sexta-feira, 2 de setembro de 2016


O FIO DE PRUMO


Pesquisa: José Roberto Cardoso



Na abertura do Livro da Lei, no Grau de Companheiro Maçom, lemos o seguinte versículo:

                                                              “Assim me fez ver : Eis que o Senhor estava de pé sobre um muro e Iahweh me disse: Que vês, Amós? Eu disse: Um fio de prumo. O Senhor disse: Eis que vou pôr um fio de prumo no meio do meu povo, Israel, não tornarei a perdoá-lo” (Am 7:7-9)

Mas por quê esse texto foi escolhido?

Primeiro precisamos saber quem foi Amós e na sequência teremos os motivos pelos quais a Maçonaria adotou este versículo.

Todos sabemos que a doutrina maçônica está assentada na filosofia judaico-cristã.

Amós foi um dos 12 profetas menores do Antigo Testamento e autor do Livro que leva o seu nome. Nasceu em Tecoa, cidade a cerca de 20 Km, nos limites do deserto de Judá, a Sudeste de Belém e faleceu no ano de 745 a. C.. Também era um homem de família humilde.

O “Profeta” Amós foi o introdutor do monoteísmo universal e criticava no seu livro, a hipocrisia religiosa, os costumes impuros e a corrupção no governo. Amós pedia para o povo estudar para deixar de serem escravizados, para purificarem suas mentes com a prática da virtude, aplicando as tradições dos antepassados para o retorno à estrutura de um povo forte e respeitado (essa crítica era dirigida, na época, principalmente a Judá e Israel). Amós era um cultivador de sicômoros[1], árvore que servia para a construção. Ele anunciava que os muros dos Templos, dos Tribunais e das casas dos hebreus iriam todos cair, pois foram construídos sem as ferramentas que lhes conferem a devida estabilidade. Conhecimento que foi esquecido por preguiça ou por soberba. Aqui, o prumo aparece como símbolo de retidão moral e intelectual. Amós deixa claro a imperdoável falta cometida pelo povo de Israel.

Amós era um “no·qedhím”, ou seja, “criador de ovelhas”, e a presença dessa palavra só ocorre em mais um lugar na Bíblia (2Rs 3:4), e está relacionada com naqqad, palavra árabe para uma raça especial de ovelhas, um tanto desgraciosa, mas de grande valor, por causa do seu velocino[2]. Lá naquela região selvagem, Amós também se empenhava em trabalhos servis temporários como riscador de figos de sicômoros, uma variedade considerada alimento apenas para os pobres. O costume de riscar ou pungir os figos destinava-se a apressar seu amadurecimento, e aumentar o tamanho e a doçura dos frutos. — Amós 7:14;

Semelhante ao pastor Davi, que foi chamado ao serviço público por Deus, assim também “Jeová passou a tomar [Amós] de atrás do rebanho”, e fez dele profeta. — Am 7:15.

Da solidão do ermo no Sul, Amós foi enviado ao idólatra reino de dez tribos, no Norte, com sua capital Samaria.

Amós começou sua carreira como profeta dois anos antes do grande terremoto que ocorreu no reinado de Uzias, rei de Judá. Ao mesmo tempo, Jeroboão II, filho de Joás, era rei de Israel. (Am 1:1) Por conseguinte, a profecia de Amós se situa em algum tempo do período de 26 anos, de 829 a cerca de 804 AEC, quando os reinados destes dois reis, de Judá e de Israel, coincidiram. O grande terremoto, que ocorreu dois anos depois de Amós ter sido comissionado como profeta, foi de tal magnitude que, quase 300 anos depois, Zacarias fez menção especial dele. — Za 14:5.

É incerto por quanto tempo Amós serviu qual profeta no reino setentrional. Amazias, o iníquo sacerdote adorador de bezerros, da religião estatal centralizada em Betel, tentou expulsá-lo do país, à base de que ele era uma ameaça para a segurança do estado. (Am 7:10-13) Não se revela se Amazias teve êxito nisso. De qualquer modo, ao se cumprir a missão profética de Amós junto a Israel, ele presumivelmente voltou ao seu território tribal nativo de Judá. Jerônimo e Eusébio relatam que o sepulcro do profeta, nos dias deles, estava localizado em Tecoa. Também parece que, depois de retornar a Judá, Amós assentou por escrito a profecia que de início fora proferida oralmente. Ele é com frequência chamado de um dos 12 profetas “menores” (seu livro sendo catalogado em 3. ° lugar entre os 12), todavia, a mensagem que proferiu de modo algum é de pouca significância.

O seu ministério foi exercido no século VIII a. C. durante os reinados dos Reis Uzias (ao sul de Israel) e Jeroboão II (ao norte de Israel). Sua obra foi marcada por uma profunda crítica social e religiosa. Ele denunciou a desigualdade social de seu tempo, bem como o uso idólatra da religião, transformada em mero instrumento que serve à alienação e usada como fachada para a iniquidade.

O Profeta Amós é um revolucionário, um socialista de seu tempo que não se deixou levar pelas aparências de uma época marcada sobretudo pela prosperidade material. Contudo, mesmo com abundância, o povo de Israel passou por uma profunda inversão de valores, deixando-se levar pela soberba, ganância, luxúria e todo tipo de perdições.

Dessa forma, a obra de Amós é caracterizada pela crítica ao enriquecimento da sociedade à custa dos pobres; ao suborno e corrupção de juízes nos tribunais; à opressão, violência e à escravidão dos pobres; ao comportamento das mulheres ricas, que para viverem no luxo, estimulavam seus maridos a oprimirem os fracos.

No que toca à religião, Amós denuncia seu caráter meramente ritualístico e vazio. Assim ele diz em seu livro: “eu odeio, eu desprezo as vossas festas e não gosto de vossas reuniões. Porque, se me ofereceis holocaustos não me agradam as vossas oferendas e não olho para o sacrifício de vossos animais cevados. Afasta de mim o ruído de teus cantos, eu não posso ouvir o som de tuas harpas! Que o direito corra como água e a justiça como um rio caudaloso.

E dentro desse contexto de críticas, Amós, na terceira parte de seu livro, relata cinco visões, sendo que a terceira delas interessa de forma particular à maçonaria. Trata-se da visão do fio de prumo. No capítulo 7, versículos 7 e 8, Amós assim relata: “Assim me fez ver: Eis que o Senhor estava de pé sobre um muro e tinha sobre a sua mão um fio de prumo. E Iahweh me disse: Que vês Amós? Eu disse: Um fio de prumo. O Senhor disse: Eis que vou por um fio de prumo no meio do meu povo, Israel, não tornarei a perdoá-lo”

Ora, é o Senhor mesmo Quem estava sobre o muro na visão de Amós. E o prumo que segurava em Suas mãos é altamente revelador. Ele revela nossa intrínseca tortuosidade, nosso desalinhamento e desequilíbrio moral.

Da mesma forma como o pedreiro se utiliza do prumo para procurar falhas na obra em que se debruça, assim se dá quando Deus coloca seu prumo em nossas vidas, fazendo aparecerem todas as falhas, todas as misérias escondidas em nossos olhares dissimulados, em nossas palavras vazias e em nossas ações e omissões egoístas.

Mas o que é este prumo de Deus em nossas vidas? Será a Bíblia (ou qualquer outro livro sagrado, ou doutrina que seguimos?). Será nosso caminho pessoal? Os padrões sociais e políticos de nosso tempo? Nossa consciência?

A Ordem Maçônica tenta nos mostrar qual será este prumo na vida particular de cada maçom, transmitindo por meio de alegorias e símbolos antigos mistérios que podem ser traduzidos em retidão moral e bons costumes para aquele que de fato os persegue em seu íntimo construtor.

Mas há um fato curioso nesta passagem. Nem mesmo Deus julgou aleatoriamente o seu povo. Antes disso, Ele passou sobre nós o seu prumo sagrado, para que toda falha fosse posta às claras. Assim, não cabe ao Homem passar seu prumo particular na parede alheia, achando-se ridiculamente capaz de medir os erros de seu irmão com a medida própria. Não cabe em nós tamanho amor para realizar essa tarefa de sublime construção da alma do nosso próximo. Isto é assunto entre o Pai e seu filho, porque no prumo do homem há juízos e preconceitos, medidas diferentes alicerçadas na miséria de nossa alma. Mas o prumo de Deus contém a dádiva do arrependimento e a certeza da retidão no amor maior de sua caridade.

O prumo de Deus revela nossos pecados à luz do dia, não deixando nada a coberto. E ao lança-los à luz, Ele espera de nós tão-somente humildade e trabalho para quebrarmos nossos tijolos mal assentados e recomeçar nossa obra fundada na promessa de que O seguindo encontraremos pela frente apenas consequências do Amor.

Na caminhada do Companheiro Maçom, durante seu aprendizado é fundamental a prática da virtude. Virtude se reflete na tolerância em relação às opiniões alheias, na fraternidade para com os indigentes, no socorro aos que sofrem, no consolo aos aflitos e na instrução aos ignorantes. O prumo simbolizando a elevação do espírito do ser humano, representa a reunião de todas as virtudes onde a Justiça forma o sustentáculo de toda uma sociedade democrática e igualitária – um fim que Amós buscava com suas pregações/críticas na época, ao povo de Israel. Convém lembrar que, na passagem bíblica que representa a abertura da Loja no Grau de Companheiro, o prumo encontra-se na mão de Deus e não nas mãos do profeta, de onde podemos concluir que, como Companheiro devemos colocar o prumo em nossas vidas para que possamos perceber nossas falhas e então, corrigi-las, e não se fazer de prumo e iniciarmos o questionamento de outros irmãos quanto ao seu desvio de conduta. “A função do prumo na Maçonaria não é revelar falhas ou defeitos para arrastar-nos a Juízo e desespero. A função do prumo é revelar falhas e defeitos, para que possamos renascer a cada dia, lapidar a pedra bruta que somos e encontrar a verdade, a justiça e a perfeição”


[1] Sicômoro - Ficus sycomorus, conhecida pelos nomes comuns de sicómoro, sicômoro ou figueira-doida, é uma espécie de figueira de raízes profundas e ramos fortes que produz figos de qualidade inferior, cultivada no Médio Oriente e em partes da África há milénios.
[2] Velocino = a pele do carneiro, da ovelha, do cordeiro recoberta com sua lã; velo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

DEUS “NÃO JOGA DADOS”

Autor: João Anatalino


O bem e o mal

Em termos de cosmologia o discurso científico não deixa de conter certo esoterismo e na mística contida no discurso esotérico também podemos encontrar fumos de ciência. Isso porque a matéria bruta é feita de átomos, os átomos se juntam para formar compostos e os compostos constituem a maior parte da matéria universal.

Igualmente a matéria orgânica se forma a partir de células que se juntam para formar moléculas e estas se reúnem em sistemas. Todos com seus domínios e funções, da mesma forma que cada vida, humana ou animal, tem o seu domínio, sua função e sua missão na estrutura do universo. No imenso do espaço cósmico e no ínfimo do núcleo atômico da matéria, fundem-se os domínios da física com os da metafísica para nos dar a compreensão de como o universo funciona e como ele está sendo construído. É uma verdadeiraCosmogênese que se processa, segundo um plano e uma finalidade que talvez nunca cheguemos a compreender, mas que é possível entrever nas leis que regem a formação dos corpos materiais e do próprio fenômeno da vida.[1]

A natureza não faz nada que não seja absolutamente útil. A menor partícula existente na matéria universal cumpre papel extremamente importante nessa formidável rede de relações em que vai se tornando o universo físico que saiu do Big-Bang. Essa rede de relações parece obedecer á um plano extremamente lógico, como se ela estivesse sob o comando de uma Mente Universal que tudo planeja e controla. 

Ás vezes temos a impressão de que todos os eventos universais acontecem aleatoriamente, como em um jogo de dados. [2]

Mas isso é porque, do nosso limitado campo de visão, nós só temos a perspectiva do imediato. Se nos fosse dado o privilégio de ver todos os desenhos futuros que o tecido universal assumirá, ou no passado todos que já assumiu, então a nossa preocupação seria apenas a de procurar entender o nosso papel nesse processo. Pois, como bem expressa Teilhard de Chardin,nós somos o ápice momentâneo de uma Antropogênese, que por sua vez, coroa uma Cosmogênese, ou seja, somos a espécie mais elaborada que o fenômeno da vida produziu, até agora, dentro de um projeto de vida cósmico, elaborado pela Mente Universal.[3]

Conscientes desse processo, podemos evitar ações que possam causar “defeitos” na urdidura desse tecido, pois embora o universo tenha mecanismos de recomposição para todos os desequilíbrios que nele são gerados, qualquer ação que viole os princípios de organização e desenvolvimento postos na natureza sempre exige um custo maior em dispêndio de energia para realizar uma recomposição. Essa é noção que a Cabala nos dá sobre a finalidade dos conceitos do bem e do mal. O bem é a ação que concorre para realizar a ordem cósmica; o mal, o seu contrário. É nesse mesmo sentido que a Maçonaria ensina: “a virtude é uma disposição da alma que nos induz a praticar o bem, e o vício é o hábito desgraçado que nos arrasta para o mal”.[4]


Ciência e religião

Os livros sagrados de todas as religiões do mundo, sejam elas “reveladas” ou frutos da especulação que o homem faz em busca de uma realidade que está além da sua própria sabedoria, sustentam que o universo começou pela ação de uma Divindade, que de alguma forma, deu início ao mundo, tal como o vemos.[5]

A Bíblia, por exemplo, que é a fonte mais conhecida de uma religião revelada, diz que Deus fez todas as coisas tirando a luz das trevas. E quando viu que a luz era boa, Ele fez o restante do universo com ela. Para os cientistas, como já vimos, o universo teve início com a explosão de um “campo” carregado de energia, há cerca de uns quinze bilhões de ano atrás. Essa explosão, que pode ser vista ainda hoje, liberou “quantas” de energia, em forma de luz. Nesse sentido, luz e energia são sinônimos do mesmo fenômeno, constituindo aquilo que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo”. [6] 

Assim, ciência e religião, no fundo, dizem a mesma coisa: Deus é luz, o mundo foi feito de luz, todas as coisas existentes no universo são condensações de energia luminosa. Inclusive nós mesmos. Por isso temos um espírito, que também é pura luz. E conforme nos ensina a Gnose, a nossa alma é uma centelha de luz (ou energia) presa em um invólucro material. E de uma forma ou de outra, usando diferentes figuras de linguagem, todas as doutrinas trabalham com esse mesmo princípio: a de que somos uma massa corpórea animada por alguma forma de energia. 

Essa é uma interessante concepção que nos dá muito que pensar. Mas ela só pode ser expressa através de símbolos, metáforas e analogias. A mente humana cria figuras de linguagem para descrever realidades que a nossa intuição sabe que existem, mas não consegue descrevê-las porque o sistema de comunicação que desenvolvemos não tem elementos suficientes para fazer uma exata configuração delas. 

Na verdade, o que seduz tanto os místicos quanto os cientistas é a ideia de que toda a matéria universal tem sua origem em uma forma de energia. No principio do universo ─ nisso tanto a religião quanto a ciência concordam ─, existia apenas a energia da grande explosão do Big-Bang. Nesse estágio embrionário do Cosmos, aquilo que chamamos de massa ainda não havia se formado. Nada tinha peso ou qualquer outra qualidade que pudesse ser identificada como matéria. Todos os corpos que existem, existiram e existirão eram somente uma coleção de partículas subatômicas dispersas, movendo-se à velocidade da luz. Um certo tipo dessas partículas (fótons, elétrons, neutrinos) formavam uma espécie de oceano invisível, um campo energético de infinita radioatividade. Foi na interação com esse “oceano” que certas partículas, como os quarks (que formam basicamente toda a matéria universal, inclusive o nosso corpo), adquiriram massa e vieram a se tornar o que conhecemos como universo físico.[7]

Na força que os quarks fazem para atravessar esse oceano oleoso, dizem os cientistas, é que a massa física do mundo acaba sendo gerada. Isso significa que sem esse “oceano primordial” não haveria matéria. Mais ou menos como diz a Bíblia: “No princípio, ao criar Deus os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo, e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas.”[8]


O que diz a Cabala

Cientista é um bicho teimoso. Não importa que sua teimosia seja chamada de pragmatismo, racionalismo, positivismo ou qualquer outro nome que se queira dar a essa mania de buscar prova material para tudo. E para isso leva anos e anos pesquisando e gastando milhões de dólares em recursos para tentar provar aquilo que o espírito humano já sabe desde que o primeiro homem experimentou a sua primeira reflexão: que Deus existe e que é Ele, seja lá o que Ele for − uma entidade ou uma forma de energia − que dá existência a toda realidade cósmica.
Galáxias, estrelas, planetas, asteroides, tudo são condensações de energia, presas por um vínculo de união e organizadas segundo um padrão de estabilidade. Como disse o físico Heisenberg, se a gravidade fosse retirada do universo, a luz também desapareceria e o mundo desabaria sobre si mesmo.[9]

Por seu turno Hawking nos mostra que no universo existem duas forças que regem a sua formação: a força da expansão, que faz com que o universo se expanda na velocidade da luz e a força da contração, que faz com que as massas cósmicas se agrupem e formem os sistemas planetários. Essas duas forças se traduzem em duas leis: a relatividade e a gravidade. Assim, o que hoje se descobre nos laboratórios já estava presente na intuição dos taumaturgos e pensadores do passado. Bastaria uma consulta ao Zhoar, para ver que a descrição do Big-Bang já estava lá com todas suas cores: “No início, quando a vontade do Rei começou a ter efeito, Ele imprimiu signos na esfera celeste. Uma flama escura brotou do fundo do recesso mais escondido, do mistério do Infinito, qual uma névoa formando-se no informe, encerrado no anel daquela esfera, nem branca nem preta, nem vermelha nem verde, de cor nenhuma. Só quando a flama começou a assumir tamanho e dimensão foi que produziu cores radiantes. Pois do centro mais íntimo da flama brotou uma fonte, da qual emanaram cores que se alastraram sobre tudo que estava embaixo, oculto no mistério do ocultamento do Infinito. A nascente irrompeu, e no entanto, não irrompeu através do éter (da esfera). Não era possível reconhecê-la de modo algum, até que um ponto escondido, sublime, raiou sob o impacto do irrompimento final. Nada para além desse ponto é cognoscível, e é por isso que se chama reschit, o começo, a primeira daquelas palavras criadoras, por meio das quais o universo foi criado.” [10]


A “partícula Deus”

É muito bom que os cientistas tenham descoberto (se é que de fato descobriram) o DNA do universo físico (que eles chamam de bóson de Higgs). Mas nada disso nos leva á compreensão do que realmente Deus é, e qual o caminho mais seguro e correto para se chegar a Ele. Isso porque o caminho para Deus nunca será desvelado no estudo do que é simplesmente material. Por isso é que a ciência jamais prescindirá da filosofia (e dentro desta a teologia) como ferramenta de investigação dessa parte oculta do universo, que é a sua porção espiritual.

Talvez, se os cientistas não fossem tão teimosos eles já teriam descoberto como o universo nasceu na descrição que o cronista bíblico faz da criação do mundo e assim não precisaríamos gastar tanto tempo, fosfato e dinheiro para comprovar o que a intuição taumatúrgica já sabe desde o princípio dos tempos. 

Um respeitado cientista, ao explicar a importância do bóson de Higgs para a formação da matéria universal, utilizou uma interessante comparação: “ele é como a água para os peixes”. [11]

Nesse sentido, é interessante observar que a Bíblia diz, textualmente, que no início “o Espírito de Deus movia-se sobre as águas”. E com isso chegar-se-ia mais fácil á conclusão de que céu e terra (ou seja, o universo) nasceram com o surgimento da luz. Que a luz foi a primeira manifestação da Existência Positiva de Deus (na linguagem da Cabala), e essa luz é o “Espírito de Deus” promovendo a fecundação da vida sobre as “águas primordiais”, como diz um belo poema gnóstico.

A sabedoria arcana é resultado da intuição do espírito humano, registrada na forma de símbolos e metáforas, porque a humanidade ainda não conseguiu desenvolver linguagem escrita e falada suficiente para explicar os noventa e nove por cento do universo que ainda permanecem desconhecidos para nós.

Tudo isso nos mostra que o universo não é caótico e que Deus não é indiferente ao seu destino. Que existe um processo regulando a sua criação, orientando o seu desenvolvimento. Há uma “Ordo ab Chaos”, da qual participamos, talvez inconscientemente. Por enquanto sabemos apenas que existem duas margens nesse imenso rio que precisam ser ligados por uma ponte. Algumas pilastras já foram postas pelos grandes sábios do passado e do presente. Uma boa parte delas é obra dos mestres da Cabala e da Gnose. Sobre elas caminham os maçons, os rosa-cruzes, os gnósticos, os teosofistas e os cientistas que não perderam a sua espiritualidade. É só andando sobre elas que nós podemos, com muito cuidado, encetar esta nossa aventura espiritual.[12)


[1] Segundo Teilhard de Chardin (O Fenômeno Humano, citado), a evolução do universo físico obedece á duas grandes leis: a lei da união, pela qual as partículas elementares que formam a matéria tendem a se unir para formar átomos e estes se unem para formar os elementos químicos; e a lei da complexificação, segundo a qual essa união vai produzindo compostos cada vez mais complexos, dando um sentido á evolução. 
[2] É nesse sentido que Einstein disse que “Deus não joga dados”. Que dizer, Deus não constrói o universo aleatoriamente, testando alternativas para ver no que vai dar.
[3] Teilhard de Chardin- op. citado pg. 27.
[4] Cf. o Ritual do Aprendiz (REEA)
[5] Religiões reveladas são aquelas cuja doutrina, supostamente, foram transmitidas aos seus fundadores pela própria Divindade. O Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo são exemplos de religiões reveladas. Já o Budismo, o Taoísmo, o Espiritismo são exemplos de religiões metafísicas, pois seus pressupostos são deduzidos a partir de especulações filosóficas ou de experiências psíquicas feitas pelos seus fundadores.
[6] O que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo” é a energia primordial que atua na base de todas as coisas existentes no universo. “quantas” são medidas da energia contida nos núcleos atômicos dos elementos, que se apresentam como ondas e partículas
[7] Stephen Hawking- O Universo Em Uma Casca de Nóz.
[8] Gênesis, 1: 1,2. 
[9] Werner Karl Heisenberg (1901 —1976) físico teórico alemão, Prêmio Nobel de Física em 1932, pela descrição dos princípios da mecânica quântica.
[10] .Sepher Há Zhoar, I 15, a.
[11] O “bóson de Higgs” é a partícula atômica que segundo os teóricos da física nuclear é responsável pelo surgimento da massa física do universo. Essa partícula essencial, apelidada de “partícula Deus”, foi descoberta pelo cientista Peter Higgs em 1964. Em 2013, a existência e atuação desse padrão energético foi observado e comprovado pela primeira vez através de pesquisas realizadas nos laboratórios do CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares).
[12] Na imagem, o bóson de Higgs-“a partícula Deus”- Fonte Wikipédia Fundation.


João Anatalino

A MAÇONARIA E O SENTIDO DA VIDA

Autor: João Anatalino


O que é a vida?


Quando se considera o universo e a vida que nele habita somente como um acidente cósmico sem sentido nem finalidade, perde-se o norte da própria existência. Para que, então se preocupar com os rumos do mundo e o próprio destino individual se, se façamos o que façamos, nada disso tem uma finalidade? Se tudo se perde, irremediavelmente, na voragem do tempo?

Será a vida apenas um fenômeno físico-químico que um acidente cósmico um dia produziu? Ou terá ela sido produzida como parte de algum projeto que envolve, não somente o seu próprio desenvolvimento, mas um plano bem maior, de escala cósmica? E se cada vida fosse o elo de uma corrente que transmite, no tempo e no espaço, a energia criadora que faz do universo um ser vivo e convergente, que por dentro e por fora se metamorfoseia e vai adquirindo contornos e qualidades que no fim, servem á uma finalidade definida por uma Mente Universal?

São exatamente essas as perguntas e as elucubrações feitas pela Maçonaria, quando se interroga pelo sentido da vida. Um dos graus do Ritual coloca exatamente essa questão quando pergunta: “De onde viemos? O que somos? O que a morte fará de nós? Que é o homem? É apenas um átomo, gestado no corpo da mulher e que progressivamente se organiza, se harmoniza em suas inúmeras partes? Que cresce, pensa, cai, transforma-se e volta á causa primária, deixando apenas reminiscência de sua última forma ou conservando uma partícula essencial, mutável e mortal? [1//

Nesse questionamento a Maçonaria enfrenta a questão metafísica que tem desafiado a mente humana através de toda a sua história de vida. Afinal, somos apenas uma sombra que passa, um fenômeno despregado de qualquer sentido, que um dia aconteceu no universo como resultado de causas exclusivamente naturais, ou ele é o desvelar de uma Vontade que se manifesta e percorre um longo processo evolutivo que começou, um dia, num átomo que rompeu, por um processo ainda desconhecido, os limites da matéria inanimada?

Um maçom não pode acreditar na hipótese materialista, advogada na tese que sustenta ter a matéria as condições suficientes para explicar todos os fenômenos existentes no universo, inclusive a vida. Porque, se adotar essa crença, estará negando qualquer virtude á prática que adotou. Se o fenômeno da vida e principalmente a do ser humano, fosse um acaso perpetrado por leis exclusivamente naturais, “um vírus” inoculado na corrente sanguínea do universo, como o definiu uma vez um romancista, então ele não teria um espírito, e não se poderia falar na existência de um Criador, e nem haveria qualquer motivo para se tentar uma união com Ele. Tudo que fazemos nesse sentido seria apenas uma simulação fantasiosa. É nesse sentido que Anderson, em suas Constituições, diz: “um maçom é obrigado a obedecer à lei moral; e se ele bem entender da arte, jamais será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso.” [2]

Um processo dirigido

Se os materialistas estivessem certos, toda religião, bem como toda prática iniciática não passaria de uma distração infantil, que mentes incapazes de conviver com a realidade desenvolvem para mitigar a incômoda impressão de que a nossa existência não tem qualquer finalidade além daquela que os nossos sentidos nos indicam. Mas, felizmente, temos razões para pensar que as coisas não são assim; que nós não somos apenas matéria desprovida de espírito, seres organizados por leis naturais que só obedecem ao determinismo dos grandes números. O surgimento da vida em meio á matéria universal, como está a indicar a metáfora bíblica da Criação, é fruto de um processo dirigido e bem elaborado por quem o projetou e o controla, ou seja, O Grande Arquiteto do Universo. 

Mais uma vez é o grande Teilhard de Chardin que nos socorre nessa visão, mostrando como o surgimento da vida resulta de uma síntese que a união dos átomos transforma em moléculas, e estas, também por um processo de sínteses cada vez mais elaboradas, dão origem ao fenômeno humano. Em páginas de extraordinária lucidez e envolvente poesia, esse grande pensador escreve: “Aqui reaparece, á escala do coletivo, o limiar erguido entre os dois mundos da Física e da Biologia. Enquanto se tratava apenas de um processo de mesclar as moléculas e os átomos, podíamos, para explicar os comportamentos da Matéria, recorrer ás leis numéricas da probabilidade, e contentarmo-nos com elas. A partir do momento em que a mônada, adquirindo as dimensões e a espontaneidade superior da célula, tende a se individualizar no seio da plêiade, desenha-se um arranjo mais complicado no Estofo do Universo. Por duas razões, ao menos, seria insuficiente e falso imaginar a Vida, mesmo tomada em seu estágio granular, como uma espécie de fervilhar fortuito e amorfo.” [3]

Quer dizer: a vida não surgiu no universo como surgem as bactérias em um processo de fermentação. Ela é, sim, o resultado de um processo, mas esse processo está longe de ser regido apenas pelas leis da natureza. Ela surge como consequência de um processo dirigido como se fosse alguém, em uma cozinha, ou um laboratório, trabalhando para fazer um bolo, ou para destilar uma bebida. Nesse processo as bactérias surgem como resultado do processo empregado e não como obra do acaso, ou da evolução natural do processo. Por isso a notável argúcia do nosso jesuíta complementa o seu pensamento dizendo: “(...) os inumeráveis componentes que compunham, nos seus inícios, a película viva da Terra, não parecem ter sido tomados ou juntados exaustivamente ou ao acaso. Mas a sua admissão nesse invólucro primordial dá antes a impressão de ter sido orientada por uma misteriosa seleção ou dicotomia prévias (...).” [4]


Recordando Plotino

Deus é a causa atuante de todas as coisas existentes no universo. Essa foi a intuição que inspirou o filósofo Plotino há quase dois milênios atrás: “Imagine uma enorme fogueira crepitando no meio da noite,” escreveu ele.“Do meio do fogo saltam centelhas em todas as direções. Num amplo círculo ao redor do fogo a noite é iluminada, e a alguns quilômetros de distância ainda é possível ver o leve brilho desta fogueira. À medida que nos afastamos, a fogueira vai se transformando num minúsculo ponto de luz, como uma lanterna fraca na noite. E se nos afastarmos mais ainda, chegaremos a um ponto em que a luz do fogo não mais consegue nos alcançar. Em algum lugar os raios luminosos se perdem na noite e se estiver muito escuro não vamos enxergar nada. Nesse momento, contornos e sombras deixam de existir".

"Agora imagine a realidade como sendo esta enorme fogueira. O que arde é Deus - e as trevas que estão lá fora são a matéria fria, onde a luz está fraca, da qual são feitos homens e animais. Junto a Deus estão as ideias eternas, as causas de todas as criaturas. Sobretudo, a alma humana é uma centelha do fogo. Mas por toda a parte na natureza aparece um pouco desta luz divina. Podemos vê-la em todos os seres vivos; sim, até mesmo uma rosa ou uma campânula possuem um brilho divino. No ponto mais distante do Deus vivo está a matéria inanimada.” [5]

Plotino (205-270 e. C) é considerado o fundador da escola neoplatônica. O Gnosticismo deve a ele algumas de suas concepções mais originais, especialmente a ideia de que o verdadeiro conhecimento não pode ficar apenas no terreno intelectual, mas exige uma experiência direta dos sentidos com aquilo que se propõe a conhecer. É nesse sentido que se pode colocá-lo como precursor das chamadas escolas iniciáticas, ou seja, grupos que desenvolviam rituais com a finalidade de ”sentir” as próprias realidades que idealizavam. Plotino é um dos inspiradores de famosos mestres do misticismo como Mestre Eckhart, Papus, MacGregor Mathers, Eliphas Levy e outros. Os autores maçons lhe votam um grande respeito e os modernos gnósticos vêem nele um precursor das teses científicas que descrevem o universo como um organismo único que se constrói através de uma rede de relações. Suas palavras são por demais eloquentes e não necessitam de comentários explicativos. Se o universo existe é porque tem uma causa de existir: essa causa é Deus.

Os rituais maçônicos e a doutrina da Cabala

Por isso é que os rituais maçônicos fazem muitas especulações sobre o sentido da vida e o papel que nós exercemos na construção da Obra do Criador. Essas especulações nos levam á conclusão de que nós não somos meras relações estatísticas derivadas de interações ocasionais ocorridas na matéria física, sem qualquer conteúdo finalístico, como pensam os adeptos do nihilismo, mas sim, unidades conscientes do todo amorfo, que só ganha forma e consistência na medida em que nós mesmos vamos encontrando o nosso lugar no desenho estrutural do universo. [6]

E com isso a Maçonaria canta um dueto bem afinado com a doutrina da Cabala. Para os cabalistas, nosso corpo é como uma lâmpada que se acende em meio a um quarto escuro. Brilhamos por um tempo iluminando o espaço que nos cabe como jurisdição. E quando o combustível, que é a energia encerrada em nossas células se esgota, apagamos. O corpo é o filamento que canaliza a energia e quando ele deixa de ter condição para hospedá-la, ela o abandona. Mas a energia, como mostra a lei de Lavoiser, não se perde nem se extingue. Ela só se transforma. Ela continua a existir mesmo depois que a lâmpada que a refletia se extingue.

Essa energia acenderá outras lâmpadas que também brilharão por algum tempo e depois se apagarão. Cada uma a seu tempo, preenchendo o vácuo e realizando a missão que lhe cabe. Assim a vida nos aparece como uma estrada cheia de luzes que se apagam e se acendem á medida que o tempo passa por elas e avança para o futuro. Por isso encontraremos nos rituais maçônicos, que tratam especificamente desse tema, expressões do tipo (...)Sois uma parcela da vida universal, um germe que apareceu em um ponto do espaço infinito. Vosso ser sofreu inconscientes transformações. Tivestes sensações, depois ideias incoerentes, que mais tarde, foram se tornando precisas. Por fim vos considerastes capaz de perceber a verdade. Esta é a luz que vistes. A humanidade levou séculos incontáveis antes de percebê-la. Nós consideramos o estado atual da nossa espécie sem que saibamos se ela está em seu começo, ou se prestes a alcançar o seu fim, e sem conhecermos seu destino, nada compreendemos do mundo a qual ela pertence (...).[7]

Dessa forma, Cabala e Maçonaria concordam que o sentido de cada vida que vivemos é fornecer o seu “quanta” de luz para a construção da Obra de Deus. E por essa razão poderemos viver várias vidas. Nasceremos e morreremos tantas vezes quantas forem necessárias para a complementação dessa obra. Por isso Jesus disse: “Assim deixai a vossa luz resplandecer diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.” [8]
Pois não é com asas que se sobe aos céus, mas com as mãos. Pela simples e singela razão contida nessa metáfora, os maçons adotaram a profissão do pedreiro como símbolo da sua Arte.

[1] O Cavaleiro do Arco Real- pgs. 14 -15 REAA
[2] As Constituições, citado, pg 12.
[3] O Fenômeno Humano, citado, pg. 94.
[4] Idem, pg. 95-Imagem de Teilhard de Chardin. Fonte Enciclopédia Barsa
[5] Jostein Garner. O Mundo de Sofia, Companhia das Letras, São Paulo, 1995. Na imagem, o filósofo Plotino.
[6] Nihilismo é a doutrina filosófica que coloca o questionamento do sentido da vida perante um universo que parece ser indiferente á tudo que nos acontece. É uma atitude de pessimismo e ceticismo perante a possibilidade de que a vida tenha aparecido no mundo para cumprir algum propósito. Nega todos os princípios religiosos, políticos e sociais, definindo-os apenas como atitudes dos sentidos, dirigidos para a necessidade de preencher o vazio da existência. Este conceito teve origem na palavra latina nihil, que significa "nada". O principal arauto dessa doutrina foi o filosofo alemão Nietszche. Sartre retomou esse tema nas suas obras “ O Ser e o Nada” e “a Náusea”.
[7] Cf. o ritual Grau 14-REAA pg. 17/18.
[8] Mateus, 5:16.
João Anatalino

quarta-feira, 24 de agosto de 2016


A MAÇONARIA E O REI ATHELSTAN


Tumba do rei Athelstan

A Maçonaria operativa, isto é, a dos pedreiros medievais, inicia sua história documentada no século X com o Rei Athelstan, e a Maçonaria Especulativa, a moderna, começa oficialmente no início do século XVIII com a fundação da Grande Loja de Londres, embora resulte de um processo histórico ocorrido nos três séculos anteriores. Assim há sobreposição das duas maçonarias durante os séculos XVI, XVII e XVIII, formando a um período chamado Maçonaria de Transição ou simplesmente “Transição”.

As catedrais românicas e góticas, os grandes castelos e as fortificações, são monumentos da arquitetura medieval vistos na Europa foram construídos por maçons operativos que eram os mestres e os operários construtores da Idade Média. Esses maçons se organizaram em guildas, comparáveis a cooperativas ou sindicatos modernos, tendo como principal finalidade proteger os interesses da classe dos artistas construtores.

No século IX surge o nome do Rei Athelstan sendo citado como organizador da Maçonaria, nos manuscritos conhecidos na história como Old Charges [Antigos Deveres]. Nicola Aslan escreve rapidamente sobre Athelstan em seu livro “A Maçonaria Operativa”. As crônicas anglo-saxônicas iniciadas ao final do século IX pelo Rei Alfredo, avô de Athelstan, e nos antigos manuscritos é mencionada pela primeira vez oficialmente, na história da Maçonaria, a Lenda de York, o príncipe Edwin e a Grande Assembléia de Maçons.


Etelstano (em inglês antigo: Athelstane ou Athelstan) foi o Rei dos Anglo-Saxões de 924 a 927 e depois Rei dos Ingleses de 927 até sua morte em 939. Ele era filho de Eduardo, o Velho e sua primeira esposa Ecgvina. Historiadores o consideram como o primeiro Rei da Inglaterra e um dos maiores reis anglo-saxões. Ele nunca se casou e foi sucedido por seu meio-irmão Edmundo I. Etelstano foi criado no reino da Mércia por ordem de seu pai, como uma forma de conseguir a lealdade deste rebelde país a dinastia Cérdico de Wessex. Com a morte do pai (em 17 de julho de 924), Etelstano foi proclamado de imediato rei da Mércia. Com a morte de seu meio-irmão, o rei Etelvardo de Wessex (em 2 de agosto de 924), Athelstan é eleito como novo soberano, sendo coroado em Kingston uponThames em 4 de setembro de 924.



Athelstan entregando um livro a São Cuteberto.
Ilustração de um livro gospel presenteado por
ele ao santuário do santo em Chester-le-Street,
o retrato de um rei anglo-saxão mais antigo já 
encontrado.

Athelstan é considerado como o primeiro rei inglês. Ele alcançou êxitos militares consideráveis sobre seus rivais, incluindo aos vikings, e estendeu seu domínio a partes de Gales e da Cornualha. Sua maior vitória, sobre uma aliança inimiga que incluiu Constantino II da Escócia, foi a batalha de Brunamburgo, no outono de 937.


Athelstan não se casou e não teve filhos, embora tenha criado Haakon como seu próprio filho (mais tarde Haakon I da Noruega). Fez alianças com diversas casas reais da Europa através de casamentos de suas meias-irmãs. Athelstan morreu no palácio de Gloucester, em 27 de outubro de 939, aos 44 anos, sendo sepultado na abadia de Malmesbury, em Wilshire. Não há nada em sua tumba já que as relíquias do rei provavelmente se perderam na Dissolução dos Monastérios de 1539.


Athelstan criou um grande número de códigos legislativos, embora a lei escrita tinha pouco uso prático na Inglaterra anglo-saxã ele foi ativo em regulamentações. Existiu um padrão nas leis do reino de Athelstan não sendo leis casuais e sim organizando a sociedade da época.


A regulamentação da atividade maçônica através dos Antigos Deveres foi muito importante para os profissionais talhadores da pedra, e também importante para a maçonaria moderna, pois serviram de base para a elaboração do Regulamento Geral e dos Deveres de um Maçom, as partes mais importantes do Livro das Constituições da Grande Loja de Londres, em 1723.


A história da primeira regulamentação das guildas dos maçons no reinado de Athelstan, a que os manuscritos se referem, com muita clareza, tem bases históricas seguras, e hoje constituem documentação fidedigna sobre a antiguidade da maçonaria.


Fica demonstrada a profunda relação entre a regulamentação da Maçonaria Operativa, iniciada pelo Rei Athelstan, e o surgimento do Reino Unido da Inglaterra ao final do Século IX e início do século X.


A maçonaria moderna, conhecida como Maçonaria Especulativa, preservou as tradições culturais da Maçonaria Operativa, como os deveres dos associados, os regulamentos, os rituais, os simbolismos e, principalmente, o sentimento de solidariedade e fraternidade.


Honório Sampaio Menezes,33º do REEA, Loja Baden-Powell 185, GLMERGS, Brasil.
Fontes de informação:
Aslan, Nicola. A Maçonaria Operatica .
Peres, Ambrosio. O manuscrito Régio e o Livro das Constituições. Ed A trolha.
Giordani, Mario Curtis – História do Mundo Feudal Vol I.
Fonte: http://www.systri.com/

A disputa entre “Antigos” e “Modernos”


Tradução José Filardo


À medida que as pesquisas avançam, a história dos primeiros dias da Maçonaria Inglesa parecem mais complexas do que aquilo que é dito ou imaginado até agora. Este é o caso do conflito fundamental que abalou a Maçonaria do outro lado do Canal durante quase 60 anos: a disputa entre os “Antigos” e “Modernos” (1751/1753-1813).

Sobretudo estudado como um assunto interno na Inglaterra, ao que parece, hoje, se você quer renovar e aprofundar a questão é preciso levar em conta o ambiente britânico, especialmente Irlandês, incluindo a Maçonaria continental e principalmente a Maçonaria francesa.

Assim é que desde 1928, Philipp Crossle, grande historiador da Maçonaria irlandesa, chamou a atenção para as especificidades desta Maçonaria, em particular para a existência de um sistema de 3 graus ou etapas, anterior ao sistema revelado por Samuel Prichard em 1730, dotado de um conteúdo diferente do que compreendia o Real Arco. Ao fazer isso, Crossle propunha implicitamente a questão do aparecimento e da influência dos altos graus na história geral da Maçonaria.

Por outro lado, se, conforme mostrou Alain Bernheim, as Maçonarias britânica e francesa eram para os graus azuis, substancialmente idênticas até cerca de 1750 (até o aparecimento dos “Antigos”), é verdade que o afloramento dos altos graus na França a partir dos anos de 1740 terá um impacto sobre a Maçonaria Inglesa a partir do fim do século.

Isso quer dizer que a maneira usual de olhar para este conflito como uma disputa entre um Inglês perfeitamente definido e imutável representado pela GL de 1717 e chamada “Modernos ” e um sistema importado da Irlanda pelos “Antigos” , sem dúvida tem de ser renovado.

Para tomar só um problema, por exemplo, o Real Arco que se considera ter sido importado da Irlanda para a Inglaterra pelos “Antigos”, como explicar o fato de que a lenda deste grau que em breve seria conhecido na Inglaterra é diferente da que foi desenvolvida na versão irlandesa, mas muito próxima da lenda contida nos rituais franceses do chamado “Royale Arch”?

Está claro que a história da Maçonaria Inglesa não se resume na história da Maçonaria na Inglaterra no “sentido estrito”. É, na verdade, a história da Maçonaria sofreu todos os tipos de influências, internas e Inglesas, é claro, mas também externas, irlandesas e francesas. No segundo terço do século XVIII, foi criado portanto na Inglaterra um sistema maçônico que é o produto de todas estas influências e, que evidentemente, também influenciou, por sua vez, outras Maçonarias , particularmente na França. Aparece assim uma história franco-britânica que tenta cercar todas essas influências e reler uma série de problemas relacionados com as origens da Maçonaria: Instalação do Mestre da Loja, o Real Arco, etc.

A disputa entre “Modernos” e “Antigos” é uma disputa fundamental da maçonaria Inglesa. Classicamente, ela é enunciada assim: até 1750, a Maçonaria Inglês está unida e uniforme. Em 1751, aparece uma nova organização maçônica que vai se chamar “GL dos FM segundo as antigas instituições” ou mais simplesmente “GL of the Antients”. A GL de 1717 será chamada, impensadamente “GL dos Modernos” (e hoje “Primeira Grande Loja”). Esta GL dos Antigos foi principalmente fundada por maçons irlandeses que viviam em Londres, mas que negavam os usos da GL de 1717, que em 1750, já estava amplamente difundida por toda a Inglaterra.

Até o final do século XIX, a teoria segundo a qual a GL dos “Antigos” era uma divisão ou cisma da GL dos Modernos era comumente aceita. De acordo com esta tese, certo número de lojas teria deixado a GL em Londres e criado uma nova obediência com forma de negar as inovações negativas que tinham sido trazidas ao Craft pela referida GL. Essas inovações, entre as quais a famosa história da inversão das palavras sagradas (J-B ou B-J), tinham aparecido na década de 1730, e logo elas teriam se tornado muito numerosas (até ao ponto de se tornar inaceitável) que certas Lojas teriam decidido na década de 1750, voltar aos antigos usos e deixar a GL de 1717. Esta tese foi, evidentemente, defendida pelos mesmos “Antigos” e desde 1756 com a publicação do livro das Constituições Aimã Rezom de Laurence Dermott. Henry Sadler (em Fatos Maçônicos e Ficções) mostrou definitivamente em 1887 que a fundação de 1751 não era o resultado de um cisma, mas que era “algo novo” e, portanto, tem uma origem diferente da GL de 1717.

Na verdade, é uma Grande Comissão que aparece em 1751 e leva o título de GL a partir de 1753, quando teve um irmão de nascimento nobre a presidi-la como Grão-Mestre. Os primeiros membros eram irlandeses emigrados para a Inglaterra. Eles provavelmente teriam tido dificuldade em se tornar maçons em Lojas Inglesas. Além disso, estas Lojas praticavam uma Maçonaria demasiadamente diferente da sua, o que tornava quase impossível uma integração na GL de 1717. Então, teriam fundado sua própria GL onde pudessem praticar os usos que tinham trazido da Irlanda e teriam proclamado sua antiguidade com relação à Maçonaria Inglesa.

A classificação de “Antigos” atribuída a uma GL, que tem 30 anos menos que aquela mais vela pode parecer estranho, polêmico e injusto. Certamente, mas além dessa disputa de palavras, não devemos esquecer as questões fundamentais:
Quais são as diferenças efetivas entre ambas GG LL?
Entre os diferentes usos, quais verdadeiramente eram os mais antigos, e, nesta perspectiva, quando, onde, como, por que teria sido dado a passagem dos usos antigos para os usos modernos?

Estas duas questões apenas têm, até hoje, respostas satisfatórias.

Parece que se pode renovar esta problemática estudando a Maçonaria na Irlanda.

O conhecimento da Maçonaria irlandesa necessariamente envolve o estudo de uma obra seminal de John Herron Lepper e Philipp Crossle, História da GL dos maçons Antigos e Aceitos da Irlanda, Dublin, 1925, reimpresso em 1987.

Nesta obra, os autores mostram que existem provas documentais da existência de uma Maçonaria especulativa na Irlanda, antes que também se tivesse a certeza documental na Inglaterra. Assim, nos arquivos do Trinity College de Dublin, um documento menciona a existência de uma Loja da Maçonaria (essencialmente reunindo alunos) em 1688. Outro manuscrito do Trinity College, que é datado de 1711, descreve um sistema em 3 etapas. Em 1725, a recitação de uma procissão público testemunha a existência de uma GL na Irlanda. Em 1730, finalmente, são publicadas as Constituições chamadas de Pennel, próximas do texto de Anderson, com a diferença importante de que o grau de Mestre, que não é o caso no texto Inglês de 1723, que terá de esperar pela edição de 1738.

Assim, descobrimos que todas as manifestações conhecidas da primeira Maçonaria irlandesa são notáveis ou por sua data ou pro seu conteúdo. À vista destes documentos, resulta que a Maçonaria irlandesa é antiga e diferente da primeira Maçonaria Inglesa.

Sobre a origem sociológica desta maçonaria irlandesa, podemos emitir duas hipóteses. Seria uma Maçonaria puramente irlandesa ou celta ou (A Irlanda que foi de fato ocupada pela Inglaterra) uma Maçonaria de colonos ingleses instalados na Irlanda (os Anglo – Irlandeses). Estes últimos compunham a aristocracia do país e estavam, essencialmente, agrupados em torno de Dublin. Esta hipótese parece ser a mais crível e a primeira Maçonaria irlandesa aparece cada vez mais como uma Maçonaria Anglo-Irlandesa. No entanto, nem todos os colonos faziam parte da aristocracia. Constitui-se assim uma imigração anglo-irlandesa pobre e muito próxima da população nativa da Irlanda, de modo que a emigração irlandesa para a Inglaterra desta vez no século XVIII, é essencialmente toda ela uma emigração de anglo-Irlandeses. Podemos então imaginar, por que nenhum documento confirma isso efetivamente; por que esses emigrantes anglo-irlandeses, de baixa classe, com a sua própria Maçonaria tiveram uma recepção pouco entusiástica nas Lojas inglesas, ainda mais que elas tinham um grau – e é na perspectiva que se pode rever a questão do Real Arco – superior ao grau de Mestre e desconhecido pelos ingleses (o Real Arco atual foi profundamente modificado em 1835), que consideram, conforme descreveu Laurence Dermott nas Constituições dos Antigos, “como a raiz, o coração, a medula óssea da Maçonaria” e que conseguiram por outro lado, impor, definitivamente, sobre a prática maçônica Inglesa.

Em 1778, em uma edição das Constituições, Laurence Dermott elabora uma lista de queixas que os “Antigos” lançam contra os “Modernos”. O abandono ou a ignorância da instalação secreta dos VV MM, instalação essencial, já que no sistema dos “Antigos” abre o caminho para o Arco Real, é crível. De fato, a instalação é desconhecida na Inglaterra – pelo menos não há qualquer comprovação documental – antes de 1760 e a divulgação dos “Três batidas distintas”. Mas, além desta acusação, as outras queixas são carente de fundamentos documentais e até mesmo são contrárias a todos os documentos conhecidos. Isto é:
O abandono das orações durante as cerimônias maçônicas.
O abandono da celebração das Festas de São João.
A inversão da ordem das palavras sagradas.

Em suma, se você toma o que é testemunhado, dois dados principais podem efetivamente definir a originalidade dos “Antigos” em relação aos “Modernos”
Sua antiguidade.
A contribuição da instalação secreta e do Real Arco.

Phillip Crossle, em um famoso artigo, “O Rito Irlandês”, propõe uma interpretação sutil da hierarquia dos graus na Irlanda por volta de 1730. Nas Constituições de Pennel, existem 3 fases, Aprendiz, Companheiro, Mestre, mas elas não correspondem aos três graus homônimos da Maçonaria inglesa conforme eles são definidos na divulgação de Prichard (1730). Segundo a teoria de Crossle, podemos estabelecer o seguinte quadro:
Irlanda Inglaterra
Aprendiz Aprendiz e Companheiro
Companheiro Mestre
Mestre = Instalação e Real Arco


Estudando este artigo, tentaremos reler a disputada dos “Modernos” e dos “Antigos” e faremos as perguntas sobre a origem e a antiguidade provável da Maçonaria dos “Antigos” assim como as fontes dessa Maçonaria.

Pode-se parecer que os “Antigos ” eram muito mais pessoas simples praticantes de uma “técnica ritual” mais rigorosa que a dos “Moderno”, a uniformização das duas Grandes Lojas teria sido muito rápida e já estava bem avançada no início de século XIX, até incluir o nível de Grande Mestre, o que explica o União de 1813. Naquela época, a origem irlandesa dos “Antigos” tinha praticamente desaparecido.

As relações entre a Irlanda e a Escócia são antigas. A tribo primitiva da Irlanda, são os “Scots”. Por outro lado, na época das 2 GG LL rivais inglesas, a GL da Escócia mantinha relações amistosas com os “Antigos” e o Real Arco seria fácil e rapidamente implantado na Escócia.

Vimos que o entendimento da disputa entre “Antigos” e “Modernos” (1751-3/1813) precisa considerar a história da Maçonaria irlandesa. Dois autores importantes, Heron Lepper e Crossle nos ajudar a fazer isso. Assim é como pudemos determinar que, de todas as queixas criticadas aos Modernos pelos Antigos, duas realmente precisam ser examinadas: a antiguidade efetiva dos usos destas duas GGLL, e a questão da instalação secreta e do Real Arco, este último ponto que propõe implicitamente a questão dos graus maçônicos. De fato, se em 1730 existem na Inglaterra e também na Irlanda, sistemas maçônicos de 3 graus, parece que estes sistemas não tiveram a mesma antiguidade e não se referem à mesma realidade. Como, então, foi estabelecido o sistema dos graus na Irlanda? Isto é o que vamos estudar através de um notável artigo de Phillip Crossle, “O Rito irlandês”.

Vamos primeiro lembrar que as “ilhas britânicas” são formadas por três países muito diferentes e, muitas vezes conflitantes: Inglaterra, Escócia e Irlanda. O mesmo acontece quando se tenta estabelecer uma distinção as Maçonarias desses países. A história da maçonaria irlandesa é completamente diferente da história da Maçonaria Inglesa. Pillip Crossle ilustra a profunda originalidade do sistema maçônico irlandês antes de 1750.

As origens da Maçonaria na Irlanda são muito obscuras. Poderia ter sido importada da Inglaterra (no final do século XVII, nos anos 1680)?, A Irlanda era nessa época uma colônia britânica. Esta Maçonaria irlandesa seria, portanto, aquela dos anglo-irlandeses, que teriam formado uma espécie de aristocracia que dominaria a Irlanda? Além disso, essa aristocracia também está separada do país, não só no econômico e social, mas também no plano religioso: é anglicana, enquanto os nativos irlandeses são católicos.

No início do século XVIII, a “maçons obediencial” aparece na Inglaterra por volta de 1717-23, e em seguida, na Irlanda em 1725, mas, aparentemente, de modo completamente diferente. Lembremos, com efeito, que esta Maçonaria irlandesa, embora provavelmente de origem Inglesa, é atestada desde 1688 e, após cerca de 40 anos, evoluiu por própria conta, independentemente da Inglaterra. Na década de 1720, é, portanto, muito provável que as Maçonarias inglesa e irlandesa eram muito diferentes, embora de antiguidade igual, e até se poderia formular a hipótese de que os irlandeses terem conservado usos que os próprios ingleses teriam alterado ou perdido, o que teria constituído de fato um tipo de maçonaria Inglesa antiga (convertida em irlandesa). É aqui onde se poderia a ancorar a alegação de antiguidade sempre proclamada pela GL de 1751-3.

Em 1730, a GL da Irlanda publicou seu livro das Constituições chamadas de Pennell. É descrito ali pela primeira vez, oficialmente, um sistema em 3 graus: aprendiz, companheiro e mestre. Recordemos que as Constituições de 1723, em Londres, havia estabelecido uma maçonaria de 2 graus, o que é atestado em 1730, por uma divulgação e pela primeira vez na Inglaterra, o grau de Mestre, divulgação que será condenada pela GL de Londres, e só em 1738 o grau de Mestre será oficializado na 2 ª edição das Constituições inglesas.

Phillip Crossle observa, assim, que o texto de Pennel descreve explicitamente 3 graus. Além disso, diz-se que um diácono, um vigilante, um mestre eleito, um GM adjunto que já tenha sido “companheiro” pode receber o grau de “Mestre” após sua instalação. Para explicar essas esquisitices, e é toda a tese de Philipp Crossle, é preciso entender que as palavras “aprendiz”, “companheiro” e “Mestre” não tinham, naquela época, o mesmo sentido e não designavam a mesma coisa na Irlanda e na Inglaterra. Crossle nos explica que não se pode colocar no mesmo plano o texto oficial das Constituições de Pennell e a divulgação de Prichard reconhecida em sua época pela GL de Londres. Na Irlanda, em 1730, o grau de aprendiz corresponderia ao conteúdo dos graus de aprendiz e de companheiro na Inglaterra; o grau de companheiro corresponderia a um conteúdo próximo (mas possivelmente sem lenda) do que seria no futuro o grau de Mestre na Inglaterra; e o grau de Mestre, sempre na Irlanda, descreve em essência o que será conhecido mais tarde sob o nome de “Royal Arch”. Isso justificaria a principal queixa dos Antigos (irlandeses) contra os Modernos (ingleses), ou seja, que estes últimos ignoravam o Real Arco, e explicaria também que a introdução do Real Arco na Inglaterra tenha aparecido como um quarto grau.

A tese de Crossle se encaixa perfeitamente, pois até onde conhecemos a origem dos graus (no final do século XVII na Inglaterra, na Escócia, na Irlanda, o conteúdo dos graus de aprendiz e companheiro – anos 1730 – estava reunido somente no grau de aprendiz, enquanto o grau de parceiro continha o essencial do que será o grau de Mestre), adicionando a este um novo elemento: o grau de Mestre na Irlanda, ou Real Arco.

E quando a Laurence Dermott, uma figura de proa dos Antigos, personagem pouco conhecido, que alguns pensam que teria sido um católico, já é maçom quando chega à Inglaterra. É provavelmente que sua acolhida nas lojas inglesas fosse, enquanto irlandês, difícil, ainda mais quando os usos e conteúdos dos graus eram muito diferentes graus ou distribuído de outra forma em relação ao que havia conhecido e havia recebido na Irlanda. E, especialmente, faltava ali o Real Arco. Este grau, portanto, será introduzido na Inglaterra, mas no sistema existente anteriormente, e se fará como uma espécie de quarto grau inglês.

Isto causará problemas – a disputa entre os Antigos e os Modernos demonstra isso – porque o Real Arco não é para os Antigos, um alto grau, mas plenamente integrados aos graus do Craft. Até é, de acordo com a famosa fórmula de Dermott, “a raiz, o coração e a medula da Maçonaria.” A hipótese de Crossle vai nessa direção: o primeiro em Sistema maçônico em 3 graus é irlandês e contém o Real Arco.

A querela entre os Antigos e os Modernos aparece, além dos problemas de pessoas como o choque de duas culturas e de duas concepções diferentes de Maçonaria.


Irmãos R. Dachez e J. Villalta

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O segredo do Tabernáculo


Autor: João Anatalino

Todo iniciado na tradição maçônica sabe que o Templo de Jerusalém foi erigido segundo instruções místicas, que visavam reproduzir nesse edifício o próprio desenho do Cosmo, e que, segundo acreditavam os israelitas, era a “morada de Deus ”. [1]

Essa visão se justifica plenamente, pois na construção de um edifício, quanto mais sofisticado ele for, mais encontraremos noções de ciência aplicada. Nele se aplicam conhecimentos de física, química, geologia, sociologia, matemática, astronomia e muitas outras disciplinas, necessárias á perfeita construção e adequação do logradouro às necessidades que ele visa atender. É o que dizia Fulcanelli, por exemplo, quando se referia á catedral gótica, que no seu entender, era um verdadeiro santuário de tradição e aplicação das ciências físicas e sociais. [2]

A Cabala chama de Sod aos enigmas que estão ligados ao desenho estrutural do universo, os quais foram reproduzidos na planta do primeiro Templo de Jerusalém. Por isso ele era originalmente chamado de Santuário da Solidão, pois ali reinava o Ùnico, o Santo dos Santos, que não tinha par entre todas as potestades do universo.

Como se sabe, o Templo de Jerusalém foi desenhado a partir das instruções que Deus deu a Moisés para a construção do Tabernáculo. Todos os utensílios, os adereços, as vestes dos sacerdotes e as próprias medidas do Templo tinham uma função específica e um significado arcano de grande importância.

O Tabernáculo tinha três divisões representando o céu (o altar onde ficava o Santo dos Santos), o mar (onde ficava o Lavatório, a grande bacia de bronze) e a terra (o Átrio, onde ficava o povo e altar do holocausto). Os quatro tipos de tecido usados na confecção do Tabernáculo simbolizavam os quatro elementos; a sobrepeliz do Sacerdote Supremo (Cohen gadol) com suas variações cromáticas era a imagem do universo nascente, que em sua origem apresentava uma profusão fantástica de cores.[3] As campainhas significavam a harmonia do som, já que esse é um dos elementos com os quais Deus constrói o universo; as doze pedras preciosas no peitoral do sacerdote e os doze pães da preposição simbolizavam, no plano cósmico, os doze signos do zodíaco e no sociológico as doze tribos de Israel, maquete da Humanidade Autêntica. As duas esmeraldas nas ombreiras do sacerdote eram o sol e a lua. Na mitra do sacer-dote as quatro letras do Nome de Deus (IHVH), diziam que todo o universo era construído a partir das letras do Nome Sagrado. O candelabro de sete braços (menorah) significava os sete planetas conhecidos na época. A mesa arrumada na direção norte, com os pães da preposição e o sal, todos arranjados na forma de uma mandala mágica, homenageavam a chuva e o vento, forças necessárias á produção da terra. A grande bacia de bronze que os sacerdotes usavam para lavar os pés e as mãos simbolizavam a limpeza de caráter que o homem devia mostrar frente á divindade.

Assim, na simbologia do Templo de Jerusalém e de seus utensílios estava descrita toda a estrutura de constituição física do universo e, além disso, um vigoroso código de moral para guiar os seus construtores. Essa também seria a formulação simbólica que viria a inspirar, na Idade Média, os maçons operativos na mística da sua arte. Por isso é que eles mostravam, na execução do trabalho puramente operativo, o desvelo próprio de um artista que sente estar copiando a própria obra de Deus; e na alma que assim se consagra a esse trabalho havia um sentimento de ascese que transcendia o plano físico para levá-lo ao arrebatamento próprio daqueles que se dedicam á uma prática de natureza sagrada. Estava, assim, nascida a mística operativa que deu origem á Maçonaria.[4]

O templo e o homem

Por outro lado, são muitas as tradições que sustentam ser o organis-mo humano, integrado á sua parte espiritual, um desenho do próprio universo, do qual reflete sua formulação mecânica e suas leis de formação e desenvolvimento. Essa analogia entre o homem e o universo se revela no postulado, tão caro aos hermetistas e já bem aceito por cientistas de renome, de que no microcosmo (o homem) se repetem as mesmas leis que formatam o macrocosmo (o universo).[5]Se tudo isso é verdade provada ou mera especulação, só Deus poderia dizer. Nós só podemos deduzir e acreditar ou não. Mas há algumas coisas que não podem ser ignoradas. Uma delas é o que diz a teoria da evolução. Segundo essa teoria, todas as espécies vivas são "fabricadas" pela natureza com um "programa" específico que as submete a um processo evolutivo inexorável. Esse “programa” é necessário tendo em vista as constantes mudanças ambientais a que o universo está sujeito. A espécie que não consegue adaptar-se a essas mudanças acaba sendo substituída por outras mais competentes.

Essa é uma lei existente na natureza, chamada pelos antropólogos, de lei dos revezamentos. [6] Ela existe para promover uma necessária evolução nas espécies por ela produzidas por meio do aperfeiçoamento das suas habilidades e capacidades. Não se aplica somente ás espécies vivas, mas á toda a realidade universal, inclusive aos elementos químicos e a matéria bruta em geral. Pois todos os elementos químicos também são obtidos por interação de seus componentes, da mesma forma que os organismos moleculares. Quer dizer, repetem-se na matéria bruta os mesmos processos que formatam a matéria orgânica e tanto uma quanto a outra estão sujeitas ás mesmas leis de nascimento, formação, desenvolvimento e desaparecimento, o qual se dá pelo fenômeno da transformação seletiva.

Por isso, a teoria da evolução encontra mais paralelos na doutrina da Cabala do que nas outras tradições religiosas. Aqui ela é figurada através de um desenho mágico ─ filosófico, chamado Árvore Sefirótica, ou Árvore da Vida, esquema místico que representa as manifestações da Vontade Criadora no mundo das realidades sensíveis. Nesse desenho, cada sefirá (que aqui é visto como um campo de energia atuante) é uma fase de construção do universo e reflete um processo de evolução perene, constante e ordenado, que serve tanto para explicar o processo de construção das realidades do mundo material, quanto as realidades do mundo espiritual.

A Árvore da Vida mostra o mundo (e o homem) sendo construído como se ele fosse um lago que transborda e vaza para outro lago, até formar o grande mar universal, onde todas as formas de existência, físicas e espirituais, podem ser encontradas. Essa visão não deve ser considerada uma alucinação mística nem apenas uma especulação metafísica. Sabemos que quando dois elementos químicos se juntam eles formam um composto. Conservam suas características particulares, mas também formam um terceiro elemento com diferentes propriedades. O composto, que é o filho nascido dessa união, possui as propriedades dos elementos que o formaram e agrega aquelas que são desenvolvidas por ele próprio. Nessa fórmula está o segredo da teoria da evolução. Dois átomos de hidrogênio combinados com um de oxigênio formam uma molécula de água. A água é um composto, "filho de H²0," que tem H (hidrogênio) e O (oxigênio) na sua composição, mas também tem outras propriedades que seus "pais", individualmente, não possuem. Ela tem a propriedade de incubar a vida. A água é necessária à vida. É o leito onde ela nasce. É nesse sentido que Teilhard de Chardin vê o homem como sendo um “complexo-consciência”, ou seja, um composto feito por elementos orgânicos, obtidos por sínteses naturais (seleção natural) e elementos psíquicos, produzidos por sínteses mentais cada vez mais elaboradas, que resultam em um espírito individual, e estes, em um ser pluralístico, que no final comporão um ser espiritual coletivo que ele chama de Ponto Ômega.[7]
Assim também acontece com o restante do universo. Cada fase da evolução é uma combinação de elementos. Cada nova fase desenvolve suas próprias particularidades, que são as propriedades com as quais ela contribui para o desenvolvimento do universo como um todo. Por isso cada fase constitui um passo a mais no processo de evolução porque o composto que nasce da união dos elementos é sempre um resultado mais complexo dos que os elementos que o formam. Nada se perde do que já foi conquistado, apenas se transforma em algo novo, com diferentes propriedades, sempre em um estágio mais avançado de evolução. 

Por isso o novo é sempre maior que a soma das suas partes. Novas propriedades são adicionadas ao universo a partir de cada interação praticada por seus elementos. E assim ele se supera em cada momento da sua constituição.

Por isso a Maçonaria adotou o Templo de Salomão como simbolismo máximo da sua arte. É que nesse edifício, construído a partir das instruções dadas por Deus para a construção do Tabernáculo, podem ser lidos o planos do Criador para o desenvolvimento estrutural do universo e do próprio ser humano. Nesse simbolismo está o grande segredo desse estranho e místico aparato da religião judaica, onde Deus, na sua glória, iria se manifestar ao mundo.


[1] Alex Horne- O Templo do Rei Salomão na Tradição Maçônica. São Paulo. Ed. Pensamento, 1998.
[2] Fulcanelli. O Mistério das Catedrais. Lisboa, Ed. Esfinge, 1964.
[3] Ver, nesse sentido, a imagem apresentada por Stephen Hawking sobre a coloração inicial do universo saído do Big-Bang. O Universo em Uma Casca de Nóz- citado. Sobre esse assunto ver ainda a concepção de Gershon Scholem sobre a experiência mística, onde ele diz que “quase todos os místicos do nosso conhecimento retratam essas estruturas como configurações de luzes e cores”. Não seria essa uma indicação de que o nosso inconsciente tem, de fato, uma ligação mística com o início de todas as coisas?
[4] Alusão á crença dos antigos maçons que construíam os templos religiosos na Idade Média, de que eles eram os “operários do Bom Deus”, pois estavam construindo na terra as moradas da divindade. Por isso o caráter sacro da sua arte. Na Imagem, reconstituição do Templo de Jerusalém: Fonte: Alex Horne: O Templo de Salomão na Tradição Maçônica.
[5] Em linguagem hermética, “o que está em cima é como o que está em baixo.”.
[6] Lei dos revezamentos, em antropologia, é a lei segundo a qual os organismos que não desenvolvem uma estrutura capaz de sobreviver em ambientes desfavoráveis e diferentes daqueles nos quais vivem, fatalmente serão substituídos por outros mais competentes. Com isso a natureza mantém o processo da vida sempre ativo e com claro sentido evolutivo. Ver, nesse sentido, Teilhard de Chardin - O Fenômeno Humano, citado.
[7] Teilhard de Chardin- O Fenômeno Humano, Ed. Cultrix, 1990.
João Anatalino


O TEMPLO E A ÁRVORE


Autor: João Anatalino

Originariamente, nos templos maçônicos mais antigos, o altar do 2º Vigilante ficava no lado ocidental da Coluna do Sul, paralelo ao trono do 1º Vigilante, assim como ainda é encontrado em alguns graus superiores desse rito. Acredita-se que o deslocamento do altar do 2º Vigilante para a direita, na Coluna do Sul, como se observa na ritualística atual, tenha ocorrido para compatibilizar a planta do Templo onde se pratica o Rito Escocês com a dos templos ingleses, praticantes do Rito de York. Ocorreu, pois, como iniciativa destinada a unificar os dois principais ritos maçônicos, dando á Maçonaria uma característica de prática mundial.

Mas se tomarmos o formato original do Templo onde se pratica o REAA, formatos esses que foram conservados nas Lojas de Perfeição e Capitulares, é possível ver que a planta do Templo maçônico mantém uma formidável semelhança com a disposição das sefirot, como se vê na Árvore da Vida.
Nota-se, de início, que o Átrio, onde os neófitos aguardam para serem iniciados e onde os Irmãos são reunidos para a entrada no Templo é justamente a antecâmara onde se inicia a prática maçônica. Ali está o ponto intermediário, que separa o profano do sagrado, cuja porta é guardada pelo Irmão Cobridor. Ultrapassada aquela porta, o Irmão entra no território sagrado da manifestação divina, que na Cabala é simbolizada pela Árvore da Vida e na Maçonaria pelo recinto do Templo. Dali para frente toda uma ritualística terá que ser seguida para que o fluxo da energia que ali circula não seja obstruído. Por isso os detalhes de um ritual que muitas vezes escapa á compreensão dos Irmãos.
Essa é a razão de pensamos ser a planta do Templo maçônico uma inspiração da Árvore da Vida, embora nos Templos modernos uma boa parte dessa mística tenha sido obscurecida por força de adaptações e mudanças feitas nos rituais.

  

                                         

                 Atrio                                                         Arvore da Vida
   
Disposição atual dos oficiais da Loja
na planta do Tempo maçônico. 

VM- Venerável Mestre ( Kether)
Or. – Orador ( Hockmah) 
Sec- Secretário ( Binah) 
Ll- O livro da lei ) Daath) 
Tes- Tesoureiro (Gevurah) 
MC-Mestre de Cerimônias (Thiphered)
Ch- Chanceler (Hesed) 
PV- Primeiro Vigilante ( Hod) 
SV- Segundo Vigilante (Netzach) 
Mh- Mestre de Harmonia (Yesod) 
Ci -Cobridor Interno (Malkuth) 
Pn- Painel da Loja
Sd- Segundo Diácono

As sefirot na Árvore da Vida 

Kether-Coroa ou Princípio 
Hockmah- Sabedoria 
Binah- Compreensão 
Daath- Conhecimento
Gevurah- Julgamento 
HesedMisericórdia Thiphered-Beleza
Netzach- Eternidade
Hod- Esplendor
Yesod- Fundação
Malkuth-Reino


A Loja Maçônica

Sabemos que na tradição arcana, o termo Loja (em sânscrito Loka) designa as diferentes partes do universo onde a vida se manifesta. Essa é uma das informações que situa o conceito de Loja maçônica no mesmo sistema de referências que temos da Árvore da Vida na doutrina da Cabala. As duas estruturas referem-se ás diferentes emanações que a energia cósmica deve manifestar, em dez etapas de elaboração, para que o universo físico e a humanidade possam cumprir o seu destino cármico.[1]

Destarte, na terminologia maçônica, a terra seria uma Loka, assim como outras partes do Cosmo onde o Criador, supostamente, possa ter semeado alguma forma de vida. Nesse sentido, em termos puramente analógicos, o pensamento humano, reunido em Loja e dirigido para uma finalidade definida, poderia influenciar na conformação do universo como um todo. Num sentido místico, essa seria a função da Maçonaria enquanto obra de construção universal. 

Nasce daí a ideia de que a reunião dos Irmãos em Loja tem o condão de formar uma egrégora, ou seja, uma central de energia, da qual se beneficiam os membros da Loja para a elevação dos seus espíritos, e para proporcionar o equilíbrio do universo, que dela extrai a harmonia necessária ao seu perfeito desenvolvimento. [2]

Essa seria uma visão espiritualista dos propósitos da Maçonaria como estrutura arquetípica da arquitetura cósmica, onde os maçons são vistos como “pedreiros da construção universal” realizando a obra que o seu Grande Arquiteto planejou e executa. Por isso o Templo maçônico, onde se reúne a Loja dos maçons, é visto como sendo um microcosmo que reflete o macrocosmo, ou seja, uma representação simbólica do universo, onde a vida cumpre os seus ciclos energéticos, realizando sempre uma evolução no sentido da busca da perfeição suprema.[3]

Kav, o relâmpago brilhante

Quando comparamos a planta de um Templo maçônico e um diagrama da Árvore da Vida, não podemos nos furtar de fazer algumas analogias, tanto visuais como conceituais, pois, para o propósito para o qual as duas plantas foram desenhadas as relações são bastante visíveis. 

De pronto se vê que ambas são construídas utilizando-se planos geométricos bem semelhantes. Os pontos de emanação da energia, nos dois conjuntos, formam triângulos que se opõem pelo vértice, permitindo que a corrente de energia percorra os pontos de convergência e distribuição que se situam nos locais onde se colocam as sefirot, na Árvore da Vida, ou pelos pontos onde se distribuem os altares dos oficiais, em uma Loja maçônica. A correspondência é notável, conquanto do ponto de vista geográfico, os altares de alguns oficiais da Loja tenham sido deslocados para outros locais dentro do Templo o que acreditamos tenha ocorrido pela necessidade de facilitar a locomoção interna, ou como já referido, para unificar conceitos entre os diversos ritos. Mas essa disposição, adotada apenas por questões pragmáticas e geográficas, não invalida a analogia aqui proposta, de que o desenho da Árvore da Vida e a planta do Templo maçônico são correspondências simbólicas da mesma ideia.

Essa constatação pode ser feita através da análise dos significados de cada sefirá na Árvore da Vida e do simbolismo atribuído a cada cargo dentro da Loja e da própria mística que se atribui á um e outro desenho. 

Na Cabala, a Árvore da Vida retrata a formação do universo físico e espiritual, através da emanação da Luz que vem dos Véus da Existência Negativa[4]. Neles, Deus se manifesta como Luz Ilimitada e percorre as esferas da Árvore da Vida na forma de um Relâmpago Brilhante. É como um raio que esse relâmpago desce da primeira e primordial esfera (Kether), verticalmente, acendendo a segunda (Hokmah) e esta acendendo a terceira (Binah). E assim sucessivamente, até á ultima, de nome Malkuth. É a superior transmitindo a luz para a inferior, sem que cada uma perca a própria luminosidade, que continua intacta. Na Loja maçônica esse simbolismo é representado pela Espada Flamígera, a qual, como pode ver no desenho abaixo, guarda uma estreita semelhança com o Relâmpago Brilhante da Árvore da Vida.[5] E dessa forma o universo cabalístico se compõe como uma emanação do Principio Criador que se derrama pelo nada cósmico, gerando a realidade universal. É nesse sentido que a chamada Espada Flamígera, instrumento com o qual o Venerável Mestre consagra todas as iniciações e investiduras em Loja, pode ser considerado um simbólico sucedâneo desse “relâmpago” vital.



Da mesma forma, o universo maçônico se realiza na Loja. Tanto em relação ao universo físico quanto ao espiritual. E o que é verdade para a totalidade cósmica também o é para o mundo individual do iniciado, que na interação com seus Irmãos e no influxo da energia gerada pela egrégora, lapida o seu próprio caráter. Do céu para a terra, da terra de volta para o céu. O macrocosmo refletindo no microcosmo e deste voltando, como reflexo trabalhado pela consciência modificada do Irmão, para a imensidade cósmica. É assim que se compõe o edifício universal, como tal visto pela mística que a atividade maçônica inspira ao espírito do iniciado maçom. Aqui está inserta a antiga tradição egípcia simbolizada pelo culto á deusa Maat, cuja prática visava o mesmo resultado, ou seja, levar para o céu o fluxo dos pensamentos humanos e projetar de volta o reflexo da resposta dos deuses no coração dos homens, como resultado dessa relação simbiótica entre o divino e o profano.

Destarte, essa é a ideia que fundamenta a teoria da egrégora, que por definição é uma congregação de mentes, reunidas com a finalidade de captar a energia necessária, capaz de influenciar a psique dos Irmãos e dirigi-los em seus trabalhos. Daí se dizer que a função da egrégora maçônica é colocar “ordem no caos” (ordo ab chaos), como tal entendida a realização da harmonia, a conquista da paz social e a promoção do progresso da civilização, como objetivo coletivo, e o equilíbrio psíquico e a própria felicidade pessoal do Irmão, como objetivo individual.

[1] Ver, a esse respeito a nossa obra"O Tesouro Arcano”, publicado pela Editora Madras, São Paulo, 2013.
[2] Idem. Ver a nossa introdução a esse tema, publicada na obra acima referida.
[3] Ver a esse respeito René Guénon- Discursos Sobre a Iniciação- Ed. Pensamento, São Paulo, 1968.
[4] Os Véus da Existência Negativa são Ayn, Ayn Soph e Ayn Soph Aur. Ver a esse respeito, o capítulo VII desta obra.
[5] Note-se que a Espada Flamígera também apresenta onze meias esferas, numa estreita semelhança com a disposição das esferas da Árvore da Vida.
João Anatalino