sexta-feira, 9 de novembro de 2018

DOS OPERATIVOS AOS ESPECULATIVOS: UM ELO PERDIDO





Das várias teses sobre as origens da Maçonaria, a mais consensualmente aceite é que esta, na sua forma atual, geralmente referida como Maçonaria Especulativa, deriva das associações profissionais de construtores criadas na Idade Média. A essas associações designamos hoje por Lojas Operativas e ao conjunto de todas elas e regulamentos da profissão então instituídos referimo-nos por Maçonaria Operativa..

A forma como a transição ocorreu é normalmente referida como tendo decorrido da progressiva aceitação nas Lojas Operativas de elementos alheios ao ofício de construtor (proprietários, intelectuais), os chamados Maçons Aceites, que progressivamente foram aumentando de número até dominarem as Lojas Operativas e as transformarem nos centros de debate, estudo, fraternidade e aperfeiçoamento que hoje associamos ao conceito de moderna Loja maçónica.

Não colocando em causa, genericamente, este entendimento, sempre mantive algumas perplexidades sobre a forma de evolução e, sobretudo, sobre a forma como a realidade antiga veio a gerar precisamente a nova realidade, tal como a conhecemos. Desde logo, esta hipótese da evolução dos factos, sendo possível para uma Loja, torna-se muito mais improvável para um conjunto de Lojas, geograficamente dispersas. Quais as probabilidades de o lento processo de integração de Maçons Aceites originar, mais ou menos ao mesmo tempo, o domínio por estes de todas as Lojas Operativas geograficamente dispersas? E de lhes ser conferidas, a todas, precisamente as mesmas características evolutivas? Parece óbvio que a resposta deve ser um número muito próximo do zero… Algo falta. Falta, seguramente, um elo na cadeia factual, algo que veio a possibilitar e a favorecer a mudança.

As associações profissionais medievais, após o fim da Idade Média, o advento da imprensa e aumento da possibilidade de circulação e aquisição de conhecimentos, estavam em franco declínio. No início do século XVII, as Lojas Operativas estavam em processo de enfraquecimento, que, normalmente, levaria à sua extinção. As técnicas de construção e os conhecimentos geométricos a elas subjacentes não eram já monopólio dos construtores associados. Muitos outros sabiam construir e construíam e competiam pela obtenção de contratos com os profissionais associados. Nesse clima, afigura-se-me que a aceitação de proprietários locais, de burgueses de outros ofícios ou intelectuais com prestígio local foi uma tentativa desesperada de procurar manter a máxima quota de mercado possível na órbita das Lojas Operativas. Mas tal dificilmente travaria o declínio e o inexorável caminho para o baú que a História reserva para o que perdeu a sua razão de existir. Com ou sem Aceites, as Lojas Operativas estavam condenadas.

Em toda a primeira metade do século XVII não há mudanças significativas da situação. Em cada região, a respetiva Loja Operativa lutava pela sobrevivência e procurava juntar a si elementos estranhos ao ofício. Era através da convivialidade, da integração social que os Operativos procuravam manter o seu mercado, sempre acossados por construtores não associados, capazes e competitivos, designadamente, em matéria de preço.

Até que, na segunda metade do século XVII, algo muda! O que declinava, passou a florescer. Não só as Lojas Operativas, agora essencialmente conviviais, não desapareceram, como surgiram outras novas e os seus objetivos mudaram: de meras organizações profissionais, passaram a, com a marca distintiva da união e da fraternidade, centros de debate, estudo e auxílio mútuo no aperfeiçoamento (desde logo cultural e, genericamente, em matéria de aquisição de conhecimentos e competências). Mais: florescem nas zonas urbanas mais desenvolvidas. As quatro Lojas de Londres que decidiram unir-se na Grande Loja de Londres em 24 de junho de 1717 não eram as únicas de Londres e Westminster. Em 1722, aquando da aprovação das Constituições de Anderson publicadas em 1723, a Grande Loja de Londres agregava já vinte Lojas. Era manifestamente impossível que quatro Lojas lograssem quintuplicar o seu número em escassos cinco anos. Logo, o que sucedeu foi a junção de outras Lojas, já existentes, ao projeto iniciado pelas quatro pioneiras. O que nos conduz à conclusão de que, seguramente, mais de uma dezena de Lojas existiam só na zona de Londres, no início do século XVIII.

Em meio século, em duas gerações, a vereda do declínio transforma-se na ampla estrada do crescimento. No entanto, o ambiente social era tudo menos propício! Entre 1640 e 1650, trava-se em Inglaterra uma dura guerra civil e religiosa, entre os católicos partidários dos Stuarts e os parlamentares, maioritariamente protestantes, liderados por Oliver Cromwell, no âmbito da qual Carlos I perde, literalmente, a cabeça e o seu filho, Carlos II, é obrigado a exilar-se, para que não sofra idêntica, e certamente inconveniente, perda. Em 1660, Carlos II logra retomar o poder para os Stuarts, o qual mantém até à sua morte, em 1685, mas sempre em confronto com os parlamentares. Em 1688-1689, dá-se a chamada Revolução Gloriosa, pela qual o sucessor de Carlos II, o católico Jaime II, é apeado do poder, em benefício de sua filha, Maria II e do seu genro, o holandês e protestante Guilherme, príncipe de Orange. São cinquenta anos de lutas, de tensão, de derramamento de sangue e de destruição, nada propícios a uma pausada e lenta transformação de estruturas vindas da idade Média!

Qual foi então o catalisador, o fator que transformou mais do mesmo – o progressivo declínio das Lojas Operativas, afetadas do mal da irrelevância pelo progresso e evolução sociais – numa nova e pujante realidade, como se veio a revelar a Maçonaria, no meio de convulsão social, guerras e revoluções?

Veremos isso nos próximos textos!

Bibliografia

Rui Bandeira


O PRIMEIRO MAÇOM ESPECULATIVO



Por Robert Cooper

Traduzido por Rodrigo Menezes

Elias Ashmole (1617-1692) não foi o primeiro Maçom Especulativo. Nem o segundo, terceiro ou décimo! Os primeiros Maçons Especulativos foram William, Lorde Alexander, e seu irmão Anthony Alexander (o Mestre dos Trabalhos do Rei) e o Senhor Alexandre Strachan de Thornton. Eles foram iniciados no terceiro dia de julho de 1634, na Loja de Edimburgo, isso é mais de 12 anos antes de Elias Ashmole [1]. Para entender a importância disso e marcar a iniciação de Ashmole no contexto, vamos fornecer algumas informações fundamentais.

No período desses eventos a Escócia era um país inteiramente independente da Inglaterra. A União das Coroas em 1603 (James VI da Escócia se tornou James I da Grã Bretanha) pelos reinos da Escócia e Inglaterra não uniu os dois países por completo. Por exemplo, a Escócia manteve seu próprio Parlamento, sistema monetário, leis, religiões e, claro, a Maçonaria. Em 1534, Henrique VIII da Inglaterra instituiu a reforma religiosa, se colocando como a cabeça da igreja no lugar do Papa de Roma. A sua motivação era para anular seu primeiro casamento com Catarina de Aragon e a recusa do Papa em prover tal anulação. O motivo era mais legal, jurisdicional e político do que religioso [2]. Uma vez estabelecido, Henrique aproveitou a oportunidade para confiscar a maior parte do dinheiro e propriedades da Igreja. As organizações que deram suporte e encorajaram a pré-Reforma religiosa foram abandonadas, seu dinheiro e propriedades foram confiscadas e isso incluiu as Guildas Inglesas. A situação na Escócia era um tanto diferente. A Reforma Protestante iniciou em 1559 e era de natureza religiosa. A Igreja Católica e muitas de suas práticas foram substituídas por um novo sistema religioso completo, baseado no Calvinismo. E tem mais! Diferente da Inglaterra, as Guildas Escocesas (conhecidas como Incorporações), não foram abolidas mas seu suporte religioso à pré-Reforma da Igreja simplesmente se encerrou quando a nova fé Protestante foi estabelecida [3].

As Incorporações Escocesas (diferente das extintas Guildas Inglesas) funcionaram na Escócia antes e depois da Reforma [4]. A principal proposta das Incorporações era de promover os interesses de seus membros. Considerá-las como uma forma primária de Sindicato Empregatício explica “o que elas eram à época”, mas elas faziam mais do que simplesmente negociar com empregadores. Elas eram responsáveis por regular o ofício de seus membros e estender seus trabalhos controlando pagamentos, supervisionando a qualidade do serviço, gerenciando os termos de aprendizado, promovendo funerais de membros falecidos, cuidando de suas viúvas e órfãos e também promovendo a moral de seus membros. Todos os grandes ofícios tinham suas Incorporações incluindo os Baxters (padeiros), Cordiners (sapateiros); Fleshers (açougueiros); Hammermen(ferreiros); Wobsters (tecelões); e claro os Masons (trabalhadores de pedra). Quando novos membros eram admitidos a uma Incorporação, certos segredos eram comunicados para cada novo membro [5]. Entretanto, e mais importante, somente a incorporação dos Maçons tinha um nível adicional – a Loja. Nesse ponto os Maçons eram únicos. A razão porque um corpo extra era necessário se dava ao fato de que a Incorporação de Maçons também incluía outros ofícios como os Wrights (carpinteiros) e Coopers (produtores de barris) e comunicar os segredos dos trabalhadores de pedra não podia ser realizado onde havia a presença de não-Maçons. A Loja era então o lugar onde os segredos eram transmitidos dos Trabalhadores de Pedra para os Trabalhadores de Pedra e a ninguém mais. Incorporações eram parte conhecida e aceita da sociedade Escocesa, elas eram a parte pública dos Maçons mas a Loja era o Segredo – a face privada do Ofício. As Incorporações mantiveram registros de seus trabalhos, já as Lojas não.

Isso mudou em 1598 quando o Mestre dos Trabalhos do Rei (“King’s Maister o’ Wark”, William Schaw (c. 1550-1602)) escreveu o que é hoje conhecido como o Primeiro Estatuto de Schaw e foi seguido pelo seu Segundo Estatuto em 1599. Por esses documentos que Schaw é conhecido como o Pai da Maçonaria Moderna. Sem entrar em detalhes sobre esses documentos, é importante entender que eles eram instruções endereçadas para todas as Lojas na Escócia. Ele contém um grande número de informações interessantes sobre as Lojas de Maçons, mas é importante aqui marcar que ele formaliza uma organização já existente. Schaw entendia seu trabalho como sendo ele o encarregado de uma ordem de Lojas espalhadas pela Escócia que eram controladas de forma informal, até desorganizadas. Seus Estatutos instituíam um sistema organizado que incluía a manutenção de registros e é por isso que o mais antigo registro de uma Loja só veio após seu estatuto [6]. O estabelecimento de um sistema nacional de Lojas de Maçons foi sem dúvida para o benefício do próprio Schaw, pelo ponto de vista da eficiência, mas também que os estatutos foram atualmente um subterfúgio para assuntos esotéricos que o espaço aqui não nos permite debater. Schaw morreu em 1602 deixando um sistema nacional de Lojas, como detalhado em seus estatutos, que conseguimos ver a continuidade até os dias atuais [7].

Uma das inevitáveis consequências das instruções de Schaw foi que as Lojas se tornassem fixas, permanente, instituições. Elas não seriam mais casuais, encontros quando necessário (normalmente para iniciar um candidato ou conduzir os trabalhos de uma Loja). Depois da morte de Schaw, as Lojas agora se reúnem em dias específicos (a principal reunião anual sendo no dia 27 de dezembro – o Festival de São João Evangelista) e mantém registros. Um grupo de homens agora identificável que se reunia com certa regularidade com certeza atraiu atenção da sociedade. Se essas Lojas admitiam não-operativos antes que Schaw as formalizasse, não teremos como sabe visto que não se mantinha registros escritos até que os estatutos as instruísse a fazê-lo. É um pensamento muito interessante, embora especulativo, que Schaw possa ter sido o primeiro não-operativo (um Maçom Especulativo) a ser iniciado em uma Loja.

Assim que Lorde Alexander, seu irmão e um amigo se tornaram membros da Loja de Edimburgo, outros não–operativos também se juntaram à Loja. Em 1635, Archibald Stewart de Hesselsyd se tornou membro. Ele foi seguido por David Ramsay (um “servo especial” do Rei – que agora era Charles I (1600-1649)) em 1637 e mais tarde naquele ano Alexander Alerdis se juntou à Loja. Henry Alexander (o irmão do Lorde Alexander e Anthony que foi admitido na Loja em 1634) se tornaram membros da Loja em 1638 [8].

A iniciação desses não-operativos é de grande importância para a compreensão da origem e desenvolvimento da Maçonaria Moderna mas a iniciação do Sr. Robert Moray (1608/09-1673) em 1641 é ainda mais importante por vários motivos. Ele foi o primeiro Maçom Especulativo a ser iniciado em solo Inglês. Resumidamente, Moray fazia parte do Exército Inglês que ocupou após o cerco a Newcastle, Inglaterra, durante a chamada “Guerra dos Bispos” (1639-1640). Membros da Loja de Edimburgo foram pioneiros contratados pelo exército para o trabalho de construir pontes e fortificações e realizaram uma reunião especial para iniciar Moray e outro general do exército, Alexander Hamilton. Não há nada de especial nisso, já que era uma prática conhecida como “inscrições abertas”, conforme atestado por várias Iniciações similares vistas em vários registros de Lojas. Também está de acordo com o velho costume da Maçonaria Escocesa de crer que uma Loja não possui um lugar fixo, mas que uma Loja é uma reunião de homens que pensam juntos e se unem para os propósitos da Maçonaria. Este registro da iniciação de Moray significa que ele foi feito Maçom cinco anos antes de Ashmole.

Moray foi o principal entusiasta da Fundação da Royal Society e tornou-se seu primeiro presidente. A reunião inaugural da sociedade foi realizada na quarta-feira, 28 de novembro de 1660, no Colégio Gresham, em Londres, com a presença de 12 eminentes cavalheiros. Ashmole não era um deles. Esses 12 prepararam uma lista de 40 outros emitentes cavalheiros para serem convidados para se unirem a nova sociedade. Ashmole estava na lista e, portanto, embora fosse um dos primeiros membros da Royal Society, não era membro fundador [9]. A Royal Society ainda realiza sua reunião anual no dia de Santo André (30 de novembro) em homenagem ao seu primeiro presidente Escocês [10]. Moray e Ashmole devem, portanto, ter se encontrado, mas não existe nada que eleve a natureza de seu relacionamento. Se eles já discutiram sobre Maçonaria também é desconhecido. A ausência de provas pode, ocasionalmente, fornecer algumas hipóteses, pois elas nos permitem comparar o “silêncio” com algo que é conhecido.

Como vimos, Moray foi iniciado em uma Loja fixa, permanente, como as dirigidas por William Schaw em seus estatutos [11]. Ashmole, em comparação, foi iniciado em uma Loja cuja evidência de sua existência é uma anotação antiga em seu diário pessoal. Parece, portanto, que a Loja em Wattington, Inglaterra, era na melhor das hipóteses uma Loja ocasional, e consequentemente muito diferente das Lojas Escocesas. Se elas trabalhavam da mesma forma, ou mais especificamente, se conduziam as mesmas cerimônias de iniciação é um segredo. É dito que não sabemos nada sobre os rituais Maçônicos em uso antes de 1717 [12]. Isso é incorreto pois há uma grande quantidade de material escrito sobre esse mesmo assunto [13]. Estes rituais compreendem uma família de documentos muito semelhantes, dos quais o Edinburgh Register House MS de 1696 é o mais antigo deles [14]. A existência desses rituais nos permite ver o formato das cerimônias usadas por Lojas na Escócia antes da existência de qualquer Grande Loja e aumenta as questões sobre que tipo de cerimônia Ashmole experimentou. Foi a mesma praticada nas Lojas Escocesas? Se sim, então ele teria sido iniciado como Moray, no “Estilo Escocês”. Se não, então não estava de acordo com a prática estabelecida à época.

O interesse de Ashmole na Maçonaria era, na melhor das hipóteses, fugaz. Seus diários detalhados e meticulosos mostram que ele foi “iniciado” em Warrington em 16 de outubro de 1646. Ele nunca mais compareceu a uma reunião em Loja. A única outra ocasião maçônica relacionada a Ashmole é novamente encontrada em um diário de 1682 quando ele participou de uma reunião de Maçons na Mason’s Livery Company (algo como Companhia de Maçons de Panelas). A carreira maçônica de Ashmole está em forte contraste com os Maçons especulativos mencionados acima, que continuaram a frequentar as reuniões da Loja por vários anos após sua Iniciação, sendo impedidos somente durante a guerra. Ashmole não escreveu nada sobre a Maçonaria além das duas breves entradas em seu diário. Moray, por outro lado, escreveu uma grande quantidade, principalmente descrevendo e interpretando o uso da Marca do Maçom e o que a Maçonaria significava para ele [15]. Ele não revelou o que poderia ser considerado um segredo Maçônico e não estava preocupado com as pessoas o reconhecendo como Maçom [16]. Em comparação a Ashmole, Moray considerava seu ingresso a uma Loja muito importante, e a Maçonaria e particularmente sua Marca de Maçom com um símbolo místico significante.

Moray e Ashmole compartilhavam algo em comum – o interesse em alquimia. Moray construiu um laboratório de alquimia no Palácio Whitehall. Os quartos foram doados pelo Rei. Ele era amigo pessoal de Charles II (1630-1685) e foi essa amizade fundamental para obter a aprovação para a Royal Society em 1662 [17]. Um de seus experimentos foi a tentativa de extrair chumbo de uma rocha e depois de transformar esse chumbo em prata. Nisso ele foi parcialmente sucedido e relatou os resultados do experimento para a Royal Society.

CONCLUSÃO

Podemos ver no breve resumo do sistema de Lojas Escocesas descrito acima que mais de 100 anos depois da existência de qualquer Grande Loja, as Lojas de Maçons Operativos já iniciavam não-operativos. Eles o fizeram por uma variedade de razões e uma vez feito, nunca mais pararam a admissão de não-operativos em suas Lojas. A Maçonaria Especulativa Moderna nasceu entre várias adições, mudanças e elaborações. A mudança nas Lojas de Operativos para Lojas Maçônicas Modernas é conhecida como a “Teoria da Transição” e é algo que pode ser visto claramente nos registros escritos das Lojas Escocesas. Os detalhes dos indivíduos reais, Maçons Especulativos, iniciados já em 1634 são parte da evidência escrita. Informações como essa destacam a importância desses registros das Lojas.

Para aqueles que desejam saber mais sobre os primeiros dias da Maçonaria Moderna, não posso fazer melhor do que recomendar os trabalhos do Professor David Stevenson. São eles: “As Origens da Maçonaria – O Século Escocês 1590-1710” (esse livro existe traduzido em português, encontrado em Sebos) e “O Primeiro Maçom – As Primeiras Lojas Escocesas e seus membros (The First Freemasons – Scotland’s Early Lodges and their members, sem tradução até o momento)”.

NOTAS

1 A Loja ainda existe é é conhecida como a Loja de Edimburgo da Capela de Maria (Lodge of Edinburgh Mary’s Chapel), No. 1. Os registros da Loja são de 31 de julho de 1599 e continuam até a presente data.
2 O Ato de Supremacia de 1534 encerrou a autoridade Papal sobre a Igreja na Inglaterra e transferiu-o para a Coroa.
3 Muitas dessas incorporações continuam a existir na Escócia até os dias atuais, incluindo, por exemplo, a Incorporação dos Maçons de Glasgow que possui registros existentes de 1475. Eles agora não confinados a corpos de caridade.
4 Existe muito poucas referências a Lojas antes da Reforma mas o mais importante ocorre em 1491, quando Maçons de Edimburgo foram permitidos a usarem a Loja para “assuntos recreativos”. Veja o Apenso 1, O Mágico Maçônico (The Masonic Magician), pag. 246.
5 Por exemplo um membro de uma Incorporação dos Ferreiros de Dundee foi expulso em 1653 por revelar os segredos do ofício a um não-membro. Veja The Burgh Laws of Dundee, pag. 493.
6 A primeira dessas Lojas foi a Aitcheson’s Haven que começa em 09 de janeiro de 1599.
7 As estátuas foram recentemente reproduzidas no The Rosslyn Hoax?, Apenso 1 e 2. pags. 330 – 335.
8 Later the 2nd Earl of Stirling.
9 Veja: ‘From Elias Ashmole to Arthur Edward Waite’ em Philalethes, Winter 2011, págs. 22 – 23.
10 Santo André é o Santo Padroeiro da Escócia.
11 Por essa razão que elas são ocasionalmente referidas como as “Lojas de Schaw”.
12 Veja: ‘From Elias Ashmole to Arthur Edward Waite’ em Philalethes, Winter 2011, pág 24.
13 Esses rituais ou catecismos foram descobertos desde 1930 quando o mais antigo deles, o Edinburgh Register House MS datado de 1696 foi descoberto e anunciado ao mundo Maçônico na ‘Ars Quatuor Coronatorum’ (AQC) Volume 43, págs. 153 – 155. (Esse é o jornal anual da Loja Quatuor Coronati, No. 2076 a mais antiga Loja de Pesquisa do mundo).
14 Outros Rituais pré-Grande Loja nessa família são documentos datados de 1700, 1705, 1710 e 1715.
15 Esse debate está contido em Kincardine Letters escrito entre 1657 – 1659.
16 Pelo ponto de vista histórico, é uma pena que ele não discorreu sobre qualquer aspecto dos rituais da Loja incluindo os tão chamados “segredos” mas talvez isso tenha ocorrido indicação que ele levou do seu juramento (obrigação) ao coração.

17 A Sociedade foi, de fato, garantira por três cartas Reais: 1662, 1663 e 1669 todas durante o tempo de vida de Moray. Na segunda delas “o próprio Rei se declara Fundador e Patrono da Sociedade.’

A imagem da Marca do Maçom de Robert Moray, desenhada pelo mesmo.

domingo, 8 de julho de 2018



QUE TAL CONSTRUIRMOS PONTES NA MAÇONARIA (SÓ PARA VARIAR) OU: COMO NASCEM OS CISMAS MAÇÔNICOS?



Posted By Edgard Costa Freitas Neto on 23 de setembro de 2016


“Cultivai o amor fraterno, pedra angular e de cumeeira, cimento e glória desta antiga Fraternidade, evitando assim o rancor, a intriga, a maledicência, as rixas, não permitindo a difamação contra um irmão honesto, mas defendendo seu caráter e prestando seus bons ofícios” – Thomas Smith Webb, Ilustrações

Se existe algo tão antigo como a Maçonaria são as crises que precipitam mudanças radicais. O próprio surgimento da Grande Loja de Londres em 1717 (ou 1721, conforme recentíssimos desenvolvimentos historiográficos. Confira aqui, aqui e aqui) decorre – aparentemente – de um movimento de insatisfação com a gestão do último Grão Mestre operativo, Christopher Wren. As crises estão aí desde o início: geraram Potências, Ritos, Lojas…

Pois bem. Faço parte de ao menos uma dezena de grupos maçônicos de Whatsapp. Para falar a verdade todos, menos o da minha Loja, o dos meus contemporâneos de DeMolay/Filhas de Jó e da minha família ficam permanentemente no modo silencioso. Mas os grupos estão lá, funcionando 24/7, e esporadicamente eu leio um deles, posto alguma coisa em outro, etc.

Quando olho esses grupos, em especial os mais inespecíficos, me deparo com as seguintes situações:
a. Os infames “bom dia”
b. Calendários de efemérides maçônicas e transcrições do Breviário de Rizzardo da Camino
c. Correntes de alertas duvidosos
d. Correntes religiosas
e. Tretas.
As tretas, por seu turno, costumam ser originadas de
I. Discussões políticas e religiosas, bastante comuns entre os tiozões do caps lock
II. Indiretas reais, oriundas de tretas externas na Loja ou na potência
III. Pseudo indiretas, quando alguém interpreta (erroneamente) uma afirmação como indireta e veste a carapuça inadvertidamente
IV. Diretas, que têm por objetivo criar, semear ou fortalecer tretas.

Muitas se aprofundam por dificuldades de leitura e escrita: Tons de sarcasmo, ênfase, ironia, agressividade, passividade por vezes não são devidamente compreendidos , usados ou aceitos.

Quase na sequência das tretas vêm as comentários de lamentações: “Vaidade!”, “Lamentável!”, “Isso é Maçonaria?”.

Sim, é. As brigas são um dado da realidade. Só que, como bem afirmou Nosso Senhor: “Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!” (Mt 18:7).

Neste pequeno trabalho pretendo lançar uma hipótese sobre como algumas crises surgem, a partir das minhas observações, e lançar uma proposta de como os maçons devem reagir a elas.

A. O DESPOTISMO ESCLARECIDO COMO FERMENTO DAS CRISES

Em uma certa ocasião uma discussão em um grupo se iniciou a partir de um comentário sobre um determinado problema de intervisitação entre potências. Um dos irmãos disse que o ideal seria que não houvessem tantas potências, mas sim uma unificação geral das potências sob uma só (não por acaso, a dele). Resolvi ponderar que as concepções de Maçonaria às vezes são tão radicalmente diferentes que não é possível a convivência administrativa destas correntes. Explico.

Na história administrativa da Maçonaria podemos identificar, grosso modo, duas concepções radicalmente diferentes de gestão maçônica nacional: Uma concepção centralista e outra, descentralizada.

Faço observar, entretanto, que a diferença de ambas é de grau, pois observo que toda potência maçônica tende à centralização de poder na figura do Grão Mestre. Isto se deve, primordialmente, aos deveres de obediência prestados pelos Maçons às suas respectivas potências, nas pessoas dos seus Grãos Mestres, que não raro redundam num temor reverencial pelos Grãos Mestres.

Por exemplo. Recentemente uma potência maçônica puniu de maneira drástica alguns irmãos pelo delito maçônico de criticar abertamente seu Grão Mestre. Na esteira desta crise uma verdadeira caça às bruxas se instalou contra qualquer forma percebida de dissidência, inclusive em corpos distintos da alçada da Maçonaria Simbólica, como ordens paramaçônicas e altos graus de ritos. É claro que quem está atento aos grandes debates contemporâneos sabe que estou me referindo à crise na Grande Loja do Arkansas, nos Estados Unidos (né?). 

É um lugar comum na ciência política que toda concentração de poder acaba levando ao seu abuso. Isso vale da Loja à Potência. Ocorre que há quem veja na figura do Grão Mestre o papel de um Déspota Esclarecido, ou seja, um monarca com poderes quase totais mas dotado de boas intenções e da razão iluminada. E há quem entenda o contrário, que o Grão Mestre nada mais é do um mestre maçom eleito pelos seus pares para gerir temporariamente a potência, e que portanto não pode ter mais poderes do que a Assembleia que o elegeu.

Estas duas visões são inconciliáveis, do ponto de vista administrativo, e são uma razão mais que suficiente para a existência de uma multiplicidade de potências.

Devemos observar que a exortação à obediência vem desde as Old Charges. Mas nem James Anderson, nas suas Constituições ignorava que a obediência não é devida ipso facto do posto, mas dependia de o Grão Mestre manter sua legitimidade natural ante os maçons, como veremos:

XIX. Se o Grão Mestre vier a abusar do seu poder ou se revelar indigno da obediência e sujeição das Lojas, deve-se lidar com ele com base em novos regulamentos acordados, pois até hoje nossa antiga Fraternidade não tem precedentes disso, já que todos seus antigos Grão Mestres se comportaram de modo condigno ao seu posto

Muitos dirigentes – sejam Grão Mestres ou Veneráveis Mestres – apresentam uma dificuldade, pois, de compreender que a obediência e a reverência não são consequências naturais do posto, mas da conduta. E, desta maneira, enxergam em qualquer dissidência ou crítica pública um verdadeiro crime de lesa majestade a ser expurgado, ignorando por vezes a necessidade de “julgar cada violação às nossas normas com candor, advertir fraternalmente e repreender com justiça.” (Webb, op cit).

Ocorre que, se nos reportarmos a John Locke, filósofo bastante em voga nos tempos de Anderson, veremos que o objetivo do Governo é o bem dos homens. “E o que é melhor para eles? Ficar entregues à vontade desenfreada da tirania ou os governantes por vezes sofrerem oposição, quando exorbitem no uso do poder(…)?”. Governo é confiança da parte de quem o elegeu, e esta confiança pode e deve ser retirada caso o governo não corresponda à confiança em si depositada e invada a propriedade de seus súditos ou tente fazer “de si mesmo ou de seus apaniguados senhores da vida, liberdade ou riqueza do povo”(in Segundo Tratado sobre o Governo. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 148).

Agindo diligentemente para silenciar as dissidências públicas os governos dos déspotas esclarecidos pensam que estão debelando crises. Crise! Na sua origem etimológica indo-europeia, skribh, que significa separar, cortar, distinguir, julgar (cf. DIP, Ricardo. Direito Penal: Linguagem e Crise. São Paulo: Millenium, 2001). E assim as crises se fermentam: numa dissociação cada vez maior entre as pessoas que se aprofunda até o ponto de ruptura.

B. A PRUDÊNCIA COMO MECANISMO DE DESARME DAS CRISES

O filósofo francês René Girard desenvolveu dois conceitos interessantes que podem nos ajudar a desenvolver uma teoria de como debelar as crises maçônicas. O de desejo mimético e rivalidade mimética.

Correndo o risco de imprecisão tentarei conceituar e contextualizar as duas ideias (para mais detalhes, sugiro a leitura de A violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1992) . Os nossos desejos derivam dos desejos de outros pelo que elejo como modelo. Desta maneira, os atores de uma crise podem todos, ao menos da boca para fora, invocar as mais altas razões para suas condutas: a preservação dos melhores interesses da sociedade maçônica. E justamente aí surge o problema: os desejos diferentes convergem sobre o mesmo objeto, e não é (sempre) possível conciliá-los. Surge aí a rivalidade, e com ela, em uma espiral, as crises que se sucedem.

Eis um exemplo estritamente hipotético desta espiral de crises. Dois irmãos disputam o posto de Venerável Mestre. Somente um, entretanto, pode ser instalado por vez. O derrotado passa a criticar as ações do vencedor, que por sua vez enxerga aí um obstáculo para a concretização de seu plano de governo. Na primeira oportunidade ele usará do seu poder para punir o irmão dissidente, precipitando uma debandada de membros, ou outra ação retaliatória em outra esfera, que por sua vez demandará outras retaliações.

O que eu venho a propor não se destina primordialmente aos atores da crise, mas aos seus espectadores.

Um dos pontos, por vezes negligenciados nos estudos maçônicos, é a ponderação sobre as virtudes cardeais. Delas pinçamos a prudência como chave para esta proposta.
Thomas Smith Webb, em seu Monitor, nos fala da prudência:

“A prudência nos ensina a regular as nossas ações e nossas vidas aos ditames da razão, ou seja, ao hábito constante a partir do qual julgamos com sabedoria e determinamos os justos meios relativos ao bem nas situações presentes ou futuras. Esta virtude deve ser característica peculiar de cada maçom, não apenas no governo da sua conduta na Loja, mas também no mundo afora”.

A prudência, diz C. S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples, “significa a sabedoria prática, parar para pensar nos nossos atos e em suas consequências”. O catecismo católico lembra, sobre a prudência, que ela é a virtude “que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo.”. É precisamente a isso que se refere a Ordem De Molay quando exorta os irmãos a garantirem o benefício da dúvida: Sem saber com precisão o que aconteceu e o que pode acontecer convém agir com parcimônia.

É preciso também vigiar nossas próprias palavras. As discussões e dissensões não devem ser proibidas, mas exercitadas com base na retórica, ou seja, “não apenas com propriedade mas também com a ênfase e a elegância necessárias para cativar o ouvinte pela força do argumento e a beleza da expressão, seja para entretê-lo ou exortá-lo, repreendê-lo ou exaltá-lo” (Webb, op cit)

Os espectadores têm um papel fundamental no desenvolvimento de uma crise. Ao aceitarem um dos lados, eles se tornam atores, pois replicarão em suas esferas o conflito, e incentivarão, pela adulação, os atores principais a continuarem a contenda.

Minha proposta é simples: Todos os homens por acaso não têm direito aos nossos bons ofícios? Esta fórmula, presente em muitos rituais, muitas vezes passa batida. A ideia de bons ofícios foi quase esquecida. A doutrina do direito internacional define os bons ofícios como sendo meios diplomáticos e facultativos de resolução de conflitos que não se preocupam com as normas preexistentes, mas em criar, construir, uma solução pacífica, justa e honrosa o suficiente para ser aceita pelas partes, através de uma terceira parte não envolvida que se voluntaria para essa função.

Exemplos práticos: Em um conflito entre dois irmãos um terceiro, da confiança de ambos, pode se voluntariar para tentar pacificar ambos. Em um conflito entre duas lojas uma terceira loja pode exercer este papel; Entre duas potências, uma terceira potência, e assim sucessivamente.

Isto é diferente de abafar um conflito ou de jogar as tensões para debaixo do tapete. Os bons ofícios oferecem uma proposta de resolução minimamente agradável a ambos. Mas para poder oferecer seus bons ofícios é necessário, antes, que o terceiro não se envolva e evite expressar publicamente qualquer juízo de valor sobre o conflito.

C. CONCLUSÃO

Podemos usar uma analogia com as construções de arcos usados nas pontes. Nos arcos as tensões entre as peças conduzem ao colapso da estrutura se não houver uma peça central, uma pedra-chave, maior que as demais (e resistir à tentação de entrar em certas tretas é uma tarefa hercúlea) capaz de transmitir lateralmente as tensões.
A prudência é esta nossa pedra-chave, neste contexto. Sem ela a estrutura desmorona pela ação implacável das tensões. Os contendores agem como construtores que rejeitam a pedra-chave por não ver utilidade nela e por crerem que o edifício se sustenta apenas em pedras idênticas. O agir prudente, assim, tanto pode servir como estímulo para evitar o surgimento de tensões ou, se não, pode ajudar a reparar a estrutura. Basta que haja um mínimo de boa vontade, torcida a favor e disposição de alguém para demonstrar a utilidade daquela pedra para restaurar a ordem no canteiro e reconstruir a ponte que ligue ambas as partes.

Mas, claro, sem boa vontade dos contendores não há o se fazer senão reconhecer a justeza dos versos de Gregório de Mattos:

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

O CONCEITO MAÇÔNICO DE LIBERDADE: MAÇONARIA E ILUMINISMO


Posted By Edgard Costa Freitas Neto on 13 de fevereiro de 2016

O presente artigo foi publicado no site Pietre-Stones Review of Freemasonry, sendo de autoria do Irmão Alex Davidson, Past Master das Lojas United Masters #167 e Liberal Arts #500 da Grande Loja da Nova Zelândia. Pela sua relevância acadêmica, providenciamos aqui sua tradução para o português.

O conceito maçônico de liberdade: Maçonaria e Iluminismo

Por Alex Davidson, Past Master

Tradução: Thiago Tavares de Figueiredo, C∴ M∴

O recém-iniciado maçom assimila rapidamente os conceitos da Ordem. Ele foi instruído a nunca propor, sob nenhuma hipótese, nenhum ato que venha a subverter a paz e a boa ordem da sociedade e para prestar boa obediência às leis do Estado. Ele é instruído para se abster de discutir qualquer tópico político ou religioso em loja e, por dedução, no jantar após a sessão.

Se ele vier, eventualmente, a assumir a cadeira do Rei Salomão, ele personaliza sua aceitação das Antigas Obrigações, a terceira das quais ordena ele a não se envolver em tramas ou conspirações contra o governo, mas pacientemente se submeta às ordens legais. Ele recebe a aprovação de seus pares se ele for um sujeito pacífico e obediente da lei.

No curso de seus empreendimentos para fazer um avanço diário em conhecimento maçônico, nosso maçom hipotético entende que a Ordem temordens antigas contra discussão política e ação revolucionária. As antigas “Sinclair Charters” da Escócia reconhecem explicitamente o patrocínio e proteção da Coroa, e em um manuscrito do século XVIII, é demandado dos maçons:


“…que você seja um homem leal ao rei sem nenhuma traição ou falsidade, e que caso você saiba de alguma traição ou falsidade você deve tentar muda-la ou informar o rei a respeito.” (Manuscrito de Buchanan)

O 2° dever das Constituições de Anderson (1723) contém a afirmação que “o maçom é um sujeito passivo aos poderes civis, não importa onde resida ou trabalha, e nunca se envolva em tramas ou conspirações contra a paz ou bem estar do país.” Essa situação parece um pouco ambígua.

Entretanto, após mais pesquisas, nosso bom maçom não pode ficar tranquilo que a constatação de uma contradição flagrante na história da Maçonaria. Ele descobre que os líderes revolucionários americanos de 1776, muitos dos escritores da Constituição e Declaração dos Direitos dos Estados Unidos, e também os dois primeiros presidentes americanos foram ao mesmo tempo maçons e rebeldes contra o seu governo e soberano por lei. Ainda mais alarmante, muitos dos atores políticos principais da Revolução Francesa, particularmente durante sua primeira fase, eram proeminentes maçons franceses, mobilizados pelo slogan originalmente maçônico de: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade.”

Avançando no tempo após 1789, ele aprende que grandes revoluções do século seguinte foram lideradas por maçons: Simon Bolivar, José de San Martin e Bernardo O’Higgins na América do Sul; Vicente Guerrero e depois Benito Juarez no México; José Martí em Cuba, José Rizal nas Filipinas e Giuseppe Garibaldi na Itália. Mais notável, os texanos que se rebelaram contra o governo do México e lutaram uma bem sucedida guerra de separação, eram predominantemente maçons, e também, todos os presidentes e vice-presidentes da República do Texas eram maçons! O que ele pensará disso tudo?

O grande paradoxo da Maçonaria é que sua história está entrelaçada de modo inextrincável com a história das Revoluções dos séculos XVIII e XIX, e do mesmo modo seus escritos rejeitam firmemente desobediência política e condena subversão e revolta contra o governo de qualquer país. Eu pretendo desvendar esse paradoxo de duas maneiras; uma filosófica e outra histórica. Para a primeira adotei a avançada tese de Giuliano di Bernardo, professor de filosofia, e para a segunda me refiro particularmente a um volume de Margaret Jacobs, professora de história (obviamente, não maçom).

As duas maneiras, como deveremos ver, não são apenas compatíveis mas também complementares.

É dito com frequência que as Constituições originais da Ordem foram formuladas dentro de um contexto histórico particular na Inglaterra, caracterizado pela dissidência da Casa Real de Hanover de um lado e os apoiadores de James Francis Edward Stuart, ou James III para os jacobitas, do outro lado. Com apoiadores das duas facções nas lojas inglesas, tentativas foram feitas para evitar conflito protegendo as duas. A situação era realmente mais complexa do que isso, como veremos, mas essa representação cria um bom ponto de partida. Não desejando inflamar diferenças políticas entre irmãos, é dito que Anderson sabiamente excluiu dos discursos educados esse tópico, e enfatizou a lealdade e natureza pacífica dos membros da Maçonaria.

Curiosamente, entretanto, as Constituições de 1723 proíbem especificamente a expulsão de um irmão por crimes políticos como fomentar uma revolução, embora eles insistam que “a leal irmandade deve e tem a obrigação de desfazer sua rebelião”. A chave para entender a atitude equivocada perante a divergência do conceito de liberdade e o contexto filosófico em que a irmandade entendia este termo “liberdade”.

Registros de uma loja do século XVIII descreviam muito sobre a “liberdade” dos irmãos, ou enfatiza em um termo mais antigo, “fraternidade”, ou buscando descrever a relação entre todos os irmãos, fala em “igualdade”. O que, precisamente, os maçons dessa época queriam dizer com essas palavras? Liberdade era claramente concebida como algo diferente do costume da Guilda para conferir aos seus membros as “liberdades e privilégios” para praticarem sua profissão. A edição da enciclopédia maçônica de Mackey do começo do século XX diz:


“a palavra independência não está aqui para ser entendida pelo senso moderno de liberdade, mas ao invés no seu significado Anglo-Saxão de franqueza, generosidade, uma vontade generosa de alguém trabalhar ou exercer o seu dever.”

De fato, para os maçons da Inglaterra do século XVIII, a palavra liberdade não era entendida pelo seu sentido primitivo, mas precisamente segundo interpretação dada pelo filósofo John Locke em sua obra de 1690: “Dois Tratados Sobre o Governo Civil”.

Argumenta-se que Locke teria sido maçom baseados em uma carta que ele escreveu datada de 1696. Porém, isso agora é considerado uma fraca evidência, mas o ponto importante é que todos maçons devotos acreditavam, firmemente que Locke havia sido iniciado na Ordem. Ele foi, de fato, feito um membro da Sociedade Real em 1668, um “viveiro” da maçonaria, e seus amigos particulares lá eram Robert Boyle, conhecido maçom e Isaac Newton, membro de uma sociedade semi maçônica. A maçonaria no século XVIII tem sido descrita em algumas ocasiões como rousseauniana, mas principalmente, poderia ser também, e era, no tardar dos anos 1760, lockeniana, como também essencialmente republicana.

Os Dois Tratados Sobre o Governo Civil foi o fruto de anos de reflexão sobre os princípios verdadeiros da política, reflexão baseada nas próprias observações de Locke. O governo, acreditava Locke, é uma instituição baseada em um cargo de confiança, seu propósito é garantir a segurança do indivíduo e da propriedade; e o sujeito tem o direito de cessar sua confiança no governante quando o mesmo fracassa em seu dever. Governo e poder político são necessários, assim como é a liberdade do cidadão; e uma monarquia constitucional e democrática é possível um tipo de governo onde as pessoas sejam livres.

Locke escreveu que não podemos ser obrigados a termos um governo no qual não tenhamos dado algum sinal de consentimento (Livro II, §.119) e que “o objetivo final da lei é para preservar e aumentar a liberdade” (II, 57). Governos são dissolvidos quando o “Legislativo, ou o príncipe, agem de forma contrária a seu cargo de confiança depositada neles” (II, 221), e “o poder é revertido ao povo“, que então deverá estabelecer um novo legislativo e executivo (II, 222). É o povo que decide quando sua confiança foi violada, porque somente o homem que é mandado pelo poder pode dizer quando é abusado (II, 240). No caso de um impasse “o apelo final é por Deus“, o que significa para Locke, revolução.

Liberdade é a antítese de tirania, pois “como uma usurpação do exercício de poder, em que o outro tem o mesmo direito; então a tirania é o exercício de poder além do direito, em que ninguém tem o direito. E isso faz com que o uso do poder que alguém tenha em mãos seja usado para sua vantagem pessoal e não para o bem daqueles que estão abaixo dele.” (II, 199) ; “Quando uma pessoa ou mais começam a fazer leis sem que o povo os tenha autorizado para tal, eles criam leis sem autoridade; e portando o povo tende a não obedecê-la; …” (II, 212)

“O fim do governo é para o bem da humanidade, em que é o melhor para a humanidade, em que o povo esteja sempre exposto a vontade arbitrária da tirania, ou que os governantes devem estar, às vezes, aptos a serem opostos, no momento em que eles crescem exorbitantemente no uso de seus poderes e leva a destruição e não a preservação das propriedades do seu povo? ” (II, 229). Numa situação como essas, uma revolução é justificável, pois “quando o Rei se coloca em um estado de guerra contra seu povo, o que os habilitam de acusa-lo de não ser o rei, como faria qualquer outro homem, que teria se colocado em estado de guerra contra eles; …” (II, 239)

Giuliano di Bernardo forma seu argumento sobre liberdade em torno das ideias de Locke e do filósofo utilitário do século XIX John Stuart Mill, argumentando que se a validade incondicional das proibições maçônicas fossem admitidas, então os maçons seriam obrigados a respeitar qualquer Estado de poder civil, fosse ele democrático o tirânico: “Mas então, como pode fidelidade ou indiferença ser reconciliada com a antropologia filosófica maçônica que postula a liberdade entre um dos elementos fundamentais que possui um maçom? Liberdade e tirania não são compatíveis entre si, elas são amplamente contraditórias. Portanto, a maçonaria não pode ser indiferente com a tirania.” (p. 141).

A interpretação de Di Bernardo é que “o maçom é um sujeito pacífico para aqueles poderes civis que garantem a expressão de liberdade fundamental“. Pois: “se isso não fosse possível, então não seria possível entender, por que, por exemplo, maçons americanos (Washington, Jefferson, Franklin e outros), depois de terem aceitado ao Constituições de Anderson…, conspirassem e declarassem guerra contra a Terra Mãe. E também, não ficaria claro por que maçons de todas as partes do mundo em épocas diferentes lutaram contra toas formas de tirania. E finalmente, seria difícil de entender os pensamentos e ações desses maçons que dedicaram suas próprias vidas para garantir que os princípios que tornaram possíveis a transição de um tipo de sociedade medieval e autoritária para uma sociedade fundada nos direitos de homens e nações. “ (p. 141)

A liberdade, portanto, denota em debate maçônico sobre os direitos e deveres dos maçons.

Agora começamos a entender por que membros proeminentes da ordem maçônica foram fundamentais nas revoluções dos séculos XVIII e XIX. A questão permanece, por que os maçons ingleses (e escoceses) do século XVIII enfatizaram obediência aos poderes e respeito pelas suas leis em suas constituições e outros escritos. Para responder a essa questão e completar nossa resolução do grande paradoxo da Maçonaria agora deveremos desviar nossa atenção da filosofia para a história.

A Maçonaria especulativa existe na Inglaterra desde pelo menos 1646, quando Elias Ashmole foi feito maçom na loja de Warrington. Primeiramente membros não operativos constituíam uma pequena minoria, mas no tardar do século XVII e começo do século XVIII, registros de lojas revelam uma rápida conversão das guildas de trabalhadores operativos para sociedades privadas de maçons livres e aceitos.

Simultaneamente, houve uma consolidação de poder do parlamento para governar a nação; os Whigs cresceram em ascendência como protetores da herança revolucionária de 1688/1689, e o poder econômico das guildas profissionais declinou.

A Maçonaria “especulativa” talvez tenha se desenvolvido sob influência de William Schaw na Escócia e mais tarde se espalhou pela Inglaterra, mas a essência do Iluminismo maçônico é caracteristicamente inglês, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII foi algo novo. A ênfase nas Constituições, leis e governança se originou em Londres.

Alguns pesquisadores dizem que a Maçonaria se manteve prudentemente silenciosa durante o Protetorado e somente após a Revolução Gloriosa de 1688/1689 que emergiu ao conhecimento geral. Em 1717 estava bem estabelecida, e as lojas em número suficiente para quatro lojas londrinas colocarem uma instituição acima delas e formarem a Grande Loja. Em 1720, membros da Sociedade Real estavam proeminentemente nas lojas londrinas, e até 1725 já eram 64 lojas na lista da Grande Loja.

A guilda profissional se moldou gradualmente a uma sociedade a qual manteve os antigos costumes enquanto incorporava os interesses e valores de classes superiores que agora haviam sido recrutadas e que rapidamente viria a dominar. Bernard Jones observa que as velhas penalidades perderam sua praticidade, mas elas continham alguns materiais para serem salvos e preservados de outras maneiras. A antiga linguagem religiosa desapareceu e a guilda completa com seus mitos e rituais foi incorporada para se transformar em algo novo.

A maçonaria rapidamente se espalhou pela Escócia e Irlanda, e para a América e Europa, primeiramente na França e Holanda, mais tarde para estados alemães e outros países. Isso tudo é familiar: agora, eu tenho a intenção de observar mais atentamente o pensamento e prática maçônica ao que diz respeito a política e sociedade, e sua relação com o fenômeno histórico que nos referimos agora como o Iluminismo.

Na época da formação da Grande Loja, a situação britânica era única. Como resultado de suas revoluções de 1640 e 1688, eles asseguraram um governo parlamentar e constitucional. Entretanto, a Maçonaria não causou nem participou dessas revoluções. Para assegurar respeitabilidade, maçons ingleses permaneceram silenciosos em qualquer eventual participação dos membros da Ordem, e maçons continentais cuidadosamente reconstruíram a histórica mítica das origens de Hiram e o templo do Rei Salomão, atravessando as Cruzadas e os Cavaleiros Templários até a Inglaterra do século XVII.

A estória do exilado cavaleiro católico jacobino exilado, Ramsay, de a Maçonaria chegando na França através dos reis medievais da Escócia era popular, passando ao largo de todas as revoluções. Maçons britânicos evitavam cuidadosamente toda menção de associação com essas revoltas. A origem especificada Maçonaria britânica rendeu de imediato suspeita na maioria dos países continentais onde parlamentarismo, revoluções, Constituições e atos de tolerância eram vistas intrinsecamente como subversivas.

Desde cedo em sua história a maçonaria foi acusada de possuir intenções democráticas e republicanas, se não comunisticas, primeiro pela Igreja Católica, e mais tarde por seus oponentes da Revolução Francesa. Críticos clericais foram rápidos em identificarem o G∴A∴D∴U∴com o Deus dos deístas. Em 1738, o papado condenou a Maçonaria, tendo como ofensa principal que ela imita um aspecto de Governo Republicano, seus líderes são escolhidos ou afastados pela vontade dos membros. Isso era tido como escandaloso. O mito de que [Oliver] Cromwell tinha sido o fundador da Maçonaria foi espalhado pela França. Entretanto, contém uma verdade simples: essa sociedade privada uma invenção britânica, não continental.

As lojas britânicas eram uma inovação surpreendente enquanto seus membros se encontravam sociavelmente como indivíduos nas lojas, ao invés de dentro dos confins familiares, igreja, confraria ou outros corpos tradicionais que primariamente refletiam suas posições na sociedade em geral.

Existe uma razão por que essa forma de socialização cresceu primeiramente na Grã-Bretanha. Suas profissões e guildas se enfraqueceram antes do que no resto do continente, e a economia de mercado foi avançada ainda mais. Até às guildas de mercadores escoceses foram negadas privilégios de monopólio pelo parlamento escocês em 1672. Já nos anos 1720 a sociedade britânica permitia interações sociais mais abertas e relaxadas (porém não necessariamente o casamento) entre lordes, pequena nobreza e plebeus. Em seus escritos, um jovem visitante francês nos anos 1720, Voltaire, fez essa peculiaridade famosa. Com isso foi chegado a um grau de tolerância religiosa desconhecida exceto na Holanda.

Quem eram esses maçons, e de que consistia a sociabilidade deles? Registros que sobreviveram mostram que eles tinham de educação de moderada a avançada, e eram suficientemente ricos para poderem sustentar as cobranças de taxas de filiação: em outras palavras, eles eram provavelmente congruentes com os 20% de cidadãos homens britânicos que tinham plenos direitos de cidadania. A socialização deles frequentemente incluía comer e beber em excesso, embora seus ensinamentos e escritos censurassem retamente esse comportamento sibarítico. Eles conversavam, debatiam e discutiam, e nós temos conhecimento suficiente da natureza de suas discussões para reconstruirmos a visão de mundo deles, política e significados para modificar a sociedade.

Entretanto, esses maçons fizeram mais do que simplesmente se reunir e conversar. Na sociabilidade privada deles, eles estabeleceram uma forma de auto governo, completo com Constituições e leis, eleições e representantes. Eles outorgaram essa soberania nesse governo e deram a ele suas obediências, ainda que poderia ser alterada ou removida pelo consentimento da maioria dos irmãos. As lojas se tornaram microscópicas entidades civis, novos espaços públicos em efeito escolas de governo constitucional.

As virtudes buscadas por essas lojas eram presumidamente para serem aplicadas para governabilidade, ordem social e harmonia, e esfera pública. Os seus significados eram suas habilidades em ensinar homens a se distinguirem pelo seu mérito assumido em como integrar valores iluministas com os hábitos de governabilidade. As lojas empreendiam para civilizar, ensinar conduta e decoro, para melhorar a sociedade civil. Eles ensinavam homens como falar em público, como realizar atas, pagar impostos, ser tolerantes, debater livremente, votar, moderar seus banquetes, e para devotarem toda suas vidas a outros membros da instituição. Logo se tornaram cidadãos no senso moderno da palavra, ao invés de meros súditos.

A essência da retórica maçônica era invariavelmente cívica. A micropolítica não era intencionada para ser políticas no sentido partidário da palavra. Alguém pode dizer que as lojas eram profundamente preocupadas sobre política sem nunca querer se engajarem na política do dia a dia. Registros maçônicos são claros na falta de envolvimento político específico por parte de quase toda loja europeia. As Constituições maçônicas oficiais publicadas em Londres em 1723 proibiam qualquer desavença sobre religião, nações ou política de Estado. “…nós… somos decididos contra toda política, em que nunca conduziu para o bem estar da loja“. Mas para entendermos essa posição, precisamos compreender o que os maçons londrinos queriam dizer com a palavra política.

Na Grã-Bretanha dos anos 1720, política significava algo diferente do que no resto na Europa. Quando discutindo política, as Constituições maçônicas queriam dizer política partidária, o conflito de grupos organizados precipitado pela evolução de uma nova nação política como resultado do acordo da Revolução de 1688/1689. Política era a competição de poder entre Whigs e Hanoverianos em um parlamento protegido constitucionalmente.

Entretanto, para se evitar política não significava negar o cívico. Como as Constituições proclamaram, Maçonaria era praticada “quando os poderes civis, abominando tirania e escravidão, deram a devida atenção para o brilhante e livre gênio de seus felizes sujeitos…” A contemplação de harmonia social pelos membros da loja se baseavam pela paz e liberdade que eram garantidas pelas autoridades civis. Cada loja era intencionada como um microcosmo de uma sociedade civil ideal.

A Maçonaria inglesa possuía características civis e políticas distintas formadas pelo contexto social derivado da Revolução Inglesa. Como Margaret Jacobs escreveu:


“com linguagem política marcada, as Constituições exaltam o reinado do Imperador Romano Augusto, usando uma linguagem contemporânea que sinaliza identificação com o Regime Whig e Hanoveriano que ascendeu para a dominação política em 1714. Previsivelmente a liderança britânica mais antiga da Grande Loja fundada em 1717 tendia a ser uma variação da de Whigs que são apoiadores de um governo ministerial forte e pela sua própria definição os herdeiros da Revolução de 1688/1689”. (p. 46)

O objetivo do governo pelo consentimento dentro do contexto de subordinação da autoridade legítima foi vigorosamente buscado pela Grande Loja de Londres e foi demandado que toas as lojas se afiliassem com isso. Embora, as lojas fossem sociedades políticas, não como partido ou facção no sentido do termo mas em uma conotação mais ampla. A formalidade da Loja se tornou uma de muitas maneiras que transmitiam uma nova cultura cívica e política, baseada no constitucionalismo que opunha privilégios tradicionais e autoridade estabelecida por hierarquia.

Essa nova cultura, com a Maçonaria na vanguarda, é conhecida hoje como o Iluminismo, uma passagem crucial no desenvolvimento europeu. Começou na Inglaterra, mas foi fortemente assimilado na França, onde eventos tiveram um desfecho um pouco mais dramático. É argumentado que os hábitos do povo de pensar eram baseados na irracionalidade, poluída por dogma religioso e muito baseado no precedente histórico e tradição irrelevante. O caminho para escapar disso era através da busca de conhecimento verdadeiro em todas as esferas da vida, estudo das artes liberais e ciência, estabelecer a verdade e construir em cima disso. Suas premissas eram liberais, pró ciência, anti-superstição e que o Estado era o veículo apropriado para a melhoria da condição humana.

A essência da filosofia do Iluminismo era a razão. A lógica foi tomada emprestada dos gregos desde os tempos de São Tomás de Aquino, mas Descartes e outros filósofos do século XVII aplicaram a razão para as questões tradicionais, julgando ser isso o caminho para a verdade. Eles entenderam que lógica por si só poderia ser usada para defender as noções absurdas de todas as maneiras e insistiram que ao combinar isso com um novo princípio que incorporava senso comum, observação e todos preconceitos não reconhecidos em favor do ceticismo e da liberdade.

A classe mercante que estava crescendo era a força propulsora do Iluminismo. Eles acreditavam firmemente que sua nova riqueza encontrada era resultado dos seus méritos individuais e trabalho árduo, diferente da riqueza herdada dos aristocratas tradicionais. Mas os obstáculos principais para reformular a Europa pela classe mercante eram as mesmas que eram enfrentadas pelos filósofos racionalistas, reis absolutistas e igrejas dogmáticas. Durante a dificuldade, individualismo, liberdade e comunidade reformulada, estabilidade e tradição como valores fundamentais europeus. A religião sobreviveu, mas foi enfraquecida e transformada quase ao ponto de não ser reconhecida, a monarquia diminuiu durante o curso do próximo século para uma sombra opaca do que era antes.

Na Inglaterra, enquanto a liberdade política e liberdade de expressão foram limitadas antes da revolução gloriosa, as então chamadas “coffee-houses”, que cresceram no período de 1670-1685, estabeleceram um ponto de encontro onde as crescentes classes médias poderiam se encontrar e se engajarem em discussões. Jurgen Habermas, o proeminente filósofo alemão, argumentou que a esfera pública apareceu primeiro na Inglaterra dos anos 1690`s, após a Revolução Inglesa, e ele via a Maçonaria como a antecipadora da adoção europeia dessa esfera como uma alternativa do absolutismo. Nesse ponto, ele identifica os primeiros momentos na formação da sociedade civil moderna. A loja, a sociedade filosófica, a academia científica se tornou subjacente, como filósofos como Habermas e outros historiadores já acreditavam há um bom tempo, para as formas de governo republicana e democrática que evoluíram lentamente e de forma adequada na Europa ocidental a partir do final do século XVIII.

Entretanto, não demorou muito para que uma divisão ocorresse na Maçonaria inglesa, em uma forma de separação entre a Grande Loja e grupos de lojas que se separaram e se chamava de “Antigos”, e a Grande Loja sendo chamada “Modernos””. Entre 1739 e 1751 os separatistas formaram uma grande loja rival, e os dois não reconciliaram até 1813. Bernard Jones atribui isto para a apatia e negligência da liderança da Grande Loja e sua aparente inabilidade para reger a Ordem e diferenças ritualísticas e práticas cerimoniais. Um certo elemento irlandês participou, sem dúvida, da divisão.

Esses pontos são bem disseminados, mas Margaret Jacob expõe uma divisão política e social por trás dessa separação que é mais interessante e persuasiva. Embora se dissesse que todos maçons eram iguais, isto não prevenia o papel que as lojas exerciam como lugares que replicavam a hierarquia social e ordem, baseado não em nascimento por assim dizer mas em uma ideologia de mérito. As lojas refletiam a ordem antiga mesmo que estivessem criando uma forma de sociedade civil que ultimamente a substituiria.

Apesar de sua retórica de igualdade, as primeiras lojas eram elitistas, extraindo seus membros dos literatos e modestamente ricos a muito ricos. A liderança era em sua maioria Whig, e eram Whigs poderosos e formadores de opinião. Originalmente os Whigs formavam a força revolucionária por trás da constitucionalidade e liberdade: e então se tornaram parte do “establishment”, e buscavam desencorajar fervores revolucionários através do estímulo de um comportamento de obediência a lei e paz. Isso mais do que a questão dos jacobinos e Hanoverianos, é a fonte das proibições maçônicas de subversão e até das discussões políticas em loja. Jacob nota:


“O maçom buscava fortuna, ele queria prosperidade, mas sem decadência. Ele tinha a mesma consciência daqueles Whigs que queriam viver como a corte e receber seus benefícios, enquanto buscava de alguma forma evitar a inclinação inevitável de indecência e corrupção. Então os editores maçônicos enfatizaram a ritualística em aspectos fraternais de refeições, bebidas e música, buscando torná-los expressões simbólicas de unidade maçônica, harmonia e moderação. ” (p. 67)

Ela distingue entre o comportamento da corte do grupo da Grande Loja e a oposição dos menos abastados que deu origem ao surgimento dos antigos, que ela caracteriza como “a revolta dos mais simples contra os mais poderosos.”. A glorificação dos comerciantes e donos de estabelecimentos nos escritos dos antigos é um tema constante, eles se opuseram ao deísmo dos modernos, eles se viam como reformistas. Para adicionar um ar de respeitabilidade para suas inovações cerimoniais, eles descreveram isso como “Escocês”. De outro lado, nos anos 1760 os modernos estavam preocupados em enfatizar lei e ordem contra o radicalismo dos seguidores de John Wilkes e desenfatizar as suas próprias heranças revolucionárias.

Vamos agora considerar a disseminação da Maçonaria. Nos anos 1730 a Maçonaria se tornou estabelecida no continente, especialmente na França e Holanda. Essas lojas consagravam valores culturais britânicos entrelaçados com potenciais problemas subversivos de tolerância religiosa, confraternizando relaxadamente homens extremamente diferentes , de grupos sociais , com ideologia de trabalho e mérito, e não menos importante, governo de Contituições e eleições. Esses valores eram ideais prezados pelo Iluminismo, o movimento cultural internacional que permitiu a pretensão dos seculares e modernos.

Como essas lojas continentais eram réplicas das lojas britânicas, eles transportavam formas de governança e comportamento social foram criados dentro da política cultural única da ilha. Embora homens tenham votado em eleições por séculos nos dois lados do Canal da Mancha, foi apenas na Grã-Bretanha que eles fizeram isso dentro de um modelo constitucional e em uma assembleia legislativa nacional onde a votação era por indivíduo e não pelo estado ou localidade.

Essa forma distinta de cultura política norteou uma nova forma de sociedade civil. Indivíduos com direito de voto, nesse período, uma minoria distinta na Grã-Bretanha, identificada com partidos políticos e problemas nos nível local e nacional. Esses homens liam e debatiam, formaram sociedades de leitura, clubes e lojas, onde eles testavam suas habilidades como oradores e comentaristas, ou estudantes de filosofia e literatura. Nas lojas homens também se tornaram legisladores e escritores de Constituições.

O período revolucionário da Inglaterra ficou para trás, e então foi possível proceder de forma relativamente suave e gradual para o que hoje conhecemos como democracia moderna; mas a liberdade britânica se tornou uma dinamite quando foi transportada para a França, onde a resistência pela Igreja e governantes era intransigente. O resultado foi, ironicamente, que enquanto a Grã-Bretanha permaneceu saturada com privilégios de classe e relativamente religiosa, a França se tornou após sua própria revolução o mais igualitário e anticlerical Estado na Europa – ao menos para seus ideais. O poder da religião e da aristocracia diminuiu aos poucos na Inglaterra, na França, eles foram retirados violentamente.

Em suma, podemos dizer que a maçonaria foi um dos canais, provavelmente o principal canal, onde os valores do Iluminismo foram transmitidos da Grã-Bretanha para a América, França, Holanda e, eventualmente, para todos os países civilizados. A essência da mensagem era liberdade, tolerância e sociabilidade, e sim, como Immanuel Kant, filósofo do tardar do Iluminismo, afirmou a ideia de que através da razão, todos os homens poderiam encontrar um jeito de viver que é satisfatório e gratificante. O que podemos finalmente dizer ao nosso maçom hipotético repleto de dúvidas sobre o grande paradoxo da maçonaria? Primeiramente, podemos endossar com satisfatória segurança a premissa de Giuliano di Bernardo que: “o maçom é um sujeito pacífico para os poderes civis que garantem a expressão de liberdade fundamental.” Sem liberdade, a Maçonaria não pode existir.

Também, podemos demonstrar através da história que a Maçonaria foi, inevitavelmente, portadora de ideais do Iluminismo revolucionário onde a liberdade não existia. Sabemos com razoável certeza que as lojas francesas não praticavam política, mas sua filosofia fez com que muitos dos seus membros se tornassem participantes ativos na política de movimentos revolucionários. A maçonaria foi talvez oficialmente neutra, mas seus membros não eram. E, finalmente, podemos atestar que todos somos, indiretamente, beneficiários da Maçonaria e do Iluminismo: consideramos agora seus valores políticos em geral como tão normais que não damos valor. Secularismo, constitucionalismo e parlamentarismo são suas heranças, evitando a necessidade de ação revolucionária para atingirmos liberdade. Essa é, provavelmente, a conclusão mais importante que podemos tirar desse breve estudo.

Fontes:

di Bernardo, G. Freemasonry and its Image of Man: A Philosophical Investigation (Tunbridge Wells: Freestone, 1989).

Gould, R.F. A Concise History of Freemasonry (London 1903: reprint by Kessinger, 1998).

Habermas, J. The Structural Transformation of the Public Sphere (Boston: MIT, 1989).

Jacob, M.C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe (New York: Oxford University Press, 1991).

Jones, B.E. Freemasons’ Guide and Compendium (London: Harrap, 1973).

Locke, J. Two Treatises of Government (1690; this edition ed. Peter Laslett, Cambridge University Press, 1963).

Mackey, A. Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences (Philadelphia: McClure, 1917).

Link do texto original (em inglês): http://www.freemasons-freemasonry.com/Davidson.html

O York Blog recomenda, como leitura adicional para melhor compreensão das nuances e diferenças dos iluminismos o livro “Os caminhos da modernidade – os iluminismos britânico, francês e americano“, da historiadora americana Gertrude Himmelfarb, publicado no Brasil pela Editora É Realizações.

sábado, 16 de junho de 2018




AS QUATRO FASES DA OBRA ALQUÍMICA

Extraído do Blog do Filardo

Vera Faria Leal

1ª. Fase – NIGREDO, ou obra em negro

De acordo com Carl G. Jung esta primeira fase corresponde à integração da sombra, do aspecto obscuro da psique, ou seja, a integração das emoções, intuições, percepções e pensamentos que nós repudiámos ao longo da vida porque os considerámos inapropriados ou defeitos indesejáveis.

Isto pressupõe um submergir no inconsciente pessoal para tomarmos gradualmente consciência das projecções que fazemos para as pessoas à nossa volta. Elas correspondem aos aspectos de nós que marginalizamos e reprimimos, que não aceitamos que são nossos. Esta fase pressupõe enfrentar cara a cara o aspecto sombrio da criação, em nós, em tudo. A Luz e a Sombra fazem parte da existência.

A palavra nigredo está associada à cor negra, ao chumbo, a Saturno (o planeta que, na idade média os astrólogos designavam por grande maléfico devido às provações que lhe estavam associadas, mas que é na verdade um mestre rigoroso e sábio) ao que é pesado, difícil e que causa sofrimento. O primeiro passo do trabalho alquímico é, portanto, conhecer e encarar o nosso lado sombrio – a travessia no deserto. Faz parte deste processo o enfrentar raivas, invejas e ódios ocultos, o reconhecermo-nos na cobiça (mesmo a espiritual) e na competição. Este confronto com o nosso lado sombra causa depressão, melancolia, introversão, desilusão connosco mesmos e letargia. Quando estamos no nigredo, é comum sentirmos o mundo como um lugar triste, sem esperança e as pessoas como não confiáveis ou incapazes de nos confortar. O primeiro passo rumo ao alto, portanto, é um mergulho para baixo para nos conhecermos mais profundamente, com as nossas emoções pesadas, fraquezas e limites. Para alcançarmos todo o nosso potencial interno, é necessário que nos purifiquemos libertando-nos das nossas “sombras” (julgamentos, medos, ódios, culpas, tristezas, apegos) que danificam a nossa relação conosco mesmos e com os outros.

As maiores crises da nossa vida podem dar sempre inicio a extraordinários períodos de renascimento, se não ficarmos agarrados ao passado. São fases cheias de novas possibilidades em que é fundamental investirmos outra vez em nós, numa nova relação, numa carreira, numa outra forma de viver a vida. Perto do fim de algo, mesmo antes de raiar a madrugada é quando a noite é mais escura. E esse mergulho na noite escura da alma, é uma parte de um ciclo que pode levar dias, meses, ou anos, mas acaba sempre por se fundir no ciclo seguinte. É impossível mudarmos as fases da vida, mas, como somos magos das nossas experiências, as nossas escolhas estão constantemente a re-criar novas circunstancias.

Podemos sair da crise mais ou menos abalados, mas reforçados nos nossos fundamentos com a nossa estrutura temperada e fortalecida pelo fogo-dor da experiência. Podemos aprender que está na nossa mão mudar as circunstâncias e começar a praticar.

Como alquimistas de Vida, temos à nossa disposição para trabalharmos com e produzirmos os resultados que almejamos na realidade: o corpo físico, o poder do pensamento e a razão, a nutrição dos sentimentos e a capacidade de acção e mobilização das energias. Na verdade, tudo se resume à utilização adequada das energias para produzir um determinado resultado. Esta é a alquimia realizada pelo mago ou pelo herói, que é você.

Aceitar trabalhar com esse poder que é o de co-criarmos as nossas vidas com a essência que é a fonte, é aceitar viver uma vida mais consciente (ciente de si), mais lúcida (luminosa), mais criativa (o Self em acção).

Quando ficamos sem fogo, sem energia, sem motivação ou esperança, é o sinal inequívoco da vida em nós a preparar o terreno para a grande alquimia. Esta fase é pois o nigredo, a etapa ao negro da Alquimia interna que a crise representa. É a noite escura da alma, a travessia nos desertos que todos provavelmente já conhecemos. Nesta fase, sentimo-nos atirados para o fundo do poço, perdemos a antigas seguranças, ficamos desorientados e doridos, assustados e solitários nesse medo profundo e intraduzível. É preciso aceitarmos esse momento sem quaisquer certificados de garantia, nem ilusórias tábuas de salvação. É um momento arquetípico, que evoca poderosamente todas as mortes psicológicas por que passámos enquanto humanidade. É a etapa alquímica em que o chumbo se prepara para a sua ascensão, para chegar a ser transformado em ouro; é preciso que se desagregue neste caos dissolvente a partir do qual uma nova consciência emergirá.

É necessário continuar em frente, muito embora por vezes nem saibamos bem por que forças nos conduzimos através desse deserto, como conseguimos descobrir por que ponta pegar na nossa vida. Nesta fase, é preciso perder antigas referências de uma identidade que já não nos serve; que caducou como o BI. É preciso ter a coragem de não saber mais como nos definimos, como nos contrastamos com o mundo, a coragem de sermos transparentes nessa fragilidade que em breve irá abrir as portas ao novo degrau da espiral da vida. Esta é uma fase difícil, delicada, em que muitos se perdem em novas alienações que mais não são que fugas ao processo de crescer. Se não nos deixarmos anestesiar demasiado nem por demasiado tempo com quaisquer substâncias ou actividades que visem amortecer a dor mas que também impedem a evolução da alquimia integral que se está a realizar em todo o nosso ser, então um dia começam a despontar novos sinais de mudança.

Sinais de que uma nova e importante parcela do nosso psiquismo se está a preparar para emergir, para sair das trevas e anunciar-se à luz. Como será a experiência de sair das águas cálidas do ventre materno? De ser semente no seio da terra negra, a despedaçar-se desde o interior, até à periferia, germinando novas raízes, novo tronco, novas folhas? Aqui, já percebemos que as regras mudaram e que não vale a pena defendermo-nos à moda antiga. Também não adianta martirizarmo-nos com a culpa ou, inversamente, perseguir bodes expiatórios numa ilusória tentativa de diminuir a dor e de fugir para a frente. Isto não significa que nos demitimos do nosso dever de fazer o melhor para reparar, nos nossos relacionamentos, uma situação de injustiça, de crise, de dificuldade. O que significa, é que é preciso reparar o que puder ser reparado, apanhar os cacos e cuidar de nós começando por acolher uma nova e irreversível ordem na nossa vida.

Este confronto com a nossa realidade interna (ou vazio) é normalmente doloroso (pode ser depressivo), mas uma vez ultrapassado, uma nova luz nasce: surgem novas respostas e pistas sobre como lidar com a nova situação de uma forma positiva.

É pelo fundo de nós mesmos que nos descobrimos. A superfície não revela a nossa essência. Ela vai-se-nos revelando na medida em que vamos atravessando as diversas vivências que a vida nos serve, no decorrer da nossa existência. É bom lembrar-nos, de vez em quando, que não estamos sós. Deixemos que o pensamento – não estou só – perpasse a nossa mente de quando em vez.

Uma das evidências de que começamos a sair do nigredo, é o facto de sentirmos internamente que aqueles aspectos mais obscuros já não nos dominam. Saber que eles fazem parte de nós mas que não nos definimos por eles, dignifica a nossa humanidade e recorda-nos da nossa Essência. Compreendemos e sentimos que é possível contrabalançá-los quando em contacto com a nossa natureza luminosa. Nesta fase, compreendemos que temos chumbo e ouro, luz e sombra, e essa integração é sinal de que nos estamos a movimentar em direcção à próxima etapa, abandonando gradualmente esse estado doloroso para entrar noutro mais ameno.

Nesta fase começa a surgir a aceitação, que abre as portas para uma nova abertura a si mesmo. Esta abertura, por seu turno, facilita a compreensão do que está por detrás da atitude, da crise, da separação ou do problema (os mecanismos inconscientes que geram as dificuldades). Nesta fase, é importante que a pessoa se questione sobre o seu modo de vida e procure a ajuda necessária para compreender a origem do seu problema, dor, dificuldade. Esta busca denota uma aceitação gradual aceitação do problema/situação, o que promoverá a compreensão do mesmo.

Exercício: escolha a situação da qual se quer libertar. Focalize-se nela e escreva-a ou desenhe uma imagem que a simbolize. Intensifique a sua concentração por uns instantes e depois queime o papel consumindo simbolicamente o poder que a situação tinha sobre si.

Quando o nigredo foi bem integrado, conquista-se:

– A capacidade de viver vários sentimentos com vitalidade, autenticidade, espontaneidade
– A capacidade de estarmos bem sozinhos
– Assertividade e auto-estima
– Criatividade
– Maior disponibilidade para uma intimidade mais plena.

No nigredo, conseguimos resgatar a nossa unidade interna.

A 2ª. fase: O Albedo

Durante este período, os alquimistas procediam à lavagem dos instrumentos e dos materiais do nigredo calcinados – a raiz latina de albedo é alvo, branco, que é a cor das cinzas. No confronto com “a noite escura da alma”, dá-se a calcinatio, a queima dos nossos desejos frustrados, com um efeito profundamente purgador e purificador. Prepara-se o terreno psicológico para, mais à frente no rubedo, renascer em nós um fogo maior, que nos liga muito mais profundamente a toda a Vida.

A paixão, por exemplo, tem um efeito solutio, – uma operação alquímica fundamental ligada à água, que visa:

– A transformação dos aspectos fixos e estáticos da personalidade, pela sua dissolução através da análise dos produtos do inconsciente e questionando as atitudes do ego.

Na paixão, como na perda de um amor, dissolvemo-nos nas profundezas do inconsciente. Podemos até sentir-nos inundados por emoções tão profundas, que quase nos afogamos nas aguas da dor ou do desejo. Os sonhos que temos com inundações podem referir-se muitas vezes à solutio – psicologicamente, é uma etapa em que nos podemos sentir dissolvidos, as nossas expectativas não mais têm chão para serem alimentadas e entramos num processo de análise das diversas partes em conflito dentro de nós.

Exercício (cerca de meia hora): preferencialmente no escuro, numa banheira com água salgada submergir-se ficando apenas com o rosto de fora de água. Focalize-se na respiração e deixe que os seus pensamentos se acalmem. Gradualmente permita que a experiência de rendição à fluidez da água desperta os seus sentimentos: não lhes resista: tome consciência deles e flua com eles. Seja água como a água.

De um ponto de vista psicológico, nesta fase começamos a ter intuições e pistas mais profundas sobre como uma dada emoção surgiu, porque é que odiamos ou invejamos aquela pessoa. Este entendimento mental transforma a intensidade da emoção – outra alquimia. No albedo há um exame mais racional dos sentimentos. A pessoa começa a fornecer explicações para as suas reacções, a entender o que as motivou. Há um afastamento das emoções que possibilita uma re-interpretação do que aconteceu. Compreendemos que estamos perante uma vida nova que, vista à luz do albedo, já não parece tão difícil nem tão sofrida. No albedo demandamos a nossa alma e continua a ser importante partilharmos essa busca com alguém. Nesta fase, compreendemos que somos outra pessoa, apesar de não sabermos ainda bem quem somos. Depois de termos sido “vencidos pelo cansaço“ na fase anterior, aqui aprendemos a depor as armas, a não usar mais a nossa força contra nós, a aceitar o sentimento de impotência que nos vem ensinar que a vida não se deixa controlar pelas nossas ilusões. É um estado de transição, uma pausa em que é importante tornarmo-nos mais receptivos para que a Obra possa continuar a crescer em nós.

Nesta fase é possível fazermos em maior ou menor grau a integração consciente do arquétipo oposto ou seja, do “feminino” para os homens (arquétipo da “Anima”) e do “masculino” para as mulheres (arquétipo do “Animus”). O ser humano, tanto física como psiquicamente, é um conglomerado de opostos. Nos nossos genes há elementos masculinos e femininos e o mesmo acontece no nosso psiquismo. Para o homem a “Anima” encontra-se inicialmente submersa no seu inconsciente pessoal misturada com a “Sombra”, tal como o Animus para a mulher. Uma vez que estas nossas contrapartes feminina e masculina tenham sido integradas na psique, transformam-se numa “ponte” que nos liga ao inconsciente colectivo e aos seus arquétipos. Esta fase ensina que em última análise, teremos que fazer a íntima união dos componentes da nossa própria personalidade. O casamento espiritual ou as bodas alquímicas são uma vivência interna, não já projectada no outro. É uma unificação dos contrários internos.

No albedo, precisamos também encarar o que é que não queremos mais, que compulsões, ideias, crenças, atitudes, emoções, relações, já não nos servem e que precisamos com humildade, ir erradicando para que não coagulem de novo em nós, como toxinas. Separar o que queremos do que já não nos serve é também um tempo de re-organização. E um período onde sentimos as coisas fluírem com mais facilidade e menos sofrimento.

Exercício: Deitado na terra, areia ou relva, olhando o céu, relaxe por alguns momentos. Visualize o problema/dificuldade que quer trabalhar, a escorrer do seu corpo para a terra (como se destilasse de si). Sinta a energia subtil da terra e vizualize-a agora ascendendo das entranhas da terra até ao seu corpo, trazendo-lhe frescura, solidez e segurança.

Nesta fase, é importante que a pessoa não fique imobilizada na análise – dela mesma, do sentido da vida, das relações. Que não fique imobilizada nas teorias e incapaz de ver o que está a acontecer à sua volta e de agir. O risco no albedo, o que aqui nos impede de passar à fase seguinte, é o de ficarmos ainda muito centrados em nós mesmos. De não sermos capazes de deixar aquilo que já não queremos, de não empilharmos tudo isso num monte e de lhe deitarmos fogo. Por exemplo, já percebemos que estamos numa relação afectiva onde já não há vida nem estímulo, mas ainda não conseguimos partir; já não conseguimos ir trabalhar porque aquele emprego tira-nos a energia; sabemos que a nossa vocação está noutra parte, noutra actividade, mas não temos ainda coragem para ir embora e bater com a porta. Este é o risco, no albedo, o de não concluirmos o processo.

No albedo, idealmente, começamos a perceber que o caminho não é algo que acontece fora de nós, mas que nós e o caminho somos a mesma coisa, ou seja: o alquimista e o objectivo do seu trabalho – a iluminação – são o mesmo. Deixa de haver um sujeito e um objecto e passa a haver um processo.

Quando o Albedo foi bem integrado, conquista-se:

– Vitalidade e sentido de propósito
– Consciência das sincronicidades
– Uso criativo dos sonhos/imaginação/visualização.
No albedo, renovamos a nossa eficácia na esfera social, alcançando um novo nível de pacificação nos nossos relacionamentos.

Os rituais de passagem e a Alquimia da Vida

Os rituais de passagem que sempre existiram na história da humanidade correspondem a processos de iniciação que marcam etapas de transformação pessoal com mudanças nos padrões conscientes e inconscientes. O noviço, aprendiz ou neófito cruza o limiar de uma nova realidade e renasce uma nova pessoa. Todas as tradições têm os seus rituais de passagem que reforçam o sentido de pertença da pessoa ao seu grupo/clã, e a ajudam extraordinariamente no profundo e fascinante processo de se ser Humano, progredindo através de várias etapas de morte e renascimento.

Alguns exemplos de ritos de passagem: cerimónias de nascimento e de atribuição de nome, baptismo, cerimónias de chegada à puberdade (como a circuncisão ou a celebração da primeira menstruação), o casamento, a viuvez ou as cerimónias próprias da morte.

Aqueles ritos visam preparar a pessoa para o novo estágio, muitas vezes através de exercícios e vivências rigorosos que promoviam o rompimento radical das atitudes com os padrões de psicológicos e de funcionamento do estágio anterior. A estas experiências deveria seguir-se um período de isolamento, uma fase de adaptação necessária para que a morte e o renascimento se completem. Para que o noviço consiga efectivamente contactar com esse poder que deve aprender a dominar. No final deste período, ele volta a ser apresentado à comunidade/grupo com a sua nova condição e comportamentos correspondentes. A pessoa nunca mais será a mesma: como na Jornada do Herói, ela é chamada à Aventura da iniciação: cruza o Limiar dos Mundos, (retiro e contacto com o inconsciente) onde morre para a sua antiga forma de existir e enfrenta vários desafios até conquistar a recompensa da transformação. De regresso à realidade, após a metamorfose profunda que viveu no seu âmago, vai ocupar o seu lugar no grupo/sociedade.

Regressado de uma travessia no deserto onde se encontrou com os seus próprios fantasmas (os nossos medos da mudança, de sermos abandonados, de ficarmos impotentes, de sofrer, de morrer, de perder) o herói que é cada um de nós no Caminho da Vida, recria assim o seu mundo interior, à luz de uma nova força e saber de experiência feito.

Nesse sub-mundo em que entramos pela mão das provações, contactamos mais profundamente com a alma e a Essência que nos habita; é ela que em nós reanima forças esquecidas, iluminando camadas sombrias e preparando-nos para retornar ao mundo da superfície revitalizados e tornados na pessoa que realmente nascemos para vir a ser. Renascendo na nossa humanidade em nova comunhão com a alma, alargamos os horizontes do que julgávamos ser possível conquistar nas nossas vidas. Descobrimos nova esperança e que os antigos limites já não têm vigência sobre nós. Acreditamos que a vida é mais abundante em recursos e oportunidades do que antes fomos ensinados a esperar e tomamos a construção da nossa felicidade nas mãos.

O divórcio, a síndrome do ninho vazio (quando os filhos deixam o lar paterno) a perda de emprego, de um familiar, a emigração, uma doença grave, até um grande êxito são ritos de passagem que muito beneficiariam da antiga sabedoria curadora que nos conduz pelos labirintos emocionais e pelas alterações físicas da mudança, rumo a uma existência mais consciente, fortalecida e vital.

Muito perdemos hoje, nas sociedades ocidentais contemporâneas, com o abandono destes ritos de passagem: eles são como que manuais da alquimia da vida, que nos acompanham desde o nigredo dos abismos da alma, ao rubedo da ressurreição de uma nova identidade, auto-consciência e felicidade. Lembre-se, em cada transição da sua vida, de fazer um tempo de pausa para deixar ir o antigo e saudar o novo. A alquimia da felicidade implica aceitar as várias metamorfoses da vida como se fossem um processo de lapidação do seu diamante interior.

A 3a. fase: O Citredo

Esta é uma fase intermédia e habitualmente mais curta. O amarelo significa que a albedo amareleceu, envelheceu, como um papel branco que fica amarelado com o tempo.

O psicanalista americano James Hillman afirmou que a fase amarela interrompe a fase em que a pessoa só pensa em si mesma. Agora, já não é apenas o que interessa à realidade individual interna que tem importância para a pessoa.

Há uma maior abertura emocional e mental: esta etapa está ligada à educação, aos ensinamentos, a uma nova aprendizagem. É dedicada ao estudo, a uma revisão de conceitos e de preconceitos onde, por nos entendermos melhor, podemos entender melhor os outros nos seus próprios dramas e desafios. No citredo compreendemos melhor as semelhanças entre os nossos processos e os processos dos outros, o que possibilita um novo olhar sobre os seus comportamentos, referências e escolhas. Percebemos que o outro busca, afinal, o mesmo que nós, só que por caminhos diferentes.

Começamos a olhar para além de nós próprios e uma nova compreensão emerge nos nossos relacionamentos. Desponta uma vontade genuína de partilharmos as nossas experiências e de estarmos mais próximos dos outros, de os ajudar. Renovamos a nossa eficácia na esfera social, alcançando um novo nível de pacificação nos nossos relacionamentos. Cumpre-se um trabalho profundo sobre o nosso ego. O amarelo torna-se então radiante, dourado, como os raios de sol da aurora que anunciam um novo dia. Inicia-se a fase vermelha, o re-nascimento de um novo entusiasmo, fogo e ardor. Estamos próximo de nos tornarmos numa nova pessoa.

Exercício: respire profunda e conscientemente durante dez minutos. Focalize-se na inspiração e expiração e na alquimia de vida que o ar produz em si. Pode repetir diariamente. Coloque na sua casa notas espalhadas, para se lembrar de respirar bem.

A 4ª. fase: O Rubedo

A quarta e última fase, é muito representada na alquimia por uma águia branca e outra vermelha, ou por um rei vermelho e uma rainha branca. Eles simbolizam a união dos opostos complementares através da qual se pode alcançar a pedra filosofal e a síntese da Grande Obra, que é afinal a nossa Vida.

No Rubedo o alquimista alcança o “corpo de diamante”: a Totalidade, o encontro e acolhimento mútuos entre o nosso Eu consciente e o Self divino do qual sem sabermos, sempre fizemos parte.

É um estado inefável, indescritível, aludido por místicos, sábios, homens e mulheres do espírito de todos os tempos e que constitui um Mistério. Este Self divino é a “centelha divina” o “Deus interior” da mística, o “Mercúrio Filosofal” da Alquimia, “Deus em nós” como lhe chamou Jung.

Nesta fase vermelha acontece um processo de síntese interno, uma união entre as forças opostas que actuam dentro de nós, união essa que é a geradora da pedra filosofal. O lado masculino (o espírito) e o feminino (a alma) integram-se. Esta união é representada nas narrativas alquímicas pelo casamento do Sol e da Lua, ou da Terra e do Céu e é considerado o ponto culminante da Obra alquímica.

Descemos ao mais profundo de nós e encontrámos o nosso tesouro escondido, a nossa luz divina, através da qual nos reconstruímos em novos Homens e novas Mulheres. Quanto mais aprofundamos no nosso mundo interno, mais a consciência se eleva. Quanto mais procuramos a Luz na nossa consciência interior, mais nos elevamos e nos transcendemos. E assim, degrau a degrau, nessa alquimia de dentro para fora, vamo-nos transformando em homens e mulheres novos. Há uma nova criatividade, um novo entendimento de nós e das nossas relações. Vivemos com as nossas emoções, sentimentos e necessidades, mas já sem nos perdermos nem nos afogarmos neles. Psicologicamente, não somos mais os mesmos: assimilámos novos valores, as nossas motivações mudaram, um novo entusiasmo nos invade.

A psicanalista suíça Marie-Louise von Franz escreveu sobre esta fase final: “Algo firme nasceu dentro de nós, algo que está acima dos altos e baixos da vida, (…) algo muito vivificante que participa do fluxo vital sem inibições ou restrições da consciência”.

Carl G. Jung também descreveu este momento: “(..) é como estar no pico de uma montanha, acima da tempestade. Vemos as nuvens negras, os relâmpagos e a chuva a cair, mas algo dentro de nós paira acima de tudo isto e podemos simplesmente observar os elementos em fúria”. Algo em nós é capaz de dizer – eu já vi este filme – sabendo que não seremos mais tão condicionados por ele, e que estamos mais livres para encontrar novas soluções para a nossa vida.

No rubedo as bodas alquímicas ou o casamento entre os opostos é simultaneamente uma união que tem lugar em três planos: dentro da psique do indivíduo, entre o individual e a sociedade colectiva, e entre o corpo do colectivo e o mundo espiritual. Com cada estágio sucessivo de transformação da personalidade, nós alcançamos uma consciência cada vez mais expandida de nós mesmos, do mundo e de Deus. Renascemos e em cada fase da Alquimia maior da Vida, a Felicidade ganha um novo sentido pelo poder crescente do Amor em nós. No rubedo, religamo-nos à transcendência, à espiritualidade. Pelo fogo, ligado aqui ao simbolismo de uma nova consciência, compreendemos que tudo na vida faz sentido.

Quando o Rubedo foi bem integrado, conquista-se:

– Individuação
– Compaixão
– Equanimidade
– Graça.