sexta-feira, 5 de abril de 2019

A FORMAÇÃO DA PRIMEIRA GRANDE LOJA DE MAÇONS NA ALEMANHA





Irmão Henning A. Klövekorn


Com a difusão do cristianismo por toda a Alemanha e a exigência de que bispos romanos erguessem catedrais, os colégios maçônicos na Alemanha prosperaram. Geralmente designado como Steinmetzen ou Canteiros, estas fraternidades maçônicas levantaram igrejas e catedrais por toda a Europa continental. A sociedade de canteiros tinha dentro de si uma grande variedade de classes e ocupações. Estas incluíam Steinmaurer ou assentadores de pedras, Steinhauer ou cortadores de pedra, bem como Steinmetzen, uma palavra derivada de Stein ou pedra e Metzen, um derivado da palavra Metzel ou entalhador, uma arte mais detalhada e refinada que os cortadores de pedras. A construção de Bauhütten ou Lojas, situadas junto às igrejas em construção, serviu como estúdio de projeto, local de trabalho e quarto de dormir.

Um dos mais antigos registros de Lojas maçônicas se encontra na cidade alemã de Hirschau (agora Hirsau), no atual estado de Baden-Württenberg. As Lojas Maçônicas instituídas na cidade de Hirschau, no final do século 11, trabalhavam sob a ordem beneditina da Alemanha e foram as primeiras a estabelecer o estilo gótico de arquitetura.

Já em 1149, as primeiras Zünftes alemãs ou sindicatos de pedreiros se desenvolveram em Magdeburg, Würzburg, Speyer e Straßburg. Em 1250, a primeira Grande Loja dos Maçons formou-se na cidade de Colônia (Köln), Alemanha. A Grande Loja foi formada como parte do imenso empreendimento para erguer a catedral de Colônia.

O primeiro congresso maçônico ocorreu na cidade de Straßburg, na Alemanha no ano de 1275. Ela foi fundada pelo Grão-Mestre Erwin von Steinbach. Este também foi o primeiro uso registrado do símbolo dos Maçons, o compasso e o esquadro. Embora Straßburg fosse considerada a primeira Grande Loja de seu tempo, outras Grandes Lojas maçônicas já haviam sido fundadas em Viena, Berna e a acima mencionada de Colônia; estas foram chamadas Oberhütten ou Grandes Lojas. Diversos congressos maçônicos foram realizados na cidade de Straßburg, incluindo os anos 1498 e 1563. Nesta época, as primeiras Armas de Maçons, registradas na Alemanha, foram registradas representando quatro compassos, posicionados em torno de um símbolo do sol pagão, e dispostos em forma de suástica ou roda solar ariana. As Armas Maçônicas da Alemanha também exibiam o nome de São João Evangelista, santo padroeiro dos Maçons alemães.

A Oberhütte (Grande Loja) de Colônia, e seu Grão-Mestre, era considerada a cabeça das Lojas maçônicas de toda a Alemanha do norte. O Grão-Mestre da Straßburg, na época uma cidade alemã, era chefe de Lojas Maçônicas de todo sul da Alemanha, Francônia, Baviera, Hesse e as principais áreas da França.

As Grandes Lojas de Maçons na Alemanha recebiam o apoio da Igreja e da Monarquia. O Imperador Maximiliano revisou o congresso maçônico de 1275, em Straßburg e proclamou a sua proteção ao ofício. Entre 1276 e 1281, Rudolf I de Habsburgo, um rei alemão, tornou-se membro da Bauhütte ou Loja de St. Stephan. O Rei Rudolf foi um dos primeiros não-operativos, também chamados membros livres ou especulativos de uma Loja maçônica.

Os estatutos dos Maçons na Europa foram revisados em 1459 pela Assembleia de Ratisbonne (Regensburg), a sede da Dieta Alemã, cuja revisão preliminar tinha ocorrido em Straßburg sete anos antes. As revisões descreviam a exigência de testar Irmãos estrangeiros, antes de sua aceitação nas Lojas, através de um método de saudação estabelecido (aparentemente internacional ou europeu).
A primeira assembleia geral de Maçons na Europa ocorreu no ano de 1535, na cidade de Colônia, na Alemanha. Ali, o bispo de Colônia, Hermann V, reuniu 19 Lojas maçônicas para estabelecer a Carta de Colônia, escrita em latim. As primeiras Grandes Lojas dos Maçons estiveram presentes, o que era costume na época, e incluíam a Grande Loja de Colônia, Straßburg, Viena, Zurique e Magdeburg. A Grande Loja Mãe de Colônia, com o seu grande mestre, era considerada a principal Grande Loja da Europa.

Após a invenção da imprensa, os Maçons (Steinmetzen) da Alemanha, reuniram-se em Ratisbona, em 1464 e imprimiram as primeiras Regras e Estatutos da Fraternidade de Cortadores de Pedra de Straßburg (Ordnung der Steinmetzen). Estes regulamentos foram aprovados e sancionados pelos Imperadores sucessivos, tais como Carlos V e Ferdinando.

O monge alemão Martinho Lutero e seu protesto contra as injustiças e hipocrisias da Igreja Católica, em 1517, deram origem ao protestantismo. Isto liberalizou algumas das Lojas maçônicas da época. A Catedral de Straßburg tornou-se Luterana, em 1525 e muitas outras a seguiram.

Em 1563, os Decretos e Artigos da Fraternidade de Canteiros foram renovados na Loja Mãe, em Straßburg, no dia de S. Miguel. Estes regulamentos demonstram três elos importantes com a Maçonaria moderna. Em primeiro lugar, os Aprendizes eram chamados de “livres”, na conclusão do serviço a seu Mestre, o que, sem dúvida, é a origem da palavra Freemason ou “Franco-Maçom”. Em segundo lugar, a natureza fraternal da Loja era retratada em uma série de regulamentações, tais como o atendimento aos doentes, ou a prática de ensinar um Irmão sem cobrar, nos termos do artigo 14. Em terceiro lugar, os Maçons utilizavam um aperto de mão secreto como meio de identificação.

Dois artigos do regulamento indicando estes pontos são:

“Nenhum Mestre ensinará um Companheiro por dinheiro.

XIV. E nenhum artesão ou Mestre aceitará dinheiro de um colega para mostrar ou ensinar-lhe qualquer coisa relacionada com Maçonaria. Da mesma forma, nenhum Vigilante ou Companheiro mostrará ou instruirá qualquer um por dinheiro a talhar, conforme dito acima. Se, no entanto, alguém desejar instruir ou ensinar outro, ele pode muito bem fazê-lo, uma mão lavando a outra, ou por companheirismo, ou para assim servir ao seu Mestre.

LIV. Em primeiro lugar, cada Aprendiz, quando tiver servido o seu tempo, e for declarado livre, prometerá à Ordem, pela verdade e sua honra, ao invés de juramento, sob pena de perder o seu direito à prática da Maçonaria, que ele não divulgará ou comunicará o aperto de mão e a saudação de pedreiro a ninguém, exceto àquele a quem ele pode justamente comunicá-las, e também que ele não escreverá coisa alguma sobre isso”.

As regras de Straßburg estipulavam que a entrada na Fraternidade era por livre vontade e indicava claramente os três graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, na Fraternidade Maçônica alemã. Elas exigiram que se fizesse um juramento e que os pedreiros se reunissem em grupos chamados ‘Kappitel’ (Capítulo). As regras instruíam os Maçons não ensinar Maçonaria a não-Maçons.

Está claro que as Lojas ou Grandes Lojas Maçônicas alemãs existiam antes da formação da Grande Loja de Inglaterra, em 1717. Assim como o uso de apertos de mão secretos, o uso do termo “livre” e sua aceitação de não-operativos. O uso de alegoria e simbolismo em camadas, que torna exclusivo o sistema maçônico fraternal, também era evidente nas Lojas alemãs da época, conforme mostrado nas esculturas de pedra e estilos arquitetônicos das igrejas e mosteiros que eles construíram.
Tradução: Mestre Instalado José Antonio de Souza Filardo 




terça-feira, 19 de março de 2019


TRAÇADO E IMPLEMENTAÇÃO DO QUADRO DE LOJA NO R.E.A.A

O Quadro de Loja sobre a Prancha de Traçar

Um dos símbolos que tem verdadeira preponderância nas pesquisas sobre o Grau de Aprendiz Maçom no Rito Escocês Antigo e Aceite é sem dúvida o Quadro de Loja.

Existem algumas teorias interessantes sobre as origens dos Quadros de Loja, conhecidos em inglês como Tracing Boards e em francês como Tableaux de Loge. O I∴ Francês Roger Dachez, reconhecido por sua pesquisa a nível acadêmico sobre a Maçonaria, no seu trabalho de pesquisa chamado “Tracer le Tableau de Loge?” (Traçar o Quadro de Loja?) diz-nos que “a sua verdadeira origem é muito difícil de determinar como o é de muitos dos símbolos maçônicos, já que as referências mais abundantes em relação a esta iconografia, aparecem em meados e finais dos anos de 1730 e inícios de 1740, sendo estes desconhecidos e inexistentes nos textos Normativos, Divulgativos, Regulamentares e Catecismos Escoceses entre 1696 e 1715“.

Do ponto de vista operativo, pretende-se que a Quadro de Loja seja a evolução moderna das Tabelas, Cavaletes ou suportes medievais nos quais o Mestre da Obra trabalhava os seus planos de construção. Por outro lado, o I∴ R. Meekren, no volume de A.Q.C. nº. 61 escrito em 1948, apresenta uma teoria mais interessante sobre as origens dos Quadros de Loja:

“Se tomarmos a tradição insistente e universal entre os maçons de que as Lojas – em algum tempo vago no passado longínquo – se formavam ao ar livre, no alto de uma montanha ou em algum vale profundo (…) o traçado que delimitava o espaço daquela reunião ao ar livre, poderia ter sido convertido na forma da Loja, no Quadro de Loja“.

O que sabemos com certeza é que a partir de 1740 em França e em Inglaterra, a documentação sobre o Quadro de Loja é abundante, extensa e sobretudo diferente em cada Rito.

O traçado do Quadro de Loja é e tem sido, uma tradição fundamental que tem as suas origens desde os Antigos Maçons Operativos. A prerrogativa era exclusiva para os Mestres, que faziam os traços do Plano do Trabalho, com giz, carvão ou gesso no chão e posteriormente em Placas de Ardósia ou Cavaletes, com o objectivo de que as tarefas na Obra fossem corretamente expressas numa Matriz da Loja Primitiva ou Celestial.

O traçado do Quadro de Loja constitui um elemento indispensável para a Abertura e o desenvolvimento ritualístico dos trabalhos do R∴ E∴ A∴ A∴, já que a sua presença estabelece o Influxus Spiritualis (Influência Espiritual) dos símbolos da Ars Regia (Arte Real), Ars Tectônic (Arte Tectônica) e Ars Sacerdotalis (Arte Sacerdotal) aí expressa; definindo o Spatium Sacrum (Espaço Sagrado) através do Logos (Verbo Manifesto) da Architecturae Sacrae (Arquitectura Sagrada), despertando nos irmãos se reuniram, a ideia do Simbolismo Construtivo do Ser Humano numa linguagem encriptada (criptografia).

O traçado do Quadro de Loja renova e recorda o simbolismo fundamental referente à instrução no Caminho Iniciático para cada um dos Três Graus Azuis ou “Simbólicos”.

A sua localização central na Loja, exibe os principais símbolos devem decorar a Loja nos Graus de Aprendiz, Companheiro e até na Câmara do Meio dos Mestres Maçons.

O I∴ Experto dobra-se sobre o joelho direito e com um giz branco, faz os traços que correspondem a cada Grau, no fundo negro da Prancha de Traçar.

Quadro de Loja no Grau de Aprendiz, no R∴ E∴ A∴ A∴

Analogamente ao traçado do Quadro de Loja da Maçonaria de Tradição Operacional, existe o uso de gravuras em tecido e tabelas ou placas de loja impressas, que são utilizáveis ​​na Tradição 

Especulativa. Segundo o I∴ Yasha Beresiner nas suas Masonic Tracing Boards (Pranchas de Traçar Maçônicas), as primeiras oito e mais importantes gravuras conhecidas, são assinadas pelo alemão Reigens, cujo nome aparece no topo delas e que foram publicadas pela primeira vez em 1746. Estas foram atribuídas erradamente na Assemblée de Nouveaux Franc-maçons (Nova Assembleia de Franco-maçons) ao autor francês anti maçom Louis Travenol, que era mais conhecido pelo pseudônimo Leonard Gabanon. Estas gravuras são as primeiras representações artísticas disponíveis que mostram a posição do Modelo Ideal do Templo Maçônico no centro dele. Neles, os irmãos são mostrados com aventais e chapéus, em pé e em volta de uma tela decorada com numerosos símbolos maçônicos.

Estas ilustrações artísticas geralmente explicam os aspectos de nossos Rituais, que não foram preservados por palavras escritas, mas sim transmitidos oralmente, graficamente e directamente. Muitos dos primeiros desenhos gravados em tela ou na Prancha de Traçar eram sempre feitos pelo Tiler ou Tyler. A palavra ladrilhador vem do francês tailleur “cortador” e, consequentemente, é chamado Tuilleur em francês e Tyler ou Tiler em inglês. Em latim tegere “telhador”, significa na Loja de Arte Operativa; o Irmão artesão que cobre com telhas e fecha a construção, escondendo o interior e sendo o guardião dele. É na Maçonaria Especulativa, o que conhecemos como o Irmão Cobridor, Guarda Interno ou Guardião do Templo.

Na implementação do Quadro de Loja, o próprio irmão Beresiner da Loja de Pesquisa A.Q.C. 20176 de Londres diz:

“Os primitivos desenhos no piso feitos pelo Tyler (G∴ T∴) deixavam muito a desejar. Entre a má qualidade dos símbolos utilizados, e a confiança no talento e dedicação do Tyler (G∴ T∴), os Irmãos contemporâneos começaram a temer que estranhos pudessem reconstruir os detalhes dos desenhos apagados. Isto levou aos primeiros traçados em tecido com a delimitação de desenhos de símbolos e emblemas”.

Em 1725 um divulgação anónima Maçónica intitulada “Diálogo entre Simon e Felipe”, refere-se ao uso Quadros de Loja desenhadas com materiais diferentes do pano: os desenhos no solo são descritos como “emblemas de prata ou estanho muito fino localizado na posição da Loja”. Daí a ideia de usar no chão, tecidos mais duráveis, em vez de desenhos simples no chão ou gravações em estanho. Agora, os emblemas eram permanentemente fabricados com mais arte do que a que Tyler (G .: T∴) poderia ter conseguido. Em cada reunião, o Quadro de Loja estampado em tecido sobre o chão, era desenrolada diante do Venerável Mestre, que no final o guardava.

Várias dissertações foram ilustradas com pinturas francesas, que mostram o plano do Templo da Loja, que muitas vezes são decorados com uma infinidade de emblemas e símbolos. Estas gravuras em tecido derivam das práticas enquanto Usos e Costumes das Lojas Francesas do momento, além de serem a fonte das Pinturas que se seguiram depois, em evolução..

CONCLUSÕES

Durante o Rito da Abertura dos Trabalhos, o Irmão Experto traça ou estende no centro do Templo o chamado ” Quadro de Loja “, bem no meio do tapete quadrangular do Pavimento de Mosaicos de proporções 3-4-5 e delimitada pelos Três Pilares do Templo (as Três Luzes Menores) Sabedoria, Força e Beleza. Por sua vez, o Encerramento dos Trabalhos ocorre instantes após o Quadro de Loja ser apagado ou recolhido.

O acto ritualístico de desenho ou colocação do Quadro de Loja constitui essencialmente a sacralização do Templo, no Ritual de cada um dos Graus Azuis chamado “Simbólico”. Constitui o terceiro plano; o material, a ser executado e o primeiro a ser removido.

O Quadro de Loja também é conhecido como a Prancha de Traçar, quando o irmão Experto que é um Mestre Maçom, desenha os elementos simbólicos de estudo e investigação do simbolismo essencial para cada grau.

O Quadro de Loja inclui uma síntese visual de formas geométricas que impregna a memória do Maçon, o que faz com que o processo de reconhecimento dos elementos simbólicos seja cada vez mais eficaz.

O ensino Iniciático inclui o conjunto de símbolos que englobados num Espaço Sacralizado, forme uma verdadeira transmissão de uma Influência Espiritual; Recordando que cada símbolo dentro deste grande emblema tem um duplo aspecto de instrução, Moral e Espiritual.

Frater Levithian
Bibliografia
Rituales Tradicionales Formulados de los Grados Azules del R∴ E∴ A∴ A∴
Yasha Beresiner, Masonic Tracing Boards, Trabajo de la Logia de investigaciones Ars Quatur Coronati 2076 de Londres.
Dachez, Roger. Investigación (tableau de loge) “Tracer le tableau de loge?”. Blog: http://pierresvivantes.hautetfort.com/

segunda-feira, 18 de março de 2019

POR QUE O GADU É SEMPRE REPRESENTADO COM UM COMPASSO? VOCÊ SABIA?


Tradução J. Filardo

por Hervé HOINT-LECOQ


As instruções em perguntas e respostas são prolíficas sobre o uso do compasso na Maçonaria. A origem deste uso é dita bíblica e muitas ilustrações medievais a atestam. Mas por que o GADU é então representado com um compasso?

Então, todos nós temos em mente essas ilustrações de Deus, geômetra, posando com um compasso para traçar o mundo. Esta imagem vem de uma tradição iconográfica que remonta ao século XIII, graças a uma suposta encomenda da mãe de Saint Louis* de várias Bíblias ilustradas para a Rainha Blanche de Castela (conhecida como a Bíblia de Viena, codex 2554 alto à esquerda) e seu marido Luís VIII (a chamada Bíblia moralizada de Viena – codex 1179 no alto à direita), para Marguerite de Provence (Manuscrito de Toledo, canto inferior esquerdo) e Saint Louis (conhecida como Bíblia OPL – Oxford Paris Londres por causa de sua dispersão entre essas cidades – canto inferior direito).

Sobre essas representações das chamadas bíblias “moralizadas” (uma expressão que data do primeiro quartel do século XV para descrever as ilustrações comentadas de passagens do Antigo Testamento), podemos assim ver Deus o Criador em seu trono, sob jovens traços, o associando a Jesus, com o compasso sobre o cosmos, em uma moldura com quatro lobos apoiados por quatro anjos.

Para entender a razão, precisamos voltar à Bíblia, precisamente em Provérbios 8, tratando da sabedoria e, mais precisamente, Provérbios 8.25 a 31: “Antes que as montanhas fossem estabelecidas, Antes que as colinas existissem, eu nasci; Não havia ainda feito nem a terra, nem o campo, Nem o primeiro átomo da poeira do mundo. Quando ele organizou os céus, eu estava lá; Quando ele desenhou um círculo na superfície do abismo, Quando ele fixou para as nuvens acima, E as fontes das profundezas jorraram com força, Quando Ele deu um limite ao mar, Para que as águas não transbordassem, Quando eu coloquei as fundações da terra, eu estava trabalhando com ele, e eu fazia diariamente suas delícias, brincando constantemente em sua presença, brincando sobre o globo de sua terra e encontrando a minha felicidade entre os filhos do homem.”

Entendemos então por que, nessas primeiras representações, Deus não é o velho de cabelos grisalhos que agora imaginamos (visto que ele é à imagem dos homens que manuseiam o instrumento), mas também por que essa ferramenta de Geômetra sempre revestida nos operativos, como mais tarde entre os especulativos de tal importância: este círculo traçado sobre o abismo, portanto, coloca o compasso como a primeira ferramenta da Criação. Justificando assim seu lugar no Volume da Lei Sagrada.

sábado, 16 de março de 2019



UMA INICIAÇÃO NO PARAÍSO PERDIDO - OS FRANCO-JARDINEIROS

Tradução J. Filardo



Muitas vezes se sublinha com razão quanto a Maçonaria e seus costumes estão relacionados à cultura social britânica. Assim, a forma de uma Loja recorda a organização em duas “colunas” do Parlamento Britânico. No início do século XVIII, a Maçonaria Moderna apareceu em meio a muitos outros clubes, associações e círculos com os quais compartilha mais de um uso. No século XIX, esse modo tipicamente britânico de “estar juntos” também florescerá nas “sociedades amistosas”: Foresters, Búfalos, Sheperds, Oddfellows… Ao desenvolver lendas e simbolismos específicos, essas “sociedades fraternais” emprestam muito à Maçonaria. Uma delas, no entanto, distingue-se pela sua idade e pelo seu carácter muito particular: os Jardineiros Livres (os Franco-Jardineiros)

A primeira característica da sociedade dos franco-jardineiros é a sua antiguidade, pois a primeira evidência de sua existência remonta ao século XVII … na Escócia! Seus inícios são portanto quase contemporâneos aos da Maçonaria e suas raízes mergulham no mesmo solo. O registro da “Fraternidade de jardineiros de East-Lothian” abre no dia 16 de agosto de 1676 por um regulamento em quinze artigos. A Fraternidade conduz seus trabalhos no honrado bairro real de Haddington, a cerca de trinta quilômetros a leste de Edimburgo. Em 1677, ela já tem sessenta e seis membros.

Seus primeiros membros são menos jardineiros profissionais do que pequenos proprietários de terra, notáveis do campo e da pequena nobreza local, em termos mais familiares os “Aceitos”. É uma época em que o gosto pela arquitetura renascentista leva a um interesse constante pela arte do jardim. Interesse demonstrado pelo livro de John Reid (1655-1723), The Scot Gard’ners (Os jardineiros escoceses), publicado em 1783. As primeiras atas contêm principalmente apelos à importância da “Caixa [de solidariedade]” e a assiduidade dos membros. Mas também há injunções para a melhoria moral e a honra dos franco-jardineiros. A segunda “loja” de franco-jardineiros, cujos arquivos deixaram traços, se abre em 1715, em Dunfermline, cerca de vinte quilômetros ao norte de Edimburgo, do outro lado do estuário de Forth.

No final do século XVIII, havia também franco-jardineiros em Bothwell, Cambusnethan e Arbroath. O sucesso da maçonaria atraiu os notáveis e os franco-jardineiros eram encontrados especialmente entre jardineiros, profissionais e amadores esclarecidos. Eles organizavam trocas de sementes e de estacas e estarão na origem das primeiras exposições florais.
Se nada se sabe sobre o ritual dos francos-jardineiros no século XVII, a existência dele é atestada já em 1726. No século XVIII, as atas indicam que os candidatos foram “devidamente admitidos e recebidos membros da Fraternidade, tendo recebido a palavra e segredo”. Originalmente, parece haver apenas um grau, mas posteriormente, sob a influência da Maçonaria, a Ordem tem três graus: aprendiz, companheiro (jornaleiro) e mestre. Seu emblema é … o esquadro e o compasso sobre os quais se coloca a “faca de enxerto”.

Os únicos rituais que chegaram até nós são os da década de 1930, que, no entanto, podemos pensar que, se foram enriquecidos e desenvolvidos, fazem parte da continuidade dos usos anteriores. De um modo muito natural, em um contexto britânico e protestante, os rituais tomam emprestada a maior parte de seu material da Bíblia. Esta apresenta vários jardins que fornecem as referências das cerimônias. Começando com o paraíso terrestre criado pelo “Grande Jardineiro do Universo”: “Yahweh plantou um jardim no Éden” e “Yahweh tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para cultivá-lo e mantê-lo” (Gênesis II-8 e II-15). Depois do dilúvio, “Noé começou a cultivar a terra e plantou videiras” (Gênesis, IX-20). Antes de sua prisão, Jesus orou no jardim do Getsêmani (Mateus, xxvi-36).

Mas, a partir de 1800, os franco-jardineiros orientarão principalmente suas atividades em direção à solidariedade e gradualmente se transformarão em uma sociedade de ajuda mútua. No século XIX, profundamente transformada, essa versão mutualista de franco-jardineiros encontra um grande sucesso. Centenas de lojas serão criadas em todo o Império Britânico. No entanto, a partir da década de 1950, a ascensão do estado de bem-estar removeu o objetivo principal das “sociedades amistosas” e as lojas de franco-jardineiros passarão por um declínio irreversível. No final do século XX, restavam apenas três lojas: Bristol, no Caribe e na Austrália! Suficiente, no entanto, para que a continuidade seja assegurada no momento em que essa fraternidade singular desperta um interesse renovado.

Para ir mais longe: Robert LD Cooper, Os Franco-jardineiros, introdução às origens e história de uma Ordem desconhecida, Éditions Ivoire-Clair, Bagnolet, 2000, 124 p.

UM TEMPLO PARA NÃO DEIXAR NENHUM MAÇOM DE FORA!

Por Jean-Michel Mathonieère
Tradução J. Filardo

Desde o século XVIII coexistiram na França duas instituições que são frequentemente confundidas: A Maçonaria e o Companheirismo (Compagnonage). Assemelhavam-se mas não se misturavam.

Se alguém pode notar traços da influência maçônica sobre as compagnonnages desde o século XVIII, é, de toda forma, depois de 1789 que este fenômeno assumirá uma escala que aumentará durante as primeiras décadas do século XIX. As razões para isso são muitas, no mais das vezes passivas – a maçonaria oferecendo em relação a todos por suas divulgações de modelos fascinantes de ritos, lendas e iconografia simbólica – às vezes ativas – maçons, sejam eles companheiros ou não, desejam ardentemente trazer mais luz aos obreiros. 
A criação da União Compagnonnique em 1889 marca o ponto culminante dessa influência sobre as Compagnonages. Resultante das ideias pacifistas propagadas por Agricol Perdiguier e da fusão de sociedades de benefícios mútuos, especialmente de origem em Lyon, esta sociedade reunia companheiros pertencentes às três antigas famílias rituais: “filhos” de Mestre Jacques, do Pe. Soubise e de Salomão, cujas lutas muitas vezes sangrentas explodiam frequentemente nas estradas do Tour de France. Para afastar os ressentimentos antigos entre os ritos a reunir, os fundadores, muitos dos quais são os mais influentes também são maçons (este é particularmente o caso de Lucien Blanc, o primeiro presidente da UC), optam por um ritual único em que eles desejavam “trazer de volta a compagnonage aos seus verdadeiros princípios tradicionais, e restaurar as verdadeiras e importantes iniciações em sua antiga e respeitável pureza.” Este ritual de recepção tem como objetivo “trazer de volta a nossa sublime e bela instituição à via de onde ela nunca deveria ter se desviado, fazendo de todos os artesãos uma verdadeira família de irmãos que, de mãos dadas, caminharão daqui em diante, pelo caminho do progresso para a conquista de um destino melhor, ajudando a sociedade ao desenvolvimento da civilização”. Sua leitura mostra que este é um decalque quase idêntico ao ritual do aprendiz maçom.
Esse tipo de empréstimo não era novo, no entanto: alguns companheiros haviam copiado páginas inteiras de rituais maçônicos no início do século XIX. Isso é o que permitirá que essa reforma se imponha facilmente, porque não apresentou uma ruptura maior em relação aos rituais praticados nas últimas décadas, pelo menos nos filhos de Mestre Jacques e os de Salomão. Além disso, ao fazê-lo, antecipando uma ideia comum hoje em dia, os pioneiros da UC imaginam que estão apenas restaurando os rituais de companheirismo que a Maçonaria de alguma forma se apoderou ilegalmente, via aceitação de burgueses nas lojas operativas britânicas.
Entre os testemunhos mais passivos dessa influência maçônica sobre a jovem União Compagnonnique, optei por ilustrar uma litografia intitulada “O templo dos Companheiros”, publicada em 1889 por um dos fundadores daquela sociedade, Alphonse Fardin (1859- 1929), vulgo Normand, o Bem-Amado do Tour de France. Recebido companheiro sapateiro do Dever em 1876 em Bordeaux, Fardin é o delegado dos companheiros sapateiros du Devoir durante o congresso da Federação Compagnonnique de todos os Deveres reunida em 1889, durante a qual ela será transformada na União Compagnonnique (é certamente para esta ocasião que ele editou esta litografia). Poeta e cancioneiro, publicou também, entre outras obras, uma coletânea de canções, romances e poemas dos companheiros intitulada O Conciliador (Paris, editora Veuve Vert, 1893), onde ele proclama, em seu prefácio, que “unidos, seremos fortes e invencíveis”, enquanto promete trabalhar até seu último suspiro pela prosperidade da União Compagnônica.
Se desde Avignonnais la Vertu (Perdiguier), apoiada por Vendôme la Clef des Coeurs (Piron) e Joli-Coeur de Salernes (Escolle), as canções dos companheiros constituem a ponta de lança dos companheiros pacifistas para semear e ancorar nas mentes facilmente aquecidas por sentimentos mais fraternos, a imagem do companheiro não é deixada de fora, graças principalmente ao desenvolvimento da litografia que permite a reprodução rápida e econômica de desenhos. Fardin assume, assim, de certa forma, a sucessão editorial e militante de Agricol Perdiguier, falecido em 1875, publicando canções e essa litografia.

Além da referência aos três fundadores dos Deveres, representados unidos no centro do frontão, este templo finalmente tem como companheirista apenas seu título e os textos, criptografados ou não, que vêm ocupar cada superfície disponível, incluindo a lista de todas as cidades onde as sociedades de companheirismo da época estão presentes. Para o resto, pelo seu estilo geral, sua arquitetura imponente, seu vasto pavimento de mosaico e seus detalhes simbólicos, é totalmente de inspiração maçônica. Uma vez mais, o fenômeno não é novo: a partir do início do século XIX, as duas colunas J e B, bem como o frontão estão amplamente presentes nas imagens dos companheiros. Mas é, no entanto, a primeira vez, me parece, que a impressão propriamente companheira é tão fraca. Adolphe Fardin nos legou um templo para não deixar um maçom do lado de fora! Em todo caso, não demorará muito para que a União Compagnonnique aceite em seu seio o ofício de pedreiro-construtor, que os companheiros talhadores de pedra das antigas sociedades sempre se recusaram a admitir no Dever.

Para ir mais longe
Jean-Michel Mathonière, Interferência entre especulativos e operativos franceses nos séculos XVIII e XIX, SFERE (Sociedade Francesa de Estudos e Pesquisas sobre o Escossismo), volume XIV (seminário de 26 de novembro de 2016).

Publicado na revista FM-Franc Maçonnerie


CHRISTOPHER WREM. CONTROVÉRSIAS SOBRE SUA PARTICIPAÇÃO NA MAÇONARIA



Extraído do blog O Prumo de Hiran (Luciano Rodrigues)

A medida que a pesquisa histórica sobre a maçonaria avança, levantamos dúvidas antigas sobre temas que já nos pareciam consolidados, afinal quanto mais informações, mais questionamentos e quanto maior a rigorosidade do método de pesquisa, mais nos é exigido a comprovação de fatos. Para que sejam criadas as histórias e formar uma “linha do tempo”, trabalhar com o material que temos acesso, formatando assim um cenário plausível.

Todo maçom que já estudou o início da maçonaria “especulativa” na Inglaterra, já ouviu falar do famoso arquiteto chamado Christopher Wren e do seu trabalho após o grande incêndio de Londres em 1666. A sua participação na maçonaria já foi contada e escrita por diversos autores, como um maçom operativo que participou deste período de transição e/ou evolução para a especulativa.

O motivador do texto a seguir é a dúvida sobre a real participação de Christopher Wren na maçonaria. Neste intuito, analisaremos alguns documentos antigos no que tange ao famoso arquiteto.

Quem foi Christopher Wren?

Sir Christopher Wren é, sem dúvida, o arquiteto mais célebre da Inglaterra; para os maçons, há muito tempo atrás, também se diz que ele era um irmão.


Os contemporâneos afirmaram claramente que ele havia se tornado um maçom e, no entanto, muitos escritores consideram isso pouco mais que uma fábula.

Contudo, as evidências revelam que há um erro fatal na forma como os historiadores abordam a história das origens do Ofício, e apresenta o relato da participação pretendida por Wren sob uma nova perspectiva.

Após o Grande Incêndio de Londres, em 1666, a cidade foi reconstruída pela primeira vez em pedra, e por toda uma geração, Londres parecia ser o quintal dos construtores.

Além de cinquenta e uma novas igrejas, o matemático e astrônomo Sir Christopher Wren, também foi contratado para projetar uma nova catedral para substituir aquela catedral medieval destruída pelo fogo.

Em 1675, após uma série de rejeições repentinas, seu projeto recebeu aprovação real e a pedra fundamental foi colocada, iniciando a construção.

A catedral levou cerca de trinta e cinco anos para ser concluída e, com o avanço do trabalho, o antiquário John Aubrey, registrou em seu diário que em 18 de Maio de 1691, Wren foi feito um Maçom.

“Naquele dia … … uma grande convenção na Igreja de São Paulo da Fraternidade de Maçons Aceitos, onde o Sr. Christopher Wren foi adotado como irmão …”

A declaração de Aubrey foi posteriormente copiada para os registros da Royal Society, da qual Wren era membro fundador (presidente de 1680 a 1682); Wren não fez objeção a essa história.

John Evelyn registrou uma história semelhante e após a morte de Wren em 1723, vários jornais se referiram a ele como “aquele digno maçom”.

Mais tarde, seu neto escreveu que “quando o filho de Sir Christopher Wren colocou a última pedra da lanterna (1) em 1708, foi … na presença de um excelente artesão, Sr. Strong, seu filho e outros Maçons Livres e Aceitos que foram empregados na execução da obra”.

Significativamente, o filho Christopher Wren, também chamado Christopher, é conhecido por pertencer à Old St.Paul´s Lodge e de ter sido o Mestre da loja em 1729.

A partir de 1691, aquela loja reuniu-se na taverna “O Ganso e a Grelha”, onde a primeira Grande Loja foi formada em 1717, de acordo com James Anderson.

O “excelente artesão” a que ele se refere era o mais antigo pedreiro de Oxforshire, Edgard Strong, um empreiteiro muito importante no trabalho da catedral. Edgard Strong pertenceu a uma loja “Livre e Aceita” que se reunia na taverna “The Swan” (O cisne) em East Street, Greenwich.

Claramente, a chave para entender nossas origens aparece nas palavras “Livre e Aceito”. Deve-se notar que uma falsa distinção foi feita, consagrada em nossos rituais, entre maçons operativos e especulativos; no século XVII o termo “especulativo” nunca foi usado, o termo foi mencionado pela primeira vez em 1755 e se referia a pedreiros “livres e aceitos”.

O que exatamente essas palavras significam?

Maçons Livres e Aceitos

O termo freemason emergiu no final do século XIV, na Inglaterra, como corrupção de “freestone masons”, e desde então há vestígios da “irmandade” ou “Company of Masons” (Companhia dos maçons).

Em 1654 eles mudaram seu nome para “London Company of Masons” por razões que não são claras. No entanto, os artesãos continuaram individualmente usando o termo “freemason” no século XVIII.

O termo Aceito, no entanto, é o mais difícil de ser situado.

Havia três formas de admissão para todas as empresas de Londres; servidão, patrimônio e redenção. A servidão era garantida após o aprendizado; patrimônio significa que alguém poderia se juntar a um membro da família; e a redenção denota que a associação foi obtida comprando-a.

Curiosamente, a única Companhia que tinha uma categoria adicional de membros era a Companhia dos Maçons, e isso foi chamado de “Aceitação”.

Entre 1630 e 1677, os registros da Companhia identificam 13 nomes daqueles “aceitos”, todos eles artesãos experientes. Um em particular, Nicholas Stone foi Mestre da Companhia duas vezes e foi o Mestre Maçom do Rei na época em que foi aceito.

Depois de 1677, não há menção dessa prática misteriosa nos registros da Companhia.

Cinco anos depois, o antiquário Elias Ashmole registrou uma relação sedutora em seu diário. Ele escreveu que, em 10 de março de 1682, recebeu uma convocação para comparecer a loja no dia seguinte, no Masons Hall, em Londres, sede da Companhia dos Maçons.

“ … Eu fui e foram admitidos à Sociedade de Maçons, Sir William Wilson, Capitão Borthwick, Sr. William Woodman, o Sr. William Gray, Sr. Samuell Taylour & Sr. William Wise. Eu era o Companheiro mais antigo entre eles (35 anos desde que fui admitido). Os próximos Companheiros nomeados estavam presentes ao meu lado. Sr. Thomas, Sr. Shorthose, Sr. Rhomas Shadbolt Esquire de Waindsford, Sr. Willian Stanton. Nós jantamos na Taverna Media Luna em Cheapside, em um Jantar Nobre preparado a cargo dos Novos Maçons Aceitos”.

Ashmole aqui refere-se a uma “loggia” da “Irmandade de maçons” ou “de Maçons Aceitos”, a que pertencia há trinta e cinco anos.

Isso se refere claramente à sua própria iniciação em Warrington, em outubro de 1646, e indica que as duas lojas pertenciam à mesma irmandade, as evidências sugerem que a loja de Warrington também fazia parte dos “Aceitos”.

Uma análise da história contradiz essa visão e produz resultados fascinantes

Sir William Wilson, um renomado maçom, esculpiu a estátua do rei Carlos II na catedral de Lichfield. Não se sabe muito do capitão Richard Borthwick, mas William Woodman também foi membro da Sociedade dos Maçons e mais tarde pertenceu ao Horn Tavern Lodge em Westminster.

William Gray, Samuell Taylour e William Wise também eram membros da Companhia, o último, filho do Mestre.

Ainda mais revelador é a composição da loja em si: Thomas Wise, Mestre Mason do Rei e Mestre da Sociedade de Londres, acompanhado por John Shorthose e William Stanton, os Vigilantes da Loja neste ano.

Thomas Shorthose era um Past Master que foi “aceito” em 25 de janeiro de 1650 e o resto da loja incluía um Past Master e dois Past Vigilantes. Sabe-se que todos eram maçons operativos que trabalhavam com Sir Christopher Wren.

Uma falha de conhecimento

Essa análise expõe um erro fatal profundamente enraizado na erudição maçônica: é errado dizer que os maçons aceitos não eram artesãos, quando na verdade a “aceitação” parece ter admitido tanto os artesãos altamente qualificados, quanto aos Senhores/nobres, em algum tipo de corpo exclusivo.

Portanto, é altamente provável que Wren não estivesse em contato com essas tradições, mas que os artesãos buscassem ativamente seu patrocínio. Além disso, o Mestre da Companhia dos Maçons em 1691 foi John Thompson, cuja oficina trabalhou para Wren, e que, como o registro do Diário de Ashmole, foi membro da Loja de “Aceitos” nove anos antes.

Embora não se saiba em que consistia a “Aceitação”, é evidente que Ashmole conhecia o termo “pedreiro livre” (freemason) como se referindo aos artesãos.

Em 1672, ele registrou em um livro sobre a Ordem da Jarreteira, como a abóbada do Coro em Windsor foi executada por dois “pedreiros livres” (freemasons) em 1508.

Em uma publicação mais antiga de Elias Ashmole, Theatrum Chemicum Britannicum de 1652, há um relato ainda mais intrigante: o volume de texto alquímico, que incluía o Ordinall de Alchemy, de Thomas Norton, escrito em 1747. Significativamente, Norton tentou dissuadir as pessoas não qualificadas na arte misteriosa da alquimia e cita uma série de profissões artesanais, incluindo os maçons como “os Senhores que amam esta profunda filosofia”.

É impossível conceber que Ashmole não tenha apreciado as implicações do texto: ele havia sido um “maçom” por vários anos e tinha profundo amor pela alquimia.

Com o estabelecimento da ciência moderna, tal como a Royal Society, da qual Wren e Ashmole eram membros fundadores, os aspectos físicos da alquimia começaram a formar a base da química. No entanto, seu foco espiritual na transformação do indivíduo, através de um processo de morte e renascimento simbólico, permanece na obscuridade.

Isso ocorreu apesar do fato de que, em uma reputada Royal Society, cientistas como Robert Fludd e Sir Isaac Newton procuraram incansavelmente o fabuloso elixir, a pedra filosofal, frequentemente descrita como uma Fênix e comparada ao Cristo ressuscitado.

Curiosamente, no topo do lado sul da Catedral de St. Paul há um nicho com uma fênix, simbolizando o renascimento da catedral após a conflagração do fogo.

É talvez revelador que este foi o trabalho de um perito escultor de Wren, Caius Gabriel Cibber (que era filho de um maçom) e herdou sua oficina do maçom Nicholas Stone, que havia sido admitido pelos Aceitos em 1638.

Então, se lembrarmos que as cerimônias maçônicas mais antigas são datadas antes da pretensa iniciação de Wren e que esses ritos foram centrados em noções veladas de morte e renascimento, teremos dado um passo à frente para entender as origens e o significado de nossa Arte.

Royal Society

A busca nos arquivos da Royal Society lançou novas informações em relação à alegação de que Sir Christopher Wren havia sido iniciado na Maçonaria em Londres em 8 de maio de 1691.

Tal afirmação é apoiada por uma nota manuscrita, acrescentada ao manuscrito de John Aubrey, “Naturall Historic of Wiltshite”, de 1685, agora mantido pela Biblioteca Bodleiana de Oxford. O manuscrito tem duas partes, arquivado como MS. Aubrey 1 e MS. Aubrey 2

Na segunda parte há um breve relato da Maçonaria:

“Sir William Dugdale me disse há muitos anos, que na terceira parte da época de Henrique (o rei), o Papa deu uma Bula ou diploma (escrito em cima, uma patente) a uma companhia de arquitetos italianos (escrito acima, Maçons) para viajar por toda a Europa para construir igrejas, o que levou à Fraternidade dos Maçons (escrito acima, maçons aceitos).

Eles agora são uns e outros por certos sinais e marcas e palavras de reconhecimento: e continuam até hoje. Eles têm várias lojas em vários países para sua recepção: e quando um deles cai em desgraça, a irmandade o ajuda. O modo de sua adoção é muito formal e com uma promessa de sigilo”.

A página à esquerda dessa relação foi deixada em branco e sobre ela, em algum momento posterior, três notas foram adicionadas a mão por Aubrey.

Uma dessas notas diz respeito à Maçonaria e pode ser lida:

“Memorando, neste dia (18 maio de 1691), sendo segunda-feira após domingo de Rogativas houve uma grande convenção da Fraternidade de maçons aceitos na Igreja de St. Paul onde Sir Christopher Wren foi adotado como um irmão, e Sir Henry Goodric … De la Torre e outros & houveram reis que pertenceram a esta Sociedade”.

John Hamill, em 1986, em seu livro “The Craft” foi mais cauteloso, concluindo que a possibilidade existia, mas que “não foi comprovado”.

Como pode ser visto, o texto pode ser adaptado a diferentes graus de veracidade. Para entendê-lo, é necessário rever a história do manuscrito de John Autrey.

O manuscrito de John Aubrey

John Aubrey (1626-97) foi um dos membros fundadores da Royal Society e aparece registrado na lista de Fellows (Companheiros) em 20 de maio de 1663.

Em 1685, ele escreveu seu “Naturall Historic of Wiltshire”, nunca publicado, mas preservado como um manuscrito. Sem dúvidas, a Royal Society que admirava seu trabalho, e considerando o valor que teria para os seus membros, ordenou que se fizera uma cópia e fosse guardada nos arquivos da sociedade para que os membros não precisassem viajar para Oxford para consultas.

O Dr. Michael Hunter, em sua biografia de John Autrey, escreveu:

“… Acima de tudo, a Royal Society teve a honra de John Aubrey transcrever seu Naturall Historic of Wiltshire em 1690-1, em um gesto único e extraordinário para mostrar sua estima, que custou a soma considerável de sete libras” (832,65 libras a preços atuais).

Essa cópia foi feita pelo secretário da Royal Society, Mr. B.G. Cramer que iniciou a tarefa em 1690 e completou em meados de 1691 e é mantido nos arquivos da Royal Society como MISC. MS 92 e consiste em 373 páginas.

Quando Cramer recebeu a ordem de fazer a cópia, Aubrey teve a oportunidade de fazer acréscimos e emendas e supervisionou a inclusão no novo texto.

Isto é indicado por uma breve nota, a mão de Aubrey adicionada à página 124, da segunda parte do manuscrito original: Aubrey escreve, referindo-se a um panfleto impresso em tela ao qual havia sido adicionado:

“Sr. Cramer! Sobre este Tratado em tela, transcreva apenas a apresentação do Grande Júri em Brewton em Somersetshire “.

Quando Aubrey escreveu o manuscrito original, ele usou apenas a primeira metade de cada página, consequentemente, uma página em branco apareceu à esquerda de cada um com o texto à direita.

Portanto, pode-se supor que todas as mudanças feitas para o propósito da nova cópia de Cramer foram incluídas na nova cópia, embora não haja certeza.

Poderíamos dizer que foi assim. Em sua cópia, Cramer incluiu o seguinte no corpo principal do texto:

“Memorando, neste dia (18 maio de 1691), sendo segunda-feira após domingo de Rogativas houve uma grande convenção da Fraternidade de maçons aceitos na Igreja de St. Paul onde Sir Christopher Wren foi adotado como um irmão, e Sir Henry Goodric … De la Torre e outros & houveram reis que pertenceram a esta Sociedade”.

Pode-se aceitar, então, que Aubrey, Wren e a Royal Society concordaram com seu agregado, citando a iniciação de Wren na Maçonaria, e parece razoável aceitar que se trata de uma afirmação verdadeira.

John Aubrey era amigo íntimo de Sir Christopher Wren, ambos pertencentes à Royal Society, Wren foi membro fundador da Royal Society e serviu como seu presidente no período de 1680-2.

Ele permanecia ativo na Sociedade em 1691, a data da cópia de Cramer.

Alguns sugerem que talvez Wren tenha tentado que eles o iniciassem, mas naquele dia era impossível que ele tivesse participado.

No entanto, em 18 de maio de 1691, a data de iniciação e o texto adicional relativo à Maçonaria, Cramer pode ter trabalhado em páginas mais antigas de sua cópia.

Levando em conta que a data está escrita no dia em questão, e que Cramer copiou a página em uma data posterior após os eventos, não houve tempo suficiente para modificar o texto e refletir qualquer variação dos eventos.

Que isso não tenha sido feito, fala de uma boa evidência de que Wren não perdeu sua “adoção”. Em conclusão, uma vez que nenhum desses homens se opôs a essa afirmação, nem a alterou antes de sua cópia, pode-se aceitar que o que realmente aconteceu, aconteceu.

Podemos confiar, então, que Sir Christopher Wren foi iniciado na Maçonaria em 1691.

Devemos agradecer aos bibliotecários e seus assistentes da Biblioteca Bodleiana e da Royal Society por sua ajuda em disponibilizar este manuscrito para nós.

VISTA INTERNA DA CATEDRAL DE ST. PAUL EM LONDRES

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1.Lanterna é uma pequena torre com janelas, normalmente circulares, que está localizada no topo de alguns edifícios, geralmente terminando em um telhado ou cúpula, para fornecer luz e, às vezes, ventilação.
2. Rogativas – Procissão pública para implorar a Deus a cura de uma grave necessidade.

Bibliografia

– Bernard Williamson & Michael Baigent. Sir Christopher Wren e a Maçonaria: Novas Evidencias, Ars Quatuor Coronatorum, 109 (1996).

– Diário de Elias Ashmole, 1682.

– John Hamill & R. A. Gilbert, Freemasonry, A Celebration of the Craft (1992).

– Elias Ashmole, Institutions, Laws and Ceremonies, of the Most Noble Order of the Garter (1672)

– Elias Ashmole, Theatrum Chemicum Britannicum (1652).

– Matthew Scanlan, Nova luz sobre Sir Christopher Wren (2001).

Luciano Rodrigues e Rodrigues

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sexta-feira, 8 de março de 2019


QUAL É A ARTE DA ARTE REAL





                                                                                     "Liberdade vai buscando, que é tão querida
                                                                                     como sabe quem por ela rechaça a vida.
                                                                                         Dante, Purgatório. I, 71-72. [1]"

Segundo os antigos rituais e as antigas Constituições maçônicas, a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento do homem.

Os antigos mistérios clássicos não tinham outro objeto e conferiam a télétê, perfeição iniciática. Este termo técnico estava vinculado etimologicamente aos três sentidos de fim, morte e perfeição, como já observa o pitagórico Plutarco. Jesus utiliza também a palavra téleios quando exorta seus discípulos a serem “perfeitos como vosso Pai que está nos céus”, inclusive se, por uma dessas frequentes incongruências das Santas Escrituras, afirma que “ninguém é perfeito exceto meu Pai que está nos céus”.

Essa definição poderia parecer explícita e precisa; e, não obstante, uma ligeira mudança formal alterou fundamentalmente o conceito. Tomemos como exemplo o dicionário de Pianigiani que afirma que a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento da humanidade; grande quantidade de profanos, assim como numerosos maçons, aceitam essa definição. A primeira vista pode parecer que aperfeiçoamento do homem e aperfeiçoamento da humanidade significam a mesma coisa. Na realidade, se referem a dois conceitos profundamente distintos, e sua aparente sinonímia gera um equívoco e oculta uma incompreensão. Outros utilizam a expressão aperfeiçoamento dos homens, igualmente equivocada. Evidentemente, é quase impossível decretar qual é a expressão correta, porque qualquer franco-maçom pode declarar correta a que está mais de acordo com suas preferências, e ainda comprazer-se, talvez, no equívoco. Mas quando se trata de determinar, histórica e tradicionalmente, a interpretação correta e conforme com o simbolismo maçônico, a questão muda de aspecto e já não se trata de preferências particulares.

O manuscrito encontrado por Locke (1696) na Bodleian Library – e que não foi publicado até 1748 – é atribuído a Henrique VI, da Inglaterra: define a franco-maçonaria como “o conhecimento da natureza e a compreensão das forças que há nela”; enuncia expressamente a existência de um vínculo entre a Maçonaria e a Escola Itálica, pois afirma que Pitágoras, um grego, viajou para instruir-se, ao Egito, à Síria e a todos os países onde os Venezianos [leia-se os Fenícios] haviam introduzido a Maçonaria. Admitido em todas as lojas dos Maçons, adquiriu um grande saber, voltou à Magna Grécia… e fundou uma importante loja em Crotona[2].

Para dizer a verdade, o manuscrito fala de Peter Gower; e, como o nome Gower existe na Inglaterra, Locke ficou bastante perplexo ante a identificação de Gower com Pitágoras. Mas outros manuscritos e as Constituições de Anderson mencionam explicitamente Pitágoras. O manuscrito de Cooke diz que a Maçonaria é a parte principal da Geometria, e que foi Euclides, sábio e sutil inventor, quem deu as regras desta arte e a chamou de Maçonaria. Há outros traços de reminiscências pitagóricas tanto nas “Old Charges” como no mais antigo dos rituais impressos[3] (1724) que atribui uma importância particular aos números ímpares, de acordo, neste caso, com a tradição pitagórica[4].

Todos os antigos manuscritos maçônicos concordam ao assinalar o aperfeiçoamento do homem, ou do simples indivíduo, como único objetivo da franco-maçonaria. As provas iniciáticas, as viagens simbólicas, o trabalho do aprendiz e do companheiro têm um caráter manifestamente individual e não coletivo.

Segundo a mais antiga concepção maçônica, a “grande obra” do aperfeiçoamento é realizada trabalhando sobre a “pedra bruta”, ou seja, sobre o indivíduo, desbastando, polindo e esquadrinhando a pedra bruta até transformá-la em “pedra cúbica da Maestria”, graças às regras tradicionais da “Arte Real” maçônica de edificação espiritual. Existe uma perfeita analogia com uma tradição paralela, a tradição hermética, que, pelo menos desde 1600, se encontra enxertada nela e ensina que a “grande obra” é realizada trabalhando sobre a “matéria prima”, transformando-a em “pedra filosofal” segundo as regras da “Arte Real hermética”. Operação que resume a máxima de Basílio Valentino: V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terrae retificando Invenies Occultum Lapidem = Visita o interior da Terra, por retificação encontrarás a pedra oculta) ou a Tábua de Esmeralda, que modernos arabistas atribuem ao pitagórico Apolônio de Tiana. Pelo contrário, segundo a concepção maçônica profana e mais moderna, o trabalho de aperfeiçoamento deve ser realizado sobre a coletividade humana. É a humanidade ou a sociedade que ela há que transformar e aperfeiçoar; e, desse modo, substitui-se a ascese espiritual do indivíduo pela política coletiva. Os trabalhos maçônicos acabam por ter então uma meta e um caráter primeiramente social, às vezes unicamente social. O verdadeiro fim da franco-maçonaria – o aperfeiçoamento do indivíduo – passa a segundo plano quando não é francamente descuidado, esquecido e ignorado.

Tradicionalmente a primeira concepção é sem dúvida a correta e na literatura maçônica do século XVIII estiveram muito em moda as comparações e identificações exageradas e fantasiosas entre os mistérios de Elêusis e a franco-maçonaria. É indiscutível que o patrimônio ritual e simbólico da ordem maçônica somente se harmoniza com a concepção mais antiga da finalidade da maçonaria; efetivamente, o testamento do candidato à iniciação, as viagens simbólicas, as terríveis provas, o nascimento para a Luz iniciática, a morte e a ressurreição de Hiram, não podem ser compreendidos em sua relação com os trabalhos maçônicos e com a finalidade da franco-maçonaria caso tudo deva ser reduzido a fazer apenas política.

Historicamente, o interesse e a intervenção da franco-maçonaria nas questões políticas e sociais se manifesta apenas por volta de 1730, e unicamente em algumas regiões europeias, com a introdução da franco-maçonaria inglesa no continente. O pouco que se sabe das antigas lojas de antes do século XVII mostra a presença e o uso nos trabalhos maçônicos de um simbolismo de ofício, arquitetônico, geométrico, numérico, que, tendo por sua natureza um caráter universal, não se encontra ligado nem a uma civilização determinada nem a uma língua em particular e permanece independente de todo credo de ordem política e religiosa; é por essa razão que o maçom, de acordo com o ritual, não sabe ler nem escrever.

Com a lenda de Hiram e a construção do Templo faz sua aparição um elemento hebraico; e as palavras sagradas do aprendiz e do companheiro (as únicas graduações ou graus então existentes) que se referem a esta lenda são hebraicas. Mas esta lenda não pertence ao patrimônio tradicional da Ordem; a morte de Hiram não figura nos antigos manuscritos maçônicos, e as Constituições de Anderson ignoram o terceiro grau. De todas as maneiras, não há nada de extraordinário na presença de elementos e palavras hebraicas em uma época em que o hebreu era considerado como uma língua sagrada, a língua sagrada, aquela que Deus havia utilizado para falar ao homem no Paraíso Terrestre; trata-se de um fato cuja importância e significado não há que ser exagerado e que de nenhuma maneira é suficiente para se justificar a afirmação do caráter hebreu da franco-maçonaria. A letra G do alfabeto greco-latino, inicial de geometria e de Deus (God) em inglês, que aparece na Estrela Flamejante ou no Delta maçônico, parece ser apenas uma inovação (sem utilidade para quem não sabe ler nem escrever), enquanto que os dois símbolos fundamentais da ordem são os dois mais importantes do pitagorismo: o pentalfa ou pentagrama e a tetraktys pitagórica. A arte maçônica ou arte real, termos utilizados pelo neoplatônico Máximo de Tiro[5], era identificada com a geometria, uma das ciências do quadriviumpitagórico, e é difícil compreender como um Oswald Wirth, maçom erudito e hermetista, pode escrever que os maçons do século XVII[6] se proclamavam adeptos da Arte Real porque em outro tempo houve reis que se interessaram pela obra das privilegiadas corporações dos construtores da Idade Média. Os elementos de puro caráter maçônico constituem, junto com o simbolismo numérico e geométrico, o patrimônio simbólico e ritual arcaico e autêntico da fraternidade. Não dizemos seu patrimônio característico, porque estes elementos aparecem também, pelo menos parcialmente, no Companheirismo (compagnonnage), que de resto é muito próximo da franco-maçonaria.

Posteriormente, entre os séculos XVII e XVIII, quando as lojas inglesas começaram a receber como irmãos os accepted masons (pessoas que não exerciam a profissão de arquiteto ou o ofício de pedreiro), fazem sua aparição elementos herméticos e rosacrucianos como, por exemplo, Elias Ashmole (1617-1692), tal como assinala Gould em sua história da franco-maçonaria. O contato entre a tradição hermética e a maçônica fora da Inglaterra se produziu igualmente quase à mesma época, o que, evidentemente, implica a existência no continente de lojas maçônicas independentes da Grande Loja Inglesa. O frontispício de um texto hermético importante, editado em 1618[7], reproduz junto aos símbolos herméticos (o Rebis) os símbolos estritamente maçônicos do esquadro e do compasso; ocorre o mesmo em um opúsculo italiano de alquimia[8], impresso em lâminas de chumbo e que remonta praticamente a essa época.

Neste opúsculo se vê, entre outras coisas, Tubalcaim com um esquadro e um compasso em suas mãos. No entanto, na Bíblia, Tubalcaim é considerado como o primeiro ferreiro. Um erro de etimologia, naquela época muito praticado, e que o erudito Vossius repetiu, o identificou com Vulcano, o ferreiro dos Deuses e Deus do fogo, o qual, segundo os alquimistas e os hermetistas, presidia o fogo hermético (ou ardor espiritual), fogo que realizava a grande obra da transmutação. Em uma de nossas obras da juventude[9] demos uma interpretação errada da p∴ de p∴ Tub∴, pois ignorávamos a equivocada identificação de Vulcano com Tub∴ que era aceita pelos hermetistas e eruditos dos séculos XVII e XVIII. Hoje, nos parece evidente que esta p∴ de p∴ e algumas outras vêm do hermetismo, e que provavelmente foram introduzidas na franco-maçonaria e acrescentadas às palavras sagradas, constituindo provas do contato que havia se estabelecido entre a tradição hermética e a maçônica. As p∴ de p∴ do 2o. e 3o. graus não existem no ritual de Prichard (1730). Hermetismo e Maçonaria têm como fim a “grande obra da transmutação” e ambas as tradições transmitem o segredo de uma arte, à qual designam com o termo Arte Real já utilizado por Máximo de Tiro. É, pois, natural que tenham se sentido muito próximas uma da outra. Observemos que a adoção do simbolismo hermético não é efetuada em detrimento da universalidade maçônica nem de sua independência frente à religião e à política, pois o simbolismo hermético ou alquímico é, também, estranho, por sua natureza, a todo credo religioso ou político. A arte maçônica e a arte hermética, ou simplesmente a arte, é um arte e não uma doutrina ou uma confissão.

Até 1717 cada loja, de fato, era livre e autônoma. Os irmãos de uma oficina eram recebidos como visitantes nas demais oficinas, com a condição de satisfazer o telhamento (uma espécie de exame que permitia reconhecer que alguém era, na verdade, um irmão); mas somente o Venerável de uma oficina detinha a autoridade única e suprema entre os irmãos da mesma.

Em 1717, foi produzida uma mudança com a constituição da primeira Grande Loja, a Grande Loja de Londres, e pouco depois o pastor protestante Anderson redigia as Constituições maçônicas para as lojas sob a Obediência da Grande Loja de Londres; e, se bem que teoricamente uma oficina podia e pode conservar sua autonomia ou filiar-se à Obediência de uma grande loja[10], na prática só se consideram hoje lojas regulares aquelas que, direta ou indiretamente, são emanações ou derivações da Grande Loja de Londres, na suposição de que esta derivação, e somente ela, possa conferir a “regularidade”.

Isso posto, é muito importante observar que as Constituições de Anderson afirmam explicitamente que, para ser iniciado e pertencer à franco-maçonaria, a única condição é ser um homem livre de costumes irrepreensíveis, e exaltam (ao contrário das diversas seitas cristãs) o princípio da tolerância de cada qual pelos credos dos demais, ressalvando somente que um maçom não será nunca um “ateu estúpido”. Poder-se-ia pensar que Anderson admite que o franco-maçom pode ser um ateu inteligente, mas é mais verossímil que, como bom cristão, pensasse que um ateu é obrigatoriamente um imbecil, segundo a máxima que diz: Dixit stultus in corde suo: Non est Deus, (O estúpido diz em seu coração: Deus não existe). Aqui, seria necessário fazer uma digressão e observar que nesta disputa tanto o que afirma como o que nega não possui em geral nenhuma noção se aquilo que afirma existe ou não e que a palavra Deus é empregada habitualmente em um sentido tão vago que toda discussão é inútil. Seja como for, as Constituições da franco-maçonaria são explicitamente teístas; e os profanos, que acusam a franco-maçonaria de ateísmo, ou o fazem de má fé ou ignoram que ela trabalha para a glória do Grande Arquiteto do Universo. Observemos ainda que esta designação, que se harmoniza com o caráter do simbolismo maçônico, tem, igualmente, um sentido preciso e inteligível, ao contrário que certas designações vagas ou carentes de sentido como as “Nosso Senhor”, “Pai de todos os homens”, etc.

A qualidade de homem livre, exigida ao profano para iniciá-lo ou ao maçom para considerá-lo como irmão, é de grande interesse. Anderson não deixa de chamar de franco-maçons aos Free Masons, restando então examinar em que consiste essa freedom (liberdade) dos Free Masons. Trata-se somente da franquia econômica e social que exclui aos escravos e servos, e das franquias e privilégios que a corporação dos franc-maçons desfrutava frente aos governos dos estados e das distintas regiões onde exercia sua atividade? Ou essa denominação de maçons francos ou liberados deve ser tomada em outro sentido, referindo-se a pessoas que não são escravas dos preconceitos nem dos credos, liberdade que seria inútil trazer à luz? Se fosse assim, resultaria vão querer buscar as provas documentais e a pergunta ficaria pendente. Não obstante, pode aportar-se um esclarecimento graças a um documento de 1509 cuja existência ou cuja importância não foi, ao que parece, destacada até o presente.

Trata-se de uma carta escrita em 4 de fevereiro de 1509 a Cornelius Agrippa por seu amigo italiano, Landolfo, para recomendar-lhe um iniciado. Landolfo lhe escreve[11]: “É alemão como tu, originário de Nuremberg, mas que vive em Lyon. Investigador curioso nos arcanos da natureza, é um homem livre, completamente independente dos demais, que deseja, por causa da reputação que já possuis, explorar também teu abismo… Lança-o, pois, para prová-lo ao espaço; e levado nas asas de Mercúrio voa das regiões do Austro às do Aquilão, toma também o cetro de Júpiter; e se nosso neófito quer jurar nossos estatutos, associa-o à nossa fraternidade”. Tratava-se de uma associação secreta hermética criada por Agrippa, e há uma evidente analogia entre a prova do espaço que o iniciado deve enfrentar e as terríveis provas e viagens simbólicas da iniciação maçônica, inclusive quando a prova, aqui, se faz nas asas de Hermes. Hermes Psicopompo, o pai dos filósofos segundo a tradição hermética, é o guia das almas no além clássico e nos mistérios iniciáticos. Nesta carta também, se destaca a qualidade de homem livre, suficiente para abrir ao profano a porta do templo ao qual aspira; também aqui se manifesta substancialmente o princípio da liberdade de consciência e, ao seu lado, a tolerância. Ambas as tradições paralelas, hermética e maçônica, impõem idêntica condição para iniciar o profano: a de ser um homem livre, de onde se pode presumir que ela não se referia às franquias particulares das corporações de ofício, e por outro lado não faria sentido pedir isso aos accepted Masons que não eram pedreiros de profissão mas sim franco-maçons.

O caráter fundamental das Constituições de Anderson reside, pois, no princípio da liberdade de consciência e de tolerância, que permite também aos não cristãos pertencer à Ordem. Nas Constituições de Anderson a franco-maçonaria conserva seu caráter universal, não está subordinada a nenhum credo filosófico particular nem a qualquer seita religiosa, e não manifesta nenhuma inclinação por trabalhos de ordem social ou político. Pode ser que este caráter aconfessional e livre tenha inspirado igualmente à Maçonaria anterior a 1717 e que Anderson apenas o retificou nas Constituições.

Ao ser implantada na América e no continente europeu, a franco-maçonaria conservou em geral seu caráter universal de tolerância religiosa e filosófica e permaneceu à parte de todo movimento político e social, inclusive acentuando às vezes, como na Alemanha, seu interesse pelo hermetismo. Ao redor de 1740, começaram a multiplicar-se os novos ritos e os altos graus, mas conservando cuidadosamente os rituais e o rito dos três primeiros graus, os da verdadeira franco-maçonaria, chamada igualmente Maçonaria simbólica ou azul.

Os rituais destes altos graus são por vezes um desenvolvimento da lenda de Hiram, ou se relacionam com os rosa-cruzes, o hermetismo, os templários, o gnosticismo, os cátaros…, e já não têm um autêntico caráter maçônico. Do ponto de vista da iniciação maçônica, são absolutamente supérfluos. A franco-maçonaria está completa nos três primeiros graus, reconhecidos por todos os ritos, e nos quais se baseiam os altos graus e as lojas superiores dos diferentes ritos. O companheiro franco-maçom, uma vez que tenha chegado a mestre, acabou simbolicamente sua grande obra. Os altos graus só poderiam ter uma função verdadeiramente maçônica se contribuíssem para uma interpretação correta da tradição maçônica e para uma compreensão e aplicação mais inteligente do rito, ou seja, da arte real.

Isto não significa que se tenha que abolir os altos graus, já que os irmãos que foram agraciados com eles são livres, e que quem gosta de reunir-se em ritos e corpos para efetuar trabalhos que não se opõem às obras maçônicas devem ter a liberdade de fazê-lo. Não obstante, do ponto de vista estritamente maçônico, sua pertinência a outros ritos e a outras lojas superiores não os põe acima dos mestres que querem apenas efetuar o trabalho da Maçonaria universal dos três primeiros graus. Além disso, é evidente que ritos distintos como o de Swedenborg, os Escoceses, os da Estrita Observância, de Memphis…, ao serem diferentes, já não são universais, ou o são apenas na medida em que se baseiam sobre os três primeiros graus. Esquecer ou tentar desnaturalizar o caráter universal, livre e tolerante da franco-maçonaria, para impor aos irmãos das lojas pontos de vista ou objetivos particulares, seria ir contra o espírito da tradição maçônica e contra os termos das Constituições da Fraternidade.

É na França onde aparece a primeira alteração, ao mesmo tempo em que afloram os altos graus. A efervescência das ideias nessa época, o movimento da Enciclopédia, repercutem na franco-maçonaria que se difunde ampla e rapidamente. E, pela primeira vez, o interesse da ordem se dirige para as questões políticas e sociais e nelas se concentra. Afirmar que a revolução francesa seja obra da franco-maçonaria nos parece pelo menos exagerado. Por outro lado, é inegável que a franco-maçonaria sofreu na França – e seria difícil que isso não tivesse ocorrido – a influência do grande movimento profano que levou à revolução e culminou no império. A franco-maçonaria francesa tornou-se então e seguiu sendo desde esse momento, uma Maçonaria comprometida e interessada nas questões políticas e sociais. Alguns quiseram considerá-la como “tradicional” quando no máximo representa a tradição maçônica francesa, bem distinta da antiga tradição. Este desvio e este compromisso é a causa principal, se não a única, da oposição que seguidamente nasceu entre a Maçonaria anglo-saxônica e a francesa; na Itália, criou as divergências destes últimos cinquenta anos, que tiveram como consequência sua desunião e a debilitação ante os ataques e a perseguição dos jesuítas e os fascistas. Seja como for, inclusive os irmãos que seguem a tradição maçônica francesa não esqueceram o princípio de tolerância, e nas lojas maçônicas italianas, muito antes da perseguição fascista, havia irmãos de todas as crenças religiosas e de todos os partidos políticos, inclusive católicos e monárquicos.

Há que se recordar também, que no período que antecedeu a revolução francesa, nem todos os maçons esqueceram a verdadeira natureza da franco-maçonaria, mesmo quando ficaram desorientados pela plêiade de ritos diversos e opostos. No Convento dos Philalèthes reuniram-se maçons de todos os ritos, animados todos eles pelo mesmo desejo de restabelecer a unidade. Só Cagliostro, que havia fundado o rito da Maçonaria Egípcia, que unicamente constava de três graus e era exclusivamente dedicado à obra de edificação espiritual, se negou a comparecer a este Convento por razões que seriam muito extensas para explicar.

A influência maçônica francesa ocorreu também na Itália, depois da revolução e durante o império. Ainda hoje, a presença de certos termos técnicos nos “trabalhos” maçônicos, como o “malhete” do Venerável (traduzido, no italiano, literalmente, por “maglietto”) assim como outros termos (louveton, tradução fonético-semântica de Lufton, filho de Gabaon, nome genérico do maçom segundo os primeiros rituais ingleses e franceses) são prova de isso. A franco-maçonaria francesa e a italiana mantiveram estreitas relações durante todo o último século, e por vezes uma atitude revolucionária, republicana, mas também materialista e positivista que seguia a moda filosófica da época. Não obstante, não se pode dizer que a franco-maçonaria italiana se converteu numa franco-maçonaria materialista, pois ainda que tenha sido tolerante diante de todas as opiniões, nem por isso deixou de venerar, e muito particularmente, um grande espírito como Giuseppe Mazzini e grandes franco-maçons como Garibaldi, Bovio, Carducci, Filopanti, Pascoli, Domizio Torrigiani e Giovanni Amendola, todos idealistas e espiritualistas[12]. Foi a selvageria furiosa e o vandalismo dos incultos fascistas que devastou os nossos templos, as nossas bibliotecas e quebrou os bustos de Mazzini e Garibaldi que decoravam as nossas sedes.

Por outro lado, há de se reconhecer que se a franco-maçonaria inglesa conservou sempre um caráter espiritualista e nunca lhe ocorreu negar a existência do Grande Arquiteto do Universo, frequentemente esteve tentada, e ainda está, a conferir um certo tom cristão ao seu espiritualismo, afastando-se dessa forma do espírito de imparcialidade absoluta e não confessional das Constituições de Anderson. Não se pode negar que o fato de obrigar a prestar juramento sobre o Evangelho de São João não é uma prova de tolerância perante profanos e irmãos agnósticos ou pagãos, judeus ou livre pensadores, que não têm uma especial simpatia pelo Evangelho de São João e ignoram tudo da tradição joanista. A intolerância acentua-se com o mau costume de impingir a leitura e o comentário dos versículos do Evangelho durante os trabalhos da Loja. Se este hábito criticável adquirir importância, terminará por reduzir os trabalhos da Loja a um simples serviço religioso corriqueiro ou puritano, uma espécie de “rosário” ou de “vésperas” fastidiosas, inúteis e insuportáveis para a livre consciência de tantos irmãos que, na Inglaterra e na América, não vão à missa, não aceitam a infalibilidade do papa, nem tampouco a autoridade da Bíblia. É necessário criar mal-estar e irritação nas nossas colunas sem uma contrapartida apreciável? Pode acreditar-se que, por esses meios, se converterá os outros às próprias crenças e que dessa forma se conterá o agnosticismo inglês e americano?

Estas considerações exortam a conservar o caráter universal da franco-maçonaria acima dos credos religiosos e filosóficos e dos compromissos políticos. Isto não significa que se deva ignorar a política. Com efeito, devemos nos proteger dela. A intolerância não pode tirar o espaço da tolerância e a tolerância pode tolerar tudo exceto a intolerância deliberadamente hostil. Desde o momento em que apareceram as Constituições de Anderson com o seu princípio de liberdade e de tolerância, a Igreja católica excomungou a franco-maçonaria, culpável precisamente de tolerância; e o encarniçamento contra a franco-maçonaria nunca seria desmentido. Na Itália, a perseguição à franco-maçonaria durante estes últimos vinte anos foi iniciada e mantida pelos jesuítas e pelos nacionalistas[13]; enquanto os fascistas, para ganharem a simpatia destes senhores, não vacilaram em provocar a aversão do mundo civilizado, no que diz respeito à Itália, com o seu vandalismo contra a franco-maçonaria. Os jesuítas perderam esta guerra, mas a lepra da intolerância propaga-se sempre, reveste-se de novas formas e é necessário que nos protejamos dela. Por outro lado, chegou a hora, se não nos enganamos, de difundir a franco-maçonaria por toda a Terra e estabelecer uma fraternidade entre os homens de todas as raças, civilizações e religiões. Para levar a bom termo esta tarefa é necessário que a franco-maçonaria não assuma uma fisionomia e um tom pertencente a uma minoria perante a qual as grandes civilizações orientais, China, Índia, Japão, Malásia, o mundo do Islã, têm se mostrado refratárias. Isso é possível desde que a franco-maçonaria não se circunscreva a uma crença qualquer e permaneça fiel ao seu patrimônio espiritual, que não consiste nem de uma fé codificada, um credo religioso ou filosófico, um conjunto de postulados ou de preconceitos ideológicos e moralistas, nem de uma bagagem doutrinal considerada detentora e portadora da verdade, à qual os não crentes devam ser convertidos. Há que se pensar que, ainda que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia existam, é uma ilusão crer que pode conquistá-las ou comunicá-las mediante uma conversão, uma confissão ou o recitar de certas fórmulas, porque cada qual entende as palavras destes credos e fórmulas à sua maneira, de acordo com a sua civilização e a sua inteligência; e no fundo, não são, como dizia Hamlet, mais que “words, words, words“[14].

Enquanto não se reflete sobre isto, tem-se a ilusão de que essas palavras são compreendidas de igual maneira; tão rápido como se começa a raciocinar, surgem seitas e heresias, cada uma convencida de que detém a verdade. A sabedoria não pode ser compreendida racionalmente, nem expressada, nem comunicada. É uma visão, uma vidya, essencial e necessariamente indeterminada, incerta. E quando os olhos se abrem à luz com o nascimento na nova vida, aproximamo-nos dessa visão. A arte maçônica ou arte real é a arte de trabalhar a pedra bruta para tornar possível a transmutação humana e a percepção gradual da luz iniciática. O que não significa, naturalmente, que a franco-maçonaria tenha o monopólio da arte real.

No decurso dos dois últimos séculos a maior parte dos inimigos da franco-maçonaria recorreram sistemática e unicamente à injúria e à calúnia, apoiando-se em sentimentos moralistas e patrióticos. Afirmaram, assim, que os trabalhos maçônicos consistiam de orgias abomináveis, e com isso se tem manipulado os rituais, se tem desvelado as cerimônias maçônicas expondo-as ao ridículo, se tem acusado os maçons de trair a sua pátria pelo caráter internacional da Ordem, se tem afirmado que a franco-maçonaria é apenas o instrumento dos judeus, sempre para enganar e levantar os crentes e o público em geral contra a “Sociedade Secreta”. Os franco-maçons, naturalmente, sabiam muito bem que se tratava apenas de calúnias. E, como nada conseguia convencê-los, pensou-se em suprimi-los ou em retirar-lhes a possibilidade de se reunirem para trabalhar ou de responder e defender-se. Recentemente, um escritor católico[15] publicou um estudo histórico sobre “Tradição Secreta”, conduzido com competência e habilidade. As habituais e costumeiras calúnias, destinadas a impressionar os profanos, foram habilmente substituídas nele por uma crítica insidiosa, destinada a impressionar o leitor culto e o espírito dos nossos irmãos.

Esta crítica afirma que, no fundo, a tradição secreta não contém senão o vazio absoluto (pág. 139) e conclui afirmando que “na Escola Iniciática ou por meio dela a Tradição Secreta não tem ensinado absolutamente nada à humanidade” (pág.155). Não se compreende muito bem então como se pode afirmar igualmente que este vazio absoluto, “esta tradição secreta coincide (pág. 141), ainda que frequentemente de uma forma corrompida, com as doutrinas gnósticas“. Mas não pretendamos demasiado. A franco-maçonaria é, pois, segundo o autor, uma esfinge sem segredo, dado que não ensina nenhuma doutrina. Desse modo o leitor se vê levado a concluir que, ao estar desprovida de conteúdo, a Maçonaria não tem nenhum valor.

Nas linhas precedentes mostramos que a franco-maçonaria não ensina nenhuma doutrina e nem deve ensiná-la, destacando que esta atitude é um de seus méritos. Isso posto, para chegar a concluir que a Tradição Secreta contém o vazio ao não conter uma doutrina, deve-se crer que somente uma doutrina pode ocupar o vazio. Na página 153, o autor afirma ainda: “o sistema iniciático supõe que o homem possa chegar a compreender, por um esforço da inteligência, os problemas inexplicados do cosmos e do além”. Na página 152 escreve: “a Igreja católica opõe às vãs elucubrações dos que se autodenominam iniciados, a força intangível de seu dogma que deve ser único porque não podem existir duas verdades” e que o sistema iniciático é incompatível com o cristianismo. A estas afirmações respondemos que ignoramos a existência de um sistema iniciático, que não conhecemos iniciados que façam suposições, e ainda menos que criem ilusões sobre a possibilidade de resolver por meio de sua inteligência ou de elucubrações os problemas inexplicados. Mas nos é impossível admitir que a fé em um dogma possa constituir um conhecimento, pois saber não é crer. De fato compreendemos que a verdade é necessariamente inefável e indizível. Deixamos aos profanos a consoladora e ingênua ilusão de crer que é possível formular de alguma maneira esta verdade e este conhecimento em credos, fórmulas, doutrinas, sistemas e teorias. Além disso, até Jesus sabia que suas parábolas eram apenas parábolas. Mas dizia também a seus discípulos que a eles “lhes era dado entender o mistério do reino dos céus”. Evidentemente só fides sufficit ad firmandum cor sincerum[16], mas non sufficit[17] para entender os mistérios. O que é igualmente válido para o simples raciocínio. Com isso não queremos diminuir de nenhuma maneira o valor da fé e do raciocínio. A fé isoladamente conduz ao desespero filosófico. E ambos são um pouco como o tabaco e o café: dois venenos que se compensam, mas certamente não basta fumar cachimbo e degustar um café para alcançar-se o conhecimento. Ao conhecimento multi vocati sunt[18], mas não todos e, entre estes muitos, pauci electi sunt[19]. Segundo a Igreja católica, pelo contrário, é suficiente ter fé no Dogma, e o conhecimento e o paraíso estão ao alcance de todos os bolsos a preços realmente insuperáveis.

Resumindo: não existe uma doutrina maçônica secreta[20]; mas existe uma arte secreta, chamada arte real ou mais simplesmente Arte. É a arte da edificação espiritual à qual corresponde a arquitetura sagrada. Os instrumentos maçônicos têm, pois, um sentido figurado na obra da transmutação, e ao segredo da arte real corresponde o segredo arquitetônico dos construtores das grandes catedrais medievais. É natural que os franco-maçons venerem o Grande Arquiteto do Universo, mesmo que não se defina o que se deve entender por esta fórmula.

Na arquitetura antiga, especialmente na arquitetura sagrada, as questões de relação e proporção tinham uma importância capital. A arquitetura clássica estabelecia a proporção das diferentes partes de um edifício, e em particular dos templos, baseando-se em um módulo secreto ao qual alude Vitrúvio. Existe toda uma literatura referente à arquitetura egípcia e sobretudo à pirâmide de Quéops, que ilustra seu caráter matemático. E, inclusive, procedendo com a maior circunspeção, é certo, por exemplo, que esta pirâmide se encontra exatamente a 30o de latitude para formar com o centro da Terra e o Polo Norte um triângulo equilátero. É certo que está perfeitamente orientada e que a face volta para o setentrião é exatamente perpendicular ao eixo de rotação terrestre, em função da posição que este tinha na época de sua construção. Quanto aos construtores da Idade Média, não eram guiados somente por alguns critérios estéticos. Preocupavam-se com a orientação da igreja, com o número de naves, etc. A arte dos construtores estava relacionada à ciência da geometria. O esquadro e o compasso são os dois símbolos de ofício fundamentais na arte maçônica; e a régua e o compasso os dois instrumentos fundamentais na geometria elementar. A Bíblia afirma que Deus fez omnia in numero, pondere et mensura[21].Os pitagóricos criaram a palavra cosmos para indicar a beleza do universo no qual reconheciam uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma proporção. E entre as quatro ciências liberais do quadrivium pitagórico, a aritmética, a geometria, a música e a astronomia, a primeira estava na base de todas as demais. Dante comparava o céu do Sol com a aritmética porque “como da luz do Sol todas as estrelas se iluminam, assim da luz da aritmética se iluminam todas as ciências” e da mesma forma “que o olho não pode olhar ao sol, assim o olho do intelecto não pode olhar o número que é infinito”[22].

Sem entrar na crítica desta passagem, não deixa de ficar estabelecida a posição que a Aritmética ocupa segundo Dante. Por outro lado, tanto a Bíblia como a arquitetura aconselhavam considerar os números. Hoje em dia, ainda que se negue a reconhecer no cosmos uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma lei, e aceitando apenas o determinismo limitado pela lei das probabilidades, a física moderna continua considerando os números e as relações numéricas. De fato, não ficam senão eles, e tanto Einstein como Bertrand Russell constataram e reconheceram que a ciência moderna retornava ao pitagorismo.

Assim, pois, não há nada de surpreendente no fato de que os franco-maçons tenham identificado a arte arquitetônica com a geometria e tenham dado ao conhecimento dos números uma importância tal que ela (geometria) justifica sua tradicional pretensão de serem os únicos a conhecer os “números sagrados”.

Mas ainda temos de fazer algumas observações. A geometria, em seu aspecto métrico, ou seja, nas medidas, exige o conhecimento da aritmética. Isso posto, antigamente a acepção da palavra geometria era menos específica que hoje, e geometria significava genericamente toda a matemática. Assim a identificação da arte real com a geometria, tradicional na franco-maçonaria, não se refere à geometria tomada em seu sentido moderno, mas também à aritmética. Além disso, devemos observar que a relação entre geometria, arte real da arquitetura e edificação espiritual é a mesma que inspira a máxima platônica: “Que ninguém entre aqui se não é geômetra”. Máxima cuja atribuição é algo duvidosa, pois apenas é mencionada por um comentarista bastante tardio. Mas em obras que indiscutivelmente são de Platão podemos ler: “…a geometria é um método para dirigir a alma para o ser eterno, uma escola preparatória para um espírito científico, capaz de voltar as atividades da alma para as coisas supra-humanas”, […] “inclusive é impossível chegar a uma verdadeira fé em Deus caso não se conheça a matemática, a astronomia e a íntima união desta última com a música”[23].

Estas concepções e atitudes de Platão devem ser as da Escola Itálica ou pitagórica, que exerceu sobre ele uma grande influência, o que permite dizer quando se quer sustentar que a Maçonaria se inspirou em Platão, que, em última análise, se volta sempre à geometria e à aritmética dos pitagóricos. O vínculo entre a franco-maçonaria e a ordem pitagórica, sem que se trate de uma derivação histórica ininterrupta, mas somente de uma filiação espiritual, é seguro e manifesto. O arcipreste Domenico Angherà no prefácio que escreveu para a reedição dos Estatutos Gerais da Sociedade dos Franco-maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito (1874), que já haviam sido publicados em Nápoles em 1820, afirma categoricamente que a ordem Maçônica é idêntica à ordem pitagórica. Mas mesmo sem ir tão longe, a afinidade entre ambas as ordens é certa. A arte geométrica da franco-maçonaria, em particular, provém direta ou indiretamente da geometria e da aritmética pitagóricas. E não é anterior, porque os pitagóricos foram os criadores destas ciências liberais, segundo o que se pode deduzir historicamente e a partir dos testemunhos de Proclo. “Aparte de algumas propriedades geométricas atribuídas, sem dúvida equivocadamente, a Tales, a geometria – diz Paul Tanery – brotou completa do cérebro de Pitágoras da mesma forma que Minerva saltou inteiramente armada do cérebro de Júpiter. E os Pitagóricos foram os primeiros a estudar a aritmética e os números”.

Para estudar as propriedades dos números sagrados dos franco-maçons e sua função na franco-maçonaria, a via que se oferece por ela mesma é, pois, a do estudo da antiga aritmética pitagórica. E o estudá-la tanto do ponto de vista aritmético ordinário como do ponto de vista da aritmética simbólica ou formal, como a chama Pico da Mirandola, correspondente à tarefa filosófica e espiritual que Platão atribui à geometria. Ambos os sentidos se encontram estreitamente ligados no desenvolvimento da aritmética pitagórica. A compreensão dos números pitagóricos facilitará a dos números sagrados da Maçonaria.


Autor: Arturo Reghini

Tradução: S.K.Jerez

Arturo Reghini (1878-1946), matemático e filólogo, ocupou um alto cargo na Maçonaria italiana (Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, e membro honorário de Supremos Conselhos de outros países). Manteve correspondência com René Guénon, fundou e dirigiu as revistas Atanor – onde este último publicou em primeira versão o Esoterismo de Dante e o Rei do Mundo – e Ignis (1924-25) e contribuiu com a Ur (1927-28); escreveu numerosos artigos, e foi também chefe de redação daRassegna Massonica. Entre suas obras, Cagliostro, documents et études; Notes brèves sur le Cosmopolite; Considérations sur le Rituel de l’Apprenti Franc-Maçon; les Mots sacrés et de passe des trois premiers grades et le plus grand mystère maçonique; Aritmosofia; les Nomes Sacrés dans la Tradition Pythagoriciene Maçonique, todos editados hoje por Archè, Milano, e uma obra inédita em sete tomos: Dei Numeri Pitagorici.


NOTAS

[1] – Libertà va cercando ch’è si cara Come sa chi per lei vita rifiuta. (Dante, Purgatorio. I, 71-72.)

[2] – Hutchinson, Spirit of Masonry; Preston, Illustrations of Masonry; G. De Castro, Mondo segreto, IV, 91; A. Reghini, Noterelle iniziatiche, Sull’origine del simbolismo, en Rassegna Massonica, junio-julio 1923.

[3] – The Grand Mystery of Freemasons discovered wherein are the several questions put to them at their Meetings and installation, Londres 1724.

[4] – Virgilio, Bucólicas, Égloga VIII

[5] – Máximo de Tiro, Discours philosophiques, tradução Formey, Leyden, 1764: Discurso XI, pág. 173.

[6] – Cf. Oswald Wirth, Le Livre du Maître, 1923, pág. 7.

[7] – Johannes Daniel Mylius, Basilica Philosophica, Francfort, 1618.

[8] – Cf. Pietro Negri [= A. Reghini], Un codice plumbeo alchemico italiano, en UR, números 9 e 10, 1927

[9] – Cf. A. Reghini, Le parole sacre e di passo ed il massimo mistero massonico, Todi 1922.

[10] – O. Wirth expressa categoricamente esta opinião, cf. Le Livre du Maître, pág. 189.

[11] – Cornelius Agrippa, Cartas. Cf. também a monografía de A. Reghini, prefacio da versão italiana da Filosofía Oculta de Agrippa

[12] -Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador da “Jovem Itália” (sociedade secreta que trabalhava para o estabelecimento da república na Itália). Giuseppe Garibaldi (1807-1882), patriota italiano que luchó para libertar a Itália do domínio austríaco, dos Bourbons (reino das Duas Sicílias) e, finalmente, do papado. Giovanni Bovio (1841-1903) filósofo e político radical de esquerda. Giosue Carducci (1835-1907) poeta. Quirico Filopanti (1812- 1894) patriota e universitário. Giovanni Pascoli (1855-1912) poeta. Domizio Torrigiani (1879-1932). Giovanni Amendola (1882-1926) político, filósofo, fundador do Movimento União Democrática Nacional.

[13] – Cf. os artigos de Emilio Bodrero em Civiltà cattolica, orgão da Companhia de Jesus, e em Roma Fascista, periódico; cf. também Ignis yRassegna Massonica, ano de 1925.

[14] – palavras, palavras, palavras (N.T.)

[15] – Cf. Raffaele Del Castillo, La tradizione segreta, Milão 1941

[16] – a fé é sincera o suficiente para compreender (N.T.)

[17] – não suficiente (N.T.)

[18] – muitos são chamados (N.T.)

[19] – poucos foram escolhidos (N.T.)

[20] – O. Wirth já havia dito a mesma coisa em 1941: “Como o método iniciático se nega a inculcar o que quer que seja, apenas é admissível que se tenha ensinado uma doutrina positiva no seio dos Mistérios”, no Livre du Maître, pág. 119. Del Castillo sustenta, ao contrário – e sem nenhuma prova – que a Maçonaria pretendeu ensinar uma doutrina secreta, e constata que não se encontra traço desta doutrina positiva. Ao invés de reconhecer que seu ponto de vista não é defensável, acusa a Maçonaria de ser redundante e incapaz. O vos qui cum Jesu itis, non ite cum Jesuitis.

[21] – Todas as coisas em número, peso e medida (N.T.)

[22] – “come del lume del Sole tutte le stelle si alluminano, così del lume dell’aritmetica tutte le scienze si alluminano […] che l’occhio dell’intelletto non può mirare […] il numero […] è infinito”. Dante, O Banquete, II, XIII, 15 e 19.

[23] – Gino Loria, Le scienze esatte nell’antica Grecia, 2ª edição, Milão 1914, pág. 110.