sábado, 15 de outubro de 2016


A MAÇONARIA E O PASSO DA REFLEXÃO


Autor: João Anatalino

O passo da reflexão


O Passo da Reflexão é um simbolismo ligado à chamada queda do homem, ou seja, a expulsão do casal humano do Paraíso em razão da sua desobediência aos preceitos de Deus, que os havia proibido de comer do fruto da Árvore do Conhecimento.1

Essa passagem bíblica é uma metáfora que evoca o momento histórico em que o homem se tornou uma criatura inteligente e passou a fazer reflexões sobre as suas razões de existência. Ele descobriu a natureza do bem e do mal e extensão da sua própria força. Com isso pensou que poderia dominar a natureza e ombrear-se com os próprios deuses que eles cultuavam. Isso é o que diz a Bíblia e também o que sugerem os mitos gregos. Embora essa ideia tenha ficado mais patente na cultura dos helenos, uma cultura profundamente humanista, centralizada no homem como ponto máximo da criação universal, todas as tradições religiosas dos povos antigos sugerem que em dado momento da sua história o homem se sente, ele mesmo, um deus. Parece ser capaz de tudo. Assim, o herói grego, conforme aparece nas lendas e nas tradições da Grécia clássica é um semideus, que em certos momentos, se mostra inclusive mais inteligente e poderoso que os próprios deuses.

Na verdade, o herói das tradições gregas e judaicas nada mais é que uma emulação das virtudes masculinas de dominação, derivada da concepção patriarcal que se instalou na sociedade a partir de certo momento histórico. Com isso, o homem rompeu seus elos com os poderes superiores e afirmou-se como um poder paralelo, capaz de desafiar a própria divindade. Com essa concepção a movê-lo, ele elevou-se acima de sua condição humana, invadiu os territórios que antes eram reservados aos deuses, enfrentou-os, e não raras vezes até conseguiu derrotá-los. Assim é que Ulisses desafia Netuno, Prometeu rouba o fogo divino, Hércules realiza todas suas provas sem que nenhum Deus seja capaz de detê-lo, os faraós tornam-se, eles mesmos, verdadeiros deuses, os gregos fazem de Alexandre uma divindade, os imperadores romanos são deificados e assim por diante. (2)

E. Wallis Budge lembra que o anseio humano pela conquista da divindade era particularmente forte entre os egípcios, que pensavam poder adquiri-la diretamente dos deuses, comendo-os. Na Pirâmide de Unas lê-se que aquele faraó, “comera” parte do corpo dos deuses para obter seus atributos divinos. Com isso se tornara também uma divindade, representada pela estrela Orion. Diz aquele autor que o objetivo dos egípcios era obter a posse do poder mágico e o conhecimento das palavras de passe, que lhes daria poder ilimitado e imortalidade, atributos que só se conferiam à divindade. E o único meio pelo qual poderiam se apossar deles era “comendo o corpo dos próprios deuses”.(3)


Essa prática também foi observada por James Fraser, que relatou em sua obra clássica (O Ramo de Ouro, 1929), o costume dos indígenas da Polinésia de devorar a carne dos seus inimigos. Muito mais que a necessidade de se alimentar, o canibalismo entre as tribos polinésias, africanas e americanas, tinha um sentido esotérico. Eles costumavam comer a carne dos seus inimigos na esperança de adquirir sua força. O próprio Cristianismo não escapou a influência dessa tradição. Jesus concitou seus discípulos a “comer a sua carne e beber o seu sangue” como forma de realizar comunhão com ele. O simbolismo dessa metáfora é evidente. A Igreja Católica, ao adotar o costume de partilhar a hóstia em suas missas incorporou essa tradição aos seus rituais. Nesse costume está o profundo sentido místico de “comer o deus” para realizar a união com ele, isso é, adquirir a sua força.(4)


A teologia hebraica- cristã interpretou o mito da expulsão do casal humano do paraíso como sendo uma consequência do pecado que o homem cometeu contra Deus, instigado pelo seu opositor, Satã, tido como o invejoso anjo do mal que queria usurpar o lugar Dele. Assim, aquilo que para os gregos foi um grito de liberdade do homem em relação aos desígnios divinos, para as religiões inspiradas no monoteísmo hebraico foi uma rebelião perpetrada pelo anjo opositor e espalhada entre os seres humanos. Daí o conceito de pecado e as teorias da expiação e resgate do ser humano, desenvolvidas pelos povos do Oriente Médio e amplamente divulgadas em suas religiões (5)

Parece-nos, todavia, que esse mito não é mais que a evocação inconsciente de um acontecimento biológico, ocorrido na longa história da evolução do organismo humano. Ele significa, na verdade, o momento em que o homem, emergência descontinua numa sucessão de ocorrências biológicas processadas em série, deu um salto qualitativo no seu processo de desenvolvimento e produziu a sua primeira reflexão. E dela emergiu como um deus, com a sensibilidade do bem e do mal, do que era certo e errado, com a sabedoria enfim, ainda que meramente intuitiva, de que havia forças no universo que produziam os acontecimentos, e que eles não eram meramente obras de “entidades” que as perpetravam ao seu bel prazer.
Assim, todos os mitos que evocam uma rebelião do homem contra os deuses, ou o conflito deste com a divindade, nada mais simbolizam que o momento em que o homem deu o grande passo que o fez diferente das demais espécies vivas: o Passo da Reflexão.

Esse é, inclusive o entendimento de alguns teólogos e mestres cabalistas, que vêm nessa metáfora bíblica uma forma de compatibilizar a visão bíblica com as modernas teorias científicas que pregam ser o homem um produto de uma longa evolução que começou na mais primitiva das formas de vida e vem seguindo um processo de desenvolvimento controlado por leis postas na natureza por uma Mente Universal. (6)

O despertar da consciência

De que outra forma se poderia entender a curiosa metáfora imaginada pelo cronista bíblico para figurar o nascimento da consciência no ser humano, senão pensando que o Eterno planejou a sua Criação de forma que ela pudesse evoluir, em diversos ramos distintos, como se ela fosse, de fato, uma Árvore? Constrói-se, dessa forma, uma biogênese, na qual é possível seguir os filamentos que ela manifesta, verificando os graus de complexidade que cada espécie assume em cada momento específico de sua vida.

Teilhard de Chardin, cujo pensamento tem nos socorrido em praticamente todos os enigmas em que os exegetas da Bíblia não o conseguem, nos dá uma boa compreensão desse tema. Ao se referir a Arvore da Vida, que na sua visão é o próprio fenômeno da Criação, nele compreendido todas as manifestações de existência orgânica, desde a primeira e indivisível célula, até o organismo mais complexo que a Natureza engendrou, que é o ser humano, ele releva esse momento especial em que os “olhos do homem se abriram e ele se equiparou aos deuses, conhecendo o bem e o mal”. Em páginas de infinita beleza poética esse magistral filósofo nos mostra como esse “pecado”, ou seja, a aquisição do conhecimento ocorreu. “Do ponto de vista experimental, que é o nosso, a Reflexão, como a própria palavra o indica, é o poder adquirido por uma consciência de se dobrar sobre si mesma, e de tomar posse de si mesma como um objeto dotado de sua própria consistência e de seu próprio valor; não mais apenas conhecer ─, mas conhecer-se; não mais apenas saber, mas saber que sabe. Por essa individualização de si mesmo, no fundo de si mesmo, o elemento vivo, até aqui espalhado sobre um círculo difuso de percepções e de atividades, acha-se constituído, pela primeira vez, em centro punctiforme, onde todas as representações e experiências se entrelaçam e se consolidam num conjunto consciente de sua organização. ”(7)

Nesse texto esse grande filósofo está a nos dizer que uma organização celular ocorrida no interior do organismo humano, mais propriamente uma concentração energética sobre um órgão do nosso corpo, o cérebro, nos fez diferenciar do ramo dos primatas, ao qual pertencemos como espécie. A vida interior, refletida sobre si mesma, nos proporcionou esse salto evolutivo que a Bíblia chama de “comer o fruto do conhecimento do bem e do mal”. O nascimento do Adão terrestre, como ser inteligente e “imagem” do seu Criador, deu-se, portanto, no momento em que ele capturou uma consciência, e o “pecado”, que na dicção bíblica se traduz por comer o fruto da Árvore do Conhecimento, foi o momento limite em que ele praticou a sua primeira reflexão, tomando conhecimento de que tinha um ego, um “self”, que o identificava e lhe dava a capacidade de classificar e entender os próprios pensamentos.

A interpretação científica

Modernas concepções científicas também chegaram ao mesmo patamar de entendimento. Eis como um discurso científico descreve esse momento singular, em que o homem dá o salto qualitativo que o distingue das demais espécies animais: “ Há cerca de cem milhões de anos, o cérebro dos mamíferos deu um grande salto em termos de crescimento. Por cima do tênue córtex de duas camadas ─ às regiões que planejam, compreendem o que é sentido e coordenam o movimento ─, acrescentaram-se novas camadas de células cerebrais, formando o neocórtex. Comparado com o antigo córtex de duas camadas, o neocórtex oferecia uma extraordinária vantagem intelectual. 

O neocortéx do homo sapiens, muito maior do que o de qualquer outra espécie, acrescentou tudo que é distintamente humano (...).” (8)

Até esse momento, os hominídeos, como diz Teilhard de Chardin, acompanhavam a filogênese da criação, apenas como mais um ramo da Árvore da Vida, em seu desenvolvimento normal. Mas a partir do momento em que adquiriu a capacidade de refletir, o homem diferenciou-se entre todas as espécies criadas, passando, como diz a Bíblia, a ser “uma imagem de Deus”, aquele que Ele escolheu para subjugá-la e dominá-la. Quer dizer, o que faz o homem ser uma imagem do seu Criador não é o seu aspecto físico, mas o seu carácter intelectual, pois é deste que transcende a sua parte espiritual.

Sim, porque a partir desse momento o homem adquiriu o livre arbítrio e a capacidade de fazer as próprias escolhas, dando um sentido a evolução. Isso, para uma sensibilidade inocente, que até então não tinha a consciência do próprio ego, deve mesmo ter significado a morte da inocência, a expulsão de um paraíso, onde, por não existir o exercício da escolha, também não existia ansiedade, culpa, estresse, cansaço e náusea da própria existência, por não saber a que ela se destina, nem qual é o seu propósito, como dizia um personagem de Sartre. (9) como salienta o cronista bíblico, o homem pagou caro por essa ação. Foi expulso do paraíso. Mas isso foi para que ele “não comesse também da Árvore da Vida”, pois esse fruto lhe daria a imortalidade. Quer dizer que se os homens tivessem, concomitantemente a aquisição do conhecimento, obtido o dom de viver para sempre, prejudicado estaria todo o projeto do Criador, que planejou a construção do universo de combinação em combinação, através de um plano de evolução, onde a energia que o formata sai do ínfimo (o núcleo atômico) e caminha para o imenso, no plano material, externo, e do simples (a célula) vai para o complexo (no plano espiritual, interno), como intui Teilhard de Chardin quando desenvolve a sua noção hiperfísica do universo.

A Árvore biológica do ser humano

A visão teilhardiana da Árvore da Vida contrasta, naturalmente com as visões literais dos criacionistas, que vêm a espécie humana como nascida a partir de um casal feito a imagem e semelhança de Deus, ou seja, na sua forma orgânica e espiritual já perfeita e acabada. Ao revés ─ e isso significou para esse originalíssimo pensador jesuíta uma feroz repressão da sua própria Igreja ─, ela está muito mais para as teses defendidas pelos adeptos da seleção natural, embora destes Teilhard se afaste quando introduz nessa evolução um componente de espiritualidade, negado pelos evolucionistas. Pois aqui o homem é resultado de um longo processo de evolução, maturado no seio da matéria universal, mas dirigido por uma Vontade que nela atua e se cristaliza. Diferente, pois, do homem obtido simplesmente por seleção natural, que é produto apenas de sínteses químicas que vão se processando pela força das leis que regem a mecânica universal.


Nessa composição cabe um lugar inclusive para o próprio Mal, que na tradição bíblica é o diabo travestido de serpente. Pois não é ele que perverte a parte mais sensível da mente do homem (a sua parte feminina) com um discurso que estimula a sua vaidade? Que mais agradaria ao recém-nascido ego humano do que a ideia de se tornar igual ao próprio Criador? É por isso que a Cabala ensina que “Satã é o nosso Ego, o nosso desejo de ser sempre mais. Ele é o desejo que queima, o egoísmo que exige cada vez maior prazer”. (10)


E por isso a Maçonaria se apresenta como disciplina onde o homem procura aperfeiçoar o seu espírito, erguendo “templos a virtude e cavando masmorras ao vício”. Tudo isso nada mais é uma tentativa de mitigar as razões do Ego para, em troca, obter maiores ganhos em espiritualidade. Essa é, em resumo, a função da prática maçônica. 

1. Gênesis, 2;16 a Bíblia diz que no Éden havia duas árvores: a Árvore da Vida, que concedia a imortalidade e a Árvore do Conhecimento, cujos fruto concediam a ciência do bem e do mal. Foi desta última que o casal humano se apoderou e comeu. Modernas concepções cabalistas vêm nessa metáfora uma advertência de Deus a respeito do conhecimento da energia atômica (capaz de destruir o planeta) e da engenharia genética (passível de dar ao homem o poder de criar e prolongar sua vida).

2. O próprio termo designativo de Fraternidade, que é aplicado a um grupo de tradições comuns vem do grego Frátria, que na antiga Atenas designava uma associação de cidadãos unidos pela mesma cultura religiosa compartilhante dos mesmos símbolos. Eles formavam uma unidade política e religiosa. A legislação de Sólon legitimou essas associações, determinando a sua composição em trinta famílias. Cada tribo podia manter três desses grupos. Assim, Atenas estava dividida em quatro tribos com um total de doze frátrias.

3. E. Wallis Budge, The God of Egipcians, Vol. II, Ed. Dover New York, 1929.

4. No caso cristão tratava-se de um ritual que visava “incorporar” nos apóstolos a natureza divina de Jesus, uma fórmula comum de se realizar “Irmandade”. Aliás, o banquete, a chamada “comensalidade”, praticada por Jesus e seus discípulos, era uma forma bastante comum de simbolizar essa Irmandade entre os povos antigos. O Banquete de Platão é um claro exemplo disso. No caso de Jesus e seus discípulos o banquete da Páscoa, realizado na tarde da quinta-feira e não na sexta, como era costume entre os judeus, mostra a clara disposição de Jesus de realizar um novo pacto entre o povo de Israel e Deus. Por isso também ele reuniu exatamente doze discípulos, cada um simbolizando uma das tribos do antigo Israel.

5.As religiões em questão são o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.

6.Nesse sentido veja-se a obra monumental de Teilhard de Chardin “O Fenômeno Humano”, Ed. Cultrix, São Paulo, 1968. Veja-se também Daniel Goleman, Inteligência Emocional, Ed. Objetiva, 1995.

O Fen7.ômeno Humano, op. Citado, pg. 186.

8. Daniel Goleman, PHD- Inteligência Emocional- Ed. Objetiva, pg. 25.

9. Jean Paul Sartre- A Náusea- Círculo do Livro, 1986. Essa “culpa”, essa fadiga, essa náusea de viver, segundo Sartre, é o reflexo do “castigo” dado ao homem pela desobediência. Ter consciência de si mesmo, e ao mesmo tempo sentir-se despregado de um todo, onde a vida lhe aparece como uma existência vazia e sem sentido, destinada apenas a preencher um espaço entre o ser e o nada. Essa é a verdadeira expressão da metáfora da expulsão do paraíso.

10. A Sabedoria da Cabala, op. citado, pg. 152.

  

sexta-feira, 16 de setembro de 2016



Canteiros – Os Talhadores de Pedras da Idade Média



Tradução José Filardo


Por Albert Mackey

A história da origem e evolução da Irmandade de Talhadores de Pedra (Canteiros) na Europa, durante a Idade Média é de grande importância como um estudo para o erudito maçônico, devido à íntima ligação que existia entre aquela Irmandade e a Fraternidade de Maçons. Com efeito, a história de uma é simplesmente a introdução à história da outra. Em uma digressão histórica, somos compelidos a assumir a ciência especulativa onde descobrimos que a arte operativa a deixou. Assim, quem quer que se dedique a escrever uma história da Maçonaria, deve dar, para a realização do seu trabalho, uma consideração integral à Irmandade dos Canteiros. No ano de 1820, um trabalho foi publicado em Leipzig, na Alemanha, pelo Dr. Christian Ludwig Steiglitz, sob o título de “Von Altdeutscher Baukunst“, isto é, “Ensaio sobre a Arquitetura Alemã Antiga”. Neste trabalho, o autor traça com grande exatidão a ascensão e o progresso das fraternidades de Canteiros desde os primeiros tempos, através da Idade Média, até a sua absorção final pelas associações de Maçons. A partir dos trabalhos do Dr. Steiglitz, confrontado com algumas outras autoridades em relação a assuntos sobre os quais ele é silencioso ou errôneo, compilei o seguinte esboço.

É universalmente admitido que, nos primeiros tempos do cristianismo, só os membros do clero eram os patronos das artes e das ciências. Isso ocorria porque todo o ensino estava então quase exclusivamente limitado aos eclesiásticos. Muito poucos leigos sabiam ler ou escrever, e até mesmo os reis apunham uma cruz, no lugar de suas assinaturas em estatutos e outros documentos que eles emitiam, porque, como eles francamente confessavam sua incapacidade para escrever seus nomes; e daí vem a expressão moderna de assinar um papel, como equivalente a assinar o nome. Desde a época de Carlos Magno, no século VIII, até meados do século XII, todo o conhecimento e prática da arquitetura, pintura e escultura estavam exclusivamente confinados aos monges; e os bispos supervisionavam pessoalmente a construção de igrejas e catedrais em suas dioceses, porque não só os princípios, mas a prática da arte da construção eram segredos escrupulosamente mantidos dentro dos muros de claustros, e totalmente desconhecido para leigos.

Muitos dos fundadores das Ordens Monásticas e, especialmente, entre eles São Bento, tornaram um dever peculiar para os irmãos dedicar-se à arquitetura e à construção de igrejas. O monge inglês Winfrido, mais conhecido na história eclesiástica como São Bonifácio e que, por seu trabalho na cristianização daquele país, foi denominado o Apóstolo da Alemanha, seguiu o exemplo de seus antecessores na construção de mosteiros alemães. No século VIII, ele organizou uma classe especial de monges para a prática da construção, sob o nome de Operarii, ou Artesãos, e Magistri Operum, ou Mestres de Obra. Os trabalhos e deveres desses monges eram divididos. Alguns deles projetavam a planta do edifício; outros eram pintores e escultores; outros se ocupavam em trabalhar em ouro e prata e bordados; e outros ainda, que eram chamados Caementarii, ou canteiros, realizavam os trabalhos práticos de construção. Às vezes, especialmente em construções grandes, onde muitos trabalhadores eram necessários, leigos também eram empregados, sob a direção dos monges. Tão extensos se tornaram esses trabalhos, que os bispos e abades, muitas vezes obtinham grande parte das suas receitas com os ganhos dos trabalhadores nos mosteiros.

Entre os leigos que eram empregados nos mosteiros como assistentes e trabalhadores, muitos eram, naturalmente, dotados de inteligência superior. A associação constante e íntima deles com os monges na realização do mesmo projeto levou a este resultado, que no decorrer do tempo, de forma gradual e quase inconsciente, os monges transmitiam a eles seus segredos da arte e os princípios esotéricos da arquitetura. Assim, aos poucos, o conhecimento das artes e das ciências passou desses construtores monges para o mundo, e os arquitetos leigos, retirando-se das fraternidades eclesiásticas, organizavam suas próprias irmandades. Esse foi o início das fraternidades maçônicas na Alemanha, e a mesma coisa ocorreu em outros países. Essas irmandades de pedreiros agora começaram a ser chamadas, assim como os monges anteriormente tinham sido, quando um edifício importante e, especialmente, uma igreja ou uma catedral devia ser erguida.

Com o tempo, eles substituíram completamente seus monges professores no exercício da arte de construir. Ao seu conhecimento de arquitetura, eles acrescentaram o de outras ciências, que tinham aprendido com os monges. Como estes, também, eles se dedicavam aos princípios mais elevados da arte, e empregavam outros leigos para ajudar em seus trabalhos como canteiros. E, assim, a união destes arquitetos e pedreiros introduziu, no meio de um povo sem instrução, uma classe mais elevada e inteligente, contratada como uma associação exclusiva na construção de edifícios importantes e, especialmente religiosos.

Mas agora uma nova classificação ocorreu. Como anteriormente, os monges, que eram os únicos depositários dos segredos da alta arte, se separavam dos leigos, que eram limitados apenas ao trabalho manual de construção; assim, agora os mais inteligentes dos leigos, que tinham recebido esses segredos dos monges, se distinguiam como arquitetos dos trabalhadores comuns, ou pedreiros comuns. Estes últimos só conheciam o uso da colher e argamassa, enquanto os primeiros se ocupavam da concepção de plantas para a construção e a construção de ornamentos pela escultura e lapidação hábil. Essas irmandades de altos artistas logo ganharam grande estima, e muitos privilégios e franquias lhes eram concedidos pelas autoridades municipais, entre os quais eles praticavam sua profissão.

Seus locais de reunião eram chamados Hutten, Logen, ou Lojas, e os membros assumiam o nome de maçons. Seu santo padroeiro era São João Batista, que era homenageado por eles como o mediador entre o Antigo e o Novo Pacto e o primeiro mártir da religião cristã. A que condição da arte esses maçons da Idade Média chegaram, podemos julgar a partir do que Hallam diz sobre os edifícios que eles erigiram – que eles “uniram sublimidade em composição geral com as belezas da variedade e da forma, efeitos hábeis ou, pelo menos afortunados de sombra e luz, e em alguns casos ciência mecânica extraordinária”. {Mid. Ages, iv. 280.)

E ele ainda acrescenta, como uma confirmação involuntária da verdade do esboço da sua origem apenas dado, que a execução mecânica dos edifícios estava “muito além dos poderes intelectuais aparentes da época, que alguns atribuíram as principais estruturas eclesiásticas à Fraternidade de Maçons, depositários de uma ciência oculta e tradicional. Provavelmente há alguma base para esta opinião, e os arquivos mais antigos daquela misteriosa associação, se existiram, poderiam ilustrar o progresso da arquitetura gótica e, talvez, revelar sua origem”. (lb., 284.) Esses arquivos existem realmente, ou pelo menos muitos deles; e embora desconhecido para o Sr. Hallam, porque eles estavam fora do curso de sua leitura usual, eles foram cuidadosamente peneirados por recentes estudiosos maçônicos, especialmente por nossos irmãos alemães e ingleses; e aquilo que o historiador da Idade Média tinha assumido apenas como uma conjectura plausível foi, por suas pesquisas, provado ser um fato.

A prevalência de símbolos Gnósticos, tais como leões, serpentes, e assemelhados nas decorações de igrejas da Idade Média, levaram alguns autores a concluir que os Cavaleiros Templários exerceram uma influência sobre os arquitetos, e que por eles os símbolos Gnóstico e Ofitas foram introduzidos na Europa. Mas o Dr. Steiglitz nega a correção dessa conclusão. Ele atribui a existência de símbolos Gnósticos na arquitetura da igreja ao fato de que, em um breve período na história eclesiástica, muitos dos dogmas Gnósticos passaram para a Cristandade com o a filosofia Oriental e

Platônica, e ele atribui a sua adoção em arquitetura à adaptação natural dos arquitetos ou maçons ao gosto predominante nos períodos anteriores da Idade Média pelo misticismo, e o favorecimento dado a decorações grotescas, que foram admiradas sem qualquer conhecimento de sua real origem. Que jamais tenha havido qualquer associação dos Templários com os maçons ainda é um ponto de história incerto e indeterminado. Se ele ocorreu, deve ter sido em um período muito tardio; e se qualquer comunidade ou semelhança de simbolismo deve ser detectada entre as duas Ordens, é mais razoável atribuí-la à circunstância de que os Templários sempre associaram um corpo de arquitetos a eles próprios para a construção de suas próprias igrejas e outros edifícios e que esses arquitetos estavam unidos em uma única e mesma fraternidade com os Pedreiros Livres, cujos segredos eles possuíam, e cujas opiniões arquitetônicas eles partilhavam.

Steiglitz também nega qualquer origem das Fraternidades de Construtores ou lojas maçônicas da Idade Média dos Mistérios dos antigos indianos, egípcios e gregos; embora ele reconheça que existe uma semelhança entre as organizações. Isso, entretanto, ele atribui ao fato de que indianos e egípcios preservaram todas as ciências, bem como os princípios da arquitetura, entre os seus segredos, e porque, entre os gregos, os artistas eram iniciados em seus mistérios, de modo que, nas antigas, bem como nas novas irmandades, havia um conhecimento mais puro da verdade religiosa, que os destacava como associações distintas acima das pessoas. Da mesma forma, ele nega a descendência das fraternidades maçônicas da seita dos Pitagóricos, a quem se assemelhavam unicamente nisso: que o sábio Samiano estabeleceu escolas que eram secretas, e eram baseadas nos princípios da geometria.

Mas ele acha que as pessoas não estão erradas ao traçar as associações de maçons da Idade Média aos Colégios Romanos, os Collegia Caementariorum, porque esses colégios aparecem em cada país que foi conquistado e estabelecido como uma província ou uma colônia pelos romanos, onde eles erigiram templos e outros edifícios públicos, e promoveram a civilização dos habitantes. Eles continuaram até um período tardio. Mas quando Roma começou a ser convulsionada pelas guerras de seu declínio, e pelas incursões de hordas de bárbaros, eles encontraram uma recepção de boas-vindas em Bizâncio ou Constantinopla, de onde posteriormente se espalharam para o oeste da Europa, e eram em todos os lugares tidos em grande estimação por sua habilidade na construção de edifícios.

Na Itália, as associações de arquitetos nunca cessaram completamente, como se pode concluir a partir dos muitos edifícios construídos ali durante o domínio dos Ostrogodos e dos Lombardos. Posteriormente, quando a ordem civil foi restaurada, os maçons da Itália foram incentivados e apoiados por papas, príncipes e nobres. E Muratori nos diz, em sua História d’Itália, que sob os reis Lombardos os habitantes de Como eram tão superiores como canteiros e pedreiros, que a denominação Magistri Comacini, ou Mestres de Como, se tornou genérica para todos aqueles da profissão. Na Inglaterra, quando os romanos dela tomaram posse, as corporações, ou colégios de construtores também apareceu, e que foram posteriormente continuados na Fraternidade dos Pedreiros Livres, provavelmente estabelecida, como pensa Steiglitz, em meados do século V, após os romanos terem deixado a ilha. Os maçons ingleses estavam sujeitos a muitas dificuldades adversas, de repetidas incursões de Escoceses, Pictos, Dinamarqueses e Saxões, que impediam seu trabalho ativo; ainda assim, eles conseguiram manter sua existência, até que, no ano de 926, eles realizaram aquela Assembleia Geral na cidade de York, que enquadrou as Constituições que governaram a maçonaria, ou o Craft Inglês por oitocentos anos e que são reivindicadas como o registro maçônico mais antigo existente hoje. Mas é justo dizer que recentes pesquisas do Irmão Hughan e outros escritores ingleses lançaram dúvida sobre a autenticidade dessas Constituições, e que a própria existência dessa assembleia de York vem sendo negada. Mas estes são problemas históricos; a verdadeira solução deles deve ser aguardada até que novas pesquisas de arqueólogos maçônicos nos apresente dados necessários para determiná-los. Até então, é mais seguro aderir à teoria tradicional que admite a autenticidade das Constituições e o fato da Assembleia.

Na França, assim como na Alemanha, as Fraternidades de Arquitetos originalmente surgiram da conexão de construtores leigos com os monges na época de Carlos Magno. Os maçons franceses continuaram suas fraternidades por toda a Idade Média, e erigiram muitas catedrais e edifícios públicos. Chegamos agora ao meio do século XI, traçando o progresso das fraternidades de canteiros desde o tempo de Carlos Magno até aquele período. Naquela época, toda a arquitetura da Europa estava em suas mãos. Sob o nome distintivo de maçons errantes, eles passaram de nação para nação, construindo igrejas e catedrais onde quer que eles fossem necessários. De sua organização e costumes, Sir Christopher Wren, em seu Parentalia, oferece o seguinte relato:

“Seu governo era regular, e onde se fixavam perto do edifício em questão, eles montavam um acampamento de cabanas. Um supervisor governava como chefe; cada décimo homem era chamado de vigilante, e supervisionava os outros nove”.

O Sr. Hope, que, a partir de seu curso peculiar de estudos conhecia melhor que o Sr. Hallam a história desses maçons viajantes, assim fala em seu Ensaio sobre Arquitetura, da organização deles naquela época, através da qual eles efetuaram uma identidade da ciência arquitetônica em toda a Europa:

“Os arquitetos de todos os edifícios sagrados da Igreja Latina, onde quer que se levantassem – norte, sul, leste ou oeste – derivavam sua ciência da mesma escola central; obedeciam em seus projetos os ditames da mesma hierarquia, eram dirigidos em suas construções pelos mesmos princípios de decência e bom gosto; mantinham-se uns aos outros, as partes mais distantes às quais eles pudessem ser enviados, a correspondência mais constante, e proporcionavam a cada melhoria minuciosa a propriedade do corpo inteiro, e uma nova conquista da arte”. Trabalhando dessa forma, os canteiros, enquanto corporações de construtores, aumentavam diariamente em número e poder. No século XIII, eles assumiram uma nova organização, que os aliou mais de perto do que nunca a essa Fraternidade de Maçons especulativos em que eles foram finalmente fundidos no século XVIII.

O evento mais importante no cultivo e propagação da arte maçônica no continente da Europa foi o que ocorreu na cidade de Estrasburgo, na Alemanha, quando Erwin de Steinbach, o arquiteto da catedral convocou um grande número de mestres construtores da Alemanha, Inglaterra e Itália, e no ano de 1275 estabeleceu um código de normas e na organização da Fraternidade de Pedreiros Livres segundo o modo que tinha sido adotado, conforme é sustentado por muitos escritores, trezentos e cinquenta anos antes pelos maçons ingleses na cidade de York. Lojas foram fundadas em muitas das cidades da Alemanha, as quais confraternizavam entre si; mas destas a precedência foi concedida à Loja em Estrasburgo, porque essa cidade tinha sido, por assim dizer, o ponto central de onde a arte maçônica alemã tinha fluído. Erwin de Steinbach foi eleito o seu oficial presidente, ou Grão-Mestre. Três graus de operários eram reconhecidos – Mestres, Companheiros e Aprendizes; e palavras, sinais e apertos de mão foram criados como modos de reconhecimento a serem usados pelos membros da Fraternidade, parte dos quais foi emprestada dos maçons ingleses. Finalmente, cerimônias de iniciação foram inventadas, que eram de caráter simbólico, e ocultavam sob o seu simbolismo, profundas doutrinas da filosofia, religião e arquitetura. Dessas cerimônias de iniciação usadas pelos antigos canteiros alemães dos séculos XII e XIII, Findel faz o seguinte relato interessante:

“No dia fixado, o candidato entrava na casa onde a assembleia era realizada, onde o mestre tinha tudo preparado na devida ordem no salão do Oficio. Os irmãos eram então convocados, (claro que sem carregar qualquer arma, sendo este um lugar dedicado à paz,) e a assembleia era aberta pelo Mestre, que primeiro os colocava ao par da proposta iniciação do candidato, despachando um irmão para prepará-lo. O mensageiro, imitando um costume pagão antigo, sugeria ao seu companheiro que ele assumisse a postura de um suplicante. Ele era então despojado de todas as armas, e tudo em metal tirado dele; ele era despojado de metade das suas vestes, e, com os olhos vendados e o peito nu e pé esquerdo descalço, ele parava diante porta do salão, que lhe era aberta após três batidas distintas. O Segundo Vigilante o conduzia ao Mestre, que o fazia ajoelhar-se e repetir uma oração. O candidato era então conduzido três vezes em torno do salão da guilda, parando finalmente à porta, e colocando seus pés juntos sob a forma de um ângulo reto, para que pudesse em três passos em compasso colocar-se na frente do Mestre. Entre os dois, aberto em cima da mesa, estava um Novo Testamento, um par de compassos e um esquadro de pedreiro, sobre a qual, por força de um antigo costume, ele estendia a sua mão direita, jurando ser fiel aos deveres para com que ele se comprometia, e manter em segredo tudo o que tinha sido, ou que pudesse ser, posteriormente, revelado a ele naquele lugar. A venda era então removida de seus olhos, as três grandes luzes lhe eram mostradas, um novo avental amarrado em sua cintura, uma senha fornecida, e seu lugar no salão da Guilda lhe era apontado”. (Hist. Da Maçonaria, p. 65.)

Essas fraternidades ou associações tornaram-se imediatamente muito populares. Muitos dos potentados da Europa, e entre eles o Imperador Rudolf I, concedeu a eles consideráveis poderes de jurisdição, tais como lhes permitia preservar o sistema mais rígido em assuntos relativos à construção, e lhes facilitaria reunir mestres construtores e pedreiros em qualquer ponto desejado. O Papa Nicolau III concedeu à Irmandade, em 1278, cartas de indulgência, que foram renovadas por seus sucessores, e, finalmente, no século seguinte pelo Papa Bento XII.

Os canteiros, como uma fraternidade de maçons operativos, distintos dos pedreiros comuns e trabalhadores do ofício, adquiriram nessa época grande destaque, e foram firmemente estabelecidos como uma associação. Em 1452 uma assembleia geral foi convocada em Estrasburgo, e uma nova constituição votada, que abrangia muitas melhorias e modificações da anterior. Apenas sete anos depois, em 1459, Jost Dotzinger, então ocupando a posição de arquiteto da Catedral de Estrasburgo, e, em virtude de seu cargo, presidindo a Maçonaria da Alemanha, convocou uma assembleia geral dos Mestres de todas as Lojas na cidade de Ratisbona. Nela, o código de leis que tinha sido adotado em Estrasburgo em 1462, sob o título de “Estatutos e Regulamentos da Fraternidade de Canteiros de Estrasburgo” foi amplamente discutida e sancionada.

Ficou então resolvido que deveriam ser estabelecidas quatro Grandes Lojas, – em Estrasburgo, em Viena, em Colônia e em Zurique; e eles também determinaram que o operário mestre, por enquanto, da Catedral de Estrasburgo deveria ser o Grão-Mestre dos Maçons da Alemanha. Estas constituições ou estatutos ainda existem, e são mais antigas do que qualquer outro registro maçônico existente de autenticidade indubitável, exceto o manuscrito de Halliwell. Eles foram “gentil e afavelmente acordados”, de acordo com o seu preâmbulo, “para o benefício e exigências dos Mestres e Companheiros de todo o Oficio da maçonaria e Maçons na Alemanha”. Assembleias gerais, em que importantes negócios eram transacionados, foram realizadas em 1464 em Ratisbona, e em 1469 em Spire, enquanto assembleias provinciais em cada uma das jurisdições de Grande Loja eram convocadas anualmente. Em consequência de uma deficiência de empregos, de distúrbios políticos e outras causas, a Fraternidade então diminuiu na sua atividade por um breve período. Mas ela foi rapidamente reavivada quando, em outubro de 1498, o imperador Maximiliano I, confirmou os seus estatutos da forma como tinham sido aprovados em Estrasburgo, e reconheceu seus antigos direitos e privilégios. Este ato de confirmação foi renovado pelos imperadores subsequentes, Carlos V e Ferdinando I. Em 1563, uma assembleia geral dos Maçons da Alemanha e da Suíça foi convocada na cidade de Basileia pela Grande Loja de Estrasburgo. As constituições de Estrasburgo foram novamente renovadas com alterações, e o que foi chamado de Lei dos Canteiros [das Steinwerkrecht) foi estabelecido. A Grande Loja de Estrasburgo continuou a ser reconhecida como tendo suprema jurisdição de apelação em todas as matérias relacionadas ao Oficio.

Mesmo o Senado daquela cidade havia reconhecido as suas prerrogativas, e havia concedido a ela o privilégio de resolver todas as controvérsias em relação a questões relacionadas com a construção; uma concessão que foi, no entanto, revogada em 1620, sob a acusação de que o privilégio tinha sido mal utilizado. Assim, os Maçons Operativos da Alemanha continuaram a trabalhar e cultivar os elevados princípios de uma arte arquitetônica religiosa. Mas em 16 de março de 1707, data até quando a Fraternidade tinha existido ininterruptamente, um decreto da Dieta Imperial em Ratisbona dissolveu a conexão das Lojas da Alemanha com a Grande Loja de Estrasburgo, porque aquela cidade tinha passado para o poder dos franceses.

A cabeça sendo agora perdida; os corpos subordinados começaram a declinar rapidamente. Em várias das cidades alemãs, as Lojas se comprometeram a assumir o nome e exercer as funções de Grandes Lojas; mas estas foram todas abolidas por um edito imperial em 1731, que, ao mesmo tempo proibia a administração de qualquer juramento de segredo, e transferia para o governo sozinho a adjudicação de todas as disputas entre membros do Oficio. A partir desse momento, perdemos de vista qualquer organização nacional dos Maçons na Alemanha até a restauração da Ordem, no século XVIII, por meio da Fraternidade Inglesa. Mas em muitas cidades – como em Basileia, Zurique, Hamburgo, Gdansk e Estrasburgo – elas preservaram uma existência independente sob os estatutos de 1559, embora tivessem perdido muito do conhecimento simbólico profundo da arquitetura que seus antecessores tinham possuído.

Antes de deixar esses canteiros alemães, vale a pena dizer algo sobre o simbolismo que eles preservaram em seus ensinamentos secretos. Eles fizeram muito uso, em suas plantas de arquitetura, de números místicos, e entre estes o cinco, sete e nove eram especialmente proeminentes. Entre as cores, dourado, azul e branco possuíam significados simbólicos. A régua, o compasso, o esquadro e o malhete, com alguns outros instrumentos de sua arte, eram consagrados com uma significação espiritual. O Oriente era considerado um ponto sagrado; e muitas alusões eram feitas ao Templo de Salomão, especialmente aos pilares do pórtico, representações dos quais podem ser encontrados em várias catedrais. Na França, a história dos canteiros foi semelhante ao de seus irmãos alemães. Originários, como eles, dos claustros e do emprego de leigos pelos monges arquitetos, eles se associaram como uma irmandade superior aos pedreiros comuns.

A conexão entre os maçons da França e os Colégios de Construtores romanos era mais íntima e direta do que a dos alemães, devido à ocupação precoce e muito geral da Gália pelas legiões romanas, mas a organização francesa não diferia materialmente da Alemã. Protegidos por papas e príncipes, os Maçons estavam se envolveram, sob o patrocínio eclesiástico, na construção de edifícios religiosos. Na França, havia também uma associação peculiar, os Pontífices, ou Construtores de Pontes, intimamente ligados em concepção e natureza com a fraternidade maçônica, e cuja lembrança ainda é preservada no nome de um dos graus do Rito Escocês, o de “Grande Pontífice”. A sede central da Cantaria francesa era na Lombardia, onde as Lojas eram disseminadas pelo reino, um fato que é assim narrado pelo Sr. Hope: “Entre as artes exercidas e melhoradas na Lombardia”, diz ele, “a da construção tinha uma posição proeminente, e era a mais importante, porque a falta daqueles edifícios antigos para os quais eles precisariam recorriam a materiais já lavrados, e que Roma tinha em tal abundância, tornou os arquitetos destas regiões mais remotas dependentes de sua própria habilidade e livres para seguir suas próprias concepções”.

Mas, no início do século XVI, a necessidade de seu emprego na futura construção de edifícios religiosos tendo cessado, a Fraternidade começou a declinar, e as corporações maçônicas foram todas finalmente dissolvidas, como aquelas de outros trabalhadores por Francisco I, em 1539. Surgiu então aquele sistema que os franceses chamam de Compagnonnage, um sistema de Guildas ou irmandades independentes, mantendo um princípio de comunidade quanto à arte que eles praticavam, e com, em certa medida, um vínculo secreto, mas sem noções elevadas ou organizações sistemáticas gerais. As sociedades de Compagnons eram, de fato, apenas os escombros das Lojas Maçônicas. A Cantaria deixou de existir na França como um sistema reconhecido até seu ressurgimento no século XVIII.

Na Inglaterra, já vimos que os canteiros, sob a denominação distintiva de Pedreiros Livres, realizaram uma Assembleia Geral na cidade de York, no ano de 926, e ali aprovou aquelas constituições que têm sido sempre encaradas como a lei fundamental da Maçonaria Inglesa. Naturalmente, a própria convocação dessa assembleia prova que os maçons estiveram anteriormente em atividade no reino, o que é, de fato provado de outra forma pelos registros da construção em um período anterior, por eles, de catedrais, abadias e castelos. Mas, datamos a assembleia de York como a primeira organização conhecida e reconhecida da Maçonaria na Inglaterra em um corpo nacional, ou Grande Loja. Sua história difere muito pouco daquela que já foi detalhada. Canteiros, na verdade – mas na posse de muitos segredos profissionais originalmente derivados de seus monges professores, bem como dos colégios romanos, com os quais, como os maçons da França, tiveram uma comunicação íntima através das legiões que tinham estado acampadas por tantos anos na Inglaterra – eles se autodenominavam Pedreiros Livres, para se distinguir dos trabalhadores comuns e canteiros comuns, que eram, geralmente, de uma condição servil, e não tinha nem a elevação intelectual, nem a devoção a alta arte religiosa, que pertencia exclusivamente a fraternidade “nascida livre”.

Após a organização em York, assembleias anuais, diz-se, foram realizadas regularmente e que as atas de várias delas foram transmitidas a nós por registros históricos. A Fraternidade experimentou, como em outros países, seus períodos alternados de prosperidade e decadência. Finalmente, por volta do fim do século XVII ela tinha até então declinado tanto, que apenas sete Lojas podiam ser encontradas em toda a Londres e seus subúrbios. E é graças aos Maçons Ingleses que adotaram então essa política ousada e sábia que por si mesma poderia ter salvo a Irmandade da dissolução absoluta. Em 1703, um estatuto foi promulgado, que mudou completamente os objetivos da instituição. De uma sociedade operativa, ela tornou-se totalmente especulativa em sua natureza. Ela deixou de construir templos materiais, e dedicou-se à construção de um templo espiritual. Ela conservou as ferramentas de trabalho e os termos técnicos de arte da instituição operativa original, simplesmente por causa do simbolismo religioso que estes transmitiam. E seus membros convidados às suas assembleias, homens de saber e da ciência, que podiam encontrar em suas discussões temas agradáveis com seus trabalhos intelectuais.

Os resultados mais felizes rapidamente se seguiram; e em 1717 a Grande Loja da Inglaterra foi organizada, ou melhor, restaurada, em novas bases de uma sociedade especulativa. O efeito foi logo visto em outros países; pois, através da instrumentalidade da Grande Loja da Inglaterra, que se tornou, de fato, a Loja Mãe do mundo, a Maçonaria foi revivida em todos os lugares. Lojas no modelo Inglês, que depois deram origem ao estabelecimento de Grandes Lojas em seus respectivos países, foram organizadas na França, em 1729, na Holanda, em 1731, na Alemanha, em 1733, e na Itália em 1735. Ela se espalhou em outros países com mais ou menos atividade, e foi fundada em 1733 nos Estados Unidos da América. Desde aquele tempo até os dias de hoje, a história da Maçonaria foi totalmente separada da história da Cantaria. Vemos, então, como conclusão, que os Canteiros – vindos em parte dos Colégios de Arquitetos romanos, como na Inglaterra, na Itália e na França, mas, principalmente, como na Alemanha, a partir de irmandades enclausuradas de monges – devotaram-se à construção de edifícios religiosos. Eles consistiam principalmente de arquitetos e operários hábeis; mas como eles eram controlados pelos mais elevados princípios de sua arte, estavam na posse de importantes segredos profissionais, eram atuados por profundos sentimentos de devoção religiosa, e uniram a eles em seus trabalhos, homens de cultura, riqueza e influência – eles assumiram desde o início, o título de Pedreiros Livres, para servir como uma distinção orgulhosa entre eles e os trabalhadores comuns e sem instrução, muitos dos quais eram de condição servil. Posteriormente, no início do século XVIII, eles jogaram fora o elemento operativo de sua instituição, e, adotando um caráter totalmente especulativo, tornaram-se os Pedreiros Livres de hoje em dia, e estabeleceram sobre um alicerce imperecível aquela sublime Instituição que apresenta sobretudo a terra habitável do sistema mais maravilhoso de simbolismo religioso e moral que o mundo já viu.




OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES


Autor: João Anatalino


O candidato a elevação no grau 19 declara que é um "Príncipe Rosa-Cruz", que tendo contemplado as colunas da fé, da esperança e da caridade, aspira agora, entrar num lugar "que não tem necessidade de sol ou lua para ser iluminado", isto é, a Jerusalém Celeste.

Mas para merecer essa honraria, terá que realizar os Doze s Trabalhos de Hércules. Sabe-se que o Mito de Hércules significa, na verdade, uma tradição iniciática onde o recipiendário é levado a realizar tarefas que simbolizam as virtudes que o verdadeiro herói, o homem da terra, deve adquirir para que se iguale ao arquétipo que lhe serviu de imagem, ou seja, o homem celeste. [1]

Os Doze Trabalhos de Hércules é uma alegoria que mostra de forma metafórica, o que eram os chamados Antigos Mistérios. Na verdade, são os próprios Mistérios.de Hércules é o herói mítico de todos os povos, que desafia os deuses, conquista a sabedoria, estabelece a civilização e depois não sabe o que fazer com tudo que conquistou. Representa a saga do ser humano sobre a terra na sua eterna procura pelo sentido da vida.

Nas iniciações aos Mistérios de Elêusis, esse mito era invocado como sendo as provas que o iniciado devia realizar para atingir a iluminação.

Diz a tradição que Hércules era filho de Zeus e uma mulher, Alemena, a rainha de Tirinto. Era tão bela que Zeus se apaixonou por ela e resolveu seduzi-la.

Já por essa informação se pode avaliar o largo significado esotérico desse mito. Hércules é, ao mesmo tempo, descendente dos deuses e dos homens. Simboliza o homem no céu que se manifesta na terra, como projeção do elemento divino no elemento humano. Nesse sentido, seus trabalhos denotam a longa e sofrida jornada que o homem deve suportar até que possa vencer suas limitações físicas e voltar a sua condição divina.

Os trabalhos aos quais Hércules foi submetido eram provas de força, coragem e valentia, que Aristeu, seu primo, o rei de Argos, lhe impôs. Simbolicamente, era como alguém tivesse que percorrer um vasto labirinto, tortuoso, mergulhado em profundas trevas, enfrentando diversos perigos, para chegar à luz. Em termos iniciáticos, era a representação do homem, que feito imortal a princípio, foi jogado no seio da matéria e agora teria que vencer a escuridão, que é a própria morte, para se revestir novamente da imortalidade. Dessa forma, os Doze Trabalhos de Hércules são, claramente, uma vigorosa alegoria iniciática. [2]


BIBLIOGRAFIA

Anatalino, João, Mestres do Universo - A Maçonaria dos Graus Superiores - Editora Biblioteca 24 horas - São Paulo - Junho de 2010.


Se desejas ver os dozes trabalhos adquira o livro,  pois é muito interessante.

O Livro pode ser adquirido através do email: João Rodrigues <jjnatal@gmail.com> 

[1] Segundo a Cabala, o homem da térrea foi construído a partir de um arquétipo celestre chamado Adão Kadmon, o “homem do céu”. É uma figura que representa uma imagem dos anjos construtores, os Elohins, e não uma imagem do Grande Arquiteto do Universo, como as exegetas da Bíblia ensinam. Na verdade, o homem jamais poderia ter sido construído à imagem e semelhança de Deus porque Deus é espírito, e espírito não tem forma nem imagem. 

[2] Cf. O Ritual do grau 19. O Irmão deverá “subir a montanha” para fazer o sacrifício na “ponte que separa a região das trevas do foco da luz”. Do alto dessa “montanha” ele avista a Jerusalém Celestre. Depois recebe o “cetro”, que é superior ao Tau (O Cajado de Aarão) e inicia a sua “viagem” para a execução dos Dozes Trabalhos de Hércules.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016


O FIO DE PRUMO


Pesquisa: José Roberto Cardoso



Na abertura do Livro da Lei, no Grau de Companheiro Maçom, lemos o seguinte versículo:

                                                              “Assim me fez ver : Eis que o Senhor estava de pé sobre um muro e Iahweh me disse: Que vês, Amós? Eu disse: Um fio de prumo. O Senhor disse: Eis que vou pôr um fio de prumo no meio do meu povo, Israel, não tornarei a perdoá-lo” (Am 7:7-9)

Mas por quê esse texto foi escolhido?

Primeiro precisamos saber quem foi Amós e na sequência teremos os motivos pelos quais a Maçonaria adotou este versículo.

Todos sabemos que a doutrina maçônica está assentada na filosofia judaico-cristã.

Amós foi um dos 12 profetas menores do Antigo Testamento e autor do Livro que leva o seu nome. Nasceu em Tecoa, cidade a cerca de 20 Km, nos limites do deserto de Judá, a Sudeste de Belém e faleceu no ano de 745 a. C.. Também era um homem de família humilde.

O “Profeta” Amós foi o introdutor do monoteísmo universal e criticava no seu livro, a hipocrisia religiosa, os costumes impuros e a corrupção no governo. Amós pedia para o povo estudar para deixar de serem escravizados, para purificarem suas mentes com a prática da virtude, aplicando as tradições dos antepassados para o retorno à estrutura de um povo forte e respeitado (essa crítica era dirigida, na época, principalmente a Judá e Israel). Amós era um cultivador de sicômoros[1], árvore que servia para a construção. Ele anunciava que os muros dos Templos, dos Tribunais e das casas dos hebreus iriam todos cair, pois foram construídos sem as ferramentas que lhes conferem a devida estabilidade. Conhecimento que foi esquecido por preguiça ou por soberba. Aqui, o prumo aparece como símbolo de retidão moral e intelectual. Amós deixa claro a imperdoável falta cometida pelo povo de Israel.

Amós era um “no·qedhím”, ou seja, “criador de ovelhas”, e a presença dessa palavra só ocorre em mais um lugar na Bíblia (2Rs 3:4), e está relacionada com naqqad, palavra árabe para uma raça especial de ovelhas, um tanto desgraciosa, mas de grande valor, por causa do seu velocino[2]. Lá naquela região selvagem, Amós também se empenhava em trabalhos servis temporários como riscador de figos de sicômoros, uma variedade considerada alimento apenas para os pobres. O costume de riscar ou pungir os figos destinava-se a apressar seu amadurecimento, e aumentar o tamanho e a doçura dos frutos. — Amós 7:14;

Semelhante ao pastor Davi, que foi chamado ao serviço público por Deus, assim também “Jeová passou a tomar [Amós] de atrás do rebanho”, e fez dele profeta. — Am 7:15.

Da solidão do ermo no Sul, Amós foi enviado ao idólatra reino de dez tribos, no Norte, com sua capital Samaria.

Amós começou sua carreira como profeta dois anos antes do grande terremoto que ocorreu no reinado de Uzias, rei de Judá. Ao mesmo tempo, Jeroboão II, filho de Joás, era rei de Israel. (Am 1:1) Por conseguinte, a profecia de Amós se situa em algum tempo do período de 26 anos, de 829 a cerca de 804 AEC, quando os reinados destes dois reis, de Judá e de Israel, coincidiram. O grande terremoto, que ocorreu dois anos depois de Amós ter sido comissionado como profeta, foi de tal magnitude que, quase 300 anos depois, Zacarias fez menção especial dele. — Za 14:5.

É incerto por quanto tempo Amós serviu qual profeta no reino setentrional. Amazias, o iníquo sacerdote adorador de bezerros, da religião estatal centralizada em Betel, tentou expulsá-lo do país, à base de que ele era uma ameaça para a segurança do estado. (Am 7:10-13) Não se revela se Amazias teve êxito nisso. De qualquer modo, ao se cumprir a missão profética de Amós junto a Israel, ele presumivelmente voltou ao seu território tribal nativo de Judá. Jerônimo e Eusébio relatam que o sepulcro do profeta, nos dias deles, estava localizado em Tecoa. Também parece que, depois de retornar a Judá, Amós assentou por escrito a profecia que de início fora proferida oralmente. Ele é com frequência chamado de um dos 12 profetas “menores” (seu livro sendo catalogado em 3. ° lugar entre os 12), todavia, a mensagem que proferiu de modo algum é de pouca significância.

O seu ministério foi exercido no século VIII a. C. durante os reinados dos Reis Uzias (ao sul de Israel) e Jeroboão II (ao norte de Israel). Sua obra foi marcada por uma profunda crítica social e religiosa. Ele denunciou a desigualdade social de seu tempo, bem como o uso idólatra da religião, transformada em mero instrumento que serve à alienação e usada como fachada para a iniquidade.

O Profeta Amós é um revolucionário, um socialista de seu tempo que não se deixou levar pelas aparências de uma época marcada sobretudo pela prosperidade material. Contudo, mesmo com abundância, o povo de Israel passou por uma profunda inversão de valores, deixando-se levar pela soberba, ganância, luxúria e todo tipo de perdições.

Dessa forma, a obra de Amós é caracterizada pela crítica ao enriquecimento da sociedade à custa dos pobres; ao suborno e corrupção de juízes nos tribunais; à opressão, violência e à escravidão dos pobres; ao comportamento das mulheres ricas, que para viverem no luxo, estimulavam seus maridos a oprimirem os fracos.

No que toca à religião, Amós denuncia seu caráter meramente ritualístico e vazio. Assim ele diz em seu livro: “eu odeio, eu desprezo as vossas festas e não gosto de vossas reuniões. Porque, se me ofereceis holocaustos não me agradam as vossas oferendas e não olho para o sacrifício de vossos animais cevados. Afasta de mim o ruído de teus cantos, eu não posso ouvir o som de tuas harpas! Que o direito corra como água e a justiça como um rio caudaloso.

E dentro desse contexto de críticas, Amós, na terceira parte de seu livro, relata cinco visões, sendo que a terceira delas interessa de forma particular à maçonaria. Trata-se da visão do fio de prumo. No capítulo 7, versículos 7 e 8, Amós assim relata: “Assim me fez ver: Eis que o Senhor estava de pé sobre um muro e tinha sobre a sua mão um fio de prumo. E Iahweh me disse: Que vês Amós? Eu disse: Um fio de prumo. O Senhor disse: Eis que vou por um fio de prumo no meio do meu povo, Israel, não tornarei a perdoá-lo”

Ora, é o Senhor mesmo Quem estava sobre o muro na visão de Amós. E o prumo que segurava em Suas mãos é altamente revelador. Ele revela nossa intrínseca tortuosidade, nosso desalinhamento e desequilíbrio moral.

Da mesma forma como o pedreiro se utiliza do prumo para procurar falhas na obra em que se debruça, assim se dá quando Deus coloca seu prumo em nossas vidas, fazendo aparecerem todas as falhas, todas as misérias escondidas em nossos olhares dissimulados, em nossas palavras vazias e em nossas ações e omissões egoístas.

Mas o que é este prumo de Deus em nossas vidas? Será a Bíblia (ou qualquer outro livro sagrado, ou doutrina que seguimos?). Será nosso caminho pessoal? Os padrões sociais e políticos de nosso tempo? Nossa consciência?

A Ordem Maçônica tenta nos mostrar qual será este prumo na vida particular de cada maçom, transmitindo por meio de alegorias e símbolos antigos mistérios que podem ser traduzidos em retidão moral e bons costumes para aquele que de fato os persegue em seu íntimo construtor.

Mas há um fato curioso nesta passagem. Nem mesmo Deus julgou aleatoriamente o seu povo. Antes disso, Ele passou sobre nós o seu prumo sagrado, para que toda falha fosse posta às claras. Assim, não cabe ao Homem passar seu prumo particular na parede alheia, achando-se ridiculamente capaz de medir os erros de seu irmão com a medida própria. Não cabe em nós tamanho amor para realizar essa tarefa de sublime construção da alma do nosso próximo. Isto é assunto entre o Pai e seu filho, porque no prumo do homem há juízos e preconceitos, medidas diferentes alicerçadas na miséria de nossa alma. Mas o prumo de Deus contém a dádiva do arrependimento e a certeza da retidão no amor maior de sua caridade.

O prumo de Deus revela nossos pecados à luz do dia, não deixando nada a coberto. E ao lança-los à luz, Ele espera de nós tão-somente humildade e trabalho para quebrarmos nossos tijolos mal assentados e recomeçar nossa obra fundada na promessa de que O seguindo encontraremos pela frente apenas consequências do Amor.

Na caminhada do Companheiro Maçom, durante seu aprendizado é fundamental a prática da virtude. Virtude se reflete na tolerância em relação às opiniões alheias, na fraternidade para com os indigentes, no socorro aos que sofrem, no consolo aos aflitos e na instrução aos ignorantes. O prumo simbolizando a elevação do espírito do ser humano, representa a reunião de todas as virtudes onde a Justiça forma o sustentáculo de toda uma sociedade democrática e igualitária – um fim que Amós buscava com suas pregações/críticas na época, ao povo de Israel. Convém lembrar que, na passagem bíblica que representa a abertura da Loja no Grau de Companheiro, o prumo encontra-se na mão de Deus e não nas mãos do profeta, de onde podemos concluir que, como Companheiro devemos colocar o prumo em nossas vidas para que possamos perceber nossas falhas e então, corrigi-las, e não se fazer de prumo e iniciarmos o questionamento de outros irmãos quanto ao seu desvio de conduta. “A função do prumo na Maçonaria não é revelar falhas ou defeitos para arrastar-nos a Juízo e desespero. A função do prumo é revelar falhas e defeitos, para que possamos renascer a cada dia, lapidar a pedra bruta que somos e encontrar a verdade, a justiça e a perfeição”


[1] Sicômoro - Ficus sycomorus, conhecida pelos nomes comuns de sicómoro, sicômoro ou figueira-doida, é uma espécie de figueira de raízes profundas e ramos fortes que produz figos de qualidade inferior, cultivada no Médio Oriente e em partes da África há milénios.
[2] Velocino = a pele do carneiro, da ovelha, do cordeiro recoberta com sua lã; velo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

DEUS “NÃO JOGA DADOS”

Autor: João Anatalino


O bem e o mal

Em termos de cosmologia o discurso científico não deixa de conter certo esoterismo e na mística contida no discurso esotérico também podemos encontrar fumos de ciência. Isso porque a matéria bruta é feita de átomos, os átomos se juntam para formar compostos e os compostos constituem a maior parte da matéria universal.

Igualmente a matéria orgânica se forma a partir de células que se juntam para formar moléculas e estas se reúnem em sistemas. Todos com seus domínios e funções, da mesma forma que cada vida, humana ou animal, tem o seu domínio, sua função e sua missão na estrutura do universo. No imenso do espaço cósmico e no ínfimo do núcleo atômico da matéria, fundem-se os domínios da física com os da metafísica para nos dar a compreensão de como o universo funciona e como ele está sendo construído. É uma verdadeiraCosmogênese que se processa, segundo um plano e uma finalidade que talvez nunca cheguemos a compreender, mas que é possível entrever nas leis que regem a formação dos corpos materiais e do próprio fenômeno da vida.[1]

A natureza não faz nada que não seja absolutamente útil. A menor partícula existente na matéria universal cumpre papel extremamente importante nessa formidável rede de relações em que vai se tornando o universo físico que saiu do Big-Bang. Essa rede de relações parece obedecer á um plano extremamente lógico, como se ela estivesse sob o comando de uma Mente Universal que tudo planeja e controla. 

Ás vezes temos a impressão de que todos os eventos universais acontecem aleatoriamente, como em um jogo de dados. [2]

Mas isso é porque, do nosso limitado campo de visão, nós só temos a perspectiva do imediato. Se nos fosse dado o privilégio de ver todos os desenhos futuros que o tecido universal assumirá, ou no passado todos que já assumiu, então a nossa preocupação seria apenas a de procurar entender o nosso papel nesse processo. Pois, como bem expressa Teilhard de Chardin,nós somos o ápice momentâneo de uma Antropogênese, que por sua vez, coroa uma Cosmogênese, ou seja, somos a espécie mais elaborada que o fenômeno da vida produziu, até agora, dentro de um projeto de vida cósmico, elaborado pela Mente Universal.[3]

Conscientes desse processo, podemos evitar ações que possam causar “defeitos” na urdidura desse tecido, pois embora o universo tenha mecanismos de recomposição para todos os desequilíbrios que nele são gerados, qualquer ação que viole os princípios de organização e desenvolvimento postos na natureza sempre exige um custo maior em dispêndio de energia para realizar uma recomposição. Essa é noção que a Cabala nos dá sobre a finalidade dos conceitos do bem e do mal. O bem é a ação que concorre para realizar a ordem cósmica; o mal, o seu contrário. É nesse mesmo sentido que a Maçonaria ensina: “a virtude é uma disposição da alma que nos induz a praticar o bem, e o vício é o hábito desgraçado que nos arrasta para o mal”.[4]


Ciência e religião

Os livros sagrados de todas as religiões do mundo, sejam elas “reveladas” ou frutos da especulação que o homem faz em busca de uma realidade que está além da sua própria sabedoria, sustentam que o universo começou pela ação de uma Divindade, que de alguma forma, deu início ao mundo, tal como o vemos.[5]

A Bíblia, por exemplo, que é a fonte mais conhecida de uma religião revelada, diz que Deus fez todas as coisas tirando a luz das trevas. E quando viu que a luz era boa, Ele fez o restante do universo com ela. Para os cientistas, como já vimos, o universo teve início com a explosão de um “campo” carregado de energia, há cerca de uns quinze bilhões de ano atrás. Essa explosão, que pode ser vista ainda hoje, liberou “quantas” de energia, em forma de luz. Nesse sentido, luz e energia são sinônimos do mesmo fenômeno, constituindo aquilo que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo”. [6] 

Assim, ciência e religião, no fundo, dizem a mesma coisa: Deus é luz, o mundo foi feito de luz, todas as coisas existentes no universo são condensações de energia luminosa. Inclusive nós mesmos. Por isso temos um espírito, que também é pura luz. E conforme nos ensina a Gnose, a nossa alma é uma centelha de luz (ou energia) presa em um invólucro material. E de uma forma ou de outra, usando diferentes figuras de linguagem, todas as doutrinas trabalham com esse mesmo princípio: a de que somos uma massa corpórea animada por alguma forma de energia. 

Essa é uma interessante concepção que nos dá muito que pensar. Mas ela só pode ser expressa através de símbolos, metáforas e analogias. A mente humana cria figuras de linguagem para descrever realidades que a nossa intuição sabe que existem, mas não consegue descrevê-las porque o sistema de comunicação que desenvolvemos não tem elementos suficientes para fazer uma exata configuração delas. 

Na verdade, o que seduz tanto os místicos quanto os cientistas é a ideia de que toda a matéria universal tem sua origem em uma forma de energia. No principio do universo ─ nisso tanto a religião quanto a ciência concordam ─, existia apenas a energia da grande explosão do Big-Bang. Nesse estágio embrionário do Cosmos, aquilo que chamamos de massa ainda não havia se formado. Nada tinha peso ou qualquer outra qualidade que pudesse ser identificada como matéria. Todos os corpos que existem, existiram e existirão eram somente uma coleção de partículas subatômicas dispersas, movendo-se à velocidade da luz. Um certo tipo dessas partículas (fótons, elétrons, neutrinos) formavam uma espécie de oceano invisível, um campo energético de infinita radioatividade. Foi na interação com esse “oceano” que certas partículas, como os quarks (que formam basicamente toda a matéria universal, inclusive o nosso corpo), adquiriram massa e vieram a se tornar o que conhecemos como universo físico.[7]

Na força que os quarks fazem para atravessar esse oceano oleoso, dizem os cientistas, é que a massa física do mundo acaba sendo gerada. Isso significa que sem esse “oceano primordial” não haveria matéria. Mais ou menos como diz a Bíblia: “No princípio, ao criar Deus os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo, e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas.”[8]


O que diz a Cabala

Cientista é um bicho teimoso. Não importa que sua teimosia seja chamada de pragmatismo, racionalismo, positivismo ou qualquer outro nome que se queira dar a essa mania de buscar prova material para tudo. E para isso leva anos e anos pesquisando e gastando milhões de dólares em recursos para tentar provar aquilo que o espírito humano já sabe desde que o primeiro homem experimentou a sua primeira reflexão: que Deus existe e que é Ele, seja lá o que Ele for − uma entidade ou uma forma de energia − que dá existência a toda realidade cósmica.
Galáxias, estrelas, planetas, asteroides, tudo são condensações de energia, presas por um vínculo de união e organizadas segundo um padrão de estabilidade. Como disse o físico Heisenberg, se a gravidade fosse retirada do universo, a luz também desapareceria e o mundo desabaria sobre si mesmo.[9]

Por seu turno Hawking nos mostra que no universo existem duas forças que regem a sua formação: a força da expansão, que faz com que o universo se expanda na velocidade da luz e a força da contração, que faz com que as massas cósmicas se agrupem e formem os sistemas planetários. Essas duas forças se traduzem em duas leis: a relatividade e a gravidade. Assim, o que hoje se descobre nos laboratórios já estava presente na intuição dos taumaturgos e pensadores do passado. Bastaria uma consulta ao Zhoar, para ver que a descrição do Big-Bang já estava lá com todas suas cores: “No início, quando a vontade do Rei começou a ter efeito, Ele imprimiu signos na esfera celeste. Uma flama escura brotou do fundo do recesso mais escondido, do mistério do Infinito, qual uma névoa formando-se no informe, encerrado no anel daquela esfera, nem branca nem preta, nem vermelha nem verde, de cor nenhuma. Só quando a flama começou a assumir tamanho e dimensão foi que produziu cores radiantes. Pois do centro mais íntimo da flama brotou uma fonte, da qual emanaram cores que se alastraram sobre tudo que estava embaixo, oculto no mistério do ocultamento do Infinito. A nascente irrompeu, e no entanto, não irrompeu através do éter (da esfera). Não era possível reconhecê-la de modo algum, até que um ponto escondido, sublime, raiou sob o impacto do irrompimento final. Nada para além desse ponto é cognoscível, e é por isso que se chama reschit, o começo, a primeira daquelas palavras criadoras, por meio das quais o universo foi criado.” [10]


A “partícula Deus”

É muito bom que os cientistas tenham descoberto (se é que de fato descobriram) o DNA do universo físico (que eles chamam de bóson de Higgs). Mas nada disso nos leva á compreensão do que realmente Deus é, e qual o caminho mais seguro e correto para se chegar a Ele. Isso porque o caminho para Deus nunca será desvelado no estudo do que é simplesmente material. Por isso é que a ciência jamais prescindirá da filosofia (e dentro desta a teologia) como ferramenta de investigação dessa parte oculta do universo, que é a sua porção espiritual.

Talvez, se os cientistas não fossem tão teimosos eles já teriam descoberto como o universo nasceu na descrição que o cronista bíblico faz da criação do mundo e assim não precisaríamos gastar tanto tempo, fosfato e dinheiro para comprovar o que a intuição taumatúrgica já sabe desde o princípio dos tempos. 

Um respeitado cientista, ao explicar a importância do bóson de Higgs para a formação da matéria universal, utilizou uma interessante comparação: “ele é como a água para os peixes”. [11]

Nesse sentido, é interessante observar que a Bíblia diz, textualmente, que no início “o Espírito de Deus movia-se sobre as águas”. E com isso chegar-se-ia mais fácil á conclusão de que céu e terra (ou seja, o universo) nasceram com o surgimento da luz. Que a luz foi a primeira manifestação da Existência Positiva de Deus (na linguagem da Cabala), e essa luz é o “Espírito de Deus” promovendo a fecundação da vida sobre as “águas primordiais”, como diz um belo poema gnóstico.

A sabedoria arcana é resultado da intuição do espírito humano, registrada na forma de símbolos e metáforas, porque a humanidade ainda não conseguiu desenvolver linguagem escrita e falada suficiente para explicar os noventa e nove por cento do universo que ainda permanecem desconhecidos para nós.

Tudo isso nos mostra que o universo não é caótico e que Deus não é indiferente ao seu destino. Que existe um processo regulando a sua criação, orientando o seu desenvolvimento. Há uma “Ordo ab Chaos”, da qual participamos, talvez inconscientemente. Por enquanto sabemos apenas que existem duas margens nesse imenso rio que precisam ser ligados por uma ponte. Algumas pilastras já foram postas pelos grandes sábios do passado e do presente. Uma boa parte delas é obra dos mestres da Cabala e da Gnose. Sobre elas caminham os maçons, os rosa-cruzes, os gnósticos, os teosofistas e os cientistas que não perderam a sua espiritualidade. É só andando sobre elas que nós podemos, com muito cuidado, encetar esta nossa aventura espiritual.[12)


[1] Segundo Teilhard de Chardin (O Fenômeno Humano, citado), a evolução do universo físico obedece á duas grandes leis: a lei da união, pela qual as partículas elementares que formam a matéria tendem a se unir para formar átomos e estes se unem para formar os elementos químicos; e a lei da complexificação, segundo a qual essa união vai produzindo compostos cada vez mais complexos, dando um sentido á evolução. 
[2] É nesse sentido que Einstein disse que “Deus não joga dados”. Que dizer, Deus não constrói o universo aleatoriamente, testando alternativas para ver no que vai dar.
[3] Teilhard de Chardin- op. citado pg. 27.
[4] Cf. o Ritual do Aprendiz (REEA)
[5] Religiões reveladas são aquelas cuja doutrina, supostamente, foram transmitidas aos seus fundadores pela própria Divindade. O Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo são exemplos de religiões reveladas. Já o Budismo, o Taoísmo, o Espiritismo são exemplos de religiões metafísicas, pois seus pressupostos são deduzidos a partir de especulações filosóficas ou de experiências psíquicas feitas pelos seus fundadores.
[6] O que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo” é a energia primordial que atua na base de todas as coisas existentes no universo. “quantas” são medidas da energia contida nos núcleos atômicos dos elementos, que se apresentam como ondas e partículas
[7] Stephen Hawking- O Universo Em Uma Casca de Nóz.
[8] Gênesis, 1: 1,2. 
[9] Werner Karl Heisenberg (1901 —1976) físico teórico alemão, Prêmio Nobel de Física em 1932, pela descrição dos princípios da mecânica quântica.
[10] .Sepher Há Zhoar, I 15, a.
[11] O “bóson de Higgs” é a partícula atômica que segundo os teóricos da física nuclear é responsável pelo surgimento da massa física do universo. Essa partícula essencial, apelidada de “partícula Deus”, foi descoberta pelo cientista Peter Higgs em 1964. Em 2013, a existência e atuação desse padrão energético foi observado e comprovado pela primeira vez através de pesquisas realizadas nos laboratórios do CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares).
[12] Na imagem, o bóson de Higgs-“a partícula Deus”- Fonte Wikipédia Fundation.


João Anatalino

A MAÇONARIA E O SENTIDO DA VIDA

Autor: João Anatalino


O que é a vida?


Quando se considera o universo e a vida que nele habita somente como um acidente cósmico sem sentido nem finalidade, perde-se o norte da própria existência. Para que, então se preocupar com os rumos do mundo e o próprio destino individual se, se façamos o que façamos, nada disso tem uma finalidade? Se tudo se perde, irremediavelmente, na voragem do tempo?

Será a vida apenas um fenômeno físico-químico que um acidente cósmico um dia produziu? Ou terá ela sido produzida como parte de algum projeto que envolve, não somente o seu próprio desenvolvimento, mas um plano bem maior, de escala cósmica? E se cada vida fosse o elo de uma corrente que transmite, no tempo e no espaço, a energia criadora que faz do universo um ser vivo e convergente, que por dentro e por fora se metamorfoseia e vai adquirindo contornos e qualidades que no fim, servem á uma finalidade definida por uma Mente Universal?

São exatamente essas as perguntas e as elucubrações feitas pela Maçonaria, quando se interroga pelo sentido da vida. Um dos graus do Ritual coloca exatamente essa questão quando pergunta: “De onde viemos? O que somos? O que a morte fará de nós? Que é o homem? É apenas um átomo, gestado no corpo da mulher e que progressivamente se organiza, se harmoniza em suas inúmeras partes? Que cresce, pensa, cai, transforma-se e volta á causa primária, deixando apenas reminiscência de sua última forma ou conservando uma partícula essencial, mutável e mortal? [1//

Nesse questionamento a Maçonaria enfrenta a questão metafísica que tem desafiado a mente humana através de toda a sua história de vida. Afinal, somos apenas uma sombra que passa, um fenômeno despregado de qualquer sentido, que um dia aconteceu no universo como resultado de causas exclusivamente naturais, ou ele é o desvelar de uma Vontade que se manifesta e percorre um longo processo evolutivo que começou, um dia, num átomo que rompeu, por um processo ainda desconhecido, os limites da matéria inanimada?

Um maçom não pode acreditar na hipótese materialista, advogada na tese que sustenta ter a matéria as condições suficientes para explicar todos os fenômenos existentes no universo, inclusive a vida. Porque, se adotar essa crença, estará negando qualquer virtude á prática que adotou. Se o fenômeno da vida e principalmente a do ser humano, fosse um acaso perpetrado por leis exclusivamente naturais, “um vírus” inoculado na corrente sanguínea do universo, como o definiu uma vez um romancista, então ele não teria um espírito, e não se poderia falar na existência de um Criador, e nem haveria qualquer motivo para se tentar uma união com Ele. Tudo que fazemos nesse sentido seria apenas uma simulação fantasiosa. É nesse sentido que Anderson, em suas Constituições, diz: “um maçom é obrigado a obedecer à lei moral; e se ele bem entender da arte, jamais será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso.” [2]

Um processo dirigido

Se os materialistas estivessem certos, toda religião, bem como toda prática iniciática não passaria de uma distração infantil, que mentes incapazes de conviver com a realidade desenvolvem para mitigar a incômoda impressão de que a nossa existência não tem qualquer finalidade além daquela que os nossos sentidos nos indicam. Mas, felizmente, temos razões para pensar que as coisas não são assim; que nós não somos apenas matéria desprovida de espírito, seres organizados por leis naturais que só obedecem ao determinismo dos grandes números. O surgimento da vida em meio á matéria universal, como está a indicar a metáfora bíblica da Criação, é fruto de um processo dirigido e bem elaborado por quem o projetou e o controla, ou seja, O Grande Arquiteto do Universo. 

Mais uma vez é o grande Teilhard de Chardin que nos socorre nessa visão, mostrando como o surgimento da vida resulta de uma síntese que a união dos átomos transforma em moléculas, e estas, também por um processo de sínteses cada vez mais elaboradas, dão origem ao fenômeno humano. Em páginas de extraordinária lucidez e envolvente poesia, esse grande pensador escreve: “Aqui reaparece, á escala do coletivo, o limiar erguido entre os dois mundos da Física e da Biologia. Enquanto se tratava apenas de um processo de mesclar as moléculas e os átomos, podíamos, para explicar os comportamentos da Matéria, recorrer ás leis numéricas da probabilidade, e contentarmo-nos com elas. A partir do momento em que a mônada, adquirindo as dimensões e a espontaneidade superior da célula, tende a se individualizar no seio da plêiade, desenha-se um arranjo mais complicado no Estofo do Universo. Por duas razões, ao menos, seria insuficiente e falso imaginar a Vida, mesmo tomada em seu estágio granular, como uma espécie de fervilhar fortuito e amorfo.” [3]

Quer dizer: a vida não surgiu no universo como surgem as bactérias em um processo de fermentação. Ela é, sim, o resultado de um processo, mas esse processo está longe de ser regido apenas pelas leis da natureza. Ela surge como consequência de um processo dirigido como se fosse alguém, em uma cozinha, ou um laboratório, trabalhando para fazer um bolo, ou para destilar uma bebida. Nesse processo as bactérias surgem como resultado do processo empregado e não como obra do acaso, ou da evolução natural do processo. Por isso a notável argúcia do nosso jesuíta complementa o seu pensamento dizendo: “(...) os inumeráveis componentes que compunham, nos seus inícios, a película viva da Terra, não parecem ter sido tomados ou juntados exaustivamente ou ao acaso. Mas a sua admissão nesse invólucro primordial dá antes a impressão de ter sido orientada por uma misteriosa seleção ou dicotomia prévias (...).” [4]


Recordando Plotino

Deus é a causa atuante de todas as coisas existentes no universo. Essa foi a intuição que inspirou o filósofo Plotino há quase dois milênios atrás: “Imagine uma enorme fogueira crepitando no meio da noite,” escreveu ele.“Do meio do fogo saltam centelhas em todas as direções. Num amplo círculo ao redor do fogo a noite é iluminada, e a alguns quilômetros de distância ainda é possível ver o leve brilho desta fogueira. À medida que nos afastamos, a fogueira vai se transformando num minúsculo ponto de luz, como uma lanterna fraca na noite. E se nos afastarmos mais ainda, chegaremos a um ponto em que a luz do fogo não mais consegue nos alcançar. Em algum lugar os raios luminosos se perdem na noite e se estiver muito escuro não vamos enxergar nada. Nesse momento, contornos e sombras deixam de existir".

"Agora imagine a realidade como sendo esta enorme fogueira. O que arde é Deus - e as trevas que estão lá fora são a matéria fria, onde a luz está fraca, da qual são feitos homens e animais. Junto a Deus estão as ideias eternas, as causas de todas as criaturas. Sobretudo, a alma humana é uma centelha do fogo. Mas por toda a parte na natureza aparece um pouco desta luz divina. Podemos vê-la em todos os seres vivos; sim, até mesmo uma rosa ou uma campânula possuem um brilho divino. No ponto mais distante do Deus vivo está a matéria inanimada.” [5]

Plotino (205-270 e. C) é considerado o fundador da escola neoplatônica. O Gnosticismo deve a ele algumas de suas concepções mais originais, especialmente a ideia de que o verdadeiro conhecimento não pode ficar apenas no terreno intelectual, mas exige uma experiência direta dos sentidos com aquilo que se propõe a conhecer. É nesse sentido que se pode colocá-lo como precursor das chamadas escolas iniciáticas, ou seja, grupos que desenvolviam rituais com a finalidade de ”sentir” as próprias realidades que idealizavam. Plotino é um dos inspiradores de famosos mestres do misticismo como Mestre Eckhart, Papus, MacGregor Mathers, Eliphas Levy e outros. Os autores maçons lhe votam um grande respeito e os modernos gnósticos vêem nele um precursor das teses científicas que descrevem o universo como um organismo único que se constrói através de uma rede de relações. Suas palavras são por demais eloquentes e não necessitam de comentários explicativos. Se o universo existe é porque tem uma causa de existir: essa causa é Deus.

Os rituais maçônicos e a doutrina da Cabala

Por isso é que os rituais maçônicos fazem muitas especulações sobre o sentido da vida e o papel que nós exercemos na construção da Obra do Criador. Essas especulações nos levam á conclusão de que nós não somos meras relações estatísticas derivadas de interações ocasionais ocorridas na matéria física, sem qualquer conteúdo finalístico, como pensam os adeptos do nihilismo, mas sim, unidades conscientes do todo amorfo, que só ganha forma e consistência na medida em que nós mesmos vamos encontrando o nosso lugar no desenho estrutural do universo. [6]

E com isso a Maçonaria canta um dueto bem afinado com a doutrina da Cabala. Para os cabalistas, nosso corpo é como uma lâmpada que se acende em meio a um quarto escuro. Brilhamos por um tempo iluminando o espaço que nos cabe como jurisdição. E quando o combustível, que é a energia encerrada em nossas células se esgota, apagamos. O corpo é o filamento que canaliza a energia e quando ele deixa de ter condição para hospedá-la, ela o abandona. Mas a energia, como mostra a lei de Lavoiser, não se perde nem se extingue. Ela só se transforma. Ela continua a existir mesmo depois que a lâmpada que a refletia se extingue.

Essa energia acenderá outras lâmpadas que também brilharão por algum tempo e depois se apagarão. Cada uma a seu tempo, preenchendo o vácuo e realizando a missão que lhe cabe. Assim a vida nos aparece como uma estrada cheia de luzes que se apagam e se acendem á medida que o tempo passa por elas e avança para o futuro. Por isso encontraremos nos rituais maçônicos, que tratam especificamente desse tema, expressões do tipo (...)Sois uma parcela da vida universal, um germe que apareceu em um ponto do espaço infinito. Vosso ser sofreu inconscientes transformações. Tivestes sensações, depois ideias incoerentes, que mais tarde, foram se tornando precisas. Por fim vos considerastes capaz de perceber a verdade. Esta é a luz que vistes. A humanidade levou séculos incontáveis antes de percebê-la. Nós consideramos o estado atual da nossa espécie sem que saibamos se ela está em seu começo, ou se prestes a alcançar o seu fim, e sem conhecermos seu destino, nada compreendemos do mundo a qual ela pertence (...).[7]

Dessa forma, Cabala e Maçonaria concordam que o sentido de cada vida que vivemos é fornecer o seu “quanta” de luz para a construção da Obra de Deus. E por essa razão poderemos viver várias vidas. Nasceremos e morreremos tantas vezes quantas forem necessárias para a complementação dessa obra. Por isso Jesus disse: “Assim deixai a vossa luz resplandecer diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.” [8]
Pois não é com asas que se sobe aos céus, mas com as mãos. Pela simples e singela razão contida nessa metáfora, os maçons adotaram a profissão do pedreiro como símbolo da sua Arte.

[1] O Cavaleiro do Arco Real- pgs. 14 -15 REAA
[2] As Constituições, citado, pg 12.
[3] O Fenômeno Humano, citado, pg. 94.
[4] Idem, pg. 95-Imagem de Teilhard de Chardin. Fonte Enciclopédia Barsa
[5] Jostein Garner. O Mundo de Sofia, Companhia das Letras, São Paulo, 1995. Na imagem, o filósofo Plotino.
[6] Nihilismo é a doutrina filosófica que coloca o questionamento do sentido da vida perante um universo que parece ser indiferente á tudo que nos acontece. É uma atitude de pessimismo e ceticismo perante a possibilidade de que a vida tenha aparecido no mundo para cumprir algum propósito. Nega todos os princípios religiosos, políticos e sociais, definindo-os apenas como atitudes dos sentidos, dirigidos para a necessidade de preencher o vazio da existência. Este conceito teve origem na palavra latina nihil, que significa "nada". O principal arauto dessa doutrina foi o filosofo alemão Nietszche. Sartre retomou esse tema nas suas obras “ O Ser e o Nada” e “a Náusea”.
[7] Cf. o ritual Grau 14-REAA pg. 17/18.
[8] Mateus, 5:16.
João Anatalino