quinta-feira, 11 de junho de 2020


A ARQUITETURA DO UNIVERSO

O SANTUÁRIO DA TRADIÇÃO


Sabemos que a Cabala vê no desenho do universo uma forma projectada pela mente de Deus. Neste sentido ele é como se fosse um plano de arquitectura pré-concebido e estruturado com extrema precisão. Este plano é demonstrado admiravelmente na extraordinária simbologia dos Quatro

Mundos e no desenho da Árvore da Vida. Nestas duas concepções simbólicas, onde a intuição dos mestres cabalistas superou seus próprios conhecimentos positivos à respeito do mundo, encontramos um projecto extremamente sugestivo da evolução do todo universal, com as suas visões passadas, presentes e futuras, com todas as suas especificações e finalidades.

Nesta visão estrutural do plano cósmico fica mais simples encontrar um lugar para o complexo das intuições humanas, que a nossa mente, por falta de uma linguagem apropriada, não consegue explicar. Os pressupostos da metafísica, que tanta perplexidade causa aos estudiosos quando são comprovadas em testes de laboratório, assumem contornos mais visíveis, mais inteligíveis e mais belos até, porque nesse caso eles vêm vestidos de uma simbologia que nos enche os olhos e uma poesia que nos alegra a alma.

Não é, pois, sem razão, que a Maçonaria — aos nossos olhos uma experiência social e espiritual com um pé firmemente apoiado na tradição cabalística — chama Deus de Grande Arquitecto do Universo. E o porquê de o Templo onde se reúnem os maçons ter sido concebido como um simulacro do Cosmo, adoptando uma estrutura semelhante ao desenho da Árvore da Vida.

Isto ocorre porque nessa visão mística do processo de construção do edifício universal, a Divindade é comparada a um arquitecto que projecta o edifício e depois os seus mestres de obras, os arcanjos (arcontes), e os seus pedreiros, os homens, o constroem. É neste mesmo sentido que a planta do Templo maçónico é desenhada como se fosse uma espécie de mandala mágica, e construído de forma a captar a energia criadora, para que o psiquismo dos Irmãos ali reunidos seja carregado com as melhores virtudes, e os vícios porventura existentes sejam dissolvidos. Esta é a ciência maçónica por excelência, que é sintetizada na chamada “egrégora”, palavra que designa a energia cósmica captada pela mente das pessoas reunidas no Templo, em estreita união, e convergentes para a consecução de um mesmo objectivo.

Este também, diga-se de passagem, é o elo simbólico que justifica a tradição maçónica de considerar o templo onde os Irmãos se reúnem uma cópia do Templo de Jerusalém, na forma como ele foi projectado pelo arquitecto Hiram Abiff e construído pelos arquitectos do rei Salomão [1]. Todo iniciado na tradição maçónica sabe que o Templo de Jerusalém foi erigido segundo instruções místicas, que visavam reproduzir nesse edifício o próprio desenho do Cosmo, e que, segundo acreditavam os israelitas, era a “morada de Deus ” [2].

Esta visão justifica-se plenamente, pois na construção de um edifício, quanto mais sofisticado ele for, mais encontraremos noções de ciência aplicada. Nele aplicam-se conhecimentos de física, química, geologia, sociologia, matemática, astronomia e muitas outras disciplinas, necessárias à perfeita construção e adequação do logradouro às necessidades que ele visa atender. E o que dizia Fulcanelli, por exemplo, quando se referia à catedral gótica, que no seu entender, era um verdadeiro santuário de tradição e aplicação das ciências físicas e sociais [3].
O segredo do Tabernáculo

A Cabala chama Sod aos enigmas que estão ligados ao desenho estrutural do universo, os quais foram reproduzidos na planta do primeiro Templo de Jerusalém. Por isso ele era originalmente chamado de Santuário da Solidão, pois ali reinava o Único, o Santo dos Santos, que não tinha par entre todas as divindades do universo.

Como se sabe, o Templo de Jerusalém foi desenhado a partir das instruções que Deus deu a Moisés para a construção do Tabernáculo. Todos os utensílios, os adereços, as vestes dos sacerdotes e as próprias medidas do Templo tinham uma função específica e um significado arcano de grande importância.

O Tabernáculo tinha três divisões representando o céu (o altar onde ficava o Santo dos Santos), o mar (onde ficava o Lavatório, a grande bacia de bronze) e a terra (o Átrio, onde ficava o povo e altar do holocausto). Os quatro tipos de tecido usados na confecção do Tabernáculo simbolizavam os quatro elementos; a sobrepeliz do Sacerdote Supremo (Cohen gadol) com as suas variações cromáticas era a imagem do universo nascente, que na sua origem apresentava uma profusão fantástica de cores [4].

As campainhas significavam a harmonia do som, já que um dos elementos com os quais Deus faz o universo é o som; as doze pedras preciosas no peitoral do sacerdote e os doze pães da preposição simbolizavam, no plano cósmico, os doze signos do zodíaco e no sociológico as doze tribos de Israel, maquete da Humanidade Autêntica. As duas esmeraldas nas ombreiras do sacerdote eram o sol e a lua. Na mitra do sacerdote as quatro letras do Nome de Deus (IHVH), diziam que todo o universo era construído a partir das letras do Nome Sagrado. O candelabro de sete braços (menorah) significava os sete planetas conhecidos na época. A mesa arrumada na direcção norte, com os pães da preposição e o sal, todos arranjados na forma de uma mandala mágica, homenageavam a chuva e o vento, forças necessárias à produção da terra. A grande bacia de bronze que os sacerdotes usavam para lavar os pés e as mãos simbolizavam a limpeza de carácter que o homem devia mostrar frente à divindade.

Assim, na simbologia do Templo de Jerusalém e de seus utensílios estava descrita toda a estrutura de constituição física do universo e, além disso, um vigoroso código de moral para guiar os seus construtores. Esta também seria a formulação simbólica que viria a inspirar, na Idade Média, os maçons operativos na mística da sua arte. Por isto é que eles mostravam, na execução do trabalho puramente operativo, o desvelo próprio de um artista que sente estar copiando a própria obra de Deus; e na alma que assim se consagra a esse trabalho havia um sentimento de ascese que transcendia o plano físico para levá-lo ao arrebatamento próprio daqueles que se dedicam à uma prática de natureza sagrada. Estava, assim, nascida a mística operativa que deu origem à Maçonaria [5].
O templo e o homem

Por outro lado, são muitas as tradições que sustentam ser o organismo humano, integrado na sua parte espiritual, um desenho do próprio universo, do qual reflecte a sua formulação mecânica e as suas leis de formação e desenvolvimento. Esta analogia entre o homem e o universo se revela no postulado, tão caro aos hermetistas e já bem aceito por cientistas de renome, de que no microcosmo (o homem) se repetem as mesmas leis que formatam o macrocosmo (o universo) [6].

Se tudo isto é verdade provada ou mera especulação, só Deus poderia dizer. Nós só podemos deduzir e acreditar ou não. Mas há algumas coisas que não podem ser ignoradas. Uma delas é o que diz a teoria da evolução. Segundo essa teoria, todas as espécies vivas são “fabricadas” pela natureza com um “programa” específico que as submete a um processo evolutivo inexorável. Este “programa” é necessário tendo em vista as constantes mudanças ambientais a que o universo está sujeito. A espécie que não consegue adaptar-se a essas mudanças acaba sendo substituída por outras mais competentes.

Esta é uma lei existente na natureza, chamada pelos antropólogos, de lei dos revezamentos [7]. Ela existe para promover uma necessária evolução nas espécies por ela produzidas por meio do aperfeiçoamento das suas habilidades e capacidades. Não se aplica somente às espécies vivas, mas à toda a realidade universal, inclusive aos elementos químicos e a matéria bruta em geral. Pois todos os elementos químicos também são obtidos por interacção de seus componentes, da mesma forma que os organismos moleculares. Quer dizer, repetem-se na matéria bruta os mesmos processos que formatam a matéria orgânica e tanto uma quanto a outra estão sujeitas às mesmas leis de nascimento, formação, desenvolvimento e desaparecimento, o qual se dá pelo fenómeno da transformação selectiva.

Por isso, a teoria da evolução encontra mais paralelos na doutrina da Cabala do que nas outras tradições religiosas. Aqui ela é figurada através de um desenho mágico — filosófico, chamado Arvore Sefirótica, ou Arvore da Vida, esquema místico que representa as manifestações da divindade no mundo das realidades sensíveis. Neste desenho, cada sefirá é uma fase de construção do universo e reflecte um processo de evolução perene, constante e ordenado, que serve tanto para explicar o processo de construção das realidades do mundo material, como das realidades do mundo espiritual.

A Árvore da Vida mostra o mundo (e o homem) sendo construído como se ele fosse um lago que transborda e vaza para outro lago, até formar o grande mar universal, onde todas as formas de existência, físicas e espirituais, podem ser encontradas. Esta visão não deve ser considerada urna alucinação mística nem apenas uma especulação metafísica. Sabemos que quando dois elementos químicos se juntam eles formam um composto. Conservam as suas características particulares, mas também formam um terceiro elemento com diferentes propriedades. O composto, que é o filho nascido dessa união, possui as propriedades dos elementos que o formaram e agrega aquelas que são desenvolvidas por ele próprio. Nesta fórmula está o segredo da teoria da evolução. Dois átomos de hidrogénio combinados com um de oxigénio formam uma molécula de água. A água é um composto, “filho de H20,” que tem H (hidrogénio) e O (oxigénio) na sua composição, mas também tem outras propriedades que seus “pais”, individualmente, não possuem. Ela tem a propriedade de incubar a vida. A água é necessária à vida. E o leito onde ela nasce. E nesse sentido que Teilhard de Chardin vê o homem como sendo um “complexo-consciência”, ou seja, um composto feito por elementos orgânicos, obtidos por sínteses naturais (selecção natural) e elementos psíquicos, produzidos por sínteses mentais cada vez mais elaboradas, que resultam num espírito individual, e estes, num ser pluralístico, que no final comporão um ser espiritual colectivo que ele chama de Ponto Ómega [8].

Assim também acontece com o restante do universo. Cada fase da evolução é uma combinação de elementos. Cada nova fase desenvolve as suas próprias particularidades, que são as propriedades com as quais ela contribui para o desenvolvimento do universo como um todo. Por isto cada fase constitui um passo a mais no processo de evolução porque o composto que nasce da união dos elementos é sempre um resultado mais complexo dos que os elementos que o formam. Nada se perde do que já foi conquistado, apenas se transforma em algo novo, com diferentes propriedades, sempre num estágio mais avançado de evolução.

Por isto o novo é sempre maior que a soma das suas partes. Novas propriedades são adicionadas ao universo a partir de cada interacção praticada por seus elementos. E assim ele supera-se em cada momento da sua constituição.
Criacionismo e evolucionismo

Um plano de evolução do mundo físico e da vida nos seus aspectos material e espiritual é o que nos proporciona a doutrina da Cabala. Ela oferece uma explicação de como o universo se forma, como se desenvolve e a que finalidade se presta. Da mesma forma, a vida que se cria e evolui dentro dele. E uma evolução que se desenha num processo iniciado no mais ínfimo grão de matéria (um quanta de energia) tornando-se matéria que se complexifica, evolui tornando-se vida, em vida que se espiritualiza, em espírito que se diviniza, sempre num sentido ascendente, através de sínteses químicas e mentais cada vez mais complexas, seguindo o mesmo rumo: a flecha da evolução. A nossa missão, neste esquema, toma-se clara e insofismável, pois sendo uma presença indispensável neste processo, o homem torna-se o centro da perspectiva universal, já que é a partir da sua mente que o universo se organiza e adquire uma identidade.

Assim, não podemos compartilhar dos receios daqueles que temem pelo futuro da humanidade. A humanidade jamais perecerá: ela apenas se transformará. Os adeptos da teoria da evolução dizem que o ser humano evoluiu de uma matriz animal até a configuração que temos agora. Já aqueles que acreditam no criacionismo dizem que nós nascemos perfeitos, mas tornamo-nos imperfeitos por força de uma série de quedas e ascensões no nosso processo evolutivo [9].

São duas teorias diametral mente opostas. Uns dizendo que já fomos piores do que somos hoje e outros sustentando que já fomos melhores. Mas no fundo elas completam-se, pois ambas sustentam que a vida está submetida à um processo de evolução que é inexorável. Se nascemos rastejantes como répteis e através de um processo de evolução alçamo-nos até a altura do céu, ou se nascemos no céu e por um motivo qualquer descemos à terra e agora estamos a esforçar-nos para voltar ao céu, são apenas formas diferentes de ler o mesmo processo. Uma vai do pé para a cabeça, outra da cabeça para o pé. Acreditar numa ou noutra depende da sensibilidade de cada um.
Só se Deus não existisse

Para nós não importa saber quem tem razão. Na verdade, o que nos parece tão assustador com os rumos que a humanidade vem tomando é resultado apenas da nossa ignorância. Não temos como saber o que poderá acontecer a cada nova experiência interactiva que os elementos do universo promovem. Isto porque o Criador colocou neste processo uma lei chamada “principio da incerteza” (deduzido pelo físico alemão Werner Heisenberg). Segundo este princípio é impossível prever o que acontecerá no futuro porque não temos como saber qual a posição e a velocidade que as partículas de energia que formam a massa física do universo assumirão no momento seguinte da sua aceleração. Só podemos estudar as tendências que ele tem de acontecer de certo modo, mas nunca uma certeza de que será exactamente assim. Isto porque a tendência de uma partícula se comportar desta ou daquela maneira só pode ser deduzida a partir dos seus comportamentos no momento em que são observadas. Mas a própria observação do movimento da partícula já concorre para modificar esse movimento. Portanto, ao aplicar aos elementos do universo o nosso pensamento nós já o estamos modificando. Assim, é impossível saber como ele será no futuro porque o mundo sempre poderá será diferente em função da própria observação que dele fazemos [10].

Isto é válido para o mundo da física quântica e também para a nossa vida em geral. Esta é uma boa sabedoria que a moderna observação científica nos dá, e a Cabala também.

O que se deduz disso tudo é que, se o universo futuro será bom ou ruim para nós, isso só depende do nosso comportamento no presente. Mas isso não nos será dado saber à nível de consciência individual. E depois, bem e mal são conceitos puramente humanos. Quando não formos mais o que somos hoje, talvez não precisemos mais destes conceitos para justificar os nossos sentimentos a respeito. Desta forma, o que podemos dizer com certeza é que o mundo só não teria futuro se Deus não existisse. Mas Ele simplesmente (e felizmente) existe.

João Anatalino Rodrigues
Notas

[1] Este pressuposto é colocado tendo em vista a tradição maçónica e não a história propriamente dita, pois historicamente, conforme relata a Bíblia e também o historiador Flavio Josefo, Hiram não era arquitecto, mais sim um metalúrgico que fundiu as colunas de bronze do Templo e os utensílios de culto neles usados. Segundo algumas tradições maçónicas o verdadeiro arquitecto do Templo de Jerusalém foi Adonhiram (Hiram, filho de Adon). Esta tradição é cultivada no Rito Adonhiramita, cuja organização é atribuída ao Barão Theodore Tschoudy (1727- 1769), nobre francês, reformador da Maçonaria francesa. Ver, a este respeito, Jean Palou – Maçonaria Simbólica e Iniciática – Ed. Pensamento, 1986.

[2] Alex Horne- O Templo do Rei Salomão na Tradição Maçónica. São Paulo. Ed. Pensamento, 1998.

[3] S. Fulcanelli. O Mistério das Catedrais. Lisboa, Ed. Esfinge, 1964.

[4] Ver, neste sentido, a imagem apresentada por Stephen Hawkings sobre a coloração inicial do universo saído do Big-Bang. O Universo numa Casca de Noz- citado. Sobre este assunto ver ainda a concepção de Gershon Scholem sobre a experiência mística, onde ele diz que “quase todos os místicos do nosso conhecimento retratam essas estruturas como configurações de luzes e cores”. Não seria esta uma indicação de que o nosso inconsciente tem, de facto, uma ligação mística com o início de todas as coisas?

[5] lusão à crença dos antigos maçons que construíam os templos religiosos na Idade Média, de que eles eram os “operários do Bom Deus”, pois estavam construindo na terra as moradas da divindade. Por isto o carácter sacro da sua arte. Na Imagem, reconstituição do Templo de Jerusalém: Fonte: Alex Horne: O Templo de Salomão na Tradição Maçónica.

[6] Em linguagem hermética, “o que está em cima é igual ao que está em baixo”.

[7] Lei dos revezamentos, em antropologia, é a lei segundo a qual os organismos que não desenvolvem uma estrutura capaz de sobreviver em ambientes desfavoráveis e diferentes daqueles nos quais vivem, fatalmente serão substituídos por outros mais competentes. Com isto a natureza mantém o processo da vida sempre activo e com claro sentido evolutivo. Ver, nesse sentido, Teilhard de Chardin – O Fenómeno Humano, citado.

[8] Teilhard de Chardin- O Fenómeno Humano, Ed. Cultrix, 1990.

[9] Evolucionistas são aqueles que acreditam que as espécies vivas, e por consequência, os seres humanos, são produto de uma selecção natural (teoria de Charles Darwin). Os criacionistas são aqueles que acreditam que a espécie humana já nasceu do jeito que ela é hoje: a fórmula bíblica literal.

[10] O princípio da incerteza é um enunciado da mecânica quântica, feito em 1927 pelo físico Werner Heisenberg, que diz ser impossível medir com precisão a velocidade de deslocamento de partículas atómicas, porque a própria interacção entre o movimento delas e o acto de medir a sua velocidade interfere nessa medida.


O VINHO E A MAÇONARIA


Dizem-se os filhos da Luz, e pretendem transformar homens bons em Homens melhores. Segundo o Rito Escocês Antigo e Aceite, que assenta em três pilares – Sabedoria, Beleza e Harmonia percorrem o caminho que os leva ao grande Arquitecto do Universo desde tempos imemoriáveis.

Transportam consigo a ciência do traço, o número e a regra no maior dos segredos. Quando partem, no céu são as estrelas que iluminam na terra os seus irmãos, transmitindo-lhes força, para que continuem fiéis aos seus ancestrais princípios.

Eles, os maçons, não querem nem precisam do poder dos profanos, porque são o Poder que reconhece nos lugares sagrados a encarnação do divino na matéria. A cinzel, deixaram as suas marcas nas mais magníficas catedrais góticas da Idade Média que o mundo conhece.

Com o esquadro e o compasso estabeleceram planos, traçaram desenhos, calcularam e realizaram a obra que o Rei Salomão quis erguer, para louvar e honrar a memória do Deus de seu pai, o bíblico rei David, – o 1º Templo – em Jerusalém, guardião da Arca da Aliança que continha as Tábuas da Lei.

Senhores da Espada Flamejante dos Cavaleiros; do Triângulo do fogo ou da água; do divino Delta Luminoso e da Pedra Cúbica; rectos como fio-de-prumo, escolhidos para transmitir a Luz. Nos seus templos, Colunas unem a terra com o céu, entre elas trocam segredos; e sobre elas colocam o fruto da união – como uma dádiva, bagos como favos de mel, sã a bela e perfeita Romã. No círculo mágico da sua Cadeia de União, na matéria geram energia, que eleva o espírito nas ocultas decisões, como uma barca se move na bruma sem se ver.

Diz a lenda, que com folhas de Acácia, símbolo da imortalidade, cobriram o túmulo do Mestre Hiram Abiff – o egípcio Príncipe dos Arquitectos, que no silêncio escutava o vento do deserto que lhe devolvia respostas.

Procuram a verdade Universal, sobrepõem a espiritualidade ao materialismo, defendem a liberdade e os direitos humanos, a intimidade e convicções pessoais, solidários com os desfavorecidos querem a fraternidade entre os homens, tolerantes, de isenção política e religiosa, buscam o aperfeiçoamento individual, em democracia anseiam a paz entre os povos, defendem a natureza e o Universo.

Juntam a lua com o sol, no brilho do orvalho da manhã, crescem na construção do seu próprio templo interior, onde um céu salpicado de estrelas, os leva para outra dimensão. Na sua fortaleza, tecem com fios de espectros, o deslumbramento da alma no seu Deus revelado. Há quem diga que a Bíblia é um documento de inspiração maçónica. Há quem associe o inicio da Maçonaria à construção do Templo, na época do Rei Salomão, ou que a coloque na alma dos arquitectos egípcios que ergueram as grandes pirâmides da história.

Amados e odiados, temidos e cobiçados, os maçons desde sempre foram perseguidos, e desde sempre resistiram às maiores atrocidades cometidas contra si. Perpetuando no tempo, a sábia espiritualidade da alma numa dimensão atemporal, em corpos geometricamente concebidos, pela Mão de Deus. São a expressão visível do invisível, mantendo no seu poder a essência sagrada.

Nem Hitler, com a sua gigantesca maquinação conseguiu extorquir-lhes os mais ocultos mistérios. Nem na Idade Média, Filipe IV (o Belo), rei de França, os desmantelou, quando a 13 de Outubro de 1307 desencadeou a perseguição a todos os membros da Ordem. É então que os Cavaleiros Templários saem de França. Sendo acolhidos noutros países, (em Portugal a Ordem dos Templários foi reformulada em Ordem de Cristo), mas um grande grupo de cavaleiros ao fugir de França, consegue ir rumo à Irlanda e Escócia.

Por esta altura são divulgados os romances dos Cavaleiros da Távola Redonda, na busca do Santo Graal liderados por Sir Lancelot, Galahad e Percival, e é originado o Rito Escocês Antigo e Aceite, cuja religião aceite é a antiga, e sobre o qual assentam até hoje, as práticas rituais maçónicas, exercidas pela Maçonaria Regular oficialmente reconhecida em todo o mundo.

Até meados do séc. XVIII, a maçonaria foi operativa, pois os maçons eram construtores, e é pela época em que o mais antigo e importante documento maçónico, denominado pelas “Constituições de Anderson” é concebido – 1723, que passa a ser especulativa. A origem do Rito Escocês Antigo e Aceite é posterior ao final do século XVII inícios de XVIII, sendo antes o rito mais antigo o de York.

Nos inícios da maçonaria, existiram algumas lojas de adopção só de homens, em que as mulheres em certas circunstâncias podiam assistir. No século XIX, como consequência do movimento reivindicativo feminista, formaram-se lojas femininas e mistas; embora em França a Grande Loja Feminina exista apenas acerca de 60 anos e em Portugal há aproximadamente 5 anos. Todavia ambas as maçonarias, masculina e feminina são guardiãs da mesma tradição segundo o R.E.A.A., e por isso usando dos mesmos símbolos, e praticando os mesmos ritos e rituais, até à actualidade.

Os maçons reúnem-se em Grandes Lojas ou Loja, onde cada irmão tem o seu Grau correspondente – basicamente (aprendiz, companheiro e mestre).

Após terminarem as sessões rituais de Loja, segue-se habitualmente o ágape, e no seu decurso bebe-se vinho, e com ele se fazem brindes, sendo que o vinho na Maçonaria tem um valor simbólico, remetido à fraternidade do espiritual, e relativamente às circunstâncias em que é utilizado, varia conforme ritos e rituais exercidos.
Na consagração de um Templo ou de uma Loja

No decorrer de um processo de sagração maçónica, de um espaço devidamente decorado para poder ser caracterizado como um Templo Maçónico, é utilizado um ritual que evoca a construção do Templo de Salomão, assim, de uma ânfora de vinho tinto, faz-se derramar um pouco do mesmo sobre o quadro do tapete do Templo, que simbolizará a alegria que deve reinar entre os irmãos.
No início de um Ágape Maçónico

Ágape é o nome atribuído a uma refeição maçónica, geralmente um jantar que se segue a uma reunião de maçons, ritualmente desenvolvida na respectiva loja, ou em assembleias magras da Grande Loja, que reúnem além do Grão-Mestre, representantes de todas as lojas.

No início de um Ágape, um maçon designado para o efeito, profere uma evocação simples, na qual é acompanhado por todos os presentes, em que toma numa mão um copo de vinho tinto e na outra um pedaço de pão, explicando que o vinho simboliza o espírito e o pão a matéria, ambos devem ser partilhados, em solidariedade para com os desfavorecidos, que sofrem por falta de bens espirituais ou materiais.
Durante o Ágape Maçónico

Iniciada a refeição ou banquete maçónico, em que podem participar também senhoras e familiares dos maçons, normalmente e de forma ritual, desenvolvem-se sucessivamente no tempo, e sequencialmente três tipos de brindes com o vinho:
Chefe de Estado (Presidente da República em Portugal, e por exemplo em Inglaterra á Rainha, e em Espanha ao Rei);
Soberanos e Chefes de Estado que em todo o mundo protegem a maçonaria;
Grão-Mestre; (ou Venerável Mestre);
Grandes Oficiais;
Aos ilustres visitantes;
Ás Senhoras.

a) Por iniciativa do Venerável Mestre, no caso de um ágape de responsabilidade de uma Loja, ou de um Grão-Mestre no caso de um ágape da Grande Loja, este pode tomar a palavra para distinguir algum irmão presente (e sua mulher, se estiver acompanhado), em que o saúda, e brinda do seu lugar, levantando-se, erguendo o copo e a taça, depois do Mestre-de-cerimónias anunciar solenemente que o Venerável, ou o Grão-Mestre deseja “beber vinho com”, ou brindar ao homenageado em causa, que igualmente de pé, retribui o brinde, e em silêncio, bebe da taça simultaneamente.

b) Por ordem do maçon que preside ao banquete, e depois de servido o primeiro prato (ou entrada), o Mestre-de-cerimónias propõe ou indica, quem vai propor uma série ritual de brindes proferidos, espaçadamente e sucessivamente, destinado ao:

Após estes brindes rituais, abre-se um período de brindes livres, em que qualquer maçon presente, pode propor um brinde de sua iniciativa.

c) Finalmente, no encerramento de ágape maçónico, existe um brinde simbólico denominado brinde das 11 horas, que evidencia pela posição dos ponteiros, o aspecto de um compasso prestes a fechar-se, o que ocorre à meia-noite pela sobreposição dos ponteiros.

Neste brinde, o Grão-Mestre (ou Venerável Mestre) permanece sentado, e o maçon mais jovem (ou o aprendiz mais recente) coloca-se de pé imediatamente por detrás, coloca a sua mão esquerda no ombro direito daquele, ergue a sua taça e profere a seguinte saudação: “ A todos os maçons que se encontrem longe de suas casas, ou afastados dos seus, em sofrimento, ou em viagem, na terra, no ar, ou no mar, desejamos-lhes um pronto restabelecimento, e o seu regresso a casa, se assim o desejarem”.

Todos os maçons presentes, de pé, erguem então as suas taças de vinho, e respondem em uníssono: “ A todos os maçons”.

Em algumas ocasiões, quem preside ao banquete maçónico pode retribuir este brinde. Levanta-se, e de frente para o aprendiz, estando este com a taça erguida, toca-a com a sua, e declara: “meu irmão – eu não sou mais que tu”; de seguida tocam-se outra vez as taças, e declara: “meu irmão – tu não és menos do que eu”; depois, pela terceira vez, tocam-se as taças, e declara: “meu irmão, tu e eu somos iguais, bebamos juntos”, e de seguida, entrelaçam os braços e bebem simultaneamente. Os irmãos presentes saúdam este final com uma salva de palmas.

Qualquer das sessões de Loja ou de Grande Loja, são realizadas em espaços privativos ou reservados. Os ágapes maçónicos, embora possam também efectuar-se em restaurantes públicos, o local escolhido deve ser recatado e discreto, utilizando terminologia ritual.

Os brindes maçónicos são sempre feitos com vinho tinto, (pólvora negra) e de pé. Os copos são levados à boca de forma pausada e ritmada, que começa com o alinhar dos canhões (copos), apresentar armas, e apontar. São retribuídos por todos os maçons com a expressão “Fogo”, excepto no brinde às senhoras, em que também em uníssono proclamam “ás Senhoras”.

Feito o brinde, bebido o vinho de forma ritual, em três tempos, (fogo, bom fogo e fogo à vontade), o copo retoma a sua posição na mesa, também com gesto ritual, sequencial, em três tempos, terminando com o pousar do copo, simultâneo com um ruído seco.

Não conheço bebida mais misteriosa que o vinho.
Não conheço homem mais enigmático que o maçon.
Não há bebida mais nobre que o vinho.
Não há homem de rectidão mais implacável que o maçon.
Por isso a sua união é harmoniosamente perfeita.
A sabedoria conhece o que é Sagrado, e sabe que não deve ser profanado.
Há segredos que a Natureza e algumas mentes humanas luminosas, no seu imenso poder, jamais revelarão.

Maria Paula Boloca Carvalho Vendrell
Agradecimentos:
Ao Venerável Dr. Luís Nandim de Carvalho, pela sua simpatia, pelo seu comportamento de verdadeiro maçon na disponibilidade prestada, por tudo o que com ele aprendi, pela indicação de documentos sobre maçonaria, e documentos cedidos sobre os rituais do vinho na maçonaria, que tornaram possível a realização deste artigo.
À Dra. Olga Maria Serra, pela paciência com que me ensina tantas coisas sábias.
Fonte
Maçonaria.net

O RITUAL, O SÍMBOLO E AS PALAVRAS


Venerável Mestre, Queridos Irmãos em todos os Graus e Qualidades: venho partilhar convosco algumas impressões, sobre o Ritual, os Símbolos e as Palavras.


Quadro de Loja de Aprendiz, Rito de Adopção, Séc. XVIII

Os trabalhos em Loja geram-se numa matriz espiritual propícia ao pensamento luminoso, à descoberta do que está nas sombras, à unificação do disperso, por outras palavras, abrindo o trajecto para a progressão iniciática.

Num ambiente em que as chamas ardem sobre as três Colunas, em que um magnetismo envolto em música sublime flui das colunas J e B, impulsionando um movimento vital, de Oriente para Ocidente, os Irmãos Maçons deslizam sobre a dualidade da Natureza, representada pelo pavimento mosaico. Centrados nos símbolos desenhados no quadro da Loja, imperceptivelmente vão abrindo o compasso, traçando e recriando a espiral da matriz universal.

Nesse éter, as palavras dos Irmãos nascem, sonoras e inspiradoras como se da superfície das águas soassem, saídas daquele limbo que simultaneamente separa e liga os elementos. Tocando no âmago dos nossos corações, a musicalidade dessas palavras acompanha e modula o nosso caminho.

Queridos Irmãos, uma das definições do Homo Sapiens é a de um Ser que cria para si próprio um caminho espiritual motivado pela busca do Sentido da Vida, isto é, procurando qual é o seu lugar no Universo. As representações plásticas da movimentação humana, dos caçadores e migrantes, africanos e de outras latitudes, ilustram este aflito caminhar. Cada comunidade criou a sua cosmogonia, que servia de suporte narrativo a essa procura de “sentido”.

De modo diverso e inovador, como que expandindo o Homem de Vitrúvio em todas as direcções do pentagrama, os maçons traçam essa busca orientados por um peculiar método, o Ritual, que os guia na descoberta e rectificação da sua natureza.

O Ritual e a linguagem utilizados na Maçonaria não são compostos apenas por lendas, mitos, metáforas e alegorias. Sabedoria, Força e Beleza unidas geram a energia motriz da Luz e a ela conduzem. Aquilo que estas forças motrizes operam no nosso pensamento e coração geram um novo Ser.

As palavras maçónicas são um veículo de significados simbólicos; são simbólicas e operativas pela ressonância e exercem um efeito transformador na mente dos maçons. Metodicamente repetidas, na penumbra do Templo de Salomão, são proferidas solenemente e recebidas pelo Silêncio atento e fecundo. As palavras e fórmulas, à medida que se repetem, ouvidas em mágico recolhimento, vão refazendo os ciclos espiralados do Ritual.

O Ritual não é pois uma narrativa fechada. A linguagem simbólica faz parte da metáfora maçónica, bem diferente das narrativas ficcionais: os seus significados são atribuídos pela interpretação individual de cada obreiro. O símbolo só adquire poder material quando lhe atribuímos um significado. Cada Maçon recria cada símbolo, dando-lhe um significado pessoal.

Concluindo, o ritual Maçónico é um método, através do qual a metáfora da construção opera na nossa mente. O Templo Interior que construímos transforma-nos e transformados, transformamos. Isto é real, pois assim o sinto.

Não se trata porém de reflectirmos o brilho solar, mas de permitirmos que a sua Luz penetre no nosso interior e de lá renasça, fulgurante!

No entanto, que nos não baste pensar que pertencemos a uma elite. Quando a Maçonaria entra no coração de um Maçon, assume-se a consequente condição de responsabilidade. Responsabilidade pela construção de uma Humanidade digna desse nome.

Continuemos pois, Queridos Irmãos Obreiros, fora do Templo a obra que no seu interior começamos, prossigamos propugnando, na sociedade e no mundo dos homens, a nossa consigna de Liberdade, Igualdade, Fraternidade!

Disse.

Texto original escrito por Mozart (Nome Simbólico)

VESTIMENTAS DE UM MANDARIM


Vivemos em momentos de desenfreado consumismo voltado em grande parte para o exterior da pessoa, com a preocupação da imagem física, visando receber elogios pelas vestimentas, pelo corpo bem moldado e pelo uso de produtos de beleza e outros adornos. Isto pode ser positivo quando a parte interna também tem a mesma beleza. Quase sempre esta parte externa reflecte a presença de vaidade no ser humano.

O que é vaidade? No dicionário Aurélio, “é o desejo imoderado de atrair admiração; qualidade do que é vão, ilusório”. Uma pessoa vaidosa deseja criar uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o intuito de ser admirada, o que nos lembra “Narciso”. Narciso, palavra grega derivada do vocábulo “narke”, significa entorpecido. Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade. A sua parábola tem sido uma grande fonte de inspiração há pelo menos 2 mil anos. Tornou-se símbolo de frivolidade e apego às aparências.

A deusa Némesis condenou “Narciso” a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua beleza, ele deitou-se no banco do lago e definhou, olhando-se na água e embelezando-se. A beleza de Narciso era tão incomparável que ele pensava ser semelhante a um deus. Era a consumação perfeita e total da vaidade.

A vaidade é decorrente do orgulho e dele se aproxima. As suas facetas mais comuns são apresentação pessoal exuberante, gestos repetitivos, falar demasiado, evidência de qualidades intelectuais, não poupando referências à própria pessoa ou a algo que realiza. Esforço em realçar dotes físicos, culturais ou sociais, intolerância para com aqueles mais humildes, às vezes não evitando fazer-lhes referências agressivas e fixado constantemente em ocupar cargos de destaque.

Não reconhece a sua própria culpabilidade nas situações em que a tem e tem forte obstrução mental na capacidade de se auto-analisar, não aceitando as suas falhas ou erros e atribuindo à sorte ou azar acontecimentos com ele ocorridos. O vaidoso tem uma estima exagerada de si mesmo.

Dou continuidade a este artigo, através de um texto que merece profunda atenção, e que me chegou pelo deputado estadual maçónico José Manoel de Brito, da Loja “Capela Aparecidense” de Aparecida de Goiânia. (editado)
Conta-nos a história de um homem que foi nomeado mandarim, uma espécie de conselheiro na China. Envaidecido com a nova posição, pensou em mandar confeccionar roupas novas. Seria um grande homem, agora. Importante.



Um amigo recomendou-lhe que procurasse um velho sábio, um alfaiate especial que sabia dar a cada cliente o corte perfeito. Depois de cuidadosamente anotar todas as medidas, o alfaiate perguntou-lhe há quanto tempo é que ele era mandarim. A informação era importante para que ele pudesse dar o talhe perfeito à roupa.

Ora, perguntou o cliente, o que é que isso tem a ver com a medida do meu manto?

Paciente, o alfaiate explicou:

“A informação é preciosa. É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo, que anda com o nariz erguido, a cabeça levantada. Neste caso, preciso fazer a parte da frente maior que a de trás.

Depois de alguns anos, ocupado com o seu trabalho e os transtornos advindos da sua experiência, torna-se sensato e olha adiante para ver o que vem na sua direcção e o que precisa ser feito de seguida. Para esse, costuro um manto de modo que fiquem igualadas as partes da frente e a de trás. Mais tarde, sob o peso dos anos, o corpo está curvado pela idade e pelos trabalhos exaustivos, sem falar na humildade que adquiriu pela vida de esforços. É o momento de fazer o manto com a parte de trás mais longa.

Portanto, preciso saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente perfeitamente.”

O homem saiu da loja pensando muito mais nos motivos que levaram o amigo a lhe indicar aquele sábio alfaiate, e menos no manto que viera encomendar.


Um pouco mais preparado, aprendeu que cargos e funções são sempre responsabilidades que nos são oferecidas pela divindade para o nosso progresso. Não há motivo para vaidade, acreditando-se superior ou melhor que os outros.

Lembrou-se da passagem bíblica, quando Pilatos assegurou a Jesus que tinha o poder de vida e morte, e que nas suas mãos estava o destino das suas horas seguintes, o Mestre alertou-o dizendo: “Procurador, a autoridade de que desfrutas não é tua; foi-te concedida e poderá ser-te retirada.” De facto isto veio a acontecer. Apenas poucos anos após a morte de Jesus, o poder de Roma retirou do procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, toda a autoridade. Ele perdeu o cargo, o prestígio, e tudo o que acreditava que fosse eterno nas suas mãos.

O novo mandarim aceitou a lição e ao assumir o alto cargo, procurou pautar-se pela orientação do velho sábio, alfaiate especial, de que a autoridade em que nos vejamos investidos deve ser exercida com humildade.

Florbela Espanca poetisa portuguesa nascida em 1894 e falecida em 1930, foi iluminada ao colocar-se diante da vaidade, e expressou-se inspirada na lição do velho alfaiate, casualmente ou não produzindo a poesia intitulada “Vaidade”:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…

(Florbela Espanca, «Livro de Mágoas», in «Poesia Completa»)

Adaptado de texto de Barbosa Nunes – Grão-Mestre Geral Adjunto do Grande Oriente do Brasil


COMPREENDENDO O USO DO AVENTAL

Celso Ricardo de Almeida

O Avental é a vestimenta emblemática, simbólica e obrigatória de um Maçon, em rigor a única necessária, e o seu uso denuncia o seu grau hierárquico dentro da Ordem Maçónica, podendo ser desde cargos administrativos como o posicionamento nos vários graus existentes, bem como evidenciar também os diferentes ritos e potências. Mas pouco se conhece da história desta humilde vestimenta que tão grande significado possui. Os nossos rituais limitam-se apenas a explicar a simbologia do Avental para o grau do referido ritual, não tecendo informações ou comentários sobre a sua história e significado. Cria-se assim uma grande lacuna para a interpretação desta vestimenta, que como já foi mencionada, é indispensável para o Maçon.

O presente estudo possui a pretensão de explicar como surgiu esta vestimenta e qual o seu significado, seja ele simbólico ou exotérico. Contudo, não entraremos nas questões referentes à sua utilização em Loja, visto que cada grau possui o seu simbolismo e as suas (Publicado em freemason.pt) características próprias. Iniciando o estudo propriamente dito, iremos tecer um breve comentário, sobre a utilização do Avental no mundo profano, e assim, conhecermos melhor as suas utilizações e importâncias profanas, para posteriormente entrarmos na simbologia Maçónica.

É notório que o Avental é utilizado por grande número de pessoas que mesmo não ciente da sua importância, beneficiam desta pequena e até mesmo insossa vestimenta. Mas o que é afinal o Avental? E quando se iniciou a sua utilização?

O Minidicionário de Língua Portuguesa Melhoramentos, Edição 2000, classifica o Avental como:
Peça de pano, couro ou plástico, que se usa sobre a roupa, para protejê-la, ou
Espécie de guarda pó, usado por farmacêuticos, dentistas, médicos e etc.

No mundo profano o Avental é muito utilizado, principalmente por pessoas que têm a necessidade de se protegerem, seja de qualquer partícula sólida ou líquida, que venha a sujar a roupa, ou de substancias, porosas ou não, que possam agredir a pele.

Para alguns escritores, a origem do Avental está ligada há tempos muito remotos, como o Paraíso Terrestre, onde alguns vêem Adão como o inventor do Avental, representado na folha de parreira, o qual, segundo a ilustração bíblica, cobria os seus órgãos genitais. Esta ideia é refutada por outros que a consideram ilusória e especulativa.

Historicamente falando é quase que impossível precisar a data ou o período em que o Avental começou a ser utilizado; há contudo vários registros históricos do seu uso: os Romanos, por exemplo, usavam-no como parte do seu uniforme militar, como também há registros do uso de Avental por Egípcios, Persas e Hindus. Mais contemporaneamente, percebemos que os pintores da renascença, também o utilizavam para proteger as suas roupas dos respingos de tintas.

Em Maçonaria o surgir do uso do Avental pode ter sido iniciado nas Guildas e corporações Medievais. Tais associações, que deram origem à Maçonaria Operária, sendo provável que este deva ser o único sinal externo do período Operativo da Maçonaria, tinham por hábito distribuir entre os seus membros, Aventais para o exercício do ofício ao qual estavam ligados. Estes Aventais apresentavam diferenças com base nos diferentes trabalhos e conhecimento acerca do ofício em questão, tais como sapateiro, ferreiro, açougueiro, pedreiros, entre outros.

Quanto aos pedreiros, tidos como os Maçons de facto na fase Operativa da Maçonaria, a utilização desta indumentária era essencial, pois protegia o corpo do obreiro, e a sua função era evitar acidentes provocados pelas lascas que se desprendiam das pedras brutas que eram trabalhadas com cinzel e malho, e que depois de prontas, viriam a ser partes das edificações. Estes Aventais eram feitos predominantemente de couro de carneiro, um couro espesso, visando proteger os obreiros de labutas muitas vezes perigosas para o corpo humano.

Posteriormente com a transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa, houve grandes modificações para a utilização do Avental, que deixou de ser uma peça considerada de protecção para o corpo, transformando-se em verdadeiros brasões ou estandartes, onde o conjunto das tradições cultivadas pela Arte Real era traduzida em emblemas e símbolos representativos de cada conjunto de ensinamentos que se queria transmitir sobre a Maçonaria. Tais símbolos sempre foram ricos em metáforas e conteúdo esotérico, filosófico e histórico.

Deste modo os Aventais transformaram-se em verdadeiras obras de arte, cercadas de emblemas e símbolos que variavam de região para região. O que deverá ter gerado algumas polémicas, pois em 1813, com a unificação das duas grandes Potências Inglesas, houve a edição de uma norma (Publicado em freemason.pt) regulamentando e padronizando os Aventais, de forma a coibir os inúmeros abusos que aconteciam. Ressalta-se também que em 1875, com o Congresso Mundial dos Supremos Conselhos em Lausanne, também se decidiu por uma padronização dos Aventais utilizados pelos seguidores do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Mas independente dos seus emblemas ou da sua padronização, o significado simbólico do Avental continuou o mesmo, pois representa um emblema da dignidade, da honra, do trabalho material ou intelectual, símbolo da inocência do iniciado. É a insígnia do Maçon, a única que lhe que dá o direito de entrar nos templos e participar das reuniões. Representa a prontidão para o trabalho, que nos acompanha desde o meio dia até ao fim da vida, pois constitui-se como um instrumento fundamental e não nos deixa esquecer que a labuta é uma constante, seja em Loja ou fora dela. Recorda-nos também as nossas obrigações e deveres como obreiros da Arte Real, capazes de nos transformar de filhos de mulheres em filhos do homem, auxiliados pelas instruções que são ministradas a todos os filhos da viúva.

Exotericamente o Avental é a vestimenta corpórea da alma, que será pura ou impura conforme os nossos desejos e pensamentos. Representa também a condição imortal da alma, que sobrevive à morte do nosso corpo físico e é símbolo do trabalho na construção do templo interior e nas tarefas de aperfeiçoamento evolutivo.

Notemos que o Avental vem sempre acompanhado por um cinto ou corda, que é um elo que une o Avental ao corpo até à altura dos rins, e que também dividi o corpo de quem (Publicado em freemason.pt) o usa: da cintura para baixo, está a parte procriadora, material; da cintura para cima, está a parte sensitiva, espiritual que guarda os centros de forças ou chakras.

Para os antigos a parte mais importante do Avental era este cinto ou cordão, pois ele é símbolo do cordão umbilical, que liga o homem a terra, ou o cordão de prata, que liga o homem ao espírito; ou até mesmo o cordão de ouro, que liga o espírito ao Eu superior.

Independente da sua origem, do começo do seu uso ou da interpretação que lhe damos, o Avental utilizado hoje é o resultado da união dos Maçons Operativos com os Maçons Especulativos, e o seu uso simboliza o momento espiritual que o Maçon vive dentro da Maçonaria.

Celso Ricardo de Almeida

A ESSÊNCIA DO ESTUDO DA MAÇONARIA


Construir templos implica saber medir as dimensões do espaço e do tempo. Os primitivos construtores-livres ou francos elaboraram bases operativas das quais a moderna franco-maçonaria especulativa conserva hoje a memória e o uso simbólico.

Duas peças fundamentais dessa Arte Real, que se mantêm centrais nos dias de hoje, são o esquadro e o compasso, colocados sobre o volume da lei sagrada, sempre que este está aberto na ara maçónica. Mas, o que medem hoje, em sessões de trabalho especulativas, estes instrumentos operativos?

Ao esquadro, que se considera fixo e ligado à matéria, atribui-se-lhe um carácter passivo, enquanto que ao compasso, instrumento móvel que se considera como símbolo do espírito, se lhe atribui um carácter activo. Em sessão de Loja, o compasso e o esquadro são colocados sobre o altar de três formas diferentes:
No primeiro grau, o de Aprendiz, o esquadro fica por cima do compasso aberto a 45 graus, simbolizando que a matéria se sobrepõe e domina o espírito;
No segundo grau, o de Companheiro, o esquadro é entrecruzado com o compasso, agora aberto a 60 graus, simbolizando o equilíbrio atingido entre a matéria e o espírito;
Finalmente, no terceiro grau, o de Mestre, o esquadro é colocado debaixo do compasso, aberto a 90 graus, simbolizando que o espírito passou a dominar e a transcender a matéria.

Sem dúvida, na actual Maçonaria especulativa, o esquadro e o compasso são os instrumentos com que cada livre-construtor de templos se mede a si mesmo, avalia a acção do seu espírito sobre a matéria do seu corpo e da sociedade exterior, quantifica o grau da sua própria libertação, a sua independência em relação às condicionantes do mundo profano.

Porém, a leitura deste simbolismo deve ser ainda mais aprofundada.

Observando-se atentamente a sobreposição e entrecruzamento do esquadro e do compasso, sobressai de imediato a forma da Estrela Flamejante, pentagrama de profundo simbolismo iniciático desde a mais remota Antiguidade. Esta figura alude aos cinco sentidos do Homem e às forças subtis da Natureza. No seu interior, inscreve-se o G , simbolizando o Grande Geómetra ou Grande Arquitecto do Universo.

Onde poderemos chegar com esta comparação? À compreensão de que a Geometria, na verdadeira tradição dos livres construtores de templos, não pode ser considerada uma disciplina como as outras, nem sequer distinta delas, mas sim como o sistema de referência fundamental, o sistema a partir do qual se efetuam todos os percursos intelectuais, morais e espirituais.

No mundo estático da Idade média, a fé implicava confiança absoluta em relação às hierarquias, com a emblemática solidez da afirmação selada pelo magister dixit. Só o pedreiros-livres, estudiosos da Geometria, constituíam uma excepção em relação ao imobilismo do dogmatismo reinante. Um geómetra, quando se inclina perante a palavra do mestre não o faz por ela proceder dele, mas sim por ela ter sido demonstrada. A relação mestre-aluno não assenta nem na confiança nem na submissão, é sim determinada pelo próprio exercício da transmissão de um conhecimento. O mestre diz ao seu aprendiz: «eis o que eu afirmo, eis como eu provo o que afirmo, e tu só o saberás depois de o teres verificado por ti próprio, com os teus instrumentos, o esquadro e o compasso».

De outro modo, não teriam sido erigidos ao longo dos séculos os edifícios majestosos dos templos, cuja perenidade testemunha a correcção das bases operativas usadas na sua construção.

Assim, é pela Geometria e pelo aprofundar do seu estudo que se introduz o espírito de pesquisa e se instala na consciência um modo de actuar que subverte o dogma da fé e conduz ao racionalismo. Reconheçamos que o mesmo pensamento que se desenvolveu a fim de estabelecer os planos dos templos e das catedrais preparou a supremacia da razão.

Partindo desta filosofia operativa dos primitivos construtores-livres, embora trilhando uma via atribulada e cheia de avanços e retrocessos, a moderna Maçonaria especulativa amadureceu a ideia de que um homem pode ser digno de estima sem partilhar a mesma religião do seu irmão. Numa perspectiva dinâmica do mundo que se contrapõe ao imobilismo dogmático, o Maçom, sem renunciar à sua própria fé, toma em consideração todas as ideologias e instala na sua consciência a ideia da tolerância, isto é, a ideia segundo a qual nenhum discurso tem o monopólio do verdadeiro, do bom e do belo, e que cada coisa é o estado transitório de uma perpétua metamorfose.

Pelo esquadro e pelo compasso, pelo estudo da Geometria, o Maçom aprende que o espírito é o estado etéreo da matéria e que esta é o estado sólido do espírito, que as propriedades se diferenciam, mas não a natureza, que a movimentação social se torna fluída e as fronteiras entre as castas pouco nítidas e que a tradição se torna criativa porque cada um faz surgir sentimentos novos dos mesmos textos, caindo os muros que separam os homens.

É por isso que a via iniciática da Maçonaria se mostra capaz de voltar a unir Fé e Razão, Matéria e Espirito, Acção e Meditação e de recriar o homem total que retorna à Unidade Primordial, fazendo desaparecer os guetos e transformando todos os homens em irmãos.

José E.


MAÇONARIA E LINGUAGEM

O PROBLEMA DA LINGUAGEM

João Anatalino Rodlrigues


Há duas formas de conhecer o universo e buscar uma comunicação com ele. Podemos chamá-las de objectiva e intuitiva, material e espiritual, científica ou religiosa, etc. Mas seja qual o for o nome dado a essas formas de abordagens da realidade manifesta ou não manifesta do universo, o que fica é o facto de que não podemos negar a existência de fenómenos que as nossas pobres ferramentas mentais, mesmo acrescidas e poderosamente estendidas por modernos aparelhos científicos, não conseguem detectar. E quando são intuídos, por força da largueza que alguns espíritos bem dotados possuem, esses fenómenos não podem ser organizados de forma epistémica por falta de uma linguagem adequada.

E que a mente humana só consegue entender o que ela pode representar como imagem. Aquilo que a nossa mente não consegue dar forma, não pode ser objecto de conhecimento.

Todavia, a mente humana precisa ser devidamente informada para ter material com o que trabalhar. E toda informação que temos das realidades humanas ou divinas são extraídas do próprio ambiente em que o homem vive. Essa é razão de os povos antigos representarem Deus nas mais diversas formas da natureza. Eles tinham a intuição de que havia um Princípio que gerava e comandava todas as forças e poderes aos quais estavam submetidos, mas nem a imaginação mais fértil entre eles era capaz de dar uma figuração e uma identidade à esse Poder. Por isso eram tantos os deuses e as suas representações as mais variadas, desde figuras de animais até elementos naturais e as próprias criaturas humanas, representativas de vícios e virtudes, acabaram tornando-se entidades do mundo subtil, como são os deuses e demónios da antiguidade. Até os hebreus, que sintetizaram a noção do divino numa entidade única, na hora de dar uma representação mental visual para Ela, o fizeram através da figura do arquétipo situado no mais alto nível da sua hierarquia social, que era o patriarca.

Assim temos a imagem austera e conservadora de Deus, que Israel legou ao mundo. Ela é a representação dos seus próprios líderes, velhos patriarcas de uma sociedade pastoril que neles encarnava o pátrio poder. Essa é a razão de o cronista bíblico, ao descrever a criação do homem, dizer que Deus o formou “à sua imagem e semelhança”, denotando claramente que a imagem que os antigos hebreus tinham de Deus era a projecção do próprio patriarca da sua tribo, ou do pai de família, que na sua cultura detinha o pátrio poder. Essa noção também viria a ser utilizada por Jesus, que via Deus como um Pai, fundamentado no próprio significado que esse arquétipo assumia na estrutura da sociedade judaica [1].

Isto porque Deus é uma realidade que a grande maioria das pessoas, em todo o mundo, seja qual for a religião que professem, não ousa negar. Mesmo aqueles que se confessam ateus, na verdade, não o estão a negar, pois para se negar a existência de alguma coisa, primeiro é necessário pressupor a possibilidade da sua existência.

E que o fenómeno da afirmação e da negação é simplesmente um problema de linguagem. Como a nossa mente funciona com comando binário, ela não pode projectar uma acção negativa sem antes ter noção do seu contrário, que é a acção positiva. Dessa forma, podemos afirmar que a negação da existência de Deus é impossível sem primeiro admitir a possibilidade da sua existência. Por isso é que a chamada psicologia da assertividade ensina que toda vez que damos uma ordem negativa ao nosso organismo, a nossa mente tem de representar primeiro o contrário daquilo que lhe está sendo ordenado. Ou seja, se não podemos fazer uma coisa que não sabemos como é, também não podemos deixar de fazê-la, pelo mesmo motivo.

Isto é uma consequência da forma como a nossa mente é estruturada. Por isso, os psicólogos dessa escola dizem que devemos evitar dar comandos às crianças utilizando a palavra não. “Não coloque a mão na tomada” por exemplo, para ser entendida pela mente de uma criança, precisará primeiro formar a imagem do que é colocar a mão na tomada, ou seja, para ela saber o que é não fazer isso, precisa primeiro saber o que é fazer isso. A mente da criança pode escolher a primeira opção, isto é, a sua curiosidade natural levá-la-á a escolher a primeira opção, isso é, saber como é, para depois decidir se gosta ou não. Mas aí o estrago já estará feito [2].
A questão do método

Os cientistas, para exprimir as ideias que eles têm do universo, utilizam uma linguagem organizada, feita de números, figuras, equações, postulados, silogismos e pressupostos, que são frutos de uma actividade consciente do cérebro. Essas representações mentais que eles fazem do universo constitui o método chamado científico.

De forma diferente actua o método iniciático. Enquanto a ciência se socorre da linguagem derivada, consciente, arranjada, desenvolvida pela mente para reconstruir para a nossa sabedoria a fenomenologia universal, a iniciação está vinculada à linguagem primitiva e inconsciente do universo, que só pode ser reconstruída através de um simbolismo que muitas vezes não tem paralelo dentro do arsenal de fórmulas que a nossa mente consciente desenvolveu para explicar o mundo em que vivemos.

No mundo existem realidades que não podemos ver, ouvir ou sentir. Quem consegue ver a electricidade? Ou ouvi-la? Quem consegue ver ou ouvir a actividade de um eléctron, girando em volta do seu núcleo? Quem pode sentir a acção dos átomos impressionando o écran de um tubo de TV para formar uma imagem? Mas, no entanto, podemos ver, ouvir e sentir a actuação dessas forças através das suas manifestações no mundo das realidades sensíveis. A electricidade ilumina as nossas cidades e move as nossas máquinas. A actividade dos átomos transforma-os em elementos químicos e confere-lhes as suas propriedades. A luz decompõe-se em espectros e dá-nos imagens de eventos que estão acontecendo naquele justo momento nos lugares mais distantes do mundo.

Se existe um mundo material é porque existe concomitante uma energia que o gera e lhe dá forma. E não existem leis, mesmo naturais, que não tenham sido promulgadas de alguma forma por Alguém.

O nosso conhecimento do mundo é imperfeito, incompleto e falho porque ele se limita ao território da nossa linguagem. Não está no mundo da nossa mente consciente aquilo que a nossa capacidade de linguagem não consegue representar com os seus parcos recursos. Por isso Wittgeinsten ensina que o “os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem” [3].

Isto explica por que temos tantas e tão diferentes ideias da realidade espiritual e do mundo das coisas divinas. Algumas tão bizarras que custa a acreditar que um dia tenham sido pensadas e mesmo sustentadas, ao preço de muitas vidas, como verdades incontestes.

Algumas das concepções que fazem parte do acervo do pensamento mágico que habita o inconsciente humano e se manifestam através de símbolos e arquétipos, no mais das vezes, são incompreensíveis ao pensamento racional. E só podem ser transmitidos através do método iniciático, ou seja, aquele que se dirige mais à mente inconsciente do aprendiz do que à sua consciência. Esse é o método utilizado pelas sociedades iniciáticas, através das cerimónias de iniciação e também pelas religiões através dos actos litúrgicos e dos seus rituais.

Assim, podemos dizer que antes da pedagogia existiu o comportamento; antes da religião nasceu o culto e antes da ciência o homem desenvolveu a técnica. Isto significa que o homem primeiro pratica um comportamento, depois preocupa-se em entender por que o faz. Por isso, toda prática cultural tem, na sua origem, um arquétipo, uma noção não criada pela mente humana, a inspirá-la. A maçonaria, como tradição, é, por definição, uma estrutura arquetípica cujos fundamentos estão no Inconsciente Colectivo da Humanidade. Os seus membros nela são recebidos por iniciação e os seus ensinamentos são transmitidos pelo método iniciático. Por isso, maçonaria só se aprende por intuição e sensibilidade e nunca por aprendizado epistémico, pois não há, no acervo cultural dessa tradição, um saber organizado, lógico, estruturado em sistemas, como se pode encontrar nas chamadas universidades do saber social. Daí o facto, muitas vezes curioso, de encontrarmos um aprendiz com mais conhecimento de maçonaria do que um mestre de muitos graus já colados.

João Anatalino Rodrigues
Notas

[1] Veja-se Northrop Frye, O Código dos Códigos Ed. Boi Tempo, 2001.

[2] ALBERTI, R. E.; EMMONS, M. I. Your perfect right: a guide to assertive living. San Luis Obispo: Impact Publishers, 1986

[3] Ludwig Wittgeisnten (1899-1951)-Tratado Lógico Filosófico, 1922.