terça-feira, 11 de abril de 2017




ESSÊNIOS 

A UTOPIA ESSÊNIA

Autor: João Anatalino

Livro Conhecendo a Arte Real – Editora Madras

Há utopias sonhadas e utopias tentadas. Umas assumem feições políticas, outras se mantêm no terreno da religião. Algumas são apenas sonhos de filósofos, que jamais saem do papel. A Maçonaria é uma utopia filosófica e uma tentativa de implantá-la na prática. Por isso tem tantos envolvimentos com a política, e não raras vezes é confundida com religião, justamente pelo fato de incorporar em seus catecismos diversos motivos temáticos e litúrgicos inspirados por seitas religiosas, algumas até, anteriores ao Cristianismo. Uma das seitas que muito influenciaram a Maçonaria, em sua face espiritualista, foi a seita dos essênios, cuja organização, estrutura, doutrina e prática de vida a coloca na categoria de uma utopia tentada.

Os essênios constituíam uma comunidade místico-religiosa formada por iniciados nos mistérios da religião hebraica. Julgavam-se detentores do verdadeiro conhecimento religioso, aquela sabedoria que Deus comunicara aos primeiros homens e que desaparecera da terra após o dilúvio. Muitos escritores de orientação esotérica os fazem herdeiros dos atlantes, atribuindo-lhes diversos conhecimentos iniciáticos, da mesma forma que aos egípcios. Nós nos contentamos em reconhecê-los como antecessores espirituais da Maçonaria, naquilo em que eles a influenciaram.

Duas das tradições legadas pelos essênios, e aproveitadas no simbolismo maçônico, são a ideia do Homem Universal e o mistério ligado ao verdadeiro significado do Nome de Deus. Tanto a mística do filho de Deus que se faz Filho do Homem para redimir a humanidade pecadora quanto o poder que se encerra no Inefável Nome de Deus são tradições amplamente cultivadas pela doutrina essênia e repassadas à tradição da Cabala[1]. Na Maçonaria, esse simbolismo é utilizado para desenvolver os ensinamentos das Lojas de Perfeição e Capitulares, bem como certos graus filosóficos das Lojas do Kadosh.

Entre os judeus, os essênios podem ser considerados uma espécie de sociedade secreta, de caráter religioso, cujos membros discordavam da orientação imprimida à sua religião. Formando uma verdadeira Fraternidade eles se afastaram do convívio social e desenvolveram uma espécie muito particular de comunidade que, na verdade, tinha um objetivo bem definido: preparar uma nova comunidade de eleitos de Deus, que seria a herdeira da Nova Aliança, quando o Messias visse ao mundo.

Nesse sentido, eles desenvolveram um complexo sistema religioso de cerimônias de iniciação, semelhante às das seitas iniciáticas antigas. Exigiam juramentos solenes de obrigações fraternas e um estrito silêncio sobre suas práticas, crenças e tradições, ao mesmo tempo em que inculcavam na cabeça de seus adeptos uma filosofia de vida que muito se aproximava das seitas ascéticas da Idade Média, particularmente os cátaros.

As pesquisas mais recentes sobre os documentos essênios encontrados em Qumran, localidade próxima ao Mar Morto, em 1948, revelaram que suas doutrinas tinham uma grande semelhança com aquelas pregadas por Jesus, o que levou muitos autores a considerá-los como antecessores dos cristãos.

Cavernas de Qumran

A ideia que se fazia dos essênios, a partir de informações extraídas de escritores gnósticos antigos, como Philo de Alexandria, por exemplo, que já no século I da Era Cristã confessava a influência que deles teria recebido, era a de que eles constituíam uma comunidade de magos, grandes conhecedores de segredos da natureza, detentores de uma sabedoria muitas vezes milenária, oriunda, talvez de uma civilização desaparecida.

Por força de tais informações os essênios sempre foram envolvidos por uma aura de misticismo e mistério. Porém, com a descoberta dos pergaminhos do Mar Morto, uma nova luz foi lançada sobre essa interessante Fraternidade, que sobreviveu por mais de dois séculos em condições políticas muito adversas, praticando uma espécie de irmandade que muito os aproxima dos Obreiros da Arte Real.

É evidente que qualquer comparação, qualquer analogia que se faça entre a comunidade essênia e a Maçonaria deve levar em conta as culturas em que eles se desenvolveram e suas respectivas épocas. Essa comparação deve ser feita no plano de objetivos e procedimentos, relevando-se as aproximações sem observar as diferenças, que são notórias. Talvez a melhor fórmula para se fazer essa aproximação seja a observação de que os essênios conservaram em sua doutrina e sua prática de vida a essência da tradição iniciática dos sacerdotes egípcios, dos hierofantes gregos e das comunidades místicas da Pérsia e da Mesopotâmia. Aproximando e adaptando a tradição hebraica a essas antigas formas de desenvolvimento espiritual, eles criaram uma nova cultura, salvaguardando e desenvolvendo a face mística, esotérica, contida naquelas antigas tradições, legando aos gnósticos cristãos, seus sucessores, o que de melhor havia na religião daqueles antigos povos.

SINTESE HISTÓRICA

A comunidade essênia foi fundada por um personagem misterioso, referido na sua literatura ora como Mestre Perfeito, ora como Mestre Verdadeiro. Não se sabe quem foi realmente esse personagem singular, mas acredita-se que tenha sido um sacerdote da tribo de Levi, que revoltado com a corrupção do clero israelita da época (início do século II a. C), retirou-se para a clandestinidade, arrastando com ele um vasto contingente de seguidores, insatisfeitos com os rumos que a religião vinha tomando em Israel.

Uma ligeira síntese histórica ajuda a fazer uma ideia daqueles tempos. No século II a. C. Israel fazia parte do chamado mundo helênico. Desde o século IV a. C. a Palestina tinha sido incorporada ao império persa que, por sua vez, fora conquistado por Alexandre Magno entre 326 e 323 a. C.

Após a morte de Alexandre, seu império foi dividido entre seus generais. A parte correspondente à Síria e Palestina ficou com Antíoco, que estabeleceu a sede de seu governo na Síria. Por volta do início do século II a. C. reinava na Síria um de seus descendentes, chamado Antíoco Epifanes (ou Epifânio).

Flavius Josephus[2] nos dá uma ideia do ambiente que reinava em Israel naquela época. Naquele tempo, diz o referido historiador, a casta sacerdotal responsável pela manutenção da pureza da religião de Israel, fundamentada na lei mosaica, estava profundamente corrompida. Só se preocupava em manter seus privilégios, submetendo-se às pressões e influências estrangeiras, esquecendo-se de que o maior dever do sacerdote era a manutenção da tradição e da pureza da relação entre o homem e Deus.

Os israelitas sempre foram muito ciosos a respeito de sua religião. Muitos preferiam morrer a adorar ídolos estrangeiros ou violar os preceitos da torá. Essa situação que existiu durante toda a época da dominação helênica e se prolongou durante a ocupação romana, não raramente ensejava motivos para a eclosão de sangrentas revoltas.

Durante a época de Jesus, essa situação não se modificara, como se pode perceber no seu magistério. Jesus fazia ferrenha oposição à classe sacerdotal da sua época, conforme se lê nos Evangelhos. Essa classe, composta pelos escrivas e fariseus, interpretava a lei em seu próprio benefício e lançava sobre os ombros do povo cargas insuportáveis “que nem com um dedo queriam levantar”.

Na verdade, os escribas e fariseus que “se sentavam” na cadeira de Moisés e lançavam “cargas insuportáveis” sobre os ombros do povo faziam parte de uma classe que, desde a conquista helênica, preferira aliar-se aos dominadores em vez de lutar pelas suas crenças. Com isso não concordavam os “puristas”, os ortodoxos, os cultores da ideia de uma religião isenta de qualquer influência pagã. Esses “puristas” julgavam ser o culto aos deuses estrangeiros a maior das ofensas que se podia fazer a Jeová.

Um desses homens “puros” foi, sem dúvida, o chamado Mestre Verdadeiro, que fundou a comunidade essênia. No início do século II a. C., o sacerdócio era exercido pela família de Matatias, um homem da tribo de Levi, famoso por suas posições de defesa intransigente da lei mosaica. O rei sírio Antíoco Epifanes, desejando quebrar a resistência israelita, quis implantar em Israel o culto a Zeus Olímpico. Com essa intenção, invadiu o santuário do Templo de Salomão em Jerusalém, colocando no altar do Santo dos Santos uma estátua daquele deus. Os israelitas não suportaram a violação do mais sagrado dos seus locais e, comandados por Judas, o filho mais velho do sacerdote Matatias, iniciaram a rebelião que ficou conhecida como Revolta dos Macabeus.

Foi durante a Revolta dos Macabeus que um grupo de israelitas ortodoxos fugiu de Israel e se instalou na chamada “Terra de Damasco”. Liderados pelo chamado Mestre Verdadeiro (talvez o próprio Matatias, ou ainda um dos filhos), sua intenção era praticar a verdadeira religião de Israel, a sua pureza primitiva.

O Mestre Verdadeiro, além de líder de invulgar talento, revelou-se profeta, legislador e poeta de excelente qualidade, a se julgar pelos hinos que compôs.

Durante todo o período de dominação helênica, o núcleo de reação judaica se concentrou em dois grupos: os essênios e os zelotes. Quanto aos zelotes, o interesse para esse estudo é secundário, tendo em vista que eles permaneceram principalmente no terreno militar. Foram eles, inclusive, que forneceram os combatentes que, nos anos 67-70 d. C., sustentaram uma guerra sem qualquer contra as tropas romanas.

Já os essênios, conforme se percebe, na literatura recuperada por meio dos pergaminhos do Mar Morto, pregavam uma resistência ora política, ora espiritual. Essa resistência estava sempre conexa com a ideia de um herói, um Messias, que libertaria Israel do domínio estrangeiro e renovaria a Aliança daquele povo com Deus.

Chamando-se a si mesmos de “convertidos, penitentes, pobres, justos, santos, eleitos, etc”, os essênios consideravam ser seu grupo a verdadeira Israel, aquela nação cujo modelo Deus teria transmitido a Abraão e realizado por intermédio de Moisés[3]. Acreditavam que, por ocasião da fuga do Egito, Deus teria transmitido a Moisés a verdadeira sabedoria, que estaria oculta no significado do seu Verdadeiro Nome, segredos esses que Moisés não revelou no Pentateuco, mas transmitiu oralmente aos sacerdotes mais antigos da tribo de Levi. Era desse segredo que os essênios se julgavam depositários. Acreditando-se que a maioria dos ensinamentos bíblicos havia sido escrita em código, eles desenvolveram uma interessante forma de interpretação do Livro Sagrado, que certamente deve ter servido de inspiração para os rabinos que desenvolveram a grande tradição da Cabala.

O OBJETIVO DOS ESSÊNIOS

A seita dos essênios era uma verdadeira Fraternidade, com características de sociedade secreta. Para tornar-se membro dela era preciso que o neófito fosse portador de três atributos básicos: ser israelita, inteligente e disciplinado. Exigia-se do candidato um juramento para com a Irmandade para consigo mesmo, no qual ele se comprometia a submeter-se à disciplina da Ordem e a perseguir os objetivos pelos quais se tornara membro dela. Em princípio, o iniciado deveria viver na comunidade durante um ano antes de tornar-se membro efetivo. Após esse período, ele se tornava um “numeroso ou sectário pleno”, ocasião em que deveria juntar seus bens aos da comunidade.

O objetivo da comunidade era não só preservar a pureza dos fundamentos da religião israelita, mas principalmente preparar um Messias, um líder que fosse capaz de libertar o povo de Israel da influência estrangeira e reconstituir, depois, o reino de Deus sobre a Terra. Toda a sua organização e o conjunto da sua doutrina eram dirigidos para esse objetivo.

Não só o Messias deveria ser preparado, porém, quando o seu reino fosse instalado, ele iria necessitar de “quadros” para governar. Assim, toda a rígida disciplina da Fraternidade era orientada também para a produção de “juízes”, guerreiros e administradores”, enfim, todo o staff necessário para a administração da nova sociedade que seria fundada com a sua vinda.

Na infância, e até os 20 anos, o iniciado era instruído no Livro da Meditação e nos Preceitos da Aliança; a partir dos 20 anos, passava a viver na Comunidade dos Irmãos e podia casar-se. A partir dos 25 anos, poderia ocupar cargo na Congregação; com 30, ser juiz e liderar grupos. Todo esse processo era realizado mediante uma análise de mérito, na qual se avaliava a “inteligência e perfeição de conduta” do iniciado, pois, como previam as Regras, todos os homens eram treinados para formar a elite que governaria o reino que seria instalado pelo Messias.

Em função desse objetivo, os essênios desenvolveram uma organização eclesiástica, uma organização militar e uma organização judiciária. Os juízes seriam dez, eleitos periodicamente entre os irmãos com idade entre 25 e 60 anos, após os 60, deixariam a função; um sacerdote, com idade mínima de 30 anos e máxima de 60, “detentor de todos os segredos dos homens e conhecedor de todas as línguas faladas na Terra”, seria o juiz supremo da congregação judiciária.

Quanto a ordem militar, entre 25 e 30 anos, o irmão poderia ocupar funções de intendente; 3ntre 30 e 45, podia-se ser cavaleiro; entre 45 e 50, oficial de campo, e entre 50 e 60, comandante do campo. Havia também um Conselheiro Superior da Comunidade, do qual participavam “os homens de renome”.

Esses homens eram escolhidos por suas virtudes, seu desempenho nas funções administrativas ou militares, ou dotes sacerdotais. Esse conselho era uma espécie de Parlamento, que por sua vez era controlado por um Colégio comporto de 12 irmãos e três sacerdotes, “perfeitos em tudo o que é revelado em toda a lei, para praticar a justiça, a verdade, o direito, a caridade afetuosa e a modéstia de conduta, uns em relação aos outros, guardar a fé sobre a Terra, com uma disposição firme e um espírito constrito, para expiar a iniquidade entre aqueles que praticam o direito e sofrem a angústia da provação e para se conduzir com todos na medida da verdade e da norma no tempo”[4].

A DOUTRINA DOS ESSÊNIOS

Os essênios eram ascetas que desprezavam os prazeres dos sentidos e a acumulação de bens. O tesouro comum só devia ser utilizado para prover as necessidades mais estritas. Um essênio, ao entrar para a comunidade, devia votar “ódio eterno aos homens da fossa por seu espírito de entesouramento. Ele deixará para eles seus bens e a renda do trabalho de suas mãos, tal como um escravo em relação ao seu amo, e tal como um pobre diante do que lhe tem domínio. Mas ele será um homem pleno de zelo para com o preceito e cujo tempo é destinado ao dia da vingança”[5].

Dessa forma, todo membro, ao ingressar na Ordem, tinha que lhe entregar todos os seus bens. Esse regime de comunhão foi observado também pelos primeiros cristãos, como se observa nos Atos dos Apóstolos, e o desprezo pelos bens materiais constituiria um dos pontos mais altos da doutrina ensinada por Jesus.[6]

Acima de tudo, porém, os membros da seita deviam observar e estudar a lei mosaica. A lei devia ser cultuada, pois a comunidade era, mais que tudo, “a casa da lei”. Isso explica também o fato de que Jesus, não obstante ser considerado pelos judeus como um reformador da lei mosaica, sempre concitou seus discípulos a segui-la. E no conceito de observação à lei, estava o respeito aos rituais e celebrações estabelecidas pela religião, bem como os cuidados com a higiene corporal.

Para os essênios, a Gnose divina que Jeová revelara a Moisés não fora exposta nos cincos livros do Pentateuco. Era uma sabedoria secreta que consistia no conhecimento do Nome Verdadeiro de Deus, na prática do direito justo e no aprendizado dos comportamentos necessários para se atingir a perfeição.

Os essênios acreditavam que no espírito do homem coexistiam dois princípios: um presidia o bem e o outro presidia o mal. O presidente do bem era o Príncipe da Luz e o do mal, o Príncipe das Trevas, chamado Belial ou Satã. Nesse sentido, o mundo seria um campo de batalha entre esses dois princípios. Para eles, o mal não podia ser vendido simplesmente pela ação humana. Era necessária a intervenção Divina, o que ocorreria quando o Messias começasse seu ministério. Escolher entre o bem e o mal não era uma opção humana. Deus elegia seus escolhidos, mas mesmo os escolhidos podiam ser desviados para o mal. Para os não escolhidos não havia possibilidade de opção para o bem. Os escolhidos eram aqueles que Deus reuniu na “congregação”, ou “Casa da Verdade”. Esses eram os Filhos da Luz.

Por outro lado, todos aqueles que aderiram à cultura estrangeira, desprezando a Aliança, eram “filhos das trevas”.

A ideia de um combate entre trevas e luz, na verdade, não é originária dos essênios. Foi tomada por empréstimo aos antigos egípcios, que já viam no psicodrama de Osiris e Seth uma luta entre esses dois princípios. Mais tarde os persas desenvolveram essa mesma ideia, identificando o Deus Marduc como o deus da Luz e Arimã como o deus das trevas.

Sempre se acreditou que tudo que existe no Universo é produto da reação interativa entre dois princípios contrários, que podem ser espírito e matéria, o bem e o mal, a verdade e a mentira, a luz e as trevas, etc. Na história da humanidade, uns assumem o papel de Marduc, outros, de Arimã. Segundo essa concepção, tudo, na sociedade humana, é produzido pela reação à ação que um dos lados provoca no outro. O próprio materialismo dialético desenvolvido por Karl Marx trabalha com essa tese, fundamentando na interação de dois princípios contrários, que podem ser entendidos como a forma de ganhar a vida e a forma de pensar, o motor da história[7]

No caso dos essênios, eles assumiram o papel dos filhos da luz e retiraram-se para as terras de Damasco para não serem corrompidos pelos filhos das trevas, e ali, separados do mal, preparar uma reação contra a ação deles. Os Filhos da Luz, quando ocorresse o triunfo, seriam vingados de todos os males que os Filhos das Trevas lhes haviam infligido. E mesmos aqueles que estivessem mortos ressuscitariam para participar do conflito final entre os defensores dos dois princípios, ocasião em que o mal, por fim, seria vencido.[8]

O MESSIANISMO

Uma das mais interessantes concepções essênias foi a alegoria do Homem do Céu e o Homem da Terra. Dela derivou outra figura que ficou conectada à pessoa de Jesus Cristo, com o enigmático título de Filho do Homem.

A figura do Homem do Céu, como bem lembra Schonfield, também é de inspiração persa. Ele representa a figura do deus Mitra, que por sua vez é uma projeção de Azura-Mazda, o princípio da luz, que se torna carne e habita entre os homens. É interessante verificar que os persas tinham em Mitra uma espécie de mediador ou salvador da humanidade.

O Mitraísmo, tal como as religiões egípcia e mesopotâmica, era uma religião solar. O Sol era sempre representado como aquele que dá vida. Mitra era o representante solar, cujo nascimento se comemorava no dia 25 de dezembro. Nesse dia pagava-se tributo ao sol, pelo sacrifício de um cordeiro, cujo sangue redimia aqueles que nele se lavavam.

As analogias existentes entre o Mitraismo e o Cristianismo são notórias. Os próprios padres católicos ficaram estarrecidos com tais semelhanças, que pensavam se tratar de inspirações demoníacas. Tanto que proibiram qualquer referência ao Mitraísmo nos trabalhos desenvolvidos pelos escritores cristãos. São Justino, no século II, acusa os praticantes dos mistérios de Mitra de “imitar propositadamente os ritos cristãos” por inspiração do demônio, e Tertúlio, o patriarca da Igreja, na mesma época, denuncia os praticantes desse culto, dizendo que “o demônio, pelo mistério de seus ídolos, imita até a parte principal dos mistérios divinos. Mitra marca com seu sinal a fronte de seus soldados; ele celebra a oblação do pão; oferece uma imagem da ressurreição, apresentando ao mesmo tempo a coroa e a espada”.[9]

A religião solar dos persas exerceu profunda influência ao espírito místico dos judeus. Na tradição judaica, o mundo também havia sido criado a partir do surgimento da luz.[10] O Sol era o símbolo da vida, o evento a partir do qual Deus criara os seres viventes. Flavius Josephus diz que os essênios “não faziam nada, nem pronunciavam qualquer palavra antes do nascimento do Sol. A ele ofereciam determinadas orações que somente os iniciados sabiam e que se presumiam ser muito antigas. Essas orações imploravam pelo nascimento do Sol “.[11]

Daí o desenvolvimento da ideia, presente em alguns escritos essênios, de que o Messias era um “Ser de Luz”, vindo do Sol para libertar o mundo do mal, representado pelas trevas. Esse “libertador” era o Homem do Céu, identificado como Adão-Luz dos gnósticos mandeanos, o Metátron das lendas rabínicas.

Quando se sabe que um dos mais importantes graus do Rito Escocês (o 28º) faz claras evocações ao Mitraismo, não podemos nos furtar a essa digressão por esse assunto. As analogias são por demais claras para justificar as associações feitas. Esse é mais um vínculo entre as tradições maçônicas e os essênios que conservaram e desenvolveram essas ideias, por si sós, denotativas de um profundo conteúdo espiritualista.

De acordo com os essênios, o mal só poderia ser vencido pela intervenção divina, por intermédio de um enviado de Deus à Terra.[12] Esse mensageiro era o Messias. Entre os judeus sempre houve polêmica sobre o que seria esse personagem. Para alguns ele seria um sacerdote que estabelecia dogmas definitivos a respeito da religião. Para outros, ele seria um rei que libertaria o povo de Israel de todas as opressões, estabelecendo um reino eterno de liberdade, harmonia e ordem.

Na sua visão, esse personagem se dividia em três atributos, e não foi possível até o momento definir se pensavam em três personagens diferentes ou apenas um, que integrasse todas essas facetas. O Escrito de Damasco fala de um Messias rei (Messias leigo), um Messias Profetas e um Messias Sacerdote. Para os fariseus, seita à qual pertencia a maioria das autoridades israelenses, o Messias seria um rei que viria precedido por um Messias Sacerdote.

Para os essênios, entretanto, apenas o Messias Sacerdote seria o verdadeiro enviado de Deus, pois assim lhes teria ensinado o profeta Malaquias. A fórmula repetia a história de Moisés, que teria sido o sacerdote, e Josué, que teria sido o guerreiro. Mais tarde essa fórmula foi apropriada pelos doutrinadores cristãos, que viram em Jesus, o Messias que continha em si ambos os atributos, de guerreiro e sacerdote, enquanto João, o Batista seria o profeta.

Não é sem razão, portanto, que muitos historiadores, e uma expressiva maioria de escritores de orientação esotérica, acreditam que tanto Jesus Cristo quanto João, o Batista eram essênios. A própria crônica da vida de ambos parece confirmar essa tese. João, o batista era um asceta que vivia rigorosamente de acordo com as regras daquela Irmandade, sua pregação ocorreu na mesma região geográfica em que a comunidade de Qumran se desenvolveu e suas visões se assemelham sobremaneira às visões essênias.

Quanto a Jesus, é certo que pregava uma doutrina que muito se aproximada daquela veiculada por eles. Acresça-se a isso a fama de “milagreiro” que sempre acompanhou a sua saga. Essa fama também era associada aos essênios, cujos conhecimentos de medicina eram considerados fantásticos.

Há muitas outras aproximações que podem ser feitas acerca dos fenômenos Jesus e a seita dos essênios. Laperroussaz cita, entre outras, o fato de Jesus ser levado pelo demônio a um deserto para ali ser tentado. Esse deserto tem sido identificado como a solidão que os essênios impuseram a si mesmos.

Da mesma forma, o deserto para onde Jesus teria sido levado é situado no local onde os pergaminhos do Mar Morto foram encontrados.

Também o fato de Jesus ter recrutado seus primeiros discípulos na região próxima a Qumran provoca muita especulação. Jean Danielou, citado por Laperroussaz, releva ainda o fato de Jesus celebrar a ceia na véspera da Páscoa, o que mostra que ele seguia o calendário essênio e não o calendário judeu tradicional.

Para muitos autores, os pergaminhos do Mar Morto demonstram, de maneira insofismável que os fundadores do Cristianismo eram, de fato, oriundos da seita dos essênios. Isso explicaria a presença de algumas lacunas do Novo testamento, bem como certas questões enigmáticas a respeito da vida, da doutrina e do magistério de Jesus, nunca explicadas a contento pelos exegetas dos evangelhos canônicos.

Explicaria também a origem do Gnosticismo. “Levando-nos a conhecer o meio imediato em que surgiu o Cristianismo”, escreve aquele autor, “as descobertas de Qumran resolvem um número considerável de problemas que a exegese não chegava a solucionar: a origem de João, o Batista, a data da Páscoa, a origem da hierarquia, o vocabulário de João, a origem do Gnosticismo. É provável que a utilização do conjunto de documentos, as comparações que geram, aumentem ainda de forma expressiva o número dos enigmas resolvidos”. Por conseguinte, pode-se dizer que essa descoberta é a mais sensacional já feita”.[13]

A INFLUÊNCIA DOS ESSÊNIOS

Diversos centros comunitários dos essênios se desenvolveram a partir do século II a. C. Algumas tradições se referem à aldeia de Nazaré, onde Jesus foi criado, como sendo um centro dessa comunidade. Sabe-se que entre eles se desenvolveu também a prática mística, bastante antiga, aliás, de usar roupas brancas e não cortar os cabelos. Acreditava-se, com base em antigas tradições, que nos cabelos estava a essência do elo que liga Deus aos homens. Esses homens consagrados a Deus eram chamados de “nazarenos”. Sansão é descrito na Bíblia como um desses homens, e Jesus teria sido criado em uma aldeia de “nazarenos”.

Os essênios eram também conhecidos pelos seus conhecimentos de medicina. No Egito, sua comunidade era conhecida como “Os Terapeutas”. Acreditava-se que possuíam conhecimentos que se assemelhavam a poderes mágicos. Tais conhecimentos provinham de fontes muito antigas, provenientes, talvez, de uma civilização extinta. Eram também mestres na escrita criptográfica e no uso do simbolismo para transmitir seus conhecimentos. O uso de pseudônimos aparece e frequentemente em sua literatura. Títulos como “Mestre Verdadeiro”. “Mestre da Justiça”, “Sacerdote da Iniquidade”, “Leão da Ira”, “Tempo da Promessa”, etc. eram expressões que marcavam pessoas e fatos, para evitar a repressão das autoridades seculares. Escreviam palavras invertendo a ordem das letras, misturavam alfabetos de diferentes línguas, inventavam eles mesmos alfabetos.

Não somente os primeiros cristãos devem grande parte de sua doutrina aos essênios. Também muitas das seitas gnósticas se inspiraram em suas ideias, as quais, em maior ou menor parcela, tiveram influência no desenvolvimento da Maçonaria especulativa, principalmente nos chamados graus Rosa-Cruzes, onde se desenvolveu a lenda de Ormuz.

É fácil perceber a relação que a doutrina professada por aqueles místicos judeus tem com a Maçonaria, em sua face espiritualista. Os Obreiros da Arte real também acreditam na construção de uma sociedade justa e equânime, fundamentada no mérito e no trabalho árduo, aliado à disciplina e ao respeito às tradições. Essa sociedade um dia já existiu e pode ser recuperada. Os essênios acreditavam nisso e, por isso, julgavam-se guardiões dessa sabedoria perdida, que só poderia ser repassada aos seus iniciados.

A analogia é evidente. A própria organização do conteúdo maçônico guarda uma certa identificação com o sistema adotado por aqueles ascetas. Por intermédio de um sistema de ensinamentos morais, o catecismo da Maçonaria forma, simbolicamente, guerreiros, juízes, sacerdotes e outros próceres, destinados a edificar, defender e conservar o que de melhor existe na cultura da humanidade. É a mesma ideia de uma utopia tentada, guardadas as diferenças de época, cultura e lugar.

Os essênios acreditavam que eram detentores de segredos iniciáticos de grande relevância. Não é que a Maçonaria, enquanto sociedade formalmente instituída, seja guardiã de segredos dessa ordem. Aliás, nem acreditamos que tais segredos existam no repertorio da cultura humana existente, seja do presente, seja do passado. O que há são leis naturais que a razão humana ainda não logrou entender e por isso as cataloga no conceito de sobrenatural. Entender o processo pelo qual essas leis são formadas e como atuam constitui a verdadeira sabedoria.

A fórmula desse conhecimento de nível superior, que permite ao homem entender esse processo, só pode ser deduzida por meio de um método que seja capaz de integrar uma iniciação, uma ritualística e uma prática de vida. Essa foi a formidável intuição dos essênios e a sua grande realização. Não é suficiente pensar uma filosofia. É preciso vive-la para que ela não se torne apenas uma distração mental. As mesmas verdades que eles intuíram já haviam passado antes pela sensibilidade dos sacerdotes de Heliópolis, que as desenvolveram no conceito, ao mesmo tempo religioso e sociológico da Maat, e pelos iniciados nos mistérios antigos, persas e greco-romanos que os utilizavam como forma de educação superior de suas elites.

É originária dos essênios, como já nos referimos, a ideia de que é preciso a formação de um Homem Universal, reflexo terrestre do Homem do céu, perfeito em conhecimento e obras, pleno de virtude e em harmonia com Deus, pois que ele é o herdeiro da Nova Aliança. Não é por acaso, portanto que nos graus superiores da Maçonaria, correspondentes às Lojas de Perfeição e Lojas Capitulares, se insistirá tanto na alegoria da Arca da aliança, na prática da verdadeira justiça, no exercício das virtudes que fazem um homem justo e perfeito em todos os sentidos.

Outra tradição cultivada na Maçonaria, que tem nos essênios a sua fonte, é aquela que se relaciona com a Procura da Palavra Perdida. Essa Palavra Perdida não é outra coisa senão o Verdadeiro Nome de Deus e o seu significado, que os essênios reverenciavam como o “Segredo dos Segredos”[14]. O reencontro com essa sabedoria perdida teria o condão de conferir ao seu possuidor a totalidade de conhecimento do Universo e faria dele um ser superior. Essa crença animou a especulação dos cabalistas durante séculos, e os maçons a adotaram como alegoria para simbolizar a aquisição da Gnose, que é a meta última e definitiva dos praticantes da verdadeira Arte Real. Por isso é que a influência desses antigos irmãos, Filhos da Luz, não pode ser desprezada em nenhum estudo que se faça sobre a cultura maçônica.


[1] Sugerimos a leitura do livro A Kabbalah Revelada – Filosofia Oculta e Ciência, de Knorr Von Rosenroth, Editora Madras. 
[2] Sugerimos a leitura de Seleções de Flavius Josephus – História dos Hebreus, da Editora Madras. 
[3] Sugerimos a leitura de Moisés: O Príncipe e o Profeta, de Rabino Leir Meter, e Moisés e Akhenaton – a História Secreta do Egito no templo do Êxodo, de Ahmed Osman, ambos da Madras Editora. 
[4] E.M. Laperroussaz, Os Pergaminhos do Mar Morto, Regras XXII. 
[5] Idem, Regra XXIV 
[6] Flavius Josephus, escrevendo acerca dos essênios, diz que eles desprezavam as riquezas, e que a comunidade de bens que observavam era realmente admirável. “Os essênios”, diz aquele autor, “mantêm entre eles uma lei, segundo a qual, todos os novos membros admitidos à seita fazem, por si mesmos, confisco de seus haveres em favor da Ordem; resultando daí que, em parte alguma, se verá ali, seja a miséria abjeta, seja a desordenada abastança. As posses do indivíduo se juntam ao existente cabedal comum e eles todos, como verdadeiros irmãos, beneficiam-se, por igual, de patrimônio coletivo”, Flavius Josephus – Antiguidade dos Judeus, p. 267 
[7] Karl Marx acreditava que era a forma pela qual os homens ganhavam a vida que determinava o seu modo de pensar. Assim, as transformações na ordem material determinavam as transformações de ordem ideológica. Como as transformações materiais dependiam da forma como as sociedades se organizavam para produzir, a cultura da humanidade dependia das técnicas de produção. Ainda nesse estudo falaremos um pouco mais das teses marxistas, já que elas exercem um papel importante no ensinamento de um dos graus superiores do Kadosch, particularmente o grau 26. Por ora, é importante salientar que toda a sociologia marxista é baseada na interação entre esses princípios, que, na essência, não difere da dialética essência acerca da produção dos fenômenos universais. 
[8] Essa crença foi magistralmente desenvolvida pelo autor do Apocalipse. Nesse estranho e enigmático livro, escrito à maneira essênia, o autor desenvolve a alegoria da luta entre os filhos da Luz conta os filhos das Trevas, identificando os primeiros com os cristãos fiéis e os segundos com os seus perseguidores. Veja que a Maçonaria do Rito Escocês muito se vale do simbolismo do Apocalipse para desenvolver alguns dos seus mais importantes graus filosóficos. A tradição maçônica muito se utiliza do simbolismo contido na luta entre a luz e as trevas. O próprio maçom, muitas vezes, é chamado de Filho da Luz. 
[9] Hugh Schonfield. A Odisséia dos Essênios, p. 178. 
[10] “Disse Deus: faça-se a luz; e fez-se a luz. E viu Deus que a luz era boa; e dividiu a luz das trevas. E chamou à luz dia, e às trevas noite; e da tarde e da manhã, fez-se o dia primeiro. ” Genesis 1:3 
[11] Flavius Josephus, op cit., p. 243 
[12] A tradição messiânica em Israel, no entanto, é fundamentalmente uma ideia dos fariseus. É bom não esquecer que os fariseus formavam uma casta sacerdotal, puritana e fundamentalista, que denominavam a si mesmos perushins, que quer dizer “distinguidos”. Formavam uma espécie de Confraria religiosa, semelhante a uma sociedade de amigos que socorriam uns aos outros, praticando ainda a filantropia, promovendo a educação religiosa do povo, senão ainda os maiores defensores dos direitos humanos. Os fariseus assemelhavam-se, em muito, à moderna Maçonaria. E da mesma forma, sendo uma sociedade de homens, não conseguiu evitar que a corrupção se instalasse em seu meio. 
[13] E. M. Laperroussaz, op.p 176=180 
[14] Note-se que Jesus jamais pronunciou o nome de Deus, e proibiu, também, seus discípulos de fazê-lo. Designava-O por “Pai”. Entre os essênios, o Inefável Nome de Deus era uma tradição do mais alto valor iniciático.

sábado, 8 de abril de 2017


A ACÁCIA E O MESTRADO
(Parte I)



Autor: Raymundo Della Júnior 
Do livro: Maçonaria – 30 Instruções de Mestre Maçom – Editora Madras


Nesta transcrição, sem qualquer finalidade lucrativa, iremos transcrever apenas a parte I do livro acima referido, vez que não diz respeito aos segredos do grau.

Aqueles que se interessarem pela obra, procurem nas melhores livrarias e a encontrarão com as 30 instruções já referidas.


“A palavra Acácia em hebraico antigo é grafada no singular como Shittah, sendo seu plural Shittin”.

“Além disso, o termo Acácia deriva do grego Ake significando ponta; porém, essa expressão é mais apropriada a um instrumento de metal, como por exemplo, a ponta de uma lança”.

“Contudo, no texto original grego do Novo Testamento, o termo usado é Akanqwn - Akanthon, traduzida para o português como Acácia, e em complemento, como Acanto que também pode significar: espinho – espinhoso – etc”.

“Ademais, essa palavra grega aparece em várias passagens da Bíblia mencionando a coroa de espinhos, e também a Árvore Shittah”.

“Além disso, o grego Akakia é também usado como Moral = Inocência – Pureza de vida – Ingenuidade – e Simplicidade; e há variáveis desse termo: Akakia – Kassia – Kasia – Akantha”.

“ Todas as religiões Místicas da Antiguidade contavam com uma árvore simbólica para sua veneração, tais como: lótus no Egito – mirto na Grécia – e carvalho em Celta”.

“A Acácia é uma árvore ou planta da família das Leguminosas – Mimosas – Acácia Dialbata, um arbusto de madeira dura, espinhosa, pontas penetrantes, folhas leves e elegantes, de região tropical ou subtropical, e flores miúdas brancas ou amarelas, perfumadas e agrupadas, e muito utilizadas como adorno; até porque essa flor imita o Disco do Sol – ou solar”.

“Enquanto há dentre suas espécies as que produzem goma-arábica, outras fornecem caucho – guaxe (fruta comestível) – tanino – e madeiras de grande valor”.

“Para os antigos a Acácia representava um Emblema Solar, como as folhas de lótus e de heliotrópio, pois, como já foi dito, suas folhas acompanham a Evolução do sol, e param esse movimento ao descer no ocaso; por isso, essa flor imita o Disco radioso do Sol, por meio de sua plumagem”.

“A Acácia tem aproximadamente 400 (quatrocentas) variedades, e existe em quase todo o Mundo nos Cinco Continentes, como nos: Estados Unidos – Índia – Egito – Israel – China – Austrália – etc; sendo assim universal”.

“No Brasil há cerca de 300 (trezentas) espécies de Acácia; e somente em região próxima à Monte Negro – Rio Grande do Sul há a Acácia Negra, que de sua casca é extraído o melhor tanino, sendo então a mais promissora riqueza dessa região”

“Essa extração é comparada somente a uma espécie existente na África; entretanto, a Acácia Oriental, produtora da goma-arábica, não vinga nesse Continente”.

“Caso haja interesse em subsídios para estudo mais aprofundados sobre a Acácia, em Israel há enorme variedade dessa árvore; assim, em Jerusalém, Belém, Jericó e todo país, em kibutz, parques e jardins, além de oásis entre desertos e montanhas, existe uma infinidade de Acácias”.

“No Vale do Jordão junto ao Mar da Galiléia, há resquícios de matas naturais onde, é provável, a Acácia foi uma árvore nativa, mas na atualidade, é difícil encontrar exemplares que indiquem ter essas árvores idade avançada, e muito menos parecerem centenárias”.

“Comparado às oliveiras do Sinai e Jericó, por mais antiga que seja a árvore perde o interesse científico, e há no trajeto entre Jerusalém e a Galiléia centenas de velhas oliveiras ainda frutificando, com troncos retorcidos, única sombra que as ovelhas usufruem nesses locais áridos”.

“Nos dias bíblicos no Vale do Jordão, havia um bosque que abrigava feras descrito nos Livros de Jeremias (12:15; 19; 49; 50:44) e II Reis (6:2), quando Jeremias com Eliseu foi ao bosque cortar madeira para construção de uma casa; mas atualmente não existe mais mata densa, apenas algumas Tamareiras, Acácias e outras espécies, não caracterizando esse bosque como mata”.

“No Egito e Acácia tem como peculiaridade possuir espinhos duros, por isso certos autores maçônicos especulam que a coroa de espinhos colocada na cabeça de Jesus era desse tipo de Acácia, como consta na Recueil Précieux de La Maçonarie Adonhiramita, de 1787; tanto que o estudioso maçônico O. Almeida diz que essa “Coroa de Acácia espinhosa em Jesus” é um Símbolo de Sabedoria; e, para os antigos egípcios, a Acácia era sua única Planta Sagrada”.

“Então cabe a pergunta: Como interpretar os soldados romanos ter coroado Jesus com espinhos?; Pode-se depreender ser crueldade com sentido somente pejorativo, ou será que, caso conhecessem a simbologia do Ramo de Acácia, procede indagar se: alguém induziu os soldados a usar este tipo de coroa”?

“Os árabes adoravam a Acácia que chamavam Al-uzza, contudo, Maomé baniu esse mito por considera-la um ídolo; tanto que a aclamação do REAA (Huzzé) pode ter raízes nesse vocábulo; mas, era venerada pelas tribos de Ghaftanm, Koreisch e Kemanah a chamando de “Pinheiro-do-Egito”.

“Ainda, na antiga Numídia os árabes denominavam a Acácia de Houza, que também se acredita poder ser a origem da mesma aclamação do REAA (Huzze); e também é chamada de Hoshea, palavra sagada usada num dos Graus Elevados do Filosofismo, mais precisamente no Capítulo do mesmo REAA”.

“A literatura hebraica evoca muitas vezes a Acácia, entretanto, se na Antiguidade Moisés recomendou que na construção dos elementos sacros: Tabernáculo – Arca da Aliança – Mesa dos Pães da Propiciação – e demais Adornos Sagrados utilizassem a madeira de Acácia, principalmente por suas características de muita resistência a putrefação”.

“Contudo, não significa que o uso proviesse desde aquela época, pois, nos Mistérios Egípcios, sua utilização já era conhecida, e, por Moisés ter estado no cativeiro, deve ter adotado dos egípcios o uso da Acácia Sagrada; assim, a relação entre os israelitas e a Acácia teve início por Moisés”.

“Como foi dito, nas Sagradas Escrituras o termo Acácia aparece como Shittah e Shittuin, traduzido por Setim; contudo, apesar de todo o exposto, até poderia ser que a árvore Setim referida na construção do Grande Templo de Salomão não fosse a Acácia dessa época moderna”.

“O responsável pela ornamentação do Templo de Salomão solicitou esculpirem grandes querubins (anjos) para separa o Santo-dos-Santos do restante; e mais, que ainda esculpissem os demais ornamentos, tudo em madeira de Acácia, para depois recobrirem com laminado de outro”.

“Os povos antigos costumavam simbolizar a Virtude, e outros atributos da alma, adotando árvores e/ou plantas; e mais, extremavam respeito pela Acácia, até considerando-a um Emblema ou Símbolo Solar, porque, como também já foi dito, suas folhas se abrem com a Luz do Sol no amanhecer e se fecham no ocaso, sendo que a flor imita o Disco do Sol”.

“Então, tanto egípcios quanto árabes consideravam a Acácia sua Árvore Sagrada, e a consagrando ao Deus do Dia, e ambos a usaram em seus sacrifícios oferecidos à Divindade”.

“A Acácia é ainda dedicada a Hermes – ou Mercúrio, e seus ramos floridos relembram o célebre Ramo Dourado dos Antigos Mistérios; trata-se efetivamente da Acácia Mimosa, cujas flores se parecem com pequenas bolotas de ouro”.

“A Acácia é a árvore da Fábula de Osíris, que florescida em seu túmulo, ou do Iniciado, assassinado por Tifão, que ali plantara para reconhecer o local do sepultamento”.

“E Giuseppe Garibaldi, conhecido como herói de dois Mundos, descreveu como gostaria que transcorresse seu funeral, porque desejava ser cremado, então elaborou uma relação das espécies de madeira que comporiam a fogueira, e foi incluída a Acácia; entretanto, por ironia, não foi cremado”.

“Para o Maçom a Acácia também traz nostalgia, pois logo vem à lembrança o sacrifício do Mestre encarregado pela obra do Templo de Salomão, pela Lenda do terceiro Grau”.

Na Idade Média os mártires eram sacrificados em fogueiras, como ocorreu com Jacques de Molay, último Grão-Mestre dos Templários, e para transportar suas cinzas, cobriram-nas com Ramos de Acácia; evidentemente reconhecendo e agindo segundo o paralelismo significativo com o Grande Mestre do Templo”.

“No Cerimonial de Pompas Fúnebres da Maçonaria recomenda que os presentes depositem um Ramo de Acácia por sobre o esquife, significando que a morte é provisória, quando referida à imortalidade da alma”

“Uma obra maçônica antiga diz que a Acácia é invocada nas Cerimônias do Grau, em memória à Cruz do Salvador construída num bosque da Palestina onde era abundante a Acácia”.

“Já o significado místico da Acácia é de ser: imortal – indestrutível – e imperecível – não apodrece, devido às suas resinas componentes, mas, é preciso maior conhecimento da Acácia, para afirmar se sua madeira tem qualidades semelhantes da Acácia Vera e Mimosa Nilótica, originais da Península arábica”.

“Os primeiros Maçons organizados adotaram dos hebreus antigos seus principais Conceitos; assim, a Acácia, simbolizando a imortalidade da alma, e como foi dito, considerada pelos hebreus como a Árvore Sagrada, foi logo convertida em Símbolo Maçônico”.

“Por excelência, a Acácia é a “arvore ou planta símbolo” da Maçonaria, representando: segurança – clareza – inocência – ou pureza, e o Símbolo da Iniciação para a nova vida, ou a ressurreição para vida futura: além disso, ainda cabe a indagação: Por que a Acácia é a árvore representativa da Maçonaria?; Pois, como Símbolo da Instituição, porque a Maçonaria como essa árvore, deve florescer por toda a Terra”.

“Quando um Ramo de Acácia é posto nas mãos do Neófito, simboliza substituir o mirto ou myrtus, tipo de erva da família das Mirtáceas com flores de muitos óvulos, que era conduzida pelos iniciados de Mênfis e Heliópolis, assim como o Ramo de Ouro que Virgílio colocou nas mãos de Enéias, constante da obra Eneida – no seu Cântico 6.0”.

“E ainda, no Cerimonial de Iniciação a Acácia é a árvore que simboliza a presença da Natureza, que difere muito do ser humano por pertencer a outro Reino – o Vegetal”.

“Senão muito rica a interpretação simbólica e filosófica da Árvore ou Planta Sagrada, que lembra a espiritualidade de cada ser, que tal qual uma Emanação divina jamais pode morrer; e mais, simplesmente a Acácia é a representação da alma, dirigindo assim, com muita seriedade, aos estudos dos: Espírito – Eu Interior – e Parte Imaterial da Personalidade”.

“O estudioso Maçônico Albert G. Mackey (1807/81) expôs outra importante significação simbólica da Acácia como expressão de inocência; cabendo ressaltar que, como já foi dito, o grego Akakia é ainda usado para definição de: Moral – Inocência – e Pureza de Vida.

“Finalmente, pelo exposto, por já conhecer o simbolismo da Acácia, sempre se espera do Integrante da Sublime Instituição uma conduta exemplar, a mais pura possível que o ser humano possa desempenhar, e absolutamente sem mácula”.

Referência Bibliográfica:
“Junior, Raymundo Ella – Maçonaria 30 Instruções de Mestres – Editora Madras.




HIRAM: O Irmão Exaltado de Salomão

Absalão lhe dizia: Olha, a tua causa é boa e reta...
- 2 Sm 15:3

Extraído do blog: A pedra oculta
Autor:  Tiago Roblêdo M\ M\

A Morte de Absalão

APRESENTAÇÃO

Por que Hiram Abiff foi tão importante a ponto de seu nome, e não o de um rei ilustre como Salomão, ser reverenciado no mundo maçônico por quase 3.000 anos? Uma tentativa de resposta pode ser dada a essa pergunta e, embora essa explicação seja baseada mais em evidências circunstanciais do que em fatos, é um enredo que daria certa lógica a respeito da história dessa época.

A seguir a história maçônica de Hiram Abiff: Hiram não era simplesmente um arquiteto secular (exotérico), era também um arquiteto de alto escalão maçônico (esotérico), supostamente, uma das três pessoas do mundo que guardavam os verdadeiros segredos da Maçonaria. No entanto, enquanto trabalhava na construção do Templo de Salomão, três rufiões tentaram forçá-lo a contar tais segredos. Por alguma razão não explícita pela Tradição Maçônica, todos esses homens tinham em seus nomes o prefixo “Jubel”. Durante a peleja que se seguiu com essas pessoas, Hiram Abiff foi morto com três golpes na cabeça, tendo seu corpo sido ocultado. Alguns de seus companheiros maçons mais tarde encontraram seu corpo e voltaram imediatamente para contar tudo ao Rei Salomão, o rei ordenou que o corpo de Hiram fosse sepultado com todos os direitos que seu cargo lhe conferia.

Essa história é centrada na época do reinado de Salomão, e, no entanto, parece ter certa correlação com a morte do Príncipe Absalão, irmão mais velho de Salomão. O Príncipe Absalão era filho do Rei Davi, e empreendeu uma rebelião contra o governo de seu pai. Após uma batalha intensa, Absalão foi morto por Joabe com três lanças cravadas no peito. Seu corpo foi então atirado em um precipício e coberto com pedras. Dois mensageiros foram imediatamente enviados ao Rei Davi pra informá-lo do ocorrido, posteriormente um grande mausoléu foi, ou teria sido, construído para Absalão pelo rei.

PRÍNCIPE E ARQUITETO


Templo de Salomão


Embora haja inúmeras diferenças entre essas duas histórias, há também semelhanças, portanto, vale a pena verificar se haveria alguma explicação plausível para essas diferenças. Eis os pontos de discrepância:


a. A Tradição Maçônica refere-se ao Rei Salomão, enquanto a versão bíblica refere-se ao Rei Davi. De fato, essa talvez seja mais uma explicação do que um problema. Apesar da construção do Templo de Jerusalém ser atribuída ao Rei Salomão, a iniciativa da compra dos materiais e da construção foi do Rei Davi. Além disso, os textos bíblicos indicam que houveram dois indivíduos chamadosHiram (e que eram correlacionados). Como havia dois Hirans (talvez parentes) contemporâneos a dois reis diferentes, não é de se estranhar que possa ter havido alguma confusão. Embora os textos bíblicos indiquem que o Hiram Abiffpudesse ser o mais novo dos dois Hirans, a ligação com o Príncipe Absalãodenuncia a probabilidade de o herói maçônico ser, na verdade, Hiram, o Ancião, dito “Rei de Tiro”.

b. O Kebra Nagast ("O livro da Glória dos Reis") registra claramente que o Rei Salomão (ao menos conjuntamente) supervisionava as obras do Templo e, como era um príncipe substituto devido ao assassínio do Príncipe Absalão, é muito provável que Absalão também fosse um construtor. Naturalmente, a profissão aludida aqui era tanto construtor no sentido exotérico como no esotérico, portanto, tanto Salomão quanto Absalão teriam sido maçons.

c. Os três assassinos de Hiram Abiff chamados de “os três Jubes”, eram Jubela,Jubelo e Jubelum, três nomes idênticos que foram diferenciados pelo uso de sufixos de caráter distinto. São conhecidos de forma coletiva na Tradição Maçônica como os "Jewes", palavra possivelmente derivada de Jubes. A partir disso, surge a seguinte pergunta: por que esses três rufiões teriam o mesmo nome? Uma resposta plausível é que não seriam nomes, mas sim títulos! O que se procuraria, portanto, é uma posição ou cargo antigo conferido a essas três pessoas e que levavam o título de “Jube”. É esse indício bíblico que narra a história notavelmente semelhante da execução do Príncipe Absalão por um comandante do exército chamado Joabe (Juabe). Mas o nome “Joabe” seria, na verdade, um título militar que significa “Comandante de Cem Mil”. E como oRei Davi tinha três comandantes militares no campo de batalha quando oPríncipe Absalão foi morto, poder-se-ia argumentar que Absalão e seu exército foram assassinados pelos “três Joabes” (ou três Juabes) os três comandantes doRei Davi[1]. Há certa sinergia nesse ponto entre a Tradição Maçônica dos três “Jubes” que mataram um grande mestre e a consideração bíblica dos três “Juabes”[2] que impediram uma insurreição contra o rei e mataram um príncipe.

d. Tanto Hiram Abiff quanto o príncipe Absalão foram mortos por três golpes dados pelos três Jubes (três Joabes). A Tradição Maçônica indica que esses três golpes foram dados na cabeça de Hiram Abiff enquanto a Bíblia afirma que foram no coração de Absalão. Embora essa possa ser uma diferença genuína entre esses textos, é possível que tenha sido apenas uma pequena confusão de significados. A palavra hebraica usada aqui, lebab, reflete essa confusão, pois, além de “coração”, pode ser também “intelecto”, “conhecimento”, “memória” e “pensamento”, dando espaço a diversas interpretações em sua tradução.

e. Hiram Abiff é notoriamente conhecido na Tradição Maçônica como o “Filho da Viúva”, mas o príncipe Absalão ainda tinha um pai (o Rei Davi), fato que parece invalidar essa comparação entre Absalão e Hiram Abiff. De fato, isso não é possível. A mãe de Absalão era Maaca, cujo papel como primeira esposa foi posteriormente assumido por outras (e novas) consortes do Rei Davi. É provável que, após a perda de seu status como primeira esposa, Maaca tenha ficado conhecida como “A Viúva”, devido ao fato de não ser mais íntima ou ter a predileção do rei. Os textos bíblicos parecem confirmar que essa era a terminologia usada na época, quando mencionam as concubinas do Rei Davi. Dez delas tornaram-se guardiãs da casa (harém), e como esse novo cargo não lhes permitia mais o contato sexual com o rei, ficavam então conhecidas comoViúvas[3]. Essa explicação é sustentada posteriormente pela história contada ao Rei Davi acerca da luta entre dois irmãos e a morte subsequente de um e o exílio do outro. Essa história foi na verdade um conto alegórico que diz respeito à luta de Absalão com seu irmão Amom e seu exílio em Gesur. O interessante, no entanto, era a questão de que a mãe desses dois irmãos era viúva, se tal viúva seria uma alusão a Maaca tirada do posto de primeira esposa, consequentemente faria por alusão o próprio Absalão “Filho de uma Viúva”[4].
f. A Tradição Maçônica indica que Hiram Abiff foi um herói, enquanto os bíblicos indicam o príncipe Absalão como insurrecto do reino. O que seria menos uma questão de contenda e mais de perspectiva, aquele que empreende ataque contra um homem é inevitavelmente o que defende outro. A Bíblia seria puramente um livro escrito pelos escribas da corte do Rei Davi (que de fato havia cometido uma série de graves equívocos), vencedores dessa batalha singular, enquanto os textos maçônicos poderiam ter sido escritos pelos apoiadores de Absalão, possivelmente construtores que ainda rendiam fidelidade a seu antigo mestre.
g. O historiador Josefo disse que o pai[5] de Hiram Abiff foi chamado de Ur[6], um nome pode ser ligado a Absalão, que se rebelou contra o seu pai, matou seu meio irmão Amom e tentou tomar o reino de Davi. Tais ocorridos teriam acontecido em cumprimento da profecia de Natã em virtude do pecado de Davi por se rebelar contra seu combatente Urias ou Ur-iah, conspirando contra ele e assassinando-o para tomar a sua mulher, Absalão seria o vindicador do pecado de Davi contra Ur-iah[7], seu filho simbólico.

h. Se o Hiram maçônico era na verdade Hiram, o Ancião, o “Rei de Tiro”, possivelmente deve ter sido um familiar de Absalão que concretizou a construção do Templo de Jerusalém durante o reinado de Salomão. Como foiSalomão quem herdou o posto de Absalão de príncipe regente e, como o Kebra Nagast afirma que o Rei Salomão supervisionava a construção doTemplo, não seria tão absurdo conjecturar que Hiram, o Jovem, fosse na verdade o próprio Rei Salomão. Da mesma forma, tanto Josefo quanto o livro de Crônicas afirmam que foi o Rei Salomão quem fez os artefatos de metal para o Templo, incluindo o célebre “Mar de Bronze”. A primeira vista é presumível queSalomão tivesse comissionado esses materiais e que Hiram os tivesse fabricado, mas os textos ressaltam as várias ocasiões que o Rei Salomão o fez. Sendo o Rei Salomão o Arquiteto Maçônico Chefe (Grão-Mestre), é possível que tenha recebido todo o crédito pela construção do Templo, e tivesse sido considerado ainda, como o seu único arquiteto.


Por alguma razão, quando da construção do Templo, parece que esses dois arquitetos,Absalão e Salomão, foram denominados de Hiram. Deste modo, Hiram (Absalão) foi conhecido desde o nascimento, já que era o príncipe mais velho e herdeiro legítimo do Rei Davi. Após um desentendimento com seu pai e a consequente morte de seu irmão, Amom,Hiram (Absalão) ficou exilado em Gesur. Sendo príncipe, ele teria (aprendido e) conquistado muitos dos altos cargos, inclusive os sacerdotais, incluindo ai, possivelmente o título (e ofício) de Arquiteto Chefe.

Apesar de Absalão ter sido o príncipe regente e sucessor do trono quando da morte doRei Davi, decidiu organizar uma rebelião contra seu pai e há suspeita de que ele possuía apoio político e militar. Os exércitos opositores encontraram-se no campo de batalha e, durante ao combate subsequente, Absalão foi morto por três golpes na cabeça, dados pelos três comandantes militares do Rei Davi, os chamados “Joabe”. O corpo de Absalão foi jogado em um precipício e acobertado por pedras não sendo descoberto por algum tempo.

Os segredos da astronomia, da alquimia, da geometria e da matemática não eram dominados somente pelos artífices e juízes eclesiásticos, mas faziam parte também das práticas reais da época. Conhecimento é poder e, assim como cita o verso do Kebra Nagast, o Rei Salomão em particular vangloriava-se de seu grande conhecimento, Salomão estava simplesmente seguindo os passos de seu irmão assassinado Absalão?

O IRMÃO EXALTADO


Joabe e Absalão


A palavra “Abiff” que normalmente compõe o nome de Hiram quer dizer “Seu Pai”, no entanto, é preciso lembrar que este termo possui um significado mais amplo na língua hebraica, poderia dar a noção de mestre[8], instrutor, conselheiro e talvez até patrono[9]. Sugerindo que Hiram pudesse ser o instrutor de Salomão no ofício e/ou patrono (e principiador) dos trabalhos no Templo, papel segundo esta abordagem bem plausível para Absalão.

Apesar da palavra “Abiff” componente do nome “Hiram Abiff” ser constantemente investigada, relativamente pouco se aborda quanto o próprio nome “Hiram”. Sabe-se que há mais de um indivíduo na Bíblia portando este nome, que o mesmo figura sob outras formas como Airam e Adoniram e que sua grafia correta seria CHIYRAM.

Alguns etimólogos afirmam que CHIYRAM procede de CHIYRA “Família Nobre”, outros que seria uma forma contraída de ACHIYRAM "Meu Irmão é Exaltado" ou "Irmão (o) Altivo". De toda maneira, a Bíblia faz uso constante de adjetivismo[10] nos nomes de seus personagens (históricos ou não), assim Hiram alude à família, seja como nobre ou exaltado, seriam os Hirans, familiares a Davi e Salomão? Talvez a recorrência bíblica do termo “Hiram” como no caso dos “Joabes/Jubes” indicasse um título, portado inclusive por Absalão?

Assim como ainda hoje é praticado, a forma de tratamento entre os membros da maçonaria é “Irmão”, o maçom que atinge o Grau de Mestre no qual é encenada a Lenda de Hiram passa por uma cerimônia chamada “Exaltação”, logo todo Mestre Maçom é um “Irmão Exaltado". Quem seria o familiar qual Salomão poderia se referir como “Irmão Exaltado" ou “Hiram” no hebraico (que estava ou estivesse num posto superior)? A resposta mais lógica seria Absalão, o último príncipe sucessor e possível primeiro arquiteto do Templo.

Alias o próprio nome de ambos os filhos de Davi compartilham a mesma raiz assim como os Hirans, o Ancião e o Jovem compartilham CHIYRAM. Salomão vem de SHALOMOH enquanto Absalão de ABSHALOM[11], ambos oriundos da palavra hebraica SHALOM “Paz”[12], tal similaridade se repetiria no possível título “Hiram” (CHIYRAM)?

Um elemento discrepante seria que Hiram, o Ancião era intitulado como o “Rei de Tiro” e não como príncipe da corte e Davi, entretanto, o nome hebraico para Tiro é “TSOR”, que também significa “rocha” ou “pedra”, “MELEK CHIYRAM” é traduzido como “Rei Hiram”, mas MELEK também pode denotar príncipe. Ou seja, ao invés de “Rei de Tiro”, seu título poderia muito bem ser “Príncipe da Pedra” em alusão a sua posição de arquiteto[13], o regente dos trabalhadores em pedra, também notando que o termo “Príncipe”[14] ainda hoje é o título de diversos Graus da Maçonaria Filosófica.

Mesmo na morte, Hiram pelo mistério de sua vida compele aos maçons a um mistério, a busca da Palavra Perdida, mas na investigação de sua história se trilha por com uma miríade interminável de fontes, autores, obras, fatos e suposições... Talvez este seja justamente o objetivo d’A Lenda de Hiram. Compelir o Maçom a tanto conhecimento quanto seja necessário para a busca da Verdade!

Em vida Absalão e Hiram seriam o mesmo indivíduo? Certamente sua morte nunca responderá tal questão... Em vida, Hiram forjara Colunas de Bronze para a sustentação doTemplo Salomônico, com sua morte, forjou Colunas de Mistério para a sustentação da Tradição Maçônica.

Curiosamente o local no qual a tradição israelita afirma que o corpo do filho mais velho de Davi jaz é chamado de “Coluna de Absalão”[15]. Na Tradição Maçônica as Colunas do Templo eram cavas[16] a fim de no seu interior serem guardados os mais valiosos mistérios, e na Coluna de Absalão haveria para os maçons algum Mistério Perdido a ser encontrado?


A Cerimônia de Exaltação


Autoria de Tiago Roblêdo M\ M\
Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem


REFERÊNCIAS

As Chaves de Salomão: O Falcão de Sabá, Ralph Ellis
A Chave de Hiram, Christopher Knight e Robert Lomas
Mística Judaica, Walter I. Rehfeld

[1] Originalmente Joabe, Abisai e Itai.
[2] Os “Joabes” ou “Juabes” poderiam ainda ser os subordinados do comandante Joabe que o acompanharam na perseguição a Absalão, e que após ser este três vezes ferido, também o golpearam.
[3] Bíblia, 2 SM 20,3.
[4] Bíblia, 2 SM 14,5.
[5] Notadamente o sentido de “pai” no âmbito teológico da época possuía um sentido muito mais amplo que o de “genitor”. Poderia indicar a noção de mestre, instrutor, conselheiro e até patrono.
[6] Josefo, Ant. 8,76.
[7] Além desse “laço profético” entre Absalão e Urias (ou Ur-iah), em As Chaves de Salomão: O Falcão de Sabá, Ralph Ellis defende que Urias e Absalão seriam na realidade o mesmo indivíduo, havendo na Bíblia uma repetição da mesma história só que em 2 diferentes versões.
[8] E ainda como “Mestre Apoiador” ou “Padrinho” que na maçonaria moderna quer dizer o maçom que escolhe e inicia um profano e consequentemente fica incumbido de instruí-lo já como (Irmão) Aprendiz Maçom.
[9] Padroeiro; Defensor de causa ou ideia; Pessoa já falecida, de reconhecido valor no campo das Artes, das Letras ou da Ciência; Figura militar ou civil de grande vulto, já falecida, escolhida como protetora de cada uma das forças armadas, unidade militar etc.
[10] Recurso literário onde o nome de determinado elemento ou personagem de uma narrativa alude a sua natureza ou principal característica.
[11] Além disso, Absalão e Abiff também partilham de uma raiz, “AB”, que significa pai.
[12] Nos Templos Maçônicos (tidos como uma representação do universo pelos Maçons) encontramos 02 colunas possivelmente descendentes das colunas dos reinos unificados do Alto e Baixo Egito (também tido como uma representação do universo pelos Egípcios) quais haviam derivado alegoricamente até aos israelitas como as legendárias Boaz e Jaquim. Estas colunas haviam adornado o portão do Templo de Salomão. Para esses israelitas ancestrais, as colunas representavam tanto o poder real "Mishpat" quanto poder sacerdotal "Tzedek", e quando unidas suportavam o grande arco do Céu, cuja pedra-chave era a terceira grande palavra de seu anseio, "Shalom" que significa “Paz” e de onde advém o nome do Rei Salomão (Shalomoh).
[13] Arquiteto vem do grego “Architekton” que significa “mestre construtor”.
[14] 16º Príncipe de Jerusalém, 20º Soberano Príncipe da Maçonaria, 22º Príncipe do Líbano, 24º Príncipe do Tabernáculo, 26º Príncipe da Mercê, 28º Príncipe Adepto e 32º Soberano Príncipe da Maçonaria.
[15] Ou “Pilar de Absalão”. "Ora, Absalão, quando ainda vivia, tinha tomado e levantado para si uma coluna, que está no vale do rei, porque dizia: Filho nenhum tenho para conservar a memória do meu nome. E chamou aquela coluna pelo seu próprio nome; por isso até ao dia de hoje se chama o Pilar de Absalão." - 2 SM 18:18. Sua construção foi posteriormente re-datada por alguns arqueólogos para os primeiros séculos depois de Cristo, mas isso não impediria que o sítio já tivesse sido explorado previamente como o objetivo de sepulcro.
[16] A preservação do conhecimento em colunas dentro da Tradição Maçônica (e na israelita) é farta. Tal costume seria iniciado por Seth (filhos de Adão) e perpetuado pelos filhos da Lameque (Jubal, Jabal, Tubalcaim e Naamá) e Enoque.