quarta-feira, 8 de março de 2017
Traduzido e adaptado por Tiago Robledo
A PEDRA FILOSOFAL
Este Mistério Alquímico é encontrado a partir da expressão: V.I.T.R.I.O.L.
Esta sigla é a abreviação da frase em latim: Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem
Costuma ser traduzida como: Visita o Interior da Terra Retificando Encontrarás a Pedra Oculta.
Sendo assim essa "Pedra Oculta" uma referência à "Pedra Filosofal".
Se fazendo uma análise comparativa entre os seus relatos e os simbolismos iniciáticos, veremos que sua experiência traz vários simbolismos relativos ao que é estudado nas chamadas "Escolas de Mistérios", como eram conhecidas na Grécia o Culto de Mitra, os Mistérios de Eleuses, no Oriente Médio o Colégio dos Essênios, e o Colegiado dos Magos do Antigo Egíto.
Tudo tem por base este princípio da "Interiorização", sendo o V.I.T.R.I.O.L. uma referência semelhante ao "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás a Deus e ao Universo".
Nessa busca pelas Profundezas do Ser estaremos encontrando figuras como Hecate e Physis, que são de modo geral representações de nossa porção Inconsciente, o OUTRO em nós, que em muitas ritualísticas é representada pela figura de Isis, Maria, Maia, sendo a presença da Natureza em nós, os aspectos femininos de Deus, ou Deus Mãe. Assim, também a relação com Sophia, como eu também gosto de comparar com a figura de Perséfone, que é uma mesma divindade em condições diferentes, com um aspecto mais sombrio e misterioso, associado à Morte quando em sua morada no "Interior da Terra", e como a vívida e florida Deusa Primaveril quando na superfície, sendo fonte de vida e juventude para a Manifestação da Natureza em sua irradiante pureza.
Essa analogia me remete a uma afirmação que define bem esta condição enfrentada por aquele que ousa buscar o que há em seu interior: Para que os galhos da árvore alcancem o céu, suas raízes terão de alcançar o inferno.
A medida que nos aprofundamos no conhecimento de nós mesmos, vamos tomando contato com nossa realidade infernal, sendo que os verdadeiros infernos só existem dentro de nós mesmos, o "Reino dos Mortos" guardado por figuras como Perséfone e Hades, onde está trancada a Sabedoria dos Tempos, como no Mito de Saturno trancafiado no Tártaro por Júpiter, que deixou Plutão a lhe vigiar.
Ao Retificar-se como diz no V.I.T.R.I.O.L. estaremos fazendo o trabalho de purificação e limpeza de nosso passado, de nossas memórias de tudo aquilo que haviamos deixado sepultado, mágoas, ressentimentos, que acabam vindo a tona durante o processo, até que se consiga finalmente chegar a encontrar a Pedra Filosofal.
É a partir dessa Pedra que se obtém o Elixir da Longa Vida, quando nos deparamos com a imortalidade da Alma. E se observarmos a palavra Latina usada para Pedra "Lapidem", vemos também a origem da palavra Lápide, a pedra que guarda o sepulcro, encontramos a nós mesmos, encontramos onde estamos "sepultados", contemplamos a Lápide, e pela contemplação de nossa própria finitude, "Filosofando sobre esta Pedra" é que constatamos a Eternidade da Alma.
Para a pessoa que vive uma vida comum, voltada para a realidade exterior, aquilo que está no seu interior lhe assombra, como uma ameaça constante a lhe fungar o cangote. Para aquele que busca se aprofundar, ele se volta para o que está a lhe assombrar e vê que "O Diabo não é tão feio quanto se pinta".
Esse efeito ocorre pelo fato de que não nos é possível temer o que conhecemos, só tememos aquilo que não vemos, e a partir do momento em que tomamos contato com esta nossa realidade mais profunda, somos capazes de "Retificá-la", isto corresponde ao "Arrependei-vos! Endireitai Vossas Veredas pois está próximo o Reino de Deus", o Batismo das Águas de João Batista. Que na tradição Grego-Romana é representado pelo trabalho de Hércules lavando as Estrebarias.
A partir do momento em que nos voltamos para nós mesmos, nos livramos de nosso peso do passado, purificando nossas emoções e pensamentos, nós alcançamos a pureza. A partir daí vemos o simbolismo de que Jesus (O Salvador) nasce de Maria (A Pureza). O Renascimento do Ser, o Salvador que há em cada um de nós, é despertado quando alcançamos a Pureza, assim encontramos o nosso Mestre Interior, que nos guia em nossa jornada em busca de nossa origem.
O Ser, o Indivíduo é representado nas mais diversas culturas pelo Sol, como vemos pela palavra Grega Krestus (Deus Solar), ou seja, nós assumimos esta condição "luminosa", de esclarecimento, o despertar de uma nova consciência a partir desta jornada para o nosso interior.
Mas esse não é um ponto final, pois buscamos a nossa Origem (Deus Pai), figura essa que transcenderia o próprio Sol. Neste caso um dos simbolismos encontrados é uma associação ao Centro da Galaxia, e outros já trataram do assunto como uma referência ao chamado "Sol Central", um Sol em torno do qual o nosso Sol se poria. Mas a localização deste Sol Central é principalmente simbólica, pois ele não tem como ser encontrado no Espaço Exterior. Seria o que os Místicos Nazistas chamavam de Sol Negro, um Sol invisível do qual viria toda a vida, inclusive para o nosso Sol.
Se considerarmos a figura de Jesus Cristo como uma representação do Ser Humano, do Indivíduo como SER, teremos uma interpretação distinta para a frase: Ninguém vem ao Pai senão por mim.
Neste caso para encontramos a nossa Origem só o faremos pela Interiorização, e somente após o despertar desta Auto-Consciência, o reconhecimento de nossa Individualidade, de nós como Centros de tudo que nos rodeia, a relação entre o Sol e o EU.
Ao se ultrapassar essa experiência é que estaremos verdadeiramente nos "Iniciando nos Mistérios", ou seja, assumindo a nossa condição de Deus Filho, passamos a tomar contato com Deus Mãe e após isso com Deus Pai, o Criador, ou como os Maçons o chamam o G.A.D.U. (O Grande Arquiteto Do Universo), assim passaremos a trapalhar para a realização da "Grande Obra", ou seja, Teurgia.
A fonte de inspiração para a realização da Grande Obra (Teurgia) é extraída deste impulso original, deste ponto central do nosso Universo Interior, de onde tudo vem e para onde tudo vai, representado pela Pedra Filosofal, que pode ser tanto a Pedra Fundamental para construção da Obra, como pode ser a Lápide para se Sepultar o que foi terminado.
O Mistério da figura tripla de Hecate, é diretamente relacionada com a figura do Arcano XVIII do Tarô, que chamado de "O Crepúsculo" ou "A Lua". Vemos 3 faces de Hecate e supomos uma 4ª, assim como vemos a Lua em 3 de suas fases e supomos sua presença na Lua Nova.
A Lua é vista como uma contraparte do Sol, um Espelho que o reflete, sendo o Sol o EU e a Lua o OUTRO em nós. A questão é que ao vermos no espelho a face não é outro ser que não nós mesmos invertidos, e neste caso na figura de três faces de Hecate a quarta face realmente não existe, é um vazio, correspondendo à ausência do espectador, que está na posição de observador, e "O Olho não pode ver a si mesmo".
É este vazio que nos assombrava enquanto não tínhamos coragem de encará-lo, é este vazio que contemplamos ao encontrar a Lápide, é este vazio que sentimos quando contemplamos a morte e finitude, sendo este mesmo vazio que nos move, nos leva a buscar fazer por nós mesmos, pois não há ali ninguém mais além de mim para realizar a Grande Obra, é este vazio que nos dá estas ferramentas para a realização do trabalho.
Extraído do blog http://esoterismoeocultismo.blogspot.com.br/2010/05/pedra-filosofal.html
quinta-feira, 2 de março de 2017
A MAÇONARIA E O SIMBOLISMO DA PEDRA
Autor: João Anatalino
Aquilo que acontece no coração dos maçons que descobriram o verdadeiro significado da Arte Real é comparável ao que acontece no espírito dos alquimistas e dos modernos cientistas. Há uma transformação qualitativa de caráter e um desvelar de visões que lhe permitem ”ver” e sentir melhor o mundo em que vivem. É possível perceber o conjunto no qual se circunscrevem e qual é sua posição relativa em face á ele. Melhor ainda, é possível perceber qual a sua exata configuração nesse todo e sua função num domínio que ele agora sabe, também se compõe em razão das suas atitudes.
Quando ele tem essa visão de conjunto, e essa sensação de pertencialidade a um determinado conjunto, que é a Maçonaria, ele então descobre o verdadeiro significado da palavra fraternidade. E ai ele saberá por que está ali, e por que um dia ele quis ser um maçom. Mas esse é um processo que se cumpre no coração e não na razão.
O triunfo da máquina sobre a mão do homem, na confecção de obras materiais, eliminou da cultura humana a tradição de sacralizar os ofícios. Perdido o elo que ligava a mente á matéria, o homem não soube mais como tirar dela obra de criação. Se antes, pelo lavor das mãos, ele podia sentir-se um deus, no sentido de que também criava, agora, suas criações passaram a ser apenas mentais e a execução se processava por meios mecânicos, sem aquela interação mente-matéria que possibilitava ao antigo artesão a realização espiritual através do trabalho manual. Assim, a sacralização do ofício, de operativa passou a ser meramente especulativa.
Milênios passam, as civilizações desaparecem; o tempo tudo devora, as próprias obras confeccionadas pelo homem são consumidas; mas das construções humanas, as que mais resistem são as habitações que ele faz para seus deuses e para seus próprios restos mortais. De todas as grandes civilizações do passado, o que resta são as ruínas de seus templos e de seus cemitérios. E são nessas edificações, erigidas para atender ao desejo de viver eternamente na memória dos homens, que transparece o sentido metafísico da Arte Real, já que nelas o que se imprime é uma imagem vinculada á idéia de imortalidade, só atribuída aos deuses e ao espírito do homem. Essa é a disposição que podemos ler, por exemplo, nos monumentais templos e cemitérios egípcios, babilônios e outros povos antigos.
Com efeito, pouco resta dos grandes palácios erguidos para uso-fruto dos potentados humanos, e das casas onde residiram os seus construtores. Mas as ruínas dos grandes templos da antiguidade e as majestosas tumbas erigidas para o sepultamento dos seus restos mortais ainda testemunham a magnitude da inteligência dos maçons daqueles tempos.
As primeiras formas de construção produzidas pelos grupos humanos foram as palafitas, casas de madeira erguidas nas margens dos rios. Em seguida foram empregadas as pedras, primeiro em sua forma bruta, depois as trabalhadas. A edificação com pedras brutas marcou o inicio da estabilidade do homem sobre a terra, pois representou o despertar do seu sentimento gregário, sentimento esse marcado pela sua fixação a certo meio ambiente. Já a construção com pedras trabalhadas lhe deu uma identificação no meio daquele ambiente, pois a partir daquele momento o mundo ficara impregnado de algo que ele criara pelo lavor das próprias mãos.
A pedra sempre foi para o homem um objeto de estranhas propriedades. Nela ele podia sentir um grande poder de resistência, durabilidade e maleabilidade, pois ela, além de poder assumir todas as formas fabricadas pela natureza, também parecia ser perene e resistir a todas as intempéries. Trabalhá-la, dando-lhe formas úteis e agradáveis á vista tornou-se um ritual onde a mente associava-se á matéria para criar o universo real. Nas pedras se cultuavam os deuses, nelas eram escritos seus mandamentos; nelas também se eternizava a memória dos entes queridos e a beleza das formas do gênero humano; com elas também se faziam as muralhas que serviam de defesa para as cidades e algumas espécies de pedras faziam a riqueza de muitos homens.
O culto á pedra sempre esteve presente nas tradições dos povos desde o inicio dos tempos. Nada estranho, portanto, que ela tenha sido escolhida para simbolizar a metafísica fundamental da prática maçônica. O Aprendiz, por um trabalho de conscientização interior, transforma-se numa pedra lavrada. Desbastado de suas asperezas, aparecerá como uma obra de lavor que estará em condições de integrar-se ao edifício universal que é a Maçonaria, aquela Maçonaria, que segundo Ransay, “é uma grande Republica, da qual cada Nação é uma família e cada indivíduo, um filho”.
Da mesma forma que o Aprendiz é essa pedra bruta que precisa ser lavrada para adquirir a personalidade desejada, o Companheiro é a pedra cúbica. Ele representa o material que foi trabalhado e transformado pela iniciação nos Mistérios Maçônicos. Simboliza, na evolução da sociedade humana, uma segunda fase de transição, quando ela passa da mera aglomeração de indivíduos por razões de sobrevivência, para uma organização social que já pode ostentar as primeiras conquistas de um processo civilizatório. Esse processo está registrado na história humana através da construção de edifícios com materiais já mais elaborados, como a pedra lavrada e os tijolos queimados.[1]
A pedra, sendo um produto em que a natureza concentra um grande potencial de forças telúricas, é o que mais se presta ao trabalho de arte sacra. Por isso é que a ela se associa, geralmente, um ritual, uma prática de sentido esotérico. Assim faziam, por exemplo, os antigos cortadores de pedra medievais, que no decurso de seus trabalhos diários, recitavam preces e executavam batidas rituais com seus instrumentos de trabalho, para atrair os bons influxos para o individuo e para a comunidade. Para muitos místicos, a pedra é um ser vivo, cheio de energia, a energia que eles chamam lapitus. Essa energia estaria na origem da vida, já que, segundo eles, a vida orgânica teria se originado a partir das transformações sofridas pela matéria bruta. Daí o imenso simbolismo contido nas diversas espécies de pedras. O mármore, como representativo da morte, o granito como símbolo da força, nas pedras dos rios a idéia de evolução, no quartzo e nos cristais a inspiração artística e o êxtase divino, etc.
Não é sem razão também que os alquimistas simbolizavam numa pedra a essência da sua “Obra”. A pedra filosofal era um preparado químico que conteria a alma da natureza, capaz de transmutar metais simples em ouro. De alguma forma, também a mística oriental se vale do simbolismo da pedra para representar a busca da quietude, do equilíbrio e da serenidade, que está na postura do iogue “petrificado”.
Um dos mais marcantes exemplos de trabalho na pedra nos foi dado por Antonio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho, o maior escultor brasileiro do período colonial. Suas estátuas, suas figuras de pedra sabão, que enfeitam as igrejas mineiras, mostram bem a excelência do maçom operativo que atingiu a plenitude espiritual através do ascetismo operacional. No trabalho daquele genial artista se pode “ler” a mensagem maçônica expressa nos gestos, nas feições, na forma e nas medidas com que a sua obra foi composta.[2]
J. Palou, citando P.Sébillot (Légendes et Curiosités dês Métiers) diz que “ é interessante observar que “ machados de pedra polida (são) colocados debaixo das fundações em várias regiões da França” (...) mormente quando se sabe que na maçonaria a pedra cúbica em ponta, que representa o companheiro, é muitas vezes feita na forma de um machado, sendo este instrumento próprio da Maçonaria Florestal, simbolizando o fogo purificador e sendo um dos atributos de São João, sob cujo patrocínio são colocadas as Lojas maçônicas”[3]
Esse é um bom exemplo da mística da pedra, e suas implicações no simbolismo da Maçonaria. Tudo começa na pedra, como na natureza. A partir daí há um longo trabalho iniciático que envolve iniciação, preparação, aperfeiçoamento e acabamento. É preciso não perder de vista esse processo se quisermos, realmente, entender a Arte Real.
O sentido mítico-hermético da Arte Real
O Aprendiz maçom é a pedra bruta que precisa ser lapidada. É a matéria prima sem forma que se apresenta no canteiro de obras, buscando o trabalho do artesão, que lhe será aplicado, para dele fazer obra de arte, como diz Lavagnini.[4]
Na forma cúbica encontramos a idéia de estabilidade. Com essa constatação fecha-se o circulo da simbologia expressa nos graus de Aprendiz e Companheiro, no sentido de que é na evolução feita nesses dois graus que se completa a essência da iniciação de um neófito, que tendo superado essas duas fases, estará, finalmente, preparado para ser a pedra angular do edifício maçônico, que é o Mestre.
É importante notar que na antiga Maçonaria operativa não existia o grau de Mestre, mas apenas os de Companheiro (fellow) e Aprendiz. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, o qual era eleito entre os Companheiros. A extensão desse título a todos os companheiros que são elevados ao terceiro grau é uma criação da Maçonaria especulativa. Por isso é fundamental entender esse simbolismo. O Mestre, na simbologia da Arte Real, é aquele que passou á Câmara do Meio, após ter presenciado e vivido, no espírito, o Drama de Hiram. É uma visão meramente especulativa, que não tinha correspondência na prática operativa. Na verdade, nas antigas Lojas dos maçons operativos, o Mestre era um Companheiro eleito entre os membros desse grau, que assumia a função de supervisor. Era, portanto, uma função e não um título, ou uma graduação.
A passagem do operativo para o especulativo exigiu a adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequá-los a uma estrutura que, doravante, deveria funcionar como uma espécie de escola. Assim sendo, foi preciso que entre os Companheiros fossem escolhidos alguns Mestres e entre estes, um que lhes fosse acima, para administrar e conduzir os trabalhos do grupo. Assim é que Anderson estipula em suas Constituições que “nenhum irmão pode ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).”
No sistema inaugurado pela Maçonaria moderna, portanto, o título de Mestre deve ser visto em sua dimensão simbólica e nunca em termos de hierarquia. O Mestre não é aquele que mais sabe, ou que ensina, mas sim aquele que conhece a acácia, ou seja, aquele que presenciou o Drama de Hiram, e teve seu psiquismo recomposto a partir de sua iniciação nos Mistérios que aquele drama representa. Para tanto é preciso que ele não só “conheça a acácia”, mas saiba, principalmente, qual o verdadeiro significado das alegorias representadas no Templo que ele freqüenta, e o porquê delas serem utilizadas.
Só após esse aprendizado ele se torna um verdadeiro maçom.
[1] Se, de um lado, nas construções feitas pelos antigos povos do Egito e da Palestina eram utilizadas principalmente pedras, nas construções feitas pelos povos que habitaram os vales do Tigre e do Eufrates, região conhecida como Mesopotâmia, o material utilizado foi o tijolo cozido. Veja-se, por exemplo, a descrição feita na Bíblia sobre a construção da Torre de Babel No Egito utilizava-se, e muito, o tijolo feito de barro misturado com palha de trigo, porém, na maioria das grandes construções, o material empregado era a pedra, uma vez que esse material era, e ainda é, muito abundante naquela região.
[2] Não há nenhuma prova documental de que o Aleijadinho era maçom. Provavelmente não era, pois não havia Lojas maçônicas no Brasil na época em que ele viveu. Elas haviam sido fechadas pelo Marques de Pombal e proibidas pelo governo português. Mas há provas que Aleijadinho pertenceu á chamada Irmandade de São José, uma escola de profissionais da construção civil, mantida pela igreja. Afirma o principal biógrafo do Aleijadinho (Afonso Arinos) que seu pai, Manuel Francisco, realizou muitas obras de verdadeiro arquiteto e ocupou, por muitos anos, o cargo de “Juiz” dos ´”Ofícios Mecânicos” de Vila Rica, alcançando relativa fortuna e projeção social. Era também membro leigo da Irmandade da Ordem de São José do Carmo, organização da qual, mais tarde, também o próprio Aleijadinho seria, primeiro professor, e depois Juiz. Assim, pode-se dizer que maçom operativo ele era.
[3]Jean Palou op citado, pg. 216/217
[4] Aldo Lavagnini- El Secreto Masonico- Buenos Aires, 1986
João Anatalino
quarta-feira, 1 de março de 2017
A SOMBRA DOS MITOS - SINAIS E RECONHECIMENTO, SEGREDO, FRATERNIDADE...
Tradução José Filardo
-Por François Cavaignac
A Maçonaria, cuja originalidade consiste em misturar ritual e reflexão, tradição e modernidade, simbolismo e solidariedade, não escapou do mito. Ela tem uma dúzia de histórias ou referências míticas que ela emprestou do fundo cultural judaico-cristão e que lhe permitiu desenvolver uma visão particular do mundo.
Em relação à mitologia clássica, ela selecionou seus temas preferidos: ela não destaca Édipo, Sísifo ou Eros, Zeus ou os Titãs, Orfeu e o submundo, belas deusas e ninfas imprevisíveis, heróis metamorfoseados, monstros fabulosos ou histórias de amor e incesto. Mas encontramos o crime (assassinato de Hiram), tantas vezes presente nas relações entre os deuses pagãos; encontramos a questão da transmissão do conhecimento (as duas colunas) colocada por Prometeu ou Hermes; encontramos a culpa do homem envolvendo a vingança de Deus (o Dilúvio e a Torre de Babel).
Basta dizer que a mitologia maçônica, apesar de dimensões restritas, não pertence menos à mitologia universal. Ela pode se articular em torno de três eixos: primeiro, a construção do Templo, imagem fantasista do templo de Salomão. Este edifício é tanto o próprio templo interior de cada maçom que deve dominar sua natureza, e o templo exterior representado pela Cidade ideal; em todos os casos, assume-se que permanece inacabado. Em segundo lugar, a lenda de Hiram, transposição de múltiplos arquétipos, retomada parcial do mito de Ísis e Osíris, símbolo da transcendência diante da finitude humana, realização de um destino e esperança de uma ressurreição. Finalmente, o mito de cavalaria que não só penetrou o ritual desde o grau de aprendiz (cerimônia de iniciação), mas também promove os valores tradicionais atribuídos a esta instituição: honra, coragem, lealdade, generosidade, altruísmo. Tal como o conjunto da sociedade, o fascínio cavalheiresco também permeia a Maçonaria.
Esses mitos – com a exceção da cavalaria – aparecem nas Antigas Obrigações que, entre 1390 e 1720 são os textos de referência dos maçons operativos que serviram de corpus para o desenvolvimento da Maçonaria moderna. Estes manuscritos (cerca de cento e trinta cópias) geralmente incluem uma história lendária da profissão do construtor e uma lista dos deveres morais e profissionais dos pedreiros. Existem ali também muitas ocorrências religiosas: invocações a Deus ou os santos, à Virgem Maria ou à igreja, busca da salvação da alma, referências e histórias bíblicas, orações. Uma interpretação espiritualista deduzida ali, instalada no corpus maçônico no início do século XVIII: entre 1710 e 1750 escolhas ideológicas decisivas relacionadas aos mitos foram feitas: apagamento de Euclides e eliminação de Noé em favor de Hiram e Salomão, uso sistemático de elementos bíblicos, a promoção do Deus único. Esta concepção é hoje dominante no espaço reflexivo maçônico.
Uma releitura secular e racional dos mitos maçônicas foi necessária; ela desafia muitas concepções tradicionais, mas esta nova visão alternativa não é destrutiva: ele não tem a pretensão de se livrar de Deus nem de outros atributos do modelo dominante, mas ela prefere a geometria, fonte de outras Ciência e local de raciocínio dedutivo. Para ela, o mito comporta tanto a imaginação quanto a razão: é claro que a razão produz mitos e os mitos mais irracionais têm uma razão.
Mas o maçom, na busca incessante do sentido que lhe sugere a presença de seus mitos, deve reabilitar aqueles que lhe atribuem uma finalidade de compreensão lógica da razão do mundo. Por esta inteligibilidade adogmática distante dos abusos espiritualistas de discurso meloso, e sem negligenciar uma certa consciência mítica, ele cumprirá totalmente sua missão: compreender, aprender, construir e transmitir.
Dois personagens míticos eliminados: culpa de Hiram?
Euclides, a fonte racionalista esquecida
O Manuscrito Regius (1390), o mais antigo texto das Antigas Obrigações, começa com uma fórmula claramente significativa: “Aqui começam os estatutos da arte da geometria segundo Euclides.” Não só Euclides é o padrinho do Regius, mas lhe é creditado ser o criador das sete ciências; em todas as ações atribuídas a ele, Euclides sempre age de acordo com os princípios da razão geométrica, tornando-se um homem providencial. Ele é também – embora este ponto seja totalmente omitido pelos espiritualistas e historiadores maçons – aquele que pela primeira vez formaliza as regras de organização e funcionamento do ofício.
Ele é, assim, o autor de quatro “obrigações” decisivas:
1) A obrigação de transmissão recíproca: aquele que é mais avançado na arte da geometria deve instruir os menos dotados, a fim de aperfeiçoar e esta instrução deve ser recíproca;
2) O dever de fraternidade: os homens que praticam a arte devem “amar a todos como irmãos e irmãs”;
3) A designação de um mestre: o mais avançado na arte deve ser chamado de “mestre” para homenageá-lo particularmente;
4) O respeito mútuo: os maçons, para o bem da unidade, devem se chamar companheiros entre si, qualquer que seja o seu nível profissional.
Outro texto das Antigas Obrigações, o Manuscrito Dumfries no. 4 (C 1710) apresenta Euclides como aquele que cria quatro novas medidas verdadeiramente constitutivas da Maçonaria especulativa: a criação em forma de Ordem, o sinal de reconhecimento, o segredo e a regularidade do trabalho em loja.
Apesar desse papel essencial, Euclides não foi mantido como um mito da Maçonaria moderna: Anderson o cita pouco e os rituais desenvolvidos no decorrer do século XVIII, lhe atribuem apenas algumas evocações em alguns graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Noé, um destino maçônico contrariado

Noé, mito universal e um dos mais antigos da humanidade, tanto como resultado do dilúvio quanto da arca representa na Bíblia o fundador da nova ordem mundial. Deus, vendo-o como o único justo e o único homem de integridade, conclui com ele a sua primeira aliança depois do dilúvio. Os termos dela são simples: Deus diz a Noé que ele nunca mais o amaldiçoará e, portanto, não destruirá os seres vivos como acabou de fazer. Ele, então, determina a Noé e a seus filhos uma missão de quatro pontos: eles devem ser fecundos e prolíficos; eles dominarão a natureza; eles poderão se alimentar de tudo o que há na terra, excepto o sangue; e eles deverão velar pela vida de seus irmãos, ou seja, não matar. O arco-íris será o sinal dessa aliança. Trata-se de uma nova filosofia equilibrando direitos e deveres: possibilidade para o homem dominar a natureza, mas obrigação de respeitar a vida dos outros.
Nos textos maçônicos do século XVIII, Noé é valorizado: Anderson o apresenta em 1738 como o pai da maçonaria, cada maçom sendo um “verdadeiro filho de Noé” e Ramsay como o restaurador da raça humana e o primeiro Grande Mestre da Ordem. O Noaquismo é assim, a religião primitiva anterior a todo dogma, uma espécie de religião natural global em que todos os homens podem se reconhecer. Noé deveria ter sido o mítico fundador da Maçonaria especulativa. No entanto, ele desaparece muito rapidamente das referências maçônicas: ele já não é mencionado na edição das Constituições de 1756 e não reaparece no novo texto da Constituição Maçônica Inglesa de 1813. Ele não é mais encontrado hoje, senão no grau 21 do REAA chamado Noaquita ou Cavaleiro Prussiano e no Grau de Royal Ark Mariner, novamente praticado na França há vários anos. Como Euclides, ele foi deposto por Hiram.
Um novo rosto para Hiram: uma apresentação de sacrifício à luta de classes
Um novo rosto para Hiram: uma apresentação de sacrifício à luta de classes
O mito de Hiram é a narrativa fundamental da Maçonaria especulativa; aparecido na década de 1730, ele coloca em cena Hiram, Mestre Maçom do canteiro de obras do Templo de Salomão, que foi assassinado por três maus companheiros a quem ele não quis revelar o segredo dos mestres. Existem cerca de cinquenta versões do mito hirâmico. Mas, Hiram continua a ser o mestre perfeito, dotado de todas as virtudes humanas e de todas as competências técnicas possíveis; ao invés de revelar um segredo, ele se sacrificou e morreu: senso de Dever, recusa a ceder à fraude, ele representa no imaginário dos maçons um modelo de coragem e de vida, ao mesmo tempo um herói e um santo, o mito maçônico absoluto.
Esta lenda é incompleta porque um episódio crítico foi omitido pelos redatores maçônicos do século XVIII.
O documento sobre o qual repousa o mito, o Manuscrito Graham (1726), relata que um conflito profissional eclodiu no canteiro de obras: é uma disputa entre os trabalhadores e os pedreiros sobre salários. Hiram ocupa o cargo de vigilante de todo o canteiro de obra, mas é o proprio rei Salomão quem intervém para se chegar a um acordo: ele explica para acalmar as recriminações que todos os trabalhadores serão pagos da mesma forma, mas ele dá aos pedreiros um sinal que os trabalhadores não conheciam: “E aquele que podia fazer o sinal onde os salários eram pagos eram pagos como pedreiros; os trabalhadores não o conheciam e eram pagos como antes”. Embora a calma tenha voltado, Hiram se torna, portanto, cúmplice de uma torpeza de Salomão, de uma manipulação e uma mentira, apagada do texto maçônico, ostensivamente para dar a Hiram um papel idealizado.
Hiram é, portanto, o tipo de executivo dividido entre os objetivos do cliente e as queixas dos trabalhadores, defendendo até a morte os interesses da classe dominante.
As duas colunas antediluvianas, um mito negligenciado
As duas colunas antediluvianas, um mito negligenciado
Este mito é amplamente destacado por vários textos das Antigas Obrigações e retomado por Anderson. Ele encontra sua origem nas Antiguidades Judaicas do historiador Flavius Josephus (37-100). Ele indica que homens que tiveram a presciência de um cataclismo universal querido por Deus e que arriscava destruir a humanidade por água e fogo decidiram construir dois pilares sobre os quais todo o conhecimento seria inscrito, com o objetivo explícito de o preservar e transmitir às gerações futuras.
Pelo efeito de uma mudança de significado, uma confusão com as duas colunas do Templo de Salomão ele foi gradualmente instalado na mitologia maçônica; hoje, apenas no grau 13 do Rito Escocês o tema se mantém intacto.
Diversos aspectos são dignos de nota:
1) De acordo com as versões, passamos de quatro construtores (os filhos de Seth, terceiro filho de Adão e Eva) a um único construtor: Enoque, o patriarca antediluviano que foi levado vivo para o céu. Da mesma forma, os materiais de construção variam de pedra ao mármore, de tijolos ao latão.
2) A intenção inicial é motivada pelo medo de perder as invenções humanas; estas dizem respeito principalmente à astrologia, depois a geometria e a maçonaria. Finalmente, é Hermes que redescobrirá uma única coluna, permitindo o sucesso da operação.
Muitos historiadores maçons integram este mito no Noaquismo; essa assimilação é injustificada. Noé e as duas colunas não têm ligação alguma entre si. Noé é um personagem bíblico, enquanto que o episódio das duas colunas, invenção profana está ausente do texto bíblico; Noé é uma personagem que faz a ligação com Deus, enquanto a decisão de construir as duas colunas é puramente humana, sem um relacionamento anterior com Deus. Pode-se até argumentar que esta decisão é a marca de um desafio a Deus, os homens assumindo que arriscam perder permanentemente o que eles ganharam.
É preciso lembrar a natureza Prometeana de um projeto perfeitamente racional.
O duplo mito salomônico, ambiguidade da natureza humana
A Maçonaria é permeada pelo mito Salomoniano em dois aspectos: primeiro, a construção do Templo como o canteiro ideal e por outro lado, a pessoa do próprio rei Salomão, cujo papel é importante, especialmente nos graus escoceses. Sejam quais forem os textos, o Templo é a expressão da perfeição; ele representa o cosmos e para muitos maçons é a expressão simbólica do Templo Maçônico. Solomão é apresentado em todos os atributos da soberania: construtor, justiceiro, concedendo recompensas, presidindo todas as assembleias; na plenitude de sua glória, ele é, especialmente no REAA, o fiador simbólico da maestria sem defeito.
De acordo com a visão bíblica, Solomão é um homem sábio, possuidor do dom do discernimento na origem de sua equidade e sua tolerância proverbial, conhecimentos científicos e uma abordagem filosófica.
Esta visão é em grande parte distorcida e inequívoca. O templo não é apenas um santuário religioso, mas também ao mesmo tempo um lugar político. Sua construção interrompe o nomadismo da religião judaica e, simultaneamente funda a identidade nacional do povo judeu. Os caprichos da história fizeram dele um lugar de rivalidade e crimes, tanto religiosos quanto políticos. Solomão, por sua vez, mandou assassinar seu irmão e vários dignitários ou rivais para consolidar seu poder; depois de uma primeira parte do glorioso reino, ele se tornou infiel a seu Deus, entregando-se ao politeísmo e à poligamia, aumentando os impostos de seus súditos, usando escravos e não respeitando seus compromissos comerciais com seus vizinhos. Com sua morte, as tribos do norte se revoltaram e o país se dividiu em dois reinos.
Por que os maçons valorizam um lugar simbolicamente tão questionável e uma figura criminosa? Esquecendo-se o lado escuro dos homens e sua história, a Maçonaria quer mostrar a imperfeição da natureza humana?
A Torre de Babel, um mito amaldiçoado que se tornou benéfico
A Maçonaria propõe três grandes interpretações do mito da Torre de Babel:
1) A visão tradicionalista: construindo a Torre, os homens deram prova de orgulho e vaidade insuportáveis para Deus; a ira divina é, assim, natural, a confusão de idiomas é um castigo merecido, assim como a maldição do homem sobre a terra. Esta concepção moralizante e culpabilizante baseada na Bíblia está presente especialmente no Manuscrito Regius (1390), no Manuscrito Graham (1726) e quase totalmente no grau 21 do REAA.
2) A interpretação construtivista: ela tem sua origem no Manuscrito Cooke (c. 1400) que aparenta este mito como a capitalização da experiência adquirida pela “ciência da geometria”, que levou a uma mestria da arte de construir. Nada é dito sobre a intenção original dos homens nem sobre a vingança divina. A torre não é mais o símbolo da vaidade humana, mas torna-se o lugar da transmissão do conhecimento técnico. Estamos aqui na origem de uma visão amplamente positiva do mito.
3) A síntese Andersoniana: As Constituições de Anderson (1723 e 1738) ultrapassam as duas correntes anteriores, emprestando-lhes vários elementos. A construção da torre não tem a intenção de desafiar a Deus, este ponto não sendo mais que uma consequência; a sanção é a mesma para os homens, a da confusão de idiomas e a dispersão; mas os homens adquiriram por meio dela, uma competência excepcional que servirá ao desenvolvimento da arte de construir.
Assistimos durante quarenta anos uma inversão axiológica: seguindo-se a evolução geral da opinião a diversidade é agora uma bênção e o múltiplo é a ordem natural do mundo. Babel permanece a metáfora da desordem extrema e do excesso, mas a maioria dos maçons de nossos dias compartilha a ideia de que a diversidade é uma riqueza em nome do princípio de que é preciso “reunir o que está espalhado”. A reinterpretação regular desse mito mostra que ele não se fossiliza, Babel tendo se tornado ao longo do tempo o paradigma da unidade e da diversidade humana.
O mito no coração do homem
O mito no coração do homem
Todas as culturas o utilizam. É uma história que tem uma ou mais histórias; elas retratam deuses ou seres sobrenaturais ou heróis divinizados que adquiriram status divino; esses deuses têm relações entre si e com os homens. Eles muitas vezes se comportam de forma imoral, mas isso é para mostrar aos homens em contraponto aos valores morais que eles devem respeitar. Para muitos – especialistas ou simples seguidores – a natureza religiosa do mito é evidente, porque a intrigas na maior parte das vezes se refere à origem dos deuses, do mundo, do mal, da morte. Todas as religiões estabeleceram ligações com os mitos, porque eles são portadores de uma visão sagrada. Portanto, a questão dos mitos fundadores é essencial porque participa da crença coletiva em uma criação antiga, se não arcaica, expressando uma verdade reconhecida como certa e que se tornou atemporal.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
EM BUSCA DE UM HIRAM DE MIL FACETAS
Tradução José Filardo
por Francis Moray

Na nebulosa que muitas vezes pode ser a Maçonaria, principalmente a francesa, com sua profusão de potências, ritos, rituais e diante da dificuldade de lhe dar uma definição holística, há pelo menos um tema que, em primeiro lugar, parece aparecer como uma constante: a construção do templo de Salomão e o mito de Hiram. Mas as coisas são tão claras desse lado? A personagem icônica de Hiram e seu correspondente assassinato podem se posicionar como o componente intangível, homogêneo e irredutível da Maçonaria desde a sua origem?
Segundo os ritos, Hiram é uma “personagem ilustre e justamente reverenciada entre os maçons”, “pai, o modelo” da Maçonaria, o “mestre”, o “maçom por excelência”, até se tornar o ” homem perfeito “,” o arquétipo da perfectibilidade humana “. De fato, ele passa pelo mito absoluto da maçonaria, ou o seu mito fundador. Por isso, presumimos que ele deva estar bem presentes desde o nascimento da Maçonaria obediencial em 1717 e até mesmo, logicamente, muito antes, quando a maçonaria especulativa começa a amadurecer. De fato, Jules Boucher nos explica que teria sido Elias Ashmole – um dos primeiros maçons ingleses, iniciado em 1641 – quem teria introduzido este mito da morte de Hiram por volta de 1646.
Nada crer sobre palavras
Aqui, a personagem de Ashmole, precisamente, sendo um dos membros fundadores da Royal Society de Londres -, sem dúvida, a instituição científica mais famosa do mundo – nos convida a olhar do lado da eminentemente divisa maçônica dela: Nullius in Verba – nada crer em palavras. Mas, passando precisamente esse mito fundamental de Hiram por este crivo, não se leva muito tempo para perceber que ele não é tão antigo quanto isso.
Não só ele aparentemente não aparece no corpo da maçonaria especulativa anterior a 1717, mas, mesmo nessa data, ele nem sempre está presente. Vale ressaltar que, se a primeira versão das Constituições de Anderson, em 1723 – o texto estruturador da maçonaria obediencial que lhe dá suas regras – evoca brevemente o nome de Hiram à luz do que é dito na Bíblia, ela absolutamente não fala sobre a lenda da morte do mestre arquiteto (também ausente do texto bíblico). É preciso dizer que se trata aqui apenas dos dois graus na Maçonaria, enquanto a lenda vai ser o coração do terceiro grau, o do mestrado. A ausência desse mito pode, portanto, parecer lógica deste ponto de vista, mas pouco compreensível, no entanto, se estamos fazendo um resumo da maçonaria. Mas em 1738, quanto Anderson publica uma segunda versão, modificada e ampliada, de suas Constituições, ele dá mais importância a Hiram e seu trágico fim, dizendo que isso mergulhou os irmãos em um luto profundo. Além disso, é indicado que o Grão-Mestre Adjunto, à esquerda do novo Grão-Mestre, ocupa a cadeira de Hiram Abif.
Enquanto isso, no manuscrito Wilkinson de 1727, podia-se ler o seguinte diálogo: “A forma da loja é um longo quadrado. Por quê? Na forma do túmulo do Mestre Hiram “. E um ano antes, em 1726, o manuscrito Graham evocava a busca e a descoberta de um corpo por três indivíduos, bem como uma perda resultante dessa morte, mas o falecido não era aqui Hiram, mas Noé reencontrado por seus três filho que estão tentando levantá-lo. (Aliás, o nome de Hiram também está presente no texto como nas primeiras Constituições de Anderson, mas sem que se diga outra coisa, ali ainda, além do aparece na Bíblia). Em 1730, a primeira verdadeira divulgação dos segredos da ordem maçônica, A Maçonaria Dissecada de Pritchard, revela os detalhes da cerimônia de elevação ao grau de mestre e esta mesma lenda do assassinato de um iniciado ocupa o seu centro. Mas desta vez, o falecido é realmente designado como Hiram e não mais Noé.
O Hiram da Bíblia
Este mito se tornou, depois, o esquema central da maçonaria e, em todo caso, do grau de mestre. A história se articulará baseada em um personagem da Bíblia relacionado com a construção do Templo de Salomão; neste caso, seu arquiteto-chefe. O quê nos diz a Bíblia, exatamente?
O nome Hiram aparece umas vinte vezes no Antigo Testamento (1). No entanto, vemos imediatamente que duas personagens são designadas por esse nome (ou até mesmo três, quando alguns querem ver em Hiram das Crônicas, usando um apelido abi ou abif, um homem diferente dos outros dois, mas não há necessidade de se entregar aqui às querelas de exegetas para aumentar à complexidade do caso). Os dois Hirams são, em primeiro lugar Hiram, rei de Tiro, Hiram I (amigo de Davi e Salomão a quem fornecerá a mão de obra e materiais para a construção do templo em Jerusalém), e um dos seus súditos, ourives e escultor de bronze de sua condição. Nós encontraremos um e outro no mito maçônico, mas é especialmente o segundo que vai chamar nossa atenção em relação ao importante relato do assassinato do Mestre Maçom.
Destes últimos, diz-se que Salomão “o fez vir de Tiro”. Ele era o filho de uma viúva de Naftali, mas seu pai era um homem de Tiro, trabalhador em bronze. Ele era cheio de habilidades, de atenção e conhecimento para realizar todo trabalho em bronze. Ele veio até o rei Salomão e executou todas estas obras” (2). Este sétimo capítulo do Primeiro Livro dos Reis continua detalhando todos os trabalhos (essencialmente decorativos não de grandes obras) que este artesão excepcional realizará para o Templo: as duas colunas que ele chamou Boaz e Jaquim, os dois capitéis e as quatrocentas romãs que as adornam, as duas redes, o mar de bronze (grande bacia circular de 10 cúbitos, ou seja quase cinco metros) e seus doze suportes na forma de bovinos, outras bacias, todo um conjunto de móveis, vasos de cinzas, pás, bacias para aspersão … ” Todos estes objetos que Hiram fez para o rei Salomão, para o templo do Senhor, eram em bronze polido” (3).
E o Segundo Livro de Crônicas II, 12-14 acrescenta: “Eu [Hiram I Tiro] lhe envio [a Salomão], portanto, um homem esperto e inteligente, Hiram Abif, o filho de uma mulher entre as filhas de Dan e de um pai de Tiro. Ele é hábil para trabalhar em ouro, prata, bronze e ferro, pedra e madeira, tecidos tingidos em roxo e azul, e tecidos de linho fino e carmesim, e para todos os tipos de esculturas e objetos de arte que lhe são dados para executar. Ele trabalhará com os seus homens qualificados e com os homens hábeis de meu senhor Davi, teu pai … ” Em suma, o Hiram das Crônicas não é apenas o mestre da arte de bronze, mas politécnico parecendo controlar também a arte dos tecidos, e marcenaria … o historiador do século I, Flavius Josefo também nos fala de Hiram em suas Antiguidades judaicas (4), onde ele o descreveu como “artesão notável” (τεχνίτης technitès), mas com uma filiação ligeiramente diferente “Solomon mandou buscar um arquiteto notável de Tiro, cujo nome era Hiram; ele era da tribo de Naftali por parte de sua mãe (porque ela era dessa tribo), mas seu pai era Ur, do povo de Israel”.
Mais perguntas que respostas
Em suma, Hiram é um artesão em bronze de grande talento e conhecimento, filho de uma viúva judia (portanto ele mesmo judeu) e um pai fenício de Tiro. Já é muito, mas é tudo em relação ao que nos interessa. Nunca o fundidor Hiram é descrito na Bíblia como um arquiteto, um mestre de obras ou um superintendente de obras do Templo de Jerusalém. E não há dúvida de seu fim ou destino trágico depois de seu trabalho no canteiro de obras do templo de Jerusalém. Além disso, a Bíblia dá o nome de um “responsável por tarefas” do templo, Adoniram, que não deve ser confundido (embora alguns tenham sido capazes de fazer) com o nosso Hiram.
Em suma, como acontece muitas vezes, algumas linhas da Bíblia sobre os dois Hiram abrem sem dúvida mais perguntas do que nos fornecem respostas. Assim, para citar apenas alguns exemplos, quando a Bíblia nos diz que o “rei de Tiro, Hiram, enviou seus servos em embaixada até Salomão, pois ele ficara sabendo que ele tinha sido ungido rei em lugar de Davi, seu pai e Hiram sempre tinha sido amigo de David” (5), alguns foram surpreendidos que o Antigo Testamento nunca tenha mencionado essa amizade anteriormente no tempo de vida do pai de Salomão. Da mesma forma, quando no versículo 21, o Tiriano (fenício, portanto) Hiram “sente uma grande alegria e exclama:” Bendito seja hoje, Jeová “, ” alguns poderiam divagar sobre a invocação de um suposto pagão ao deus monoteísta. Levando ao extremo, pode-se até mesmo questionar, em relação à sintaxe da escritura (mas também devido ao famoso epíteto Abif), sobre a identidade real do trabalhador em bronze: é este o próprio Hiram, considerado bastante politécnico pelas Crônicas? Ou seu próprio pai, “trabalhador em bronze”? E esse pai não era o rei Hiram de Tiro; uma hipótese mantida pela própria alvenaria até a década de 1730? Além disso, o pai de Hiram, de Tiro era “israelita” ou fenício? Poderíamos muito bem acrescentar outras perguntas. Seu nome em si não deixou de dar origem a debates e sua etimologia continua controversa. Já, a partir do que origem é o nome Hiram (na ortografia padrão, vemos também escrito Chiram, Khiram ou Khuram), e que afeta necessariamente a sua tradução? Fenício? Hebraico? Outro? A questão não está totalmente resolvida. É assim que nos deparamos com epítetos tão diversos quanto “irmão exaltado”, “poderoso irmão”, “nobre”, “Deus é alto, elevado ou exaltado”, “aquele que vem de longe” … (6) Encontramos ainda “filho do carneiro”. Quanto a Jean-Pierre Bayard, ele fazia de Adon-Hiram (que vimos não se confundir, teoricamente, com o nosso Hiram) “aquele que ultrapassou a morte”; a que certamente falta adequação, a propósito, temos de admitir (7).
Um mito … de geometria variável
E se esta tradução pode parecer adequada, é precisamente à luz da interpretação maçônica do mito; um mito que, portanto, se concentra no assassinato de Hiram, um episódio ausente da Bíblia como acabamos de ver. Mas muitas são as diferenças entre o Hiram da Bíblia e o Hiram maçônico: a começar, fora o seu trágico fim, pelo fato de que na Bíblia, ele é apenas um trabalhador em bronze, enquanto que na maçonaria ele é o arquiteto-chefe, o supervisor das obras que organizou toda a mão de obra, o detentor de um grande conhecimento hermético e um dos “três grandes Mestres empregados na construção do Templo.” A lenda maçônica de Hiram, no entanto, está longe de ser homogênea entre os diferentes ritos. Como é, então, estruturada a história deste arquiteto arquetípico da Maçonaria chamado Hiram, o filho de uma viúva com quem cada mestre deve se identificar de tal forma que todos os maçons serão considerados “filhos da viúva”? Durante a Idade Média, encontramos o nome de Hiram informalmente nas Antigas Obrigações (Old Charges) – estes textos fundamentais da futura maçonaria especulativa que são então os regulamentos dos maçons operativos – mas frequentemente de maneira distorcida: Adoniram Adoram, Hiram, Huram, Khuram, Adon Hiram, Akhiram … no entanto, na época, a personagem importante da maçonaria é, ao invés, Euclides. E Hiram não é, então, nem o arquiteto nem o intendente dos trabalhos do templo; um arquiteto que às vezes aparece, mas muitas vezes sem ser nomeado especificamente ou então sob uma das variantes de Amon.
No início do século XVIII, portanto, enquanto a Maçonaria precisa se estruturar e até mesmo dotar-se de um terceiro grau que não existia no momento de seu nascimento, a lenda do assassinato de Hiram, o mestre de obras e arquiteto do templo é inventada – quase do zero. E, assim como a Flauta Mágica de Mozart vai conferir lirismo e amplitude ao ritual maçônico, pode-se dizer que é a história da morte de Hiram na Viagem ao Oriente, do teoricamente profano Gerard de Nerval, que vai conferir esta narrativa poética que ela não tinha, talvez, antes.
Conhecemos bem as grandes linhas da lenda: Hiram, arquiteto e supervisor das obras, organizou os trabalhadores em três classes – aprendiz, companheiro, mestre – de acordo com o seu nível de mestria da arte. Particularmente para receber seus respectivos salários, cada classe possui palavras e sinais de reconhecimento. Quanto o canteiro de obras chega ao final , companheiros descontentes com seus status fomentam a ideia de obter pela força o segredo dos mestres para obter as vantagens ligadas ao status deles. Então, quando Hiram retirou-se para o templo, os três companheiros estão à sua espera, cada um em uma porta para arrebatar esses segredos. Mas o arquiteto não cede e perde a vida, depois que cada rufião lhe tenha desferido um golpe violento com a ajuda de um instrumento contundente. O enredo é simples. Seria de se esperar, tendo em vista a importância da história para a estruturação da maçonaria, que ela seja perfeitamente consistente entre os diferentes ritos. Isto está longe de ser o caso. E as nuances são muito numerosas, por vezes da ordem de detalhe, mas muitas vezes mais determinantes e significativas; essas divergências podem até mesmo serem vistas como pontos principais de diferenciação entre ritos.
Um assassinato e diferentes versões
Naturalmente, não é impossível aqui para listar todas as variantes do assassinato de Hiram. Elas incluem: as funções exatas e completas de Hiram no canteiro de obras, o número de trabalhadores envolvidos na construção do templo, sua distribuição, o número de companheiros na trama inicial (se eles são sempre três a cometer o irreparáveis, muitas vezes eles são os últimos e mais determinados de um grupo de quinze no início), os nomes dos três conspiradores muito diferentes (ou anônimos) de acordo com os ritos, o motivo da presença de Hiram no templo (oração? Controle do trabalho? …), a hora do dia (meio-dia? meia-noite? fim dos trabalhos? …), a ordem das portas onde o mestre receberá os golpes, as ferramentas eminentemente significativas usadas pelos criminosos ( se o último é sempre o malhete, os outros dois podem ser a régua, o o esquadro, a alavanca, um martelo, um peso, um nível, uma perpendicular …), as partes do corpo de Hiram são igualmente determinantes, onde são desferidos esses golpes (ombro direito ou esquerdo, braço direito, testa, nuca, coração … para sempre acabar na testa), etc. A lista é longa e ainda assim nós paramos por aqui na estrita traição fatal, sem mencionar a fuga dos bandidos, a ocultação do corpo, a busca pelo defunto pelos emissários de Salomão (em números diferentes – 15, 12, 9 …? ), a identificação da sepultura improvisada com a ajuda de marcos simbólicos, o levantamento do defunto, o retorno dos restos mortais a Jerusalém, a construção do túmulo de Hiram (em locais diferentes), a caça aos assassinos, o castigo deles … Todos os episódios – integrados por alguns na cerimônia do terceiro grau de diferentes ritos ou animando lendas de graus de perfeição de outros ritos – que dão origem a muitas variantes.
Hiram e a busca dos seus
Quanto ao mérito, não se trata aqui de dissecar, sabemos que o mito maçônico de Hiram exibe diferentes temas essenciais: fidelidade e respeito pela palavra dada, a aprendizagem progressiva com base no mérito, o triunfo sobre a morte além da certeza dela … Há também a questão de segredos perdidos e substituídos; perdidos pela morte do mestre e substituídos por novos segredos durante a busca por seus restos mortais. Mesmo no que diz respeito a esta problemática importante da maçonaria e que poderia parecer intangível, parece que as coisas novamente não são tão evidentes. Estes famosos segredos perdidos – incluindo a recuperação ou a restauração forma uma grande parte da abordagem maçônica – eles realmente … foram perdidos? Nada é menos certo no Rito Escocês Antigo e Aceito, somente para citar um. Continua o eterno debate: por que todos os segredos teriam sido perdidos pelo simples desaparecimento de um dos três Grandes Mestres originais – Salomão e os dois Hirams – muito mais considerando que aquele desaparecido é o que simboliza a função do segundo vigilante? Sem esquecer que em relação a este trio e o famoso tríptico Sabedoria-Força-Beleza, o corpus maçônico atribui a Sabedoria a Salomão por projetar – que se parece muito com o verdadeiro trabalho do arquiteto – a força a Hiram de Tiro por realizar e a Beleza a Hiram Abif por embelezar e adornar o Templo – o que se parece muito com a função estritamente decorativa do trabalhador em Bronze Hiram da Bíblia.
Mas além de uma simples morte, o mito de Hiram, é primeiro uma questão de buscas: busca enganosa de criminosos em busca de obter vantagens indevidas, busca de um ser desaparecido e, portanto, de seus restos mortais, de uma sobrevida além da morte, busca de segredos perdidos e da regeneração de uma abordagem, busca de uma nova luz além da escuridão … E, portanto, para o maçom que busca, que a própria pessoa de Hiram não se deixe facilmente circunscrever e só possa ser o objeto de uma busca complexa partícipe da lógica.
Se, nós vimos, o mito maçônico da morte de Hiram é desenvolvido no início do século XVIII, ele não nasce naturalmente ex nihilo. Se, conforme mencionado acima, a Bíblia não pode realmente esclarecer, muito se colocaram em busca de suas raízes escavando mitologias, a literatura popular ou a História. De maneira evidente, muito são aqueles que puderam ver nisso uma reminiscência de um esquema arquetípico da morte e ressurreição arcaica de deuses ou de reis, como escritores tais como Frazer ou Eliade puderam definir. Por trás da figura de Hiram pudemos assim adivinhar a de um Osiris, covardemente assassinado por seu irmão Seth e o encerrando em um esquife e cujo corpo feito em pedaços será objeto de uma busca para o reconstruir, mas também os de outras divindades, tais como Atys, Tammuz, Balder, o deus ferreiro Goibniu/Goban Saer, Mitra, Abel e muitos outros, na primeira fila daqueles, naturalmente, o próprio Jesus Cristo (os três golpes desferidos em Hiram podendo ser interpretados como um eco dos três pregos da crucificação). Quando alguns interpretam Hiram como o “filho do Cordeiro”, podemos o ver como uma espécie de “bode expiatório”, uma vítima expiatória sacrificada para salvar e terminar um projeto considerado “impuro” porque acolhia trabalhadores que não compartilhavam todos a mesma fé, apesar do propósito sagrado da obra? Quanto à exclamação “A carne se desprende dos ossos”, lançada na descoberta do cadáver do arquiteto, ela não pode nos fazer pensar no “carnaval”, de que é a tradução etimológica; esta procissão burlesca visando exorcizar a velha carga de cavalaria de mortos liderada pelo rei da vida após a morte, no qual vamos encontrar o duplo tema da morte e da busca. Dentro do mesmo espírito, pudemos observar que o assassinato de Hiram lembrava o do pai da horda primitiva – muito próximo do Grande Caçador ou rei da caçada selvagem – evocadas por Freud em Totem e Tabu.
Os Hirams históricos (+ Foto Renaud de Montauban)
As tradições dos maçons operativos preservaram a memória de outros mártires ou personagens hirâmicas, como of 4 reis coroados (condenados pelo imperador Diocleciano e evocados no manuscrito Regius como patronos do ofício), ou ainda o mestre Tiago e o padre Soubise apresentados como antigos companheiros de Hiram no canteiro de obras do Templo e que conhecerão, eles próprios, finais trágicos … Na literatura popular da Idade Média, onde não faltam relatos de arquitetos de igrejas ou catedrais assassinados como uma forma de consagração final do santuário pelo sacrifício. Um dos mais eminentes é Renaud de Montauban, um dos Quatro Filhos de Aymon, na Canção de Gesta homônima do século XII, sobre a qual Paul Naudon particularmente enfatizou as semelhanças com Hiram: enquanto trabalhava como pedreiro no canteiro da construção da Catedral de Colonia, ele é morto por um golpe de martelo na fronte, antes que seu corpo fosse escondido por seus assassinos, depois reencontrado.
A personagem de Hiram também poderia ter sido inspirada por personalidades perfeitamente históricas. Ragon ou Lantoine adiantavam o nome do rei mártir Charles I da Inglaterra de quem os maçons do início do século XVIII teriam querido exaltar a memória em um contexto politicamente explosivo. Outras identidades têm sido propostas, tais como a do último Grão-Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay, ou of rei esclarecido e selvagemente assassinado Salomão da Bretanha, ou ainda o faraó Sekenenre Tao II, cuja múmia apresent ainda as terríveis feridas correspondentes às de Hiram (hipótese controversa de Lomas & Knight, em A Chave de Hiram).
Provavelmente nunca saberemos quem foi o próprio Hiram, o Hiram da Maçonaria. Mas, como este último, ele é provavelmente um agregado de diferentes fontes, incluindo a estruturação – tal como a conhecemos hoje – começou na virada do século XVIII e ainda ocorre certamente, segundo os ritos. Hiram é o mito por excelência, um mito vivo, perene, atual que encontra particularmente a sua substância na busca; uma busca que permite ao maçom encontrar a si mesmo. Anteriormente, na instrução do 3º grau do Rito Escocês, era explicado que o objetivo do mestrado era “buscar o mestre dentro de nós em estado do corpo inanimado, fazer reviver o morto para que ele aja em nós “. Essa busca literal do “entusiasmo” do mestre – “deus” – que está enterrado dentro de nós (εν θεος em theos) para reanimá-lo, esta é a mensagem do mito de Hiram.
Notas:
1: principalmente no Primeiro Livro dos Reis, capítulos V e VII e no segundo livro de Crônicas, capítulo II
2: 1 Reis VII: 13-14
3: 1 Reis 7: 45
4: 8ª livro, cap. 2
5: 1 Reis V: 15
6: Sobre esta questão do nome, consulte principalmente Michael Segall, Dicionário Maçônico: terminologia dos rituais maçônicos – Dervy, 2014 (2ª ed).
7: E o que dizer, em relação à maçonaria e seu templo, da lendária cidade mencionada no Alcorão ou nas Mil e uma noites, Iram (ou Yram, Irum, Irem, Aram, Erum …) nos pilares (ou colunas)? A lenda dessa cidade “perdida”, coloca também em cena a investigação e a descoberta de um túmulo, ecoa em uma forma de Jerusalém celeste.
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