terça-feira, 4 de fevereiro de 2020


O pensamento de Johan Gottlieb FICHTE para a reforma da maçonaria alemã de Friedrich Ulrich Ludwig Schröder

Extraído do Blog Bibliot3ca
Ir. Rui Badaró[1]



INTRODUÇÃO

A compreensão histórico-filosófica da maçonaria enseja sua divisão em três[2]:

a) a inglesa, de cunho tradicionalista, observadora rigorosa de rituais, imutável em suas formas consagradas pelo correr de três séculos (1717-2017), e que, transportada para os países de formação inglesa, manteve a mesma índole praxista em sua vida íntima e o mesmo comportamento perante o mundo não-maçônico;

b) a francesa, que embora de origem britânica, cedo sofreu profundas transformações, ditadas pelas condições do meio em que se desenvolveu, adquirindo uma feição intensamente latina, e que se espalhou pelo mundo, tornando-se conhecida principalmente pela sua ação política, social e religiosa, e à qual estão filiadas a maçonaria brasileira, a portuguesa, a italiana, a espanhola, a romena, e as de todos os países hispano-americanos; e por último,

c) a alemã, também de procedência inglesa, mas que sofreu a marca do espírito germânico, muito mais propenso às especulações metafísicas, tendo desde cedo adotado ritos e sistemas próprios, sendo sua história repleta de tentativas de ensaios de reformulações sistemáticas.[3]

Nesse contexto de uma maçonaria voltada às altas indagações filosóficas que permeava a reforma da fraternidade na Alemanha é que se inscreveu a construção do sistema de ensino Schroderiano[4], cujo principal objetivo foi o realinhamento com as práticas maçônicas inglesas[5], restaurando o que Schröder entendia como a verdadeira e antiga maçonaria, ou seja, sem os enxertos de misticismo, rosacrucianismo, iluminados, cavalheirismo e altos graus, vez que eles não integravam a maçonaria em seu início.

Assim, o principal substrato filosófico para a construção de um novo sistema de ensino maçônico por Schröder foi o pensamento idealista[6], uma das principais orientações filosóficas daquela época.[7]

2. FICHTE: ENTRE A FILOSOFIA E A MAÇONARIA.

É neste contexto que se insere a compreensão do pensamento de Johan Gottlieb FICHTE e sua importância para a reforma da maçonaria alemã de Schröder[8].

Note-se que FICHTE é pouco conhecido no seio da Maçonaria, não só por conta da raridade de sua obra nesta seara, mas também porque sofreu um “inexplicável” boicote dos escritores maçônicos, os quais silenciaram sobre sua atuação, preferindo, a maioria dos autores a dar maior ênfase a FESSLER, seu contemporâneo e contendor direto (bem como seu padrinho), mas sem dúvida alguma de menor magnitude no campo do pensamento filosófico.

Tendo nascido em 19 de maio de 1762 em Rammenau (Oberlausitz), Johann Gottlieb FICHTE estudou em Iena[9] e foi entusiasta de SPINOZA e seu racionalismo crítico, bem como de KANT, de quem foi um dos mais, senão o mais destacado discípulo. Em 1791, em Königsberg, com auxílio de KANT, publicou sua primeira pesquisa, a qual o guindou, da noite para o dia, a condição de um dos pontos altos do pensamento alemão[10].

Em 1793 foi iniciado, em Zurique, após longas hesitações, das quais se encontram traços em sua correspondência de outubro de 1792[11], com Theodor von Schön, ministro e burgrave de Marienburgo. Fichte chegou a afirmar:

“Estou convicto, com toda a segurança possível a um leigo, de que os maçons não têm finalidade universal alguma, e de que todo seu esforço se resume em procurar tal finalidade, que esperam obter de símbolos e antiqualhas”

Interessante observar que FICHTE repetiria esta afirmação por diversas vezes em debates com FESSLER, GOETHE e HERDER. Em 1794, à míngua da existência de Lojas maçônicas em Iena, FICHTE filiou-se à Loja “GÜNTHER DO LEÃO RAMPANTE” em Rudostadt, que tinha como grão-protetor o príncipe daquela cidade. Em sua filiação, FICHTE afirmou que tinha planos múltiplos, ideias e esperanças[12], para o que lhe seriam necessários homens de ânimo bastante elevado. Por seu discurso, FICHTE recebeu elogios de GOETHE e, meses depois, foi apoiado diretamente por ele em sua nomeação como professor da Universidade de Iena.

Em 1794, FICHTE foi nomeado professor na Universidade de Iena, com apoio direto de GOETHE. Sua eloquência trouxe muitos ouvintes e uma grande influência sobre os estudantes. Acusado de ateísmo, por identificar Deus com a ordem moral do mundo, entrou em conflito com as autoridades de Iena, sendo demitido da cátedra que ocupava em 1799[13] e mudado para Berlim no mesmo ano, onde conviveu com TIECK, SCHLEIERMCHER, SCHLEGEL e outros românticos.

Uma vez em Berlim, FICHTE foi apresentado por FESSLER à loja “ROYAL YORK DA AMIZADE”, facilitando-lhe rápida ascensão, bem como sendo responsável direto por seu destino na maçonaria. O filósofo alemão sentia que, naquela oficina, mais que em qualquer outro lugar, poderia encontrar terreno favorável aos seus planos de renovação maçônica, notadamente porque FICHTE sabia que FESSLER havia incrustrado o pensamento filosófico de KANT anos antes e tinha a esperança que ali se poderia talvez realizar seu sonho “de fazer desta coligação, ativa em todas as partes do mundo, um órgão da filosofia. Determinando os graus de iniciação à luz da ciência.[14]

Assim, em 14 de outubro de 1799, FICHTE pronunciou seu discurso intitulado “Sobre a verdadeira e reta finalidade da maçonaria e sobre seus hieróglifos” suscitando o entusiasmo de todos, dado a profundeza de seus conhecimentos. Porém, ainda não estava FICHTE filiado à Loja ROYAL YORK DA AMIZADE”, o que ocorreu após seu retorno de Iena e Hamburgo[15], onde tomou conhecimento, ainda que de forma tarda, sobre os esforços de SCHRÖDER para reformar o sistema de ensino vigente na Grande Loja Provincial de Hamburgo (Estrita Observância).[16]

A ascensão de FICHTE foi tão rápida que em 23 de maio de 1800 já havia sido alçado à condição de Oberredner (primeiro orador) de sua novel oficina. Entre as incumbências de seu cargo, constava-se a de fazer, a cada quinze dias, uma conferência (Vorlesung) sobre a maçonaria. Entre 13 a 27 de abril de 1800, FICHTE passou a ministrar verdadeiras aulas diante de numerosos irmãos, não só da Grande Loja Royal York, como também de irmãos da Grande Loja Mãe Nacional dos Três Globos, da Grande Loja Nacional da Alemanha, potências que junto com a primeira formavam o tríplice sistema berlinense.

Essas conferências ministradas por FICHTE representaram uma grande afirmação pessoal, o que ensejou o surgimento de diversas rusgas entre os irmãos.[17] Nesse momento, pareceu ao idealista o momento oportuno de chamar para si a direção da Grande Loja Royal York, como era sua intenção desde o início.[18] Assim, no dia seguinte à sua nomeação como Grande Orador da Grande Loja Royal York, FICHTE pediu a FESSLER um colóquio para discorrer amplamente sobre novas reformas, que deveriam sobretudo extirpar as antiqualhas e toda influência francesa do sistema de ensino maçônico então praticado. Imediatamente, FESSLER recusou-se a aderir à ideia vez que entendia que as dificuldades eram demasiadas e a própria experiência fazia-o considerá-las insuperáveis. Essa recusa agravou o estado de latente dissídio entre FICHTE e FESSLER, nomeadamente porque o segundo temia que o poder lhe fosse tirado pela genialidade e ardor de FICHTE[19].

Em 28 de maio de 1800, em nova tentativa de assalto ao poder, o filósofo escreveu ao Grão Mestre Adjunto uma carta, acompanhada de um esquema de suas ideias, quais sejam, o realinhamento com as práticas maçônicas inglesas, extirpando-se toda e qualquer influência maçônica francesa, bem como os enxertos que prostituíam as práticas maçônicas berlinesas. Em que pese tenha escrito a carta com afeto, algumas frases não deixaram de soar um tanto cruas. O sumário das observações que a acompanhava, continha uma crítica radical ao método e à posição doutrinária de FESSLER. A resposta adveio imediatamente, com grande dignidade, criticando as páginas de FICHTE com mal velada ironia, sem ceder-lhe num único ponto, e afastando integralmente suas propostas[20].

Em 6 de junho de 1800, no comitê que discutia os projetos de constituição, FICHTE e FESSLER altercaram-se violentamente, em plena assembleia. A discussão versava ainda sobre o argumento das reformas que deveriam enaltecer a autoridade e a força da Grande Loja Royal York. Já no dia 10 de junho, FICHTE replica às respostas epistolares de FESSLER, com uma carta, mostrando-se ainda mais mordaz e decepcionado com a maçonaria berlinesa. Em 15 de junho de 1800, FESSLER pronunciou em loja um discurso que acabou por ser considerado por FICHTE um verdadeiro ato de hostilidade às suas ideias. Tratava-se, em verdade, de uma condenação, por parte de FESSLER, aos Evergetas da Silésia, movimento que outrora fora fundador, mas, por conta do momento político vivido ensejou o dissimulado e agudo discurso de FESSLER[21].

O crítico discurso proferido por FESSLER era dirigido claramente à FICHTE, ainda que fosse por ele negado[22]. O resultado foi que o filósofo idealista perdeu as estribeiras e, no dia de São João, durante a festa da loja, investiu violentamente contra FESSLER, suscitando os clamores de seus próprios partidários. Ainda que tenham se reconciliado após a nova altercação, os irmãos da Grande Loja Royal York cansaram-se de FICHTE, perigoso demais para a sua tranquilidade. No dia 27 de junho de 1800, em pleno Colégio de Veneráveis, um deles dirigiu um libelo acusatório ao filósofo, tendo sido repetido por escrito dias mais tarde.[23]

Em 07 de julho de 1800, FICHTE, cansado e aborrecido com a maçonaria berlinesa, pediu seu quite placet, restando sua atividade maçônica truncada, exatamente quando pensava colher frutos. Nos meses que se seguiram, FICHTE encaminhou seus discursos/conferências à HERDER, MEYER E GOETHE, dentre outros pensadores e irmãos que tivera contato nos anos anteriores[24]. Em 1802, suas conferências foram publicadas em 2 volumes sob o título PHILOSOHIE DER MAUREREI, BRIEFE AN KONSTANT na revista ELEUSINAS. Interessante apontar que FESSLER teve o mesmo destino de FICHTE dois anos depois[25], sendo inclusive, obrigado a deixar Berlim.

3. A FILOSOFIA DA MAÇONARIA – CARTAS À CONSTANT


PRIMEIRA LIÇÃO
CARTA I – Partimos da existência de homens sábios e virtuosos dentro da Ordem Maçônica.
CARTA II – A finalidade dos sábios é a finalidade última da humanidade.
CARTA III – A evolução humana é posta em perigo pela divisão do trabalho.
Em meio à divisão do trabalho uma sociedade particular não pode ter função alguma.
CARTA IV – A finalidade de uma sociedade particular pode ser apenas a de elevar a um plano de cultura humana universal a unilateralidade das classes sociais.
Limites desta determinação da finalidade: educação para a liberdade ética ou para a sensibilidade moral?
CARTA V – Pode valer a maçonaria como fim a si mesma?
CARTA VI – O que realiza a cultura maçônica no maçom: a imagem do homem maduro. 9. CARTA VII – Que ação exerce a cultura maçônica sobre o mundo: a influência recíproca sobre as classes sociais.

SEGUNDA LIÇÃO

PARTE I

Dedução do conteúdo do ensinamento maçônico
CARTA VIII – A finalidade última da existência humana: os problemas dessa vida à luz da eternidade. Os três pontos principais deste problema: Igreja, Estado, domínio sobre a natureza.
Qual é o objeto da cultura maçônica? Procedendo da educação do intelecto, ela é “instrução”. CARTA IX – A instrução é na Maçonaria, como em toda instituição de cultura, a coisa mais essencial.
CARTA X – A finalidade eclesiástica como objeto de instrução: o conceito universalmente humano de religião.

CARTA XI – Aquele que ainda tem de ser disciplinado com o prêmio e o castigo para conservar-se homem honrado não pode pertencer a maçonaria, pois que, longe como está de aspirar a um melhoramento da educação por ele recebida através da sociedade, carece desta mesma cultura.
CARTA XII – A finalidade política na instrução maçônica: o amor à pátria e o sentimento cosmopolita.
O trabalho na concepção maçônica

PARTE II

Dedução histórica e da forma da instrução maçônica
CARTA XIII – As instituições secretas de cultura certamente tão antigas quanto a divisão das classes
CARTA XIV – As instituições secretas constituem seguramente uma tradição contínua através de toda a História
CARTA XV – A forma didática destas instituições deve ser metafórica e, portanto, secreta; e somente pode servir-se da comunicação oral.
CARTA XVI – O conteúdo desta instrução não pode ser outro senão a sabedoria da cultura universalmente humana, que toda época deve buscar nos mistérios.


NOTAS

[1] Ir. Rui Aurélio de Lacerda Badaró, Mestre Maçom da Justa e Perfeita Loja de São João, 680, Or. de Sorocaba, GLESP. Membro da ASMACLE – Academia Sorocabana Maçônica de Artes, Ciências e Letras.

[2] OSLO, A. Die Freimaurer. Dusseldorf: Patmos Albatross, 2002. passim

[3] FREIMAURER WIKI. Friedrich Ludwig Schroder. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Friedrich_Ludwig_Schr%C3%B6der#Re.C2.ADformation_der_Freimaurerei . Acesso em 05 de novembro de 2017..

[4] Em 1789, dado a inquietude que dominou a maçonaria alemã, quando as Lojas de Hamburgo alteraram as cerimônias, símbolos e insígnias, Schröder entendeu a gravidade do que ocorria, bem como percebeu que tais mudanças poderiam representar a derrocada da instituição. Assim, convencido da necessidade de reformular o sistema de ensino vigente por meio do restabelecimento das práticas inglesas, Schröder iniciou, a partir de 1790, a elaborar um novo ritual para a Grande Loja Provincial da Baixa-Saxônia, subordinada à Grande Loja de Londres (Grande Loja dos Modernos) como assim diziam os que se intitulavam “antigos”, que não possuíam um Ritual escrito em inglês com um texto autêntico. Para lograr êxito, Schroder contou com o apoio direto de Johann Gottfried von HERDER na elaboração do novo sistema de ensino. Tal iniciativa fez com que uma Comissão de Estudos fosse criada no sentido de identificar os enxertos, vícios e excentricidades então vigentes. Todo este trabalho, sob a presidência de Schroder teve por base o texto apócrifo de “Three distinct knocks: (or The door of the most ancient free-masonry)”. Sobre este assunto cf. SOLF,H.H. Origem e fontes do ritual de Schröder. Traduzido por Kurt Max Hauser e Samuel Herbert Jones. Revisão de Antonio Gouveia de Medeiros e Rui Jung Neto. Edição comemorativa aos 209 anos do rito – 29 junho de 1801/2010.

[5] Three distinct knocks: or The door of the most ancient free-masonry

[6] Tomando a obra “The Three distinct Knocks” (or: The door of the most ancient free-masonry), considerado por Schroder o mais antigo e genuíno ritual inglês, levando em consideração os debates/cartas trocadas com BODE, MEYER, HERDER e GOETHE, somando a influência do pensamento de SCHILLER, LESSING, KANT, FICHTE e SCHELLING (estes dois últimos que despontaram para a maçonaria sobremaneira a partir de 1794 e início do século XIX), escreveu seus rituais com forte carga idealista e enfrentando represália e desconfiança por parte da maçonaria de Hamburgo, que estava entregue ao cavalheirismo e misticismo do sistema de ensino da Estrita Observância, mas que ao final, rendeu-se às propostas de Schroder. A elaboração de novos rituais e sua respectiva aprovação representaram o ápice da reforma da maçonaria alemã, promovendo não somente o realinhamento com as práticas da fraternidade inglesa, como também apresentando, enfim, as características do pensamento filosófico da época. BADARÓ, R. O Idealismo alemão como substrato para a construção do sistema de ensino de Schröder. Peça de Arquitetura. Porto Alegre: VII Seminário Nacional do Rito Schroder, 2016..

[7] FREIMAURER WIKI. Idealismus. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Idealismus. Acesso em 05 de novembro de 2017.

[8] O Preâmbulo do Compact da Grande Associação Maçônica de 1801, o qual tem atribuída a sua redação à FESSLER, quando, em verdade, estes estratagemas foram propostos por FICHTE em seu debate com FESSLER sobre o “conceito de uma história para a fraternidade maçônica” no período de 28 de maio de 1800 a 10 de junho de 1800, onde resta claro que foi FICHTE e não FESSLER quem apontou os princípios basilares da Grande Associação Maçônica que visava a reforma da maçonaria alemã (berlinesa), a saber:”1º) Franco-Maçonaria e fraternidade maçônica, são dois conceitos bem diferentes, como as palavras “ciência e escola”, “religião e igreja”. Isto nos leva para; 2º) Franco-Maçonaria, independente de tempo e condições locais, sempre una e a mesma, é sempre aquilo que envolve e coloca firmemente o homem interno entre o esquadro e o compasso, seu modo de pensar e agir e que fixa a posição moral do homem na Sociedade, embora a Franco-Maçonaria possa ocasionalmente ter-se desenvolvido em direções diferentes. 3º) As Grandes Lojas Provinciais Unidas não reconhecem na Fraternidade Maçônica o tal chamado propósito ou desígnio secreto que se diz possuir e além dos três Graus de São João. Para elas o objetivo da Fraternidade Maçônica é o mesmo: prática, manutenção e crescimento comum da Arte; tudo isto visto pela luz de sua pura tendência moral. Isto os mais esclarecidos Irmãos têm em todos os tempos reconhecido. 4º) Como não mais se pode deixar aos caprichos de Maçons isolados ou Lojas em particular, a decisão e definição da natureza e tendência da Maçonaria, as Grandes Lojas Provinciais Unidas estão convencidas de que o mais antigo Ritual Inglês dos três Graus é o único em que podemos confiar como fonte histórica e para compreensão da natureza e evolução da Franco Maçonaria.” In: SOBRE O CONCEITO DE UMA HISTÓRIA DA ORDEM/FRATERNIDADE MAÇÔNICA – Correspondências entre FICHTE e FESSLER no período de 28 de maio de 1800 a 10 de junho de 1800. FICHTE, J.G. Filosofia da maçonaria. São Paulo: Fraternidade, 1984. Pags 133-160

[9] Em sua juventude, é sabido e, hoje comprovado, que FICHTE integrou a ordem secreta estudantil dos “Irmãos Negros” de Iena. Sobre estas ordens, FICHTE escreveu, em 1795, umas memórias que permaneceram inéditas até 1955..

[10] Fichte decidiu devotar sua vida à filosofia, depois de ler as três Críticas de Immanuel Kant, publicadas em 1781, 1788 1790. Em 1790, ele volta para Leipzig, onde um pupilo seu pede para ter lições sobre a filosofia kantiana. Apesar de mal conhecer as obras de Kant, Fichte aceita o pedido e passa a estudar com afinco as obras de Kant, dando conta das três Críticas em poucas semanas. A leitura das Críticas foi muito importante para que Fichte superasse o determinismo, fazendo com que se evidenciasse que o “novo mundo” é o mundo da liberdade, que se evidenciava como a chave para entender toda a estrutura da razão. Segundo diz o próprio Fichte em carta a Johana “a vontade humana é livre, e a felicidade não é o fim do nosso ser, mas a dignidade de ser feliz”. São, portanto, essas convicções que tornam Fichte um filósofo, aos 28 anos. Sua investigação de uma crítica de toda a revelação obteve a aprovação de Kant, que pediu a seu próprio editor para publicar o manuscrito. O livro surgiu em 1792, sem o nome nem o prefácio do autor, e foi saudado amplamente como uma nova obra de Kant. Quando Kant esclareceu o equívoco, Fichte tornou-se famoso da noite para o dia e foi convidado a lecionar na Universidade de Jena. Fichte foi um conferencista popular, mas suas obras teóricas são difíceis. Acusado de ateísmo, perdeu o emprego e mudou-se para Berlim, onde proferiu diversas palestras e se tornou o primeiro reitor eleito da Universidade de Berlim. Faleceu em 27 de janeiro de 1814. Encontra-se sepultado no Dorotheenstädtischer and Friedrichswerder Cemetery, Berlim na Alemanha.

[11] X. LÉON. FICHTE et son temps. Tome I. Paris: Alcan, 1917. Pág. 22

[12] MEDICUS, Fritz. FICHTE Leben. Leipzig: Auswahl, 1922. Ed. 1991. Pág. 105:

[13] A famosa luta devida à acusação de ateísmo, que em 1799 obrigou o filósofo a retirar-se de Iena, após diversas perseguições e amarguras, representava o ato de fé do novo conceito religioso por ele desenvolvido nas primeiras obras do período de Berlim. Esta atividade de escritor político e de polemista estava, em seu íntimo, atrelada àqueles “planos múltiplos” que ambicionava Fichte pôr em prática no âmbito maçônico. De qualquer sorte, foi obrigado a guardar segredo, vez que ao sinal das primeiras dificuldades enfrentadas faltou-lhe apoio na Loja GÜNTHER e o príncipe de Rudolstad recusou-se a proteger e a hospedar em sua residência o irmão atormentado, perseguido e carente de apoio. MEDICUS, F. Idem. Passim

[14] FESSLERS SS. WW. II Bd, erste Abth, cap. IV (pags 94-101), cap. V e VII; zweite Abth, “Beylage”, pags. 316-319 – Cfr o excerto da “Fundamental constitution” da loja fessleriana in Jahrb. für Fraymaurerei auf das Jahre 1800..

[15] Nota do autor: FICHTE ingressou formalmente na Grande Loja Royal York apenas em 11 de abril de 1800.

[16] Existem menções e extratos de trocas de cartas entre GOETHE, HERDER, MEYER e FICHTE a partir de agosto de 1800, sendo certo que GOETHE teve acesso integral às conferências fichtianas que viriam a ser publicadas entre os anos de 1802 e 1803 e intituladas “Philosophie der Maurerei, Briefe en Konstant”. O fato é que o pedido de demissão de FICHTE em 07 de julho de 1800 confirmou a aversão da maçonaria berlinesa à filosofia romântica e idealista da época. VARNHAGEN VON ENSE, K.A. Denkwürdigkeiten und vermischte Schriften. Leipzig/Berlin:1803. Ed. 1999. Passim

[17] Cf FLOHR, A. Geschichte der Grossen Loge von Preussen, gennant Royal York u.s.w. nach den Akten zusammengestellt. Berlin: 1898. 1ª ed. 1965, 10ª. Ed., vols. I-II, págs 133-136

[18] Na cit. carta à esposa, de 28 de outubro de 1799, tem-se: “Não simpatizo com FESSLER. Ele me trata com atenções porque pensa servir-se de mim. Age, porém, com um espírito de usurpação que eu devo de quando em quando refrear. Faço como se estivesse disposto a deixar-me usar como seu instrumento, até eu conseguir tirar-lhe da boca todos os seus segredos. E em grande parte já o consegui. Pelo menos, sei já o que ele fez e quero ainda ver o que pretende fazer ulteriormente. No fim, o resultado será que eu conseguirei impor meus planos servindo-me dele”. VARNHAGEN VON ENSE. Op. Cit. Passim

[19] FESSLER, I. Meine maurerische Verbindung, .cit., págs. 330-331

[20] Cf FICHTES LEBEN UND LITER. BRIEFWECHSEL, II, 509; e a coleção AUS DEN PAPIEREN DES THEODOR VON SCHÖN (Halle, 1875, pags.32-33 e38).

[21] FESSLER fez uma comparação entre o sábio do mundo ideal, que sabe como tudo absolutamente deve ser e o sábio do mundo real que, à luz da própria idealidade, considera como tudo pode vir a ser pouco a pouco, segundo os elementos de que dispõe: o primeiro dissolve as sociedades ao querer elevá-las ao próprio nível; o segundo as constitui e consolida, se possui bastante resignação para se dispor a sustenta-las unicamente com as próprias forças . Todavia, o primeiro dos dois era também, para FESSLER, o mau maçom, germe de toda ruína dentro da loja, o qual começaria com a pretensão de fazer reconhecer a sua superioridade, prosseguirá atirando reprovações de inconsistência e de erro e terminará com uma admoestação cheia de desprezo. FLITNER. Enleitung. Eleusinas. Pág. 16-17

[22] O discurso de FESSLER intitulava-se “Sabedoria e Justiça – os fundamentos de uma loja” e foi publicado na revista maçônica Eleusinas nas páginas 207 e segs. Cf ELEUSINIEN des Neunzehnten Jahrhunderts, Berlin: 1802, disponível em https://books.google.com.br/books?id=GV9lAAAAcAAJ&pg=PA207&lpg=PA207&dq=%22Klugheit+und+Gerechtigkeit,+die+Grundfesten+einer+Loge%22+Fessler&source=bl&ots=HzwsNk6rrN&sig=6NhDpq27ZqBpSMqCNU9FPPGIfHk&hl=ptBR&sa=X&ved=0ahUKEwjmkqqC1rHXAhVEE5AKHUoaCfsQ6AEIMzAC#v=onepage&q=%22Klugheit%20und%20Gerechtigkeit%2C%20die%20Grundfesten%20einer%20Loge%22%20Fessler&f=false

[23] FESSLER caiu em desgraça perante grande parte dos irmãos da Grande Loja Royal York, quer por sua malograda reforma nos rituais dos graus joaninos (que duraram apenas 3 anos), quer pelo fato de ter se tornado alvo de hostilidade por parte dos ortodoxos, tendo sido combatido com opúsculos e panfletos, e acusado de amor desmedido à novidade pela novidade. No entanto, FESSLER quisera apenas substituir o AUFKLÄRUNG pelo KANTISMO puro, na concepção de realidade. Para além, FESSLER foi acusado também de jacobinismo e ameaçado com denúncia de alta traição, tal qual já ocorrera anos antes, na Silésia. X. LÉON. FICHTE et son temps. Tome I. Paris: Alcan, 1917. pags 30-36

[24] FREIMAURER– WIKI. JOHANN GOTTLIEB FICHTE. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Johann_Gottlieb_Fichte. Acesso em 10/11/2017

[25] FICHTES LEBEN UND LITER. BRIEFWECHSEL, I, 201-206.


REFERÊNCIAS

AUS DEN PAPIEREN DES THEODOR VON SCHÖN (Halle, 1875, pags.32-33 e38).

BADARÓ, R. O Idealismo alemão como substrato para a construção do sistema de ensino de Schröder. Peça de Arquitetura. Porto Alegre: VII Seminário Nacional do Rito Schroder, 2016.

FLOHR, A. Geschichte der Grossen Loge von Preussen, gennant Royal York u.s.w. nach den Akten zusammengestellt. Berlin: 1898. 1ª ed. 1965, 10ª. Ed., vols. I-II, págs 133-136

ELEUSINIEN des Neunzehnten Jahrhunderts, Berlin: 1802, disponível em https://books.google.com.br/books?id=GV9lAAAAcAAJ&pg=PA207&lpg=PA207&dq=%22Klugheit+und+Gerechtigkeit,+die+Grundfesten+einer+Loge%22+Fessler&source=bl&ots=HzwsNk6rrN&sig=6NhDpq27ZqBpSMqCNU9FPPGIfHk&hl=ptBR&sa=X&ved=0ahUKEwjmkqqC1rHXAhVEE5AKHUoaCfsQ6AEIMzAC#v=onepage&q=%22Klugheit%20und%20Gerechtigkeit%2C%20die%20Grundfesten%20einer%20Loge%22%20Fessler&f=false

ENZYKLOPÄDIE DER FREIMAUREREI VON HESSE UND MOSSDORF, Bd. 3, Brockhaus, 1828;

FESSLER, I. Meine maurerische Verbindung, .cit., págs. 330-331

FESSLERS SS. WW. II Bd, erste Abth, cap. IV (pags 94-101), cap. V e VII; zweite Abth, “Beylage”, pags. 316-319 – Cfr o excerto da “Fundamental constitution” da loja fessleriana in Jahrb. für Fraymaurerei auf das Jahre 1800.

FICHTES LEBEN UND LITER. BRIEFWECHSEL, II, 509;

FLITNER. Enleitung. Eleusinas. Pág. 16-17

FREIMAURER WIKI. Friedrich Ludwig Schroder. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Friedrich_Ludwig_Schr%C3%B6der#Re.C2.ADformation_der_Freimaurerei Acesso em 05 de novembro de 2017.

FREIMAURER WIKI. Idealismus. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Idealismus. Acesso em 05 de novembro de 2017.

FREIMAURER–WIKI. JOHANN GOTTLIEB FICHTE. Disponível em http://freimaurer-wiki.de/index.php/Johann_Gottlieb_Fichte. Acesso em 10/11/2017.

MEDICUS, Fritz. FICHTE Leben. Leipzig: Auswahl, 1922. Ed. 1991. Pág. 105:

OSLO, A. Die Freimaurer.Dusseldorf: Patmos Albatross, 2002. passim SOLF,H.H. Origem e fontes do ritual de Schröder. Traduzido por Kurt Max Hauser e Samuel Herbert Jones. Revisão de Antonio Gouveia de Medeiros e Rui Jung Neto. Edição comemorativa aos 209 anos do rito – 29 junho de 1801/2010.

THREE DISTINCT KNOCKS: OR THE DOOR OF THE MOST ANCIENT FREEMASONRY

VARNHAGEN VON ENSE, K.A. Denkwürdigkeiten und vermischte Schriften. Leipzig/Berlin:1803. Ed. 1999. Passim
LÉON. FICHTE et son temps. Tome I. Paris: Alcan, 1917. Pág. 22



Título original O pensamento de Johan Gottlieb FICHTE para a reforma da maçonaria alemã de Friedrich Ulrich Ludwig Schröder

JAMES VI DA ESCÓCIA

19 de junho de 1566 – 27 de março de 1625



O Rei James era um Rei da Grã Bretanha, França e Irlanda. Ele era negro e a bíblia do Rei James recebeu seu nome em sua homenagem. O Rei James aprovou 54 eruditos para trabalhar na tradução; 47 trabalharam em 6 grupos em 3 locais diferentes por 7 anos, comparando traduções anteriores em Inglês (Bíblia de Genebra) e textos no idioma original (Hebraico e Grego).

A tradução King James teve uma influência significativa sobre o idioma inglês e era amplamente aceita como a Bíblia em inglês padrão. Devido a que o projeto foi supervisionado pelo Rei James e o cuidado e atenção precisa com detalhes durante a tradução por sete anos, a bíblia do Rei James era considerada uma mas mais precisas traduções existentes.

Rei da Escócia (1567-1625) e o primeiro Rei Stuart da Inglaterra (1603-25), os historiadores ingleses tendem a retratá-lo como um covarde e um pedante exigente e tolo: ‘O tolo mais sábio da cristandade’. Na realidade, ele foi razoavelmente bem-sucedido em seus principais objetivos, aumentando a prosperidade nacional, mantendo a paz com a Europa e estabelecendo a igreja. Hoje, ele é lembrado por encomendar a chamada Bíblia do Rei James, ou Versão Autorizada.

Na parede oeste do salão de loja usado pela Loja Scoon and Perth No. 3 em Perth, na Escócia, pode ser encontrado um mural representando James VI ajoelhado em seu altar em sua iniciação. O registro mais antigo da Loja, chamado “O Acordo Mútuo” de 24 de dezembro de 1658, registra que James “foi iniciado Maçom e Companheiro da Loja de Scoon” em 15 de abril de 1601.

James também nomeou William Schaw como Mestre da Obra e Diretor Geral em 1583, com a missão de reorganizar o ofício da construção. Em 1598, Schaw emitiu o primeiro de seus estatutos, estabelecendo os deveres dos pedreiros com sua loja e com o público, impondo penalidades por trabalho insatisfatório e práticas inadequadas de segurança. Schaw elaborou um segundo estatuto em 1599, no qual a primeira referência velada à existência de conhecimento esotérico dentro do ofício de pedreiro pode ser encontrada.

Iniciado: 15 de abril de 1601
Loja Scoon and Perth No. 3, Perth, Escócia.
GENEALOGIA BÍBLICA DO ANTIGO TESTAMENTO

1300-165 a.C. – Primeiros textos hebraicos escritos em papiros e rolos de couro
250-50 a.C. – Septuaginta – Primeiras traduções do hebraico para o grego
Séculos IX a IX – Textos editados na forma atual por Masoretes
400 d.C. – Vulgata de São Jerônimo – tradução para o latim. Padrão católico.
1382 d.C. – A Bíblia de Wycliffe. Primeira tradução para o inglês
1455 d.C. – Bíblia de Guttenberg. Primeira Bíblia impressa, usando texto da Vulgata.
1525-1530 d.C. – Bíblia Tyndale. Primeira tradução impressa em inglês a partir de textos em hebraico.
1539 d.C. – Grande Bíblia. Primeira tradução para o inglês autorizada pela Igreja.
1560 d.C. – Bíblia de Genebra. Publicado por exilados ingleses. Trazida para a América por Peregrinos.
1582-1610 d.C. – Bíblia Douay. Tradução em inglês para católicos trazida para a América.
1611 d.C. – Bíblia do Rei James. Traduzido por 47 estudiosos. A mais famosa Bíblia inglesa.
1663 d.C. – Bíblia Algonquin. Traduzida para os Índios. Primeira Bíblia impressa na América.
1952 – Bíblia da Confraternidade. Primeiras versões católicas dos EUA inteiramente a partir de fontes hebraicas básicas, incluindo os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947. Estes são os textos mais antigos disponíveis, alguns datam de 200 a.C.
1952 – Versão Padrão Revisada. Bíblia protestante

Fontes:
Crawford Smith e William James Hughan, História da Antiga Loja Maçônica de Scoon e Perth (Número 3, A Loja do Scone) Perth: Cowan and Company, Limited, 1898.


Veja também:
Livro do Ano da Grande Loja de Antigos Maçons Livres e Aceitos da Escócia 1990, p. 50. Observe que o Contrato ou Acordo Mútuo é o único registro dessa iniciação, que esse histórico foi encomendado pela loja para estabelecer suas reivindicações de precedência e que não há documentação de fonte primária. Imagem: artista desconhecido ‘detalhe’. Scottish National Portrait Gallery

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

PARA QUE SERVEM OS TEMPLOS E O RITUAL

Extraído do blog "O ponto dentro do Círculo



RITO – cerimônia ou conjunto de regras cerimoniais de uma religião; culto; seita; quaisquer cerimônias; procedimentos; transmitem instrumentos e ensinamentos esotéricos, toques, palavras para perfeita identificação e cultura maçônica fechados e de uso individual para cada grau.

RITUAL – relativo a ritos; cerimonial; livro que indica os ritos ou consigna as formas que se devem observar na prática de uma religião; formalismo previamente estabelecido.

RITUALISMO – conjunto de ritos; apego a cerimônias ou formalidades.

O que pretende um Ritual? Qual sua finalidade? O que é um Ritual?

Embora sempre demos uma conotação mágica a qualquer Ritual, na realidade sua função é permitir a compreensão de certas Leis Naturais utilizando procedimentos dinâmicos que por sua constante repetição acabam estimulando potencialidades latentes em nossa psiquê, despertando em nosso interior energias latentes, mas adormecidas.

Se retrocedermos historicamente nossas atenções a todos que se empenharam na criação de Rituais que pudessem preservar ideais e princípios que elevassem a humanidade a um grau de fraternidade e convívio superiores ao simples existir e a sobrevivência a qualquer custo, vemos que essa criação de sistemas, essa observância ritualística (artificial), está sempre subordinada à vida interior tendo como parâmetro a natureza e seus ciclos evolutivos. Portanto, a simbologia e os rituais foram organizados para chamar a atenção do homem para o ritmo cíclico de toda manifestação de vida no planeta, levando-o a compreender que há uma criação ordenada que se impõe, direcionando-o a um aspecto interior, espiritual da vida.

No passado, mentes brilhantes preocupadas em manter aceso o conhecimento que transcendia o comum das pessoas, e da própria época em que viviam, operacionalizaram essas verdades de uma forma que fixasse padrões de comportamento, expressões e atitudes, que pudessem ser transmitidos, revelados e fixados. Utilizaram-se de lendas, símbolos, sinais e palavras que pela sua força natural, não perderiam seu significado através do tempo e seriam compreendidos e assimilados interiormente.

Essa preservação das verdades maiores, da Tradição[1] expressa pela simbologia e rituais dependeu do grau de declínio de uma determinada época e pelas condições de vida dos grupos que constituíam seus ambientes.

O ritual e toda simbologia foram de tal forma elaborada e trabalhada, com tal arte e primor que seja qual for à dinâmica de ação, do Rito, em qualquer aspecto que se considere, traduz e procura representar ideais humanos a serem alcançados e espargidos para toda a humanidade. As Instituições exotéricas (constituídas) são “sinais” de realidades internas (esotéricas, íntimas). Toda Tradição é apenas o testemunho de verdades anteriores a livros e organizações. Se agruparmos as mais variadas Tradições, elas mostram (ou anunciam) uma analogia e constatam a existência de um tronco comum.

Historicamente, o que tem gerado a constituição e formação de modelos voltados à preservação de ideais nobres e comportamentos adequados ao convívio familiar e social, procurando manter um grau de fraternidade é: 
lembrar aos homens que existe uma Fraternidade de Almas[2];
compreender que há sempre um fluxo evolutivo / involutivo de manifestação e uma permanência fixa e inalterável que gera esses ciclos; manter um respeito para com aqueles que zelam, divulgam e preservam ideais e comportamentos nobres e elevados; levar os homens a abandonar sua pretensão orgulhosa de querer transformar o Universo segundo sua comodidade pessoal e convencê-los a transformar sua própria personalidade voltando-se ao Todo, à noção de que há um Criador[3] e uma Humanidade a ser preservada.

A simbologia expressada em nossos Templos[4] tem sido modificada periodicamente. Isso se constitui um afastamento do que no passado nossos antecessores queriam representar, mostrando que as mudanças operadas refletem um grau de desconhecimento de história e dos símbolos. Presenciamos e praticamos os rituais, mas não o estudamos.

Toda a simbologia maçônica tem se constituído um meio de preservar nossos ideais, nossa filosofia, nossos princípios para as futuras gerações (hoje, nós!). Os símbolos indicam uma ordem, uma harmonia, a unidade do homem, do Universo, da Criação, a similaridade do macro e microcosmo. Essa herança esotérica-cultural tem sido transmitida pelas épocas e de uma região para outra, conseguindo carregar toda a carga cultural dos diversos períodos históricos sem perder sua identidade e filosofia. Sua filosofia não se adapta, é permanente, pois baseia-­se em princípios que constituem e mantém o homem em convívio permanente procurando elevar e dignificar a humanidade.

Todo Rito é carregado de sentido. A modernização – quando vem a ocorrer de um Rito, é um contrassenso: o “arcaísmo”, ao invés de ser um defeito, representa a garantia de um longo passado.

O ritual, a ordem, a disciplina, decorrem de atitudes internas e acabam emergindo no cotidiano. Como e.g., uma empresa, uma fábrica, um pequeno grupo de trabalho, que mantém um ritmo adequado de funcionamento (rotina), poderá gerar uma maior integração e rendimento que outro carente dessa sintonia. Para que tal aconteça, todos os integrantes ou participantes devem necessariamente engajar-­se no procedimento ritualístico.

Toda natureza nos mostra disciplina e ordem que podemos traduzir como “rituais”, pois são repetitivos. O percurso do Sol, as modificações estelares[5], as estações do ano, as migrações de pássaros e animais… nos mostra uma expressão da natureza, uma ordem universal, uma ritualística. Toda natureza segue um ritmo cósmico, apenas o homem –o único com livre arbítrio pode opor-­se a essa ordem. Quando segue esse ritmo, alimenta a disciplina espontaneamente convergindo sua existência a um equilíbrio maior, seguro e mais duradouro.

Toda instrução intrínseca nos Rituais e sua disciplina, em todas as etapas, são direcionadas (ou deveriam ser) à formação de um tipo de caráter[6] ou comportamento definido. Não importa quais sejam as diferenças ou variações na qualidade ou quantidade cultural de um aspirante à Maçonaria, o tipo de caráter ou comportamento que se deseja é sempre o mesmo em qualquer Rito. Isso tem marcado de maneira visível e impressiona pelo fato de que todos os detalhes ritualísticos são direcionados de uma forma inteligente e firme para uma mudança, e se assim não for, para uma profunda reflexão sobre nossa existência e o que estamos fazendo como seres temporários deste Planeta.

A Filosofia Maçônica é uma testemunha muito antiga de organizações (instituídas ou não) culturais, morais, filosóficas e espirituais, cujas raízes remontam a civilizações de um passado longínquo, sendo um acervo das descobertas e experiências humanas reconhecidas pelo intelecto em suas diferentes épocas. É importante observar que o assunto primordial não é a Ordem Maçônica, este ou aquele Rito, ou aquele grupo de estudos, mas a verdade que ela representa, e a capacidade do estudante em distinguir entre a Verdade, a verdade parcial e a falsidade.

As deficiências da sociedade refletem o estado de consciência das pessoas que a constituem. Os problemas não estão nas dificuldades materiais que o mundo externo nos impõe, mas nas limitações de nossa mente. Ao profano que ingressa na Ordem é esperado uma mudança no nível da consciência, no seu modo de encarar a vida, na moral, que será o resultado da vivência do Ritual levando-o a uma interiorização e não simplesmente da aceitação plena e tácita do sistema ou doutrina conceitual.

Compreendemos que os Rituais tem se perpetuado não por inércia, mas porque correspondem a uma exigência lógica e regulamentada ditada pela experiência. Vemos uma Maçonaria realmente construtora, pois, sua função é fundamentar os princípios morais para uma humanidade esclarecida, harmonizada com o Universo e suas Leis – pois somos o Todo e cada uma de suas partes. Esses princípios são baseados em Leis maiores[7], superiores que se tem manifestado aos homens, de formas diferentes através das épocas, e nos parece, apreendida conforme o grau de consciência vigente em seu período histórico.

Todo esse conhecimento e sabedoria, foi inserido com extrema habilidade pelos “artesãos da mente” no interior dos nossos Templos, através de toda simbologia expressa nos “ornamentos” do Templo e em nossos rituais. Como exemplo temos a Iniciação, que deriva do latim “initium” significando “começo”, um meio ou processo de compreensão. O candidato recebe uma perspectiva de novos conhecimentos e orientação de vida; pode se libertar de certas concepções e crenças falsas. Simbolicamente é guiado das trevas da ignorância e introduzido na luz maior da compreensão. É proporcionado um caminho pela introdução de um simbolismo tradicional que incorpora verdades universais, mostrando uma nova possibilidade de compreensão. É uma experiência íntima! A experiência por que passa e os pensamentos que teve durante a cerimônia, provocam uma expansão da consciência, uma profunda compreensão (nem sempre consciente) sobre a vida e os homens.

O símbolo fala ao interior e assim deve se compreendido. O uso da razão, por vezes, dificulta e restringe a compreensão de seu significado. Ela – a razão – é necessária no estudo simbólico, mas a interiorização, o conhecimento com consciência de seu significado é interior, aparece como um lampejo, é a certeza do saber.

Nos diversos Ritos prega-se um pragmatismo[8] – por vezes exagerado – da busca pessoal não levando em consideração as diferenças individuais das personalidades, da cultura pessoal, da formação familiar ou profissional, do ambiente em que vive e se relaciona, forçando o estudo e pesquisa pela própria conta do Irmão, deixando de lado todo um acervo de conhecimento e orientação, objetivos e simbólicos, acumulados no tempo pelos “artesãos da mente”, pois, se esse acervo fosse organizado e compilado em forma didática, seriam elementos auxiliadores que facilitariam a compreensão da verdade e sua utilidade prática como queremos em todos os Ritos.

Todo momento resume o passado com todo seu conteúdo e contém a linha do futuro com todos os desdobramentos decorrentes. Manter o equilíbrio alcançado é continuar a evolução do indivíduo, da qual ele é a primeira e a mais sólida base para a evolução da coletividade.

Todos os Ritos dão plena liberdade de pensamento e expressão, liberdade esta que citando Teócrito de Corinto, filósofo grego do século II da era vulgar, “que podem privar um homem de seus sentidos, mas o direito de pensar está acima das violências e das repressões“. Não há abuso mais abominável do que o desejo de controle sobre o pensamento, já que não se caracteriza como um crime contra a pessoa, mas sim contra uma espécie, uma vez que o pensamento é o atributo distintivo da espécie humana. É um crime que ficou sempre no terreno das tentativas e pelo fato de não se consumar, não quer dizer que não se caracterize a criminalidade. Só na hipótese de se tentar sufocar o pensamento de um semelhante, o autor comete um crime contra todos e contra si mesmo, porque em primeiro lugar, tolhe uma oportunidade de expressão e em segundo, pode bloquear uma verdade pelo motivo de que talvez não venha a lhe agradar.

Encerramos este ensaio com um conto de Chuang­ Tzu, escritor taoista cuja existência se deu por volta de 350 a.C., “O Duque de Hwan e o Fabricante de Rodas”:

“O mundo valoriza os livros, e acha que, assim fazendo, está valorizando o Tao. Mas os livros apenas contem palavras. Apesar disso, algo mais existe que valoriza os livros. Não apenas as palavras, nem o pensamento das palavras, mas sim algo dentro do pensamento, balançando-o numa certa direção que as palavras não podem apreender. Mas são as próprias palavras que o mundo valoriza quando as transmite aos livros: e, embora o mundo as valorize, estas palavras são inúteis enquanto aquilo que lhes der valor não é honrado.

O que o homem apreende pela observação é apenas forma e cor externas, nome e som; e ele crê que isto o colocará de posse do Tao. A forma e a cor, o nome e o som não atingem a realidade. Daí a explicação de que: “Aquele que sabe não diz, aquele que diz não sabe”. Como irá o mundo, então, conhecer o Tao por meio de palavras?”

O Duque Hwan, de Khi, o primeiro da dinastia, sentou-se sob o pálio lendo filosofia;

E Phien, o carpinteiro de rodas, estava fora, no pátio fabricando uma roda. Phien pôs de lado o martelo e a entalhadeira, subiu os degraus, e disse ao Duque Hwan:

– Permiti-­me perguntar-vos, Senhor, o que estais lendo?

Disse-­lhe o Duque: 

– Os peritos. As autoridades.

E Phien perguntou-­lhe:

– Vivos ou mortos?

– Mortos há muito tempo.

– Então, estais lendo apenas o pó que deixaram atrás.

Respondeu o Duque: 

– O que sabes a seu respeito? És apenas um fabricante de rodas. Seria melhor que me desses uma boa explicação, senão morrerás.

Disse o fabricante: 

– Vamos olhar o assunto do meu ponto de vista. Quando fabrico rodas, se vou com calma, elas caem, se vou com muita violência, elas não se ajustam. Se não vou nem com muita calma, nem com muita violência elas se adaptam bem. O trabalho é aquilo que eu quero que ele seja. Isto não podeis transpor em palavras: tendes apenas de saber como se faz. Nem mesmo posso dizer a meu filho exatamente como é feito, e o meu filho não pode aprender de mim. Então, aqui estou, com setenta anos, fabricando rodas, ainda! Os homens antigos levaram tudo o que sabiam para o túmulo. E assim, Senhor, o que ledes é apenas o pó que deixaram atrás de si.” 

Autor: José Eduardo Stamato
ARLS Fraternidade Universitária de Santo André nº 3417 (Rito Moderno) – GOSP – GOB


Notas

[1] – Tradição – …transferência; ato de conferir; recordação; memória; rotina; notícia de fatos puramente históricos de acontecimentos de qualquer natureza transmitidos através do tempo e que, por vezes, sem alguma prova autêntica se tem conservado. Do latim “traditio” : ação de entregar. Fenômeno pelo qual os grupos humanos transmitem de geração em geração seu patrimônio cultural. Pode ser um obstáculo ao progresso; o apego a formas tradicionais que se tornaram obsoletas pela própria evolução da vida, esteriliza a capacidade criadora e o espírito de renovação, que são também fatores decisivos de progresso. Da mesma forma rejeitar alguma coisa unicamente porque é tradicional, também é uma atitude irracional. Muitas coisas se perpetuam não apenas por uma simples inércia social, mas porque correspondem a exigências permanentes do grupo.

[2] – Fraternidade de Almas – consideramos o termo Alma como sendo aquela essência (ou partícula) que vivifica todo ser humano tornando-­se parte inseparável dele e devido a essa unidade, todos os seres humanos são essencialmente idênticos entre si apesar da imensa diversidade de sua condição exterior. Disso deriva a necessidade do altruísmo, amor, tolerância, concórdia que deverá reinar em todos os membros da grande família humana, formando uma Fraternidade de Almas.

[3] – Criador – essência única que possibilita a formação, o aparecimento das partículas primárias que dão origem a todas manifestações objetivas que conhecemos.

[4] – Templo – maçonicamente é o edifício onde se reúnem as Lojas ou trabalham os irmãos em Loja. Local onde a interiorização e a harmonização são facilitadas e onde a “verdade” é buscada. Constitui um elemento quase permanente dos grupos humanos surgindo através da história com as características de cada cultura. Acabam sendo uma fonte primordial para o conhecimento dos respectivos povos que o erigiram como os egípcios, assírios, babilônios, fenícios, judeus, persas, gregos, etruscos e tantos quantos existiram. Sua arquitetura acompanhou o progresso da cultura em geral. Loja – em suas origens a palavra designava o local onde os maçons operativos se reuniam fora do canteiro de obras, formando um agrupamento de maçons de um determinado canteiro. Oficina – termo genérico designando qualquer agrupamento maçônico: loja, capítulo, conselho filosófico… Na linguagem corrente, todavia, a palavra tornou-­se sinônimo da palavra Loja.

[5] – Tendo-­se como parâmetro nossa observação feita da superfície do planeta.

[6] – do grego “character” de charássein significando gravar. Etimologicamente quer dizer “coisa gravada”. Pode ter dois sentidos diversos: 1º – como conjunto de disposições psicológicas e comportamentos habituais de uma pessoa, isto é, a personalidade concreta. 2º – relacionada à vontade, e nesse caso conota as idéias de energia, honestidade e coerência; é nessa acepção que falamos em homem de caráter. Os elementos do caráter são passíveis de variação, evoluindo. O caráter pode ser alterado mediante o poder que o indivíduo tem sobre seus hábitos: o meio e a profissão podem ser modificados, e o próprio regime da imaginação pode sofrer mudanças através de novas experiências. O homem de vontade é, precisamente, aquele que sabe criar para si um caráter e que, por esse caráter, orienta sua própria conduta. (Peq. Encicl. Moral e Civismo – MEC)

[7] – Uma dinâmica revelada através de nossa percepção consciente.

[8] – Pragmatismo – doutrina filosófica que adota como critério da verdade a utilidade prática, identificando o verdadeiro com o útil.

Bibliografia

A Gnose de Jung – Stephan A. Hoeller – Ed. Cultrix

A Teia da Vida – Fritjof Capra – Ed. Cultrix A Via de Chuang Tzu – Thomas Merton – Ed. Vozes

Dicionário da Franco-­Maçonaria e dos Franco­-Maçons – Alec Mellor – Ed. Martins Fontes

Dicionário de Maçonaria – Joaquim Gervásio de Figueiredo – Ed. Pensamento

Glossário Esotérico – Trigueirinho – Ed. Pensamento

Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo – MEC
Ritual do Grau de Aprendiz – Rito Moderno

MUSICA E MAÇONARIA - A HARMONIA EM LOJA ÀS RESSONÂNCIAS SECRETAS DA MAÇONARIA



Tradução J. Filardo
Por Jean-Moïse Braitberg
Extraído do Blog bibliot3ca




Embora sejam tão antigas quanto a Arte Real, as relações entre música e maçonaria permanecem misteriosas, quase indescritíveis. Existe uma música maçônica? Os compositores e músicos maçons cujos retratos tratamos aqui expressaram sua arte de uma maneira maçônica? Como nossos rituais, a música fala ao coração e nos convida, a cada um, com nossa própria sensibilidade, a ouvir profundamente dentro de nós mesmos o murmúrio secreto da alma humana.

A Harmonia é uma palavra chave na Maçonaria. Como em uma orquestra sinfônica, o tempo da loja é, na verdade, o momento em que cada um, carregando sua diferença de tom, deve se esforçar para servir um ideal maior do que ele. Agucem bem seus ouvidos! Na antessala, ainda impregnada dos rumores do mundo profano, irmãos e irmãs produzem os sons dissonantes de uma formação embaralhada que se procura pelas gamas e acordos nem sempre muito harmoniosos. E então, uma vez que cada um em seu lugar e em seu ofício, é necessário concentrar e ficar atento para não apenas ouvir, mas também compartilhar esta partitura comum, este solfejo obrigatório que é o ritual, sem o qual as dissonâncias do mundo profano fariam ranger entre si as pedras do Templo.

Uma vez que a harmonia reina em ambas as colunas, por que então precisar de música?

Por que essa “coluna” da harmonia? Para dar mais brilho às nossas cerimônias? Para tornar mais explícito, por frases sonoras, o que o verbo não consegue expressar completamente, ou mesmo se esforçar para esconder?

Bernard de Besson, um músico que foi durante muito tempo o diretor de uma grande editora de música, era Grão-Mestre da Grande Loja Tradicional e Simbólica Opera (GLTSO) cujo principal rito, o Rito Escocês Retificado, não prevê música alguma. Uma tradição que ele justifica nestes termos: “Estou bem consciente de que, enquanto músico, minhas palavras podem parecer paradoxais, mas acredito que nossa verdadeira música é o ritual. E o ritual nossa partitura. Se você der às palavras toda a vibração que elas merecem, já é música. Eu compreendo perfeitamente que, em certos ritos, a música pode dar uma respiração ao desenvolvimento dos trabalhos, marcar certas transições, servir como uma espécie de pausa. Ela pode até acentuar a dimensão sagrada dos trabalhos. Mas na minha opinião ela não é essencial e, pode em alguns casos, ser usado como um tampão ou folha de figo…

Aqui, sem dúvida, é necessário introduzir uma nuance. Lembrar-se que até a invenção do gramofone, a coluna de harmonia era realizada por músicos e cantores “ao vivo”. O que tinha um olhar totalmente diferente das ilustrações sonoras da época escolhidas ao gosto de suas fantasias por alguns mestres da harmonia, às vezes assumindo o papel de disc jockeys ou “ambientadores” …

Da harmonia à orquestra 

Originalmente, a coluna de harmonia designava precisamente uma harmonia no sentido musical do termo: um conjunto de instrumentos de sopro cujo papel se queria simbólico, conforme evidenciado por um ritual de 1737:

“O que você ouviu?

– Uma trombeta que fazia ressoar os ares … 

– Como falava esta trombeta?

– Por três bocas …”

Muito rapidamente, conforme mostram algumas gravuras da primeira metade do século XVIII, instrumentos de corda foram introduzidos no templo para acompanhar canções e cânticos maçônicos com o reforço de trombetas, tímpanos e cornetas de caça.

Um texto de 1745 evoca uma cerimônia solenizada “por um concerto de cornetas de caça e outros instrumentos, cujos acordes harmoniosos ecoava ao longe os símbolos respeitáveis”. ”

Foi somente no final do Século das Luzes que se formaliza o conjunto que presidia a coluna da harmonia, com uma composição semelhante à de pequenas formações militares compostas de duas clarinetas, duas cornetas, dois fagotes aos quais às vezes se adicionava um tímpano. Este tipo de conjunto se generalizará na Europa, passando por várias modificações de acordo com as composições, os gostos da época e a disponibilidade dos irmãos músicos. De fato, nem todas as lojas tinham músicos, ou mesmo o número suficiente. No caso de falta, era frequente “emprestar” músicos das melhores lojas militares que eram as mais equipadas de instrumentistas. Essa qualidade profana era, portanto, um motivo de recrutamento, embora de natureza muito particular. Por muito tempo os músicos eram submetidos ao mesmo regime de exclusão que os irmãos servos. Confinados aos dois primeiros graus, ou mesmo ao único grau de aprendiz, eles certamente não pagavam capitação, mas deviam a pedido da loja, para emprestar sua ajuda gratuitamente, exceto para ir tocar em outra loja.

Algumas lojas tornaram-se verdadeiros conjuntos orquestrais, trazendo sua ajuda contra pagamento às cerimônias de lojas amigas. Este era particularmente o caso da Loja Olímpica da Perfeita Estima em Paris na década de 1780, que acabou se tornando uma verdadeira companhia de concertos interpretando todos os tipos de música.

Música maçônica ou música iniciática?

Desde a origem da maçonaria, a música aí existiu quando se vê que ocupa um lugar importante no desenrolar dos trabalhos. Isso significa que a música escrita pelos maçons ou composta para os propósitos do ritual maçônico seria pela única virtude de seus autores e suas intenções, mais maçônica que certas músicas “profanas”? O poder evocativo dos Noturnos de Claude Debussy, que, embora descrito por Victor Segalen como músico “órfico”, não era maçom, é menos iniciática do que os sábios ritornellos da Flauta Mágica do Irmão Mozart? As Gnossiennes de Erik Satie, adepto da rosa cruz de ouro que encontrava sua inspiração no pensamento gnóstico, não são propensos a apelar à interioridade que sugere o ritual em loja? O que têm em comum, musicalmente, Sibelius, Mozart, Haydn, Duke Ellington, Liszt e Josephine Baker? Senão ter pertencido à Maçonaria?



“Nossa verdadeira música é o ritual.

E o ritual nossa partitura.” 

Bernard de Bosson



Se existe um vínculo entre a música e a Maçonaria, é sem dúvida a maneira como alguns músicos se comportaram em relação à música, tentando traduzir em som os seus próprios sentimentos pessoais. A ligação com a essência da abordagem maçônica é acima de tudo individual, pessoal. E músicos não são exceção. O resto é uma questão de ouvir, de sentir. De compartilhamento. Se propormos aqui retratos de músicos e compositores cuja afiliação maçônica é provada – existe neste domínio como em outros, supostos maçons que não o eram, entre outros Gershwin, Armstrong e Beethoven – é, em primeiro lugar, para os descobrir, ou para os redescobrir com um novo ouvido, ligando-nos ao que vibra nossa corda particular sensível, em ressonância com nossa sensibilidade pessoal?


Wolfgang Amadeus Mozart

(1756-1791)
O triunfo da luz

Foi em Mannheim, na Alemanha, que Mozart, um jovem prodígio itinerante, conheceu a Maçonaria pela primeira vez em 1772, na pessoa do barão von Gemingen. Foi apenas em 1784, no entanto, que aquele que estava no auge de sua glória, foi recebido maçom pela Loja A Beneficência, no oriente de Viena, que tomou logo após o título distintivo da Esperança recém coroada.

Como mostra sua correspondência, Mozart era um espírito livre. Mas para ele a liberdade não era dada. Ela deveria ser conquistada por uma luta incessante das forças do bem contra as do mal, da luz contra as trevas. Essa dicotomia se reflete plenamente em suas principais óperas. Em Don Juan, acima de tudo, no final de um verdadeiro desafio contra Deus, o herói mostra que a liberdade só pode ser adquirida à custa de riscos inauditos: os da condenação e do inferno. Mas é em Flauta Mágica que a luta entre a escuridão e a luz é mais explícita. Seu libretista Schikaneder era maçom. Foi ele quem propôs a Mozart que escrevesse uma espécie de comédia musical destinada a tornar populares os temas maçônicos em uma época em que o imperador Leopoldo II acabara de fechar as lojas austríacas. A temática é, por assim dizer, destacada ao final. Os raios do sol empurram a Rainha da noite para fora do templo e os dois impetrantes, Sarastro e Tamina, podem acessar a luz.

Mas se com a Flauta Mágica ainda estamos em uma alegoria tingida de simbolismo, Mozart também compôs explicitamente obras maçônicas destinadas a acompanhar o desenrolar dos rituais em loja da maneira que a música sacra acompanha as cerimônias da igreja. A mais famosa destas obras são conhecidas sob o nome de Maurerische Trauermusik – Música Funerária Maçônica K. 477. Interpretado erroneamente como destinado a acompanhar as sessões fúnebres, trata-se mais uma música que dá pleno significado ao ritual de exaltação do mestre.

“Glória a vós, iniciados

Sarastro: Os raios do sol repelem a noite, aniquilando o poder dos demônios.

O coro: Glória a vós, iniciados Vós conquistastes a noite. Nós vos rendemos graças, Osiris e Isis! A Força triunfou e coroou a Beleza e a Sabedoria por toda a eternidade.”

Na flauta mágica, Mozart também produziu nove obras maçônicas para o canto coral, a maioria das quais são adaptações de textos de poetas maçons. Um dos mais famosos é Die ihr Unermesslichen Weltalls Schöpfer ehrt – Cantata Maçônica K 619 – Você que do Universo incomensurável – honra o Criador. Esta cantata para tenor ou soprano, com acompanhamento de piano ou orquestra, foi composta no final da vida de Mozart em julho de 1791. O texto é do poeta maçom Franz Heinrich Ziegenhagen (1753-1806).

Além de temas explicitamente maçônicos, Mozart às vezes aplicava a algumas de suas melodias uma dimensão inspirada em sua própria experiência maçônica. Este é particularmente o caso do quarteto Dissonances K. 465, sexto dos quartetos dedicados ao seu irmão Haydn. Composta em 14 de janeiro de 1785, um mês após sua iniciação, esta peça é considerada como a tradução musical das impressões da iniciação de Mozart. Em seu prólogo, considerado na época, como dissonante, podemos ouvir a imagem de tentativa e erro precedendo a contemplação da Luz traduzida então por um alegre allegro.

Joseph Haydn
(1732-1809)

O músico de toda uma época

É possível que a iniciação de Joseph Haydn na loja A Verdadeira Concórdia, no oriente de Viena, em 14 de março de 1785 tenha sido motivada pela frequência de Mozart, que ingressara na maçonaria dois meses antes.

Vinte e quatro anos mais velho que o autor da Flauta Mágica, Joseph Haydn manteve uma bela proximidade com este último. Amizade sincera que viu Mozart dedicar seis de seus quartetos ao mais velho. Uma amizade ainda mais notável é que ela estava livre daquela rivalidade que frequentemente prejudica as relações entre artistas. À liberdade de humor, de tom e de vida de Mozart se opõe a existência forçada e necessitada de Haydn, que passou a maior parte de sua vida produzindo obras encomendadas pelo príncipe Esterhazy, do qual ele era e compositor e músico titular. Não foi senão ao se aproximarem os 60 anos que Haydn foi capaz de dar livre curso ao seu próprio gênio e compor uma música original que, a começar pelas adoráveis figuras do barroco, abriu caminho entre as tempestuosas sobreposições do romantismo. Sua de uma riqueza excepcional inclui mais de cem sinfonias, óperas e os dois famosos oratórios: “A criação” e “As Estações”.

Ao contrário de Mozart, Haydn nada escreveu de específico para a Maçonaria. Além disso, existem dúvidas de que ele frequentasse muito pouco a sua loja após a sua iniciação. No entanto, os laços de Haydn com a Maçonaria são atestados pelos concertos que ele conduziu em Londres, no Freemasons’ Hall, e pela importante encomenda que lhe foi feita por membros da Sociedade Olímpica de Paris para a composição de seis sinfonias, chamadas “Sinfonias parisienses”.


Franz Liszt
(1811-1886)

O Idealismo atormentado

Ferenc Liszt, cujo primeiro nome foi germanizado como Franz, era súdito austro-húngaro de nascimento, alemão pela cultura familiar e europeu, se não francês, de coração. Uma criança talentosa para a música e o piano, ele foi, como Mozart, destinado a ser “exibido” na boa sociedade por seu pai Adam Liszt para lucrar com isso. Foi em Paris, na década de 1820, que o jovem Liszt conseguiu aperfeiçoar sua educação musical. Foi também em Paris que ele descobriu o mundo borbulhante de ideias de progresso que então agitavam a Europa. Seduzido pelo catolicismo social de Lamennais, mas também pela generosa utopia Saint-Simoniana, o jovem adquiriu a reputação de músico “humanitário” ao expor suas ideias em um curto ensaio sobre a situação dos artistas e sua condição na sociedade, publicado em Paris em 1835, uma espécie de profissão de fé contra o “aviltamento” da música pelo dinheiro … que foi soberbamente ignorado.

Foi na Alemanha, durante uma turnê em 1841-1842, que Liszt encontrou o sucesso não somente por sua música, mas também por suas qualidades intelectuais. Tanto que em 1842 a Universidade de Kijnigsberg lhe concedeu o título de doutor honoris causa em filosofia. Nessa época, Liszt já era maçom há um ano, admitido pela loja Der Einigkeit – A Unidade – em Frankfurt-am-Main. Iniciado em setembro de 1841, ele foi recebido companheiro em fevereiro de 1842 na loja Royal York de Berlim, na presença do príncipe Wilhelm, o futuro imperador Wilhelm I. Então, é em Frankfurt, na loja que o havia iniciado, que ele acedeu ao mestrado no mesmo ano. No entanto, a carreira maçônica de Liszt foi curta, mesmo que lhe desse a oportunidade de se apresentar em várias lojas, incluindo um concerto dado em 3 de dezembro de 1845 diante da loja A Sinceridade, no Oriente de Reims.

A partir de 1848, Liszt deixou de frequentar as lojas. Nessa época, ele já era assombrado por um violento misticismo católico, mas sem dúvida também, quando a condenação da Maçonaria pela Igreja se tornou mais virulenta. ele via em sua pertença à Maçonaria um obstáculo ao seu projeto de renovação da música religiosa. E foi em Roma, onde ele se estabeleceu em 1861, que Liszt recebeu o hábito e a tonsura, tornando-se abade na ordem franciscana. No entanto, o homem que se tornaria o sogro de Richard Wagner pelo casamento de sua filha Cosima com o enfant terrible de Bayreuth não rompeu completamente com a maçonaria. Em 1870 ele se encontra em Budapeste, visitando uma loja, e depois, em 1881, quatro anos antes de sua morte, ele deu um concerto para a loja Zur Verschiefenheit – A Discrição – em Preflburg – Bratislava. Assim, este grande compositor romântico cuja vida sentimental foi tão atormentada quanto sua carreira filosófica, comportou-se com respeito à Maçonaria assim como as mulheres, demonstrando para uma e outra uma fidelidade não exclusiva.


Duke Ellington
(1899 – 1974)

O espírito do jazz em seu reino

O planeta jazz é um reino cujo rei foi o “Rei” Louis Armstrong, o “conde” Count Basie, o “barão” Earl Hines e o “Duque” Ellington. Como muitos músicos de jazz negros, mas também alguns brancos, Duke Ellington era maçom, iniciado na obediência afro-americana de Prince Hall na Loja Social N ° 1 de Washington.

Nascido em uma família modesta, o futuro gigante do jazz frequentou pouco a escola, preferindo os campos de beisebol, e deixou os estudos de arte gráfica para se dedicar à música, escrevendo suas primeiras composições enquanto não tinha ainda quinze anos. Muito rapidamente, mostrou grande desenvoltura ao piano e formou um primeiro grupo com alguns amigos que conheceu rapidamente o sucesso. Originários de Washington, era natural que a banda assumisse o nome de Washingtonians para a gravação de suas primeiras músicas em meados da década de 1920.

As composições de Ellington se caracterizam por um senso agudo de ritmo combinado com uma grande suavidade de execução e uma aptidão da parte do pianista, de não se impor, deixando toda a latitude para se expressar a de grandes virtuosos como o saxofonista Johnny Hodges e o clarinetista Barney Bigard. No final de várias turnês triunfais em todos os Estados Unidos, a banda foi contratada em 1927 pelo Cotton Club, o mais famoso clube de jazz de Nova York, onde Ellington se apresentará ao lado dos maiores, como Louis Armstrong e até o cantor francês Maurice Chevalier. Apesar de uma ligeira queda durante a Grande Depressão, o sucesso de Ellington e sua formação não se desmentirá ao longo das décadas seguintes. Demonstrando grande ecletismo, Ellington atravessou épocas e estilos, tocando ao lado de grandes nomes do jazz tão diferentes quanto Count Basie, Ben Webster ou John Coltrane.

No plano maçônico, é difícil saber se seu percurso iniciático influenciou a música de Ellington, a não ser dando-lhe uma grande cobertura de espírito e uma incrível capacidade de adaptação. O que não é nada. Alguns queriam ver na peça intitulada Estou começando a ver a luz uma alusão explícita à sua iniciação. O que desmente em seu livro, o saxofonista e historiador de jazz Raphaël Imbert, para quem “esta peça é escandalosamente apresentada como suas impressões de iniciação por muitos maçons pouco escrupulosos em termos de credibilidade histórica e musical”. Sem dúvida Ellington não foi privado de preocupações espirituais e metafísicas, mas ao invés de traduzi-las em uma expressão puramente maçônica, ele se esforçou para explicar isso com sua própria sensibilidade, que era essencialmente religiosa, na série de concertos sagrados que ele deu de 1965 até seu desaparecimento em 1974.


Jean Sibelius
(1865 – 1957)

Um patriota apaixonado e austero

Sem dúvida, pode-se falar pela Finlândia do “Século de Sibelius”, já que a vida desse compositor, que morreu aos 92 anos, se confunde com a atormentada história de seu país. Quando nasceu em 1865, Sibelius e sua família eram então súditos do império russo falando a língua sueca, a língua da pequena burguesia finlandesa. Órfão muito cedo de seu pai, o jovem Jean será criado por sua mãe, mas descobre a música graças a um tio violinista. Dedicado aos estudos de direito, ele mostra mais interesse pela música, compõe e é conhecido por círculos musicais na Finlândia, mas também na Alemanha e na Áustria que ele percorre para aperfeiçoar sua arte. Foi em 1898, quando o czar Nicolau II restringiu ainda mais os direitos da Finlândia, que Sibelius decidiu colocar sua música a serviço do ideal patriótico finlandês. Ele comporá várias obras exaltando a alma de seu país, a mais famosa das quais é Finlandia, um poema sinfônico interpretado pela primeira vez em 1900 como parte de uma obra mais longa originalmente escrita para celebrar a liberdade de imprensa, reprimida pelo regime russo. Sibelius, cuja fama está crescendo na Europa, encarnará a luta do seu país pela liberdade, uma luta que só terá êxito após a revolução russa e da guerra civil que se seguiu. É – portanto, em uma Finlândia agora independente que o compositor é iniciado em 1922 pela loja Suomi N ° 1 de Helsinque no mesmo dia em que ela tinha sido instalada por maçons americanos.

Ele realiza a escrita de oito hinos maçônicos sobre os textos de autores finlandeses, mas também de Goethe, Schiller e Confúcio.

Personalidade severa e um pouco atormentada, Sibelius encontrou na maçonaria, matéria para fazer jorrar com sinceridade uma música profundamente espiritual e grave na qual transparecia a austera cultura luterana do compositor, empreende a escrita de oito hinos maçônicos sobre textos de autores finlandeses, mas também de Goethe, Schiller e Confúcio. Entre 1946 e 1948, ele completará estas composições por um Hino de Louvor, uma Ode à fraternidade e um Hino de abertura. Mason particularmente apegado à discrição, Sibelius que havia doado suas partituras à sua loja proibindo a interpretação diante um público profano. Além de uma obra ter “vazado”, que foi interpretada em Nova York em 1938, o essencial de suas peças maçônicas, só esteve disponível para o público em geral nos anos 2000.




J
Josephine Baker
(1906 – 1975)

Fantasista e idealista

Freda Joséphine Mac Donald nasceu em um distrito pobre de St. Louis, Missouri. Sua infância foi difícil, forçada às vezes a limpar casas, às vezes dançar em estabelecimentos mal-frequentados para ajudar sua família. Aos 13 anos, ela deixou a casa da família para contrair um primeiro casamento e fazer sua estreia no palco de uma trupe itinerante. Um ano depois, ela se casa novamente com Willie Baker, que lhe dará seu nome. Mas ela o deixa pouco depois para ir para a Broadway e se engajar em diferentes trupes antes de ser notada pela esposa do adido comercial da embaixada francesa em Paris. Esta última a convence a segui-la para a França, prometendo-lhe ser contratada na “Revista Negra”. O sucesso é imediato. No palco do Théâtre des Champs Élysées, a jovem afro-americana desperta uma paixão com toques de escândalo ao dançar freneticamente o charleston, vestindo uma simples tanga feita de bananas falsas. Ao fazê-lo, Josephine junta-se à atiradora senegalesa da publicidade Banania, no imaginário colonial colorida da benevolente condescendência dos franceses da época.

Durante dos anos vinte, Josephine Baker ainda é a queridinha de toda Paris, atuando no palco do Cassino de Paris e no Folies Bergere. A canção Rai deux amours que lhe escreve Vincent Scotto lhe assegura um enorme sucesso. Ela então proclama seu amor pela França, mas somente em 1936 ela adquirirá a nacionalidade francesa casando-se com o francês Jean Lion, rico herdeiro de uma família de comerciantes de açúcar. Este terceiro casamento, que não durará mais do que os anteriores, a leva a converter-se ao judaísmo.

A partir de 1939, Josephine Baker foi recrutada pela contraespionagem francesa e se colocou ao serviço da França livre a partir de 1941. Sua atividade artística permitia que ela viajasse. Ela empreendeu uma série de turnês no norte da África e no Oriente Médio, que lhe dava a oportunidade de colher informações valiosas para os aliados junto às autoridades que ela frequentava. Uma patriota incansável, ela se juntou à Força Aérea e desembarcou em Marselha em 1944. Por sua ação corajosa, ela recebeu a Legião de Honra, a Medalha da Resistência e a Croix de Guerre de 1939 a 1945 com palma. Apesar de uma saúde frágil, Josephine prossegue depois da guerra seu compromisso humanista ao adoptar, com seu novo companheiro Jo Bouillon, doze crianças de diferentes origens e cores de pele que ela cria em sua propriedade de Milandes, na Dordogne. Depois de se envolver na defesa dos direitos dos afro-americanos desfilando ao lado de Martin Luther King, ela foi a Cuba com Fidel Castro em 1965 para a conferência anti-imperialista da tricontinental. Alguns afirmam que ela teria levado uma mensagem discreta de apoio da parte do General de Gaulle. Conduzida pelo “líder máximo” ao local da Baía dos Porcos, lugar do desastroso desembarque anti-castrista americano de 1961, ela declara “Estou feliz por ter testemunhado o primeiro grande fracasso do imperialismo americano.”

No entanto, sua atividade transbordante não lhe dá um centavo e não lhe permite, após sua separação de Jo Bouillon, manter sua propriedade de Milandes. Apesar do apoio que goza no meio do showbiz, os Milandes serão vendidos em leilão em 1969. Em 1975, sustentada por amigos, ela é incentivada a voltar ao palco para uma retrospectiva em Bobina. Mas ela sucumbe à exaustão e morre em abril do mesmo ano.

Josephine Baker fora iniciada pela loja Nova Jerusalém da Grande Loja Feminina da França em 1960. Embora ela pareça ter tido pouco envolvimento na vida de sua loja, sua passagem pela maçonaria mostra que ela soube encontrar o caminho certo para aperfeiçoar os ideais de justiça e igualdade que iluminaram sua vida.

Publicado na revista FM Franc-Maçonnerie Edição Julho/Agosto no. 69

O MÍSTICO SETE NA SIMBOLOGIA MAÇÔNICA


Blog Bibliot3ca

Tradução J. Filardo


Autor Desconhecido


Como em todas as tradições místicas, antigas e modernas, os números desempenham um papel fundamental para nos ajudar a alcançar uma compreensão mais profunda e os números mantêm as chaves do pensamento esotérico. E não é diferente na Maçonaria Especulativa. Desde o início dos tempos, os adeptos dos mistérios ocultos descobriram verdades místicas através da compreensão dos números e sua importância para o desenvolvimento do universo. De fato, pode-se dizer que a ciência dos números é a própria fórmula com a qual Deus criou o universo visível. Dentro do catecismo da Maçonaria Especulativa, há uma variedade de números que possuem um valor espiritual mais profundo. Este trabalho se concentrará em um número específico, o número sete. Conforme afirmado na Enciclopédia de Maçonaria de Albert Mackey:

“Em todo sistema de antiguidade há uma referência frequente a esse número, mostrando que a veneração por ele procedeu de alguma causa comum. Ele é, igualmente, um número sagrado entre os gentios e na religião cristã. O doutor Oliver diz que isso dificilmente pode ser atribuído a qualquer evento, excetuando a instituição do sábado. Godfrey Higgins acha que a circunstância peculiar, talvez acidental, do número de dias da semana coincide exatamente com o número de corpos planetários que provavelmente adquiriram para ele seu caráter de santidade. Os Pitagóricos o chamavam de número perfeito, porque era composto por três e quatro, o triângulo e o quadrado, que são as duas figuras perfeitas. Eles também o chamavam número virgem, e sem mãe, comparando-o a Minerva, que era virgem sem mãe, porque não pode, por multiplicação, produzir nenhum número dentro de dez, como duas vezes dois, quatro e três vezes três, nove; nem dois números, por sua multiplicação, podem produzi-lo.”

O número Sete era considerado sagrado não apenas por todas as nações da antiguidade do Oriente, mas também era tido em grande reverência pelas nações posteriores do Ocidente. Consistindo em uma união entre o número três (o símbolo da Trindade Divina e dos três elementos que compõem a matéria) e de quatro (o símbolo das forças ou elementos cósmicos), o número Sete aponta simbolicamente para a união da Deidade com o universo. Este número, que também representa o triunfo do Espírito sobre a Matéria e a plenitude dos Mistérios Divinos, corresponde à letra hebraica Zain. O número sete é universal, como Zain, que é considerada a Letra do Universo.

Os Pitagóricos consideravam o algarismo Sete como a imagem e modelo da ordem divina e harmonia na natureza. A partir deles, a origem astronômica desse número é estabelecida além de qualquer dúvida. O homem, sentindo-se dependente dos poderes celestiais, olhava para os céus em busca de compreensão e clareza espiritual. Ao estudar o firmamento, os astrólogos antigos entendiam que os Sete planetas permaneciam a uma distância igual um do outro e giravam na mesma trajetória. Daí a ideia sugerida por este movimento é a da harmonia eterna do universo.

A maior e mais brilhante das luminárias tornou-se assim o símbolo da mais importante e mais alta dos poderes; incorporada aos planetas toda a antiguidade numerada como Sete. Nesta conexão, o número Sete tornou-se especialmente sagrado com eles, e sempre preservou sua importância com os astrólogos. Com o tempo, estes foram transformados em Sete divindades. Os egípcios tinham Sete deuses originais e superiores; os fenícios Sete kabiris; os persas, Sete cavalos sagrados de Mitra; os Parsees, Sete anjos opostos por Sete demônios e Sete moradas celestes paralelamente a Sete regiões inferiores. Para representar mais claramente essa ideia em sua forma concreta, o sete deuses foram frequentemente representados como uma divindade de sete cabeças. Todo o céu estava submetido aos Sete planetas; portanto, em quase todos os sistemas religiosos nós encontramos Sete céus. Alguns filósofos disseram que nossas almas têm 7 focos no corpo material; os cinco sentidos, a voz e o poder gerador.

O corpo tem sete partes óbvias: cabeça, peito, abdômen, duas pernas e dois braços. Existem sete órgãos internos, estômago, fígado, coração, pulmões, baço e dois rins. A parte dominante, a cabeça, tem sete partes para uso externo, dois olhos, duas orelhas, duas narinas e uma boca. Existem sete coisas vistas, corpo, intervalo, magnitude, cor, movimento e permanência. Existem sete inflexões da voz, os sons agudos, graves, circunflexos, ásperos, suaves, longos e curtos. A mão faz sete movimentos; para cima e para baixo, para a direita e esquerda, à frente e atrás e circular. Existem sete evacuações; lágrimas dos olhos, muco das narinas, saliva, sêmen, duas excreções e transpiração. O conhecimento médico moderno corrobora o ditado antigo de que, no sétimo mês, a prole humana se torna viável. A menstruação tende a ocorrer em séries de quatro vezes sete dias, e certamente está relacionada a Luna de maneira oculta.

O Castiçal de Ouro dos Sete Ramos foi um notável ornamento emblemático do Tabernáculo de Moisés, Êxodo 25:31.

Observem-se os sete anos para o arrependimento; sete igrejas da Ásia, sete anjos com trombetas, sete castiçais dos Lugares Santos, sete selos, sete trombetas, sete reis, sete mil mortos, sete frascos de ira a serem derramados acompanham o Apocalipse. Existem inúmeros casos em que o número sete detém um valor significativo ao longo da história do pensamento e da introspecção humanos. Esse número, em particular, tinha um valor especial, por estar diretamente relacionado ao entendimento de nossa natureza divina e à harmonia com a divindade. Essa ideia numérica foi aplicada pelos cristãos – (especialmente durante a Idade Média) – usando amplamente o número Sete no simbolismo de sua arquitetura sagrada. Assim, por exemplo, a famosa Catedral de Colônia e a Igreja Dominicana em Regensburg exibem esse número nos menores detalhes arquitetônicos. Também podemos fazer analogia entre muitas referências bíblicas do número sete à Maçonaria. Por exemplo, tA história de Salomão construindo o templo em que O rei Salomão completou o templo em sete anos. (1 Reis 5:13; 2 Crônicas 2:2). De acordo com 1 Reis 6:38, a obra do templo levou sete anos dizendo:

“E no décimo primeiro ano, no mês de Bul, que é o oitavo mês, a casa foi concluída em todas as suas partes e de acordo com todas as suas especificações. Foram sete anos na sua construção.”

O número sete também possui um valor místico significativo na Maçonaria. Mais uma vez citando Mackey:

“Sete é um número sagrado no simbolismo maçônico. Tem sido sempre assim. Nas instruções mais antigas do século XVIII, dizia-se que uma Loja exigia sete para torná-la perfeita; mas a única explicação a ser encontrada em qualquer uma dessas cerimônias da sacralidade do número são as sete artes e ciências liberais, que, de acordo com a antiga lenda do ofício, eram o fundamento da Maçonaria. No ritualismo moderno, o simbolismo dos sete foi transferido do Primeiro para o Segundo Grau, e ali é feito para se referir apenas aos sete degraus das Escadas Sinuosas; mas o sete simbólico pode ser encontrado difundido de várias maneiras em todo o sistema maçônico.”

São necessários sete irmãos para abrir uma loja perfeita: O Venerável Mestre, dois Vigilantes, dois Diáconos, o Tesoureiro e o Secretário (para trabalhar são necessários apenas cinco). Os sete oficiais representam como a consciência humana funciona como expressões da Fonte sempre prevalecente de todo ser. Eles representam as partes coordenadas que conectam a natureza externa do homem com seu princípio divino mais íntimo. Eles fornecem os canais necessários para os diferentes níveis espirituais e materiais para manter perfeita harmonia. Como afirma o ritual, “a harmonia é o apoio de todas as instituições, especialmente a nossa”.

Diz-se que o número sete é um número “perfeito” porque contém os números três e quatro. Na geometria, a base da maçonaria, o triângulo e o quadrado são as “figuras perfeitas”, e é ele mesmo indivisível e não pode ser criado por multiplicação. Esse entendimento é melhor exibido no emblema de um Maçom: O Avental.

O avental é composto de três partes: uma aba triangular, número três, e uma base quadrada, número quatro. A soma deles é o número sete. Conforme mencionado anteriormente, o quadrado simboliza os 4 elementos: terra (minerais do esqueleto, ossos, consciência física), agua (fluidos físicos, consciência emocional), ar (mente, pensamento abstrato), fogo (energia, consciência espiritual) O triângulo simboliza a trindade do ser, os três aspectos de Deus ou três luzes maiores e as três fases da existência humana (corpo, mente, espírito, conforme expressas atravessando os três graus da maçonaria de loja azul) ou as três luzes menores, exemplificado pelos três principais oficiais de uma loja. Representando simbolicamente também os três pilares cabalísticos dos quais emanam as sephirot. Juntos, o quadrado base e o triângulo da abeta representam os sete níveis de consciência que podem ser acessados pelas sete artes e ciências liberais: gramática, retórica, lógica, aritmética, geometria, astronomia e música. O avental ou o “distintivo de inocência” do maçom torna-se, assim, um símbolo do trabalho sincero do homem em direção à perfeição dos elementos materiais ao temperamento, sob a orientação das qualidades divinas. Nesse estado aperfeiçoado, ele pode encontrar seu criador, tornando-se conscientemente um com o TODO.

É óbvio que na superfície há uma referência mínima ao número sete no sentido particular, mas seu simbolismo está profundamente enraizado em toda a estrutura emblemática maçônica. Há muita informação que deve ser procurada pelo maçom enquanto atravessa a jornada de graduação. Supõe-se que poucos teriam estudado essas verdades esotéricas antes de entrar na maçonaria, e menos ainda as decorado. Acredito que era o plano que o Maçom procurasse os mistérios ocultos além da explicação de seus graus para se educar e se iluminar até uma compreensão mais profunda e um pouco mística.

As lições em três graus são uma oferta das chaves para destrancar as portas que conduzem à iluminação cósmica, com a qual é o objetivo e o dever de todo Maçom “guardar, ocultar e nunca revelar”. Valorizar, preservar e exemplificar o universo por nossos pensamentos, palavras e ações.

O Grau de Companheiro é o grau mais envolvido em estudos, desde a sugestão das Três Grandes Luzes e três oficiais principais da loja como influenciando o Maçom até o estudo da Cabala e da escada de Jacob, até a compreensão dos pilares, nossos sentidos e seu significado físico e espiritual, e para o estudo da alquimia e o significado astrológico dos sete planetas e como somos afetados por eles fisicamente, à medida que sua posição nos céus nos influencia espiritualmente. Aqui, “Assim como acima, é abaixo”, não tem significado maior. Ao nos aprofundarmos honestamente, adquirimos uma compreensão mais profunda do universo exterior e unimos as naturezas carnal e divina dentro dele, tornando-nos assim o número sete. A perfeição do homem encarnada em uma vida divina.



Referências:

Albert G. Mackey’s Enciclopédia da Maçonaria foi publicado originalmente como dois volumes; Volume I (1873) & Vol. II (1878)

Obras e Palestras Padrão da Maçonaria Antiga – Na jurisdição da Grande Loja de Pedreiros Livres e Aceitos do Estado de Nova York, 2014
Bíblia King James. Copyright 2015