tem um significado profundo que envolve a senha ou a chave, para que possamos entender essas estruturas harmônicas que configuram a própria construção. Tudo isso realizado à imagem e semelhança do modelo cósmico, pois, para eles, o Cosmos manifestado é uma estrutura perfeita criada pelo Grande Arquiteto do Universo.



Segundo contam os historiadores, os pedreiros costumavam receber por peça. Cada pedra era marcada duas vezes: uma com as iniciais do obreiro e outra com um signo correspondente ao lugar onde seria colocada na construção[1]. Antes de a pedra ser levada ao edifício, o capataz ou o mestre de obras tinha de examiná-las para dar sua aprovação, acrescentando por sua vez suas iniciais. Se ele encontrava algum defeito, multava-se o pedreiro e aquele que controlava o trabalho efetuado com duas jornadas de serviço. No dia do pagamento semanal, se inspecionava o trabalho executado na semana anterior e se anotava na conta de cada operário, acrescentando uma bonificação ou uma pequena multa, segundo a qualidade do trabalho realizado.

Prova disso é a existência de signos lapidários correlativos e de maneira ordenada nos arcos, abóbadas ou muros. Apesar de se levar muito tempo na pesquisa dessas marcas, que são catalogadas por datas, tipos e estilos, contexto social e muitos outros grupos de identificação, é certo que tais marcas vão desde letras do alfabeto até inscrições ou signos indecifráveis.

Existem signos idênticos aos utilizados pela Astrologia ou pela alquimia. Entretanto, o mais curioso é que muitos deles são os mesmos que podem ser vistos nos petróglifos pré-históricos. Essas gravuras rupestres que se encontram no norte da África, na América, nas Ilhas Canárias, na Galícia, na Bretanha francesa, em Gales, etc., são iguais a inúmeros signos lapidários. Outros remetem às inscrições rúnicas dos países escandinavos ou os conhecidos tiffinagh[2] do norte da África.


Pude observar como algumas dessas marcas, que ignoro se eram de pedreiros ou adicionadas por pessoas da época, pareceriam estar indicando umas pautas ou umas constantes quanto a sua localização geográfica. Nos supostos enclaves da Ordem do Templo[3], onde tais marcas aparecem em seus edifícios, os signos se repetem. São os mesmos, apesar de se encontrarem muito distantes entre si. 

O conhecido abacus, bastão terminado em espiral, empregado pelo Magister ou Mestre de obras, era empregado pelo Mestre da Ordem.



Esse signo pode ser contemplado em lugares como a famosa capela de Eunate, em Navarra, no castelo-convento de tomar, em Portugal, ou, na Galícia, na igreja de Portomarin, apesar de ter pertencido à Ordem de San Juan, mais conhecida como dos Hospitalários, adversários do Templo. Outro caso realmente curioso é o do signo chamado “chapéu do bobo da corte” que encontramos nas já citadas Eunate e Tomar, como também em uma pia batismal octogonal na catedral velha de Tarragona, assim como no castelo de Peralada, em Gerona.

Signos similares ou iguais encontraram-se nos templos e edifícios próximos ou no próprio caminho de peregrinação a Santiago. Supostas possessões do Templo com as mesmas marcas de canteiro geram interrogações e dúvidas. Trata-se de signos especificamente distintivos, cujo significado ignoramos, ou de um grupo de construtores itinerantes, que é uma possibilidade extremamente remota?


Outro dado curioso é aquele que nos oferecem muitos dos edifícios com signos lapidários. Alguns apresentam grande quantidade de marcas, e outros, apenas algumas poucas. Seguindo ao pé da letra o que dizem os especialistas, teríamos meia dúzia de signos em um edifício, o que viria a supor que seis operários passaram quase a vida toda levantando a construção. Pelo contrário, e seguindo essas pautas, o templo com muitas marcas suporia grande quantidade de artesãos e pedreiros, que, em um período muito curto, teriam levantado a catedral. Algo não encaixa, tendo em vista que, voltando à igreja-fortaleza de Portomarin, chegou-se a contabilizar nada menos que 22 marcas de cantaria distintas. Na realidade, ignoramos se tais marcas estão oferecendo informação que não sabemos interpretar ou se são simplesmente assinaturas, como assegura a imensa maioria dos estudiosos.

Essas marcas não guardam uma orientação concreta, e sua disposição não parece seguir nenhuma lógica. A mesma letra pode aparecer corretamente ou invertida, inclinada ou caída. Geralmente são de escassa profundidade, e seu tamanho oscila em torno de dez centímetros. Essa profundidade escassa faz com que muitas delas tenham desaparecido diante dessa ânsia de muitas administrações de “restaurar” o patrimônio local, muitas vezes, incorrendo em autênticas barbaridades.

Vi taparem portas porque não conduziam a lugar algum ou bloquearem uma janela porque o seu vitral estava quebrado. Alguns templos perderam a sacralidade da luz, que entrava por uma abertura e um raio do sol nascente incidia em um ponto concreto da igreja, indicando que ali se encontrava um signo ou uma imagem que devia se destacar por algum motivo concreto. Isso ocorre, por exemplo, na igreja de Santa Maria a Nova, na Galícia, onde se encontravam lápides sem restos humanos e cujos ladrilhos estão repletos de relevos ou incisões representando os ofícios. Esse tempo possuía uma janela à esquerda do portal de entrada, caso pouco frequente nesse tipo de construção, que dava luz a um sarcófago que contém os restos de um estranho personagem chamado Ioan de Estivadas, cujo nome se encontra em uma inscrição colocada no travesseiro em que sua cabeça repousa. O curioso é que esse nome está escrito de trás para a frente e é preciso lê-lo de forma especular, ou seja, através de um espelho. Na parte superior da janela, havia duas cabeças como se estivessem custodiando o sarcófago. Isso foi informado no momento oportuno pelo admirado pesquisador e autor Juan Garcia Atienza. Pois bem, as cabeças desapareceram e a janela foi tapada.

Prosseguindo com essas marcas de cantaria e já finalizando, podemos nos transladar ao Principado de Astúrias para comprovar a possível existência desses tipos de construções itinerantes. Na igreja de San Pedro de Villanueva, no conselho de Cangas de Onis, aparecem P e R, pelo direito, obliquamente e de cabeça para baixo, junto a uma série de B que seguem as mesmas pautas. Se nos transladarmos agora a San Pedro de Quirós, no conselho do mesmo nome, veremos as mesmas B com certa profusão. Por fim, no conselho de Villaviciosa, em San Juan de Amandi, voltam a aparecer, mas, desta vez acompanhadas por outras marcas mais complexas, com um M maiúsculo inscrito em uma cruz, um X que lembra o Cistograma e que se encontra entre duas linhas paralelas, e alguns N, que, mais uma vez, estão cinzelados do lado direito e ao revés. Entretanto, as mais abundantes são a letra B.

Se situarmos as igrejas citadas no mapa de Astúrias e as unirmos como uma linha, obteremos um percurso que, partindo das cercanias da costa oriental, chega-se até a zona central do Principado. “Casualmente”, esta linha se acha extraordinariamente perto a um dos antigos caminhos que conduziam a Santiago, antes de se oficializar o denominado Caminho Francês, de acesso muito mais fácil.

A nova ciência que estuda esses signos que se encontram aos milhares e divididos em distintos países recebe o nome de Gliptologia. Sua principal área de pesquisa são os desenhos gravados fundamentalmente sobre pedra, como as marcas de cantaria, os petróglifos e os signos das estrelas ou laudas funerárias. A pesquisa voltada às suas formas e seu possível significado, os grupos que a realizaram e os distintos pontos de vista para sua catalogação permitem agrupar tais signos sob vários aspectos, desde o histórico ou social até o relativo à organização e ao tecnológico.

Desde 1979, são celebradas reuniões periódicas em Braine-le-Chânteau, Bélgica, organizadas pelo Centre Internacional de Recherches Glyptographiques (C.I.R.G.) para o intercâmbio de pesquisa, coordenação de estudos e a promoção de grupos interdisciplinares.

Alheio ao mundo dos símbolos e em consequência ao seu significado, o mundo moderno não nos permite dilucidar o mistério que pode envolver essas formas que possivelmente estão transmitindo chaves que desconhecemos. As fraternidades medievais legaram mensagens pétreas que representam uma linguagem própria que não sabemos interpretar. Geralmente, essas marcas de cantaria são de escassa profundidade, e sua dimensão oscila em torno de dez centímetros. Essa escassa profundidade tem feito com que, com o passar do tempo, muitas delas sejam quase irreconhecíveis, sendo que outras já desapareceram diante da ânsia de algumas administrações de “limpar” o patrimônio local, executando autênticas barbaridades.

De tudo isso, temos apenas uma vaga lembrança, uma ligeira intuição, talvez impressa no nosso chamado inconsciente coletivo, que nos faz suspeitar que a alma da pedra, em sua mudez de séculos, guarda uma lição ou uma mensagem. Resta muito caminho por percorrer e muita pesquisa de campo por realizar, para tentar saber um pouco mais sobre os signos lapidários. Sempre teremos a suspeita de que aqueles grêmios medievais artesanais deixaram para trás indícios, pistas e sinais, que contêm conhecimentos que merecem ser descobertos e analisados de todos os pontos de vista possíveis. Na atualidade, sabemos como e quando, mas talvez, um dia não muito distante, também descubramos o porquê de tudo isso.

(Texto extraído do livro “As Chaves e a Simbologia na Maçonaria – Ocultismo Medieval – Musquera, Xavier, Editora Madras)


[1] N.E. Sugerimos a leitura de O Grau da Marca, de David Mitchell, Madras Editora. 
[2] O tiffinagh ou tiffanag é o alfabeto utilizado para transcrever várias línguas berberes. Sabe-se de sua existência desde o século IV a. C. em todo norte da África e nas Ilhas Canárias. Supõe-se que são de origem púnica. 
[3] N.E. Sugerimos a leitura de Os Templários – e o Pergaminho de Chinon, de Bárbara Frale, Madras Editora.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017



A INFLUÊNCIA DOS TEMPLÁRIOS ATRAVÉS DAS CORPORAÇÕES DE COMPANHEIROS


José Castellani


“A soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém, a par de diversas atividades, empenhava-se também na construção de fortalezas, igrejas, estradas e pontes, desempenhando papel influente nas guildas e nos ofícios francos de hoje chamada Maçonaria Operativa”.

A Ordem dos Templários (Soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém), foi criada em 1118, sendo a mais importante das ordens religiosas militares da época (as outras foram a dos Hospitalários ou Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém, e a dos Cavaleiros Teutônicos ou Cavaleiros do Hospital de Santa Maria dos Teutões).

A Ordem foi criada com a primordial finalidade de garantir a guarda dos lugares santos da Palestina e proteger os peregrinos, sendo baseada em regras recebidas do abade Clairvaux (S. Bernardo). Essas regras eram bastante severas, impondo aos cavaleiros, castidade, pobreza e obediência e prevendo, entre outras coisas, que eles não deviam “olhar demais para o roto das mulheres”, nem “beijar fêmea, nem viúva, nem donzela, nem mãe, nem irmã, nem tia, nem qualquer outra mulher” (N.A.: fêmea, nesse caso, é referência a meretrizes); durante as guerras, deveriam aceitar combate de um contra três e não podiam ser resgatados mediante pagamento, caso caíssem em mãos inimigas; não lhes era permitido, também, caçar nenhum animal, a não ser o leão.

Como as demais ordens, ela comportava três classes: os Clérigos, ou seja, os que recebiam ordenação sacerdotal, encarregando-se dos serviços religiosos da instituição; os Irmãos Leigos, que representavam o papel de escudeiros; e os Cavaleiros, que representavam a força combatente da ordem e que deviam ser recrutados, exclusivamente, entre os nobres, cabendo a eles, e somente a eles, o governo efetivo da instituição e de suas províncias.

Sendo a única força militar organizada da época, os cavaleiros lideravam os heterodoxos contingentes que formavam os exércitos das Cruzadas, mas eram, também, indevidamente usados nos combates, constrangidos pela incompetência ou rivalidade dos príncipes que comandavam aquelas hordas de ataque, e na retaguarda de todas as retiradas, o que acabou lhes valendo, em dois séculos, a perda de vinte mil de seus membros nos campos de batalha, o que é um número bastante grande para a época e considerando-se os reais efetivos da Ordem.

O “MAGISTER CARPENTARIUS” ERA UM ARQUITETO E INSTRIU OS OPERÁRIOS

Os templários tornaram-se, todavia, hábeis administradores, explorando muito bem a necessidade que os governantes da época tinham de seus serviços. Graças a isso, o ouro da Europa desembocava em seus cofres; províncias inteiras eram colocadas sob sua guarda. Eles movimentavam-se como verdadeiros senhores do mundo, sem serem obrigados a pagar impostos ou tributos, dependendo, apenas e tão-somente, do Papa: possuíam comendadorias em toda a Europa e em todo o Oriente Médio, mas o centro de sua administração ficava em Paris, onde o seu estabelecimento chegou a ocupar um terço da cidade.

Os castelos serviam, muitas vezes, de bancos e eles acabaram estabelecendo um grande sistema bancário, sendo que a Santa Sé e os principais soberanos europeus tinham contas correntes com eles, que emprestavam dinheiro sob garantia e adiantavam os resgates dos prisioneiros, fazendo, assim, com que a Ordem fosse credora de reis e nobres. Na Inglaterra, eles arrecadavam, cobravam e administravam vários impostos, chegando a criar, para maior facilidade de seus clientes, as chamadas “cartas de crédito”, que permitiam diversas transações. Foi por meio desse sistema bancário que o rei Luiz (depois S. Luiz), da França enviou em 1254, dinheiro à Palestina, o rei João Sem Terra, da Inglaterra, pagou suas dívidas na França e o Papa Honório III enviou 5.000 marcos aos seus representantes na Quinta Cruzada.

A par dessa atividade, a Ordem empenhava-se na construção de fortalezas, igrejas, estradas e pontes, sofrendo influência dos monges cistercienses e das associações arquitetônicas existentes no Oriente e desempenhando papel importante nas guildas e nos ofícios francos (da, hoje, chamada Maçonaria de Ofício, ou Operativa). Entre os ofícios de cada comendadoria encontrava-se um Magister Carpentariuis (Mestre Carpinteiro) que era um verdadeiro arquiteto, que dirigia e instruía os operários construtores a serviço da Ordem. Nos estabelecimentos templários, os artesãos gozavam do direito de franquia, que lhes permitia o livre exercício do ofício, sem a sujeitão aos pesados impostos reais e municipais aos quais estavam sujeitos os burgueses de Paris, na jurisdição do prebostado real (os Prebostes eram funcionários reais que acumulavam, mais ou menos, as funções hoje atribuídas aos prefeitos e subprefeitos, aos chefes das subdivisões militares, aos comissários das divisões, aos controladores das contribuições, aos recebedores e agentes do fisco).

O PRETEXTO DE HERESIA FORAM AS CERIMÔNCIAS INICIÁTICAS DOS TEMPLÁRIOS

A Ordem dos Templários, apesar de todo o seu poder, teve vida efêmera, em parte devido à animosidade existente e crescente entre os devedores (príncipes e reis) e os credores e, em grande parte, devido aos seus tesouros, cobiçados pelas cabeças coroadas. Foi o que aconteceu com o rei da França Filipe IV, cognominado Filipe, o Belo, que investiu, violentamente, contra a Ordem, com a total conivência do Papa Clemente VI, dominado por ele.

No início do século XIV Filipe reinava sobre a França como senhor absoluto, pois tinha vencido o orgulho dos grandes barões, vencido os flamengos revoltados, derrotado os ingleses na Aquitânia, vencido até o papado, instalando-o, à força, em Avignon. Além disso, os parlamentos estavam às suas ordens e os concílios a seu soldo. Conseguira, até, com o Papa Bonifácio VIII, antecessor de Clemente V, canonizar seu avô, o rei Luiz, que seria, então s. Luiz, o qual odiava os judeus e os tinha perseguido, tenazmente, durante o seu reinado.

Riqueza alguma escapava às mãos de Filipe; ele havia, sucessivamente, taxado os bens da Igreja, espoliado os judeus e golpeado o truste dos banqueiros lombardos; os impostos eram extorsivos, as crises econômicas provocavam revoltas, que eram sufocadas em sangue. Só um poder ousava enfrentá-lo: a Ordem dos Templários, cuja independência inquietava Filipe e cujos imensos bens excitavam-lhe a cobiça. Por isso, ele instaurou, contra a Ordem, o mais vasto processo da História, que durou sete anos, atingiu cerca de 15.000 acusados e perpetrou todos os tipos de infâmias. O pretexto para o processo por heresia foram as cerimônias iniciáticas da Ordem, que serviram para que a inquisição a acusasse de práticas demoníacas, feitiçaria e adoração de ídolos, fazendo com que o Papa Clemente V a extinguisse, através da bula “Vox in Excelso”, enquanto Filipe apossava-se de seu ouro.


OS GRÃOS-MESTRES VIVERAM OCULTOS ATÉ O SÉCULO XVIII

Após sete anos de prisão, sob torturas engendradas pelo terrível Guilherme de Nogaret, guarda-selos e secretário-geral do reino, os principais líderes templários, como Tiago De Molay (também conhecido como Jacques De Molay), com 71 anos, Grão-Mestre da Ordem e Godofredo de Charnay, preceptor da Normandia, eram executados nas fogueiras do Santo Ofício. No meio das chamas, na agonia da inocência imolada pelo arbítrio, De Molay, olhando para o rei, com voz terrível, gritou:

- “Papa Clemente... cavaleiro Guilherme de Nogaret...rei Filipe; antes de um ano eu vos intimo a comparecer diante do tribunal de Deus, para receberdes o justo castigo. Malditos! Malditos! Todos malditos, até a décima terceira geração de vossas raças...”

E morreu.

Trinta e seis dias depois, o Papa Clemente morria de causa indeterminada, pouco depois, Nogaret morria, provavelmente envenenado, em terrível agonia; e, finalmente, em fins de novembro do mesmo ano (1314), ocorria a morte de Filipe, o Belo, por apoplexia. Estava cumprida a maldição.

Os templários, todavia, não haviam se extinguido com a extinção da Ordem, em 1312, muitos que haviam escapado à “justiça” real e papal, agregaram-se às comunidades de ofício. A Ordem do Templo, inclusive, imediatamente depois de sua destruição oficial, reconstituiu-se na forma de uma sociedade secreta internacional, cujos Grão-Mestres viveram ocultos até o século XVIII.

Os templários deram origem ao Compagnonage (Companheiros), ainda hoje existente. Eles tinham necessidade, em suas distintas comendadorias, de trabalhadores cristãos, e, assim, organizaram-nos de acordo com sua própria filosofia e dando-lhes um regulamento chamado de “Santo Dever”. Esses trabalhadores que se vestiam de branco e não usavam espadas, construíram, no Oriente Médio, formidáveis cidadelas, adquirindo certo número de métodos de trabalho, herdados da Antiguidade. Em Paris, esses companheiros (que não devem ser confundidos com Companheiros Maçons) também viviam dentro da área do Templo que, durante 500 anos foi o centro dos trabalhadores Iniciados.


A ASSOCIAÇÃO DE COMPANHEIROS DEU ENORME CONTRIBUIÇÃO A MAÇONARIA MODERNA


Através do Compagnonnage[1], a Ordem dos Templários liga-se às origens da Franco-Maçonaria. Na moderna Maçonaria encontram-se as “provas” dos Ritos iniciáticos e até emblemas muito precisos, que não são apenas os das antigas companhias de artesãos, mas podem, também, ser encontradas nas paredes de muitas tumbas de arquitetura do antigo Egito; essas paredes representam verdadeiros manuais de iniciação profissional. Tudo leva, portanto, à conclusão de que os Ritos, emblemas, símbolos e processos de trabalho só podem ter sido trazidos para aquele período medieval pelos membros do Compagnonnage, chegando até a Maçonaria atual.

A Associação dos Companheiros, o Compagnonnage, foi de fundamental importância para a evolução das organizações de ofício e apresenta uma enorme contribuição à moderna Maçonaria; lamentavelmente, essa contribuição tem sido omitida por grande número de autores que negam, ao Compagnonage, essa importância, cometendo um lamentável erro.

A revista francesa “Le Monde Maçonique”, edição de 1870, afirma o seguinte:

- “ A Franco-Maçonaria moderna nasceu em 1717, quando quatro Lojas de Londres se reuniram em Grande Loja que se arrogou o poder de federar todas as outras oficinas. Mas a Maçonaria é depositária de uma longa cadeia de tradições. Não se pode contar a sua história sem primeiro evocar os companheiros construtores da Idade Média, porque a Maçonaria chocou o ovo do Companheirismo. ”

Existia no Compagnonnage, um tipo de anedota secular que mostrava a diferença essencial que separa os seus membros dos outros trabalhadores: 

No recinto de obras de uma catedral, no coração da Idade Média, três homens, lado a lado, esquadrejam as pedras, quando se aproxima um curioso que lhes pergunta o que eles fazem:

“Eu ganho a minha vida” responde, simplesmente o primeiro.
- Eu esquadrejo uma pedra”, responde o segundo.
- Eu edifico uma catedral” diz o terceiro, com manifesto orgulho. 
Este último era um companheiro”.


CONSTITUÍRAM-SE EM OFICINAS ITINERANTES DE CANTEIROS, DE CARPINTEIROS, DE PEDREIROS

Os membros do compagnonnage são, acima de tudo, homens de tradição e dos manuais. Depois de um milênio, eles estão reunidos em sociedade secretas ou pelo menos fechadas, cuja origem se perde nas brumas da lenda que afirma encontrar sua fundação durante a época da construção do templo de Jerusalém, mil anos antes de Cristo (o que, evidentemente, é mesmo lenda, como a de que a Maçonaria é multimilenar). Baseados nisso, os companheiros possuem três lendas, nas quais aprecem Hiram Abi, Mestre Jacques e Mestre Soubise. A lenda de Hiram Abi não é a atual lenda do terceiro Grau Maçônico, mas, sim, aquela que relata o envio do artífice Hiram Abi, a Salomão, pelo rei fenício Hiram, de Tiro, e que dá conta de que ele, por sua sabedoria, impôs-se como dirigente dos trabalhos, sendo reconhecido, por todos, como o mestre da ordem dos companheiros construtores. Mestre Jacques era um canteiro (esquadrejador de pedras) de origem gaulesa que trabalhou, segundo a lenda, no templo de Jerusalém, em companhia de seu amigo subisse. Uma outra lenda, totalmente diferente, afirma que Mestre Jacques não seria outro senão Jacques De Molay, o último Grão-Mestre dos templários, executado por ordem de Filipe, o Belo, em 1314. Uma terceira lenda fala de um certo Jacques Moler, construtor das torres da catedral de Orleans, enquanto que Soubise seria um beneditino construtor de igrejas e amigo de Moler. De qualquer maneira, Salomão, Mestre Jacques e Mestre Soubise são os três “pais” do compagnonnage, venerados e celebrados, até hoje, por aqueles que se dizem seus filhos.

Na realidade, o Compagnonnage saiu da lenda para entrar na história mais precisamente pouco depois do ano 1000¸na época das Cruzadas (a primeira é de 1096). Foi a partir daí, sem dúvida, que os companheiros serviram de tropas de gênio militar aos cruzados, constituíram-se em verdadeiras oficinas itinerantes de canteiros (esquadrejadores de pedras), de canteiros, de pedreiros. Esses acompanharam os guerreiros e edificaram pontes, obras de defesa militar e os santuários necessários.


NENHUM PROFANO ASSISTE AS CERIMÔNIAS QUE CONFERIAM OS GRAUS DE APRENDIZ E COMPANHEIRO

Foi nessa oportunidade que esses trabalhadores manuais receberam o título de Homens do Santo Dever, ou do Santo Dever de Deus, sendo que a palavra DEVER lembrava-lhes as práticas e as técnicas que eles haviam aprendido no exercício de seu trabalho e, também e principalmente, as regras, os Ritos iniciáticos que os uniam em cada um dos ofícios agrupados no Compagnonnage e que eram originalmente, os de pedreiro, canteiro, carpinteiro, marceneiro e serralheiro.

Desde essa época, eles já correspondiam à definição que lhes daria 800 anos mais tarde, o economista francês Fréderic Le Play:

- “Uma sociedade formada entre obreiros de um mesmo corpo de estudo, sob o triplo objetivo de formação profissional, assistência mútua e moralidade”.

Naturalmente, quando eles voltaram de suas expedições às longínquas terras orientais, reconstituíram, na França, suas oficinas, encontrando, então, muitas ocasiões para exercer o seu ofício em toda a Europa, profundamente impregnada de fervor e de fé cristã, nas inúmeras vilas e cidades, igrejas e catedrais brotavam da terra, assim como os primeiros monumentos civis. A arquitetura romana em sua fase mais sólida e mais calma, e a extraordinária ascensão das ogivas góticas, um pouco mais tarde começaram a elevar seus pilares sobre um autêntico e formidável formigueiro de canteiros (esquadrejadores de pedras), carpinteiros, serralheiros, pedreiros, marceneiros e entalhadores de imagens. Agrupados em suas oficinas volantes, eles eram estritamente solidários, a ponto da função de mestre-de-obras ser entregue sempre a um deles, mas experiente que os demais.

Por ocasião das festas de seus patronos (S. José, para os carpinteiros, Sant´Ana, para os marceneiros. Santo Eloi, para os ourives, Santa Bárbara, para os telhadores, a Assunção, para os pedreiros e canteiros, etc), cada corpo de ofício reunia seus membros numa sala secreta – a Loja – e procediam à recepção iniciática daqueles que haviam demonstrado uma melhor posse de seu ofício, pela execução de uma obra-prima. Nenhum Profano, sob pena de morte, podia assistir a essa cerimõn9ia, que conferia os “Graus” do Compagnonnage Aprendiz e Companheiro.

Pode-se notar, assim, a grande influência dos “Compagnonnages” sobre as demais organizações de ofício e sobre a moderna Maçonaria, ou seja, a dos Aceitos. Esta influência não é sentida apenas nas práticas ritualísticas e na divisão dos Obreiros, mas, também, nos Símbolos que chegaram até à Maçonaria moderna com o mesmo significado original: os principais, que, de alguma maneira, ornamentam os Templos Maçônicos ou os próprios Obreiros, estão relacionados no box:

- Acácia = a alma, a imortalidade
- Alavanca = a firmeza de caráter
- Avental = o trabalho
- Cinzel = a razão, a inteligência
- Cinzel + Malho = a sabedoria
- Coluna Coríntia = a beleza
- Coluna Dórica = a força
- Coluna Jônica = a sabedoria
- Compasso = o julgamento
- Compasso + Régua = a lei moral
- Delta = a divindade
- Delta Radiante = Deus, o princípio universal
- Esquadro = a equidade, a justiça
- Espada Flamejante – o fogo do céu, a criação
- Espada Reta = o raio de luz, o influxo espiritual
- G = Geometria
- Hexagrama = o universo
- Iod = o espírito, o princípio fecundante
- Lua = a imaginação
- Luvas brancas = a pureza de sentimentos, a lealdade, a brancura
- Nível - a igualdade
- Números= as ideias
- Nuvens = as paixões, os preconceitos
- Olho (direito) = o Sol
- Ponta (dirigida para o alto) = o fogo, o universo inteligível
- Ponta (dirigida para baixo) = a água, o universo sensível
- Régua = a imparcialidade
- Régua + Alavanca = o respeito à Lei
- Régua + Esquadro = a criação de uma ética
- Sol = o intelecto, a razão
- Triângulo equilátero = a sabedoria
- Trolha = a concórdia, a união, a fraternidade.

Por tudo isso, pode-se reafirmar a verdade contida na citada publicação de 1890; não se pode escrever a História da Maçonaria, sem primeiro abordar o Compagnonnge e a Ordem dos Templários que lhe deu origem.

BIBLIOGRAFIA 

- Guia de Curiosidades Históricas – Uma viagem através dos séculos – Os fatos inesquecíveis da Antiguidade, das Idades Médias, Moderna e Contemporânea – Editora On Line – Ed. 01 (não consta nome do autor) – Visualizado em 09 Ago 17)

- Castellani, José – Curso Básico de Liturgia e Ritualística – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda.P

[1] COMPAGNONNAGE = Na França a Compagnonnage, ou “caramadaria” de construtores, surgiu em um primeiro momento para enfrentar o poder dos patrões, que controlavam todos os aspectos da profissão, da aprendizagem à promoção. Durante o período medieval, as condições dos operários eram – para dizer o mínimo – precárias. Submissos a um patrão, eram muitas vezes mal pagos e maltratados. Além disso, era quase impossível para eles obter o título de “mestre”, o que lhes permitia estabelecer por conta própria. A Compagnonage surgiu nesse contexto como uma espécie de união sindical embrionária, que, além do trabalho, garantia a seus afiliados o recebimento de ajuda de todo tipo: alojamento, alimentação e roupas. Além disso, a camaradaria também visava dar a seus membros uma formação tanto técnica como moral. Dessa forma, pertencer à organização significava ter uma vida mais digna e segura. Diminuindo a importância do título de “mestre”, valorizaram o de “companheiros” ou “camaradas”, destacando o aspecto fraternal da organização. Há indícios de que este tipo de sociedade existia desde a antiguidade. As guildas de construtores romanos reuniam-se m suas Colegiae, como se chamava sua organização. Acredita-se que os símbolos e as regras de ofício eram detidos pela misteriosa Colegiae Comacini, uma guilda de arquitetos sediada numa ilha fortificada no lago Como,, após a desintegração do Império Romano. Através deles, os segredos da geometria sagrada e métodos de construção para os construtores italianos de Ravena e Veneza, e por meio deles, às guildas de arte e comércio da Idade Média. Os lugares de encontro dos comacinos era chamado “loggia” de onde, supõe-se, a palavra “loja” deriva. Os símbolos dos comacinos incluíam o nó, o rei Salomão e a Infinita Corda da Eternidade entrelaçada.