sábado, 4 de junho de 2016




A MAÇONARIA E A NOVA ORDUM SECLORUM

Texto: João Anatalino

Foi o filósofo Max Weber que melhor descreveu a relação existente entre crença religiosa e o tipo de atividade econômica exercida pelos povos. Ele observou que os proprietários do capital, empresários e maioria dos trabalhadores com qualificação profissional de maior grau, professavam algum credo de origem protestante. Enquanto os católicos preferiam seguir uma orientação humanística no campo da educação, os protestantes optavam por uma educação de tipo técnico. Esse tipo de orientação acabava gerando, como ele constatou na Alemanha, uma concentração de renda nas mãos dos protestantes. Situação que até há bem pouco ainda era razão para muitos conflitos, especialmente na Irlanda, onde católicos e protestantes se matavam uns aos outros nas ruas. 

Max Weber se perguntava a razão dessa tendência dos protestantes para o racionalismo econômico e chegou à conclusão de que essa orientação provinha daquilo que ele chamou de ética protestante em relação à forma de ganhar a vida. Um exemplo dessa ética estava nas máximas de Benjamin Franklin com relação ao dinheiro: tempo é dinheiro, quem tem crédito tem dinheiro, dinheiro é produtivo, o bom pagador sempre terá crédito, o comportamento pessoal afeta o crédito, etc. É uma clara definição do credo capitalista liberal, Nestas regras ele via a manifestação de certo espírito moral ou uma ética particular, no sentido de se ter uma ideia da profissão como dever e da necessidade do indivíduo de se dedicar ao trabalho produtivo como fim em si mesmo. Algo diferente da velha tradição bíblica, adotada pela teologia da Igreja Romana, que via o trabalho como castigo dado por Deus ao homem em razão do chamado pecado original. E da equivocada interpretação da teologia católica que via na ambição um pecado capital, embora nunca a proibisse nem criticasse quando se tratava de seus papas, bispos e prelados. 

A riqueza do Vaticano e a hipocrisia do clero católico foi causa de Reforma Protestante. Isso explica, por exemplo, o fato de povos como o da Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suiça, etc, nações que ostentam uma maioria protestante, terem construído países de economia forte, alicerçadas no sistema capitalista e outras, como Espanha, Portugal, Itália, estarem patinando em termos econômicos até hoje. E a ambiguidade da França, que nunca se definiu por uma corrente ou por outra. E explica também porque Estados Unidos e Canadá são o que são e a nossa pobre América Latina ser o que é. 
Os Estados Unidos da América, país capitalista por excelência, foi construído em cima da chamada ética protestante (especialmente a chamada ética calvinista), aliada ao pensamento maçônico. Este último, se analisado exclusivamente do ponto de vista histórico-filosófico, nada mais é que uma inspiração calvinista enxertada de algum gnosticismo e uma larga dose de chauvinismo sionista.
O que aliás, também sempre esteve presente no pensamento calvinista, expresso na sua tese dos "escolhidos" de Deus. Ideias que refletiram no campo economico, como se pode ver.

Percebe-se isso claramente quando Weber analisa as raízes religiosas da forma de pensar e agir dos povos que adotaram a religião protestante, especialmente as populações que imigraram para a América do Norte. Essas raízes, Weber as identifica no "conceito de vocação” desenvolvido por Lutero, conceito esse que ele extraiu da tradução que fez da Bíblia e do termo "profissão" ou "vocação" (em alemão Beruf) que ele definiu como sendo a de uma missão dada por Deus a cada homem. Conceito que a Maçonaria moderna apropriou, diga-se de passagem, quando fez do maçom o “obreiro construtor do mundo moderno”, ideia que se traduz na metáfora “construir templos á virtude e cavar masmorras ao vício”, que constitui a divisa mais significativa da Maçonaria. 

Não é segredo para ninguém que Lutero, históricamente um místico que flertou com o movimento Rosa-Cruz, teve um papel fundamental na origem do espírito do capitalismo ao dar uma nova interpretação ao conceito do trabalho. Com isso ele trouxe a prática ascética dos monges, antes dirigida para uma vida contemplativa e puramente espiritual, para a lida cotidiana, na qual a preocupação com a economia e o bem estar social passaram a ser tão importantes quanto a própria questão espiritual. E os mosteiros, as igrejas, os conventos e demais unidades que sediavam o exercício da religião passaram a desenvolver atividades produtivas, tornando-se importantes núcleos de desenvolvimento de tecnologia e fomento das atividades econômicas. Dessa forma Lutero conferiu um valor religioso ao trabalho, ideia que, a priori, já se cultivava na antiga Maçonaria operativa, que via no exercicio da profissão de pedreiro uma forma de ascese que, mais que uma maneira de ganhar a vida, era uma atividade que elevava o espirito do seu praticante ao território da divindade. Assim, a disciplina que o monge praticava fora do mundo (ascese extramundana) passou a ser exigida de todo e qualquer leigo cristão dentro do mundo (ascese intramundana), pois segundo o próprio evangelho “todo operário era digno do seu salário”. Isso quer dizer que mais do que a conquista, pura e simples, de um lugar no mundo das coisas divinas, objeto da prática gnóstica e ideal ascético dos monges católicos, o homem devia, em primeiro lugar construir o próprio mundo em que ele vivia com seu trabalho. O anjo com asas, da tradição escolática e agostiniana foi substituido pelo trabalhador qualificado com suas mãos e ferramentas de trabalho. 

É nesse sentido que a Reforma protestante passa pela Maçonaria e desemboca no espirito do capitalismo, embora Lutero ainda visse o tipo de profissão exercido pelo indivíduo sob uma ótica bem tradicionalista. Com efeito, não era objetivo de Lutero dar sustentação ideológica ao capitalismo nascente, pois a influência de suas ideias sobre o valor do trabalho e do capital é concebida por Weber como uma consequência não premeditada por ele, ou melhor, ele não previu as consequências que elas teriam sobre a ética que os seus seguidores viriam a desenvolver nesse sentido. Não obstante, Weber enxerga uma sensível "afinidade eletiva" entre a moral protestante e a conduta capitalista. Essa ”afinidade” seria observada de uma forma bastante visível na teoria do “destino manifesto” com a qual os líderes da nação americana forjaram a filosofia de vida dos americanos. Líderes esses, que como é de domínio público, eram, em sua maioria, membros da Maçonaria e estamparam em seus símbolos nacionais vários ícones adotados pela Ordem.E também pode ser observada com bastante ênfase nas teorias que fundamentam o liberalismo econômico, consubstanciadas principalmente nas teses de Adam Smith, que ao justificar a riqueza das nações, sustentou que ela está fundamentada na liberdade com que as pessoas dispõem para executar o seu trabalho e aplicar os seus capitais. Nesse sentido, a chamada “mão invisível” que Smith define como uma espécie de lei natural organizando o fluxo de capitais e a produção mundial nada mais é do que uma adaptação do conceito de “vocação” de Lutero, pois nessa ótica cada nação e cada indivíduo tem uma “vocação” particular e é com o exercício e a aplicação eficiente dela que a riqueza é construída. 
Há muita verdade nas teses weberianas, embora algumas constestações possam ser levantadas. É claro que não são apenas as raízes protestantes e católicas das nações da Europa e da América que podem ser invocadas para justificar o desenvolvimento econômico de umas e o atraso de outras. Há questões históricas, sociológicas e principalmente politicas que talvez sejam mais importantes que essas. 

Mas o tema merece reflexão. Principalmente em uma época em que parece, pelo menos no Brasil, que a palavra ética, moral, decência, comportamento, fidúcia, elementos que fizeram a espinha dorsal da chamada “Novum Ordo Seclorum” (Nova Ordem do Século) , construída em cima da ética calvinista e da utopia maçônica perderam o verdadeiro sentido. Vemos isso principalmente no nosso meio político onde a bancada evangélica e vários parlamentares maçons comungam com a indecência, a corrupção, o crime e a imoralidade. Principalmente o chamado grupo do deputado Eduardo Cunha, composto, em sua maioria, por pastores evangélicos, que com a iniquidade do seu comportamento devem estar fazendo Calvino e Lutero se remexerem no túmulo. É mais do que tempo de os tempos se reencontrarem. Maçons e protestantes têm uma História e um passado a honrar. Seria bom não se esquecerem disso. 

João Anatalino

A Deusa Ísis

Texto: João Anatalino

Ísis era tida por irmã e esposa de Osíris. Esse costume de casamento entre irmãos consangüíneos era comum no Antigo Egito. Tinha como função preservar o poder da dinastia, mantendo sempre no trono um descendente do mesmo sangue.

A deusa Ísis é, juntamente com Osíris e Mitra, os arquétipos religiosos mais importantes que as antigas religiões solares Le-garam à humanidade. Cultuada como modelo de mãe e esposa ideal, ela era também vista como protetora da natureza, símbo-lo da magia e da ressurreição, deusa da maternidade e da fecun-didade e da família.

Como esposa de Osíris e mãe de Hórus, Ísis faz parte da trindade egípcia, sobre a qual se assenta o equilíbrio do mundo.

Os primeiros registros do culto a Ísis aparecem em documentos egípcios datados por volta de 2500 a.C., mas acredita-se que esse culto é bem mais antigo, tendo derivado de uma época em que os povos do Nilo formavam clãs governados por princípios centrados mais no poder matriarcal do que no patriarcal. Essa noção vem do fato de que, historicamente, o poder político no Antigo Egito, até épocas mais recentes, far-tamente documentadas, sempre foi composto através da linha-gem feminina e não da masculina. O Egito, como revela Wales Budge e nos confirma Bachofen (O Matriarcado, 1861), sempre teve em Ísis o símbolo do poder matriarcal, o que prova a enorme influência da mulher na composição do poder político no país. 

Ísis foi a única deidade do Antigo Egito que resistiu á helenização do país após a conquista por Alexandre Magno. Sobreviveu também à posterior cristianização do pais, ocorrida após a sua incorporação ao Império Romano e forneceu aos teóricos do Cristianismo o arquétipo modelar para a composição da figura de Maria, mãe de Jesus, a parte feminina do Logos cristão.

O culto à Ísis não só resistiu às repetidas tentativas de aculturação do Egito pelas potências que o ocuparam, como também irradiou sua influência por toda a cultura do Oriente Médio e se tornou uma das mais importantes divindades do Império Romano. 

Durante os primeiros séculos de implantação do Cristianismo nos territórios governados por Roma, o culto à Ísis se espalhou por todo o mundo romano. Na Itália e na própria Roma, Ísis era uma das principais divindades do panteão romano, e nessa condição permaneceu até a vitória final do Cristianismo, quando muitas de suas estátuas foram revestidas com trajes cristãos e adorados como se fosse Maria, a mãe de Jesus .

A tradição esotérica ligada ao nome de Ísis é simplesmente fabulosa. Nenhuma outra lenda se desenvolveu com tanta riqueza em interesse espiritual, salvo o Mistério da morte e ressurreição de Cristo. Ao longo de milênios, sacerdotes e sacerdotizas se ocuparam em desenvolver uma rica tradição que envolveu elementos de história, religião, sociologia, astrologia, medicina, política e outros conhecimentos, tudo tratado com uma aura de misticismo e mistério que excita o espírito humano até os dias de hoje.

Isis e a astrologia

Como a estrela Spica (Alpha Virginis), era a mais brilhante da constelação de Virgem, e sendo essa a constelação que segundo os egípcios, correspondia ao país no desenho cósmico, Ísis foi relacionada à essa estrela. E como a constelação de Virgem surgia no firmamento acima da linha do horizonte justamente numa época do ano em que a colheita do trigo e outros grãos era feita em todo o Vale do Nilo, Ísis também foi associada a divindades gestoras da fertilidade e passou a presidir às colheitas. Daí a sua associação com Démeter, a deusa grega da agricultura e o consequente paralelo entre os Mistérios de Ísis e Osíris, e os Mistérios de Elêusis, como bem observou Plutarco em sua obra clássica.
Ísis também foi associada á estrela Sirius (Sept em egípcio). O surgimento dessa estrêla no firmamento simbolizava o advento de um novo ano. Daí Ísis ser também considerada a deusa do renascimento e da reencarnação; e como protetora das almas dos mortos ela presidia o renascimento do tempo e dos astros no céu. Dessa forma, Ísis exercia um papel primordial nos rituais do Livro dos Mortos, no sentido de proteger e guiar as almas dos defuntos pelo mundo subterrâneo (a terra intermediária das sombras, a Tuat). Vários hinos desse estranho e famoso hinário são dedicados a ela. 

Ísis e a política

Ísis era vista como a deificação do poder matriarcal no sentido que ela representava, na hierarquia da corte egípcia, a esposa do faraó. Sua representação como aquela que devolve a vida ao rei morto conferia à esposa do faraó um papel de extraordinária relevância nos ritos funerários, de tal forma que seu nome é o mais citado nos chamados Textos das Pirâmides, escritos que descrevem os ritos funerários aplicados aos diver-sos faraós que os mandaram escrever. Daí o grande poder e influência que as rainhas egípcias exerciam na hierarquia de poder no país. À época do Novo Império. entre os reinados das XVIII, XIX e XX dinastias, ( +-1570 a 1070 a.C.) Ísis era considerada mãe e protetora do faraó. Durante este período, desenhos e estátuas dessa deusa amamentando o faraó foram esculpidas e reverenciadas por todo o Egito.

Tão forte era a associação de Ísis com o poder, que ela con-siderada a mãe-trono. Essa, aliás, teria sido a sua primitiva função, razão, pela qual muitos estudiosos acreditam ter sido o primitivo Egito uma sociedade matriarcal, onde Ísis teria sido sua mais importante matriarca. No entanto, uma corrente mais moderna afirma que aspectos desse papel vieram mais tarde, por associação. Em muitas tribos africanas, o trono real ainda é conhecido como "a mãe do rei".

Influência no cristianismo

Embora a Igreja Católica sempre tenha negado veeemente-mente que o culto à Virgem Maria é uma adaptação ao culto da deusa Ísis, não parece haver dúvida que existe uma grande in-fluência da tradição egípcia nesse culto. Quando o Cristianismo começou a ganhar popularidade no Império Romano, muitos templos de Ísis foram transformados em santuários cristãos, e para evitar os conflitos que naturalmente adviriam com os adoradores da deusa egípcia, os primitivos cristãos associaram-na com a mãe de Jesus. Foi dessa curiosa metonímia que nasceu o culto à Mãe de Deus, a Virgem Maria, que a muitos cristãos puristas pareceu verdadeira heresia, pois estes não podiam admitir que seu Deus − por princípio um ser incriado – pudesse ter nascido de uma mulher. Essa idéia era defendida principalmente pelos cristãos gnósticos que negavam a nature-za humana de Jesus, vendo-o como um ser angélico que viera a terra através de uma manifestação divina e não por concepção carnal. Essa tese viria a ser retomada pelos evangélicos, os quais tem em Maria apenas o canal humano pelo qual Deus manifestou-se em carne, mas não como “mãe de Deus”, como a reverenciam os católicos.

Conteúdo iniciático do Mistérios

Os Mistérios de Ísis e Osíris, base do famoso drama iniciá-tico que leva esse nome, talvez seja a corruptela de um evento político ocorrido em tempos pré-históricos, quando ao Egito ainda era uma nação governada pelo princípio do matriarcado. Como bem nos mostra Bachofen em seu magnífico ensaio sobre esse tema, nesses remotos tempos, a rainha era a deusa-mãe e encarnava os poderes da terra. Assim foi no Egito com Ísis, entre os povos mesopotâmeos com a deusa Ishtar, Lakshmi para os Hindús, a Ixchel dos Maias, e outros povos. Daí a associação que se faz entre os poderes regeneradores dessa deusa e a capacidade da terra em renovar a vida do planeta.

Os Mistérios de Ísis e Osíris, também conhecidos como Mistérios Egípcios, se baseiam no drama da ressurreição desse deus, morto e esquartejado por Seth, seu invejoso irmão. Como já aventado, esse drama pode estar na origem de um fato histórico onde um possível conflito de natureza política tenha originado o assassinato do rei por um irmão que lhe pretendia tomar o trono. Isso era muito comum na antiguidade, sendo um dos principais motivos das antigas tragédias gregas, cujos enredos geralmente se fundamentam em histórias desse tipo, onde reis são mortos e seus assassinos se casam com a rainha viúva para legitimar suas conquistas. No caso da lenda de Ísis e Osíris há uma reação da rainha, que juntamente com seu filho Hórus reagem ao assassinato do marido e pai e vencem o tirano regicida. 

A versão mais acreditada dessa lenda, entretanto, é a de que na origem os Mistérios de Ísis e Osíris eram tradições religio-sas muito antigas, nas quais se celebrava o poder de regenera-ção que Ísis, a Mãe-Terra, possuía para dar vida à semente que nela era lançada. Daí foram desenvolvidos rituais que visavam reproduzir o processo segundo o qual esse evento mágico se realizava. Então, talvez por um processo metonímico de adaptação, cunhou-se a lenda de que Ísis, a Mãe Sacerdotisa, teria recomposto o corpo morto do seu marido e restituído a sua vida, da mesma forma que a terra transforma em planta viva uma semente considerada morta e o útero de uma mulher em-gendra a vida do novo ser a partir de uma semente nela lançada.

Foi Plutarco, escritor grego do século V a. C. que popularizou no Ocidente esse mito ao escrever um longo trabalho explicando o seu verdadeiro significado. Para ele, os Mistérios Egípcios eram semelhantes em conteúdo aos Mistérios Gregos (representados no santuário de Elêusis), onde também se cultuavam os poderes regeneradores da terra.

Ísis e Minerva

Em Roma Ísis foi associada a uma das deusas do panteão grego, a famosa Palas Atena. Conhecida entre os latinos pelo nome de Minerva, ela era tida como sendo filha de Zeus, o pai dos deuses (Júpiter, para os romanos). Após uma briga com sua esposa Métis, Zeus a engoliu e logo começou a sentir uma insuportável dor de cabeça. Então pediu ao deus Vulcano que abrisse sua cabeça com um machado. Dessa estranha operação cesariana, saiu da cabeça aberta de Zeus a deusa Palas Atena, ou Minerva, já adulta, portando escudo, lança e armadura.

Minerva permaneceu sempre virgem e presidiu a sabedoria, a arte e a coragem. Essas eram as três grandes qualidades do homem da época clássica, cuja vida se dividia entre a procura pela sabedoria, a realização da beleza e as conquistas militares. Daí o fato de os atenienses a adotarem como deusa patrona e os romanos como protetora de sua cidade.

Ela era representada com um capacete na cabeça, escudo no braço e lança na mão. Sendo a deusa da guerra, e que também patrocinava a sabedoria e as ciências, ela mantinha junto de si um mocho e vários instrumentos matemáticos. Em conseqüência, os engenheiros e construtores a adotaram como sua deusa padroeira, razão pela qual os maçons, dada a sua tradição de pedreiros-livres, a cultuavam como uma de suas patronas.
Assim, Ísis, Minerva, Palas Atena, são representações do mesmo arquétipo, ou seja, a mulher considerada mãe da humanidade. E na tradição cristã ela é Maria, a mãe do Salvador. Os cristãos gnósticos a reverenciavam com o nome de Pistis Sofia, a mãe da sabedoria.
Essas correlações são, evidentemente, simbólicas, e evocam a origem arquetípica da raça humana, nascida de um elemento feminino, no caso a terra, fecundada por um elemento masculino, o sol. Essa tradição associa também o mito bíblico de Eva, a mãe da espécie humana. Todos esses arquétipos se fundem numa figura feminina, da qual a humanidade emergiu. Dessa forma, Ísis se tornou um arquétipo que foi adotado por quase todos os povos antigos como símbolo da Grande Mãe, que pare, educa e protege a sua cria, no caso, a própria humanidade.
Segundo a lenda foi ela quem fez nascer na mente humana o anelo pela busca do conhecimento. Assim, a vontade de saber, a ciência, a busca da sabedoria, tão cara aos gregos da época clássica, não é uma virtude masculina, mas sim feminina, e está conectada mais com a sensibilidade do que com a razão. Por isso as primeiras civilizações, ou aquelas que atingiram o mais alto grau de sabedoria e desenvolvimento nos primeiros tempos da história humana foram fundadas sobre o princípio do ma-triarcado. O Egito, presidido pela deusa Ísis, a civilização pales-tina, presidida pela deusa Astarte, os gregos com Palas Atena, foram exemplos desses matriarcados, e essas deusas, historicamente, foram rainhas de deram a esses povos seus primeiros estágios de civilização.


Ísis e a Maçonaria

A Maçonaria, não obstante ser condiderada uma sociedade de caráter patriarcal, presta as devidas homenagens a Ísis de várias formas. Uma delas está patente no grau 26, denominado Príncipe das Mercês. Ali se vê um pedestal oco, com um livro dentro, em cima do qual repousa uma estátua da deusa Minerva. Esse símbolo insinua que ali se cultua a Justiça, já que essa Deusa também é representante dessa qualidade, que só pode ser alcançada quando o povo atinge um alto grau de civilização. A escada de três lances representa os três degraus da iniciação: simbolismo, perfeição e filosofismo, ou ainda, aprendiz, companheiro e mestre, que são as três etapas a serem cumpridas por um maçom para que ele atinja a plenitude da sua condição iniciática.

Como vimos, a Deusa Minerva (Ísis, Eva, a Virgem Maria, a Sofia dos gnósticos, Palas Atena dos gregos, etc.) representa o mesmo arquétipo, existente em todas as tradições religiosas dos povos antigos. Ela é a “mãe” da humanidade, a deusa da mater-nidade, a patrona dos valores que formatam uma civilização. Sua função primordial é sempre “parir” o princípio salvador do mundo. Por ser um símbolo da Terra, como mãe natural de toda a vida, a iconografia gnóstica acostumou-se a representá-la segurando junto ao seio um feixe de trigo que simboliza o renascimento da vida. Por isso que ela é o arquétipo representativo da terra, em sujo seio o grão deposto se transforma em vida.
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Notas

1. Muitos historiadores acreditam que o mito de Osíris está fundado em verdadeiros acontecimentos históricos. Nesse sentido, Osíris é visto como sendo um chefe nômade, que teria sido responsável pela introdução da agricultura na região do Delta. Com isso teria entrado em conflito com Seth, líder das populações do Delta. Em consequência, Osíris teria sido morto por Seth e depois vingado pelo seu filho Hórus.
2. Veja-se a esse respeito E.Wallis Budge. The Gods of Egipcians, Vol I e II. New York, Ed. Dover, 1969.
3. Cf.Plutarco- De Iside et Osíride, De Iside et Osiride". Encyclopædia Britannica Inc., 2012. Web. 14 Jun. 2012
4. Essa tarefa, de guiar a alma dos mortos pela terra intermediária, também era atribição de Osíris.
5. Na Cabala, a parte feminina de Deus é chamada de Shekinah
6. Cf. Johann Jakob Bachofen (1815 – 1887) - Myth, religion, and mother right- London, 1912.
6. Essa tese também é defendida por James Fraser em seu famoso estudo antropológico “O Ramo de Ouro”.
7. Sobre a Lenda de Ísis e Osris, veja-se a nossa obra, já citada, “Conhecendo a Arte Real.

 
João Anatalin

OS MISTÉRIOS DE ELEUSIS

A lenda de Démeter e Perséfone

Texto: João Anatalino

Deméter (Δημήτηρ), na Grécia era o nome da deusa da agricultura. Na rica simbologia da cultura grega, ela representava os poderes regenerativos e reprodutores da terra, poderes esses que eram responsáveis pela geração dos seus frutos.

Por isso ela era considerada a deusa da fertilidade, pois a terra cultivada devia a ela a sua capacidade de produzir. Daí a sua caracterização como deusa da agricultura, que aparece nos mais antigos textos gregos como sendo uma divindade ligada diretamente ás colheitas, representada sempre com um feixe de trigo entre os braços. 

Segundo a lenda ela era filha dos titãs Crono e Réia, tendo como irmãos os deuses Zeus, Hera, Posídon e Hades. Da mesma forma que na cultura egípcia, os relacionamentos amorosos entre irmãos, na complexa teogonia grega, eram comuns. Assim Démeter manteve um romance com seu irmão Zeus, do qual nasceu uma linda menina chamada Perséfone (Περσεφόνη).

Hades, seu outro irmão, apaixonou pela jovem e bela sobrinha e tentou seduzi-la. Não o conseguindo, raptou-a e levou-a para seu reino subterrâneo. Tendo tomado conhecimento do desaparecimento da filha, Démeter começou a procurá-la por todo o mundo, com um archote aceso em cada mão. Após vários dias de busca encontrou o deus Hécate, que ouvira os gritos de Perséfone, mas não conseguiu ver quem fora o seu raptor. Indicou, porém, a direção onde ela deveria ser procurada. Foi o deus Hélio, o Sol, que revelou a identidade do raptor...

Enfurecida, Deméter pediu a ajuda de seu irmão e amante Zeus. Mas este se recusou a brigar com seu irmão Hades para libertar a filha. Perséfone então resolveu não voltar para o Olimpo. Em vez disso foi para Elêusis, uma cidade santuário próxima a Atenas, na forma de uma velha ama, e assumiu a guarda e a educação do filho do rei daquela cidade.

Durante o tempo em que permaneceu em Elêusis ela ensinou aos homens o segredo do cultivo do trigo.

Mas a ausência de Démeter no Olimpo fez com que a terra se tornasse estéril, forçando Zeus a procurar sua irmã e amante e suplicar que ela voltasse para a montanha sagrada. Ela consentiu a voltar desde que sua filha Perséfone fosse libertada e também voltasse ao Olimpo. Todavia, Perséfone já havia se acostumado ao reino das sombras e tornara-se esposa do seu tio Hades. Reverenciada como rainha dos mortos, ela não queria deixar o seu reino para ser apenas mais uma deusa do Olimpo. Foi então que para resolver o impasse, Zeus e Hades (símbolos do céu e do inferno) fizeram um acordo. Perséfone passaria seis meses no Hades e seis meses no Olimpo.

É com base nesse mito que os gregos desenvolveram os seus Mistérios, conhecidos como Mistérios de Elêusis.


Os Mistérios de Elêusis


Os Mistérios de Elêusis eram cerimônias rituais praticadas no santuário que leva esse nome. Era um santuário próximo á cidade de Atenas, dedicado à deusa-mãe Démeter, protetora da agricultura.

.Os Mistérios de Elêusis tinham como ponto central o psico-drama de Démeter, cuja filha tinha sido raptada pelo deus dos infernos, Hades e levada para o mundo das sombras, onde se tornou sua esposa. Por conta disso Démeter amaldiçoou a terra, que se tornou estéril e não produziu mais nada. Tal calamidade provocou a ira dos homens, que começaram a amaldiçoar os deuses. Estes, não suportando a situação, pediram a intervenção de Zeus, que então suplicou a Démeter que voltasse para novamente a abençoar a terra, devolvendo a ela o poder de frutificar. Démeter concordou, desde que Hades libertasse a sua filha.

O ritos eleusinos foram desenvolvidos a partir dessa simbologia. Tratava-se de agradar a deusa imitando o processo que ela, como deusa-mãe, usava para dar vida à semente depositada no solo, gerando o novo fruto. A semente era como a jovem Perséfone, que passava um tempo no seio da terra, e depois brotava para a vida. Dessa forma, repetindo os ciclos da natureza, o homem poderia obter também a sua própria regeneração como semente viva posta na terra pelos deuses.

Com base nesse mito, os gregos desenvolveram as cerimônias iniciáticas dos seus Mistérios, nas quais se praticavam rituais destinados a despertar Perséfone, ou seja, a semente que foi enterrada e renascia, dando nova vida à terra. Assim, esses rituais tinham uma dupla finalidade: de um lado tratava-se de agradar a deusa para que ela abençoasse a terra e proporcionasse boas colheitas; de outro promovia um renascimento psicológico nas pessoas que eram iniciados nesses Mistérios.

Esse mito tinha representações variadas entre todos os povos de cultura grega, mas os festivais do santuário de Elêusis se tornaram uma verdadeira tradição iniciática para o povo grego e um legado da sua cultura para os povos que eles influenciaram. Assim é que iremos encontrar rituais semelhantes entre os trácios, os macedônios e principalmente os povos da Itália. Com o tempo os Mistérios de Elêusis se tornaram uma instituição cultural de tal respeito que todas as pessoas importantes no mundo helênico, e depois no mundo romano, faziam questão de ser iniciados nesses Mistérios. Era uma rara distinção pela qual se pagava importantes somas de dinheiro. 

Entre os romanos, principalmente, essa tradição se tornou tão comum que as festas dedicadas a Démeter (Ceres na língua latina), eram realizadas no mês de abril e se prolongavam durante uma semana. Nessas ocasiões os romanos de origem nobre e aqueles que se destacavam nas artes e nas ciências eram iniciados. 


A função iniciática dos Mistérios


Tanto nos Mistérios Egipcios quanto nos Mistérios Gregos, a complicada ritualística desses fes-tivais se destinava a homenagear a deusa da terra para que ela promovesse a regeneração da semente plantada, de forma que ela se tornasse cereal. Era, portanto, um culto de origem panteísta, que tinha por único objetivo obter a benevolência da deusa para que ela proporcionasse ao povo boas colheitas. Por um processo de imitação, essa manifestação cultural assumiu contornos espiritualistas e começou a ser aplicada também á própria vida humana. Pois se isso podia ocorrer em relação á semente do cereal, também poderia ser aplicado ao ser humano, enquanto semente da vida espiritual cósmica. Dessa forma, porque o mesmo processo não poderia ser utilizado para promover a regeneração psíquica do homem?
Assim o mito evoluiu da tradição para a religião e desta para a metafísica. Daí para a política e a sociologia, se tornando um dos mais influentes arquétipos da cultura humana. Todos os povos anti-gos, de alguma forma, praticavam seus Mistérios. Até os cristãos, embora seus líderes condenassem publicamente essas práticas, não foram infensos à influência desses arquétipos. Há quem sustente, por exemplo, que a Paixão e Morte de Jesus Cristo nada mais é que uma encenação escatológica desses Mistérios, onde Jesus é comparado à Osires, ou a Perséfone, como semente que é depositada na terra para simbolizar a vitória da vida sobre a morte. Assim todo o drama representado por Jesus na cruz e a sua ressurreição no terceiro dia não seria um evento real, mas sim uma simbologia que teria sido convenientemente apropriada pelos lideres cristãos para alavancar a nova religião entre os habitantes do império romano, que já conheciam e adotavam essas crenças como verdadeiras. Verdadeira ou não essa tese, o fato é que não se pode negar a estreita relação de semelhança que existe entre essas tradições, corroborando a nossa crença de que na base delas está assente o mesmo arqué-tipo.


A ritualística dos Mistérios


Da mesma forma que seu congênere egípcio, os Mistérios de Elêusis eram divididos em duas etapas. Havia os Grandes e os Pequenos Mistérios. O primeiro era representado em março, correspondente ao equinócio de primavera e o segundo em setembro, correspondente ao equinócio de inverno. Representavam, conjuntamente, os ciclos da terra em seus processos de morte e ressurreição, expressos pelas estações do ano.

Nos Pequenos Mistérios o iniciando se preparava para receber os Grandes Mistérios. Nessa pri-meira parte do cerimonial ele era purificado, interrogado, fazia diversas promessas e juramentos, aprendia os sinais e passos do iniciado. Após jurar guardar estrito segredo sobre o que viu e ouviu, ele recebia o titulo de Mystos, que significava ser ele um “iniciado”, porém ainda incapaz de contemplar a Grande Luz da deusa. Somente após o interstício de um ano estaria pronto para penetrar nos Grandes Mistérios.

Os rituais referentes a estes últimos prolongavam-−se por nove dias e comportavam ritos que eram desenvolvidos dentro e fora do templo. Na última fase da cerimônia o iniciado se vestia com uma pele de carneiro, significando que ele seria o sacrificado, a ”oferenda” ofertada à deusa, para que sobre ela fosse executado o trabalho de regeneração.

O iniciado então era levado a uma caverna escura onde permanescia por alguns dias em completa escuridão, como se fosse a própria semente depositada na terra. Depois era submetido a uma série de provas onde sua fidelidade, sua bravura, seu respeito aos deuses era provado. Por fim era submetido aos rituais de purificação, nos quais se integrava aos quatro elementos primários – ar, terra, fogo e água − composto esse que segundo as crenças da época eram os elementos básicos que compunham todas as coisas existentes na terra.

A influência na Maçonaria

Eis porque tanto os Antigos Mistérios egípcios quanto os Mistérios de Elêusis são constantemente invocados nos ritos maçônicos, pois ambos evocam a necessidade de uma morte ritual e uma regeneração do recipiendário, como condição essencial á sua passagem de um estado de consciência profana para uma consciência superior de iniciado.

A cerimônia de iniciação na Maçonaria tem sido comparada á iniciação do iniciado nos Pequenos Mistérios e a cerimônia de elevação ao grau de mestre na Maçonaria simbólica é, para muitos autores maçônicos, uma corruptela da iniciação nos Grandes Mistérios. Há inclusive autores que acreditam que a Lenda de Hiram tenha sido diretamente adaptada dessa fonte, pois que o arquiteto do Templo de Salomão, assassinado por três companheiros traidores, cumpre idêntico papel ao de Osiris nos Mistérios Egípcios e de Perséfone nos Mistérios Eleusinos. 

Essas comparações e analogias são, a nosso ver, um tanto licenciosas. Todavia, a instituição que existia por trás dessas práticas iniciáticas se assemelha bastante ao que hoje praticamos como moderna Maçonaria. Para começar não era qualquer pessoa que podia ser iniciada nos Mistérios de Elêusis, da mesma forma que hoje se faz na Irmandade maçônica. Somente homens de reconhecida idoneidade e excelente reputação eram cooptados para fazer parte do fechado círculo de iniciados.

A escolha e o processo de cooptação de recipiendários eram rigorosos, sendo patrocinada pelo próprio estado ateniense. A legislação que Sólon redigiu para Atenas continha punições para aqueles que transgredissem as regras de silêncio exigidas em relação aos rituais e ensinamentos comunicados aos iniciados. Plutarco conta que até o grande general Alcebíades, herói ateniense das Guerras Pérsicas, foi punido com a extradição por ter violado tais regras. Fulcanelli diz que a revelação dos segredos dos Mistérios de Elêusis aos profanos era punida com a morte e mesmo aqueles que os ouviam eram considerados criminosos. 

Outra analogia que se pode fazer é que a prática dos Mistérios de Elêusis era o elo que unia as grandes personalidades do povo grego. Alcebíades, o famoso general ateniense, bem como Sólon, o grande legislador, Demóstenes, o magnífico orador e a grande maioria dos filósofos eram iniciados. Sócrates, Pitágoras e Aristóteles confessaram a influência que receberam dessas práticas iniciáticas. Sófocles, o laureado poeta, dizia que “somente aqueles que contemplaram os Mistérios entrarão na posse da verdadeira vida”.

Nos Mistérios de Elêusis os iniciados aprendiam o verdadeiro significado dos mitos helênicos. Descobriam, finalmente, que tais mitos não eram apenas explicações fantásticas das origens e dos acontecimentos históricos relativos ao povo grego, mas sim alegorias que continham ensinamentos morais, históricos e psicológicos da mais profunda relevância. Era nesses mitos e lendas que estava hospedada a verdadeira sabedoria iniciática e somente "os eleitos" podiam adquiri-la. Platão, nos diálogos de Fédon, reconhece que “os homens que estabeleceram os Mistérios, eram iluminados” e “somente aqueles que fossem iniciados morariam com os deuses”.

Não é, portanto, sem razão, a analogia que se faz entre a Maçonaria, enquanto instituição, e os Mistérios de Elêusis e os seus congêneres egípcios, persas e hindús. Não só em relação ao domínio do esotérico, presente em todas essas tradições, mas também pelo seu objetivo disciplinador, por assim dizer, elas podem ser consideradas como “escolas de treinamento espiritual”, onde a mente do homem é preparada para o exercício de uma consciência superior, que o torna capaz de exercer na sociedade um papel diferenciado. Graças a esse “treinamento espiritual”, mais até do que as preocupações com o físico, os gregos superaram as limitações geográficas de um território tão pobre em recursos naturais como é a Grécia, fundando um império comercial e cultural que inaugurou uma nova era na civilização humana.

Se a Maçonaria, enquanto filosofia e prática de vida fosse devidamente entendida pelos que nela se iniciam, e realmente levada a sério, certamente se poderia obter um resultado semelhante aos que os gregos conseguiram com a prática dos Mistérios de Elêusis, ou seja, a geração de uma plêiade de homens realmente virtuosos.

Note-se que o declínio da cultura grega, bem como da cultura egípcia e dos demais povos antigos coincide com a popularização dessas cerimônias. Nesse sentido, é bom observar que nem sempre um aumento de quadros significa uma melhoria de qualidade. Aliás, no caso, o resultado é exatamente o contrário. A quantidade geralmente faz declinar a qualidade. Assim, se a Maçonaria quiser sobreviver como verdadeiro “centro de treinamento de conscientização superior”, talvez fosse inte-ressante seguir o conselho do iniciado Jâmblico, o filósofo grego que deu características de ciência experimental à alquimia: ele disse que a popularização do conhecimento iniciático, ao invés de democratizá-lo, o abastarda. E que só homens verdadeiramente aptos para recebê-los devem ser iniciados. Não nos custa reconhecer que ele tinha razão.
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NOTAS:

1.. Os seis meses no Olimpo simbolizam a primavera e o verão, época em que a terra germina seus frutos, e os seis meses no Hades simbolizam o outono e o inverno, época em que a terra fica estéril.
2. Em Roma Démeter se chamava Ceres ou Minerva, Perséfone era conhecida como Prosérpina e Hades era o infernal Plutão. Nomes famosos da história romana foram iniciados nos Mistérios Eleusinos, tais como os imperadores Otávio Augusto e Nero. 
3.Fulcanelli- O Mistério das Catedrais-Ed Esfinge, Lisboa, 1956.





João Anatalino

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O AVENTAL E O CORDÃO

Texto de Pedro Neves

O avental simboliza a proteção em qualquer atividade humana, nas fábricas, laboratórios, no lar, depósitos, escolas, etc.

Na maçonaria, ele é utilizado durante os trabalhos nas oficinas, simbolizando a proteção mística, e um símbolo esotérico.

Junto com o avental, está o cordão, que desde tempos imemoriais sempre teve significado místico, possuindo diversos nomes de acordo com a cultura de cada povo; faixa, cinto, etc.

O cordão é mencionado em diversos livros sagrados, o que demonstra a sua grande importância. O termo cingir segundo o dicionário: rodear, cercar, prender ou ligar em volta, pôr à cinta, unir, apertar, envolver, circundar.

Na Bíblia, ele é mencionado entre outros livros, em: Lucas: 17:8 “Prepara-me a ceia, e cingi-te, e serve-me...” – Isaías: 11:5 “E a justiça será o conto dos seus lombos, e a verdade o cinto dos seus rins.” – Salmos: 18:32 “Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho.” – 18:39 “Pois me cingiste de força para a peleja.” – 30:11 “E me cingiste de alegria.” – Eclesiastes: 12:6 “Antes que se rompa o cordão de prata...
O cordão tornou-se parte do hábito eclesiástico, sendo utilizado por sacerdotes de diferentes cultos, o que era uma faixa, passou a ser denominada de estola, sendo muito comum o uso no hábito clerical. A estola é a sucessora eclesiástica da faixa ou cordão, ela é utilizada em volta do pescoço e as pontas caídas na frente, as suas cores são variadas conforme as diversas cerimônias dos rituais, podendo-se inserir ou não, alguns símbolos.

Os Sufis maometanos têm o cordão como símbolo do compromisso da obediência, significando que o discípulo do sufismo está comprometido por sua fé ao comando de Alá, pela lei islâmica da submissão. Um lembrete: o homem não precisa depender apenas dos poderes da mente e do corpo, que ele pode aplicar sozinho; pode também invocar o poder sobrenatural para ajudá-lo a obter mestria. Se invocar tal poder, o mesmo o envolverá como um muro protetor.

Os zoroastristas chamam o cordão de: Kusti ou cordão sagrado; ele contém seis mechas formadas por doze fios, totalizando setenta e dois fios. As seis mechas simbolizam os seis Gahanbars ou festivais das estações. Os doze fios de cada mecha simbolizam os doze meses do ano. Os setenta e dois fios representam os capítulos da sagrada Yasna do Avesta, o livro sagrado das orações, dos hinos, dos rituais, das instruções, da prática e da lei do zoroastrismo. 

Na Índia é utilizado como símbolo religioso de um segundo nascimento na iluminação maior e na visão espiritual.

Os Brâmanes o utilizam em cerimônias diversas: na iniciação ou investidura, o sacerdote proclama por três vezes atando o cordão também por três vezes: “Eis que veio a nós, protegendo-nos das más palavras, purificando nossa família, com uma força purificadora, vestindo-se de rigor pelo poder da inalação e da exalação, esta abençoada Deusa, esta abençoada faixa.” Após ajustá-lo, o sacerdote diz: “O cordão sacrifical é tu. Eu te envolvo com o cordão do sacrifício.” Simbolizando a sua investidura com os poderes purificadores dos deuses.

Num antigo hino dos ritos Célticos e talvez Druídicos, encontramos o seguinte: “o cinto de Finnen é cingido para me proteger, a fim de que eu possa caminhar na senda que inclui o povo num círculo.” Ou seja, um ser de qualidades divinas envolve o indivíduo para protegê-lo e impedi-lo de palmilhar os caminhos do erro e da maldade, em que muitos vagam e se perdem. O ponto dentro do círculo é mencionado nos rituais maçônicos. É a corda de salvamento, é a orla dentada, é a corda de oitenta e um nós, é o cordão de prata mencionado na Bíblia. Os Templários antigos usavam o cordão para isolar-se das forças da matéria e se aproximarem de seus iniciadores.

O avental e o cordão não são amuletos imbuídos de propriedades mágico-religiosas, nem suas simples formas podem conferir proteção ou instilar a sabedoria e proteção divinas, não se tratam de objetos de boa sorte para afastar ou amedrontar demônios imaginários. O avental e o cordão são simbólicos. 

Os maçons podem modificar o modo como se trajam, o modo de falar ou mesmo se tornar estranhos uns aos outros, como vem acontecendo com uma freqüência assustadora em uma Ordem que deve primar pela Fraternidade; Mas também podem formar uma “Egrégora” positiva, ou seja, uma corrente de pensamentos que será um cordão impossível de ser rompido por qualquer agente externo.

A história tem demonstrado que os laços comuns de Fé são mais fortes que os laços de nascimento, de afiliação política ou relações sociais. Temos a liberdade de escolher quem será nosso irmão.

A maçonaria, que deveria combater a superstição, o fanatismo, a ignorância e tudo que por seus fins seja maléfico, ela está perdendo o fio da meada. Os diversos graus que deveriam nos fazer compreender as leis da natureza e da constituição do homem, não estão conseguindo nos dar uma comunhão mais intima com o GADU, pois, não existe um sistema de ensino, então, o maçom torna-se um autodidata se quiser aprender alguma coisa. A maioria está se perdendo em conceitos errados do que seja potência, obediência, reconhecimento, regularidade, ritos e rituais, e deixam por isso de praticar a Igualdade e desconhecendo o que seja Fraternidade. Somos muitos, mas não temos unidade de filosofia, estamos vivendo momentos em que o mais importante é possuir a carteira de maçom de determinadas potências e obediências, poucos conseguem assimilar os ensinamentos que nos foram legados da sabedoria dos antigos, a história nos ensina que povo dividido é povo fraco. A maçonaria de antigamente chegou a ser considerada como o terceiro poder decidíamos como um poder de estado, hoje, os maçons em sua grande maioria, estão com as luzes interiores apagadas, estamos sem forças, apenas um número reduzido ainda consegue manter as chamas iniciáticas acesas. 

Por isso, devemos nos conscientizar do simbolismo quando formos colocar o avental e o cordão, antes do inicio dos trabalhos maçônicos, não devemos utilizá-los se não estivermos em comunhão com todos os irmãos, independentemente de potências ou obediências, devemos estar sempre unidos, a união faz a força.

Devemos ter a Liberdade para tratar a todos com Igualdade e podermos promover o sonho a ser conquistado da Fraternidade Universal.


PEDRO NEVES.’. M.’. I.’. 33.’. MRA
SITES MAÇÔNICOS: 
www.pedroneves.recantodasletras.com.br
www.trabalhosmaconicos.blogspot.com

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Pedro Neves

MAÇONARIA - A MÍSTICA DO AVENTAL

Texto de João Anatalino

O Avental é o típico símbolo do trabalhador. Desenvolvido inicialmente como elemento de proteção, logo se tornou um brasão de identificação da condição e da qualidade do obreiro. Quase todos os tipos de trabalhadores usam aventais, sendo o seu uso uma prática muito antiga, geratriz de uma simbologia cuja origem se perde na bruma dos tempos. 

Na maçonaria, o revestimento do iniciado maçom com o avental do grau significa a sua condição de obreiro e denuncia o seu grau hierárquico. Por isso, em cada grau da Loja simbólica o Irmão usa um avental de modo diferente, símbolo do grau ao qual ele está ascendendo. E essa prática ritualística continua pelos graus superiores, simbolizando em cada tipo de avental o momento espiritual que o iniciado maçom está vivendo dentro da maçonaria. 

O avental branco do aprendiz simboliza o seu noviciado. É o estado de sua alma quando ele se inicia nos Mistérios maçônicos. Esvaziado do seu ego e purificado pelo ritual da iniciação, ele se apresenta "limpo e puro" na egregora formada pelos Irmãos como se fosse uma “tabula rasa”, pronta para nela ser escrita os ensinamentos maçônicos. Assim também se apresentava o novato alquimista quando se iniciava nos trabalhos da Grande Obra, da mesma forma que nos canteiros de obras medievais, em que o tipo de avental usado denunciava a condição de iniciante do obreiro.

Os aventais nos quais o Irmão for revestido durante a sua progressão pela Escada de Jacó são os símbolos dessa escalada. Enquanto aprendiz e companheiro o avental é branco, liso, sem nenhuma ornamentação. A única diferença entre um e outro é o fato de o aprendiz usar o avental com a abeta levantada enquanto o companheiro baixa a abeta do seu avental. 

A abeta do avental maçom representa um triangulo isósceles, que nas suas três linhas simbolizam os três graus da Loja simbólica. Por isso é que, vencida a primeira etapa, o iniciado dobra a abeta do seu avental para dizer que ele já percorreu essa primeira linha, que é a do Aprendiz. A segunda linha é a do companheiro e a terceira é a do mestre. Mas quando o iniciado se torna mestre ele também atinge a plenitude dos graus simbólicos, e então o seu avental muda de conformação e nele se inscrevem as três rosáceas do maçom pleno, que representam a aquisição do perfeito equilíbrio, representado pelo triângulo completo. 

Há quem interprete as disposições do avental em Loja simbólica como uma representação das três etapas do aprendizado pelas quais o irmão deve passar: a etapa da pedra bruta, da pedra lavrada e da pedra angular. Essa interpretação, provavelmente tem sua origem nos graus distintivos da maçonaria operativa, onde os artesãos usavam aventais de diferentes cores e conformações para distinguir os diversos níveis profissionais existentes entre os profissionais da construção. É, portanto, uma interpretação que reclama uma base histórica e nada tem a ver com o esoterismo que se quer enxergar nessa distinção.

Com o passar dos tempos e com os acréscimos simbólicos que foram acrescentados á pratica maçônica, também os aventais foram adquirindo caracteres de verdadeiros brasões representativos de cada conjunto de ensinamentos que se queria transmitir em cada bloco. Assim é que nas Lojas de Perfeição e Capitulares os aventais foram desenhados para simbolizar as tradições que ali se cultivam, da mesma forma que nos graus filosóficos e administrativos, cada um deles teve a sua representação formulada nos motivos desenhados nos aventais. Assim eles se tornaram verdadeiros estandartes, onde o conjunto das tradições cultivadas pela Arte Real são traduzidas em símbolos e metáforas, ricas em conteúdo esotérico, filosófico e histórico. Assim é que nos aventais dos graus capitulares, por exemplo, encontraremos muitos motivos evocativos ao crime dos Jubelos, da mesma forma que nas Lojas de Perfeição a ênfase será dada aos motivos referentes à reconstrução de Jerusalém, ao simbolismo da Rosa-Cruz (grau 18) etc. E assim, sucessivamente, até o grau 33, cada bloco de ensinamentos refletindo nos aventais os seus motivos filosóficos.(...)

DO LIVRO LENDAS DA ARTE REAL-NO PRELO



João Anatalino





(RESENHA EXTRAIDA DO LIVRO "OS OBREIROS DO UNIVERSO".    

Texto de João Anatalino


Esta obra foi composta com base em informações coletadas nos antigos livros escritos por Flávio Josefo, Eusébio, Mâneto, O Zend Avesta, O Talmud, O Sefer A Zhoar, O Sefer Yetzira, A Baghavad Guita, O Alcorão, os manuscritos das antigas confrarias dos maçons operativos, os rituais da maçonaria moderna, as obras clássicas dos grandes autores maçons, e especialmente a Bíblia Sagrada. 

CAPÍTULO 1
ISRAEL, A PRIMEIRA LOJA

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Dedicação – Israel, a primeira Loja – Moisés, o primeiro maçom Sabedoria interior e sabedoria exterior- O Livro da Lei- A Sabedoria Secreta- A Língua dos Anjos. 

Este livro é dedicado aos Irmãos da Arte Real e contém a sabedoria que ele precisa adquirir para que possa subir todos os degraus da Escada de Jacó com a consciência de quem está realizando um verdadeiro aprendizado. Refere-se aos antecedentes históricos, à filosofia e às práticas dos obreiros da Sublime Ordem, desde os seus primórdios, quando ela despontou no espírito dos nossos ancestrais, como forma de aprimoramento das qualidades do ser humano e fórmula de comunhão com o Grande Arquiteto do Universo.

Nele os Irmãos da Arte Real encontrarão os antecedentes históricos que forneceram as bases da filosofia e das práticas adotadas pelos Obreiros da Sublime Ordem, as quais, primeiramente, foram todas inspiradas na história do povo de Israel, que foi a primeira nação na face da terra que teve a idéia de reunir-se em Loja.

Sustentamos ser Moisés o primeiro maçom de fato, porque a organização que ele deu aos hebreus depois que os tirou do Egito, assemelhava-se a uma grande Fraternidade, cujos membros, unidos pelos laços do sangue e da religião, se comprometeram com uma causa, que era a de criar na terra a Humanidade Autêntica, ou seja, um povo dedicado aos objetivos do Grande Arquiteto do Universo e governado por leis e costumes ditados diretamente por Ele, para servir de modelo para todas as nações da terra. 

E da mesma forma que na Ordem Maçônica, essa organização foi fundamentada em uma sabedoria exterior, que compunha o corpo jurídico das leis instituídas por Moisés e pelos costumes praticados pelo povo, e uma sabedoria interior, que continha as verdades ocultas que só podiam ser transmitidas de forma oral a uns poucos escolhidos. 
Essas duas sabedorias estão contidas no Grande Livro da Lei que Moisés escreveu para dar como legado a todos os povos que quisessem conhecer a verdadeira vontade de Deus, mas somente a primeira delas pode ser aprendida pela mente humana, porquanto a segunda é dirigida diretamente aos nossos espíritos e só através da prática iniciática se pode obtê-la. Foi essa sabedoria interior que deu a Moisés o poder para governar o povo de Deus e consagrar os seus líderes, bem como a ciência para fazer as maravilhas que fez. 
E essa sabedoria o Grande Arquiteto do Universo só a comunicou aos seus ouvidos. Ela lhe foi ditada na língua dos anjos, que era a língua falada na terra antes da queda do homem. Por isso que muitas das coisas que Ele disse a Moisés no Monte Sinai, e nas ocasiões em que conversaram face a face, não foram relatadas nos livros que ele escreveu para ensinar aos Irmãos como o universo foi projetado na Mente do Grande Arquiteto do Universo e como Ele quer que seus obreiros trabalhem na terra para construi-lo. Por que esta é a missão que Ele delegou aos seres humanos. 
Daí sucede que muito do aprendizado que os Irmãos de graus mais avançados adquirem hoje nas Lojas, e grande parte do que será escrito neste livro não se encontra explícito nos Livros Sagrados, pois trata-se de uma sabedoria adquirida por Moisés no Egito, antes de ele fundar a Grande Fraternidade dos Filhos de Israel. E esta ele a revelou de forma oral apenas a alguns escolhidos. 

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A referência aqui feita, aos israelitas, como primeiro grupo a reunir-se em Loja, é, evidentemente, uma analogia. A Bíblia diz que os hebreus, quando saíram do Egito, ficaram vagando pelo deserto, durante quarenta anos, antes de entrarem na Terra de Canaã, atual Palestina, onde fixariam residência permanente. No período em que viveram no deserto, eles se organizaram em doze congregações, ou acampamentos, cada uma segundo a descendência que tinham, a partir da família de Jacó, também chamado Israel. 

Jacó, ou Israel, era neto de Abraão e antes de o povo hebreu ir viver no Egito, ele gerou doze filhos: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zabulon, com a sua primeira mulher Lia; Dan e Neftali, com Bala, a escrava de sua mulher Raquel; Gad e Aser, com a escrava de sua mulher Lia; José e Benjamim, com sua mulher Raquel. Os doze filhos de Jacó deram nomes às chamadas doze tribos de Israel. 

O termo Loja, aqui se aplica às antigas tendas erguidas pelos hebreus no deserto. Consideramos que cada acampamento, referente a cada tribo, era uma Loja, pois se tratava da reunião de pessoas oriundas do mesmo clã. É evidentemente uma analogia que aplicamos à reunião das tribos israelitas, em razão da tendência das pessoas que tem a mesma estrutura cultural se agruparem justamente para manter e desenvolver essa cultura. Na tradição maçônica essa mesma analogia foi utilizada para representar os acampa-mentos dos trabalhadores que construíram o Templo de Salomão. Diz-se que eles foram divididos em grupos que se distribuíram por diferentes acampamentos dentro do canteiro de obras do templo. Essa tradição foi aproveitada pela maçonaria operativa e desenvolvida através dos séculos como forma de organização. 

Nos tempos medievais, costumava-se chamar de Loja ao barracão de madeira onde os trabalhadores de um canteiro de obras se reuniam para apresentar seus trabalhos, discutir os problemas relativos às suas profissões, ministrar instrução aos novos aprendizes, receber salários, etc. Essas reuniões sempre eram abertas com uma oração, na qual se invocava o principio da união, baseado na promessa de Jesus Cristo de que, onde mais de um se reunissem em seu nome, ele estaria no meio deles. Essas reuniões deram origem às chamadas Confrarias de Pedreiros Livres, as quais se tornaram o núcleo histórico de onde proveio as tradições maçônicas tais como hoje as conhecemos. Essas associações, também chamadas Guildas, funcionavam como uma espécie de sindicato, cujo objetivo era a preservação dos seus mercados, a transmissão controlada dos segredos da profissão e a ajuda mútua entre seus membros. Uma das Lojas medievais mais famosas é a de Estrasburgo, na França, onde se pode ver, ainda hoje, como era a conformação de uma Loja de maçons operativos na Idade Média. 

Os irmãos congregados em Loja é uma reunião na qual se discutem questões de interesse da Confraria. Nenhum outro assunto, que não seja os de interesse do grupo, deve ser argüido nessas reuniões, nem pessoas estranhas aos quadros da maçonaria podem fazer parte da assembléia. Os irmãos pertencentes a outras Lojas, inclusive de diferentes ritos, são admitidos mediante as cautelas de praxe e possíveis inquirições, chamadas de Trolhamento. 

Loja, portanto, é a reunião de maçons, e pode ser realizada em qualquer local onde se encontrem sete ou mais mestres, nas condições previstas nos regulamento da maçonaria. Não se confunde com Templo, ainda que a tradição dos maçons, nos tempos atuais, costume chamar de Loja aos templos maçônicos. Templo é o edifício construído e consagrado para receber as reuniões da Irmandade. No Rito do Real Arco a assembléia dos maçons é cha-mada de Capítulo. 

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A idéia de que o povo de Israel foi o primeiro povo a reunir-se em Loja é deduzida a partir dos trabalhos de Apion, escritor judeu-egípcio do primeiro século da nossa era. É dele a informação de que os hebreus constituíam grupos dispersos que viviam no deserto, sob diferentes tradições e costumes, antes de se unirem e ocuparem a terra de Canaã. Sua história dos judeus não contempla nenhum dos acontecimentos descritos no Pentateuco, que ele define apenas como propaganda israelita para confirmar a sua pretensão de povo eleito de Deus, portanto, com direitos ( divinos) incontestáveis. Para Apion, o Velho Testamento é apenas uma propaganda forjada pelos rabinos judeus para justificar a ocupação das terras palestinas.

Apion não tinha grande respeito pela história dos israelitas, chegando mesmo a contestar o caráter de antiguidade do povo de Israel, e criticando a sabedoria dos judeus quando em contraste com a dos gregos. Sua opinião a respeito da antiga nação israelita é que ela não passou de um agrupamento tribal que desenvolveu uma cultura fechada, fundamentalista e retrógada, e que em razão dessas características teve muita dificuldade para sobreviver num mundo globalizado como aquele em se tornara o império romano. 

A obra desse historiador contrasta com os escritos de Flávio Josefo, outro famoso escritor da época, que escreveu um volumoso trabalho a respeito da história dos judeus, abarcando desde a saída dos hebreus de Ur dos caldeus até a sua derrocada final nos rochedos de Massada, quando os últimos combatentes zelotes, para não caírem prisioneiros dos romanos, preferiram praticar o suicídio coletivo. Enquanto Apion destaca o caráter sectário da cultura de Israel, Josefo se esforça para demonstrar o seu lado heróico. Dai o caloroso embate literário que se instalou entre os dois famosos historiadores,. 

A partir das opiniões de Apion não é preciso muita imaginação para perceber a identidade que existe entre os conceitos de “povo escolhido” ou “eleito”, e a questão política e cultural embutida nesse assunto, que até os dias de hoje ainda não foi solucionada. O caráter sectário e elitista dados à sua cultura pelos descendentes do povo de Israel, depois que eles se estabeleceram em Canaã, identifica-se com as noções de confraria e fraternidade, tal como hoje as empregamos.

Os israelitas, após a sua saída do Egito, organizaram a sua nação nos moldes de uma sociedade secreta, fechada em sua cultura, e francamente hostil aos povos estrangeiros. Daí a analogia que fazemos entre a nação de Israel e a maçonaria. Essa analogia, embora tenha sido pouco explorada pelos autores maçons, é por demais explícita nos rituais da maçonaria para que seja ignorada. Por isso é que nós a evocamos aqui, e sustentamos que, muito mais que a influência das antigas Fraternidades do Egito, Grécia, Pérsia e Índia, que amiúde têm sido apontadas como sendo as antecessoras da maçonaria, foi a organização dada por Moisés ao povo de Israel que forneceu a inspiração para a estrutura que os maçons do início século XVIII deram á Ordem. Essas noções não eram desconhecidas dos irmãos que fizeram a transposição da antiga maçonaria operativa para a especulativa, pois ao transportar para a maçonaria moderna as tradições dos pedreiros medievais, eles fizeram questão de reforçar aquelas que se referiam às práticas dos israelitas do Velho Testamento. Daí a nossa afirmação, de que no catecismo maçônico há muito mais judaísmo que cristianismo. 

(continua)

AGUARDE; DIA 19 DE NOVEMBO; LANÇAMENTO OFICIAL DO LIVRO: O 
FILHO DO HOMEM
João Anatalino

Os Irmãos de Heliópolis

Autor: João Anatalino

As mais antigas tradições egípcias atribuem a um personagem lendário, chamado Menés (ou Merner), a façanha de ter unificado políticamente o Egito. Tendo unido num único reino as cidades do Alto e do Baixo Egito, ele teria dado início à dinastia dos reis daquele país, os chamados faraós. Seu nome não foi registrado no documento que informa os nomes dos faraós, as famosas Pedra do Cairo e Pedra de Palermo, lista compilada em uma estela esculpida na V dinastia, encontrada nas ruínas de Mênfis, mas todos os historiadores antigos a ele se referem como sendo o primeiro rei a governar as terras do Egito em um governo unificado. Segundo a tradição, ele teria herdado o trono diretamente do deus Hórus, o filho de Osíris e Ísis..

Na época da unificação (cerca de 3000 a C), o vale do Nilo já hospedava uma cultura bastante desenvolvida. Avançadas técnicas de agricultura, medicina, metalurgia e outros conhecimentos que caracterizam a existência de uma civilização já eram praticadas pelos povos daquela região.

Era crença antiga entre os egípcios que tudo isso lhes havia sido ensinado pelo deus Toth, que os gregos chamavam de Hermes (O Trismegistos). Ele instruíra os antigos sacerdotes e estes se tornaram os “iniciados” que deram ao Egito a grande civilização que os povos do Nilo possuíam desde tempos imemoriais, conforme se lê nos famosos tratados conhecidos como “Corpus Herméticus”.

Esses iniciados eram aqueles que naqueles tempos se chamavam de “mestres” nas chamadas profissões sagradas, como tais eram consideradas as ocupações dos médicos, engenheiros, sacerdotes, astrônomos e homens de ciência, capazes de realizar grandes obras de engenharia, complicadas intervenções cirúrgicas, interpretar a vontade dos deuses e interferir no curso da natureza, provocando chuvas, mudando a direção dos ventos, transformando metais comuns em ouro, etc.

É dessa tradição, inclusive, que se origina a alquimia. Essa arte era praticada pelos sacerdotes egípcios desde os tempos pré-históricos. Foi derivada da metalurgia, a partir da técnica de aplicação de banhos de ouro em peças de cobre, artesanato no qual eles eram peritos. Com o tempo cristalizou-se a tradição de que os templos egípcios detinham também o segredo de fabricar ouro. Esses poderes eram atribuídos especialmente aos sacerdotes do santuário de Heliópolis, tanto que o alquimista Fulcaneli consagra uma de suas obras (O Mistério das Catedrais), aos Irmãos de Heliópolis. Jâmblico, Pelásgio e os filósofos que escreveram a obra conhecida como “Corpus Herméticus”, também se referem aos poderes que seriam próprios dos sacerdotes desse santuário. Destarte, se Moisés foi realmente um sacerdote egípcio antes de tornar-se o líder dos hebreus, é possível inferir que ele também tivesse tido acesso a esses conhecimentos, o que justifica o caráter de mago com que ele aparece na Bíblia. Explica também a perícia de seu irmão Aarão na arte da metalurgia.

Apesar da vasta literatura esotérica existente sobre o assunto atribuir à classe sacerdotal egípcia uma imensa gama de segredos arcanos, os registros históricos são bastante concisos ao se referir a esse assunto. Na verdade, esse caráter místico, esotérico, que a religião solar dos egípcios assumiu foi mais uma obra dos filósofos gregos da chamada escola hermética do que dos próprios egípcios.

Até a revolução de Akhenaton, a hierarquia sacerdotal estava organizada muito mais para fins de administração do Estado do que para propósitos religiosos ou iniciáticos. Não havia uma classe sacerdotal propriamente dita, mas sim ordenações sacerdotais que eram feitas pelos faraós, os quais escolhiam entre os seus súditos os membros do clero. Foi somente a partir dessa intervenção do faraó na vida religiosa dos seus súditos, que a classe sacerdotal começou a se organizar de forma independente e a ganhar poder. Data dessa época também o caráter místico que a essa classe foi atribuído. 

A classe sacerdotal egípcia era bastante estratificada. Havia a classe superior, que ostentava o tí-tulo de hem-netjer, palavra que literalmente significa servo do deus, que pode ser traduzido por sacerdote. Porém o Sumo Sacerdote era o próprio faraó. Só ele detinha o poder de intermediar a relação entre os homens e os deuses no Egito. Havia uma classe intermediária conhecida por wab, literalmente, os homens puros. E mais abaixo na hierarquia, havia os chamados pais divinos, que não eram exatamente sacerdotes, mas participavam dos ofícios religiosos, exercendo certas funções litúrgicas.
Em princípio as funções sacerdotais não eram privativas nem vitalícias. Os sacerdotes podiam ser destituídos pelo faraó e normalmente se fazia um rodízio entre os escolhidos. Cada grupo exercia a função por um período de tempo, geralmente três meses a cada ano. Homens e mulheres do povo podiam ser escolhidos para a função: camponeses que exploravam a terra sagrada, artesãos, dançarinas, músicos e outros profissionais podiam ser nomeados. Seus serviços eram pagos em mercadorias, as quais, em princípio, eram consideradas como propriedade do deus patrono do santuário,

Os convocados para trabalhar nos templos ficavam também isentos de alguns impostos e geralmente eram liberados dos trabalhos compulsórios que normalmente se exigiam do restante da população, tais como abrir canais de irrigação, construir edifícios públicos, etc. Uma das obrigações que eles assumiam era o juramento de jamais revelar os segredos ou mistérios dos quais participavam nos templos.
Evidentemente nem sempre o faraó tinha condições de exercer as funções sacerdotais. Assim, com o tempo essa função foi sendo delegada a um Sumo Sacerdote da sua escolha. Para alcançar essa honrosa posição era preciso que o candidato tivesse uma esmerada educação nas artes e nas ciências. Dessa forma, logo se desenvolveu uma carreira eclesiástica organizada, com disciplinas curriculares, como leitura, escrita, engenharia, aritmética, geometria, astronomia, etc. Foi assim que os sacerdotes de Heliópolis e de outros templos se tornaram guardiães dos conhecimentos sagrados e ganharam reputação de sábios, que perdura até hoje.

Um documento jurídico contendo o testemunho de um sacerdote de Heliópolis, atualmente depositado no Museu de Turim, dá uma descrição das funções de um sacerdote egípcio. Esse sacerdote exerceu o ofício no santuário de Amon-Rá em Karnac, em algum tempo entre 1310 e 1220 a C., no reinado de Ransés II. Seu nome era Bakenkhonsu. Nesse documento consta uma inscrição a ele atribuída, que diz, textualmente:

“Passei 4 dos meus primeiros anos 11 anos como aprendiz, sendo responsável pela estrebaria de adestramento de Seti I. Durante quatro anos fui sacerdote puro de Amon. Durante 12 anos fui pai divino de Amon. Durante 15 anos fui terceiro profeta de Amon. Durante 12 anos fui segundo profeta de Amon. Ele me glorificou em reconhecimento ao meu caráter. Ele me investiu da função de grão-sacerdote de Amon durante 27 anos. Eu fui um bom pai para os meus subordinados, amparando seus descendentes, dando a mão aos que estavam angustiados, reanimando os que estavam na miséria, fazendo obras uteis em seu templo enquanto fui mestre-arquiteto de Tebas.” 

A relação com a Maçonaria

Rezam também as antigas tradições que nos santuários egípcios a ciência da arquitetura era arte considerada sagrada. Conhecimentos secretos, aplicados á essa técnica, eram transmitidos de forma iniciática a uns pouco escolhidos e conservados como segredo de Estado. É sabido que os egípcios eram notáveis construtores. Seus monumentais edifícios, construídos para servirem de tumbas e templos para suas divindades resistiram ao tempo e à destruição que as guerras naturalmente provocam nas obras humanas.

O termo pedreiro provavelmente foi cunhado nesses antigos tempos, quando as construções eram erguidas principalmente com pedras. Aplicava-se esse título tanto para aqueles trabalhadores que labutavam nas pedreiras, extraindo, cortando e trabalhando artesanalmente as pedras que seriam usadas na construção, quanto para aqueles que as assentavam, e também aos artesãos, que as transformavam em obras de arte. Maneton informa que nessa época esses profissionais da construção já haviam adotado a prática de organizar-se em Confrarias para preservar os segredos da profissão e defender os seus mercados, daí alguns autores maçônicos falarem na existência de uma forte Maçonaria operativa entre os antigos construtores egípcios.

Eis aí, portanto, na tradição dos Irmãos de Heliópolis, o vínculo que os liga á prática da moderna Arte Real. Um conjunto de temas, práticas e tradições que ainda hoje são observáveis na estrutura da Maçonaria (especialmente nos chamados ritos de inspiração egípcia).
Em nossa intuição, foi dessa fonte que Moisés bebeu a sua sabedoria e a transmitiu aos Irmãos de Israel. Essas