terça-feira, 6 de junho de 2017



A DISPUTA ENTRE "ANTIGOS" E "MODERNOS"


Tradução José Filardo

Por R. Dachez / J. Villalta

À medida que avançam as investigações, a história dos primórdios da Maçonaria inglesa parece mais complexa do que foi dito ou imaginado até agora. Este é o caso do conflito fundamental que abalou a maçonaria do outro lado do Canal da Mancha por quase 60 anos: a disputa entre os “Antigos” e “Modernos” (1751 / 1753-1813).

Especialmente estudada como um assunto interno na Inglaterra, parece hoje, se você deseja renovar e aprofundar a questão, deve ser levado em conta o ambiente britânico, especialmente o irlandês, incluindo a Maçonaria continental e principalmente a francesa.

Assim é que desde 1928, Philipp Crossle, grande historiador da Maçonaria irlandesa chamou a atenção para as especificidades desta Maçonaria, em particular a existência de um sistema em 3 graus ou etapas, anterior ao sistema revelado por Samuel Prichard em 1730, dotado de um conteúdo diferente que compreendia o Arco Real. Ao fazer isso, Crossle levantou implicitamente a questão do surgimento e influência dos altos graus sobre a história geral da Maçonaria.

Por outro lado, se, como mostrou Alain Bernheim, as maçonarias inglesa e francesa foram, para os graus azuis (simbólicos), substancialmente idênticas até aproximadamente 1750 (até o aparecimento dos “Antigos”), é certo que o afloramento dos altos graus na França desde a década de 1740 terá um impacto sobre a Maçonaria inglesa a partir do final do século.

Isso significa que a maneira usual de contemplar este conflito, como uma disputa entre um sistema inglês claramente definido e imóvel representado pela GL de 1717 e chamado de “Modernos” e um sistema importado na Irlanda pelos “Antigos” precisa ser, sem dúvida, renovada.

Para dar um único exemple como o do Arco Real, considerado como tendo sido importado da Irlanda para a Inglaterra pelos “Antigos”, como explicar o fato de que a lenda deste grau em breve será conhecida na Inglaterra é diferente daquela desenvolvida na versão irlandesa, mas muito próxima da lenda contida no ritual francês ditos do “Royale Arch”?

Está claro que a história da Maçonaria inglesa não se resume à história da Maçonaria na Inglaterra “strictu sensu”. É, na verdade, a história de uma Maçonaria que sofre todos os tipos de influências, internas e inglesas, é claro, mas também externas, irlandesas e francesas. No segundo terço do século XVIII, constituiu-se assim na Inglaterra, um sistema maçônico que é o produto de todas essas influências e que, evidentemente, também teve influências em seu entorno, sobre outras Maçonarias, particularmente na França. Aparece assim uma história franco-britânica que tenta certar todas essas influências e rever um certo número de problemas relativos às origens da Maçonaria: a Instalação do Mestre da Loja, o Real Arco, etc.

A disputa de “Modernos” e “Antigos” é uma disputa fundamental da Maçonaria inglesa. Classicamente, ela se anuncia da seguinte forma: até 1750, a Maçonaria inglesa está unida e é uniforme. Em 1751, surge uma nova organização maçônica que vai ser chamada de “GL dos Maçons segundo as antigas instituições” ou mais simplesmente “GL dos Antigos”. A GL de 1717 será chamada pejorativamente de “GL dos Modernos” (e hoje “Primeira Grande Loja”). Esta GL dos Antigos está fundada principalmente por maçons irlandeses que vivem em Londres, mas negam os usos da GL de 1717 que, em 1750, já estava amplamente expandida por toda a Inglaterra.

Até o final do século XIX, a teoria de que a GL dos “Antigos” era uma divisão ou cisma da GL dos Modernos era comumente aceita. Segundo esta tese, algumas lojas teriam deixado a GL de Londres e criado uma nova obediência como negação de inovações que teriam sido agregadas ao Craft pela referida GL. Essas inovações, entre as quais está a famosa história da inversão das palavras sagradas (JB ou BJ) teriam surgido na década de 1730, e logo teriam se tornado muito numerosas (ao ponto de se tornarem inaceitáveis) que certas lojas teriam decidido na década de 1750, voltar aos velhos usos e deixar a GL de 1717. Esta tese, obviamente, foi defendida pelos mesmos “Antigos” e desde 1756 com a publicação do livro das Constituições Ahiman Rezon de Laurence Dermott. Henri Sadler (em Fatos e Ficções Maçônicos) demonstrou definitivamente, em 1887, que a fundação de 1751 não era o resultado de um cisma, mas que se constituiu “de novo” e tem, portanto, uma fonte diferente daquela da GL de 1717.

Na realidade, é uma Grande Comissão que aparece em 1751 e leva o título de GL a partir de 1753, quando teve um irmão nobre para presidi-la como Grão-Mestre. Os primeiros membros eram irlandeses emigrantes para a Inglaterra. Estes provavelmente teriam tido dificuldade em ser recebidos em lojas inglesas. Além disso, essas lojas praticavam uma Maçonaria muito diferente delas, tornando a integração quase impossível para a GL de 1717. Em seguida, eles teriam fundado a sua própria GL onde eles poderiam praticar os usos que teriam trazido da Irlanda e teriam proclamado sua antiguidade em relação à Maçonaria inglesa.

A classificação de “antigos” atribuídas a uma GL que tem 30 anos menos que a mais antiga pode parecer curiosa, polêmica e injusta. Certo, mas além dessa disputa de palavras, não devemos esquecer as questões fundamentais:
Quais são as diferenças reais entre ambas GG LL?
Entre os diferentes usos, quais eram verdadeiramente os mais antigos e, nesta perspectiva, quando, onde, como, por quê teria sido dado o passo dos usos antigos para os usos modernos?

Estas duas questões têm respostas pouco satisfatórias, até hoje.

Parece que se pode renovar esta problemática estudando a Maçonaria na Irlanda.

O conhecimento da Maçonaria irlandesa passa necessariamente pelo estudo de uma obra fundamental de John Herron Lepper e Philipp Crossle, História da GL dos Maçons Antigos e Aceitos da Irlanda, Dublin, 1925, reeditado em 1987.

Neste trabalho, os autores mostram que existem há provas documentais da existência de uma Maçonaria especulativa na Irlanda antes que se tivesse a certeza, documentada, na Inglaterra. Assim, nos arquivos do Trinity College Dublin, um documento menciona a existência de uma loja de maçons (essencialmente reunindo estudantes) em 1688. Outro manuscrito do Trinity College, datado de 1711, descreve um sistema em três etapas. Em 1725, a recitação de uma procissão pública atesta a existência de uma GL na Irlanda. Em 1730, finalmente, são publicadas as Constituições chamadas Pennel, próximas do texto de Anderson e esta diferença importante que menciona o grau de Mestre, o que não é o caso no texto Inglês de 1723, que terá que esperar a edição de 1738.

Assim, comprovamos que todas as manifestações conhecidas da primeira Maçonaria irlandesa são notáveis por suas datas ou por seus conteúdos. Em vista destes documentos, segue-se que a Maçonaria irlandesa é antiga e diferente da primeira Maçonaria inglesa.

Sobre a origem sociológica desta Maçonaria irlandesa, podemos emitir duas hipóteses. Seria uma Maçonaria puramente irlandesa ou celta, ou (a Irlanda foi de facto ocupada pela Inglaterra) uma Maçonaria de colonos ingleses instalados na Irlanda (os Anglo – Irlandeses). Estes últimos compunham a aristocracia do país e estavam essencialmente agrupados em torno de Dublin. Esta hipótese parece a mais crível e a primeira Maçonaria irlandesa aparece cada vez mais como uma maçonaria anglo-irlandesa. No entanto, todos os colonos não faziam parte da aristocracia. Constitui-se assim, uma imigração anglo-irlandesa pobre e muito próxima da população irlandesa nativa, de modo que a emigração irlandesa para a Inglaterra, desta vez no século XVIII, é principalmente uma emigração de anglo-irlandeses. Podemos então imaginar, porque nenhum documento confirma hoje, por que estes emigrantes anglo-irlandeses de baixa extração, com a sua própria Maçonaria tiveram uma recepção morna nas lojas inglesas, mas embora possuíssem um grau – e é dessa perspectiva que podemos reexaminar a questão do Real Arco – superior ao grau de Mestre e desconhecido para os Ingleses (o Real Arco atual foi profundamente modificado em 1835), que consideravam, conforme escreveu Laurence Dermott nas Constituições dos Antigos, “como a raiz, o coração, a medula da Maçonaria” e que conseguiram, por outro lado, impor definitivamente à prática maçônica inglesa.

Em 1778, em uma edição das Constituições, Laurence Dermott elabora uma lista de queixas que os “Antigos” lançam contra os “Modernos”. O abandono ou a ignorância da instalação secreta dos VV MM, instalação capital, vez que no sistema dos “Antigos” abre o caminho para o Real Arco, é crível. De fato, a instalação é desconhecida na Inglaterra – pelo menos não há prova documental – antes de 1760 e a divulgação de “Três Batidas Diferentes”. Mas além dessa acusação, as outras queixas carecem singularmente de bases documentais e até mesmo contrários a todos os documentos conhecidos. Isto é:
O abandono das orações durante as cerimônias maçônicas.
O abandono das celebrações das festas de São João.
A inversão da ordem das Palavras Sagradas.

Em suma, se se toma o que está testemunhado, os dois dados principais podem definir a originalidade efetiva dos “Antigos” em relação aos “Modernos”.
Sua antiguidade.
A contribuição da instalação secreta e do Real Arco.

Phillip Crossle, em um artigo famoso, “The Rito irlandês” sugere uma interpretação sutil da hierarquia dos graus na Irlanda por volta de 1730. Nas Constituições de Pennel, existem 3 etapas, Aprendiz, Companheiro, Mestre, mas elas não corresponderiam aos três graus de homônimos da Maçonaria inglesa tal como são definidos na divulgação de Prichard (1730). De acordo com a teoria da Crossle, podemos definir o seguinte quadro:

Irlanda Inglaterra
Aprendiz Aprendiz e Companheiro
Companheiro Mestre
Mestre= Instalação e Real Arco 

Estudando este artigo, tentaremos reler a disputa dos “Modernos” e dos “Antigos” e fazer perguntas sobre as questões relativas às origens e antiguidade provável da Maçonaria dos “Antigos”, bem como as fontes desta Maçonaria.

Pode parecer que os “Antigos” eram muito mais pequenos praticantes de uma “técnica ritual” mais rigorosa que a dos “Modernos”, a uniformização das duas Grandes Lojas seria muito rápida e já estava bem avançada no início século XIX até, inclusive, o nível de Grão Mestrado, o que explica a União de 1813. Naquela época, a origem irlandesa dos “Antigos” quase tinha desaparecido.

As relações entre a Irlanda e a Escócia são antigas. A tribo primitiva da Irlanda, são “scots”. Por outro lado, na época das 2 GG LL inglesas rivais, a GL da Escócia manterá relações amistosas com os “Antigos” e o Real Arco será implementado facilmente e muito rapidamente na Escócia.

Vimos que a compreensão da disputa entre “Antigos” e “Modernos” (1751-3 / 1813) precisa levar em conta a história da Maçonaria irlandesa. Dois autores importantes, Heron Lepper e Crossle nos ajudam com isso. Assim é que pudemos determinar que, de todas as queixas criticadas aos Modernos pelos Antigos, duas realmente precisam ser examinadas: a antiguidade efetiva dos usos desses duas GGLL e a questão da instalação secreta e do Real Arco, este último ponto que levanta implicitamente a questão dos graus maçônicos. De fato, se existem sistemas maçônicos 3 graus em 1730, tanto na Inglaterra quanto na Irlanda, parece que estes sistemas não tiveram a mesma antiguidade e não correspondem à mesma realidade. Como, então, na Irlanda, se constituiu o sistema de graus? É o que vamos estudar através de um artigo notável de Philipp Crossle, “O Rito Irlandês”.

Recordemos primeiro que “as Ilhas britânicas” são formadas por 3 países muito diferentes e, muitas vezes opostos: Inglaterra, Escócia e Irlanda. O mesmo acontece quando se tenta estabelecer uma distinção entre as Maçonarias desses países. A história da Maçonaria irlandesa é completamente diferente da Maçonaria inglesa. Philipp Crossle destaca a profunda originalidade do sistema maçônico irlandês antes de 1750.

As origens da Maçonaria na Irlanda são muito obscuras. Poderia ela ter sido importada da Inglaterra (em fins do século XVII, na década de 1680)? A Irlanda era na época uma colônia britânica. Seria, portanto, essa Maçonaria irlandesa aquela dos Anglo-Irlandeses, que teriam formado uma espécie de aristocracia que dominaria a Irlanda? Além disso, essa aristocracia está separada do país, não só no plano econômico e social, mas também no plano religioso: é anglicana, enquanto os irlandeses nativos são católicos.

No início do século XVIII, a “Maçonaria obediencial” aparece na Inglaterra entre 1717-1723, em seguida, na Irlanda, em 1725, mas, aparentemente, de forma completamente distinta. Note-se, de fato, que essa Maçonaria irlandesa, embora provavelmente de origem Inglesa, é atestada desde 1688 e depois de quase 40 anos, evoluiu por conta própria, independentemente da Inglaterra. Na década de 1720, é muito provável que as Maçonarias inglesa e irlandesa eram muito diferentes, mas de antiguidade igual e até mesmo se poderia formular a hipótese de que os irlandeses teriam preservado usos que os próprios ingleses teriam alterado ou perdido, o que ele constituído de fato um tipo de Maçonaria inglesa antiga (convertida em irlandesa). É aqui onde se poderia ancorar a reivindicação de antiguidade sempre proclamado pela GL de 1751-3.

Em 1730, a GL da Irlanda publicou seu livro das Constituições ditas de Pennell. É descrito ali, pela primeira vez, oficialmente, um sistema em 3 graus: aprendiz, companheiro e mestre. Recordemos que as Constituições de 1723, em Londres, tinham definido uma Maçonaria em 2 graus, que está atestado em 1730 por uma divulgação pela primeira vez na Inglaterra, do grau de Mestre, divulgação que será condenada pela GL de Londres, e só em 1738 o grau de Mestre será formalizado na 2ª edição das Constituições inglesas.

Philipp Crossle observa que o texto de Pennell descreve explicitamente 3 graus. Além disso, diz-se que um diácono, um vigilante, um mestre eleito, um GM adjunto que já teriam sido “Companheiros” poderão receber o grau de “Mestre” após sua Instalação. Para explicar essas esquisitices, e toda a tese de Philipp Crossle, devemos entender que as palavras “aprendiz”, “companheiro” e “mestre” não tinham, naquela época, o mesmo sentido e não designavam a mesma coisa na Irlanda e na Inglaterra. Crossle nos explica que não se pode colocar no mesmo plano o texto oficial das Constituições de Pennell e a divulgação de Prichard reconhecida em seu tempo pela GL de Londres. Na Irlanda, em 1730, o grau de aprendiz corresponderia ao conteúdo dos graus de aprendiz e de companheiro na Inglaterra; o grau de companheiro corresponderia a um conteúdo próximo (mas possivelmente sem a lenda) do que será o futuro grau de Mestre na Inglaterra e o grau de Mestre, sempre na Irlanda, descreve em essência o que será conhecido mais tarde, sob o nome de “Real Arco”. Isso justificaria a principal queixa que os Antigos (irlandeses) reprovavam aos Modernos (Ingleses), ou seja, que estes últimos ignoravam o Real Arco e também explicaria que a introdução do Real Arco na Inglaterra tenha se parecido como um 4 grau.

A tese de Crossle se encaixa perfeitamente, pois, no que sabemos sobre a origem dos graus (no final do século XVII na Inglaterra, na Escócia, na Irlanda, o conteúdo dos graus de aprendiz e companheiro – década de 1730 – estava reunido somente no grau de aprendiz, enquanto que o grau de companheiro encerrava o essencial do que será o grau de Mestre) adicionando a isso um novo elemento: o grau de Mestre na Irlanda ou Real Arco.

Quanto a Laurence Dermott, figura emblemática dos Antigos, personagem pouco conhecido, que alguns pensam ter sido católico, já é maçom quando chega à Inglaterra. É provável que sua acolhida nas lojas inglesas foi, enquanto irlandês, difícil, ainda mais quando os usos e conteúdo dos graus eram muito diferentes ou divididos de outra forma, em relação ao que tinha conhecido e havia recebido na Irlanda. E, especialmente, faltava ali o Real Arco. Este grau, pois, será introduzido na Inglaterra, mas no sistema já existente e como uma espécie de 4o grau Inglês.

Isto causará problemas – a disputa dos Antigos e Modernos demonstra isso – porque o Real Arco não é, para os Antigos, um alto grau, mas faz parte, completamente, dos graus do Craft. Ele é, até mesmo, de acordo com a famosa fórmula de Dermott, “a raiz, o coração e a medula da Maçonaria”. A hipótese de Crossle vai nesse sentido: o primeiro sistema maçônico em 3 graus é irlandês e contém o Real Arco.

A querela dos Antigos e Modernos parece, além dos problemas de pessoas, o choque de duas culturas e de duas concepções diferentes de Maçonaria.

R.Dachez / J. Villalta

CIRCULO DE ESTUDOS DO RITO FRANCÊS “ROËTTIERS DE MONTALEAU”

Publicado por Victor Guerra em www.ritofrances.net

O GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO NA TRADIÇÃO MAÇÔNICA FRANCESA: DIFICULDADES E INCOMPREENSÕES HISTÓRICAS.

Tradução José Filardo

Palestra proferida pelo Ir.’. Roger Dachez à The Cornerstone Society Northern Conference

Antes de mais nada, quero agradecer pelo convite especial para participar nesta reunião da Cornerstone Society, como um estudioso da maçonaria, pois parece que eu sou considerado assim com certa indulgência por algumas pessoas – e, então, como um estudioso de Maçonaria, conheço o interesse pelo trabalho dessa Sociedade.

E honestamente eu me sinto muito honrado por estar aqui hoje.

Vinte anos atrás, quando fui apresentado à pesquisa Maçônica por meu professor e Irmão René Guilly – um estudioso altamente respeitado sob o pseudônimo “Rene Desaguliers “- que me disse que sendo britânica a origem da maçonaria, não se podia entender algo sobre a Arte Real sem conhecimento suficiente da história e da cultura britânicas e também do caráter britânico – algo muito estranho para um francês!

Não me foi muito difícil aceitar este pré-requisito, porque minha avó sendo normanda, já muito pequeno estava convencido de que os meus antepassados ​​tinham tomado parte na batalha de Hastings!

Agora, falando sério:

Durante dez anos, passei muito tempo com Robert Gould, Janmes Hugham, Herbert Poole, Harry Carr, Colyn Dyer, Eric Ward e Neville Barker Cryer – ou mais precisamente com seus livros – e tive grande prazer e satisfação intelectual ao descobrir Elias Ashmole, Randle Holme, Robert Plot e, depois, James Anderson e Jean Thophile Desaguliers– deixe-me chamá-los por seus nomes franceses – os “Antigos e Modernos” William Preston e … Todos os outros!

Do estudo de todos esses documentos, tirei a maior conclusão – ou pelo menos a que me pareceu mais importante e significativa para um estudioso francês da Maçonaria: a Maçonaria britânica não só era fascinante, mas fundamentalmente … Britânica!. Isso não é uma piada, é realmente a chave mais fundamental para se entender como se desenvolveu a Maçonaria ao longo do tempo.

Não digo isso por estar hoje na Inglaterra, falando diante de uma platéia Inglesa, e desejo fazer o público esquecer que os franceses não são pessoas sérias…

O ponto inical de minha reflexão é que a Maçonaria, quando se instalou na Europa continental e especialmente na França, aproximadamente a década de 1720, ela o fez por acidente.

Não estava no esquema normal ou cotidiano das coisas, não era uma questão planejada. O primeiro maçom na França, inglês, escocês ou irlandês não decidiu atravessar o Canal por si mesmo, mas fê-lo sob pressão de razões políticas e religiosas bem conhecidas e ocorridas em seu país de origem.

E mesmo depois de as primeiras lojas tivessem se estabelecido em Paris, sabemos que Derwentwater se opunha à admissão de membros franceses.

Infelizmente – ou pela graça de Deus, quem sabe? – poucos anos mais tarde, os irmãos franceses já eram maioria nas lojas francesas: algo aparentemente normal, mas absolutamente inesperado.

Devo insistir neste ponto que é central para minha hipótese: a primeira Maçonaria, a Maçonaria da Primeira Grande Loja não era universal no sentido amplo do termo: era “localmente” universal.

“Universal” na Grã-Bretanha onde foi, entre outras coisas, uma resposta social e intelectual aos problemas religiosos e políticos do país. Mas foi transferida para a França que era uma nação completamente diferente, especialmente de um ponto de vista político e religioso.

Durante a Idade da Razão, a Era do Iluminismo, a maçonaria francesa realmente vivia em uma ambiguidade contínua. Ambigüidade, antes de mais nada, em relação ao seu status oficial.

O Grão-Mestre por cerca de trinta anos, conde de Clermont, era um membro proeminente da família real e seu sucessor em 1771 foi o Duque de Orleans, oficialmente “O Primeiro Príncipe de Sangue Real…”, mas durante esse tempo , a Maçonaria não tinha o direito legal de existir, e nunca teve durante essa época um reconhecimento oficial de suas autoridades. Além disso, tinha sido condenada e proibida pelo papa, pela primeira vez em 1738 e novamente em 1751.

É verdade que as bulas papais nunca tiveram força de lei na França, porque o Rei – apoiado pela Igreja Francesa – se mantinha zelosamente em seu poder absoluto, embora fosse um “Rei muito cristão” e a lealdade ao trono da Igreja Católica lhe desse a maioria de sua legitimidade.

Assim, após a Revolução Francesa de 1789 e a queda do Primeiro Império, em 1815, quando a dinastia Bourbon foi restaurada, a Maçonaria foi gradualmente considerada pelas autoridades e, especialmente, pela ala direita da sociedade francesa, como um ninho de radicais, ou pelo menos de homens progressistas e perigosos, tanto em política quanto em religião.

No transcurso do século 19, para aquele que tivesse em grande apreço os ideais de tolerância, liberdade de consciência e fraternidade universal, a Maçonaria era o único lugar na França, onde ele poderia colocá-los em prática e para o fim do século, envolver-se em política. A velha monarquia francesa tomou o caminho aberto durante décadas e muito antes pela inglesa; e, portanto, a maçonaria francesa desenvolveu-se de forma diferente. É claro que não podemos ter certeza de que foi melhor, pois um historiador não é um romancista…

O malentendido fundamental entre a maçonaria britânica e a francesa, desde aquela época, não é puramente Maçônico, mas originário das muitas diferenças entre nossos dois países em termos de cultura e civilização.

Se cada um de nós tentar entender isso – abordando a natureza precisa dessas diferenças, seremos capazes de avaliar melhor a verdadeira distância entre as duas variantes de maçonaria que existe hoje em ambos os lados do Canal da Mancha, e, provavelmente, chegaremos à conclusão de que a realidade é verdadeiramente diferente de tudo o que foi dito por anos ou, pelo menos, muito mais complexa.

Gostaria, brevemente, de tentar desvendar algo que, infelizmente, continua a ocorrer: é a questão do GADU que ilustra perfeitamente o problema.

A França é um antigo país católico – não dessa “primitiva religião católica” a que se refere o primeiro Livro das Constituições compilado em 1723, é claro: A França foi a primeira grande nação dedicada inteiramente à Igreja Católica Romana – no século 19, um prelado romano a chamou “filha predileta da Igreja“.

Isto era verdade desde o batismo de Clovis, no século V até a Revolução Francesa de 1789; e continua a ser verdade ainda no século 19, mesmo quando outras revoluções foram muitas vezes hostis à Igreja; mesmo após a separação entre Igreja e Estado; e ainda hoje, segue sendo, mas em um sentido especial: é certo que a nossa nação é a mais antiga do mundo católico, embora segundo recentes pesquisas de opinião (Le Monde des Religions, Janeiro de 2007), apenas 51% dos franceses se consideram católicos, e apenas 15% frequenta uma igreja pelo menos uma vez por mês.

Mas, mais impressionante e tipicamente francês é que 50% e não mais dos católicos franceses acreditam em Deus e 80% dos restantes veem Deus como uma força, não um ser pessoal, 60% acreditam na ressurreição de Cristo e 40% na natureza trina de Deus. Finalmente, de todos eles, 60% acreditam na virgindade de Maria…

Quais eram as verdadeiros opiniões religiosas dos católicos franceses do passado?

Não podemos saber, mas eu suspeito que elas não eram diferentes das atuais. A única diferença era que antes da Revolução Francesa era proibido à pessoa declarar-se como um livre-pensador, e que em 1776 – não na Idade Média! – um jovem aristocrata, o Chevalier de la Barre, foi queimado vivo porque se recusou a descobrir sua cabeça quando passava uma procissão religiosa.

A cultura francesa, a arquitetura, a estrutura social, as instituições políticas foram profundamente influenciadas pela Igreja desde o início da França. A Igreja era um dos pilares do Rei, mas em troca era a única religião aceita.

Lembremo-nos da trágica revogação do Édito de Nantes em 1685 pelo rei Louis XIV, então todos os pastores protestantes foram ordenados a deixar o reino e todos os crentes na Fé Reformada obrigados a converter-se ao catolicismo.

Os filhos de pastores com idade inferior a 15 anos foram forçados a permanecer em França, cruelmente separados de seus pais, a fim de serem educados em famílias católicas.

Um deles conseguiu escapar escondido em um barril: seu nome era Jean Theophile Desaguliers…

Vocês sabiam que em 1877, quando o GODF (Grande Oriente de França) decidiu eliminar de suas Constituições, não a menção do GADU- não – mas a compulsiva “crença em Deus e na imortalidade da alma”, o Grão-Mestre – que naquela época se denominava “Presidente do Conselho da Ordem”- Frederic Desmons era um pastor protestante? [O GADU, estava presente em alguns outros rituais, embora opcionalmente]

Isso é realmente surpreendente? Não acho que seja.

[É uma constante entre os maçons protestantes da Europa, retirar dos ambientes maçônicos o tema da crença, resta saber qual é a razão, se porque não fazê-lo significava continuar a permitir a onipresença Católica, como expõe Dachez … e portanto, eles decidiram promover a aposta secular de remover esse viés religioso. V.G.]

Por algum motivo curioso que vocês provavelmente podem entender, porque mesmo para um pastor protestante na França, o significado da palavra “Deus” era católico!

Isso demonstra o poder da Igreja, a submissão a ela, a rejeição da liberdade de consciência em matéria religiosa. Séculos de dominação intelectual e também, muitas vezes, perseguição em nome de… “Deus”!

Vocês podem imaginar isso?

Mesmo em nossos dias, 50% dos assim chamados católicos franceses realmente não acreditam em Deus, mas não podem admitir publicamente, e de fato não poderiam ser considerados católicos!

Deixem-me lembrá-los que em 1877, nem o GODF ou qualquer outra Grande Loja da França havia suprimido a menção do GADU. Claro, provavelmente vocês sabem que hoje, na maioria das lojas do GODF não se faz referência ao Grande Arquiteto, mas que a grande maioria dos maçons franceses – incluindo muitos membros da Grande Oriente – talvez 80% deles, quando abrem ou fecham suas lojas, invocam o Grande Arquiteto.

Assim, a pergunta final é: Qual é a dificuldade especial de um maçom francês declarar que o GADU é Deus?

Não é porque eles sejam maçons especiais, bons ou maus. Senão, e só por isso, porque eles são franceses E maçons. (Nota T. No original AND em maiúsculas).

E têm que apoiar interiormente tanto a tradição maçônica, quanto a história intelectual francesa.

E uma questão adicional: Por que é tão difícil para um inglês compreender isso?

Posso sugerir que as duas perguntas têm uma resposta comum e que tentar esclarecer esta questão é também uma tarefa comum para os estudiosos maçônicos, franceses e ingleses.

Por alguns minutos, tentem entrar na mente francesa. Sim, eu sei que é complicado e que pode ser perigoso, mas acho que tal experiência pode ser de seu interesse.

Imaginem que, desde sua primeira infância tivessem sido educados em um país católico onde, em cada vila, a igreja, amada com frequência e fosse somente católica, e onde em 15 de agosto a Festa da Assunção da Virgem seja um feriado para a República e imaginem ao mesmo tempo que um século atrás, a Igreja e o Estado foram separados.

Imagine que não há lugar oficial para a religião no Estado, e ainda assim a cada ano uma missa é celebrada no início das sessões parlamentares; nenhum lugar oficial para a religião nas escolas, mas há um capelão para o catecismo na maioria delas. Um país onde existe uma palavra mágica: “secularismo” considerado um dos pilares da República, mas uma palavra francesa praticamente impossível de traduzir para outro idioma, especialmente o inglês; uma palavra que não significa liberdade para todas as religiões, nem o contrário, mas alguma coisa entre os dois. Imaginem tudo isso: não estão no País das Maravilhas de Alice ou em um mundo esquizofrênico, estão na França.

Um país onde a preocupação mais importante de todos é ter uma opinião sobre tudo e onde há alguém que se opõe àqueles que concordam e concorda quando há alguém que se opõe; um país onde a filosofia é ensinada nas escolas.

Um país, finalmente, onde 50% dos católicos não acreditam em Deus, sem problema.

E agora, voltemos aos maçons franceses. Você acha que eles vêm da lua?

Não, eles vêm de um velho país onde as palavras são como brinquedos e um dos prazeres da vida é jogar com elas. Não como um gato com um novelo de lã, mas como um gato com um rato; porque esse jogo é aparentemente fútil e cruel, mas é muito sério. É o jogo da vida.

Para os maçons franceses, a Maçonaria não é só uma sociedade fraterna, onde eles podem fazer bons amigos e exercitar a caridade para pessoas em desgraça.

Para eles, ser um membro do ofício não só é um sinal de respeitabilidade social ou uma espécie de estado religioso. Claro que para alguns deles, a maçonaria pode ser qualquer uma dessas coisas, mas fundamentalmente a maçonaria é um compromisso intelectual.

Por isso, para eles, o GADU não pode ser “simplesmente” Deus; porque “Deus” não é uma simples palavra ou não é tão simples como uma palavra. Para a maioria deles, mais uma vez, há uma “pedra de toque” moral, intelectual e espiritual na construção maçônica e a chamam GADU.

E agora .. Eu lhes mostro o meu sonho.

Será possível para os maçons em ambos os lados do Canal da Mancha, esquecer cada um a sua visão estreita e limitada do outro?

Para muitos maçons franceses, uma loja inglesa é a fachada de uma igreja paroquial, às vezes escura, seca e aborrecida. E sabemos que isso não é verdade.

Assim é que quando alguém lhes disser que uma loja francesa é a fachada de um partido político ou de uma sociedade de radicais livres-pensadores, não acredite neles.

Eu tenho um sonho: Meu sonho é que todos os maçons possam construir o Centro de União, não porque eles sejam semelhantes em todos os aspectos – eles não são, naturalmente – mas precisamente porque todos são seres humanos imperfeitos, compartilhando uma natureza – a humanidade – e um sentimento – a esperança.

Então, irmãos, tenhamos tal esperança, juntos.


Publicado por Víctor Guerra em www.ritofrances.net



quinta-feira, 1 de junho de 2017


O PAINEL DE APRENDIZ


Publicado no excelente blogue: A PARTIR PEDRA

Tal como está no nosso ritual, vamos abordar o Painel do Aprendiz de baixo para cima e da esquerda para a direita
Piso branco e preto

O pavimento, alternadamente em preto e branco, simboliza, os Princípios de Bem e do Mal, simboliza a guerra entre Miguel e Satanás, dos Deuses e Titãs, entre a luz e a sombra, dia e noite, da Liberdade e Despotismo;

O que é bom para mim pode ser mau para ti.

Neste Grau de Aprendiz, o pavimento mosaico representa o piso térreo do Templo do Rei Salomão.
As Colunas, os 3 degraus e as Romãs

O local de reunião de uma Loja maçónica tem por entrada um espaço delimitado por duas colunas. Estas evocam as duas colunas que existiam no átrio do Templo de Salomão, descritas na Bíblia no 1.º Livro dos Reis, capítulo 7, versículos 15-22:

As Colunas “B” e “J”, estão presentes em todos os templos maçônicos e sua posição varia conforme o Rito.

Nos Ritos: Escocês, York, Schroeder, a Coluna “B” fica à esquerda e a “J” à direita. Nos Ritos: Francês e Adonhiramita as posições são invertidas.

Os Três Degraus antes do Pórtico, representam a idade do Aprendiz, correspondente ao tempo que os Maçons Operativos necessitavam para serem elevados ao Grau de Companheiro.

Somente após vencer os Três Degraus, isto é, o tempo de permanência no 1º Grau, é que o Aprendiz atingia o pórtico e entrava na obra que se estava construindo.

As romãs semiabertas nos capitéis das colunas, divididas internamente por compartimentos cheios de considerável número de sementes, sistematicamente dispostas e intimamente unidas, lembram a fraternidade que deve haver entre todos os homens e, sobretudo entre os Maçons.

As romãs representam assim, a família maçónica universal, cujos membros estão ligados harmonicamente pelo espírito da ordem e da fraternidade.
O Nível

Sob o ponto de vista operativo, com o Nível é possível verificar, se uma superfície está livre de arestas, pois, a planificação do alicerce de uma obra é fundamental para sua correta sustentação

É a joia simbólica do 1º Vigilante, sendo aquele que em Loja, promove o igual tratamento, não se reconhecendo as distinções existentes no mundo profano. O Nível é o símbolo da igualdade, da igualdade fraterna, com que todos os maçons se reconhecem.
Régua 24 polegadas

A régua, por excelência, é um instrumento de medida. Através dela é possível obter a informação sobre a longitude de uma dimensão espacial.

O número 24, associado à régua, é primeiramente referido às horas do dia. Em número de 24, divididas em três períodos iguais de oito horas, sugere que o homem deve ocupar com equilíbrio o seu dia em descanso, trabalho, e a serviço do seu Deus ou de um irmão necessitado.

A lição que o Aprendiz deve obter da régua de 24 polegadas é da proporcionalidade e retidão com que deve ocupar o seu tempo
Maço e Cinzel

O Maço é a energia, a contundência, a força e a decisão necessárias para que o Aprendiz progrida no seu trabalho, não esmorecendo ao primeiro revés.

Quando utilizado de forma desordenada, o maço pode-se transformar numa poderosa ferramenta de destruição, porém, o seu uso disciplinado torna-o num instrumento indispensável.

O Cinzel simboliza a inteligência que o Maçom deve empreender para desbastar a Pedra Bruta.

É um instrumento utilizado para trabalhos que exijam apuro e precisão, formado por uma haste de metal em que um de seus lados é perfuro-cortante e o outro apresenta uma cabeça chata onde recebe o impacto do Maço, dirigindo a força daquele de forma útil.

A associação do Maço com o Cinzel mostra-nos que a vontade e a inteligência, a força e o talento, a ciência e a arte, a força física e a força intelectual, quando aplicadas em doses certas, permitem que a Pedra Bruta se transforme em Pedra Cúbica
Pedra Bruta / Pedra Cúbica Piramidal

A Pedra Bruta simboliza o Aprendiz, que nela vai trabalhar, desbastando e marcando-a, até que seja julgada polida pelo Venerável Mestre.

Ela representa o homem na sua infância ou estado primitivo, sem instrução, áspero e despolido, com as paixões a dominarem a razão e o que nesse estado se conserva até que, pela instrução maçónica, pelo estudo adquira instrução superior.
A Lua, o Sol e as estrelas

Decoram o templo simbolizando o universo e os atros que iluminam a abóbada celeste.

O Sol, e a Lua representam o antagonismo da natureza, o dia e noite, a afirmação e a negação, o claro e o escuro, que, contraditoriamente, gera o equilíbrio, pela conciliação dos contrários.

As diversas Estrelas distribuídas irregularmente no Painel do 1º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceite simbolizam a universalidade da Maçonaria e lembra que os Maçons, espalhados por todos os continentes, devem, como construtores sociais, distribuir a luz dos seus conhecimentos a todos os que ainda estão cegos e privados do conhecimento da verdade.
Olho que tudo vê

Os cristãos chamam-no de Olho da Providência e o representam-no dentro do triângulo que representa a Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo. Para os cristãos esse símbolo representa a onisciência e a onipresença de Deus.

Este símbolo para nós maçons, alude ao “Grande Arquiteto” que observa e acompanha as ações dos membros da Ordem, com o intuito de que todos ajam de forma correta
Esquadro e compasso

O Esquadro como joia do Venerável Mestre, indica que ele deve ser o Maçom mais reto e mais justo da loja, servindo como paradigma para todos os obreiros.

É símbolo da retidão, da moralidade, pois que conjuga, por sua forma, o Nível e o Prumo.

Enquanto a linha horizontal do Esquadro representa a trajetória a ser percorrida na terra, o determinismo, o destino, a vertical indica o caminho para cima, dirigindo-se ao cosmo, ao Grande Arquiteto do Universo

O compasso simboliza a vida correta, pautada pelos limites da Ética e da Moral. Ou ainda o equilíbrio. Ou a também a Justiça. Porque o compasso serve para traçar circunferência, delimitando um espaço interior de tudo o que fica do exterior dela, assim se transpõe para a noção de que a vida correta é a que se processa dentro do limite fixado pela Ética e pela Moral

A conjugação destes dois símbolos constitui provavelmente o símbolo mais conhecido da Maçonaria através de um esquadro, com as pontas viradas para cima, e um compasso, com as pontas viradas para baixo.
3 Janelas

Representam as 3 portas do reino de Salomão
Pedra Cúbica

A Pedra Cúbica representa o Companheiro. É o material perfeitamente trabalhado, de linhas e ângulos retos.

Simboliza o homem desbastado e polido de suas asperezas, educado e instruído, pronto para ocupar seu lugar na construção de um mundo melhor.
O Prumo

O Prumo permite aferir a retidão de uma parede quando está a ser construída, de forma a garantir sua estabilidade

Simbolicamente, o Prumo possibilita a verificação correta e fundamenta o correto crescimento intelectual do maçon, trazendo o conhecimento necessário que possibilitará a aplicação precisa da força através da razão.

É simbolicamente a joia do 2º Vigilante e deve ser usada para verificar qualquer inclinação, qualquer saída do Prumo, que possa acontecer durante a aprendizagem, corrigindo-a a tempo.
Corda de 81 nós

Tradicionalmente, na Maçonaria, os operativos empregavam cordas com nós amarrados a distâncias iguais, para efetuar medições das distâncias no canteiro de obras e esquadrejar grandes ângulos. Isso permitia-lhes traçar os planos de construção das obras que realizavam.


Este método é utilizado ainda hoje por mestres de obra, quando precisam achar o esquadro da fundação de uma obra.



As catedrais antigas eram orientadas de modo que seus eixos ficassem no sentido Oriente-Ocidente e os mestres de obras dominavam as regras da astronomia que lhes permitiam determinar com exatidão a orientação deste eixo. Uma estaca era fincada no terreno, sobre este eixo, no ponto indicado pela seta da figura em baixo

Considerando o Teorema de Pitágoras, onde o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos temos:

Hipotenusa = 5 segmentos ou 5×5=25

Cateto menor = 3 segmentos ou 3×3=9

Cateto maior = 4 segmentos ou 4×4=16

Considerando a fórmula de Pitágoras, o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos, temos:

25 = 9+16 e isso assegura que o ângulo tenha exatamente 90º.

Imaginemos que fossem construir uma grande catedral. Precisavam de algo mais que um metro para medir as grandes distâncias e assim utilizavam as cordas com nós atados a distâncias regulares e estacas, de acordo com a escala utilizada.

OS MISTÉRIOS DO ARCO REAL


Tradução José Filardo



Nos últimos anos, os historiadores maçônicos descobriram que, longe de ser uma adição tardia e um tanto artificial, como tinha sido muitas vezes sugerido, os primeiros altos graus – ou “graus complementares” – remontam provavelmente às origens da Maçonaria especulativa. Entre eles, o mais antigo e mais importante é certamente o “Arco Real” (tradução melhor do que “Real Arco”). Na maçonaria anglo-saxã, ainda é hoje o grau adicional por excelência e um dos destaques da vida maçônica.

O que caracteriza em primeiro lugar o grau do Arco Real é a força de seu tema simbólico. Juntamente com o trabalho em torno do Templo de Jerusalém, três trabalhadores revelam acidentalmente um alçapão que dá acesso a uma cripta, um cofre secreto. Eles exploram esta cripta e descobrem gravada em uma pedra assentada no centro, a antiga palavra de Mestre, a de Hiram e Salomão, antes da mudança ocorrida na cerimônia do grau de Mestre. Trata-se de um dos nomes sagrados de Deus. A lenda do Arco Real, portanto, mantém laços estreitos com duas figuras importantes do esoterismo ocidental: a busca do segredo perdido, a dimensão quase teúrgica atribuída ao verdadeiro conhecimento dos nomes divinos. A origem dessa lenda maçônica é provavelmente o episódio semelhante relatado por Philostorgius, um escritor grego da Antiguidade tardia, e retomada por alguns escritores religiosos do século XVII. Então, o abade Fleurylhe dedica três páginas em sua monumental e famosa História Eclesiástica (1691). O tema inicial conhece variações – por vezes, a cena se passa durante a construção do Primeiro Templo, às vezes é quando de sua reconstrução por Zorobabel – e muitas adições, muitas vezes de grande riqueza simbólica. Assim, o “verdadeiro nome de Deus” encontrado pelos três trabalhadores só pode ser pronunciado quando os três estão reunidos e em um procedimento particularmente impressionante. O Capítulo do Arco Real é dirigido por três dignitarios, os três “Diretores” Zorobabel, o profeta Ageu e o Sumo Sacerdote Josué simbolizando as funções real, profética e sacerdotal. Se nós sempre lhe damos um lugar de destaque, o Arco Real nem sempre é praticado da mesma forma na Inglaterra, na Escócia, na Irlanda ou nos Estados Unidos.

O grau do Arco Real é atestado pela primeira vez na Irlanda em 1744 em uma prancha, um pouco controversa, intitulada Investigação séria e imparcial sobre a causa do declínio da Maçonaria no Reino da Irlanda! O Dr. Dassigny nos revela ali a existência de uma controvérsia entre os Irmãos sobre a introdução, “há alguns anos atrás”, de um novo grau do Arco Real que seu propagador afirmava ter recebido na loja de York, na Inglaterra, e outros afirmando que o verdadeiro Arco Real era aquele proveniente de Londres. A partir dos anos 1750, alguns depoimentos atestam a prática do grau nas Maçonarias britânica e americana, que se multiplicam nos anos de 1770-1780. O Arco Real foi particularmente apreciado pelos “Antigos” – de quem conhecemos, aliás, a forte ligação com a Irlanda – enquanto que os “Modernos”, mesmo trabalhando nele queriam manter a proeminência do grau de Mestre. Dessas divergências, a União 1813 fez em seu artigo 2º esta citação mal escrita célebre e emblemática do pragmatismo Inglês: “a pura e antiga Maçonaria consiste de três graus e nada mais, ou seja: Aprendiz, Companheiro e Mestre, incluindo a Suprema Ordem do Santo Arco Real”. A Maçonaria francesa não o ignora. O “Cavaleiro do Arco Real” – um nome, ao mesmo tempo enigmático e transparente – bem como o “Grande Escocês da Abóbada Sagrada”, que é encontrado como a segunda ordem do Rito Francês ou graus 13 e 14 do REAA são provavelmente testemunhos emocionantes das versões mais antigas do Arco Real britânico que chegaram à França na década de 1760.


OS "QUATRO ELEMENTOS"...E SE ELES ERAM APENAS DOIS?


Tradução José Filardo

Publicado 17 de maio de 2017 – por Ronan Loaëc



Os quatro elementos, fogo, ar, terra e água na ordem em que os nomeou Aristóteles partindo do mais sutil remontam à Grécia antiga: Empédocles os havia postulado como componentes básicos de todos os corpos cujas características dependiam da respectiva mistura de seus componentes. Aristóteles acrescentou a eles um quinto, o éter (a “quintessência”), que supostamente banhava o universo como um vapor tão sutil que ele permanece invisível e impalpável, e do qual não nos livramos realmente a não ser no século XX, com a relatividade de Einstein. Os outros quatro “elementos” perderão seu status como componentes básicos na segunda metade do século XVIII, com o trabalho de Lavoisier que conseguiu separar, identificar e pesar os dois principais constituintes do ar, o oxigênio e o nitrogênio ou azoto (assim nomeado a partir do grego porque não permitia a vida).

Com Lavoisier, que mostra, ao mesmo tempo que a combustão é devida ao oxigênio e não um hipotético “flogisto”, a alquimia vai rapidamente perder seu status em benefício da química moderna. Mas não se interrompe tão facilmente um sonho baseado em sentimentos profundamente enterrados no inconsciente, gerados pelas experiências experimentos da criança descobrindo o mundo à sua volta, como tão bem demonstrou Bachelar em seu estudo dos elementos … (1)

Amante de ópera diante do eterno, eu conhecia de cor a Flauta mágica de Mozart bem antes de ser iniciado. E seu caráter maçônico, sistematicamente enfatizado em todos os programas de todas as casas de ópera do mundo, obviamente, não me escapou. Eu não tinha lido voluntariamente nada específico sobre a iniciação maçônica para preservar o frescor da descoberta e não correr o risco de sucumbir às ideias preconcebidas, mas de toda forma cheguei à grande noite com a sensação de ser nada a menos que Tamino. Então esperava ser “purificado” pela água e pelo fogo como meu modelo.
Qual não foi minha surpresa ao sentir também uma corrente de ar (obviamente alimentada por um efeito chaminé) e descobrir através do texto um tanto moralizador que era lido à medida de meu deslocamento para explicar-me os passos que eu também havia sido submetido à prova da terra. É preciso dizer que, sem meu pleno conhecimento, visto que eu pensava apenas meditar na câmara de reflexão diante de um memento mori, uma clássica “vaidade” que apaixonava os séculos XVII e XVIII, ao redigir meu testamento filosófico diante de um crânio que me contemplava com suas órbitas vazias destacadas pela luz bruxuleante de uma vela.


Uma chave de compreensão, a alquimia

A presença de uma pegada alquímica através do “vitriol” (que eu viria a descobrir mais tarde que se trata de um acrônimo) e o enxofre deveria ter colocado uma pulga atrás da orelha: a iniciação por que eu passara não era a mesma da Flauta. De fato, eu descobriria mais tarde, graças a meus mestres que me deram a curiosidade histórica e me preservaram das besteiras da “história sagrada maçônica” que somente as provas da água e do fogo eram realizadas no século XVIII, como fizeram Tamino e Pamina. Querer fazer de “crianças” em sua máquina voadora o símbolo do ar e dos subterrâneo o teste da Terra, a exemplo da câmara de reflexão, constitui um flagrante contrassenso histórico de que Chailley foi o principal propagandista, equivocado que era por uma visão histórica baseada em trabalhos cujo rigor não é a principal qualidade (e eu penso aqui principalmente em Boucher que constituía, para sua infelicidade, a única fonte de informação de nome entre os muitos musicólogos em matéria maçônica (2)). Eu viria a descobrir na mesma ocasião que a câmara de reflexão era originalmente uma simples câmara de preparação, pouco ou nada decorada, onde se deixava o candidato antes de vir buscá-lo para as provas. De fato, o componente alquímico da câmara moderna apareceu tardiamente, e segundo o mesmo processo que levou para completar as provas com aquelas do ar e da terra (mais precisamente, adicionar à câmara de reflexão uma dimensão simbólica de ” prova da terra “, que originalmente lhe era completamente estranha, e isso tem apenas a finalidade de completar a tabela dos elementos tradicionais da alquimia). A chave é, claro, sobre alquimia. Como ela se instalou, como se desenvolveu nas lojas?

O século XVIII – Século das Luzes – é também o do mistério e da escuridão. À figura do já mencionado Lavoisier, protótipo do cientista “moderno” adepto de uma metodologia rigorosa, podemos opor o de uma personagem controversa, Mesmer, que usa a moda da eletricidade e do magnetismo para enganar os ingênuos. Mesmer era vienense, amigo do pai de Mozart; o compositor e seu libretista Da Ponte o evocou na figura de Cosi fan tutte através da empregada Despina que traz os dois galanteadores à vida após seu falso suicídio, usando um… ímã. A maçonaria original na Inglaterra tem pouca influência sobre o esoterismo. O conceito de iniciação está ausente ali: “faz-se” um maçom. É diferente no continente: o século XVIII, particularmente na França, verá nascer muitos altos graus com títulos floridos baseados em diferentes mitologias, incluindo a cavalaria (Pierre Mollier vê ali um ressurgimento dos mitos da Távola Redonda no imaginário da burguesia), bem como a alquimia. A separação administrativa, hoje corrente entre as lojas simbólicas e as oficinas de altos graus era desconhecida e os detentores desses títulos atraiam simultaneamente inveja e ciúme: é muito fácil imaginar como, ao longo dos anos, conceitos surgidos nos altos graus se transmitissem às Lojas. A decoração da câmara de reflexão constitui assim um bom marcador desta evolução.


Origens do sincretismo contemporâneo…

Os elementos alquímicos, assim, apareceram “em azul” desde a segunda metade do século (o enxofre e o vitriol …). Subsequentemente, no século XIX, é o grau frequentemente considerado o máximo, o da Rosa Cruz, que por sua vez será a força motriz para uma mistura através de um mecanismo semelhante: o novo rito, a Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), finalizado em 1806, vai gradualmente levar à extinção de fato do Rito Francês (RF) nos altos graus, oferecendo acesso direto ao grau 18, o da Rosa Cruz, ou seja, equivalente a Quarta Ordem do RF. Os hábitos de REAA adquiridos nos capítulos rosa-cruzes pelos irmãos mais tapados da loja, por sua vez, vão se introduzir gradualmente nas lojas que continuam esmagadoramente a praticar o RF. Inventa-se, particularmente, um acendimento de velas que era desconhecido no RF, nascido em um momento em que as velas serviam para… iluminar, na falta de gás ou de eletricidade. E se começa a “esquadrejar”, para marcar os cantos ao redor do tapete da loja. Ao mesmo tempo, sob a influência de mitologia ambiente favorável a uma sobrecarga simbólica, esforça-se para “completar” os rituais originais e é assim que os “quatro elementos” gradualmente substituem os dois originais, os únicos usados no tempo de Mozart: não, a Flauta Mágica não propunha em sua cena final uma iniciação figurada, mas uma descrição realista desta parte da cerimônia, as “purificações” pela água e pelo fogo.

O grande ordenador da implantação do hermetismo e da alquimia como princípio subjacente à Maçonaria é, certamente, Oswald Wirth: seu livro O Simbolismo Hermético em suas relações com a alquimia e a Maçonaria (1909) merece uma leitura ainda hoje. Todas essas evoluções muito sensíveis na segunda metade do século XIX, serão formalizadas através dos rituais de Groussier que se esforçou no período entre guerras, para trazer rigor ritualístico e dimensão simbólica a uma maçonaria que tinha perdido muito o interesse nas lutas políticas (para não mencionar o papel da vitória intelectual do racionalismo na virada do século).

No rito francês do século XVIII, do qual o Regulateur de 1801 dá uma ideia bastante precisa, substitui assim gradualmente no século XIX e depois no XX, um rito composto: os fundamentos do Rito Francês estão bem presentes (pé de partida na marcha, posição das colunas e vigilantes, bateria …), mas a muitos empréstimos do Rito Escocês Antigo e Aceito são adicionadas inovações muitas vezes felizes (aparição do espelho, posição respectiva do esquadro e do compasso segundo o grau, instalação do fio do prumo no templo) e, infelizmente, o abandono de elementos-chave do Rito (particularmente o tapete de loja que oficinas do Rito Francês recuperam cada vez mais frequentemente). Enquanto algumas inovações são mais interessantes e enriquecem o simbolismo das cerimônias , outros são mais questionáveis. Assim, o acendimento de velas acrescenta uma dimensão de mistério e beleza à abertura e ao fechamento dos trabalhos, independentemente dos fundamentos do Rito praticado. Além disso, se esta prática é ausente do RF original, é simplesmente que essa fase era tecnicamente impossível de implementar no século XVIII. É bastante diferente do habitual marcar os cantos: no RF, as grandes luzes não são força, sabedoria e beleza concentradas sobre as três colunas arquitetônicas que cercam o tapete da loja no REAA (e por um bom motivo: no RF, há apenas as luzes de iluminação e as três grandes luzes, o sol, a lua e o mestre da loja estão no Oriente). Não há, portanto, nenhuma razão para “saudar” uma virtude ausente marcando os cantos, mas sim seguir um orbe que lembra o movimento dos planetas …

O sincretismo é um processo natural de evolução de rituais. A busca obsessiva de uma “pureza original perdida” revela apenas a neurose de seus adeptos cujas abordagens geralmente conduzem a impasses fundamentalistas. As evoluções, os empréstimos, as invenções que enriquecem o significado e revelam a beleza são sempre positivas e devem ser considerado com simpatia … Nossas roupas, nossos rituais atuais já não têm mais muito a ver com os da origem, mas eles permitem alcançar os mesmos objetivos: a união de corações e mentes na fraternidade. No entanto, se ele é sincretismo feliz, outros contribuem apenas para obscurecer o significado mais profundo das fontes. Apenas o estudo histórico nos permite reencontrar o sentido original, encontrar a pedra escondida, a “occultam lapidem” do vitriol!

Notas:
1: Veja Revista Maçonaria No. 55
2: Jacques Chailley: A Flauta Mágica, ópera maçônica (Detrad). Para saber mais, leia as Crônicas da História Maçônica No. 64 de 2009, na qual dediquei um longo artigo aos erros de musicólogos relacionados com a sua ignorância da história real da Maçonaria no século XVIII (Conforme Editions).

O RITUAL SCHRODER, UMA HERANÇA DOS "MODERNOS"

Tradução: José Filardo

Por Victor Guerra -  V Ordem e Grau 9 do Rito Moderno



Temos muito na cabeça que os Irmãos maçons da Inglaterra, (stuartistas e huguenotes [1] ) que passaram de “armas e bagagem” pelo Canal da Mancha a caminho da França em busca de refúgio e uma nova vida trouxeram consigo aquelas velhas práticas maçônicas dos “Modernos” constituíram o grande núcleo do Rito Francês, cuja grande referência tem sido e é o Grande Oriente de França que o implementou na França e o irradiou, digamos que timidamente, a outros confins.

Tanto é verdade que o desenvolvimento do que hoje conhecemos como Rito Francês, não deixa de responder às necessidades de uma Obediência na fase de estruturação que produziu, em consequência, o Régulateur du Maçon, para em seguida, se adaptar aos tempos e às exigências sociopolíticas. Ela foi derivando seus rituais em função dessas questões e das pressões das elites do poder. Assim, temos como resultado os rituais Murat, os de Amiable, os múltiplos de Groussier e atualmente os de Referência, todos eles responderam às necessidades de cada momento.

Mas a ideia que temos deve deixar de ser tão reducionista porque o Rito dos “Modernos” teve outras fugas ou vias de escape, como já nos contou o historiador Pierre-Yves Beaurepaire, e estas se realizaram em parte através das elites intelectuais e políticas daqueles momentos que logo se sentiram atraídas pela Maçonaria e o misticismo que a cercava.

Rotterdam foi um desses centros onde primeiro se cria uma loja em 1720 -1721, geralmente de nacionalidade Inglesa e escocesa, logo havia também uma implantação descontínua em Portugal, Hamburgo e Alemanha e que os irmãos, como disse PY Beaurepaire; a plasticidade da sociabilidade maçônica é o que faz com que as lojas fossem o receptáculo das aspirações em relação às frustrações profanas. [2]

E, portanto, fruto dessa peregrinação localizada na Alemanha uma personagem “genuína” como Friedrich-Ludwig Schröder iria acabaria desenvolvendo o chamado Ritual Schröder

Os oito oficiais [3] da oficina em seus lugares, os Mestres se situam no topo das respectivas colunas, depois os Companheiros e, finalmente, os Aprendizes.

O silêncio reina nas colunas, e a penumbra é evidente na oficina[4] e apenas três luzes dão claridade suficiente para iniciar os trabalhos

O Mestre da loja e os dois Vigilantes trocam o sinal do Aprendiz e, em seguida, um após o outro eles batem com os seus malhetes, após o que o Mestre da Loja desce do Oriente e se dirige para tomar sua própria luz no Ocidente e iluminar com ela a coluna da Sabedoria, enquanto declama: Que a Sabedoria presida a construção deste edifício!

Enquanto isso, os Vigilantes, desde suas mesas, recolhem suas luzes correspondentes e as colocam em suas respectivas colunas: o Primeiro Vigilante declama: Que a força o dirija! E o Segundo Vigilante, quando deposita sua luz, diz: Que a beleza o adorne!

Depois que o experto revela o Painel da Loja , e depois do habitual golpe de malhete do Venerável, repetido pelos Vigilantes em seus lugares – que coloca à ordem os membros da oficina vez que se declaram abertos os trabalhos sob esta fórmula: Sendo eleito pela livre vontade de meus irmãos, Abro esta loja no grau de Aprendiz em nome do GADU e de acordo com os costumes antigos dos maçons, e depois de recitar uma oração, declara aberta a loja com esta proclamação: “A loja está aberta, que cada oficial cumpra seu ofícios, e que essas horas sejam abençoadas”

Dessa forma bem conhecida, mas também tão peculiar e ao mesmo tempo tão simples, abrem-se os trabalhos do Ritual Schröder, cujas origens envolvem ir até o começo da prática da Maçonaria na Alemanha.

Schröder, em contato permanente com Lessing, Herder, Bode e Bötticher vai ajudar no esforço que mantém a pesquisa histórica dessas origens que, no caso alemão podemos rastrear até 1737, que é quando chega a estas terras procedente da Inglaterra, formatado com base em três graus chamados de São João: Aprendiz, Companheiro e Mestre, que representa o clássico sistema de três graus.

Esta primitiva Maçonaria não tem um grande desenvolvimento, embora se constate a criação de várias lojas: em 1741, uma loja escocesa se constitui em Berlim, e em 1744 outra em Hamburgo pela mão de von Schmetten que trabalharia no Rito Francês, ou seja, que temos como pontos de origem o porto internacional de Hamburgo, tendo em seguida, ponto de origem na Prússia com o erguimento de outra loja.

Este nascimento será muito marcado pela Estrita Observância Templária (SOT), cujo período é cheio de sombras históricas e cujo sistema causou muita confusão, não só no aspecto histórico, mas na própria evolução da Maçonaria [5] . Quem quiser se aprofundar sobre o assunto eu recomendo o livro de Le Forestier: “A Franco-Maçonaria Templária e Ocultista“. (Uma verdadeira bíblia sobre a questão da SOT)

Mas, partindo da atração da SOT, que de alguma forma se inseria na linha de projetos utópicos no espaço que vão para a constituição de um estado aristocrático, e será a SOT que trocaria a Carta Europeia do Iluminismo pela ideia da Europa Templária em se unem a Maçonaria e aqueles monges guerreiros que se refugiam na Escócia e na Irlanda e de cuja organização encontraremos coincidências suspeitas quanto à teurgia que logo se desenvolverá em torno do “superiores desconhecidos“, tudo isso envolto em uma atmosfera carregada de sinergias teúrgicas, cabalistas e teosóficas, sem deixar de fora, é claro, o hermetismo ocultista, que finalmente se estabeleceria como uma atração poderosa que atraiu muitas maçonarias e maçons, [até hoje, graças às redes sociais e informações da Internet, podemos ver muito disso emaranhado nas pernas da Maçonaria do século XXI.] e cujo principal objetivo era nada mais do que “romênia” cristã.

Não há dúvida de que todo este conglomerado atraiu fortemente o sentimento romântico germânico, e cujo paroxismo terá seu pico alguns anos mais tarde com o aparecimento durante o nazismo de Ordens iniciáticas com a Thule ou outras de origens neo-templaristas neo-Teutônicas incertas.

No meio deste turbilhão das paixões, aparece a figura de Friedrich-Ludwig Schröder [6] homem de personalidade forte e vocação autodidata inata que o leva a adquirir a sua paixão uma vasta cultura. Nascido em 2 de novembro em 1744 em Schwerin, seus pais eram atores de teatro de origem luterana. E ele mesmo foi diretor de teatro, dramaturgo e ator.

Foi iniciado na Maçonaria através do apadrinhamento de seu amigo Bode [7] Venerável durante uma boa parte dos anos de uma das lojas mais antigas da Alemanha: Absalão zu den drei Nesseln“ [8] fundada em 1735 em Hamburgo, (existente até hoje[9] ). Schröder é recebido na loja de Hamburgo Enmanuel zur Maienblume [10] fundada em 1774, embora tivesse pedido para entrar na loja Jonathan, em maio de 1769, mas sua condição de ator não tinha boa reputação entre a maçonaria da época e, portanto, foi rejeitado.

Uma vez iniciado e dado seu ímpeto, Schröder mesmo tendo a abeta levantada, como Aprendiz que era, e sem que houvessem passado apenas dois meses, ele decide levantar uma loja: Elisa zum warmen Herzen que será considerada irregular porque, além disso, admitia somente pessoas de teatro de seu próprio círculo. A loja terminaria abatendo suas colunas em 1775.

Nesse mesmo ano, Schröder é elevado a Mestre na loja de Rensburg: Josua zum Korallenbaum. Um ano depois, em 28 de junho, é eleito Venerável, e recebe o grau 4, Mestre Escocês.

Schröder terá uma longa vida maçônica enquanto Venerável, já que é encontrado nesse cargo até 1799, ano em que é eleito Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja Provincial, que em 1811 se tornará a Grande Loja de Hamburgo, sendo nosso amigo Schröder eleito Grão-Mestre em 1814, com 70 anos de idade. Este rejeita o cargo argumentando que era demasiado velho desempenhar suas funções.

A Originalidade de Schröder.

Com esse ímpeto e paixão típicos, aliás, do autodidata, uma das coisas que desenvolve é criar uma loja de instrução reservada apenas para a Mestres, cuja missão era fundamentalmente conhecer outros sistemas rituais, e sobre esta loja Schröder escreve: Dentro dele se exercerá a verdadeira fraternidade, ao contrário do que acontece em outras lojas. Todas as perguntas podem ser feitas dentro de um diálogo totalmente aberto“.

Este espaço de reflexão e de instrução que tomou o nome de Engbund, cuja fundação data de1802 se perderá ao longo do ano de 1861.

Mas, como tal oficina deixará toda uma marca, e não menos, como era a de reformar a maçonaria alemã, retornando os rituais à pureza original, fugindo da desordem e instabilidade da Maçonaria alemã da época, enquanto lutavam contra o caráter fabulista e fantasioso de “superiores desconhecidos”, etc.

Schröder não só vai preconizar com tal avanço, uma ação sem precedentes, porque só trabalhará os três graus simbólicos, e ele fugirá como gato da água dos Altos Graus, que além disso, não vão estar presentes no chamado sistema ritual Schröder, cujo desenvolvimento encerrará com o grau de Mestre Maçom, que deve trabalhar e perseverar para ter o mais alto nível de formação.
Ele tem isso tão claro que opina que: “A Maçonaria não é uma ordem… mas uma corporação, uma guilda, uma fraternidade” e, portanto, faz todo o sentido usar o termo Irmão e foge de todas as magias, alquimias e teosofias que se misturam com o trabalho ritual maçônico e o confundem. Tudo isso será recorrente em alguém que viveu no meio da Estrita Observância Templaria e cujos reflexos recolherá nos quatro volumes que escreveu “Materiais sobre uma história da Maçonaria“, ainda que contra toda a sua ação houvesse duas questões que lhe afetadas diretamente: por um lado o visionarismo gnóstico, e por outro os reformistas radicais que tentavam erradicar o ritual e o simbolismo da loja.

Nesse ambiente, Schröder realizará o desenvolvimento do que vai acabar se denominando Schrödersche System um sistema baseado em três graus que representam uma adaptação da reunião de rituais ingleses antigos baseados no desenvolvimento dos “Modernos”.

Um trabalho de reelaboração de língua difícil cheia de dúvidas, uma vez que seu esforço era ficar o mais próximo possível das fontes para criar assim um ritual que “forçará os homens à meditação e tornará explícitas as noções fundamentais como a tolerância, a fidelidade, a plena consciência da responsabilidade de cada um” essa fidelidade ele queria alcançar com base no trabalho de tradução para o alemão e que realizava graças à complacência e cumplicidade de um Delegado das lojas germânicas em Londres.

Voltar à simplicidade original de um ritual supõe superar toda uma série considerável de obstáculos, e Schröder não se conformará com os rituais alemães em uso, então ele embarca nessa busca original, para isso recorre às fontes inglesas, o que não era fácil, e menos se se leve em conta que os rituais das lojas inglesas não estavam, em sua maioria, transcritos para o papel, e, claro, não estavam impressos, vez que eram memorizados ao longo do tempo de aprendizagem para aqueles que seriam então os oficiais da loja.

Graças ao empenho e paixão de Schröder e a este contato na Grande Loja da Inglaterra cuja personagem era o irmão August von Graefe [11] este será alcançado através de um “estranho” compromisso com Graefe que foi ditando de memória ao Grande Secretário Backmann os rituais Ingleses praticados na época.

Em 1792, Schröder conseguiu sua primeira compilação, com a qual trabalharão cerca de cinco lojas de Hamburgo, sendo o ritual adotado como tal em 1816 pela Grande Loja de Hamburgo, embora Schröder não poderá ver culminada sua criação, pois virá a falecer em breve, em setembro de 1816, sendo enterrado no Cemitério paroquial luterano de São Pedro de Hamburgo.

O trabalho ritualístico de Schröder impressiona pois são vinte e seis volumes nos quais recolheu uma série impressionante de rituais muito antigos, muitos deles descobertos no sul da Alemanha. Em parte, seu trabalho será recompensado pela recuperação da loja Amalia zu Drei Rosen de Weimar [12] , na qual foi iniciado Goethe, naqueles primeiros tempos a oficina tinha trabalhado no ritual da Estrita Observância Templaria, e em seguida, no Rito Zinnendorf [13] , a referida lojas terminará por adotar o Ritual Schröder, em junho de 1808.

Começamos este artigo abrindo os trabalhos, agora toca a encerrá-los sob o sistema Schröder.

Uma vez concluídos os trabalhos, o Venerável Mestre diz: Que brilhe sobre nós a luz da Sabedoria! O Primeiro Vigilante: Que o fogo da força continue a agir! ” O Segundo Vigilante”: Que em nós brilhe a Beleza!

Por ordem do Venerável Mestre, o Primeiro Vigilante manda os irmãos ficarem à ordem enquanto fecha a loja em nome do Grande Arquiteto do Universo: Assim como o sol se oculta no Ocidente, o Primeiro Vigilante se situa no Ocidente para fechar a loja e dar aos obreiros seus salários e liberá-los de seu trabalho.”

Os três malhetes da loja repicam sucessivamente cada um golpe, até uma segunda ronda, enquanto o experto fecha o Painel da Loja e o Venerável e os Vigilantes apagam suas luzes. A Cadeia de União se forma e o Venerável Mestre recita: A loja está fechada! Die Loge ist geschlossen!

Nota: Artigo baseado no trabalho de Didier Le Masson *: Um rito alemão inspirado pelos “Modernos” o Sistema Schröder’.
* Membro da Grande Loja da França, e membro de um Capítulo do Rito Sueco de Hagen da Grande Loja da Alemanha.

Notas

[1] Note-se que houve lojas “francesas” compostas por refugiados huguenotes na Inglaterra, por exemplo, a mais antiga é Au Temple de Salomão de 1725.

[2] Pierre-Yves Beaurepaire. L’Europe des Franc-Macons. XVIII – XXI Siecles. Edições Belin 2002.

[3] Mestre de Loja, Experto, Mestre de Cerimônias; Tesoureiro; Secretário, Guarda do Templo; e 1º e 2º Vigilante.

[4] Schröder declarava que em seu ritual o epíteto que alguns maçons dão à oficina de “Templo” estava proscrito e ele preferia chamá-la de “sala da loja”

[5] Tanto os antecedentes quanto o Capítulo Templário de Unwuerden, ou a chamada Reforma de Dresden de 1755 diz-se que era hipotética, e também se escreveu que a instalação de Hund em 1749 ou 1751 em um Capítulo Templária de Kittliz não está provada, e o Convento de Kohlo marca o apogeu da SOT que a seguir assumirá o nome de Regime do Rito Escocês Retificado, sendo assim, o fim do mito dos Superiores Desconhecidos.


[7] Johann Christoph Bode (1730-1793) conselheiro do tribunal de Weimar, filho de um trabalhador; autodidata nos “coros” do Duque de Brunswick, compositor e tradutor de romances humorísticos, e depois de um importante casamento se torna editor Goethem Lessing, e se acha na loja Absalon em 1764 pertencente à SOT onde rapidamente ascende à posição de Venerável, e em fevereiro de 1738 foi admitido na Ordem do “Illuminati” da Baviera, onde era conhecido pelo nome simbólico de “Amelius”. Uma fonte interessante:http://modernhistoryproject.org/mhp?Article=FinalWarning&C = 02.01Também se pode consultar o trabalho de Charles Porset: Les Philalethes et les Convents de Paris. A politique de la Folie. Edições Honore Champion. 1996. Página 532-533.

[8] Absalão das Três Urtigas


[10] Loja que ainda hoje existe: http://www.ezm-hamburg.de/.


[12] Lodge que ainda existe:http://www.anna-amalia.de/


Víctor Guerra. Vº Ordem, e 9o. Grau do Rito Moderno.