sábado, 9 de julho de 2016



A Origem dos Vigilantes 


"A ampla simbologia maçônica, que evoluiu para interpretações morais e místicas no seu avanço especulativo ou moderno, nasceu na sua maioria dos costumes e da organização das corporações de construtores, basicamente fundamentada em suas funções e trabalho. Nos rituais, podemos entender muito destas razões".

Entre as corporações de ofício da Idade Média, hoje englobadas, sob o rótulo de 

Maçonaria de Ofício ou Operativa, destacava-se a dos Canteiros, ou esquadrejadores de pedras, ou seja, os obreiros que tornavam cúbica a pedra bruta, dando-lhe cantos, para que ela pudesse se encaixar nas construções. (Canteiro é o operário que trabalha em Cantaria, palavra derivada de canto, já que a função é fazer os cantos, ou ângulos retos na pedra). 

Os canteiros costumavam delimitar os seus locais de trabalho (que, por extensão, acabaram sendo chamados de canteiros de obras, denominação encontrada até hoje), cercando-os com estacas fincadas no chão e nas quais eram introduzidos aros de ferro, que se ligavam a outros elos, formando uma corrente. A abertura dessa cerca estava na parte ocidental do recinto de obras. Transpondo-se essa cerca, encontrava-se, bem na entrada, na parte frontal, ou lateral, um barracão, que funcionava como uma espécie de almoxarifado, onde eram guardados os planos da obra, o material de trabalho e os instrumentos necessários. 

Como responsável por todo esse material, havia um operário graduado, que era o Warden, ou seja, Zelador ou Vigilante. Este obreiro, além de tomar conta de todo o material, pagava o salário aos operários, despedindo-os então, no fim da jornada diária de trabalho. Posteriormente, para maior agilização dos trabalhos foi criado o encargo de mais um zelador, ou vigilante, postado geralmente ao sul, ou ao meio-dia. O hábito de chamar o sul de meio-dia é originário da França, onde o sul é chamado de midi. 

Assim, esse hábito dos trabalhadores medievais, principalmente dos canteiros, além de ser a origem da Cadeia de União e até da Corda de Oitenta e um Nós, deu, também, origem aos cargos de Vigilantes de uma Oficina maçônica, os quais, além de outras funções, devem, simbolicamente, ao fim do dia de trabalho, pagar aos obreiros o salário da jornada diária, despedindo-os, então, contentes e satisfeitos, por terem recebido sua paga.


Extraído de http://docslide.com.br/documents/fraternidade-maconica.html

sexta-feira, 8 de julho de 2016




AS ORIGENS DA CABALA 

Autor: João Anatalino

Graficamente, a palavra Cabala deriva da raiz hebraica Qibel, que significa “receber”. Assim, ela originou o termo hebraico Qabalah (Kabbalah), aportuguesado para Cabala, que por definição se refere ao recebimento da doutrina “não escrita” que supostamente estaria escondida em nomes e termos bíblicos, alguns deles intraduzíveis para as linguagens desenvolvidas pelos povos do ocidente, pois remetem a conceitos esotéricos só conhecidos pelo povo de Israel. Dessa forma, entende-se a Cabala como sendo uma tradição oral transmitida de geração a geração por alguns iniciados na mística da religião judaica e que pretende conter as verdades enunciadas por Deus aos profetas de Israel, verdades essas que não são reveladas na Torá escrita. E nas partes em que essas verdades são recepcionadas nos cinco livros atribuídos á Moisés, elas aparecem cifradas em títulos, nomes e outros termos, cuja transposição para letras e valores numéricos confere á essas verdades diferentes significados, só conhecidos pelos iniciados.(1) 

Resumindo, podemos dizer que a Cabala é uma tradição que acompanha a saga do povo de Israel desde a sua mais remota origem. Provavelmente, como bem assinala Dion Fortune em seu excelente estudo, suas raízes venham de antigas crenças do povo caldeu, de onde Abraão e seus descendentes a receberam, e por transmissão oral ela foi passando de geração em geração, como forma de tradição, e esta, por fim, acabou desembocando na corrente rabínica dos mestres da religião de Israel, que a desenvolveram em um sistema filosófico-místico nos primeiros séculos da nossa era.(2)

A tradição costuma atribuir a codificação da Cabala a um rabino chamado Simeon Ben Yohai, que viveu no século II da era cristã, no governo do Imperador Adriano. Segundo essa tradição o imperador romano o teria condenado á morte, razão pela qual Ben Yohai viveu boa parte da sua vida escondido em uma caverna. Teria sido esse rabino, muito famoso na história da religião judaica, que reuniu os ensinamentos dos antigos mestres e repassou-os oralmente ao seu filho, Rabi Ben Eleasar e a outros discípulos seus, na forma de discursos, feitos em uma linguagem simbólica e mística. Estes, por sua vez, reuniram esses ensinamentos em um livro denominado Sefer Há-Zhoar (o Livro do Esplendor), que se tornou a Bíblia cabalística por excelência. Esse livro é composto de vários comentários rabínicos, reunidos em diversos blocos, denominados “Siphras” entre os quais os mais importantes são o Siphra Ditzeniovtha, (Livro do Mistério Oculto), o Há Idra Rabba Kadisha (A Grande Assembleia Sagrada) e Há Idra Zuta Kadisha (A Assembleia Sagrada Menor).´

Há vários outros livros e tratados que se referem á essa tradição, como o Sepher Yetzirah e seus comentários, que contém a cosmogonia cabalística, o Sepher Sefiroth com suas referências, que esclarecem a teoria das séfiras, e o Asch Metzareph, que é um tratado que relaciona Cabala e alquimia, passível de ser entendido somente por quem domina o arsenal de simbolismo dessas grandes tradições. Porém, o mais importante dos tratados cabalísticos é mesmo o Sepher Há - Zohar³, não esquecendo também os livros escritos pelo grande mestre Isaac Luria, especialmente o “Livro das Revoluções das Almas” no qual esse famoso rabino desenvolve a tese da transmigração das almas e as obras de Maimônides, em especial o seu “Guia dos Perplexos”.(4)

Historicamente, porém, como bem demonstra Alexandrian em seu tratado sobre a filosofia oculta, o Sepher Há - Zhoar só aparece no Ocidente em fins do século XIII, revelado por um rabino judeu espanhol, chamado Moisés ben Schemtob (1250- 1305) mais conhecido como Moisés de León , que ensinou os princípios da Cabala nos reinos de Leão e Castela.(6) A partir de investigações conduzidas ainda na Idade Média, relatadas pelo autor acima citado, muitos estudiosos chegaram á conclusão que o Zhoar, na verdade, seria um trabalho compilado no século XIII, e dele teriam participado vários autores, a maioria oriundos da região do Languedoc, liderados por Moisés de Leon. (6) Nessa região, também conhecida como Provença, uma próspera colônia judaica florescera nos territórios dominados pelos príncipes simpáticos á doutrina cátara.(7) Todavia, ainda que se aceite esse pressuposto, não se pode negar que essa tradição já estava bem desenvolvida na Europa na época medieval, sendo de larga aplicação junto á comunidade judaica e também entre os cristãos gnósticos, anteriormente ao advento do catarismo. A prova disso é a existência de várias escolas de ensinamento cabalístico pelo continente europeu muito antes de a região do Languedoc ter se tornado a capital do misticismo na Europa e a heresia cátara a principal preocupação da Igreja de Roma. Exemplos dessas escolas foi a de Isaac, o Cego, que ensinou a Cabala entre 1160 e 1180 na Provença e seu aluno Ezra ben Salmon, que lecionou, na mesma época, essa disciplina na Espanha. Na Itália destacaram-se os famosos sábios cabalistas Abraham Abulafia (1240-1291) e na Alemanha Yehuda Ben Samuel, o Piedoso, e Eliazar, rabino de Worms (1176-1238), os mais famosos cabalistas medievais. (8)

Como já foi referido, ao longo do tempo os praticantes desse sistema desenvolveram dois tipos de aplicação para a tradição cabalística. Um deles, relacionado com as coisas divinas, foi chamado de Cabala sagrada, também dita Cabala prática ou operativa. Essa vertente trata dos elementos de magia relacionados com talismãs, rituais e cerimônias mágicas, invocativas de forças sobrenaturais. Essa tradição parece ter vindo de antigas fontes sumérias, nas quais os descendentes de Abraão se abeberaram. São fartas, no Antigo Testamento, as referências aos urins e tumins, espécie de amuletos mágicos que os patriarcas e sacerdotes hebraicos usavam para tentar adivinhar a vontade de Deus.(9)
Um dos magos dessa arte teria sido o próprio Moisés, cujas demonstrações frente aos sacerdotes egípcios e depois, quando invocou sobre o Egito as pragas e catástrofes que obrigou o faraó a libertar o povo de Israel, constitui um dos relatos mais impressionantes da Bíblia. 

É nesse sentido que Fílon de Alexandria (20 a. C - 50 e. C), historiador e filosofo judeu, que também cultivou a Cabala, e Maimônides (Rabi Mussa bin Maimun ibn Abdallah, 1135-1204) um dos mais famosos cabalistas medievais, entendiam ser a Cabala a verdadeira mensagem divina contida na simbologia da linguagem e na mensagem das formas geométricas. Fílon foi o filósofo que procurou interpretar as inspirações proféticas judaicas no contexto da filosofia grega, especialmente as ideias de Platão. Ele foi o precursor da escola de pensamento que se tornou conhecida mais tarde como neoplatonismo, a corrente filosófica que deu origem ao gnosticismo. Para esse sábio judeu o significado dos preceitos veiculados na Lei (a Sitrê Toráh) só podiam ser interpretados pelos iniciados no simbolismo iniciático da religião judaica, pois eles continham verdades metafísicas sobre a origem, o desenvolvimento e o destino do universo, que se revelados ao vulgo, causariam uma grande tragédia. Por isso Deus as colocara em símbolos, visões e metáforas que somente uns poucos eleitos conseguiam entender.Isso porque a Torá era o instrumento de Criação do mundo, pois ela própria era o Inefável Nome de Deus. Ela era , no jargão cabalístico, “ a séfira Hochmah (Sabedoria).(10)

Filon é o precursor da filosofia que vê o mundo sendo criado pela palavra Divina. Deus é o Logos, o Verbo, a Palavra que se transforma em obras. O Logos é a ferramenta com a qual Deus constrói o mundo. Os anjos são logói,ou seja, palavras saídas da boca de Deus, as primeiras coisas criadas, que combinadas em seus sons e valores tornam-se instrumentos de criação. O Verbo é, pois, a verdadeira ferramenta da Criação e através dele Deus fez todas as coisas. Por isso, Deus, ao apresentar-se a Moisés no Monte Horeb, não declinou o seu Nome, limitando-se a dizer: Eu Sou.

Destarte, na filosofia de Fílon, toda a verdade sobre o mundo e o homem estava contida na Torá na forma de símbolos e alegorias que precisavam ser adequadamente descodificadas para serem corretamente entendidas. Assim, criador e criatura tornavam-se uma coisa só, unida por um vínculo de causa e efeito onde o destino escatológico do mundo se consumava na própria necessidade de Ser. Por isso Deus era o Verbo. Deus era Eu Sou. O finito era o infinito tornado real, e entender o homem era penetrar na mente de Deus.

As ideias de Fílon, como se pode notar, apresentavam um caráter bastante místico que não agradou aos judeus tradicionalistas. Mas alcançou grande repercussão entre os praticantes da nascente doutrina que iria dominar o pensamento ocidental nos séculos seguintes. Essa doutrina era o Cristianismo. Foi sobre as especulações de Filon acerca do Logos e a cosmogonia que delas se derivou, que os pensadores cristãos, classificados como gnósticos, arquitetaram a maioria das suas concepções. Por isso boa parte da doutrina gnóstica apresenta um arsenal de simbolismo que só pode ser entendido por quem domina a linguagem própria dos iniciados na Cabala.(11)

Maimônides, nascido em 1135 na cidade espanhola de Córdoba, foi um dos mais importantes cabalistas da Idade Média. Foi ele o filósofo que transformou a Cabala numa verdadeira doutrina filosófica, colocando uma ordem lógica numa tradição que havia se abastardado com a influência das diversas doutrinas que invadiram o pensamento ocidental após o advento do Cristianismo. Essas doutrinas vinham principalmente do pensamento cristão gnóstico, impregnado pelos ensinamentos de Aristóteles e pelas concepções do Islamismo, que ganhara muita influência com as conquistas muçulmanas na Europa.

Maimônides era médico e filósofo. Como médico fez importantes contribuições á medicina, especialmente com seus comentários ao compêndio chamado Halachá. Esse compêndio, que contém as principais prescrições dos sábios israelenses sobre questões de saúde, foi grandemente enriquecido pelos comentários desse sábio cabalista. Em sua famosa oração do médico, ele mostra ter plena convicção do poder espiritual na medicina e que esta exercia influência fundamental sobre o corpo, porque alma e o corpo são indivisíveis, sendo que a cura de um depende da plena saúde do outro.
Deus era, para Maimônides, o Médico Celestial, e o médico terrestre não tinha muita força sem a presença Dele ao seu lado. Corpo e alma andavam de mãos dadas e sem força espiritual para curar as doenças a cura não aconteceria. É o que qualquer bom médico moderno reconhece: quando o paciente não ajuda, não há remédio que funcione. A atitude do doente em relação á cura é mais importante que os medicamentos. Um dos seus principais pressupostos dizia: "Para os mal-humorados, sua vidas não é vida" Ou seja, a alegria é a fórmula para a conservação da saúde.

Mas foi principalmente o seu trabalho como comentador da Torá que o tornou famoso entre os intelectuais. Os comentários de Maimônides sobre os dois Talmudes, o de Jerusalém e o da Babilônia, são considerados, até hoje, verdadeiros clássicos da literatura rabínica. Esse conjunto de comentários compõe a chamada Mishnê Torá.(12)

Outra de suas obras clássicas é o chamado Guia dos Perplexos, conjunto de 14 livros que contêm 982 capítulos e comentários sobre milhares de leis judaicas, escrito numa linguagem acessível, expurgando a tradição judaica das influências míticas e místicas que lhe foram dadas por Fílon e os neoplatônicos.

Maimônides pode ser considerado o verdadeiro codificador da tradição religiosa dos judeus e o fundador da Cabala filosófica, pois sem o seu trabalho a Cabala teria continuado a ser uma doutrina muito confusa, perdida entre as concepções judaicas e gregas do mundo, coisa que abalava os judeus em sua fé e não ajudava em nada aos cristãos que buscavam uma alternativa filosófica entre o atavismo dogmático de Roma e as concepções um tanto delirantes dos gnósticos.

Maimônides simplificou bastante o problema da linguagem que tornava ao estudioso comum o estudo da tradição oral da religião judaica. O seu Guia dos Perplexos, escrito justamente com essa finalidade (desmistificar principalmente as concepções cabalistas dessa tradição) é dividido em três partes. A primeira é dedicada á discussões dos equívocos que podem surgir diretamente do texto da Torá, que em sua opinião, apresentavam apenas contradições aparentes, geradas por comentadores influenciados por doutrinas estrangeiras. A segunda ataca problemas que brotam das incompatibilidades entre as chamadas abordagens "científicas" (inspiradas na filosofia de Aristóteles) e a visão bíblica de Deus e do mundo. A terceira discute temas filosóficos e teológicos, como a natureza do bem e do mal, o propósito do mundo, o significado ético e sociológico que está por trás dos mandamentos do Decálogo e o caráter moral e filosófico da pura devoção.

Malgrado o seu esforço para expurgar a tradição oral judaica dos aportes que lhe deram Filon e os neoplatônicos, os quais subsistem ainda hoje na Cabala, Maimônides não escapou da influência que o Sepher-há-Zhoar, o texto básico do misticismo judaico, tem sobre toda a tradição oral da religião de Israel.

Apesar disso, mais do que um grande intelectual, notável comentador do Talmude, Maimônides é considerado um grande cabalista. O seu Guia dos Perplexos foi responsável pela abertura de uma nova era de investigação filosófica sobre a Bíblia e seu conteúdo, não só em termos religiosos, mas também morais e sociológicos. Sua extensa obra vem abrindo campo para novas pesquisas e servindo, tanto como base fundamental para o estudo das obras antigas, quanto como um catalisador para as teses cabalísticas subsequentes.(13)


  
                                                                                                       

                                                                    Maimônides                                                                            

                                                      
                                                                     Isaac Luria

                                                 
 Da Cabala filosófica, pode-se dizer que esse tipo de doutrina, embora profundamente impregnada de ensinamentos esotéricos, tinha, não obstante, um objetivo bem prático. Sua função era revelar aos seus iniciados os grandes segredos da natureza, mediante os quais se poderia conseguir poder sobre ela. Nesse sentido ela se equiparava á alquimia, e em muitos casos, as duas tradições conviveram estreitamente, compartilhando os mesmos símbolos. Esse ramo mágico da Cabala acabou inspirando vários pensadores místicos cristãos, que viam nela uma forma de conhecimento da natureza. Foram esses filósofos cabalistas os mestres que precederam os pensadores rosacrucianos no desenvolvimento da filosofia oculta e no apostolado do livre pensamento, numa época em que discordar, ou pensar diferente dos doutores da Igreja significava a prisão, a tortura nas masmorras e a morte nas fogueiras. Entre estes pensadores podemos listar os filósofos Pico dela Mirandola (1463-1494), Marsilio Ficino (1433-1499), Johann Reuchlin (1455- 1522), Cornélius Agrippa (1486- 1535), Giordano Bruno (1548-1600), Guilherme Postel (1510-1581), Schelling (1775- 1854)e conhecidos ocultistas como Blaise de Vignére, Fabbre d’Olivet, Eliphas Lévi e Estanilau de Guiata, famosos mestres da filosofia oculta e consagrados alquimistas. (14)

Esse tipo de Cabala acabou inspirando também uma filosofia moral, destinada a aperfeiçoar o caráter humano e tornar mais feliz a vida do homem na terra. Dois dos nomes mais importantes desse ramo foram o já citado rabino Isaac Luria (1534-1572) que introduziu nessa doutrina o tema da transmigração das almas (Guilgou Neshamot) e Moisés Cordovero. (15)

Com a interpolação desse tema, mais os conceitos desenvolvidos acerca do processo cármico e a teoria da reencarnação, elementos fundamentais para o entendimento da doutrina cabalística, essa tradição acabou derivando, em sua parte filosófica, uma vigorosa disciplina de autoajuda, erigindo, ao mesmo tempo em que pugnava por uma liberdade de pensamento estranha aos costumes da época, um edifício cosmológico e ético que viria contribuir em muito para a construção das correntes de pensamento que influenciaram a Reforma religiosa e o sistema filosófico que se seguiu, o Iluminismo. Isso porque a Cabala recuperava a espiritualidade da experiência bíblica, conspurcada, de certo modo, pelas ideias gnósticas, cuja contaminação pelas doutrinas gregas era visível. Através dos mitos e dos símbolos, uma nova gnose estava sendo desenvolvida pelos intelectuais que trilhavam o caminho da Reforma. Grandes escritores, artistas e filósofos, como Dante, Milton, Francis Bacon, o pintor Rembrandt, Spinoza, Leibnitz, Hegel, Schelling, e principalmente Victor Hugo, Goethe, o poeta William Blake e outros, devem á Cabala algumas das suas mais profundas inspirações. Alguns dos movimentos filosóficos e literários mais importantes da história do pensamento ocidental também sofreram grande influência das doutrinas cabalistas. Citam-se, apenas á guisa de exemplo os movimentos conhecidos como idealismo, que congregou vários intelectuais de renome, principalmente na Alemanha e países da Europa central, entre os quais Hegel e o grande Franz Kafka, tido por muitos críticos literários um verdadeiro autor cabalista.(16)

Esse ramo da Cabala é hoje o mais difundido entre os povos de cultura cristã, pois encampa um vasto domínio nas doutrinas de conteúdo moral, sendo utilizado inclusive por profissionais da psicologia e da psicanálise para subsidiar estudos sobre o conteúdo mais profundo da mente humana. O exemplo mais conhecido da aplicação dessa doutrina na psicologia se encontra nos trabalhos do grande psicanalista e pesquisador Carl Gustav Jung.

Jung faz muitas referências à Cabala em seus escritos, especialmente quanto ás relações que ele encontrou entre os sonhos de seus clientes e os símbolos cabalísticos. Em muitas de suas obras ele fala da necessidade de se estudar essa tradição do ponto de vista científico, pois os símbolos e as visões presentes nessa doutrina estão intimamente conectados com o conteúdo psíquico que se hospeda no chamado inconsciente coletivo da humanidade.(17).

É nesse sentido que a Cabala desperta, ainda hoje, um grande interesse entre as pessoas que se preocupam em aperfeiçoar o seu caráter e desenvolver maiores padrões de espiritualidade.


1. As citações bíblicas aqui registradas foram extraídas da Bíblia Hebraica, traduzida por David Gorodovitz e Jairo Fridlin, publicada pela Editora e Livraria Séfer Ltda, São Paulo, 2015.
2. Dion Fortune- A Cabala Mística; Ed. Pensamento, São Paulo, 1957.
3. Zhoar significa Luz. É o Livro do Esplendor (brilho, luz), que propaga “o brilho da Torá”, a Luz de Deus.
4. Na verdade há milhares de obras cabalistas, umas mais importantes que outras, porque introduzem correntes doutrinárias diversas, que compõem a monumental literatura da Cabala. Citamos aqui apenas as mais importantes do ponto de vista histórico e doutrinário, porque elas constituem verdadeiros marcos no estabelecimento dessa doutrina.
5. Sarane Alexandrian, História da Filosofia Oculta, Esfinge, Lisboa, 1970.
6.Scholen também concorda com essa opinião. Segundo David Biale, (A Cabala e Contra História, Ed. Objetiva, São Paulo, 1982) a maior parte do Zhoar foi escrita por Moisés de Leon.
7. O Languedoc foi assim chamado por causa da língua falada nessa região. Era a língua occitana,também conhecida como occitânica, langue d'oc, ou provençal (em francês, langue d'oc; em occitano,lenga d'òc). Língua derivada do latim, era falada no sul da França, ao sul do rio Loire, em territórios italianos nos Alpes e algumas partes da Espanha e Portugal. A língua portuguesa arcaica sofreu muita influência do provençal. O Languedoc foi a terra dos cátaros, famosa seita gnóstica da Idade Média, cujo extermínio pela Igreja de Roma é considerado um dos maiores genocídios da História.
8. Alexandrian, História da Filosofia Oculta, citado.
9. Algumas referências bíblicas a esses amuletos podem ser encontradas em Êxodo 28:30, Levítico 8:8,Números 27:21 Deuteronômio 33:8 1 Samuel 28:6 Esdras 2:63 Neemias 7:65. Segundo os estudiosos, esses oráculos deixaram de ser usados depois da destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, mas Flávio Josefo (As Guerras dos Judeus, Vol II) diz que eles foram usados até o tempo de João Hircano (século II a,C.).
10.Que na doutrina gnóstica era conhecida pelo nome de Sofia.
11. O próprio evangelista João, tido por muitos estudiosos como gnóstico, usou a expressão Logos para referir-se a Jesus. “No princípio era o Logos (Verbo), o Logos estava com Deus e o Logos era Deus.”- João 1:1,2
12. O Talmude é o livro que contém os comentários dos rabinos sobre a interpretação da Torá e seus mandamentos (os mitsvot). São comentários que desdobram a Bíblia em conhecimentos sobre medicina, anatomia, astronomia, filosofia e outras ciências. Vem desse ecletismo o fato de a Cabala abranger assuntos tão amplos como a física, a biologia, a astronomia e outras ciências modernas.
13. Na imagem, os grandes mestres cabalistas Maimôides e Isaac Luria. Fonte: Portal da Cabala.
14. História da Filosofia Oculta, op. citado. 
15. Vide o capítulo XX deste estudo que se refere ao conceito de Guilgou Neshamot (a transmigração de almas). Moisés Cordovero (1522- 1570) foi o principal intérprete e organizador da Cabala no início da chamada Idade Moderna. Ele deu á Cabala uma estrutura de doutrina filosófica.
16. Ver nesse sentido, as obras da historiadora inglesa Frances Yates, que mostra, com muita propriedade, a influência desse tipo de pensamento sobre os filósofos da Renascença, especialmente o grande Giordano Bruno. Seus dois estudos, Giordano Bruno e a Tradição Hermética e O Iluminismo Rosacruz, são obras fundamentais para o entendimento do pensamento que inspirou a Reforma religiosa e as correntes filosóficas que a seguiram, como o Iluminismo e própria Maçonaria. Ambas foram editadas no Brasil pela Editora Cultrix. Sobre a influência do sabataísmo (corrente cabalista liderada por Sabatai Tzvi) no movimento idealista alemão e sobre o Iluminismo ver a obra já citada de David Biale, Cabala e Contra História.
17. Idem para as obras de Jung e Kafka, pags. 76, 77. Ver também Harold Bloom- Abaixo as verdadesSagradas, 2012.
João Anatalino

quinta-feira, 7 de julho de 2016




Autor João Anatalino

O salmo133


A primeira referência que um maçom encontra ao participar de uma seção em Loja Simbólica é o salmo 133.[1] Esse salmo, que é chamado “cântico de romagem de Davi” supostamente teria sido composto pelo famoso rei de Israel, quando se encontrava sitiado por tropas inimigas e precisava dar aos seus comandados uma âncora que os mantivesse unidos e lhes proporcionasse a confiança necessária para lutar pela sua pátria e a sua crença. 

O fato de os maçons terem adotado essa oração para ancorar a abertura de seus trabalhos em Loja de Aprendizes se explica pelo fato de a Maçonaria estar centrada em três fundamentos básicos que lhe dão suporte e fundamento. O primeiro é a idéia que está no núcleo central da sua própria existência como instituto cultural. Essa ideia é a de que uma ordem social perfeita só pode alcançada quando há pessoas com espíritos adequadamente preparados para implantá-la e, principalmente, para defendê-la e preservá-la. 

Essa ideia só pode ser realizada através da união entre as pessoas mais preparadas e comprometidas com a ordem social. É uma união que se faz “interpares” e que se realiza através da estratégia da Confraria. É nesse sentido que a invocação ao Salmo 133 realiza esse propósito: “Como é bom e agradável viverem Irmãos em harmonia. É como o óleo precioso, que unge a cabeça de Aarão, do qual escorrem gotas para sua barba, e daí para suas vestes. É como o orvalho do Hermon, que vem cair sobre as montanhas do Tsión, como bênçãos ordenadas pelo Eterno. Sejam elas perpetuadas em sua vida”.[2]

Isso quer dizer que todos os maçons são iguais e entre eles deve reinar a harmonia. Por isso, a virtude da Confraria, que se traduz na congregação dos Irmãos reunidos em Loja se realiza no simbolismo desse salmo, que consagra a união fraternal.
Na luta por um ideal, no respeito por uma crença, na confiança da realização de um objetivo.

A cadeia da União

O segundo fundamento é a prática que resulta da aplicação da Cadeia da União. Essa prática concita os membros da Confraria maçônica a se unir para servir a sociedade, como se esta fosse a sua própria família. Aqui está implícita a virtude da Fraternidade, que é outra divisa consagrada pela Ordem. É esse espírito fraterno, simbolizado no próprio ambiente gerado pela Loja que resulta em uma egrégora, captando e distribuindo entre os Irmãos a energia que ali circula. Daí a oração final, de encerramento das seções, fechando a Loja Simbólica.[3]

─ Ó Gra .·. Arq .·. do Univ.·., fonte fecunda de Luz, de Felicidade e Virtude, os OObr.·. da Arte Real, congregados neste Augusto Templo, cedendo aos movimentos de seus corações, Te rendem mil graças e reconhecem que a Ti é devido todo bem que fizeram. 
─ Continua a nos prodigalizar os Teus benefícios e a aumentar a nossa força, enriquecendo as nossas CCl .·. com OObr.·. úteis e dedicados.

─ Concede-nos o auxílio das Tuas Luzes e dirige os nossos trabalhos á perfeição. Concede que a Paz, a Harmonia e a Concórdia sejam a tríplice argamassa com que se ligam as nossas obras.[4]

E por fim a instituição, que é a própria organização conhecida como Maçonaria, pessoa jurídica organizada a nível internacional, que congrega milhões de cidadãos em todas as partes do mundo, irmanados por uma promessa, um código de conduta, uma tradição mística e um ideal comum, que é a defesa da Liberdade, da Igualdade entre as pessoas e a Fraternidade entre os povos do mundo. Essa proposta está consagrada nas palavras finais de encerramento dos trabalhos da Loja Simbólica do Aprendiz, através da pergunta feita pelo Venerável Mestre ao Primeiro Vigilante e da consequente resposta deste:

─ VEN.·. Para que nos reunimos aqui?

─ 1º VIG .·. Para combater o despotismo, a ignorância, os preconceitos e os erros. Para glorificar a Verdade e a Justiça. Para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando templos á virtude e cavando masmorras ao vício.[5]

Essa tradição está fundamentada na Bíblia. Em Êxodo, 28, 1:2, encontramos a informação de que Moisés consagrou o Tabernáculo na forma como o Grande Arquiteto do Universo lhe havia ordenado, santificando depois a Aarão e seus filhos como primeiros Sumos Sacerdotes de Israel. Depois espargiu sobre a cabeça de Aarão o óleo precioso, que escorreu para suas vestes, descendo ate ás orlas do seu vestido. Assim, na sagração do Tabernáculo e na unção do seu sacerdote, consumou-se a União que doravante deveria existir entre Jeová e seu povo, União essa que seria sacramentada toda vez que o povo eleito se reunisse em Assembleia. Nesse cerimonial, presidido por Moisés no deserto, aconteceu, pois, a instituição da Loja israelita, com todo o sentido simbólico que ela representa. Os maçons, no simbolismo do seu ritual, nada mais fazem do que evocar a mística dessa cerimônia para consagrar a reunião da sua própria Loja.


A força da egregóra

Essa é a disposição que também encontramos no estudo e na prática da Cabala. Como diz M. MacGregor Mathers, no preâmbulo da Kabbalah Revelada, de Von Rosenroth: “Grande importância é dada ao ideal de fraternidade. A potência da fraternidade sempre foi um fato essencial em uma ordem oculta, separada do seu ideal altruísta; há também o espiritual e o físico. Qualquer quebra na harmonia de um círculo permitirá a entrada de uma força oposta. Um espiritualista experiente testemunhará a favor da verdade desta afirmação.” [6]

Quer dizer: tanto na Cabala, quanto na Maçonaria, é a força da egregóra que leva o grupo á consecução do seu objetivo. O processo assim o exige, pois como já anteriormente declarado, a lei que rege a formação do universo é a Lei da União.[7]

A Cabala explica esse simbolismo da seguinte forma: a barba do Macroprosopo (Deus manifestado como realidade física) simboliza o fluxo de energia que nasce na primeira sefirá e percorre toda a Árvore da Vida (símbolo do universo), unificando a totalidade das realidades existentes no mundo.[8) Como se sabe, a Árvore Sefirótica, desenho mágico-filosófico com a qual os cabalistas explicam a formação do mundo é uma representação simbólica do universo como realidade macro e projeta o seu reflexo no homem como realidade micro. Por outro lado, sabemos que a palavra barba, em hebraico se escreve Hachad. Por aplicação da técnica chamada guematria essa palavra, quando decomposta em suas letras, tem valor numérico igual a 13. (A=1, CH=8, d=4 = 13). Esses valores correspondem às partes da barba do Macroprosopo, também chamado de Andrógino Superior, Vasto Semblante e Adam Kadmon, imagem usada pelos mestres cabalistas para designar a Energia Divina que se espalha pelo espaço cósmico, gerando a realidade que nós conhecemos como Universo. Na Siphra Dtzeniovtha, (O Livro do Mistério Oculto, parte do Sefer há Zhoar, Bíblia cabalista), se diz que “da barba, menciona-se que não é feita nem criada. Esta é o ornamento do todo. Ela procede dos ouvidos e tem o aspecto de uma circunferência que se expande constantemente pelo espaço aberto, enquanto seus caracóis sobem e descem. Está dividida em treze partes que pendem com treze adornos.” [9]
Nesse estranho e enigmático texto os mestres cabalistas querem dizer que a barba do Macroprosopo é a energia que unifica o total existente no Cosmo, fazendo dessa totalidade dispersa uma unidade, ou seja, umUniverso. Ela procede do ouvido porque o universo é feito através das combinações das letras do alfabeto sagrado (o hebraico) e o Nome Inefável de Deus. Tem o aspecto de uma circunferência porque esta é a forma geométrica que o Grande Arquiteto do Universo escolheu para dar formato ao universo físico. Essa é uma das razões de a Maçonaria ter na Geometria um dos objetos do seu cullto. É circunferência que se expande pelo espaço aberto, exatamente como faz o universo físico em sua expansão. Caracóis que sobem e descem são as ondas e partículas, formas de energia com a qual a matéria universal é produzida. As treze partes são os doze signos do Zodíaco, pelos quais a ciencia antiga dividia o universo, mais a parte sutil, o Pleroma, o espaço divino, de onde tudo emerge.

Sendo a energia que unifica ela (a barba do Macroprosopo) é a argamassa que dá liga ao mundo para que ele se torne um organismo único. É o símbolo da União. Para os antigos israelitas a invocação desse salmo designava o espírito de unidade e a fraternidade que devia imperar entre o povo de Deus. Essa Irmandade era simbolizada pela barba de Aarão, cujo corpo era tido como uma imagem da Árvore da Vida, na qual o fluxo da energia divina percorria desde a cabeça (a sefirá Kether) até a orla dos seus vestidos, ou seja, os pés, representados pela sefirá Malkuth ( o universo físico ). 
Assim, o Salmo 133, na verdade, é um simbolismo que está centrado em um segredo arcano de extraordinário significado e a Maçonaria, ao adotá-lo na abertura de suas Lojas não está apenas contemplando a ideia da Fraternidade pura e simples, mas realizando o objetivo cósmico de integração total de todas as emanações da energia divina. Trata-se, na verdade, de um mantra poderoso, uma âncora fundamental para o eliciamento da energia cósmica necessária para a formação da egrégora maçônica.

Que os Irmãos, ao ouvirem o Orador pronunciá-lo na abertura de suas reuniões tenham em mente essa informação, para melhor aproveitamento espiritual dessa invocação.


[1] A Loja Simbólica se refere ás seções previstas para os três primeiros graus, ou seja, os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
[2] Texto conforme a Bíblia Hebraica, traduzida Por David Gorodovits e Jairo Fridlin- Editora e Livraria Sefer Ltda. São Paulo, 2015. Para uma interpretação mais pormenorizada do simbolismo do salmo 133, ver a nossa obra “ O Tesouro Arcano”, publicada pela Editora Madras, 2013.
[3] Egrégoros, do grego “egrêgorein” são esferas de energia, emanadas dos pensamentos emitidos pelos indivíduos agrupados e ligados mentalmente por um objetivo comum. Aqui o termo é usado como símbolo de corrente energética.
[4] Cf. o Ritual do Aprendiz. As abreviações seguidas de três pontos se referem á Deus (O Grande Arquiteto do Universo) e á Colunas e Obreiros, que se referem á Maçonaria e seus membros, no jargão maçônico. 
[5] Idem, Ritual do Aprendiz.
[6] A Kabbalah Revelada- Ed. Madras, 2004
[7] Por isso o simbolismo da “Cadeia da União” que é renovada a cada seis meses, através da transmissão da palavra semestral.
[8] As sefirots (no singular sefirá) são esferas de energia segundo a qual Deus se manifesta para formar o universo físico. São em número de dez e constituem o que, na Cabala, se chama a Árvore Sefirótica, ou Árvore da Vida. São várias as formas de escrever essa palavra em português. Neste trabalho usamos a forma adotada no livro” Cabala e seu Simbolismo”, de Gerson G. Shollen, traduzido por Hans Borger e J.Guinbusrg, publicado pela Ed. Perspectiva, São Paulo 2015.
[9] A Kabbalah Revelada, citado, pg. 89.
João Anatalino

domingo, 26 de junho de 2016


A teologia da aritmética


Site Bibliot3ca

Tradução: S.K.Jerez


Qual é a importância do número? Qual é a importância da aplicação do número aos fenômenos, ou seja, contar?

Quais são os problemas com o número? Quais são os problemas da aplicação numérica aos fenômenos, ou seja, contar?

Qual é a vantagem de um relato numérica? O que pode ser feito com o número que não pode ser feito de outra forma?

Qual é a vantagem de relatos imagéticos ou narrativas?

Filolau, em Estobeu 1.3.8 ( DK11 )

O poder, a eficácia e a essência do número são vistos na Década; ela é grande, ele realiza todos os seus propósitos e é a causa de todos os efeitos. O poder da Década é o princípio e guia de toda a vida, divina, celestial ou humana em que se insinua; sem ela tudo é ilimitado, obscuro e furtivo. De fato, é a natureza do número que nos ensina a compreensão, que nos serve como um guia, e nos ensina todas as coisas que de outro modo ficariam impenetráveis e desconhecidas para todos os homens. Pois não há ninguém que poderia ter uma noção clara sobre as coisas em si mesmas, nem em suas relações, se não houvesse Número ou – essência Numérica. Por meio de sensação, o Número instila uma determinada proporção, e assim estabelece entre todas as coisas relações harmónicas, análogas à natureza da figura geométrica chamada gnomon; incorpora razões compreensíveis de coisas, separa-nas, individualiza-as, tanto coisas limitadas quanto ilimitadas. E não é só em assuntos relativos à daimons ou Deuses que você pode ver a força manifestada pela natureza e poder do Número, mas em todas as suas obras, em todos os pensamentos humanos, em toda parte, de fato, e até mesmo na produção de artes e música. A Natureza e a Harmonia não têm número, pois o que é falso não tem parte em sua essência e o princípio do erro e da inveja é impensado, irracional, de natureza indefinida. Nunca poderia o erro cair na Natureza, porque sua natureza é hostil a ela. A verdade é o caráter próprio, inato do Número.


Alexandre Polistor, em Diógenes Laércio VIII.24 -25

Este princípio de todas as coisas é a mônada ou unidade; decorrente desta mônada, a díade ilimitada ou dois serve como substrato material à mônada, que é causa; a partir da mônada e da díade ilimitada surgem os números; a partir de números, pontos; a partir de pontos, linhas; a partir de linhas, figuras planas; a partir de figuras planas, figuras sólidas; a partir de figuras sólidas, corpos sensíveis, os elementos dos quais são quatro, fogo, água, terra e ar; estes elementos intercambiam e se transformar um no outro completamente, e se combinam para produzir um universo, animado, inteligente, esférico.

Macróbio, em Comentário sobre Sonho de Cipião de Cícero I.vi.7 -8, 10-11 

O um é chamado monas, que é a Unidade, e é tanto masculino quanto feminino, par e ímpar, não é um número em si, mas a fonte e origem dos números. Esta mônada, o princípio e o fim de todas as coisas, embora ela mesma não conheça um começo ou fim, refere-se ao Deus Supremo… Não se incomode com o fato de que, embora a mônada parece superar todos os números, é especialmente louvável em conjunto com sete: a mônada incorrupta não é acompanhada com qualquer outro número mais apropriadamente do que com a Virgem. A reputação da virgindade cresceu tanto sobre o número sete, que é chamado de Pallas (Athena). Na verdade, ele é considerado virgem, porque, quando dobrado, não produz nenhum número abaixo de dez, sendo este último verdadeiramente o primeiro limite dos números. É Pallas porque nasce apenas da multiplicação da mônada, assim como se diz que Minerva só nasceu de um dos pais.

Pseudo-Iâmblico, em Teologia da Aritmética 13-14

Da divisão em dois, eles chamam a díade de ‘Justiça’ {dikê} (como se fosse ‘dicotomia’ {dikhê}, e a chamam de Isis, não só porque o produto de sua multiplicação é igual {ison} à soma de sua adição, como dissemos, mas também porque só ela não admite divisão em partes desiguais. E eles chamam de Natureza, uma vez que é o movimento no sentido de ser e, como se fosse uma espécie de vir-a-ser e extensão de um princípio semente. … Eles também a chamam de Diometor, a mãe de Zeus (eles disseram que a mônada era Zeus) e Rhea, após o seu fluxo e extensão, que são as propriedades tanto da díade quanto da Natureza, que está em todos os aspectos vindo a ser. E dizem que o nome díade é adequado para a lua, tanto porque ela admite mais definições {duseis} do que qualquer dos outros planetas, e porque a lua é reduzido pela metade ou dividido em dois.

Platão, em A República VIII 529b – 530c

[ 529B ] E atrevo-me a dizer que, se uma pessoa estivesse jogando a cabeça para trás e estudando as vigas do teto, você ainda acharia que sua mente foi a perceptora, e não os olhos. E muito provavelmente você está certo, e eu posso estar sendo um tolo: mas, na minha opinião, aquele conhecimento sozinho, que é do ser e do invisível, pode fazer a alma olhar para cima, e se um homem boceja aos céus ou pisca ao chão, procurando aprender algum sentido em particular, eu negaria que ele pode aprender, porque nada desse tipo é matéria de ciência; sua alma está olhando para baixo, não para cima, [529c] seja o seu caminho para o conhecimento por água ou por terra, quer ele flutue quer esteja deitado de costas. Eu reconheço, disse ele, a justiça de sua repreensão. Ainda assim, eu deveria verificar como a astronomia pode ser aprendida por qualquer forma mais adequada àquele conhecimento do qual estamos falando. Vou dizer-lhe, respondi: o céu estrelado que contemplamos é feito sobre um fundo visível e, portanto, apesar de ser a mais bela e [529d] mais perfeita das coisas visíveis, deve necessariamente ser considerado inferior até para os verdadeiros movimentos de rapidez absoluta e lentidão absoluta, que são relativos um ao outro, e transportar com eles o que está contido neles, em número verdadeiro e em todos os números verdadeiros. Agora, estes devem ser apreendidos pela razão e inteligência, mas não pela visão. Verdade, replicou ele. Os céus salpicados de luzes devem ser usados como um padrão e como uma visão do conhecimento superior; [529e] sua beleza é como a beleza de figuras ou imagens excelentemente forjadas pelas mãos de Dédalo, ou algum outro grande artista que tenhamos oportunidade de observar; qualquer geômetra que os visse apreciaria o requinte de sua obra, mas nunca sonharia em pensar que nelas poderia encontrar o verdadeiro [530a] igual ou o verdadeiro duplo, ou a verdade de qualquer outra proporção. Não, respondeu ele, tal idéia seria ridícula. E não terá um verdadeiro astrônomo o mesmo sentimento quando olha para os movimentos das estrelas? Não pensará ele que o céu e as coisas no céu são emolduradas pelo seu Criador da maneira mais perfeita? Mas ele nunca imaginará que as proporções de noite e dia, ou deles com o mês, ou do mês com o ano, ou [530b] das estrelas com eles e umas com as outras, e quaisquer outras coisas que são materiais e visíveis também podem ser eternas e sem qualquer desvio – o que seria absurdo; e é igualmente absurdo sofrer tantas dores ao investigar sua verdade exata. Concordo plenamente, embora nunca tenha pensado nisso antes. Então, disse eu, na astronomia, como na geometria, devemos empregar os problemas e [530c] deixar os céus por sua conta, se quisermos abordar o assunto da forma correta e assim fazer com que o dom natural da razão seja de real utilidade.

Platão, em A República X 616b – 617d

Cada grupo passava sete dias na planície. Ao oitavo, devia levantar o acampamento e pôr-se a caminho para chegar, quatro dias mais tarde, a um lugar de onde se via uma luz direita como uma coluna estendendo-se desde o alto, através de todo o céu e de toda a terra, muito semelhante ao arco-íris, mas ainda mais brilhante e mais pura. Chegaram lá após um dia [616c]de marcha; e aí, no meio da luz, viram as extremidades dos vínculos do céu, porque essa luz é o laço do céu: como as armaduras que cingem os flancos das trirremes, mantêm o conjunto de tudo o que ele arrasta na sua revolução. A essas extremidades está suspenso o fuso da Necessidade, que faz girar todas as esferas; a haste e a agulha são de aço, e a roca, uma mistura de aço e outras matérias. É a seguinte a natureza da roca: quanto à forma, assemelha-se [616d] às deste mundo, mas, segundo o que dizia Er, deve-se representá-la como uma grande roca oca por dentro, à qual se ajusta outra roca semelhante, mas menor, do modo como se ajustam umas caixas às outras, e, igualmente, uma terceira, uma quarta e mais quatro. Com efeito, há ao todo oito rocas inseridas umas nas outras, deixando ver no alto os seus bordos circulares [616e] e formando a superfície contínua de uma única roca em torno da baste, que passa pelo meio da oitava. O bordo circular da primeira roca, a que fica no exterior, é o mais largo, depois seguem esta ordem: na segunda posição, o da sexta; na terceira posição, o da quarta; na quarta posição, o da oitava; na quinta, o da sétima; na sexta, o da quinta; na sétima, o da terceira e na oitava, o da segunda. O primeiro círculo, o maior de todos, é o mais cintilante; o sétimo [ou sol] brilha com o mais vivo esplendor; o oitavo [ou da lua] [617a] tinge-se da luz que vem do sétimo; o segundo e o quinto [Saturno e Mercúrio], que têm mais ou menos a mesma tonalidade, são mais amarelos que os anteriores; o terceiro [Vênus] é o mais branco de todos; o quarto [Marte] é avermelhado; e o sexto [Júpiter] é o segundo mais alvo. Todo o fuso gira com um mesmo movimento circular, mas, no conjunto arrastado por este movimento, os sete círculos interiores realizam lentas revoluções de sentido contrário ao do todo. Destes círculos, o oitavo é o mais rápido, [617b] depois seguem-se o sétimo, o sexto e o quinto, que ocupam a mesma posição em velocidade; nesta mesma ordem, o quarto ocupava a terceira posição nesta rotação inversa; o terceiro, a quarta posição, e o segundo, a quinta. O próprio fuso gira sobre os joelhos da Necessidade. No alto de cada círculo está uma Sereia, que gira com ele fazendo ouvir um único som, uma única nota; e estas oito notas compõem em conjunto uma única harmonia. [617c]Três outras mulheres, sentadas ao redor a intervalos iguais, cada uma num trono, as filhas da Necessidade, ou seja, as Moiras, vestidas de branco, com a cabeça coroada de grinaldas. Elas cantam acompanhando a harmonia das Sereias, e são três: Láquesis canta o passado, Cloto, o presente, e Átropo, o futuro. E Cloto toca de vez em quando com a mão direita no circulo exterior do fuso, para fazê-lo girar, enquanto Átropo, com a mão esquerda, faz girar os círculos interiores. Quanto a Láquesis [617d], toca alternadamente no primeiro e nos outros, com uma e outra mão.

quinta-feira, 23 de junho de 2016





O SEGREDO DA MAÇONARIA

Autor: João Anatalino

O método da Maçonaria


O que se busca no ensinamento maçônico é a iluminação. Esse é o elo existente entre a prática da Arte Real e os antigos Mistérios arcanos. É nesse sentido que a Maçonaria pode ser considerada como herdeira da cultura simbólica dos antigos povos que cultuavam os arquétipos hospedados no inconsciente coletivo da humanidade sem o saber, e dos fenômenos e forças da natureza faziam seus deuses, erguendo para eles suntuosos templos.

Não há na Maçonaria um modelo filosófico a ser seguido nem uma orientação religiosa imposta como paradigma. Por essa razão os fundamentos da sua prática estão assentados em símbolos, lendas e alegorias, e sua aprendizagem se dá através do método iniciático. Esse método exige do seu praticante um espírito aberto e avesso a dogmas, já que ele terá que trabalhar com temas esotéricos e exotéricos ao mesmo tempo, ora tratando-os pragmaticamente como orientação para a vida prática, ora especulativamente como orientação espiritual, mas nunca sem perder o senso de realidade e utilidade que tais temas encerram para a realização do aprendizado.

Método iniciático, ou psicológico é aquele segundo o qual os ensinamentos não são dirigidos à razão do aprendiz, mas ao seu inconsciente. Por isso, o catecismo maçônico não segue a organização epistemológica própria de uma ciência ou doutrina, como seria de praxe em qualquer forma de aprendizado. O aprendiz maçom deve participar desses ensinamentos através de repetidas iniciações, que têm como objetivo "impressionar” o seu espírito e levá-lo, mais a “sentir” o ensinamento, do que propriamente compreender a sua lógica.

O método iniciático é próprio para o ensino das doutrinas esotéricas. Ele é muito utilizado no estudo da filosofia, para estimular a mente na obtenção dos chamados insights (descobertas, iluminação), que são súbitas manifestações do nosso inconsciente, que levam para o consciente a notícia de conhecimentosque ali estão armazenados sem que deles tenhamos nos apercebido. O exemplo mais perfeito de ensino pelo método iniciático é o budismo zen, onde a quase totalidade da doutrina é transmitida através dekoans, tipo de mensagem dirigida ao inconsciente do aluno. Uma forma bem elaborada de koan é a fórmula poética conhecida como haikai, onde o poeta, em três versos livres, com dezessete sílabas, exprime um insight.[1]


A necessidade da Iniciação


O método iniciático, como o próprio termo revela, é aquele que exige uma iniciação. Diferente das disciplinas acadêmicas, onde a mente do estudante é submetida a um conjunto lógico de conhecimentos encadeados, aqui é o inconsciente do estudante que é alimentado por uma série de informações codificadas em símbolos, alegorias, mensagens cifradas, parábolas e outras formas de linguagem, algumas delas não verbais, como os ritos e cerimônias que são praticados em sociedades como a Maçonaria, e nas mais diversas formas de religião.

Todas as religiões têm a sua forma de iniciação: batismos, purificações, viagens simbólicas, ritos de admissão e passagens de grau, etc. Todas essas práticas nada mais são que fórmulas ritualísticas diversas que visam abrir a porta da mente do iniciado para os conteúdos sutis do ensinamento que ele vai receber.

E seja qual for a forma de iniciação, ela contém elementos que são comuns a todas as crenças, pois elas provém de uma mesma origem e servem a uma finalidade semelhante, que é impressionar o espírito do praticante, preparando-o para ser o recipiendário de um conhecimento que se fundamenta mais na sua sensibilidade do que na razão. Aliás, uma crença que precisa ser fundamentada não é crença, mas filosofia. Um ritual que precisa ser explicado não é ritual, mas técnica.


A morte ritual


Todas as antigas iniciações começavam com uma morte ritual, que encerrava uma visita à escuridão total, para que dela o iniciando pudesse renascer como semente fecundada pelos raios solares, pronta para iniciar uma caminhada em direção à luz.

Porque essa era a idéia, extraída da observação da natureza, que os antigos mestres do conhecimento arcano faziam do processo que dá origem à vida: uma semente é posta no útero da terra, como se fosse um corpo posto em sepultura; ali ela é regenerada pelos nutrientes da terra e a ação do calor do sol; recomposta, ela atravessa a escuridão começando uma jornada em busca da luz. Para a vida encerrada na semente, brotar significa sair para a luz do sol, ou seja, reviver. O homem novo, renovado, renascido em função da nova crença, é um Lázaro ressuscitado das trevas, que vence a morte psíquica, reencarnando para uma nova vida.[2]

Segundo antigas tradições, a prática da iniciação começou em eras anteriores a atual raça adâmica (que é a nossa), com os atlantes. Quando a degeneração daquela raça ocorreu, os sábios daquele povo resolveram ocultar do vulgo os grandes segredos que fizeram o esplendor daquela civilização e somente comunicá-los a poucos escolhidos, que se mostraram dignos de compartilhar deles. Os grandes heróis dos mitos vedantas, gregos, babilônicos, judaicos e outros, foram alguns desses escolhidos. Depois os Mistérios da Iniciação foram trazidos da Atlântida pelos arianos e incorporados à tradição de vários povos, entre os quais os hindus, os egípcios, os caldeus e outros povos antigos.[3]

Nos tempos pré-históricos, a iniciação não comportava nenhum dogma e não tinha qualquer relação com temas escatológicos. Eram praticados através de festivais populares, que chegaram até nós através dos ritos conhecidos como Mistérios.[4] No entanto, tais Mistérios constituíam a verdadeira religião daqueles povos, ou seja, uma disciplina metafísica (no sentido filosófico) e religiosa ao mesmo tempo, na qual se procurava reproduzir os processos naturais pelos quais a divindade se manifesta no mundo da matéria física. Era uma imitação da atividade dos deuses na produção dos eventos naturais. Com o passar dos tempos, a prática dos Mistérios deixou de ser apenas uma manifestação de religiosidade arcana e laicizou-se, invadindo o território da cultura popular e do próprio sistema educacional. É assim que vamos encontrar no antigo Egito, entre os povos da Mesopotâmia e na Índia dos brâmanes, e depois na Grécia clássica, Os Grandes Mistérios funcionando como escola de formação de líderes, onde se ensinavam as ciências, as artes, a filosofia, o direito, a medicina, e principalmente o respeito pela grande Mãe Natureza. Os templos aos deuses que presidiam esses Mistérios passaram a funcionar como verdadeiras universidades onde o saber acumulado por essas sociedades era desenvolvido e preservado.

Tudo quanto de bom, nobre e verdadeiro há na natureza humana, seja em termos de virtudes éticas e morais, seja como aspirações divinas, era cultivado pelas antigas sociedades iniciáticas em seus Mistérios. Daí o fato de essas antigas práticas, que no início eram essencialmente religiosas, se tornarem verdadeiras instituições, venerada pelos povos e consagrada pelos estados onde eram praticadas. Essa é a razão de os Antigos Mistérios remanescerem nos ritos praticados pela Maçonaria como memória de um tempo em que as Grandes Luzes da raça humana eram os iniciados nessas práticas. Como herdeira dessas antigas tradições, a ciência maçônica visa salvaguardar essa conquista cultural do espírito humano, imitando, no quanto ainda é possível, essas instituições. Daí o simbolismo de seus rituais, cujo verdadeiro significado, muitas vezes é ignorado até pelos seus próprios praticantes.

Uma jornada em busca da Luz

Da mesma forma que a nossa existência como seres humanos tem o seu início com a abertura dos olhos para o mundo, iluminado pelo sol, a verdadeira vida do espírito também começa no momento em que os nossos olhos são feridos pela luz do nosso próprio sol interior. Até então temos um espírito que habita em uma caverna, em meio á trevas, e como na metáfora de Platão, ele é como uma semente que não emergiu para a vida. Tudo que ele conhece são apenas sombras dos seus próprios pensamentos. Somente quando ele deixa a caverna e recebe a luz do sol é que passa a ter conciência de si mesmo e de tudo que o rodeia. Isso é iluminação.

Em consequência, a vida, tanto da carne, quanto do espírito, é o resultado do nosso encontro com a luz. Essa idéia estava no centro das doutrinas que informavam as religiões antigas . Por isso iremos encontrar em todas essas manifestações espirituais a busca desesperada pela luz, e como consequência desse anelo, o culto áquele que a gera, o Sol. Assim, o Sol tornou-se a deidade central em todas essas crenças, razão pela qual esses cultos são chamados cultos solares.

No Egito antigo, por exemplo, essa idéia envolvia não só as crenças religiosas do país, mas tinha implicações políticas e sociais importantes. O faraó era considerado o Filho do Sol. Seu poder não vinha de nenhuma relação política e hierárquica temporal, mas do próprio astro rei, (o deus Rá), por isso seu poder era supremo. Daí o caráter teocrático do seu governo e a duração extremamente longa da instituição faraônica, que sobreviveu enquanto a crença nos poderes do Sol e na transmissão desse poder aos seus filhos na terra encontrou adeptos.

Nos Upanixades, um dos livros sagrado da religião hindu se diz que o sol é o pai da vida e a lua a sua mãe. Da união dos dois nasceu a Criação. O filósofo Aristóteles também dizia que “o homem e o sol geram a vida”, emprestando assim a sua respeitada opinião ao culto do mito solar. Até o Cristianismo, embora seus teólogos tentassem apagar os traços da sua origem solar, sofreu a influência dessas ideias arquetípicas. Jesus, para algumas seitas gnósticas, era considerado uma divindade solar. Sua identificação com o Sol aparece principalmente no Evangelho de João onde se afirma que Jesus é a Luz do mundo.[5]

A própria Igreja Católica se aproveitou das tradições cultivadas pelas religiões solares para firmar alguns dogmas e datas do Cristianismo. O dia 25 de dezembro, dado como sendo o dia do nascimento de Jesus, é uma data que tem correspondência em várias religiões solares, como por exemplo, o Mitraísmo, que tem esse dia como sendo o dia do nascimento de Mitra.[6]Na religião egípcia essa data também corresponde ao nascimento de Hórus, o filho de Isis e Osíris; na religião hindu, ela corresponde à data do nascimento do deus Krishna, etc. Todos esses deuses, coincidentemente, foram concebidos e nasceram de forma miraculosa, semelhante à que foi atribuída a Jesus.

É oportuno também lembrar que em certos círculos teológicos antigos, Cristo era um ser solar e seus discípulos simbolizavam os doze signos do zodíaco. Assim, o arquétipo inspirador do personagem Jesus Cristo não era uma intuição puramente judaico-cristã, como comumente se pensa, mas uma tradição compartilhada por quase todos os antigos povos. E foi essa identificação com o mito solar, e o fato de a figura do Cristo ser uma noção compartilhada pelo Inconsciente Coletivo da humanidade que ajudou os doutrinadores cristãos a fazer do Cristianismo uma religião, muito popular no Império Romano. Daí a tese, defendida principalmente por historiadores alemães, de que o verdadeiro fundador do Cristianismo é o apóstolo Paulo. Quando Jesus fracassou como o Messias judeu, dizem esses historiadores, Paulo pegou a sua experiência e desenvolveu uma doutrina nova, fundindo a tradição judaica do Messias com a idéia do Cristo universal, um arquétipo que os filósofos neoplatônicos tinham idealizado como catalizador das forças cósmicas, para levar o mundo á salvação, como antes já havia sido pregado por Zoroastro e pelos adeptos da doutrina de Mitra.

Como essa idéia tinha uma similitude bastante próxima à doutrina pregada por Jesus, não foi difícil ao arguto rabino de Tarsus criar uma nova e instigante teologia, e assim torná-la palatável à grande maioria dos povos do Império Romano.

Dessa forma, o Cristianismo, em sua origem e no seu fundamento escatológico, também é um culto solar.


A pedra filosofal dos maçons

O simbolismo da busca pela Luz tem uma clara correspondência na prática da alquimia, onde a obtenção da pedra filosofal é a “iluminação” final do adepto. Na moderna ciência física ele também se aplica, sendo o insight do cientista o seu momento de luz. [7]

Sendo a Maçonaria a herdeira da promessa contida no escopo dessas antigas religiões, não é estranho encontrar no conjunto da suas tradições uma profusão de referências a essas duas forças da natureza, geradoras da vida, que são a Luz e o Sol. Por isso encontraremos, em todos os Templos maçônicos claras alusões a esse simbolismo, que faz do Sol o centro irradiador da luz do mundo. E na figura do Venerável Mestre, posto em seu trono, no Oriente, está a representação desse poder irradiadiante, que se reflete para todo o Ocidente, onde o mundo maçônico se realiza por força dessa "luz" que dele é refletida.

Justifica-se, dessa forma, dizer do Irmão que procura iniciação nos Augustos Mistérios maçônicos, que ele é “um pobre candidato que caminha nas trevas, e despojado de todas as vaidades, deseja receber a Luz", como consta do seus Rituais de iniciação.

E a Luz lhe é dada, pelo toque da Espada Flamígera, em presença dos Irmãos como corolário de uma jornada na qual o seu espírito venceu as trevas e despontou para um novo dia, pronto para trabalhar no canteiro de obras mais nobre da terra. Essa será a sua missão, a sua tarefa enquanto maçom.
É dessa forma que nós também vemos a escalada do maçom pela Escada de Jacó. Como diziam os adeptos da Maçonaria espiritualista praticada pela Sociedade de Thule, essa é uma experiência que o espírito humano empreende pelo Cosmo em busca pelo seu Vril particular.[8]

[1] Como nestes versos do poeta japonês Bashô (1644-1694) o rei do haikai: “Se olho atentamente/Vejo florir a flor nazuna/ Na fenda do muro.” Neste koan o poeta nos diz que é preciso estar atento para surpreender a natureza no momento exato da sua atividade criativa.
[2] É nesse sentido que entendemos as palavras de Jesus e o episódio da ressurreição de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim não morrerá.”. Essa é a razão de muitos historiadores acreditarem que a passagem referente à ressurreição de Lázaro se refere a um ritual de iniciação praticado pela seita fundada por Jesus e não um acontecimento histórico mesmo. Realmente, é estranho que um fato tão marcante como esse não tenha sido registrado pelos evangelhos sinóticos, mas apenas pelo evangelho gnóstico de João.
[3] Hércules, Gilgamés, Sansão, Aquiles, e os heróis dos Vedas, livros sagrados dos hindus, são alguns desses iniciados, escolhidos pelos deuses para compartilhar desses segredos arcanos. Sobre o sentido iniciático dos Doze Trabalhos de Hércules, veja-se o capítulo XII da nossa obra “Mestres do Universo”, publicada pela Biblioteca 24x7, 2010.
[4] Escatologia é a doutrina que trata da consumação do tempo e da finalidade da história humana.
[5] Eu sou a luz do mundo; o que me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.” João, 8,12.
[6] Na verdade, essa data corresponde ao início do solstício de inverno no hemisfério norte, que se inicia no dia 23 de dezembro.
[7] Por isso o maçom e cientista Thomas Alva Edison, inventor da lâmpada elétrica, era chamado pelos irmãos da sua Loja como um “Irmão em busca da Luz.”.
[8] Vrill é uma forma energia que algumas sociedades ocultistas acreditam existir no interior da terra e no espírito do homem. Seria a essência da sua alma, ou seja, uma força que atua no núcleo da célula e a faz desenvolver-se para exercer as funções que lhe cabe. Seria algo semelhante á noção desenvolvida pela filosofia de Aristóteles, que ficou conhecida como "enteléquia", a nossa energia interior. A famosa Sociedade Thule, seita ocultista que supostamente teria orientado Adolf Hitler e incutido na sua mente febril a doutrina da superioridade da raça ariana teria desenvolvido pesquisas e ritos no sentido de capturar e utilizar essa energia para finalidades práticas. Daí a imensa potencialidade energética dos " guerreiros" nazistas, que não se detinham diante de nenhum obstáculo físico nem moral para a realização de seus objetivos.

João Anatalino

quinta-feira, 16 de junho de 2016



FRAGMENTOS DE HISTÓRIA DA MAÇONARIA (DIVAGAÇÕES)



Texto: José Roberto Cardoso - MI GLMDF

Às vezes viajamos na busca das origens da maçonaria e vamos encontrá-la na mais remota organização humana.

Não se trata da maçonaria que temos notícia com os operativos, nem a aristocrática que antecede a revolução francesa e nem mesmo da atual maçonaria especulativa.

Trata-se, contudo, de suas raízes nas brumas da existência.

Quando lemos sobre as tábuas de argila dos sumerianos vemos o relato da construção da Torre de Babel e uma organização de trabalhadores que caracteriza o cerne da maçonaria que é a fraternidade e a solidariedade humana.

Em Deir El-Medina, no Vale dos Reis, onde ficavam os trabalhadores das pirâmides foram encontrados documentos e instrumentos que já davam a primeira ideia do que seria mais adiante a maçonaria operativa.

Além do que os Egípcios dominavam o conhecimento da aritmética, da astronomia, da geometria, ciências utilizadas na construção e que vão legar a seus sucessores os instrumentos que conhecemos.

Um desses Egípcios, de nome Imhotep viveu entre os anos de 2.690 a 2.610 a. C e foi um sábio e erudito egípcio que se aprofundou nos estudos da medicina e astronomia, antes de converter-se no primeiro arquiteto conhecido da história. Chegou a ser Sumo Sacerdote de Heliópolis e desenhou a Pirâmide escalonada de Saqqara para o Faraó Zoser.

A importância de Imhotep como médico pode ser vista em seus ensinamentos transcritos para um papiro onde ele falava de todo tipo de tratamentos para doenças com receitas farmacológicas embora naquela época a medicina e a magia se misturavam com resultados às vezes não muito bons para os pacientes.

Além do que cultuavam o sol e nos legaram o famoso zodíaco de Dendera.

É bom que se saiba que na história sumeriana o colonizador e fundador do Egito foi um deus sumeriano de nome Ptah e que levou para a região o conhecimento dos antigos sumerianos que como já dissemos no início erguiam zigurates à exemplo da Torre de Babel, de forma piramidal.

Quando vemos a maçonaria moderna dificilmente vislumbramos o seu mais remoto passado, mas isso é importante como narrativa histórica e para que possamos, vez por outra, nos inspirarmos e lembrarmos das nossas tradições.

Essas primeiras civilizações foram contaminando outras e formando um cadinho onde se derramava os conhecimentos das primeiras sociedades secretas que se inspiravam no drama de Isis, Osiris, Horus, repetindo em tríades a mesma história com nomes das personagens diferentes e que, mais adiante, irão inspirar a lenda do Mestre Maçom.

Dentro desse espaço de milhares de anos haverá sempre um campo muito fértil para a divagação e, para aqueles que são sonhadores, encontrarão uma boa fonte de inspiração.

O que sabemos é que os egípcios trabalhavam as pedras, eram “pedreiros” na acepção da palavra, conheciam a organização do estado e a previdência, herdaram dos sumerianos códigos de leis, conheciam a escrita, a medicina, e uma boa parte das Artes Liberais e tudo isso e mais alguma coisa são a fonte primitiva de nossa existência como maçons.

Muitos desses conhecimentos primitivos se espalharam pelo mundo e muitas vezes ficaram fragmentados tendo sido recolhidos pelos grandes conquistadores em várias partes do e isso acontece até nos dias atuais.

Essa maçonaria tão diferente irá permitir mais tarde que os ingleses a adotassem como uma espécie de clube tão popular na época da união das quatro Grandes Lojas que acolheram os Aceitos.

A Maçonaria, naquela época, era uma espécie de Clube onde a aristocracia se reunia para discutir em segredo assuntos filosóficos, científicos e políticos, motivos não muito absorvidos pelos Antigos.

A união dessas duas correntes se deu em 1813 com a criação das Grandes Lojas Unidas da Inglaterra.




A MAÇONARIA E A ALEGORIA DA TORRE DE BABEL

Autor: João Anatalino

Em Gênesis 11:1;9, encontramos a informação de que a diversidade de línguas existente na terra tem origem em uma malograda obra de maçonaria operativa. Essa teria sido uma obra intentada pelos descendentes de Cam, um dos filhos de Noé, após o dilúvio. Essa obra, que teria sido iniciada num lugar chamado Senaar, supostamente no sítio onde hoje se localizam as ruínas da antiga cidade da Babilônia, foi idealizada por um rei chamado Nenrod, referido na Bíblia como sendo o “grande caçador perante o Senhor” (Gênesis 10; 9). Era uma enorme torre escalonada, construída bem no meio da cidade, feita de tijolos de barro cozidos, usando betume por argamassa. Essa torre, segundo os cronistas bíblicos, revelaria uma intenção vaidosa dos seres humanos, pois estes queriam “tornar célebres seus nomes”. 

Historicamente, não se nega que a Torre de Babel pode ter, de fato, existido. Restos de construções do tipo citado pela Bíblia e pelos historiadores antigos que trataram desse assunto foram desenterrados em vários sítios arqueológicos do Oriente Médio, especialmente nos lugares onde se supõe que o modelo que teria servido para a história bíblica, foi erguido. São as torres conhecidas como “zigurats”, que segundo os historiadores modernos servia tanto para serviços religiosos como para observações astrológicas. 

Bem antes dos templos em que a Bíblia começou a ser compilada (provavelmente no século VII a.C, no reinado do Rei Josias, de Judá), [1] os povos habitantes da Mesopotâmia, região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque), já ostentavam uma adiantada civilização. Lá havia cidades bastante urbanizadas e populosas, tais como Ur, Eridu, Uruk e a famosa Babilônia, que já nos tempos de Heródoto era considerada a maior e mais bela cidade do mundo. Segundo esse historiador, em 440 a C, ele viu em Babilônia os restos de “uma torre sólida, feita de tijolos cozidos, de 201 metros em comprimento e largura, sobre a qual estava erguida uma segunda torre, e nessa uma terceira, e assim até oito. A ascensão até ao topo é feita pelo lado de fora, por um caminho que rodeia todas as torres. Quando se está a meio do caminho, há um lugar para descansar e assentos, onde as pessoas podem senta-se por algum tempo no seu caminho até ao topo. Na torre do topo há um templo espaçoso, e dentro do templo está um sofá de tamanho invulgar, ricamente adornado, com uma mesa dourada ao seu lado”.[2]

De uma forma geral, os historiadores concordam que a inspiração bíblica para a história da Torre de Babel deve estar nos famosos “zigurats”, enormes torres que os povos dessa região construíam para servir de templos e observatórios astrológicos, e que ainda estavam em voga nos tempos de Heródoto e Alexandre. Na literatura encontrada na famosa Biblioteca de Assurbanipal, rei assírio do século VII a C., que sitiou e destruiu o reino de Israel, são encontradas muitas referências a esse tipo de construção e sua utilização. Ali estão registradas várias lendas da literatura suméria que se referem a esse assunto. Uma delas, por exemplo, diz que Amar-Sin (2046-2037 a.C.), o terceiro monarca da Terceira dinastia de Ur, tentou construir um zigurat na cidade de Eridu, o qual nunca foi terminado. Ali se encontra também outra informação que pode ter servido de inspiração para os cronistas bíblicos, não só para o episódio da Torre de Babel, como também para a criação do personagem chamado Ninrod, que por suposto teria sido o idealizador da Torre de Babel. É a história do rei Enmerkar (conhecido como Enmer, o Caçador) rei de Uruk, que teria construído um grande “zigurat” naquela cidade. Essa história também se refere á briga entre dois deuses rivais, Enki e Enlil, que disputam as honras desse templo construído porEnmerkar, o Senhor de Aratta, e em razão disso acabam por confundir a línguas dos povos que trabalharam nessa construção.

Existem vários registros na literatura suméria e babilônica sobre esse assunto, os quais levaram os estudiosos a pensar que a inspiração bíblica vem dessas fontes. O rei Nabopolassar, por exemplo, também citado na Bíblia pelas incursões que realizou contra os judeus, é referido como sendo um grande construtor e um dos principais reis a fazer da Babilônia a cidade mais importante do mundo em seus dias. Ruínas do magnífico palácio residencial que ele construiu e do suntuoso templo para o deus Ninurta, podem ser vistas ainda hoje. Porém o seu mais ambicioso empreendimento arquitetônico foi a reconstrução do zigurat Etemenanki, conhecido como “Fundação do Céu e da Terra”, gigantesca torre escalonada que servia de templo e observatório astrológico. 

Em termos linguísticos o nome Babel é o correspondente grego do termo acadiano Bãb-ilu, que significa o “Portal de Deus”. Dai vem a conotação luciferina que a Bíblia dá á essa obra. Como pode ser constatada pela leitura da crônica bíblica, a postura adotada pelos cronistas judeus e aceita pelos comentadores da Bíblia, especialmente os compiladores da Mishná, conjunto de comentários rabínicos à Bíblia, é a de que a Torre de Babel está na raiz de uma rebelião contra Deus. Em alguns desses mishnás encontramos inclusive a idéia de que a Torre de Babel foi construída para desafiar não só o poder de Deus, mas também para contrariar Abraão, um dos principais sacerdotes da Caldéia, na época. Este vivia criticando seus pares e concitando-os a reverenciar Deus ao invés de desafiá-lo. Uma passagem da literatura rabínica que se refere a esse assunto diz que os construtores falavam palavras afiadas contra Deus. Essas palavras não foram registradas na Bíblia, mas os comentaristas informam que nessa época o céu era sacudido por Deus para provocar chuva, por isso eles iram construir essa torre e suportá-la com colunas fortes, para que ela fosse capaz de resistir a qualquer outra inundação que Deus quisesse mandar sobre a terra. Também os cronistas do Talmud e o historiador Flávio Josefo se referem á essas tradições em seus comentários à Bíblia, se referindo a Ninrod como o principal articulador dessa obra.[3]

A Torre de Babel também é referida no Apocalipse de Baruque, livro apócrifo da Bíblia, onde esse visionário profeta, á semelhança de Dante em sua Divina Comédia, vê os construtores da Torre de Babel, na forma de cães, sofrendo o castigo que Deus lhes infringia.[4]

Em antigas tradições místicas os zigurats eram vistos como portais por onde os deuses poderiam entrar na terra e pelos quais o homem poderia também entrar no céu. Eram consideradas “escadas” que ligavam a terra ao céu. Da mesma forma que os habitantes do céu poderiam vir á terra através desses portões, os homens poderiam também entrar no céu por eles, daí o temor dos Elhoins ( os verdadeiros construtores do universo e criadores do homem), de que o céu fosse invadido por essa raça degenerada, que eram os humanos gerados pelos arcanjos rebeldes que haviam sido expulsos do céu. Por isso se diz na Bíblia “vinde pois, e confundamos de tal sorte sua linguagem, para que um não compreenda o outro”. Essa fala, no plural, mostra que não foi Deus quem confundiu as línguas, mas sim um grupo de arcanjos (Elhoins), como sugere a tradição cabalística.

A ideia da existência de uma língua única na terra, nos tempos em que a Bíblia identifica a construção da Torre de Babel não é aceita pela maioria dos estudiosos. A tendência é ver esse mito como memórias de um processo de organização dos reinos mesopotâmios, os quais passaram por uma série de ascensões e quedas, com diversos povos se sucedendo no poder e as dinastias reais, cada uma procurando superar as anteriores em fausto e grandeza. Daí a construção de obras suntuosas, que, aliás, era comum entre todas as grandes civilizações do passado. Assim, um megaprojeto de construção na Mesopotâmia pode ter usado trabalho forçado de diversas populações escravizadas, pois a Babilônia, no apogeu da sua história de conquistas, dominava a maioria dos povos do Oriente médio, com suas diferentes línguas. Algumas delas eram, inclusive, não semitas, tais como a Hurrita, a Cassita, o Sumeriano, e o Elamita, que eram línguas cananeias. Provavelmente foi o desmoronamento do grande império babilônico, conquistado pelo rei persa Ciro, o Grande, em 525 a.C,. que proporcionou a derrocada da “Torre” (a Babilônia) e a dispersão dos povos que a constituíam. Dessa forma, a história da Torre de Babel teria sido inserida na Bíblia após a volta dos judeus do cativeiro da Babilônia e o chamadoEtemenanki, o zigurat dos reis babilônicos, principal santuário da “abominável religião de Babel”, foi estigmatizada pelos cronistas judeus como sendo responsável pela grande confusão de línguas existente sobre a terra.

A Bíblia não menciona o que aconteceu á Torre de Babel, mas escritores antigos de várias procedências informam que Deus a teria destruído. Relatos contidos no Livro dos Jubileus, em obras de Cornelius Alexandre, de Abydenus, e principalmente Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas 1.4.3), e os Oráculos Sibilinos (iii. 117-129) informam que Deus teria derrubado a torre com um grande vento. 

Isso mostra o quanto esse relato foi apropriado pelos cronistas judeus para justificar a sua teologia e a sua ideologia racial, sendo a primeira consubstanciada na idéia da existência de um único Deus e que seria Israel o único povo a adorá-lo. E a segunda para afirmar a supremacia do povo de Israel sobre seus vizinhos. Pois segundo os cultores dessa tradição, a língua de Israel, e o seu alfabeto, o hebraico, é uma língua criada no céu, falada pelos Elohins, os arcanjos que fizeram o homem á sua imagem e semelhança. As outras línguas seriam todas bárbaras, nascidas da “confusão” provocada pela derrocada pela Torre de Babel.

A história da Torre de Babel, como as demais lendas e tradições referidas na Bíblia, não é exclusiva dos povos mesopotâmicos, nem é a literatura bíblica a única a se referir a ela. Entre os povos da América Central existem várias histórias similares. Entre os astecas temos a história de Xelhua, um dos sete gigantes que se salvaram do dilúvio, construindo a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses a destruíram com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. Também os toltecas, povo anterior aos astecas no rol das civilizações que povoaram o antigo México, tinham uma lenda similar que dizia que os homens se multiplicaram após o grande dilúvio e começaram a erguer um alto zacuali (torre), para se abrigarem caso os deuses mandassem outro dilúvio sobre a terra. Dizem também que a torre não foi acabada porque suas línguas foram confundidas e eles foram espalhados para diferentes partes da terra.

Também na Índia, no Nepal, entre os habitantes da Estônia e os aborígenes da Austrália e da Nova Zelândia já foram recenseadas histórias similares, que mostram ser a Torre de Babel um arquétipo compartilhado pela memória comum da humanidade.

E como tudo que se refere á Bíblia, essa história também se tornou um artigo de fé. Não são poucos o que defendem a literalidade do episódio da Torre de Babel como origem das diversas línguas falada na terra. E como se diz, a história pode ser discutida, mas a fé não. 

Na antiga maçonaria operativa, era Ninrod e não Hiram Abiff o patrono da Maçonaria. A arte da construção tinha nesse mitológico rei a sua figura mais representativa. Foi provavelmente a influência da Reforma Protestante que apeou Ninrod desse pedestal, substituindo-o por Hiram Abiff, o suposto arquiteto do Templo do Rei Salomão. Referências ao construtor da Torre de Babel são encontradas em várias Old Charges, antigos manuscritos dos maçons operativos.[5]

Por fim, cabe lembrar que em termos maçônicos, o episódio da Torre de Babel é uma alegoria de grande significado iniciático. Ele se conecta, de um lado, á arte do maçom, que se refere ao seu ofício de construtor, e de outro ao significado místico da “Escada de Jacó”, já que esta é, na mística da Maçonaria, uma “escada” pela qual os anjos descem á terra e os homens ascendem ao céu. Na simbologia da Arte Real ela significa a escalada do espírito humano pelos degraus do aperfeiçoamento espiritual. Por isso ela será invocada no catecismo maçônico dos graus superiores como designativo de um importante ensinamento. 


[1] Bíblia não Tinha Razão- Finkerman e Asher, Ed. Girafa, 2003
[2] Heródoto- História- Editora Edições 70
[3] Talmud Sanhedrin 109a. Sefer ha-Yashar, Noah, ed. Leghorn, 12b
[4] Apocalipse grego de Baruque, 3:5-8
[5] Especialmente o Manuscrito Dunfries. Ver, a esse respeito, Alex Horne- O Templo do Rei Salomão na Tradição Maçônica- Ed. Pensamento, 1986

João Anatalino