segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


O CONSTRUTOR DE JOTUNHEIM: O Gigante Maçom

"É necessário de sabedoria para aquele que peregrina, pois em casa, tudo é fácil.
- O Havamal"

INTRODUÇÃO

O Mestre Construtor

Na confluência de tradições que formaram os Augustos Mistérios e Lendas maçônicos contemporâneos, é possível notar nos anais maçônicos a influência e recortes egípcios, gregos, fenícios, israelitas dentre tantos outros. Dada à origem britânica da Maçonaria Especulativa Modernaem 1717 com a fundação da Grande Loja de Londres, é natural que alguma influência do país viesse a contribuir na composição desses Mistérios e Lendas. Por sua vez os antigos mistérios daquele reino surgem de outra confluência, vinda da interação de vários povos como pictos, celtas (e druidas), romanos, anglos, nórdicos (e saxões) e outros.

Tomando como indício o Rito Escocês (apesar dos debates sobre sua procedência de fato) é possível rastrear até aquela região do Reino Unido as origens da Maçonaria Moderna e seus ritos, e na família Sinclair (senhores de Roslin e próximos aos Templários) os ditames iniciais da Sociedade Maçônica contemporânea.

William Sinclair o Conde de Orkney e Caithness, Grande Almirante da Escócia em 1436 e deste modo construtor, foi renomado em 1441 por James II, mestre e protetor dos Maçons Escoceses, uma função hereditária aos Sinclair até 1736, em que outro W. Sinclair renunciou por não poder ocupar-se, sendo eleito o primeiro Grão-Mestre da Escócia por votação unânime dos representantes das 33 Lojas maçônicas.

Os Sinclair de então, não eram apenas Maçons-Livres Especulativos, mas também Operativos,construtores ativos e proficientes na aplicação de geometria, engenharia e arquitetura. A família advinha de origem nórdica por meio dos duques da Normandia e dos Jarls (condes) de Orkney. Sendo os Sinclair de origem nórdica, haveria no berço desta linhagem que conduziu as gêneses da Maçonaria Especulativa Moderna algo familiar ao Ofício?


OS AESIRES E O CONSTRUTOR

Nos primeiros dias dos assentamentos Aesires[1], quando eles haviam constituído a Terra-dos-Homens[2] e erigido o Valhalla[3], veio até eles um Construtor[4] que se ofereceu para fazê-los em 3 estações[5] uma fortificação[6] extraordinária. Esta fortificação seria tão forte e vigorosa que os protegeria mesmo dos ataques de Gigantes-da-Montanha, Gigantes-do-Gelo[7] e até daqueles que erravam pela Terra-dos-Homens.

Para isso, o Construtor impôs como salário ter a mão de Freyja[8] além de possuir o Sol e a Lua. Logo, os Aesires entraram em debate e houve uma assembleia, então uma aposta[9] foi proposta ao Construtor. Ele ganharia aquilo que desejava se conseguisse construir as fortificações em apenas um inverno, contudo, se no primeiro dia do verão a construção ainda estivesse inacabada, nada lhe seria pago, além disso, não poderia receber a ajuda de ninguém nas obras. Quando lhe formalizaram estes termos, contudo, ele lhes contrapôs para que tivesse ajuda ao menos de seu cavalo, que era conhecido como Svadilfari[10], por sua vez, Loki[11] aconselhou aos Aesires que isso lhe fosse permitido e a aposta foi então selada.

O Construtor começou as obras das fortificações já no primeiro dia de inverno, e a noite aproveitou seu cavalo para transportar as pedras até a obra. Os Aesires ficaram assombrados com o enorme tamanho das pedras que o cavalo transportava, ele laborava duas vezes mais do que os já redobrados esforços do Construtor!

Testemunhas respeitáveis foram convocadas para formalizar a aposta que, além disso, havia sido consolidada sob muitos juramentos, pois o Construtor não considerava seguro estar entre osAesir sem um salvo-conduto[12], sobretudo se o intimidante Thor[13] estivesse presente, mas, naquele momento ele havia ido ao oriente para combater os Trolls[14].

Com o inverno chegando ao fim, às obras das fortificações haviam feito um bom progresso, era tão alta e forte que não poderia ser tomada de assalto. Quando faltavam apenas três dias para o verão, o trabalho havia quase alcançado os portões das fortificações.

Os Aesires logo tomaram seus assentos de assembleia e buscaram por uma saída, perguntaram-se uns aos outros quem havia dado tal conselho que lhes tomariam Freyja num casamento[15] e arruinariam os ares e o céu pela perda do Sol e da Lua[16] para um Construtorforasteiro. Todos concluíram que quem deu os maus conselhos fora Loki[17], ele havia inventado aquilo, eles então proferiram que Loki mereceria uma morte terrível se não arranjasse para que oConstrutor perdesse a aposta e consequentemente seu salário, e o ameaçaram violentamente. Lokientrou em pânico, no entanto, prometeu em juramento que, custasse o que custasse, ele iria arranjar as coisas de modo que o Construtor perderia a aposta.

Na mesma noite, quando o Construtor estava transportando pedras com seu cavaloSvadilfari, uma égua correu para fora da floresta até o garanhão relinchando e para ele. Quando o garanhão notou a tal fêmea, tornou-se frenético e rompendo suas rédeas, partiu no encalço da égua[18] que já havia rumado de volta à floresta, o Construtor por sua vez os perseguia. OConstrutor queria retomar o garanhão, mas os cavalos galoparam por toda a noite e o trabalho naquele turno havia sido então perdido.

No dia seguinte, à mesma porção de trabalho não havia sido feita como o de praxe. OConstrutor então concluiu que a obra não seria terminada a tempo entrando num colérico furor-de-gigante[19]. Quando os Aesires tomaram ciência de que era um Gigante-da-Montanha[20] que ali estava, não deram mais nenhum respeito aos seus juramentos e Thor foi convocado.

Thor chegou de pronto e imediatamente arremessou seu martelo Mjolnir[21]. Thor pagou aoConstrutor, não com o Sol ou a Lua, nem sequer o permitiu retornar a Terra-dos-Gigantes[22], pagou sim, com um único golpe na fronte de tal forma que seu crânio sacolejou em fragmentos e seus restos por fim, foram despachados para as profundezas das Terras-das-Brumas[23]...

CRUZANDO CONSTRUÇÕES


A Encenação da Lenda de Hiram

A compilação de Sagas[24] ou Eddas nórdicas chamadas Gylfaginning (A Visão de Gylfi) possivelmente traz a lenda em que figura o ofício da maçonaria operativa mais proeminentemente. De fato essa lenda apresenta alguns paralelismos com a própria Lenda de Hiram (e, portanto com oMartírio de St. Reinold) as coincidências não são muitas, entretanto, inegavelmente precisas nos seus detalhes. De alguma forma esta peça do folclore nórdico[25] veio a contribuir com elementos para a formação da Lenda de Hiram? Através da linhagem dos Sinclair talvez?

Apesar do cenário mítico exibido em Gylfaginning, o mesmo não é tão avesso às narrativas encontradas nos livros do antigo testamento e seus contemporâneos quais predominam elementos nosRitos Maçônicos. Antes do Dilúvio é narrado que a terra era habitada por raças como os Nefilins e osGiborins tal qual é visto no Gylfaginning com Aesires e Jotuns!

Em ambas as narrativas (A de Hiram e a do Construtor) são visto um Maçom Operativo que se põe a trabalhar numa construção divina (O Templo de Salomão e a Asgard) em terras estrangeiras (Israel e Godheim). Na Fenícia de onde Hiram era oriundo, o iniciado encenava o hiero gamos (ouCasamento Sagrado) com a sacerdotisa/divindade que regia vida, juventude, erotismo e fertilidade (Inana) tal qual era Freyja com a quem desejava casar-se o Construtor, além disso, ambas as divindades proviam cuidados a um jardim sagrado.

Freyja era associada ao planeja Vênus (como Inana) que forma a Estrela Flamígera Maçônica(Stella Pitagoris)[26], e que junto com o Sol e a Lua (os outros itens do salário do Construtor) são os 3 maiores luminares do firmamento e os astros mais proeminentemente retratados nas Lojas Maçônicas. No Cântico dos Cânticos, poema atribuído ao Rei Salomão (que conviveu com Hiram) ainda lemos “Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol(...)” uma possível analogia de Vênus (A Estrela D’Alva) com a Rainha de Sabah.

O Construtor requer o tempo mínimo de 3 estações para a conclusão da obra, tal qual em algumas Obediências Maçônicas o Aprendiz leva (minimamente) para completar sua obra em torna-seMestre, mas como prazo recebe o fim do inverno, passagem do ano dedicada a São João, o patrono daMaçonaria Especulativa.

No Martírio de St. Reinold, outra história extremamente semelhante à Lenda de Hiram, figura o ganharão mágico Bayard, também de potência quadriplicada (serve de montaria aos 4 Filhos de Aymon simultaneamente), que acaba fugindo para as florestas (em Ardennes) nos remetendo a Svadilfar.

Assim como o povo de Israel assombrou-se com os modos de trabalho no Templo, osAesires assombraram-se com os trabalhos em Asgard, e por isso, ambos os personagens sofrem um ardil, Hiram por seus Irmãos-Construtores (Jubelas, Jubelos e Jubelum) e oConstrutor por seu Irmão-Jotun (Loki). Os Aesires envolvidos na narrativa são 3 e aludem aHiram e os três companheiros que o assassinaram, que são correspondentes aos três signos do inverno Libra, Escorpião e Sagitário (Jubelas, Jubelos e Jubelum), assassinos do Sol(luminar gigante do firmamento) e de Hiram.

Por fim os personagens são assassinados por uma martelada na fronte (Malhete e Mjolnir) e tem seus corpos despachados (enterrado sob a Acácia e sob as profundezas de Niflheim).

Bem, se os Gigantes não fossem figuras normalmente (mas não sempre) antagônicas nas antigas literaturas europeias, não seria surpresa que a história continuasse com a busca do corpo doConstrutor por seus associados...


Thor destrói o Gigante

DA SAGA AO RITO

É importante notar que os personagens dos gigantes nem sempre figuravam como vilões e que se pensava na época que eles fossem os autores das construções megalíticas como Ggantija a "Torre dos Gigantes" e Stonehenge, referido em escritos medievais como "Dança dos Gigantes". Por sinal tais construções megalíticas normalmente eram orientadas a observação de Vênus (Freyja) a Lua e Sol o que inaugurou a era das construções associadas aos Mistérios.

O Livro de Enoch, um texto apócrifo que foi trazido primeiramente ao ocidente por um Maçom e posteriormente também encontrado em Qumran nos traz o personagem bíblico de Enoch(personagem proeminente nos Graus Filosóficos da Maçonaria). Este livro narra como alguns Elohim(um grupo de divindades) se renegaram e passaram coabitar com as filhas dos homens, de suas relações nasceram os Gigantes. Azazyel os ensinou a fabricarem ferramentas, Barkayal a observarem as estrelas, Tamiel a astronomia e Asaradel o movimento da lua. Posteriormente os Gigantes acabam dominando a Terra, mas são combatidos e vencidos por outros Elohim.

Por sua vez, Irlanda e Escócia possuíam lendas semelhantes, os Tuatha Dé Danann combatiam os Gigantes Fomorians. Dagda um dos principais Tuatha controlava os elementos e carregava um martelo que podia matar num único golpe. Curiosamente o termo “Tuatha Dé” também era empregado para se referir aos israelitas em textos irlandeses do início da era cristã.

Os Sinclair como os Maçons Operativos que eram, poderiam muito bem ter tido contato com todas estas narrativas que podiam ter tomado outros usos e conotações devido à predileção dos maçons aos elementos que os melhor os servissem para seus ritos cotidianos. Por fim poderiam ter trazido à lenda do Construtor de Orkney e posteriormente e a agregado as Tradições Maçônicas da época. Em dado momento diversos elementos das Tradições foram selecionados para ajudar a preencher as “lacunas” do que é narrado em Crônicas e Reis sobre a construção do Templo de Salomãoe da trajetória de Hiram.
De qualquer forma, o Construtor assim como Hiram, através de Alegoria e Mistério deu importantes lições com sua morte pelas mãos Aesires:

I. Não devemos omitir ou ocultar sobre quem e o que somos;
II. Não devemos distrair de onde e com quem estamos e relacionamos;
III. Não devemos cobiçar pelo que é alheio, e por fim;
IV. Não devemos ceder a vícios ou paixões tal como a fúria.

Autoria de Tiago Roblêdo M\ M\
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REFERÊNCIAS




Grau dos Mestre Eleito dos Nove, Jorge Adoum
A Linhagem Do Santo Graal, Laurence Gardner
O Livro de Hiram, Christopher Knight e Robert Lomas
A Máquina de Uriel, Christopher Knight e Robert Lomas
A.S.Franchini, Carmen Seganfredo, As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica


[1] Ainda Æsir ou Ases, segundo a mitologia nórdica, é um clã divino que residia em Asgard (em nórdico arcaico Ásgarðr).
[2] Midgard (em nórdico arcaico Miðgarðr) é o nome do reino dos humanos na mitologia nórdica, correspondendo a Terra como então era conhecida.
[3] Valhala, Valíala, Valhalla ou Walhala (em nórdico arcaico Valhöll) o "Salão dos Mortos", é um majestoso e enorme salão situado em Godheim, dominado pelo Aesir Odin. Escolhidos por Odin, os que faleciam em combate eram levados para Valhalla após a morte pelas Valquírias.
[4] Em algumas vezes é traduzido como “pedreiro”, em versões desta estória sua identidade é conhecida de início pelos Aesires, em outras é revelada apenas ao fim desta Saga.
[5] O tema constante do passar das estações refletem a cultura pagã da época e o caráter cíclico de suas lendas.
[6] Traduzida ainda em algumas versões como “murro” ou “cidadela”, poderia ser uma referência à construção da cidade divina de Asgard em Godheim, a “Terra-dos-Deuses” ou a reconstrução da mesma ou de suas fortificações (muros) após conflitos com a raça dos Vanires que habitavam Vanaheim.
[7] Os Jotuns são uma raça mitológica nórdica de gigantes que oriunda de Jotunheim, um dos nove mundos da cosmologia nórdica.
[8] Freyja (às vezes retratada como Vanir, outra raça mitológica nórdica) regia a vida, juventude, erotismo e fertilidade, cuidava do jardim sagrado onde brotavam as maçãs a juventude, graças às quais os Aesires permaneciam sempre jovens e saudáveis.
[9] A moral nórdica em muito difere das morais grega e judaico-cristã que permeiam a contemporaneidade, ao invés de benevolência e retidão, as virtudes valorizadas eram a coragem e sagacidade.
[10] Na mitologia nórdica Svadilfari (em nórdico arcaico Svaðilfari) que significa "Infeliz Viajante" ou ainda “Servo” era um cavalo mágico de força e vigor descomunais.
[11] Ainda Loke ou Lothur é um gigante da mitologia nórdica que foi adotado como filho por Odin e vivia entre os Aesires. Regia a trapaça e a travessura, também estava relacionado à magia e podia assumir a forma que quisesse. É frequentemente considerado um símbolo da maldade, traiçoeiro, de pouca confiança. Embora suas artimanhas geralmente causem problemas aos Aesires em curto prazo, estes frequentemente se beneficiam ao fim das travessuras de Loki.
[12] Esse receio da proximidade aos Aesires sugere que o construtor omitia sua naturalidade de Jotunheim temendo algum tipo de represaria.
[13] Na mitologia nórdica Thor (em nórdico arcaico Þórr) é o Aesir que regia os trovões, relâmpagos, tempestades e força.
[14] Troll é uma criatura da mitologia nórdica descrita desde tamanhos gigantes a diminutos e dizia-se que vivia em cavernas ou grutas subterrâneas também lhes foram atribuídas outras características, como a transformação em pedra caso expostos à luz solar.
[15] Se as intenções do Construtor era tomar Freyja para privar os Aesires das maçãs que lhe proviam imortalidade ou simplesmente por sua beleza inigualável o texto não deixa claro, de todo caso, a possibilidade certamente deixou os Aesires fortemente preocupados.
[16] O Sol e a Lua de alguma forma parecem contribuir para o equilíbrio e manutenção do firmamento.
[17] Loki frequentemente figurava nas narrativas da mitologia nórdica em situações na qual recorria a tramas e trapaças que acabavam por deixá-lo enrascado.
[18] Tal égua era o próprio Loki transformado que sabotava o trabalho do Construtor para salvar-se da punição ameaçada pelos Aesires. Loki possuía o dom da mudança de forma o que constantemente é visto nas narrativas que descrevem suas (des) venturas. De fato, o mesmo era oriundo da raça dos gigantes de Jotunheim, mas se passava normalmente como um Aesir.
[19] Os nórdicos possuíam um conceito chamado de “Berserker”, era um estado de furor mental que normalmente era entrado em combate a fim de potencializar as investidas dos guerreiros.
[20] Ao entrar em “berserker” o Construtor por descuido acaba revelando sua naturalidade omitida que até então permanecia ignorada aos Aesires que execravam aos Gigantes ou Jotuns.
[21] Na mitologia nórdica o Mjolnir (em nórdico arcaico Mjölnir) significa “Aquilo que Esmaga” é o martelo de Thor forjado a partir do material mágico chamado Uru, a arma estava associada ao controle de elementos como o raio e do trovão.
[22] Na mitologia nórdica Jotunheim (em nórdico arcaico Jötunheim) é o reino das raças de gigantes coletivamente chamados de Jotuns. O próprio Construtor como Loki também era um Jotun e aparentemente também tinha a capacidade para se “camuflar” entre os Aesires até então.
[23] Niflheim ou "Reino das Brumas" é o reino do gelo e do frio na mitologia nórdica, lá residem às almas daqueles que não morreram em batalhas, Niflheim é governada pela rainha do inferno Hela.
[24] Na literatura, o termo Saga ou Edda refere-se a histórias narradas em prosas originárias dos países nórdicos na mediavalidade. Estas Sagas, geralmente anônimas, misturam aspectos históricos com mitologia, religião e moral.
[25] Parra se ter noção da influência nórdica no pensamento inglês, até hoje os nomes usados para designar os dias da semana nessa língua foram escolhidos em honra a divindades nórdicas.
[26] Estrela Flamígera ou Stella Pitagoris seria uma Estrela Filosofal (tal qual a Pedra Filosofal) que materialmente estaria associada à conjunção de Vênus e Mercúrio formando aparentemente um único astro noturno de brilho ímpar que por sua vez estaria correlacionado a Shekhinah bíblica.


LENDA DE NEFERHOTEP: O Assassínio do Amado Mestre


"-Dei uma morada da eternidade àquele que não tinha um filho...
- O Livro Egípcio dos Mortos"

APRESENTAÇÃO



Em face da estreita relação das Tradições Maçônicas com a temática egípcia (principalmente após a campanha napoleônica), naturalmente surgiram algumas pesquisa a fim de encontrar correlações entre esses campos. O Egito comumente figurava nas Escrituras Sagradas que tão fortemente influenciaram os ritos maçônicos, berço de muitos mistérios na antiguidade como o de Osíris, Isis e Hórus que muitos autores apontam como alicerce simbólicod’A Lenda de Hiram, além de ser canteiro para algumas das mais magnificentes obras da antiguidade.Dada à óbvia excelência técnica no ofício da construção e a notória importância religiosa das edificações sagradas para aquele povo, Ofício da Construção ou da Maçonaria Operativa deve ter assumido papel um tanto proeminente naquela sociedade. Junto a essa proeminência, viria um quinhão de registro para a posteridade, os quais os estudiosos maçônicos passaram se ater (como Robert Lomas e Christopher Knight em A Chave de Hiram) e onde foi encontrada certa narrativa um tanto familiar...

NEFERHOTEP


Um papiro datado da época do reinado do faraó Seti II[1], narra as atribulações e conflitos ocorridos em um grupo de construtores do Vale dos Artesões no antigo Egito. Nesta narrativa, Neferhotep[2], um dos dois capatazes[3] das construções da necrópole[4] de Deir el Medina[5], acaba sendo sobrepujado por seu conturbado filho adotivo[6] denominadoPaneb que cobiçava seu cargo.

Paneb era filho de um artesão de um povoado próximo, Nefersenet, mas foi adotado por Neferhotep, um dos chefes principais da localidade, isto é, o capataz de uma das duas equipes que se ocupavam dos trabalhos nas tumbas reais. Neferhotep e sua esposa Uabkhetnão tiveram filhos, por isso, além de adotar Paneb, o matrimoniaram com Uabet, parente próxima do outro capataz, Hay, a fim de darem continuidade a sua linhagem.

Neferhotep foi um proeminente capataz, descendente de uma notória linhagem de mestres construtores que muito já prestavam serviços no Vale dos Artesões para diversas dinastias faraônicas. Como a maioria dos construtores operativos em Deir el Medina, Neferhotep era versado na construção de edificações sagradas como templos e sepulcros.

O cargo de capataz concedido a Neferhotep lhe foi herdado de seu pai, Nebnefer(também um chefe construtor), e lhe atribuía grande prestígio na comunidade local, além de lhe render certa soma de ganhos e terras pelos qual matinha sua estrutura familiar. Era ainda prerrogativa do capataz, escolher seus serventes e obreiros e comumente membros da família como irmãos e filhos eram empregados.
Dada às circunstâncias controversas da morte de Neferhotep, seu filho Paneb e seu irmão mais novo Amennakhte passaram a disputar sua sucessão no cargo de capataz além de todas as suas prerrogativas e prestígio.

Posteriormente diversas transgressões seriam imputadas a Paneb[7] por Amennakhte no litígio pela sucessão de Neferhotep em uma acusação agressivamente composta que ainda se encontra preservada num papiro mantido pelo British Museum.

Paneb apesar de como Neferhotep ter sido um artesão talentoso e chegado a ser um capataz eficiente (desconsiderando os meios para tal), exigente quanto à qualidade do trabalho dos que liderava na tumba real, entretanto foi, um dos poucos personagens do antigoEgito de que se pode identificar várias características próprias. Características específicas, individuais e indubitavelmente más, era dado à embriaguez, colérico, mulherengo e desmedido em atitudes violentas.

O FILHO RUFIÃO



Paneb apesar da instrução e condição que possuía, supostamente roubava tudo o que via em seu caminho, desde vinho para as libações, a peças de carruagem e blocos de pedra de qualidade, tudo...
Seu tio adotivo Amennakhte o acusou ter desviado utensílios da tumba real para uso em seu próprio sepulcro, até mesmo as ferramentas que ele teria empregado na obra de sua tumba seriam de propriedade real. Em outro ponto, para custear outros utensílios para sua tumba, ele teria roubado "dois grandes livros " de um certo Paherbeku.

Paneb ainda “empregou homens para cortar pedras no telhado da construção do Rei Seti II, que roubavam todos os dias pedras para sua própria tumba...”. Ele não teria pudor nem mesmo de saquear o tumba de um subordinado, "ele desceu a tumba do trabalhador Nachtmin, e roubou o assento em que jazia. Ele também afanou vários objetos, que geralmente seriam presenteados ao morto". Foi-lhe imputado ainda de ter se apoderado de pedras do hipogeu real para fabricar colunas para seu sepulcro, bem como de ter roubado peças da mobília funerária de outra das tumbas da necrópole de Deir el Medina.

Ele também foi acusado de extorsões de todos os tipos, especialmente no que se referia a seus operários e as esposas e filhas destes. Teria sido denunciado por Amennakhte de forçar artesãos da tumba a trabalhar em sua própria mobília funerária e em objetos que ele mesmo deveria ter produzido, além de os fazerem alimentar o seu gado e com que suas esposas tecessem em seu benefício. Ele continuamente usufruía de seus operários para fins pessoais, certa vez até comissionou a mão-de-obra a um oficial do templo de Amon que necessitava de trabalhadores de campo. Estas alegações são parcialmente confirmadas por registros das presenças e ausências dos artesãos no trabalho da tumba real, mas num contexto em que não se aparenta considerar abusivas tais ações, dentro de certos limites, até seria permissível que o capataz usasse ocasionalmente em seu próprio proveito a mão-de-obra local.

O FILHO INIMIGO

Quando Neferhotep ainda era vivo, Paneb o tratava imprevisivelmente, indo da veneração explicitada numa inscrição informal, ao conflito aberto e ao desrespeito, chegando até mesmo a ameaçá-lo fisicamente em certa ocasião, prometendo matá-lo. Ele ainda cometeu um atentado contra sua vida, “E aconteceu que correu atrás do chefe operário Neferhotep... as portas se fecharam contra ele, mas utilizando-se de uma pedra as quebrou, eles então convocaram pessoas para proteger Neferhotep, pois Paneb havia dito que iria matá-lo durante a noite. Naquela mesma noite ele havia açoitado nove pessoas, e o chefe operário Neferhotep o denunciou ao vizir Amenmose que o puniu”. Em outra ocasião, quando já se tornara capataz, também entrou em conflito com o capataz da outra equipe, Hay(parente de sua esposa) ameaçando matá-lo no deserto.

Neferhotep tinha se queixado dos ataques de Paneb sobre si mesmo para o vizirAmenmose, quando então este o puniu. Paneb então trouxe a queixa ante a Mose, que atuou para dispensar Amenmose de seu cargo. Evidentemente, este Mose deve ter sido uma pessoa da mais alta importância,[8] talvez o rei Amenmesse em pessoa ou algum aliado de alto escalão.

Neferhotep então foi obscuramente morto por algum “Inimigo”[9]. Seja qual for à verdade por traz deste episódio, Tebas de fato estava passando por momentos muito difíceis. Há referências em outros registros de "conflitos" que ocorreram durante aquele período, mas ainda assim é inconclusivo[10] para o que esta palavra faz alusão, talvez para não mais que algumas perturbações internas ou algum descontentamento popular.

Contudo, apesar de ter sido criado por Neferhotep, e por ele ter sido iniciado no ofício da construção, Paneb já havia anteriormente atentado contra Neferhotep[11] e por isso era o suspeito mais óbvio de seu assassínio. Como motivos, além de todo o histórico de brigas, haveria a herança de bens, e talvez o mais importante, o cargo de capataz ocupado porNeferhotep do qual Paneb seria o sucessor mais lógico face seu parentesco e habilidade.

Num dos episódios de suas desavenças com a família de Neferhotep, já depois da morte deste, Paneb tratou de negar acesso aos membros dessa família à tumba[12] deNeferhotep para levar as oferendas destinadas às práticas funerárias, para tal chegou até a apedrejá-los. A hostilidade entre Paneb e os coligados de Neferhotep chegou a dividir o povoado em duas facções, uma apoiando tal grupo, a outra, Paneb. Isto dá subsídio a explicar o ódio tão implacável quanto o que lhe devotou durante décadas Amennakhte.

Uma das acusações posteriores de Amennakhte foi à de Panebter subornado o atual vizir Paraemhab, presenteando-o com cinco escravos para que o magistrado o nomeassecapataz. Entretanto, Amennakhte conseguiu, afinal de contas, pôr fim à carreira de seu odiado sobrinho adotivo, quando uma das acusações que lhe dirigiu (que chegaram até mesmo a incluir a alegação de haver Paneb assassinado alguns homens que se preparavam para denunciá-lo ao vizir e de ter roubado um item dos utensílios funerários de uma das esposas de Ramsés II) foi confirmada, um objeto roubado da realeza foi (a estatueta de um ganso) encontrado na casa do capataz. Paneb desapareceu desde então dos registros locais, provavelmente foi condenado e executado por sua falta de retidão...


ORIGEM DA LENDA?


Uma narrativa onde um Companheiro de Ofício trama o assassínio do seu Chefe Construtor por ambição é imediatamente reconhecível (na acepção maçônica do termo) por qualquer Mestre Maçom. Paneb desejava as prorrogativas Cargo de Capataz como os três rufiões Jubelas, Jubelos e Jubelum[13] desejavam as prerrogativas do Grau de Mestre e por isso acabariam por assassinar seu Chefe Construtor.

A estrutura da própria sociedade de operários no Vale dos Artesões em que sob as ordens de um Vizir, dois Capatazes dirigem 2 equipes de obreiros remete-nos ao Venerável Mestre que rege aos Vigilantes que por sua vez dirigem suas Colunas.

O título completo de um trabalhador da necrópole real na XVIII dinastia era "Servidor no Grande Lugar", ou, "Servidor no Belo lugar do Poderoso Rei". No período raméssida (XIX e XX dinastias) eles eram chamados de "Servidores no Lugar da Verdade". Os trabalhadores eram conhecidos coletivamente como "homens da equipe", que derivava do termo usado para as equipes em um navio, a Maçonaria Especulativa também empresta como origem alegórica um navio, mas especificamente a Arca de Noé[14]. Como numa tripulação egípcia de navio, a equipe era dividida em dois lados, direito e esquerdo tais quais as Colunas da Loja Maçônica.

O grupo de obreiros era dirigido por 2 Capatazes, um para cada equipe como há umaVigilante para cada das 2 Colunas. O capataz era conhecido como “Chefe da equipe no Local da Verdade” e ter 2 capatazes prevenia a concentração de poder nas mãos de uma só pessoa na obra. Eles na prática eram indicados pelo Vizir como os Vigilantes o são peloVenerável Mestre. Paneb tinha algum interesse especial Colunas, já que teria se ariscado para a instalação das mesmas na sua própria construção, essas peças de arquiteturas são as de maior destaque nas alegorias da Maçonaria Especulativa.

Hiram laborava no "Lugar de JHVH", Neferhotep laborava no "Lugar de MAAT"[15]. Ambos os construtores se encontravam sob as ordens e tarefas reais na construção de edificações sagradas o que lhes rendeu inveja por parte de Companheiros de Ofício que cobiçavam seu status.

Ambos os chefes construtores teriam tido assassínios obscuros, seus coligados inicialmente não sabiam concretamente quem havia perpetrado tal crime. É lhes tomada também à oportunidade de se prestar os corretos ritos fúnebres ao morto de imediato, mas posteriormente seus coligados lhe fazem as honrarias devidas.

Os Companheiros de Ofício traidores já eram conhecidos pelo seu mau comportamento, após certo esforço, seus crimes são descobertos e acabam por serem executados por seu sacrilégio assim como Paneb.

Por fim, tal como Hiram, Neferhotep era homônimo a um rei e, além disso, Hiram era intitulado de "Abiff" que significa "Seu pai", tal qual era a relação de Neferhotep com Paneb.Hiram teve seu legado simbolicamente continuado por Adoniram que assumiu este nome em homenagem ao seu Mestre assim como Hesysunebef possuía tal nome em homenagem ao seuMestre Neferhotep[16]...

CONCLUSÃO

É visível que existem pontos coincidentes entre a narrativa de Neferhotep e a Lenda de Hiram, outras lendas também relacionadas ao ofício da construção também apresentam certa similitude apontando talvez, uma fonte em comum da qual afluente talvez tenha sido utilizado pelos elaboradores do ciclo hirâmico no surgimento da Maçonaria Moderna.

Neferhotep em face sua antiguidade parece um forte candidato a inspiração primária a Lenda de Hiram, seu fim trágico de tão excelente Mestre justamente por seu desvirtuado filho, deve ter marcado fortemente o imaginário dos artesãos da época, estes que habitavam e laboravam talvez o maior canteiro de obra de época.

Se tal narrativa sobreviveu além do Papiro Salt 124 numa via oral ou mesmo clandestina até a época da fundação da Maçonaria Moderna, permanecerá um mistério. O fato é que a beleza da tumba de Neferhotep evidência sua importância para seus contemporâneos e à preservação de sua história como a de outras da espécie serve para advertir-nos sobre o mau que pode habitar no coração dos homens (mesmo aos que nos são próximos).

De qualquer forma, o exemplo de excelência de Neferhotep instruí-nos a sermos solidários, firmes no que acreditamos ser o correto, porém, que cautela nunca será demais. Se esse exemplo foi preservado através de um véu chamado Hiram Abiff, certamente deu a este antigo e excelente chefe construtor uma morada da eternidade na memória de todos os maçons espalhados pela face da Terra... 


Autoria de Tiago Roblêdo M\ M\
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HIRAM: O Filho de Hórus




"As pirâmides que novamente construíste não me parecem novas, nem estranhas, apenas as mesmas com novas vestimentas."
- William Shakespeare


APRESENTAÇÃO

A presença de elementos israelitas na Tradição Maçônica é inegável, a começar pela própria Lenda de Hiram Abif que no cerne da Maçonaria Especulativa Moderna figura como elemento principal na ritualística do Mestre Maçom. Entretanto mesmo que parcialmente estaLenda teria alguma validade histórica?

Ora, as Sagradas Escrituras são antes de tudo textos teológicos e não prioritariamente registros históricos, e como tais, a sabedoria alegórica deve prevalecer sobre o rigor histórico. De fato, exceto por si mesmas, as Sagradas Escrituras carecem de fontes outras que corroborem suas narrativas.

Dada essa carência, mesmo desconsiderando os elementos fantásticos das Escrituras,muitos pesquisadores modernos passaram a questionar a validade histórica do que ali estava registrado. Mas se tais narrativas são de todo inválidas historicamente, o que de dizer se seu maior vestígio ou evidência; o próprio povo israelita? 

Levando em conta esse vestígio ou evidência inegável, uma nova corrente passou a circular numa tentativa de conciliar a história por assim dizer profana e as narrativas bíblicas. AsSagradas Escrituras seriam consideradas ao menos parcialmente válidas, porém, acompanhadas de certo “ruído histórico” que poderia ser no mínimo relevado com apoio de fontes ulteriores.

Com a óbvia proximidade tanto histórica quanto geográfica dos povos israelitas e egípcios os últimos seriam um ideal ponto de partida, e tal iniciativa rendeu frutos. Autores como Ralph Ellis, Robert Lomas e Laurence Gardner guardada as devidas proporções, sugerem que não somente a histórica israelita pode ser suportada com a história egípcia como na realidade seria diferentes versões da mesma história!

Essa corrente estipula que boa parte da história hoje considerada israelita se deu na verdade em contexto egípcio e que seus personagens seriam na verdade figuras da história daquele país. Partindo desse pressuposto, Hiram Abif poderia ser encontrado nos anais da história egípcia?

Ralph Ellis na obra “As Chaves de Salomão, O Falcão de Sabá” discorre sobre essa hipótese, tomando o faraó Sheshonq I como a real identidade do Rei Salomão (fato que se guardado dará luz a mais na questão hirâmica que será abordada) e traça paralelos entre seu mestre construtor e Hiram Abif. Seu capítulo dedicado a esse mestre construtor fundamenta o alicerce dessa peça.

HAREMSAF

Embora uma presumida origem histórica para a Lenda de Hiram Abif seja incerta, o nome do mestre construtor trabalhou para o faraó Sheshonq I no Templo de Karnac pode dar algumas evidências a respeito. Os textos históricos, tirados da pedreira Silsileh, dizem:

Sua majestade decretou que o comando fosse dado à casa de Harakhte, chefe das obras do Senhor das Duas Terras, Haremsaf, triunfante para conduzir cada trabalho (...) a mais seleta (pedra?) de Silsileh, para fazer grandes monumentos para a casa de seu pai, Ammon-Re, senhor de Tebas. Retornaram a salvo para o sul da cidade de (Tebas), para o lugar onde sua majestade estava, o... chefe de obras na Casa de Kheperhezre Setepenre (Sheshonq I) em Tebas... Haremsaf, triunfante. Ele disse: “Todos vós que dissestes que aconteceu, O meu bom Senhor; nem descansando a noite, nem descansando ao dia, mas construindo a eterna obra sem cessar”.

É possível notar que mestre construtor e engenheiro de Sheshonq I, que trabalhou no projeto de Karnac, foi um homem chamado Haremsaf (ou Hiramsaf)[1]. Mas de que maneira o nome Haremsaf daria qualquer evidencia para uma possível origem histórica para Hiram Abif? A resposta para essa questão poderia ser encontrada na Bíblia, especificamente nas narrativas sobre o mestre construtor que trabalhou para o Rei Salomão. O que a Bíblia fala a respeito deste homem é:

E o Rei Salomão enviou e foi buscar Hiram fora de Tiro. Ele era filho de uma viúva da tribo de Nephtali e seu pai era um homem de Tiro, um trabalhador do metal: e ele foi preenchido com a sabedoria, conhecimento e sagacidade para o labor de todos os trabalhos em metal, foi até o Rei Salomão, e fez todo sua obra. Para ele lançar duas colunas de metal...

Então o arquiteto bíblico do Templo de Salomão foi chamado de Hiram(Abif), enquanto o arquiteto histórico do Templo de Sheshonq I foi chamado de Hiram(saf). Paralelamente, ambos os arquitetos supervisionaram a construção de templos, foram comissionados por monarcas e tiveram o mesmo nome tanto no relato egípcio quanto no bíblico. A única discrepância é que a Bíblia diz que Hiram(Abif) veio da cidade de Tiro noLíbano, enquanto Hiram(saf) mais razoavelmente teria vindo do Alto Egito.

Deve-se notar, contudo, que realmente havia dois Hirans na Bíblia: um seria o rei de Tirono Líbano, enquanto o outro era o mestre construtor, que acabara de chegar da mesma origem que o rei. A razão para essa confusão de nomes e cidades talvez esteja baseada em sua tradução e no fato de que esses dois indivíduos chamados Hiram pudessem ser, na verdade, parentes.

O nome Harem (Hiram) foi um título real/sacerdotal no Egito, utilizado pelo faraóHaremheb e também por Haremkhet, o sumo sacerdote, e o filho do faraó da 25ª dinastia,Shebitku. Nesse caso, é mais que provável que Hiram de Tiro tenha originalmente vindo doEgito; então por que a Bíblia acredita que o arquiteto chefe do Rei Salomão, Hiram, veio doLíbano?

O Rei Salomão estava negociando com o Rei Hiram de Tiro a exportação da madeira de cedro para Israel. Contudo, quando a construção do Templo de Jerusalém começou, foi outro Hiram de Tiro, que era especialista em metalurgia e versado na arquitetura que supervisionou sua construção. Para tornar esses laços, acerca da existência de duas pessoas que foram chamadas de Hiram mais claros, o teólogo Adam Clarke, fala a respeito do arquiteto de Tiro que se chamava Hiram:

Este (Hiram) não foi o rei Tironiano anteriormente mencionado, mas sim um caldeireiro (trabalhador do cobre) muito inteligente, de origem judia por parte de mãe, que provavelmente foi casada com um Tironiano.

O herói da lenda maçônica é chamado Hiram(Abiff) como assim o Hiram da Bíbliatambém foi chamado de Abif (Atif). A evidência para essa declaração vem de outra variante da Bíblia no livro de Crônicas:

E agora eu enviei um homem habilidoso, dotado do conhecimento de Huram (Hiram) do meu pai. O filho de uma das mulheres das filhas de Dan, e seu pai foi um homem de Tiro, hábil para trabalhar no ouro, na prata e no bronze.

Hiram o arquiteto chefe de Salomão, que construiu as grandes colunas do Templo de Jerusalém, é mencionado na Bíblia no livro de Crônicas, que geralmente emparelha bem com o livro de Reis, mas esses textos têm sido reproduzidos em versões diversas, nas quais existem diferentes detalhes entre os dois.

A referência a Hiram é bom exemplo de tais diferenças, a ortografia de Hiram paraHuram não seria exatamente um problema, embora o livro de Crônicas chame ambos, o rei deTiro e o arquiteto de Tiro, de Huram. Mas embora o versículo em Crônicas seja quase o mesmo que a versão de Reis, a primeira linha é um pouco ambígua; o que significa “do meu pai”? Do meu pai exatamente o quê? A questão é; essa sentença revisada foi equívoca ou guarda um entendimento mais profundo do texto? O texto acima foi trazido da Bíblia do rei James, mas aBíblia RSV observou a inconsistência no significado dessa sentença ajustando-a para:


E agora eu enviei um homem habilidoso, dotado de conhecimento, Huramabi.

A Bíblia RSV empregou a palavra hebraica abi, que significa “de meu pai” ao final do nome Hiram, resultando em Huram-abi (Hiram-abi). Então o nome correto para essa pessoa seria Hiram-abi, mas a frase ao invés de ser traduzida como “de meu pai Hiram”', poderia ser formulada como “Hiram é meu pai”. Essa primeira parte da evidência a favor dessa nova tradução vem do nome egípcio para o arquiteto chefe de Sheshonq I, que foi chamado deHaremsaf. Os três elementos desse nome são “Heru” ou “Hira” (o deus falcão, Hórus), “m” (como, de, é) e “f” ou Atif (pai)[2].

O nome resultante deste mestre construtor, na linguagem egípcia, também foi pronunciado como Hiram-f ou Hiram Atif. Como pode ser notado, o significado (e a ortografia) desse nome é aproximadamente o mesmo em ambas as linguagens, hebraica e egípcia:


Hebraico 
Egípcio

Hiram Abif 
Hiram Atif

Hiram é meu pai 
Hiram é meu pai

A tradução tradicional do nome egípcio Hiram saf, em vez de Hiram Atif, tem o significado ainda mais parecido com aquele que já foi dado. Do único glifo “f”, os historiadores preferiram deduzir como uma forma abreviada da palavra saf ou invés de uma abreviação deAtif, a palavra saf, por sua vez, significa “menino”, que é um sufixo para muitos nomes egípcios. O nome clássico resultante para este mestre construtor significaria então “menino de Hiram” ou “o filho de Hiram”. É desnecessário dizer que os títulos Hiram- saf, que significa “o filho de Hiram” e Hiram Atif, que significa “Hiram é meu pai”, no fim das contas significam a mesma coisa.

Esse mesmo tipo de sufixo foi usado nos nomes Osarseph (Osiris-saf) e Peteseph (Ptah-saf) nas palavras de Manetho[3], indivíduos que foram identificados como sendo os patriarcas bíblicos Moisés e José, respectivamente. Em cada caso, o título levou o prefixo do nome de um deus, Osíris ou Ptah, de forma que os títulos desses patriarcas bíblicos foram “Filho de Osíris” e “Filho de Ptah”, respectivamente.

Ambas as versões egípcia e bíblica do nome Hiram foram seguidas nessa mesma tradição, e o título real desse arquiteto chefe de Tebas (ou Tiro?) foi Hira-m-Atif (Hiru-m-Atif), que significa “Hórus é meu pai” ou até “Filho de Hórus”. As tradições maçônicas dessa época parecem ter traduzido à palavra egípcia Atif, que significa “pai” para o correlato “Abif”, presumivelmente a pronúncia hebraica para a palavra “pai”' (abi) representou um ponto importante nesta escolha.

Tendo feito isso, contudo, essas mesmas tradições maçônicas de alguma maneira conseguiram manter o glifo egípcio de víbora “f”, e assim substancialmente preservaram as ortografia e pronúncia originais da palavra egípcia Atif, os elementos do nome ficariam assim dispostos:


Significado real 
Egípcio 
Hebraico 
Maçônico

Hórus 
Hiru 
Hira 
Hira

É 
M 
M 
M

(meu) pai 
Atif 
Abi 
Abiff



A versão bíblica desse mesmo nome foi traduzida novamente como “Hiram é meu pai”, com o significado exato da palavra Hiram perdido em algum lugar na tradução. Essa confluência tanto na pronúncia como no significado poderia demonstrar que o arquiteto bíblico chamado Hiram teria uma herança egípcia e então, mais uma vez, esses dois arquitetos chamados Hiram deveriam ser considerados como sendo a mesma pessoa.

A PEDRA

A discrepância restante que permaneceria entre o Hiram Atif bíblico e o egípcio é que a Bíblia diz que ele veio de Tiro, no Líbano, e o monólito de Silsileh deduz sua origem do Alto Egito. A resposta para esse pequeno problema foi dada por Heródoto, que menciona que, nessa época, os habitantes de Tiro tiveram uma grande presença na cidade de Mênfis, que está localizada exatamente ao sul de Giza. Os faraós que Heródoto menciona são Pheron eProteus, a quem ele insere entre Seti e Ramsés. Algo pertinente à questão ocorreu na época do faraó chamado Pheron, que foi o primeiro na lista dos faraós da Bíblia nessa época.Heródoto diz:

Há uma circunscrição (templo) sagrada deste faraó em Mênfis, que é muito bela, ricamente adornada, situada ao sul do grande templo de Hephaestus. Fenícios da cidade de Tiro habitavam toda a circunscrição, e o lugar todo é conhecido pelo nome “Campo dos Tironianos”.

No Novo Testamento, um número de indivíduos notáveis, de Pedro a Jesus, foi conhecido como “rochas” ou “pedras”. De maneira semelhante, a referência aqui à cidade de Tiro pode não ter nada a ver com a cidade de Levante[4] e tudo a ver com pedras. A razão para isso é que o nome hebraico para a cidade de Tiro é Tsor que também significa “rocha” ou “pedra”'.

Como Gibraltar, Tiro também foi conhecida como a “Rocha”, “O campo dos Tironianos” seria nada mais do que uma alusão à localização do arquiteto e então essa passagem está simplesmente dizendo que um grupo com expedientes maçônicos habitavaMênfis nesta época.

Contudo, esse grupo de pessoas não era simplesmente de sacerdotes e administradores. Os arquitetos esotéricos da época eram igualmente habilidosos e úteis no mundo real da manufatura e construção, porque eles guardavam dentro de seu coeso grupo, os segredos da astronomia, da alquimia, da geometria e da matemática. Em cada caso, não surpreende que um dos mestres de posição mais elevada dessa época também guardava a profissão de um arquiteto secular e era um habilidoso caldeireiro, capaz de modelar as colunas de bronze Jaquim e Boaz.

Visto que a palavra hebraica Tiro (tsor) significa “rocha”, a “cidade de Tiro”, de onde se supõe que Hiram Atif seria oriundo, possivelmente não tem nada a ver com a cidade de Tiro noLíbano e sim com a pedreira na qual esse arquiteto trabalhou. Quando a Bíblia diz que “o pai de Hiram foi um homem de Tiro”, isso realmente significa que “o pai de Hiram foi um minerador”. Igualmente, quando os textos bíblicos indicam que “o Rei Salomão levou Hiram para fora de Tiro”, poderia ser interpretado como “o Rei Salomão tirou Hiram das minas”. Isto faria perfeito sentido para um arquiteto cujo principal material de trabalho era pedra e cujos registros e genealogia ainda estão preservados nas pedreiras (ou minas) do Alto Egito.

De fato, deve ter havido outro motivo para o equívoco nesse registro histórico, porque, embora a cidade de Tiro no Líbano fosse conhecida em hebraico como Tsor, em egípcio foi na verdade conhecida como Tchar. Mas houve outra cidade que foi igualmente famosa nessa época, e esta era Thar, que foi o nome para a cidade de Tânis, a capital original da 21ª dinastia. De fato, não era incomum que seus glifos fossem confundidos e se tornassem permutáveis, então havia muito espaço para alguma confusão, premeditadamente ou não, entre esses dois nomes e essas duas cidades. De fato, a última tradução hebraica da palavratsor (Tiro) como “rocha” pode muito bem ter sido derivada da palavra egípcia thar, que significa “castelo” ou “fortaleza”. Tânis foi, por necessidade, uma fortaleza e, sem dúvida, cidades-fortaleza como Tiro usaram o mesmo título.

Embora a cidade ilha de Tiro seja uma realidade histórica, não há evidências de que um Rei Hiram de Tiro tenha existido. Uma razão perfeitamente razoável para isso pode ser que, já que o termo “Tiro” na verdade faria referência a uma pedreira ou mesmo à cidade de Tânis, o “rei” Hiram mais velho na verdade pode ter sido um arquiteto que residiu em Tânis. Esse Hirammais velho foi chamado de “Melek Hiram”, que foi traduzido como “Rei Hiram”, mas o termomelek também foi utilizado em um texto bíblico posterior para denotar um príncipe, então é inteiramente possível que esse Rei Hiram fosse na verdade um Príncipe Hiram de Tânis. Também é possível que esse Príncipe Hiram fosse realmente o pai do arquiteto chefe chamado HiramAtif, que modelou as duas grandes colunas de bronze e terminou a construção do Templo. Então, nesse caso, ambos os personagens seguiram a mesma posição exaltada de Maçom eArquiteto.

ARTESÃO E PRÍNCIPE

Outras evidências para alta posição de Hiram vêm da genealogia dos arquitetos chefes do Egito, uma lista completa de nomes que abriga o período da época de Ramsés IIaté o reino do faraó Darius II, e que estava inscrita em uma rocha na pedreira de Wadi Hammamat. Essa cronologia de fato indica que havia dois arquitetos chamados Hiram (Atif), e que ambos foram arquitetos do faraó Sheshonq I, mas, mais do que ser pai e filho, esse documento indica que eles na verdade eram pai e neto. O fato dessas pedreiras e inscrições estarem a leste de Tebas também poderia sugerir que o Rei ou Príncipe Hiram mais velho estava intimamente associado à Tebas, bem como a Tânis.

O outro documento histórico que menciona Hiram Atif, que foi deixado nas pedreiras de Silsileh, indica que Hiram foi enviado para lá por Sheshonq I para cortar as pedras para oTemplo de Karnac. Então os textos bíblicos e egípcios concordam entre si, e levam essa história escrita a um estágio adiante, dizendo que Hiram Atif foi subsequentemente evocado dessas pedreiras pelo comando real e enviado para construir outro Templo. De acordo com o texto histórico, a nova encomenda de Hiram Atif foi o Templo de um Milhão de Anos de Sheshonq Iem Mênfis(?), ao passo que os textos bíblicos notam que sua tarefa na verdade fosse construir o grande Templo de Salomão em Jerusalém.

Hiram não seria apenas um pedreiro, ele também era igualmente habilidoso ao trabalhar de metal, sendo bronze a sua especialidade. As ligações que foram forjadas nas explicações comuns dessa época, entre o arquiteto chefe chamado Hiram Atif e a cidade deTiro, foram reforçadas pelo conhecimento e habilidade de trabalhar no metal dos palestinos. Estes habitaram a costa oeste de Levante ao sul da Fenícia, e quais se acreditavam ser metalúrgicos de alta qualidade, e então a ideia de que Hiram era originário do oeste de Levante não era ilógica. Contudo, essa não era a única região nessa época que produziu metalúrgicos de excelência. O trabalho em metal dos metalúrgicos egípcios, particularmente os da 21ª e 22ª dinastias, era de um padrão muito mais alto do que o dos filisteus, como os historiadores prontamente admitem:

Talvez a contribuição mais permanente da (21ª e 22ª dinastias) às artes e ofícios esteja no campo do trabalho em metal. Os caixões de prata dos reis Psusennes [II] e Sheshonq [I] e a grande variedade de vasos de ouro e prata e joias das tumbas da realeza de Tanita testemunham a continua habilidade dos trabalhadores em metal egípcios... De grande significância foi à imensa expansão e excelência técnica da escultura de metal que ocorreu durante esse período... A maior parte em bronze.

O resultado da solicitação desse novo arquiteto chefe demonstra que ele e seus companheiros estavam gerações à frente de seus rivais de Tânis em tecnologia e habilidade. A conclusão é que essa distinção no trabalho em metal resultou da chegada de Hiram Atif (Abiff)de Tiro e seus companheiros metalúrgicos, e que eles foram de fato “hábeis em ouro, prata e bronze”.
A propósito, uma vez que o sarcófago de prata de Sheshonq I foi feito com a imagem de um falcão, e visto que o nome bíblico de Hiram Atif significa “O Deus-Falcão Hórus é Meu Pai”, outra ligação entre esses dois arquitetos, pode ser vista. Uma vez que um sarcófago com formato de cabeça de falcão é bem exclusivo para um monarca egípcio, isso pode ajudar a entender que este não era o sarcófago de Sheshonq I.

Esse sarcófago espetacular com o formato de cabeça de falcão feito de prata teria sido muito mais apropriado como o último lugar de descanso do arquiteto chefe Hiram Atif, que foi conhecido como o “Filho de Hórus”. É bem possível que, durante o sepultamento deSheshonq I que ocorreu em circunstâncias adversas, os administradores chefes do cemitério tivessem confiscado o sarcófago de Hiram[5]. As placas de inscrição nesse caixão confirmam que este foi o enterro de Sheshonq I, mas esses títulos e nomes poderiam facilmente ter sido adicionados no último momento por qualquer trabalhador de metais competente.

A identificação do arquiteto chefe bíblico Hiram Atif como sendo o arquiteto chefe deSheshonq I, que também foi conhecido como Hiram Atif, parece se bastante plausível. Mas não é apenas a evidência epigráfica da pedreira de Silsileh que aponta para um artífice mestre sendo empregado para o trabalho de fundição de um Templo, a evidência arqueológica também aponta para essa direção. Beno Rothenberg[6] conduziu uma investigação dos trabalhos de cobre em Timnah[7], bem ao norte de Elat. As conclusões dessa escavação foram que essas minas e trabalhos de fusão foram executadas pelos egípcios dos séculos XX ao XIV A.C, um período durante o qual os israelitas devem ter estado na Palestina. Mais adiante é dito que:

...uma questão mais interessante é se o curto período de operações que aconteceram no século X teve alguma coisa a ver com os israelitas... Rothenberg (originalmente) concordou que a mineração e fusão aconteceram em Timnah no comando de Salomão...

Porém, Rothenberg declara que a última fase foi devida à iniciativa da 22ª dinastia, qual está inserido o governo de Sheshonq I. O problema para Rothenberg foi que a história bíblica dessa época exigiu grandes quantidades de bronze (uma liga de lata de cobre), ao passo que a data arqueológica incongruentemente nos presenteia com a evidência da fusão do cobre egípcio nos lugares de posse dos israelitas. Então, esses trabalhos de fusão de minérios foram do povo de Judá ou dos egípcios? A resposta para esse problema seria simples se visto por outra ótica, é que a construção do Templo e dentre outras demandas por metais da época foi essencialmente egípcia.

Nesse caso, a hipótese de que o trabalho em metal em Timnah fora conduzido pelos egípcios durante o reinado de Sheshonq I e a exigência bíblica de que esse metal fosse utilizado no Templo de Salomão em Jerusalém são dois lados da mesma moeda.

Embora as evidências que foram reunidas até agora pareçam indicar esse trabalho em metal no Templo de Salomão sendo organizado e projetado pelo arquiteto chefe egípcio conhecido como Hiram Atif, ainda há mais evidências para demonstrar que esse argumento seja plausível.

O nome Hiram Atif foi escrito com um elemento extra na sua grafia, a representação de uma coluna chamada “Djed”. O resultado desse glifo extra é que o nome agora se torna:

Heru (Hira) 
O deus-falcão Hórus

M 
é

Djed 
coluna

Atif 
pai



A grafia de “Djed” neste caso específico é acompanhada de um traço único indicando que é a coluna “Djed” real que se quer nesse glifo, e não qualquer outro significado, e a razão para isso é dada na Bíblia. Surpreendentemente, os relatos bíblicos creditam a HiramAtif a construção das duas grandes colunas de bronze no Templo de Salomão, Jaquim e Boaz, enquanto os relatos históricos agora associam Hiram Atif diretamente com a coluna “Djed”.

Esses petróglifos como na mina de Wadi Hammamat apenas eram inscritos quando cada arquiteto chefe era afastado ou estava morto, assim como os sacerdotes cristãos fazem em suas igrejas hoje em dia. Desde que Hiram Atif tornou-se famoso por seu trabalho nas duas grandes colunas no Templo de Jerusalém, sua inscrição tumular nessa genealogia tornou-se “Hiram Atif da Coluna Djed”.

Não apenas essa é uma outra indicação correta de que esses dois Hiram Atifs, dos registros bíblico e egípcio, foram um e o mesmo, essa também é uma boa indicação de que as duas colunas de Jaquim e Boaz realmente se pareciam. Nas condições mais claras possíveis, a evidência está demonstrando que as duas colunas que estavam localizadas na entrada doTemplo de Salomão foram duas monumentais colunas “Djed”. O principal significado das colunas “Djed” era “estabilidade”, e isso pressupunha a estabilidade da nação e da monarquia que governava aquela nação.

É bem possível que as duas colunas construídas no Portal Bubastita[8] em Karnac fossem planejadas para serem réplicas das duas colunas que ornamentaram o Templo deSalomão. Se for assim, então o desenho dessas colunas pode dar uma percepção a mais para a simbologia da coluna “Djed”. Diz-se que as colunas no Portal Bubastita são representações de “Flores de Lótus Fechadas”[9], e esse desenho é uma característica comum dos templos egípcios. É bem possível, porém, que, uma vez que a teologia egípcia tratou de fertilidade e cópula, esse desenho em vez disso representasse um falo.
O elemento “estabilidade” da coluna “Djed” poderia, então, inferir na estabilidade da monarquia e da população que foi gerada pela paternidade da geração seguinte.


CONCLUSÃO

Como um resumo dessa peça, talvez valha a pena sinalizar as várias semelhanças que foram reveladas entre esses dois arquitetos chamados Hiram:

a. Ambos os arquitetos foram chamados Hiram Atif;
b. Ambos os nomes continham um sufixo que significa “pai”;
c. Ambos trabalharam como arquitetos chefe para o rei;
d. Ambos os reis são conhecidos por ter governado exatamente na mesma época;
e. Ambos os arquitetos foram chamados para construir um templo para o rei;
f. Ambos tiveram um familiar mais velho com o mesmo nome;
g. Ambos estavam associados a pedras ou a uma pedreira (Tiro);
h. Ambos estavam associados a colunas.

Então, aqui estaria à história real do herói maçônico Hiram Abiff (Hiram Atif), entregue diretamente dos textos egípcios e bíblico em detalhes. A escassez desse tipo de informação nas fontes maçônicas seculares e a desordem das informações que circulam mostrariam o quanto da Tradição pode ter se perdido com o passar dos séculos.Por que o mundo maçônico deveria honrar um arquiteto chamado Hiram Atif mais do que os personagens mais importantes dessa época, como o Rei Hiram ou o Rei Salomão que também contribuíram na construção do Templo? Uma resposta para isso é que Hiram Atiftambém seria um príncipe, mas um príncipe que caiu nas graças da corte real de Tânis. Esse herói maçônico, Hiram Atif, não seria um personagem sombrio derivado do folclore duvidoso e da mitologia. O arquiteto chefe do Rei Salomão, que supervisionou a construção do Templo de Jerusalém e projetou suas grandes colunas de bronze, seria na verdade foi o arquiteto chefe dos faraós Psusennes II e Sheshonq I, que supervisionou a construção do Templo de um Milhão de Anos...


Autoria de Tiago Roblêdo M\ M\
Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem


REFERÊNCIAS

As Chaves de Salomão: O Falcão de Sabá, Ralph Ellis
A Chave de Hiram, Christopher Knight e Robert Lomas

[1] Nas linguagens mais remotas as vogais não eram escritas (não havia símbolos que as representasse), elas eram inseridas entre as consoantes da palavra quando lida para formar um nome, mas, se a verdadeira pronúncia deste nome fosse desconhecida essa inserção de vogais era baseada em suposições. No caso as consoantes HRMSF poderiam formar tanto HaReM(SaF) quando HiRaM(SaF) e até mesmo HuRaM(SaF).
[2] Esta palavra geralmente é soletrada e pronunciada como itif (supondo-se suas vogais), a ortografia “F” aqui está usando apenas uma forma abreviada da palavra. O s ou sa que completam o nome Hiramsaf é baseada numa versão alternativa da tradução.
[3] Manetho foi um historiador e sacerdote egípcio natural de Sebenitos (em egípcio antigo, Tjebnutjer) que viveu durante a era ptolemaica durante aproximadamente o século III A.C., embora alguns historiadores afirmem que ele seria natural de Roma, e teria escrito sua obra por volta de 200 D.C.. Manetho escreveu a Aegyptiaca (História do Egito), em grego, obra de grande interesse para egiptólogos, que frequentemente é utilizada como evidência para a cronologia dos faraós.
[4] Levante é um termo geográfico impreciso que se refere, historicamente, a uma grande área do Oriente Médio ao sul dos Montes Tauro, limitada a oeste pelo Mediterrâneo e a leste pelo Deserto da Arábia setentrional e pela Mesopotâmia. O Levante não inclui a Península Arábica, o Cáucaso ou a Anatólia (embora às vezes a Cilícia seja incluída). De uma forma geral, a região se resume à Síria, à Jordânia, a Israel, à Palestina, ao Líbano e a Chipre. Outras fontes definem o Levante de uma maneira mais ampla, incluindo porções da Turquia, do Iraque, da Arábia Saudita e do Egito.
[5] O que também reforçar certa ideia de descarte de seu cadáver como o narrado na Lenda de Hiram Abif.
[6] Diretor do Institute for Archeo-Metallurgical Studies no University College em Londres.
[7] Timnate ou Timnah era uma cidade filisteia em Canaã que é mencionado na Bíblia Hebraica em Juízes 14. Ela foi identificada como Tel Batash localizada no Vale Sorek, próxima a Moshav Tal Shahar, Israel.
[8] O Portal Bubastita Portal está localizado em Karnac, no complexo do templo do Local de Amon-Rá. Ele registra as conquistas e campanhas militares de 925 A.C em Israel por Shoshenq I.
[9] Numa das narrativas da mitologia egípcia, do oceano primevo emergiu uma ilha, onde mais tarde seria construída Hermópolis. Nesta ilha existia um poço, no qual flutuava uma flor de lótus e onde viviam os oito deuses primordiais. As divindades masculinas ejacularam sobre a flor e fecundaram-na. A flor de lótus fechou-se durante a noite e quando se abriu de manhã dela saiu o deus Rá na forma de um menino que criou o mundo. Este conta reforça o caráter de fertilidade associado ao lótus.

ROMA E OS COLÉGIOS DE OFÍCIOS





No Monte Palatino, se estabeleceu em meados do século VIII antes da era atual, um povo que daria origem a Roma, a Cidade Eterna berço do império Romano. 

Diversos autores reuniram dados e deram forma literária às lendas sobre a fundação da cidade, que se fixou convencionalmente no ano 753 a. C. Entre essas lendas a que o fundador da cidade, Rômulo, descendente do herói troiano Enéas, foi amamentado em sua infância, junto com seu irmão Remo, por uma loba que se transformou no símbolo da cidade. 

A lenda menciona que Numa Pompílio, suposto segundo rei de Roma, organizou o exército e criou os célebres Colégios de Construtores alistados nas Legiões Romanas que estiveram acantonadas no Oriente Médio no século VII a.C. 

O Mitraísmo foi uma das mais ricas associações iniciáticas da antiguidade, tanto por sua organização simbólica como pela qualidade de suas fraternidades que asseguravam uma grande coerência com a instituição. Os templos de Mitra estavam decorados para simbolizar o cosmos; em sua abóbada estava pintado o firmamento estrelado. Os templos Maçônicos atuais são quase idênticos àqueles templos da época Mitráica. 

Desde a iniciação, na qual o postulante sofria as provas dos quatro elementos, o ritual que nos transmite a história é muito próximo do atual ritual Maçônico que usamos hoje. A dita cerimônia se realizava em uma sala subterrânea, sendo seguida de um ritual simbólico de morte e ressurreição. 

Os adeptos de Mitra recebiam ensinamentos com base na astrologia, nas relações do homem com o universo e nos rudimentos da linguagem dos mistérios. Nos mistérios de Mitra, se praticava um batismo em forma de um banho com o sangue de um touro sacrificado. 

Glorificando e santificando o trabalho e protegendo os artesãos, o Mitraísmo inicia em seus mistérios muitos arquitetos que propagaram suas ideias nas primeiras corporações de construtores; tal como Vitruvio, letrado geômetra, desenhista e filósofo romano, venerado pelos pedreiros medievais, que afirmava: “... aqueles que não utilizaram a mão no trabalho não poderiam jamais alcançar a perfeição...” Ele da aos séculos seguintes a definição do que devia ser um Mestre Arquiteto: “... o espírito sem o trabalho e o trabalho sem o espírito, não renderá jamais um obreiro perfeito...” (Aubourg Dejean Raymond Francois, Los Hijos de la Luz, Obra traducida del francés y editada por la Muy Resp:. Gran Logia de Colombia y Resp:. Logia Veritas Vincit Nº 13 del Or:. De Santa Fé de Bogota como homenaje a los 75 avo. Aniversario de la Gran Logia de Colombia, Año 5998 E:.M:., Pág. 24). 

Os escritores alemães Krause, Heldmann e outros, anunciaram ao mundo pela primeira vez a relação que existia entre os Colégios Romanos de Construtores e a Sociedade dos Maçons. 

A teoria de Krause sobre este assunto se encontra principalmente em sua obra intitulada “Die drei altesten kunsterkunde”. Afirma ele que a doutrina da Maçonaria tal como existe agora, com todas as suas características religiosas e sociais, políticas e profissionais, sua organização interior, suas formas de ideias e ações, se deve aos Colégios de Artífices ou Collegii Artificium de los Romanos, que passaram com muito poucas mudanças às Corporationen Von Baukunslern, os “Grêmios Arquitetônicos”, da Idade Media até a organização inglesa de 1717. 

É a Numa Pompílio, o segundo rei de Roma a quem os historiadores, após Plutarco, atribuem à primeira organização dos Colégios de Ofícios Romanos; embora segundo algumas conjecturas razoáveis, seja provável que uma organização semelhante existisse anteriormente entre os habitantes albaneses, compreendendo assim os artífices toscanos residentes. Porém é de admitir-se que Numa lhes proporcionou essa forma que foi conservada sucessivamente. 

Numa Pompílio, ao subir ao trono, encontrou os cidadãos divididos em várias nacionalidades, as que provinham dos romanos, os sabinos e os habitantes originados de outros povos e lugares próximos de pouca importância, a quem por um ato de preferência ou pela força, se lhes fez trocar de residência para as beiras do Tibre. Isto deu origem a uma separação de ideias e opiniões e a uma ideia constante de desunião. Porém, o objetivo de Numa era o de destruir por completo estes elementos rivais e de estabelecer uma identidade perfeita de sentimento popular, de tal maneira que poderíamos usar a frase de Plutarco, que são apropriadas: “a distribuição dos povos pode constituir uma mescla harmoniosa de todos e para todos”. 

Com esse objetivo estabeleceu uma religião comum e dividiu os cidadãos em cúrias e tribos consistindo assim um corpo mesclado indiferentemente dos romanos, sabinos e de outros estrangeiros naturalizados de Roma. 

Conduzido pela mesma sagacidade política, distribuiu aos artesãos em vários grêmios e corporações com o nome de Collegia ou “colégios”. A cada colégio foram alistados artesãos de ofício particular e cada um tinha seus regulamentos locais, seculares e religiosos. Estes colégios se desenvolveram com a mesma rapidez que a República, estabelecendo Numa desde o início, nove Colégios, sendo estes o Colégio de Músicos, de Ourives, de Carpinteiros, Pintores, Sapateiros, Curtidores, Forjadores, de Oleiros e o nono composto de todos os artesãos que não eram aptos a estes ofícios, e que por isso não estavam compreendidos nos títulos anteriores, e que posteriormente aumentaram em grande número. É certo que foram abolidos, ou trataram de aboli-los por volta dos anos oitenta antes da era cristã, por um Decreto do Senado que observou com zelo sua influência política, porém voltaram vinte anos depois, estabelecendo-se de novo através de uma lei do tribuno Cláudio, que revogou a anterior. Continuaram ativos no baixo império, estendendo-se nas províncias e sobreviveram até a decadência e queda do Império Romano. 

Bem, agora, investiguemos a forma e a organização destes colégios e ao mesmo tempo tratemos de determinar a analogia que existe entre eles e as Lojas Maçônicas. 
A primeira regulamentação, que era indispensável, consistia em que nenhum Colégio poderia se formar com menos de três membros. Tão indispensável era essa regra que a expressão três faciunt collegium (três formam um colégio), chegou a ser uma máxima da lei civil. Era, do mesmo modo, tão rígida a aplicação desta regra que o corpo de cônsules que eram nomeados “colegas”, e que possuíam e exerciam todos os direitos colegiados, nunca foram reconheci-os legalmente como Colégio, pela razão de que eram constituídos somente dos seus membros. Se surpreenderá facilmente o leitor com a identidade entre este regulamento dos Colégios e os da Maçonaria, que com igual rigor requeria três Maçons para abrir a Loja. O Colégio e a Loja requerem igualmente três membros para se tornarem legais. Um número maior pode proporcionar-lhe mais eficiência, no entanto não pode fazê-la mais legítima. Isto, então, é a primeira analogia que existe entre as Lojas dos Maçons e os Colégios romanos. 

Esses colégios tinham seus respectivos oficiais, a quem se assemelhavam muito singularmente em condições e deveres aos Oficiais da Loja maçônica. Cada Colégio era presidido por um chefe ou presidente, cujo título de Mestre se traduz exatamente pela palavra inglesa “Master”. Os oficiais imediatos eram os “decuriones”. Esses decuriones eram análogos aos “Vigilantes” maçônicos, pois cada um dos “decúrios” presidia uma seção ou divisão do Colégio do mesmo modo em que encontramos na maior parte dos rituais ingleses antigos e continentais, a Loja dividida em duas “colunas”, onde cada uma delas é presidida por um dos Vigilantes, através dos quais se transmitia as ordens do Mestre aos Irmãos da sua coluna. Havia também nos Colégios um Escrivão ou “Secretário” que lavrava o registro dos procedimentos; um Tesoureiro, que tinha seu cargo situado ao fundo da Loja ou da “comunidade”; um Tabelião ou guardador dos arquivos, equivalente ao arquivista moderno (Chanceler) e finalmente, como estes Colégios combinavam a adoração religiosa e singular com seus trabalhos ordinários, havia para cada um deles um sacerdote que dirigia as cerimônias religiosas e era exatamente equivalente ao Capelão (Orador) da loja maçônica. Em tudo isso, encontramos outra analogia entre estas instituições antigas e nossos corpos maçônicos. 

E mais outra se encontrará na distribuição ou divisão de classes que existia nos Colégios Romanos. Assim como nas Lojas Maçônicas que tem seus Mestres Maçons, seus Companheiros Maçons e seus Aprendizes, do mesmo modo os Colégios tinham seus Seniores (superiores), os diretores de ofício e seus trabalhadores e aprendizes. Os membros não eram chamados da mesma forma que os maçons de “Irmãos”, porque este termo foi adaptado primeiramente nos grêmios ou corporações da Idade Média e na realidade é a descendência do sentimento cristão; contudo como observa Krause, estes Colégios eram dirigidos sob o sistema de uma família, ou de forma familiar, de onde vem à afirmação de irmão que se encontra no relacionamento familiar. 

O caráter parcialmente religioso dos Colégios Romanos de Artífices constituía uma analogia muito singular entre eles e as Lojas Maçônicas. A história demonstra que se tinha outorgado um caráter eclesiástico a esses Colégios quando de sua organização por Numa Pompílio. Muitas oficinas desses artífices foram construídas nas proximidades de um templo e sua cúria, o lugar de reunião, se comunicava geralmente com o Templo. A deidade a que se consagrava o templo era adorada de forma peculiar pelos membros do Colégio adjacente e se constituía no deus protetor de sua arte ou ofício. No transcurso do tempo, havendo sido abolida a religião pagã e modificado o caráter religioso desses Colégios, os deuses pagãos foram substituídos pela nova religião pelos santos cristãos, um dos quais se adaptava sempre como o protetor dos grêmios modernos, o que, na Idade Média, tomou o lugar dos Colégios Romanos, e desta origem provém entre os maçons à dedicação de suas Lojas a São João decorrente do costume semelhante que existia nas Corporações de Arquitetos. 

Esses Colégios tinham pessoas que trabalhavam de forma secreta na investigação dos neófitos antes de suas iniciações na fraternidade e das instruções místicas e esotéricas a seus aprendizes e obreiros. Eram neste conceito, sociedades secretas semelhantes às Lojas Maçônicas. 
Seus membros tinham o costume de contribuir de forma periódica ou mensalmente para o sustento do Colégio, por cujos meios se acumulavam um fundo comum para a ajuda daqueles irmãos indigentes ou para auxiliar estranhos desprovidos e pertencentes à mesma sociedade. O governo lhes permitia que tivessem sua Constituição e também Estatutos e Regulamentos. Esses privilégios cresceram paulatinamente ampliando seus direitos de tal modo que nos últimos dias do império os Colégios de Arquitetos se encontravam investidos de poderes extraordinários referentes à vigilância e a direção dos construtores. Mesmo assim a distinção tão popular que se encontra na jurisprudência maçônica entre as Lojas “legalmente constituídas” e as “Lojas clandestinas”, parece encontrar uma semelhança neste caso; porque dos Colégios que haviam sido estabelecidos por autoridade legal e que pelo mesmo tinham direito ao gozo dos privilégios de acordo com as instituições, se diziam “collegia licita” ou “colégios legais”, entretanto aqueles que formavam associações voluntárias não autorizadas por decreto expresso do senado ou do imperador se chamavam “collegia ilícita” ou “colégios ilegais”; Os termos lícito e ilícito equivaliam exatamente em sua importância às Lojas constituídas e as Lojas clandestinas da maçonaria. 

Nos Colégios os candidatos à admissão eram eleitos do mesmo modo que nas Lojas maçônicas, através da votação de seus membros. Em relação a este assunto a palavra latina que se usava para expressar a arte da admissão ou recepção é digna de consideração. Sempre que alguma pessoa era admitida na Fraternidade do Colégio, se considerava cooptado pelo colégio. Ademais, o verbo cooptar, empregado quase que exclusivamente pelos romanos para significar a eleição no Colégio, provém da palavra grega optomai que significa “ver, contemplar”. Esta mesma palavra dá origem, em grego, à palavra opoptes, espectador ou observador, ou aquele que adquiriu o último grau nos mistérios Eleusianos; em outras palavras, iniciado. Assim é que, sem exagerar muito a ingenuidade etimológica, poderíamos dizer que cooptatus in collegiu significava “ser iniciado no Colégio”. Isto é ao menos singular, pois a interpretação mais geral de cooptatus é “admitido ou aceito na Fraternidade”, ou o mesmo que “livre para os privilégios do grêmio ou corporação” e resulta que a ideia é a mesma tal como se transmite entre os maçons o titulo de “livres e aceitos”. 

Sabemos por Krause que estes Colégios de obreiros faziam uso das ferramentas de sua arte ou profissão na forma simbólica, em outras palavras, que cultivavam a ciência do simbolismo; é neste sentido, com efeito, mas que em nenhum outro se encontra numa analogia surpreendente entre os colegiados e as instituições maçônicas. O que temos manifestado não pode ser negado, pois como a organização dos Colégios estava envolta, como já foi demonstrado, do caráter religioso, e tal como se admite que toda a religião do paganismo era eminentemente simbólica, em consequência toda a associação que estava baseada ou cultivava este sentimento mitológico ou religioso, deve cultivar também o princípio do simbolismo. 
Na organização e no modo de governo e das práticas dos Colégios Romanos existe uma analogia entre eles e as Lojas maçônicas modernas que é evidentemente mais que acidental. É de supor-se que muito depois da dissolução dos Colégios, a maçonaria, na fundação de suas Lojas, intencionalmente adaptou a organização colegiada como um modelo pelo qual estabelecera seu próprio sistema, ou pode acontecer que dita semelhança tem sido o resultado de uma sucessão de associações originadas entre si nas mesmas que figuram no primeiro momento do término dos Colégios Romanos. Porém ainda não se conseguiu determinar se as Lojas devem sua origem aos Colégios só por sua forma ou pela forma e conteúdo. 

No tempo de Numa Pompílio, os Colégios Romanos eram apenas nove. Nos anos subsequentes à República o número aumentou consideravelmente e quase todos os graus e profissões tinham o seu colégio particular. Com o progresso do império, seu número foi muito maior e seus privilégios se estenderam notavelmente ao ponto de constituir um elemento importante nos corpos políticos. 
Os romanos se distinguiram pelo espírito de colonização. Tão logo com suas armas vitoriosas haviam subjugado a um povo, antes de tudo se designava uma parte do exército para que fosse formada uma colônia. Então, o barbarismo e a ignorância dos habitantes ativos eram substituídos pela civilização e pelo progresso de seus conquistadores romanos. 

Os Colégios de Construtores, ocupados nas obras de edifícios seculares e religiosos, se expandiram da grande cidade até os municípios e províncias, Sempre que se construía uma nova cidade, um templo ou palácio, os membros destas corporações eram convocados pelo Imperador dos pontos mais distantes para que a comunidade de trabalhadores tomasse parte da construção. Os obreiros eram empregados no mesmo sentido que os “peões de cargo” do templo judaico nos trabalhos mais grosseiros e humilhantes, porém a vigilância e a direção das obras eram confiadas unicamente aos “membros aceitos” – “os cooptati” – dos Colégios. 

As colonizações do Império Romano foram dirigidas pelos soldados legionários do exército. A cada legião se agregava um Colégio ou corporação de artífices que se unia com a legião em Roma, a que acompanhava nas campanhas, acampando onde a legião acampava e marchando sempre a seu lado, e quando colonizava permanecia na colônia para plantar a semente da civilização romana e ensinar os princípios de sua arte. Os membros do colégio construíam fortificações para a legião no tempo de guerra, e em tempo de paz, ou quando a legião permanecia estacionária, construíam templos, casas e infraestrutura de irrigação. 

Semelhante à Grécia, os artesão romanos ocupavam um lugar humilde na sociedade romana. Porém, os Colégios eram muito diversos e assim temos os COLLEGIA PONTIFICUM com fins religiosos,COLLEGIA MUNICIPIUM com fins governamentais e COLLEGIA FABRORUM integrado por profissionais e artesãos, que incluíam os construtores e outros ofícios humildes como os lixeiros, pescadores, sapateiros, cozinheiros, etc. O COLLEGIA FUNERARIUM se dedicava a dar sepultura digna aos corpos. 

Issac Asimov, na obra O Império Romano – Alianza Editorial S/A – Madri, 199, pag. 93-96, nos relata a trama central de um fato que marcaria o início de mudanças importantes no mundo. Nos referimos ao Concílio de Nicéa, onde foram unificados diversos livros santos, transmitidos de forma oral e secretamente pelos Apóstolos e pelas Santas mulheres (herdeiros da tradição misteriosa trazida por Cristo), que não formavam um corpo homogêneo, que estavam divididos em grande número de pequenos grupos, de cenáculos, de capelas, de conventos, de sociedades secretas, mantendo relações uns com os outros, porém às vezes opostos entre si. Foi por essa razão que se convocou o Primeiro Concílio Ecumênico em Nicéa. No curso de suas sessões, mantidas desde 20 de maior até o dia 25 de julho de 325 d.C., os bispos se pronunciaram. 

Fonte: Maçonaria - Origem e Desenvolvimento do Ir\ Herbert Ore Belsuzarri