segunda-feira, 15 de abril de 2019

James Anderson estava certo? Quem foi ele?

Há uma tendência por parte dos historiadores da Maçonaria, de retratar James Anderson como um mero pirata, difuso e pouco confiável na maioria das coisas, exceto em Acordos e Regulamentos, que também não eram seus, mas transcrições de artigos retirados dos Antigos Deveres sob a autoridade da Grande Loja.
A questão é se as coisas atacadas pelos críticos como invenções são realmente importantes ou se o relato de Anderson pode ser aceito como substancialmente correto.
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O texto aqui traduzido e adaptado por Luciano R. Rodrigues para o site www.opumodehiram.com.br foi originalmente escrito por Ossian Lang, Grande Historiador da Grande Loja de Nova York, que em 1932 estava ensaiando uma defesa da teoria da descendência dos maçons em atividade.
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Uma revisão de seu relato dos primeiros seis anos da Maçonaria organizada.
A história da formação da primeira Grande Loja de Maçons Livres e Aceitos no mundo tem sido relatada inúmeras vezes. As primeiras e únicas edições oficiais são as primeira e segunda edição das “Constituições dos Maçons”, publicadas por ordem da Grande Loja da Inglaterra.
A primeira edição (1723) contém apenas uma referência de passagem para esse evento, mas inclui uma lista das lojas registradas existentes em 1722.
A edição de 1738 fornece um resumo do que aconteceu entre 1716 e 1723 e até mais tarde.
A história foi escrita cerca de vinte anos depois que esses eventos aconteceram e é possível, é claro, que o texto tenha alguns erros.
Este relatório respeitosamente apresenta as conclusões que foram alcançadas após cuidadosa consideração dos estudiosos críticos do texto de Anderson e seu impacto sobre certos fatos relacionados ao período de formação da maçonaria organizada desde 1716 até 24 de junho de 1723, quando a Grande Loja instalou seu primeiro Grande Secretário e, a partir de então, as informações foram registradas sem interrupção. E estas informações ainda existem.
Tedioso que possa parecer ficar examinando questões sobre a veracidade da história de Anderson, essas críticas tiveram alguma propagação, mas apenas a partir dos estudiosos que os produziram e, se não por qualquer outra razão, parece importante que os fatos foram estabelecidos com força suficiente para testar os escritores que, se pudessem, iriam manter a história dos primórdios sob incerteza, em um exercício onde eles poderiam libertar a sua imaginação com o pretexto de história.
O texto original do primeiro Livro das Constituições foi compilado e concluído antes de 24 de junho de 1722, levado à imprensa em 17 de janeiro de 1723 e à venda em fevereiro, como evidenciado por um anúncio no jornal London Post Boy 26 -28 de fevereiro de 1723:
“Neste dia foi publicada a Constituição dos Maçons Livres, contendo a História, Encargos, Regulamentos &, da mais Antiga e Muito Respeitável Fraternidade, para o uso das Lojas. Dedicado à sua Graça, o Duque de Montagu, último Grão-Mestre, pela obra de sua Graça, o Duque de Wharton, atual Grão-Mestre, autorizado pela Grande Loja de Mestres e Vigilantes da Comunicação Trimestral. Sua publicação foi autorizada e recomendada aos irmãos pelo Grão-Mestre e seu Deputado. Impresso no Ano da Maçonaria de 5723; de Nosso Senhor 1723. Vendido por J. Senex e J. Hooke, perto da Igreja de St. Dunstan em Fleetstreet.”
A primeira edição tem apenas uma referência no começo e algo vago:
“E agora os nascidos livre da nação britânica, longe de guerras civis e estrangeiras e desfrutando os bons frutos de paz e liberdade, tendo ultimamente desfrutado de seu feliz gênio pela Maçonaria de todo tipo e revivido as decaídas lojas de Londres, este metrópole fantástica floresceu, assim como em outros lugares, com muitas lojas particulares, com uma Comunicação trimestral e uma Grande Assembleia Anual, em que as formas e usos da mais antiga e honrosa fraternidade são amplamente propagadas, a Arte Real devidamente cultivada e o cimento da irmandade preservado, de tal modo que o corpo completo se parece com um Arco bem construído; vários nobres e cavaleiros da melhor hierarquia, com clérigos e eruditos estudiosos de muitas profissões e denominações, concordaram francamente em aceitar os regulamentos e usar a insígnia de um maçom livre e aceito sob nosso atual digno Grão-Mestre, o muito nobre príncipe John Duque de Montagu”.
Anderson apareceu na Grande Loja pela primeira vez em setembro de 1721 e não poderia ter participado da formação da sociedade antes disso.
Um ponto de interesse especial na declaração acima mencionada é que “as lojas particulares terão uma Comunicação Trimestral e uma Grande Assembleia Anual”.
Nada é dito sobre a formação de uma Grande Loja
Em uma segunda edição do Livro das Constituições (1738) fornece um detalhe considerável, mas quase nenhuma referência é dada a assuntos anteriores a 1723, que não são questionados. Seu “descuido” tem sido severamente criticado e nem sempre com justiça.
Anderson, devemos lembrar, teve que confiar quase que exclusivamente em rumores.
Os detalhes do que aconteceu, antes do Grão-Duque de Montagu se tornar o Grão-Mestre, foram provavelmente fornecidos pelo seu amigo Jacob Lambell (ou Lamball), um carpinteiro que participou da primeira Assembleia no dia de São João Batista em 1717 e manteve sua afiliação ao Craft por muitos anos desde então.
Tendo sofrido graves perdas financeiras no desastre da South Sea Bubble de 1720, Anderson tentou compensar através de compilações, que apresentavam um mercado lucrativo. A South Sea Bubble foi uma companhia comercial que tinha os direitos exclusivos do comércio com a América do Sul, a especulação em torno desta empresa fez com que os seus títulos se multiplicassem por nove no primeiro semestre de 1720, mas no final deste mesmo ano, o negócio quebrou e junto com ele, o dinheiro dos investidores, entre eles, James Anderson.
Em sua descrição dos eventos, ele pode ter dado rédea solta à sua imaginação onde estava com um hiato, mas não fez mais do que outros para escrever uma história maçônica.
Em defesa de Anderson, podemos dizer que ele foi o pioneiro nesse campo e que não tinha orientação.
Além disso, nenhum dano sério foi infligido à reputação do Ofício, o que não pode ser dito igualmente de alguns escritores não críticos, com abundantes oportunidades à mão para abordar a verdade.
É bom manter essas coisas em mente ao ler, por exemplo, o trabalho de Lionel Vibert intitulado “Constituições de Anderson de 1723”, originalmente preparado para a Loja Quatuor Coronati em Londres e reimpresso na forma de um livro; ou a obra monumental do Ir. Willhem Begemann, “Maçonaria na Inglaterra”, que primeiro formulou as estruturas que tinham sido reiteradamente repetidas por historiadores ilustres.
Sem o relato de Anderson, sobre o que aconteceu entre 1716 e a primeira nomeação de um Secretário da Grande Loja em 24 de junho de 1723, não teríamos quase nada para nos dar luz sobre as origens da Maçonaria, exceto alguns artigos de jornais de rua e anotações em jornais e cartas.
Se os homens que tinham sido participantes, ativos nos eventos relatados por Anderson nas Constituições de 1738 e que ainda estavam vivos, não encontraram falhas em suas crônicas, não parece razoável trazê-los para a discussão agora.
Artigos de periódicos colecionados por Sir Alfred Robbins e publicados no volume XXII das Transações da Loja Quatuor Coronati; o Diário e as Cartas de Stukeley contendo referências a feitos maçônicos em Londres de 6 de janeiro de 1721, dos quais Gould extraiu e leu antes da QC Lodge em 23 de julho de 1893, e várias notas encontradas em publicações contemporâneas, proporcionam correções para algo que possa estar errado com Anderson ou não incluído em sua crônica.
Depois de tudo o que foi dito e feito, descobriremos que seu principal defeito, se fosse um, é que ele estava inclinado a apresentar tudo de uma maneira muito otimista.
De minha parte, sinto que a Maçonaria tem uma dívida maior de gratidão com James Anderson do que com outros homens daqueles dias, exceto talvez com Desaguliers e Payne.
A crônica dos eventos maçônicos desde a formação da primeira Grande Loja em 1717 até o início do primeiro ato oficial em 1723, conforme estabelecido por Anderson em suas Constituições de 1738, foi reimpresso muitas vezes como a História oficial da Grande Loja da Inglaterra para esse período.
Ainda assim, por conveniência na revisão crítica, parece desejável repetir algumas coisas. Essas são:
1717
Rei Jorge I veio a Londres em 20 de setembro de 1714. E após a rebelião em 1716, as poucas lojas em Londres que foram negligenciadas por Sir Christopher Wren, procurando se fixar sob um Grão-Mestre como centro de união e harmonia, se reuniram:
– Goose and Gridiron Ale-house, no St. Paul’s Church-Yard (O ganso e a grelha)
– Crown Alehouse, na Parker’s Lane, perto de Drury-Lane (A coroa)
– Apple-Tree Tavern em Charles-street, Covent-Garden. (A macieira)
– Rummer e Grapes Tavern em Channel-Row, Westminster (O copázio e as uvas)
Eles e alguns antigos irmãos se reuniram na Apple Tree Tavern e tendo colocado na Cadeira (Instalado) o mais antigo Mestre Maçom (agora mestre de uma loja), eles se tornaram uma Grande Loja Pro Tempore na devida forma e então reviveram as Comunicações Trimestrais dos oficiais da Loja (chamados de Grande Loja), decidiram realizar a Assembleia Anual e a Festa, escolhendo então um Grão-Mestre entre eles, esperando para ter a honra de um irmão nobre na liderança.
Sir Christopher Wren, o renomado arquiteto, foi adotado como irmão em 18 de maio de 1691 em uma grande convenção na Igreja de St. Paul da Fraternidade dos Maçons Livres, como aparece na anotação de John Aubrey (1626-1697).
A Fraternidade, ou o Companheirismo, dos maçons livres era um círculo diferente da Honorável Companhia de Maçons da Cidade de Londres.
É pelo menos uma coincidência que a Loja Fundadora nº4 foi formada no mesmo ano em que Sir Christopher Wren foi adotado na fraternidade.
Além disso, há uma tradição tenaz com pelo menos um apoio, que afirma que Sir Christopher Wren foi eleito chefe da fraternidade.
Supõe-se que, nesse caso, ele manteria um interesse ativo.
Anderson obviamente concordou quando fala sobre como as poucas lojas de Londres foram negligenciadas por Wren.
O dia de São João Batista, no terceiro ano do Rei Jorge I, em 1717, a Assembleia e a Festa dos Maçons Livres e Aceitos foi realizada na taberna O Ganso e a Grelha.
Antes do jantar, o Mestre Mais Antigo da Cadeira (agora mestre da loja) propôs uma lista de candidatos, e os irmãos, por aclamação, escolheram o Sr. Anthony Sayer, cavalheiro, Grão-Mestre dos Maçons, que estava então investido com a insígnia do Craft e aprovado pelo mais antigo Mestre, e instalado, devidamente parabenizado pela Assembleia que lhe ofereceu a homenagem.
Sr. Jacob Lamball, Carpinteiro, Capt. Joseph Elliot, Grande Vigilante, o Grão-Mestre Sayer, ordenaram que os Mestres e Vigilantes das Lojas se reunissem com os Grandes Oficiais em todas as Comunicações Trimestrais, no local indicado em sua convocação enviada pelo Telhador (Cobridor).
Nota: Chamava-se Comunicação Trimestral, porque tinha que ser feito quatro vezes por ano, de acordo com o uso Antigo, e quando o Grão-Mestre estava presente, era uma Grande Loja.
As Comunicações Trimestrais dos oficiais da Loja (chamadas Grande Loja), que foram mantidas em 1716, representaram um renascimento que tem sido negado por escritores eruditos com ênfase considerável.
Por quê?
Era costume das Corporações Inglesas de Construção ou Companhias de Maçons, desde “tempos imemoriais”, manter as Comunicações Trimestrais normalmente no dia de São Miguel (29 de setembro), na Festa de São João Evangelista (27 de dezembro), e na Festa da Anunciação em homenagem a Virgem Maria (25 de março), mantendo a festa anual de São João Batista em 24 de junho.
Esta é a restauração de tal prática pelas lojas de 1717, descendentes de seus protótipos operativos, que realmente representava um renascimento, embora a regra não ter sido observada durante o período inicial da Grande Loja.
Como eventos importantes, apenas as Festas Anuais foram celebradas em 1717, 1718 e 1719.
A primeira comunicação trimestral registrada ocorreu no dia de São João Evangelista de 1720.
Também foi questionado que algum tipo de reunião poderia ter ocorrido entre as quatro lojas antes do dia de São João Batista de 1717.
Certamente alguma ação deve ter sido tomada entre as partes interessadas para preparar esta Assembleia.
Jacob Lamball, carpinteiro, foi Primeiro Vigilante da primeira Grande Loja, e sabe-se que ele era um amigo de James Anderson e aparece listado entre os assinantes das Constituições de 1738 e certamente nunca questionou a história citada, e é muito provável que seja aquele que forneceu a informação que aparece na escrita.
Antes dos eventos anotados no registro da Assembleia do dia de São João Batista de 1717, o nascimento da Maçonaria, os críticos permanecem sem resposta.
Não consigo encontrar nenhuma razão convincente para não aceitar as afirmações de Anderson, especialmente porque os críticos não foram capazes de oferecer provas convincentes contra ele.
Quem foi o Dr. Anderson?
Nossos irmãos na Europa continental imaginam Anderson como uma espécie de Hierofante que, sob o disfarce de uma história fantasiosa, ocultava mistérios que revelariam ao iniciado o sentido da sabedoria dos cabalistas, alquimistas ou muitos outros considerados como os verdadeiros ancestrais de Maçonaria.
A apelação das “Constituições Anderson” é a apelação ao “Sir Oráculo”.
Nunca lhes ocorreria referir-se a elas, como às Constituições da Primeira Grande Loja da Inglaterra; mas, por outro lado, há uma tendência a ver Anderson como um mero pirata, difuso e pouco confiável na maioria das coisas, exceto em Acordos e Regulamentos, que também não eram seus, mas transcrições de artigos retirados dos Antigos Deveres sob a autoridade da Grande Loja.
Os escoceses e irlandeses aceitam as Constituições e não têm nenhum problema sobre “História” ligada ao livro.
Aqueles que não conhecem os escoceses poderiam pensar que o orgulho nacional os teria feito examinar todos os arquivos antigos que estavam disponíveis para fazer uma biografia abrangente e autêntica.
No entanto, até agora eles não moveram a mão.
Por que eles agiram assim?
Anderson era escocês e dera à Inglaterra e ao mundo inteiro as Constituições da Maçonaria. E isso é tudo que importa.
Anderson era um presbiteriano e pastor de “uma congregação composta de pessoas da nação escocesa que residiam perto de Westminster”. As palavras entre aspas aparecem na primeira notícia biográfica satisfatória, um trabalho volumoso de: “Dissidentes, Igrejas e Casas de Reunião em Londres, Westminster e Southwark”, publicado por um não maçom em 1814.
Dissidente – é o que o “teólogo erudito” Anderson era, por ser um pastor presbiteriano nos primeiros dias do rei Jorge.
E não era de boa educação falar sobre essas pessoas não conformistas.
Isso poderia explicar a noite de silêncio que envolveu Anderson por mais de um século.
Foi somente à partir do início da década do ano de 1900, que os maçons ingleses trabalharam com o que puderam encontrar para construir uma biografia.
Em 1910, o Ir. Alfred Robbins leu perante a Quatuor Coronati Lodge, um artigo sobre “O Dr. Anderson das Constituições” (vol xxiii, AQC.)
Esse trabalho incluiu muitas informações sobre Anderson e sua extensa obra literária.
A discussão entre os membros revelou uma profunda falta de interesse na aparência do que eles chamavam de compilador das Constituições, como indicado para um nicho no Hall da Fama Maçônico.
O irmão Robbins caracterizou o trabalho de Anderson como “imaginativo, fantástico e não histórico”.
E isso aconteceu para ser justo. Ele falou da “indústria terrível” de Anderson, que se impugnava. O título de Anderson de D.D. (Doutor em Divindade ou teologia) foi igualmente questionado, etc.
No entanto, Anderson foi, como apontou Robbins, “o constante assistente e ajudante” de Desaguliers, cuja “enorme participação na origem e desenvolvimento da primeira Grande Loja da Inglaterra” é amplamente reconhecida por todos.
O duque de Buchan foi seu patrono durante toda a sua vida.
“Meu amigo J. A. Anderson”, escreveu Stukeley em seu diário.
A posição e o caráter dos homens que durante toda a sua vida foram admiradores e amigos de Anderson deveriam bastar para uma crítica prudente. É bom ter em mente também que uma pessoa deve ser julgada no contexto da época em que viveu. Julgar um homem com mais de dois séculos de idade com os padrões atuais de investigação é anti-histórico e anti-transparente.
A vida literária e as condições sociais da Londres do primeiro terço do século XVIII teriam que ser levadas em conta, para fazer justiça a qualquer figura pública daquele período.
James Anderson nasceu em Aberdeen por volta de 1680 e se formou no Mareschal College, recebendo posteriormente o M.A. e o D.D. (Mestre em Artes e Doutor em Teologia).
Entre 1705 e 1710 ele chegou a Londres, onde reuniu vários compatriotas presbiterianos.
A congregação foi abençoada em uma igreja formalmente mantida pelos huguenotes franceses, na rua Swallow, onde o pai do Dr. Desaguliers era o reitor.
Vinte e quatro anos depois, uma divisão surgiu em sua congregação, e Anderson, com a sua, teve que se mudar para Lisle Street, em Leicesterfield.
A divisão parece ter sido produzida por seu apego ao cerimonial, que lhe valeu o apelido de “Bispo Anderson” para o povo, e para alguns de “Pequeno Mestre John”.
Sua produção literária foi incrível, considerando a quantidade de pesquisa necessária.
Entre seus sermões publicados, um foi pregado no aniversário da execução do Rei Carlos I, intitulado “No King-Killers” (sem assassinos do rei) que procurou derrubar a atual suposição falsa sobre os Presbiterianos durante a Guerra Civil, mostrando que a conduta de seu povo e dos escoceses em geral tinha sido de total fidelidade à coroa.
O sermão despertou interesse suficiente para que solicitassem uma segunda edição.
O prefácio revela que ele pessoalmente esteve sujeito a ataques veementes do púlpito e da imprensa por princípios e práticas antimonárquicas.
A publicação é dedicada ao Rev. Daniel Williams, um dos mais eminentes teólogos de seu tempo, para quem Anderson foi ordenado ministro.
Junto com as “Constituições”, sua obra-prima foi intitulado “Royal Genealogias” (genealogias reais ou tabelas genealógicas dos imperadores, reis e príncipes, desde Adão até o nosso tempo).
Foi declaradamente baseada em uma publicação alemã de Johann Huebnell, mas consideravelmente ampliada por Anderson e incluiu as genealogias e dinastias e “casais e grandes linhagens das ilhas britânicas”. Este último trabalho encontrou uma recepção favorável na Inglaterra. Foi dedicado a Frederico, Príncipe de Gales. Anderson passou sete anos de trabalho duro no primeiro trabalho deste tipo em tão grande escala, publicado em inglês.
Os interessados ​​que chegarem ou morarem na cidade de Nova York encontrarão uma cópia na Biblioteca Pública.
Para mencionar mais uma de suas publicações, temos a “Unity in Trinity and Trinity in Unity” (Unidade na Trindade e a Trindade na Unidade), um tratado teológico por James Anderson, para RT. Honorável David Buchan.
Sir Richard Ellyes, Baronet, é mencionado, porque a partir da biblioteca desse renomado estudioso, Anderson obteve acesso a muitos livros raros da tradição clássica e oriental, incluindo vários escritos rabínicos.
Não há necessidade de ampliar esta lista, Anderson continuou escrevendo até o dia de sua morte, em 25 de maio de 1739.
“News from Elysium, or Dialogues of the Dead”, foi um livro dele, só publicado após sua morte.
Os preconceitos parecem tê-lo seguido para o túmulo e o The Daily Post de sábado, 02 junho de 1739, continha uma nota a respeito de seu funeral, interessante como informações sobre como os primeiros funerais maçônicos eram realizados:
“Na última noite foi enterrado em Bullhill-Field, o corpo do Dr. Anderson, um Mestre Dissidente em uma cova muito proeminente.
Seu caixão foi sustentado por cinco mestres dissidentes e pelo Rev. Dr. Desaguliers: seguido por uma dúzia de maçons, que cercaram a tumba; e depois que o Dr. Earle, referiu-se à incerteza da vida e sem dizer uma palavra sobre o falecido, os irmãos em uma postura fúnebre muito solene, levantaram as mãos com o sinal e bateram por três vezes em seus aventais, por honra ao falecido. ”
Seu irmão, Adam Anderson (1692-1765), teve uma vantagem sobre ele em relação à exposição a críticas injustas, por não ser clérigo e ter escolhido o comércio e a indústria para seus principais estudos.
Ele era um especialista industrial por seu grande trabalho histórico e cronológico em dois volumes: “Traçando o desenvolvimento social e colonial das potências europeias, com referências particulares à Grã-Bretanha e à Irlanda”.
Um apêndice dedicava à “geografia política e comercial moderna de vários países europeus”.
Interessante para os americanos é a devoção particular de Adam Anderson aos assuntos coloniais, sendo ele um dos responsáveis por ter estabelecido uma colônia inglesa na Geórgia.
Ele também tinha a confiança da rainha Anne para o estabelecimento de bibliotecas paroquiais em casa e nas colônias.
Os registros da Grande Loja da Inglaterra, sob a data de 13 de dezembro de 1733, registravam que “o vice-grão-mestre Batson recomendou a Nova Colônia da Geórgia na América do Norte para a benevolência das lojas particulares”.
A razão para mencionar Adam Anderson é sugerir qual era o calibre intelectual dos dois irmãos e que tipo de bagagem educacional eles devem ter trazido da Escócia.
Críticas, sejam construtivas ou destrutivas, são necessárias para corrigir erros. O preconceito nunca beneficiou ninguém, pelo menos todos que os afetaram.
Isso porque um dos principais objetivos da Maçonaria é emancipar seus devotos de tais obsessões e transformá-las em buscadores da mente aberta e da bondade em todas as coisas.
Tudo o que este texto busca, é simplesmente mostrar a importância deste maçom que sofreu muito preconceito, pois temos uma dívida com nosso irmão, o Rev. James Anderson D.D, de Aberdeen.
Luciano R. Rodrigues
O Prumo de Hiram

sexta-feira, 12 de abril de 2019


SOCIETAS JESU - A MAÇONARIA DA IGREJA


Capítulo do livro

OS JESUÍTAS

A Sociedade de Jesus e a Traição da Igreja Católica Romana

MALACHI MARTIN

(Tradução José Antonio de Souza Filardo e Paula Filardo)


Capítulo 8- A COMPANHIA DE IGNATIUS

A estrutura funcional da companhia de Ignatius é a realização milagrosa na transformação por Iñigo dos seus contemporâneos do século dezesseis de homens que pensavam no “homem como medida de todas as coisas” em homens devotados a um Deus onipresente e Salvador.

Aqueles contemporâneos dele estavam mergulhados na fantástica novidade de vida em seu tempo, com todas as suas possibilidades douradas. Toda sua reação era deixar para trás as velhas formas de pensamento e modelos de comportamento, as velhas formas de viver, mesmo os antigos locais onde eles tinham vivido e as velhas verdades pelas quais eles tinham vivido ali – tudo o que eles tinham herdado de seus antepassados medievais.

Face a face com aquela mentalidade Iñigo desenhou a planta de sua Companhia de Jesus sobre um modelo ainda mais antigo que os tempos medievais, a saber, o princípio básico do próprio cristianismo: subordinação. A subordinação de todo o cosmos e tudo o que está dentro dele – desde as pedras inanimadas e a terra, até as plantas, animais e humanos, anjos e arcanjos, dentro de um princípio hierárquico de ser – à trindade do Pai, Filho e Espírito Santo. Não existe democracia nesta hierarquia, nenhum objetivo comunal de igualdade; somente inferiores e superiores. Não existe auto-aperfeiçoamento de individualismo; nenhuma integração pessoal. Existe uma hierarquia de partes ordenadas; existem indivíduos destinados, cada um deles a complementar o outro; existe integração de cada parte no todo desde que cada parte seja subordinada. Porque, ser parte deste sistema é ser subordinado. A única igualdade permitida era a subordinação. Todos são subordinados. Dentro daquele sistema hierárquico de ser e existência, cada objeto tinha seu lugar. O Criador de tudo tinha arranjado todos em certo acordo e ordem.

Isto foi o que Deus originalmente revelou aos Filhos de Israel através de seus profetas. Isto foi o que Cristo revelou em sua integridade. Isto é a fundação de toda a antropologia Cristã, enquanto distinta de e oposta ao Darwinismo do século dezenove, genética e social e política. Nenhum desenvolvimento humano, não importa quão novo, e nenhuma modernidade – seja a da Renascença ou a da era atômica, tectrônica – pode substituir este sistema.

Iñigo destinou sua Sociedade a reproduzir em sua existência de trabalho aquele princípio hierárquico pelo qual “o inferior se submete ao superior”, e onde todos os elementos estavam ligados em reconhecimento de autoridade mais alta e, portanto, em prontidão para obedecer. Ele pretendia que os membros de sua Ordem fossem ligados por uma união mística de corações e vontades em subordinação voluntária, sujeitos aos Superiores, Superiores ao Padre Geral, o Padre Geral a toda Sociedade, e Toda a sociedade ao Papa, o Papa a Cristo, cujo representante é ele.

A Companhia de Iñigo era, portanto, extremamente simples em sua estrutura – tão simples que seus inimigos estavam sempre convencidos de que havia muito mais no Jesuitismo do que os olhos podiam ver no quadro externo e efetivo da Sociedade.

Era a pirâmide de autoridade. Em seu ápice, ele colocou um homem que atendia pelo nome de Geral ou Padre Geral. O título não era retirado do código militar. Este oficial tinha autoridade sobre a estrutura geral e governança de toda a Sociedade. Ele não tinha obrigação de seguir qualquer conselho, ou procurar o consentimento de qualquer outro jesuíta ao dar ordens. Ele era o “superior” geral, em distinção a todos os outros superiores na organização, que eram locais e encarregados de seções particulares. Ele sozinho entre todos os Superiores chegava à sua posição via eleição; todos os outros superiores eram indicados por sua escolha ou pelo menos com sua aprovação e, uma vez eleito Geral, ele permanecia em seu posto até a morte, a menos que motivos muito graves recomendassem um afastamento. Sua autoridade era absoluta sobre toda a Sociedade e suas diferentes partes e membros. Ele podia dispensar qualquer um da Ordem, e nenhum julgamento formal ou processo semelhante era necessário. Iñigo foi eleito por unanimidade em Abril de 1541 como primeiro Padre Geral da Sociedade.

O corpo da Sociedade era composto por quatro categorias, ou graus como eles eram chamados na Sociedade, os membros se distinguiam como regra geral pelo grau de seu acesso a importantes posições de governo e direção da mão-de-obra e recursos da Sociedade. Na prática isto significava sua proximidade com ou distância do Geral na pirâmide de autoridade e poder.

Primeiro, com relação a isto estava a categoria ou grau de Padre Professado. Jesuítas nesta categoria tinham passado com sucesso por rigorosos testes escolásticos assim como provas de sua qualidade religiosa; tinham feito quatro votos solenes de pobreza, castidade e obediência (votos comuns a todas as Ordens Religiosas Católicas); e tinham feito um voto especial de obediência ao Papa. Enquanto todos os Jesuítas estavam obrigados a obedecer ao Papa, os Professos se obrigavam por aquele quarto voto especial. Somente estes professados tinham acesso aos mais altos escritórios do Geral, e os postos mais imediatos abaixo do Generalato. E somente eles podiam participar na eleição de um Geral.

As demandas sobre os Professos por Iñigo eram difíceis. Em princípio, os Professados somente podiam ser jesuítas “selecionados por seu espírito e educação, rigorosa e extensamente, e conhecidos por sua edificação e satisfação de todos após diversas provas de virtude e abnegação.” Isto, na verdade, era um alto ideal.

Mesmo entre os Professos, havia distinções de função e, portanto, de poder. Assim, um Jesuíta Professo encarregado de todos os Jesuítas na Colômbia, América do Sul, não estava tão próximo do Padre Geral quanto o Padre Professo em Roma que era assistente do Padre Geral para todos os países da América do Sul, incluindo a Colômbia.

Os Padres professos ocupavam cargos de professores de faculdades de filosofia e teologia comandava as casas Jesuítas de treinamento para candidatos Jesuítas e os escritórios locais da Ordem em todo o mundo. De acordo com o plano original de Ignatius, o Professo viveria em casas que não tinham receitas fixas, nenhuma dotação regularmente produzindo fundos. A prática de pobreza pelo Professo devia ser tão perfeita quanto possível.

A segunda categoria ou grau abaixo do Geral era composta por padres que faziam votos simples, não solenes; e eles não faziam voto especial ao Papa. Eles eram tradicionalmente chamados Coadjutores Espirituais, pois no conceito de Ignatius, eles ajudavam e secundavam o trabalho dos Professos. Aos olhos de Ignatius, os membros desta classe se engajariam primariamente no ministério sacerdotal ao povo e supervisionariam a organização material das casas jesuítas.

O terceiro grau ou categoria na pirâmide jesuíta era o de Irmãos Leigos; estes nunca se tornavam padres. Mas tomavam os três votos simples e eram encarregados do trabalho manual em casas jesuítas – cozinhando, limpando, plantando, lavando, tomando conta das roupas, fazendo as compras, consertando coisas, manutenção, tomando conta dos enfermos e enfraquecidos.

A quarta categoria era a dos jovens estagiários Jesuítas, geralmente chamados de Escolásticos devido à sua preparação ser feita através das diversas “escolas” – humanidades, filosofia, teologia, ciência – de ensino. Ao final de seu escolasticado, eles eram ordenados padres e, dependo de como eles tinham se saído durante seu treinamento, eles entravam para as fileiras dos Professos ou dos Coadjutores Espirituais. Eles eram, então, colocados para trabalhar.

Quando Iñigo morreu em 1556, havia quarenta Padres Professos em um número total de 1000 jesuítas.

Iñigo designou somente um elemento em sua Sociedade como superior ao Padre Geral em que ele tinha investido tais poderes tão amplos. Esta era a Congregação Geral: uma assembléia internacional de jesuítas, Padres professos, todos, escolhido entre o corpo dos membros, e reunindo-se em Roma com os Superiores Maiores da Sociedade. A Congregação Geral é o corpo legislativo supremo da Sociedade, responsável somente perante o Papa, não o Padre Geral. Na verdade, ele pode depor um Padre Geral por motivos justos. Ele elege cada novo Padre Geral e ele é regido pelos decretos da Congregação Geral. Na realidade, normalmente, sua administração devia consistir em administrar os Decretos acordados pela Congregação Geral ao votar o que pode ser por voto aberto ou voto secreto. Apesar a superioridade legislativa da Congregação Geral, geralmente as Congregações dão poderes muito amplos ao Padre Geral. No entanto, como a Congregação vai, assim vai toda a Sociedade.

Ao aceitar candidatos a uma posição em sua Sociedade, e ao certificar-se de que uma vez aceitos, eles devem adquirir a mente e o espírito da Sociedade, Iñigo dependia principalmente da eficácia religiosa de seu livro, Exercícios Espirituais. Os Candidatos, uma vez que lhes fosse permitido entrar como estagiários eram submetidos aos Exercícios por um período que varia entre oito e trinta dias. Era então que lhes era feito entender o chamado específico de um Jesuíta meditando sobre as idéias básicas inacianas do Reino, o Líder divino, o Arcanjo Inimigo, e a Guerra, assim como ideais jesuítas de obediência aos Superiores e ao Papa.

Alguns comentaristas, tendo examinado os Exercícios e o processo de Noviciado como Ignatius o concebeu, foram rigorosamente anacrônicos, descrevendo todo o processo em termos daquele horror moderno, lavagem cerebral. Mas, uma análise atenta do processo mostra como seu princípio fundamental a doutrina central de Ignatius sobre a suprema importância da vontade humana. Fosse qual fosse que tivesse usado como imagens físicas, metáforas, símbolos – mesmo posturas físicas de oração – todo isso tinha uma finalidade: atrair a escolha daquela vontade humana livre.

No noviciado, não havia assalto direto ao cérebro, ou mente. Ao invés disso, o treinamento de Noviciado visava diretamente dissecar o que era classicamente conhecido como a vontade do candidato em suas partes componentes, examinando aquelas partes, eliminando o que era indesejável, purificando o que era adaptável e útil, e cimentando tudo isso com a ideologia do Reino e o Líder e suprema obediência.

Tendo passado pelos Exercícios até satisfação do jesuíta supervisor, desde que ainda tivesse a intenção de se tornar um membro da Ordem, o candidato se tornava um Noviço. Todos os Candidatos, então faziam o mesmo Noviciado, passando dois anos em treinamento básico. Cada um aprendia a rezar, a se disciplinar, a obedecer a comandos. Ele tomava conhecimento do mundo do espírito e os detalhes da espiritualidade jesuíta. Durante este tempo, suas falhas e caráter geral eram estudados. Ao final, todos os Noviços bem-sucedidos faziam três votos simples de Pobreza, Castidade e Obediência. Alguns se tornavam Irmãos Leigos, outros passavam a ser Escolásticos para posterior treinamento como Professos ou Coadjutores Espirituais; ao final daquele treinamento eles fazem seus Votos Finais. Os Professos entre eles, acrescentavam aquele quarto voto especial.

A mão de obra da Sociedade era organizada em “Províncias”. Por ocasião da morte de Iñigo em 1556, havia doze: Andaluzia, Aragon, Brasil, Castela, Etiópia, França, Baixa Alemanha, Alta Alemanha, Índias, Itália, Portugal, Sicilia. A criação de uma província em um local particular dependia do número de Jesuítas trabalhando ali, e da extensão e importância do trabalho a ser feito.

Geralmente, diversas Províncias eram agrupadas com base em identidade cultural comum ou contigüidade geográfica e chamada de Assistência. Assim, Andaluzia e Castela pertenciam à Assistência Espanhola. Com o tempo, à medida que as províncias se multiplicaram, aumentou o número, e Sociedade foi chamada pra uma missão ou outra, elas seriam uma Assistência Inglesa, uma Assistência Francesa, uma Assistência Americana, e assim por diante.

Desde o início, Iñigo tinha insistido em que sua Sociedade diferisse de todas as Ordens Religiosas que tinham desde então sido sancionadas pelo papado. Seus membros não eram obrigados a cantar o Ofício divino em coro, juntos, por exemplo; eles não tinham roupas distintas como as antigas Ordens, como os Beneditinos, Carmelitas e Dominicanos, eram obrigados a usar. Nem havia qualquer penitência corporal.

O governo das casas e Províncias também era distinto. Ele não estava nas mãos de um “Capítulo Geral” de Membros da Ordem eleitos pelos votos de seus irmãos religiosos. Ao invés disso, Superiores individuais junto com a cadeia de comando tomavam as principais decisões. O objetivo de Loyola era livrar seus homens de tais obrigações para com uma assembléia, de modo que sua mobilidade – Superiores de ser capaz de comandar por sua própria iniciativa, e membros a obedecer a um homem – para o trabalho em nome da Igreja ser o máximo.

Ele também recusou ter o que muitas Ordens antigas tinham: uma Ordem correspondente de jesuítas femininos, no modelo de freiras Dominicanas e Freiras beneditinas, Freiras carmelitas, freiras franciscanas. Um dos episódios mais alegre na história precoce dos jesuítas envolveu a admissão temporária por Iñigo de cinco mulheres – elas foram as únicas mulheres em 480 anos a se tornarem membros da ordem jesuíta – para a profissão dos votos. Isabel Roser de Barcelona, uma das primeiras protetoras de Ignatius forçou a mão persuadindo o Papa Paulo III a permitir que ela e três amigas tomassem votos solenes de obediência na Sociedade em 1545. Esta boa e santa mulher tinha ajudado Ignatius em seus anos mais difíceis; era impossível não satisfazer, pelo menos pelo gesto, seu desejo de ser parte do que ela tinha ajudado a fundar, uma vez que o Papa tinha consentido. Após muita irritação e um caso de tribunal público, todas as três foram liberadas de seus votos pelo Papa em 1546. Em 1555, sob extrema pressão da Corte Real, Iñigo admitiu a Rainha Juana de Castela, filha do Rei Fernando de Aragão e Isabel de Castela à profissão de votos simples na Sociedade. Conhecida com Juana la Loca, devido a uma instabilidade emocional percebida nela, ela, da mesma forma, foi liberada daqueles votos dentro de pouco tempo. Ignatius tinha feito aquelas exceções por motivos especiais, mas calculou com precisão que nenhuma daquelas mulheres finalmente se adaptaria à sua Sociedade.

Os principais tipos de trabalho assumido por Jesuítas eram pregar o Evangelho em paises não cristão, educação da juventude, ministérios sacerdotais, escrita, pesquisa e missões especiais confiadas a eles pelo Papa. As casas em uma Província eram geralmente de seis tipos: residências (para professores, escritores, Superiores locais, membros aposentados ou doentes, ou para jesuítas engajados em trabalho externo); casas de estudo (para jovens jesuítas); um noviciado (onde os candidatos a entrar na Sociedade naquela província eram examinados e preparados para entrar) Além destas, havia escolas e colégios devotados à educação de leigos e casas para Retiros Espirituais aonde leigos vinham para aconselhamento espiritual e finalidades devocionais.

A cadeia de comando a partir de cada casa, não importando quão pequena ou quão remota, até chegar ao Padre Geral era claramente ordenada. Cada casa tinha um Padre Superior. Acima dos Superiores de todas as casas em uma Província havia um Padre Provincial. Acima dos Provinciais de uma Assistência havia um Assistente que geralmente vivia em Roma na residência central jesuíta com o Padre Geral. Os poderes e limitações aos poderes de cada superior estavam claramente delineados. Por sua vez, cada Superior tinha um grupo de Consultores, conselheiros em caráter, mas cujo consentimento era necessário para tomar certas decisões. Um superior de casa escolhia seus Consultores entre os ocupantes da casa; um Provincial da Província, um Assistente de sua Assistência; e o Geral tinha seus Assistentes, além de outros que ele desejasse empregar.

Dentro da cada casa dos jesuítas havia uma série de postos de Superior Menor: um Superior Menor estaria encarregado de finanças da casa; outro, chamado Padre Espiritual, permaneceria à disposição da comunidade para aconselhamento e direção espiritual; outros Superiores seriam prefeito de biblioteca, prefeito de estudos, e prefeito de saúde, se necessário, haveria um supervisionando a fazenda. Todos estes Superiores Menores internos obtinham sua autoridade através do Padre Superior da casa.

Em uma Província ou uma Assistência inteira, quando chamados, havia os “procuradores”, homens designados para supervisionar necessidades específicas da Província ou Assistência.

Do Geral em Roma, viriam certos Visitadores eventuais, nomeados enviados para examinar como uma Província ou Assistência estava se saindo espiritualmente, financeiramente, escolasticamente, socialmente, ou politicamente.

A ramificação de Superiores Maiores e Menores em uma Sociedade era complexa, mas nunca desajeitada. Não havia elementos redundantes. Cada funcionário, não importando seu grau, servia na coagulação de trabalho do corpo mundial.

Obediência e comando sábio dos Superiores eram grandemente facilitados pelo que Iñigo chamou de “prestação de conta de consciência”. Em essência, esta era uma entrevista particular e confidencial entre o Superior e o sujeito – entre, digamos, o Padre Reitor de uma casa e um dos membros daquela casa; entre o Padre Provincial e um membro de sua província; entre um noviço e seu Superior imediato, o Noviço Mestre; entre o Padre Geral e qualquer membro da Sociedade.

Ignatius não exigia a “prestação de contas de consciência” fosse o mesmo que uma confissão; embora o segredo confessional pudesse ser invocado por qualquer um. Ele pretendia que o sujeito pudesse falar francamente sobre seus pontos fracos e pontos fortes, suas esperanças e desejos, e sua prática da virtude religiosa; que o Superior, ouvindo e falando com ele, estaria na posição mais informada para decidir o que o sujeito podia fazer melhor na Sociedade, de modo que seu caráter Jesuíta seria desenvolvido no serviço da Igreja específico da Sociedade.

A “prestação de contas de consciência” foi concebida por Ignatius para será o ápice da expressão do relacionamento pai-filho que ele desejava que existisse entre Superior Jesuíta e o sujeito Jesuíta. Era um sistema francamente paternal que ele tinha em mente. Era seu meio de assegurar que o principal coagulante de sua Sociedade, a obediência, seria exercida pelo sujeito e usada pelo Superior com o máximo possível de compaixão da parte do Superior e o maior contentamento da parte do sujeito. Nem a mera obediência da execução nem obediência da vontade, mas obediência do entendimento deveria ser alcançada.

A “prestação de contas de consciência” também representava um modo altamente pessoal de governo. Porque o Superior como tal devia ser abordado e tratado e obedecido como Cristo. A regulamentação da vida normal de um jesuíta era, para usar uma expressão moderna, um a um. Nenhum jesuíta precisava enfrentar um “capítulo” ou assembléia de seus irmãos, como nas Ordens mais antigas, responder por suas ações e ouvir decisões sobre sua sorte. O individualismo do jesuíta único em seus deveres, seus direitos, seu desenvolvimento pessoal, sua carreira, era assim fomentado. A unidade corporativa de tais membros era assegurada pela obediência sistemática e fomentava aquele individualismo. Assim, eram alcançadas aquela intimidade e característica do Jesuíta dentro da vida em Sociedade.

O governo interno e unidade de mente e ação dentro da Sociedade eram realizados por uma prática sistemática, aprovada, regular de redação de relatórios: Superiores Menores a Superiores Maiores; Superiores Provinciais a Assistentes Romanos; Assistentes ao Padre Geral; o Padre Geral a toda a Sociedade; os Provinciais a seus membros individuais da província. Os relatórios se referiam aos méritos e deméritos de membros da Ordem, a conduta e progresso deste ou daquele projeto, a condição espiritual e financeira desta ou daquela seção da Sociedade, ou um trabalho confiado à Sociedade.

Desde o tempo do próprio Iñigo, um fluxo vivo de comunicação também era encorajado entre jesuítas individualmente, porque isso ajudava o que eles chamavam de “união de vontades, que é o amor mútuo e caridade que eles [jesuítas] têm entre si… obtendo informações e notícias entre si e…” muita intercomunicação junto com “eles seguindo uma mesma doutrina e sendo uniformes em tudo até onde possível.”.

Tendo traçado a mera estrutura, Iñigo concebeu para sua Sociedade, entretanto, é evidente que, por mais eficiente que fosse, não era suficiente para unificar ou coagular todas as partes em um verdadeiro todo – um todo inaciano. O que fez isso – o que uniu todos os muitos jesuítas, divididos como eram em quatro categorias de Padres Professos, Coadjutores Espirituais, Irmãos Leigos e Escolásticos, e distribuídos por muitas partes do mundo e por muitas funções em toda a estrutura da pirâmide – eram os vínculos gêmeos de autoridade e obediência.

Estes eram realmente dois aspectos da mesma coisa. Obediência era central, juntamente com a subordinação de que precisavam. Cada jesuíta estava subordinado a alguém.

“Superiores individuais”, escreveu Ignatius, “devem ter muita autoridade sobre os sujeitos, e o Geral sobre os superiores, e por outro lado, a Sociedade muita autoridade sobre o Geral.” Dessa forma, “todos podem ter poder total” e, mesmo assim estar sob certo controle.

Assim como ocorre com o voto de obediência, ele ‘une indivíduos a seus Superiores, e os Superiores locais entre si e aos Provinciais, e ambos Superiores e Provinciais ao Geral. “Assim, a subordinação de alguns a outros é diligentemente preservada.”

Aos olhos de Ignatius, sua Sociedade deveria se distinguir pela qualidade da obediência de seus membros. “Os outros líderes religiosos podem nos sobrepujar em jejuns, vigílias de prece noturna e outras austeridades em comida e roupa. Nossos membros devem exceder em verdadeira e perfeita obediência, na renúncia voluntária de julgamento particular.”

Este princípio fundamental da obediência jesuíta era difícil de implementar. Na verdade, Ignatius achou necessário codificar em um documento especial exatamente o que ele queria dizer com Obediência Jesuíta. Em 1553, provocado por sérias dificuldades entre os Jesuítas portugueses, diversos dos quais ele teve que dispensar, Ignatius escreveu sua Carta sobre a Obediência; nela, ele é claro sobre o que chama de “verdadeira obediência.”.

Todo Superior deve ser obedecido com representante de Cristo. Obedecendo este representante, você estava obedecendo A Cristo; você estava fazendo a vontade de Cristo.

Sua obediência podia ser uma entre três tipos. O grau mais baixo é “obediência no desempenho”: Você faz o que lhe é ordenado, mesmo que você possa discordar com a idéia total, pensar que o Superior é um tolo, ou pensar que você sabe o que deveria ter-lhe sido ordenado. Você obedece, mas contra sua vontade. O julgamento de Ignatius deste grau de obediência: “muito imperfeita”.

Existe um segundo grau de obediência. Você pode ainda achar que o Superior é um tolo e que você sabe o que ele deveria ter ordenado, mas por obediência a Cristo, você decide que você fará de boa vontade o que ele diz. O ponto aqui é que você tem a intenção de agradar a Cristo, que sua obediência seja transformada de má vontade para boa vontade. Na verdade, você escolhe desejar o mesmo que seu Superior. “Neste estágio,” comenta Ignatius, “existe já alegria na obediência.”.

Existe ainda uma outra, o mais alto grau de obediência. Você faz não apenas o que lhe é dito que faça, sem mostrar qualquer oposição aberta. Nem você simplesmente escolhe querer como seu Superior quer, cumprir aquele comando de boa vontade. Agora você concorda mentalmente com seu superior, você tem a obediência do intelecto. Incondicionalmente, você pensa como seu superior. Você submete seu julgamento ao de seu Superior “até onde somente a rendição da vontade pode influenciar o intelecto.” Esta forma mais alta é o que Ignatius chamava “obediência cega… a renúncia voluntária ao julgamento particular.”.

Os graus de obediência, obviamente, são organizados de acordo com a vontade de grau um é engajada naquela obediência – de acordo, em outras palavras, com a “disposição” de alguém. Ignatius escreveu em algumas linhas curtas o seu ideal do jesuíta obediente:

Em geral, eu preciso não desejar pertencer a mim mesmo, mas a meu criador e a seu representante. Eu preciso deixar-me conduzir e mover como um pedaço de cera se deixa ser moldada. Eu preciso ser como um cadáver de homem morto sem vontade ou julgamento; como um pequeno crucifixo que se deixa ser movido sem dificuldade de um lado para outro. Como uma bengala na mão de um velho, ser colocado onde ele deseja e onde ele pode fazer melhor uso de mim. Assim, eu preciso sempre estar pronto, de modo que a Ordem possa usar-me e aplicar-me da maneira que lhe possa parecer boa…

A frase “como o cadáver de um homem” em latim perinde ac cadaver, deu origem à frase “obediência cadavérica” e erradamente interpretada, foi usada para ridicularizar, e até mesmo vilipendiar a obediência jesuíta. Exige discernimento do que Ignatius queria dizer; e o que ele queria dizer era em si mesmo revolucionário.

Até esta época, o voto de obediência nas Ordens Religiosas (assim como os outros dois votos de pobreza e castidade) era destinado a ajudar os membros daquelas Ordens a atingir a santidade pessoal, e no limite, a salvação eterna.

A obediência jesuíta visava primariamente criar um corpo muito disciplinado e coeso de homens amplamente separados pelo mundo afora, homens que eram dirigidos por planos e estratégias concebidas por grupos de Superiores coordenados e interligados; homens cujo trabalho visava primariamente o mundo ao redor deles.

A passividade e a qualidade cadavérica de caráter daquela obediência, a maleabilidade da cera, a adaptabilidade da bengala do velho, e o desamparo do pequeno crucifixo – todas estas eram imagens que se referiam a um único processo: a escolha do objetivo e os meios para se atingir aquele objetivo.

Como os jesuítas provaram além de todos os sofismas, a obediência inaciana nunca afetou a engenhosidade, o ativismo perene, a genialidade, o uso extenso de realizações pessoais e dons pelos membros da Ordem.

Na verdade, a obediência jesuíta, com o passar do tempo, se tornou uma característica quase fabulosa dos membros da Ordem. Seus amigos e admiradores a elogiavam. Os inimigos a parodiavam, reclamando que os jesuítas eram obrigados por seu voto de obediência a fazer tudo o que o Superior ordenasse – assassinar um líder, explodir um edifício, roubar, corromper, mentir, cometer suicídio. Mas isto é pura calúnia. Ignatius exclui explicitamente da obediência qualquer coisa que cheire, remotamente, a pecado. Assim também faz a lei geral de moralidade católica.

Tinha sido sempre este aparentemente flagrante contraste entre a obediência “cadavérica” de homens dispostos em pirâmide de um lado, e de outro sua engenhosidade, genialidade e outros dons individuais tão evidentes em seu ativismo que tinha intrigado os inimigos da Sociedade. Nada havia para ver, eles diziam. “Nada,” como o racionalista francês do século dezenove e ateu de estilo próprio, Edgar Quinet, reclamava exasperado, “a não ser provinciais, reitores, examinadores, consultores, admonitores, procuradores, prefeitos de coisas espirituais, prefeitos de saúde, prefeitos de bibliotecas, prefeitos de refeitório, atendentes e comissários.” Como então podia tal organização anódina ser um inimigo tão formidável para os inimigos de Roma, tão valiosa como ativo do papado.

Toda aquela estrutura piramidal construída sobre “obediência cadavérica” precisa, concluiu-se, ser uma fachada para uma elite oculta letal e sedenta de poder, conspirando por trás desta fachada banal para assumir as liberdades e ativos de todos os homens livres, ou para o que um escritor Protestante chamou “artes mágicas secretas pelas quais os jesuítas em certos dias fazer acontecer coisas estranhas…”

“Mostre-me entre tudo isso a alma cristã!” Quinet reclamava. E embora Quinet e tantos outros como ele durante séculos não veriam, o segredo real dos jesuítas de Ignatius era precisamente a alma cristã; seu cultivo e refinamento em cada membro da Ordem. Embora todos os regulamentos fossem criados por Ignatius nas Constituições e outros escritos, é somente quando você entende aqueles regulamentos à luz da dimensão divina e espiritual do molde inaciano clássico que você pode começar a entender o jesuitismo: aquela combinação peculiar de individualismo altamente desenvolvido em cada membro, coordenada a partir de dentro do arcabouço da coesão da organização ao redor dos Superiores; coesão composta de obediência jesuíta. Disciplina interna rígida deu origem a unidade interna. Liberdade individual abençoada por obediência deu aquele tremendo momento ao que nunca tinha sido igualado por outra organização.

Muitos, incluindo os primeiros jesuítas, usaram metáforas militares para descrever a natureza e o modo de operação que Ignatius criou para sua Sociedade. A cadeia piramidal de comando, a divisão dos jesuítas em graus, a idéia da obediência jesuíta, estes elementos são reproduzidos, certamente, em grupos militares. O próprio nome que Ignatius usou para designar seu grupo, Companhia de Jesus, parecia a muitos ser derivado da estrutura do exército.

Ainda assim, na mente de Ignatius é certo que sua idéia do que a Sociedade de Jesus e seus Jesuítas seriam estava modelada diretamente no que a teologia e a filosofia católica tradicionalmente deram como condição divinamente revelada de todas as coisas criadas – subordinação dentro de uma ordem predeterminada. Pecado e Lúcifer tinham violado aquela ordem das coisas criadas. A grande empresa de Cristo era restaurar aquela ordem. O Termo Companhia, que indubitavelmente teve um uso militar por trás dele, não obstante, queria em sua mente sublinhar o fato de que ele e seus associados eram mais companheiros em tal empresa enorme; e que através de sua subordinação, eles estavam diretamente ligados a Cristo.

Uma vez que os vínculos subordinados eram rompidos – ou dentro da Sociedade ou entre a Sociedade e o representante de Cristo, o Pontífice Romano – a verdadeira natureza da Sociedade de Jesus seria mudada.

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A localização das Colunas do Templo, suas Palavras e outras considerações esclarecedoras



Tradução: S.K.Jerez

Por Joaquim Villalta *


O objetivo deste artigo é tentar esclarecer a confusão reinante relativa às Colunas do Templo de Salomão, suas palavras, e outros aspectos tangenciais que foram objeto de interpretações errôneas e degeneradas, por interesse ou ignorância em muitos casos. Agradeço infinitamente as lúcidas e magníficas indicações sobre o assunto que foram contribuição do Querido Irmão e amigo Patrick Négrier, magnífico maçonólogo e filósofo, referência conhecida de todos, e cuja proximidade e atenção segue lado a lado com sua imensidão de conhecimentos.

As palavras B e J só eram transmitidas no grau de Aprendiz, conforme diz o “Edimburgo” de 1696. O ritual da grande loja de Inglaterra se limitou a acrescentar um grau de maestria (no qual mudou a transmissão da palavra MB com o toque dos cinco pontos do antigo grau de companheiro) para poder reservar para o grau de companheiro, agora liberado de seu conteúdo anterior, um conteúdo novo: a transmissão do desenvolvimento na letra G (Samuel PRICHARD, “Maçonaria Dissecada”, 1730).

Muito amiúde, a transmissão dos dois graus era realizada de uma só vez. Apesar de certas leituras certamente fantasiosas e imaginativas, a porta entre as duas colunas estava voltada para o leste e indicava a porta equinocial. A coluna J à direita do nordeste indica a localização do horizonte onde o sol sai no dia do solstício de verão, mais longo; e a coluna B, à esquerda ao sudeste, indica a localização do horizonte onde sai o sol no dia do solstício de inverno, o dia mais curto. Voltar a ler I Reis 7,21.

Para responder a estas perguntas, sempre é necessário voltar ao texto fundador, o “Edimburgo” de 1696, que expõe claramente e sem a mínima dúvida possível: “Q. : Are there any lights in your lodge ? Am\ is, three, the north-east, s.-w., and eastern passage”

O nordeste designava o ponto do horizonte onde o sol sai no dia do solstício de verão, simbolizado pela coluna J (e que se põe a noroeste).

O sudoeste (abreviado como S.-W.) era o ponto no horizonte onde o sol se põe no dia do solstício de inverno, simbolizado pela coluna B (e que se levanta a sudeste).

E entre estas duas posições extremas, devido à eclíptica, está naturalmente a leste, ou seja, o lugar do horizonte onde o sol se levanta em cada um dos dois equinócios, que é onde o sol se eleva nos dois equinócios descritos no texto como “passagem do leste”, a passagem ao final simbolizada no Ulam pela porta do Hêkal (o pôr do sol nos dois equinócios ocorre de forma natural no oeste). Não há nada falso neste catecismo de 1696, que não apenas a pensar o simbolismo dos dois solstícios, mas também no das duas colunas (com seus nomes, seu material, sua altura e seus dois capitéis adornados com lírios e romãs) e a porta do Hêkal – Patrick Négrier dá conta disso no Capítulo IV de seu livro “L’essence da franc-maçonerie a travers ses textes fondateurs 1356-1751”(Oxus, 2018)

Em múltiplas ocasiões temos ouvido dizer ou lido que, no templo de Salomão, a luz vinha da porta dos deuses e no templo maçônico a porta se inverte. Então o maçom entra pelo sol poente, pela porta dos homens. Era lógico para alguns que consideraram assim uma troca de plano entre a casa de Deus, que era o templo de Salomão, e a casa dos homens que caminhavam para a luz, que é o templo maçônico. Este pensamento “guenoniano” é totalmente estranho à tradição da Palavra de Maçom. O Edimburgo de 1696 reporta claramente à porta e às duas colunas a “Nordeste, Sudoeste, e passagem do leste”. Explicação: o nordeste foi a localização da Coluna J (solstício de verão durante o qual o sol sai a nordeste e se põe a noroeste); o sudoeste era a localização da coluna B (solstício de inverno durante o qual o sol sai a sudeste e se põe a sudoeste); e a passagem do leste significava o lugar no horizonte onde o sol sai no dia dos dois equinócios.

É importantíssimo destacar que na origem do grau de companheiro não era comunicadas as Palavras B e J: estas já haviam sido dadas no grau de aprendiz. E é porque o aprendiz já as conhece que ele pode falar delas e já não se necessita voltar a transmiti-las. O Companheiro não é o que recebe B e J, mas o que recebe a letra G. Observando o que diz Prichard, em 1730, no grau de Companheiro, vemos: P- Quando passasteis sob o Átrio, o que visteis?. R- Duas grandes colunas. P- Qual é seu nome? R- J e B, ou seja, Jakin e Boaz. Portanto é falso que ambas palavras são dadas em ambos os graus. Isso é feito somente no grau de aprendiz, conforme diz o “Edimburgo” de 1696.

Voltando ao templo de Jerusalém, estava orientado do leste (Oulam, com suas 2 colunas) para o oeste (Devir, frente ao qual o altar dos perfumes simbolizava a morte). Ao olhar para o templo, olhava-se para o oeste e, segundo esta perspectiva, Ulam representava o leste (porta) flanqueado à direita do nordeste (J) e à esquerda do sudeste (B), onde cada coluna tinha seu próprio simbolismo.

Lê-se e se aceita tão alegremente, afirmações e desenvolvimentos como o que diz em seguida: “A separação da expressão em duas palavras distintas e separadas para o aprendiz e o companheiro teve lugar quando o grau de mestre chegou ao redor de 1730. Era necessário individualizar os corpos de três graus distintos. Foram separados os gêmeos significantes e marcadores da porta solsticial. Eram do mesmo nascimento solar e a um lhe foi dada a vontade divina (Jakin) e ao outro a vontade dos homens (Boaz). Esta dicotomia lembra a porta dos deuses e a porta dos homens”. Esta Exegese guenoniana totalmente estranha à tradição da Palavra do maçom, é, além de tudo, falsa. Não era a porta que era solsticial: eram as duas colunas: “O que significam as duas colunas de bronze? R: elas marcam os dois pontos solsticiais “(Rito Escocês Antigo e aceito, 1829 em COLLECTIF, Origem e Evolução dos Rituais, grande loja de França, 1999, 361).
A controvérsia de 1753

Pouco depois da introdução do grau de mestre, um falso problema contamina o raciocínio de nossos antecessores: a controvérsia dos antigos e dos modernos. Os “Anciens”, constituídos na grande loja, acusaram aos “Modernos” de 1717 de haver investido as palavras depois das revelações publicadas. Mas, se analisarmos com calma, vemos que, em 1737, na “Réception d’un frei-maçon”: B e J ainda são comunicadas ao aprendiz. Em 1745, Gabriel-Louis PERAU, em “L’Ordre des francs-maçons trahi”: se comunica J ao aprendiz e B ao companheiro (este é a origem da modalidade do rito francês).

Qual lenda – que se deu como certa apenas por repeti-la sempre – diz que o Rito Escocês Primitivo está presente nas primeiras lojas do regimento em Saint-Germain-en-Laye desde 1688? Isso é uma invenção pura: a Maçonaria da Palavra do Maçom só foi introduzida na França por volta de 1725.

Se a Maçonaria deseja ser lógica consigo mesma, deve basear-se no simbolismo do nordeste/noroeste de J e no simbolismo do sudeste/sudoeste de B: portanto, deve localizar-se ao norte na loja aqueles que recebem JAKIN (não importa se são os aprendizes ou companheiros – cada rito faz o que ele deseja) e, portanto, terão que ser situados no sul os que recebem B (aprendizes ou companheiros, sendo livre cada rito para decidir). Esta evidência seguramente pode fazer com que se rasgue as vestiduras um tanto por ignorância ou por má praxis do entendimento.

Recordemos que, em 1760, no “Três golpes distintos”, B é comunicada ao aprendiz, e J ao companheiro (prática dos Antigos na qual o REAA se abeberou).

Certamente, as festas de solstício maçônico são significativas devido ao simbolismo solsticial das duas colunas, mas em realidade chegaram tarde e têm uma história que deve ser conhecida; caso contrário, se está exposto a cometer uma incongruência. No século XVII, as lojas escocesas recebiam aprendizes no dia de “São João” de inverno, 27 de dezembro. Logo, em 1717, a incipiente grande loja de Londres elegeu seu grande mestre no dia de São João Batista, 24 de junho. Mas cada um destes dois eventos, que, ademais, não têm RELAÇÃO entre si, não tinham a intenção de celebrar os solstícios simbolizados pelas duas colunas: obedeciam exclusivamente a sua piedade religiosa sem nenhuma implicação esotérica: os calvinistas escoceses, pela eleição de São João Apóstolo, e os anglicanos e outras confissões da grande loja de Londres, pela eleição de São João Batista (não há uma implicação hermética na tradição da Palavra do Maçom).

Pretendeu-se rotular que os chamados ritos “modernos” são de natureza estelar (J no Norte, segundo vigilante no Norte). J não era estelar a priori, mas solar: solstício de verão (é só a analogia tradicional entre a saída do sol no dia do solstício de verão até o meio-dia zenital e a elevação do eixo Polar que permite por extensão conectar Jakin ao céu noturno).

A invenção do sistema hermético, metafísico e militar sob a influência cultivada dos cavaleiros de Saint-Lazare e Saint-André inoculado nas lojas, tem sua origem no pensamento de Ramsay, que continua sendo para alguns a vergonha da Maçonaria porque nem sequer se deu conta de que, ao tomar literalmente a brincadeira de Jonathan Swift na ficção dos cavaleiros maçons da loja de São João de Jerusalém em sua Lettre da Grande Maîtresse des Franc-maçones, à M. Harding, imprimeur, de 1724, foi totalmente enganado. Ante a consideração de que os membros destas duas ordens cavalheirescas presentes em loja foram reconhecidos como “Mestres escoceses”, cabe destacar que ao alto grau de “Mestre Escocês” não era de origem Escocês mas francês, ainda que esta atitude pouco cômica de Ramsay fez que se atrevesse a unir a Maçonaria a uma cavalaria estabelecida na Escócia, em Kilwining, sem dar-se conta de que sua fonte, Swift, era um gracejo, porque Kilwining não teve uma participação católica cavalheiresca: era uma loja presbiteriana calvinista que fundou a Palavra de Maçom. Muito se discutiu a respeito, mas ainda estamos esperando que nos expliquem essa coisa de “rito estuardista” do qual, até o momento, não aparecem fontes sólidas nem fundamentadas.

Para finalizar, e voltando às Colunas, creio que é necessário recomendar, com relação ao elemento bíblico descritivo, que nunca podemos trabalhar com traduções, porque são falsas. Assim, o texto hebreu especifica em I Reis 7,39 e II Cr. 4.10 que o mar de bronze era imanit (“à direita”) qedemah (“em frente” ao Oulam) mimoul negev (“orientado ao sul” ou, caso se prefira, “frente ao sul” e, portanto, ao norte e mais precisamente ao nordeste, já que Ulam representa o leste, e o oeste está representado por Devir).

Quando estamos frente à fachada do templo, o que percebíamos era um mar de bronze à direita (muito perto da coluna J ao nordeste) diante do Ulam (quer dizer, diante e ao lado da coluna J do Ulam), que olha para o sudeste, ou seja, está, muito precisamente, a nordeste.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A FORMAÇÃO DA PRIMEIRA GRANDE LOJA DE MAÇONS NA ALEMANHA





Irmão Henning A. Klövekorn


Com a difusão do cristianismo por toda a Alemanha e a exigência de que bispos romanos erguessem catedrais, os colégios maçônicos na Alemanha prosperaram. Geralmente designado como Steinmetzen ou Canteiros, estas fraternidades maçônicas levantaram igrejas e catedrais por toda a Europa continental. A sociedade de canteiros tinha dentro de si uma grande variedade de classes e ocupações. Estas incluíam Steinmaurer ou assentadores de pedras, Steinhauer ou cortadores de pedra, bem como Steinmetzen, uma palavra derivada de Stein ou pedra e Metzen, um derivado da palavra Metzel ou entalhador, uma arte mais detalhada e refinada que os cortadores de pedras. A construção de Bauhütten ou Lojas, situadas junto às igrejas em construção, serviu como estúdio de projeto, local de trabalho e quarto de dormir.

Um dos mais antigos registros de Lojas maçônicas se encontra na cidade alemã de Hirschau (agora Hirsau), no atual estado de Baden-Württenberg. As Lojas Maçônicas instituídas na cidade de Hirschau, no final do século 11, trabalhavam sob a ordem beneditina da Alemanha e foram as primeiras a estabelecer o estilo gótico de arquitetura.

Já em 1149, as primeiras Zünftes alemãs ou sindicatos de pedreiros se desenvolveram em Magdeburg, Würzburg, Speyer e Straßburg. Em 1250, a primeira Grande Loja dos Maçons formou-se na cidade de Colônia (Köln), Alemanha. A Grande Loja foi formada como parte do imenso empreendimento para erguer a catedral de Colônia.

O primeiro congresso maçônico ocorreu na cidade de Straßburg, na Alemanha no ano de 1275. Ela foi fundada pelo Grão-Mestre Erwin von Steinbach. Este também foi o primeiro uso registrado do símbolo dos Maçons, o compasso e o esquadro. Embora Straßburg fosse considerada a primeira Grande Loja de seu tempo, outras Grandes Lojas maçônicas já haviam sido fundadas em Viena, Berna e a acima mencionada de Colônia; estas foram chamadas Oberhütten ou Grandes Lojas. Diversos congressos maçônicos foram realizados na cidade de Straßburg, incluindo os anos 1498 e 1563. Nesta época, as primeiras Armas de Maçons, registradas na Alemanha, foram registradas representando quatro compassos, posicionados em torno de um símbolo do sol pagão, e dispostos em forma de suástica ou roda solar ariana. As Armas Maçônicas da Alemanha também exibiam o nome de São João Evangelista, santo padroeiro dos Maçons alemães.

A Oberhütte (Grande Loja) de Colônia, e seu Grão-Mestre, era considerada a cabeça das Lojas maçônicas de toda a Alemanha do norte. O Grão-Mestre da Straßburg, na época uma cidade alemã, era chefe de Lojas Maçônicas de todo sul da Alemanha, Francônia, Baviera, Hesse e as principais áreas da França.

As Grandes Lojas de Maçons na Alemanha recebiam o apoio da Igreja e da Monarquia. O Imperador Maximiliano revisou o congresso maçônico de 1275, em Straßburg e proclamou a sua proteção ao ofício. Entre 1276 e 1281, Rudolf I de Habsburgo, um rei alemão, tornou-se membro da Bauhütte ou Loja de St. Stephan. O Rei Rudolf foi um dos primeiros não-operativos, também chamados membros livres ou especulativos de uma Loja maçônica.

Os estatutos dos Maçons na Europa foram revisados em 1459 pela Assembleia de Ratisbonne (Regensburg), a sede da Dieta Alemã, cuja revisão preliminar tinha ocorrido em Straßburg sete anos antes. As revisões descreviam a exigência de testar Irmãos estrangeiros, antes de sua aceitação nas Lojas, através de um método de saudação estabelecido (aparentemente internacional ou europeu).
A primeira assembleia geral de Maçons na Europa ocorreu no ano de 1535, na cidade de Colônia, na Alemanha. Ali, o bispo de Colônia, Hermann V, reuniu 19 Lojas maçônicas para estabelecer a Carta de Colônia, escrita em latim. As primeiras Grandes Lojas dos Maçons estiveram presentes, o que era costume na época, e incluíam a Grande Loja de Colônia, Straßburg, Viena, Zurique e Magdeburg. A Grande Loja Mãe de Colônia, com o seu grande mestre, era considerada a principal Grande Loja da Europa.

Após a invenção da imprensa, os Maçons (Steinmetzen) da Alemanha, reuniram-se em Ratisbona, em 1464 e imprimiram as primeiras Regras e Estatutos da Fraternidade de Cortadores de Pedra de Straßburg (Ordnung der Steinmetzen). Estes regulamentos foram aprovados e sancionados pelos Imperadores sucessivos, tais como Carlos V e Ferdinando.

O monge alemão Martinho Lutero e seu protesto contra as injustiças e hipocrisias da Igreja Católica, em 1517, deram origem ao protestantismo. Isto liberalizou algumas das Lojas maçônicas da época. A Catedral de Straßburg tornou-se Luterana, em 1525 e muitas outras a seguiram.

Em 1563, os Decretos e Artigos da Fraternidade de Canteiros foram renovados na Loja Mãe, em Straßburg, no dia de S. Miguel. Estes regulamentos demonstram três elos importantes com a Maçonaria moderna. Em primeiro lugar, os Aprendizes eram chamados de “livres”, na conclusão do serviço a seu Mestre, o que, sem dúvida, é a origem da palavra Freemason ou “Franco-Maçom”. Em segundo lugar, a natureza fraternal da Loja era retratada em uma série de regulamentações, tais como o atendimento aos doentes, ou a prática de ensinar um Irmão sem cobrar, nos termos do artigo 14. Em terceiro lugar, os Maçons utilizavam um aperto de mão secreto como meio de identificação.

Dois artigos do regulamento indicando estes pontos são:

“Nenhum Mestre ensinará um Companheiro por dinheiro.

XIV. E nenhum artesão ou Mestre aceitará dinheiro de um colega para mostrar ou ensinar-lhe qualquer coisa relacionada com Maçonaria. Da mesma forma, nenhum Vigilante ou Companheiro mostrará ou instruirá qualquer um por dinheiro a talhar, conforme dito acima. Se, no entanto, alguém desejar instruir ou ensinar outro, ele pode muito bem fazê-lo, uma mão lavando a outra, ou por companheirismo, ou para assim servir ao seu Mestre.

LIV. Em primeiro lugar, cada Aprendiz, quando tiver servido o seu tempo, e for declarado livre, prometerá à Ordem, pela verdade e sua honra, ao invés de juramento, sob pena de perder o seu direito à prática da Maçonaria, que ele não divulgará ou comunicará o aperto de mão e a saudação de pedreiro a ninguém, exceto àquele a quem ele pode justamente comunicá-las, e também que ele não escreverá coisa alguma sobre isso”.

As regras de Straßburg estipulavam que a entrada na Fraternidade era por livre vontade e indicava claramente os três graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, na Fraternidade Maçônica alemã. Elas exigiram que se fizesse um juramento e que os pedreiros se reunissem em grupos chamados ‘Kappitel’ (Capítulo). As regras instruíam os Maçons não ensinar Maçonaria a não-Maçons.

Está claro que as Lojas ou Grandes Lojas Maçônicas alemãs existiam antes da formação da Grande Loja de Inglaterra, em 1717. Assim como o uso de apertos de mão secretos, o uso do termo “livre” e sua aceitação de não-operativos. O uso de alegoria e simbolismo em camadas, que torna exclusivo o sistema maçônico fraternal, também era evidente nas Lojas alemãs da época, conforme mostrado nas esculturas de pedra e estilos arquitetônicos das igrejas e mosteiros que eles construíram.
Tradução: Mestre Instalado José Antonio de Souza Filardo 




terça-feira, 19 de março de 2019


TRAÇADO E IMPLEMENTAÇÃO DO QUADRO DE LOJA NO R.E.A.A

O Quadro de Loja sobre a Prancha de Traçar

Um dos símbolos que tem verdadeira preponderância nas pesquisas sobre o Grau de Aprendiz Maçom no Rito Escocês Antigo e Aceite é sem dúvida o Quadro de Loja.

Existem algumas teorias interessantes sobre as origens dos Quadros de Loja, conhecidos em inglês como Tracing Boards e em francês como Tableaux de Loge. O I∴ Francês Roger Dachez, reconhecido por sua pesquisa a nível acadêmico sobre a Maçonaria, no seu trabalho de pesquisa chamado “Tracer le Tableau de Loge?” (Traçar o Quadro de Loja?) diz-nos que “a sua verdadeira origem é muito difícil de determinar como o é de muitos dos símbolos maçônicos, já que as referências mais abundantes em relação a esta iconografia, aparecem em meados e finais dos anos de 1730 e inícios de 1740, sendo estes desconhecidos e inexistentes nos textos Normativos, Divulgativos, Regulamentares e Catecismos Escoceses entre 1696 e 1715“.

Do ponto de vista operativo, pretende-se que a Quadro de Loja seja a evolução moderna das Tabelas, Cavaletes ou suportes medievais nos quais o Mestre da Obra trabalhava os seus planos de construção. Por outro lado, o I∴ R. Meekren, no volume de A.Q.C. nº. 61 escrito em 1948, apresenta uma teoria mais interessante sobre as origens dos Quadros de Loja:

“Se tomarmos a tradição insistente e universal entre os maçons de que as Lojas – em algum tempo vago no passado longínquo – se formavam ao ar livre, no alto de uma montanha ou em algum vale profundo (…) o traçado que delimitava o espaço daquela reunião ao ar livre, poderia ter sido convertido na forma da Loja, no Quadro de Loja“.

O que sabemos com certeza é que a partir de 1740 em França e em Inglaterra, a documentação sobre o Quadro de Loja é abundante, extensa e sobretudo diferente em cada Rito.

O traçado do Quadro de Loja é e tem sido, uma tradição fundamental que tem as suas origens desde os Antigos Maçons Operativos. A prerrogativa era exclusiva para os Mestres, que faziam os traços do Plano do Trabalho, com giz, carvão ou gesso no chão e posteriormente em Placas de Ardósia ou Cavaletes, com o objectivo de que as tarefas na Obra fossem corretamente expressas numa Matriz da Loja Primitiva ou Celestial.

O traçado do Quadro de Loja constitui um elemento indispensável para a Abertura e o desenvolvimento ritualístico dos trabalhos do R∴ E∴ A∴ A∴, já que a sua presença estabelece o Influxus Spiritualis (Influência Espiritual) dos símbolos da Ars Regia (Arte Real), Ars Tectônic (Arte Tectônica) e Ars Sacerdotalis (Arte Sacerdotal) aí expressa; definindo o Spatium Sacrum (Espaço Sagrado) através do Logos (Verbo Manifesto) da Architecturae Sacrae (Arquitectura Sagrada), despertando nos irmãos se reuniram, a ideia do Simbolismo Construtivo do Ser Humano numa linguagem encriptada (criptografia).

O traçado do Quadro de Loja renova e recorda o simbolismo fundamental referente à instrução no Caminho Iniciático para cada um dos Três Graus Azuis ou “Simbólicos”.

A sua localização central na Loja, exibe os principais símbolos devem decorar a Loja nos Graus de Aprendiz, Companheiro e até na Câmara do Meio dos Mestres Maçons.

O I∴ Experto dobra-se sobre o joelho direito e com um giz branco, faz os traços que correspondem a cada Grau, no fundo negro da Prancha de Traçar.

Quadro de Loja no Grau de Aprendiz, no R∴ E∴ A∴ A∴

Analogamente ao traçado do Quadro de Loja da Maçonaria de Tradição Operacional, existe o uso de gravuras em tecido e tabelas ou placas de loja impressas, que são utilizáveis ​​na Tradição 

Especulativa. Segundo o I∴ Yasha Beresiner nas suas Masonic Tracing Boards (Pranchas de Traçar Maçônicas), as primeiras oito e mais importantes gravuras conhecidas, são assinadas pelo alemão Reigens, cujo nome aparece no topo delas e que foram publicadas pela primeira vez em 1746. Estas foram atribuídas erradamente na Assemblée de Nouveaux Franc-maçons (Nova Assembleia de Franco-maçons) ao autor francês anti maçom Louis Travenol, que era mais conhecido pelo pseudônimo Leonard Gabanon. Estas gravuras são as primeiras representações artísticas disponíveis que mostram a posição do Modelo Ideal do Templo Maçônico no centro dele. Neles, os irmãos são mostrados com aventais e chapéus, em pé e em volta de uma tela decorada com numerosos símbolos maçônicos.

Estas ilustrações artísticas geralmente explicam os aspectos de nossos Rituais, que não foram preservados por palavras escritas, mas sim transmitidos oralmente, graficamente e directamente. Muitos dos primeiros desenhos gravados em tela ou na Prancha de Traçar eram sempre feitos pelo Tiler ou Tyler. A palavra ladrilhador vem do francês tailleur “cortador” e, consequentemente, é chamado Tuilleur em francês e Tyler ou Tiler em inglês. Em latim tegere “telhador”, significa na Loja de Arte Operativa; o Irmão artesão que cobre com telhas e fecha a construção, escondendo o interior e sendo o guardião dele. É na Maçonaria Especulativa, o que conhecemos como o Irmão Cobridor, Guarda Interno ou Guardião do Templo.

Na implementação do Quadro de Loja, o próprio irmão Beresiner da Loja de Pesquisa A.Q.C. 20176 de Londres diz:

“Os primitivos desenhos no piso feitos pelo Tyler (G∴ T∴) deixavam muito a desejar. Entre a má qualidade dos símbolos utilizados, e a confiança no talento e dedicação do Tyler (G∴ T∴), os Irmãos contemporâneos começaram a temer que estranhos pudessem reconstruir os detalhes dos desenhos apagados. Isto levou aos primeiros traçados em tecido com a delimitação de desenhos de símbolos e emblemas”.

Em 1725 um divulgação anónima Maçónica intitulada “Diálogo entre Simon e Felipe”, refere-se ao uso Quadros de Loja desenhadas com materiais diferentes do pano: os desenhos no solo são descritos como “emblemas de prata ou estanho muito fino localizado na posição da Loja”. Daí a ideia de usar no chão, tecidos mais duráveis, em vez de desenhos simples no chão ou gravações em estanho. Agora, os emblemas eram permanentemente fabricados com mais arte do que a que Tyler (G .: T∴) poderia ter conseguido. Em cada reunião, o Quadro de Loja estampado em tecido sobre o chão, era desenrolada diante do Venerável Mestre, que no final o guardava.

Várias dissertações foram ilustradas com pinturas francesas, que mostram o plano do Templo da Loja, que muitas vezes são decorados com uma infinidade de emblemas e símbolos. Estas gravuras em tecido derivam das práticas enquanto Usos e Costumes das Lojas Francesas do momento, além de serem a fonte das Pinturas que se seguiram depois, em evolução..

CONCLUSÕES

Durante o Rito da Abertura dos Trabalhos, o Irmão Experto traça ou estende no centro do Templo o chamado ” Quadro de Loja “, bem no meio do tapete quadrangular do Pavimento de Mosaicos de proporções 3-4-5 e delimitada pelos Três Pilares do Templo (as Três Luzes Menores) Sabedoria, Força e Beleza. Por sua vez, o Encerramento dos Trabalhos ocorre instantes após o Quadro de Loja ser apagado ou recolhido.

O acto ritualístico de desenho ou colocação do Quadro de Loja constitui essencialmente a sacralização do Templo, no Ritual de cada um dos Graus Azuis chamado “Simbólico”. Constitui o terceiro plano; o material, a ser executado e o primeiro a ser removido.

O Quadro de Loja também é conhecido como a Prancha de Traçar, quando o irmão Experto que é um Mestre Maçom, desenha os elementos simbólicos de estudo e investigação do simbolismo essencial para cada grau.

O Quadro de Loja inclui uma síntese visual de formas geométricas que impregna a memória do Maçon, o que faz com que o processo de reconhecimento dos elementos simbólicos seja cada vez mais eficaz.

O ensino Iniciático inclui o conjunto de símbolos que englobados num Espaço Sacralizado, forme uma verdadeira transmissão de uma Influência Espiritual; Recordando que cada símbolo dentro deste grande emblema tem um duplo aspecto de instrução, Moral e Espiritual.

Frater Levithian
Bibliografia
Rituales Tradicionales Formulados de los Grados Azules del R∴ E∴ A∴ A∴
Yasha Beresiner, Masonic Tracing Boards, Trabajo de la Logia de investigaciones Ars Quatur Coronati 2076 de Londres.
Dachez, Roger. Investigación (tableau de loge) “Tracer le tableau de loge?”. Blog: http://pierresvivantes.hautetfort.com/

segunda-feira, 18 de março de 2019

POR QUE O GADU É SEMPRE REPRESENTADO COM UM COMPASSO? VOCÊ SABIA?


Tradução J. Filardo

por Hervé HOINT-LECOQ


As instruções em perguntas e respostas são prolíficas sobre o uso do compasso na Maçonaria. A origem deste uso é dita bíblica e muitas ilustrações medievais a atestam. Mas por que o GADU é então representado com um compasso?

Então, todos nós temos em mente essas ilustrações de Deus, geômetra, posando com um compasso para traçar o mundo. Esta imagem vem de uma tradição iconográfica que remonta ao século XIII, graças a uma suposta encomenda da mãe de Saint Louis* de várias Bíblias ilustradas para a Rainha Blanche de Castela (conhecida como a Bíblia de Viena, codex 2554 alto à esquerda) e seu marido Luís VIII (a chamada Bíblia moralizada de Viena – codex 1179 no alto à direita), para Marguerite de Provence (Manuscrito de Toledo, canto inferior esquerdo) e Saint Louis (conhecida como Bíblia OPL – Oxford Paris Londres por causa de sua dispersão entre essas cidades – canto inferior direito).

Sobre essas representações das chamadas bíblias “moralizadas” (uma expressão que data do primeiro quartel do século XV para descrever as ilustrações comentadas de passagens do Antigo Testamento), podemos assim ver Deus o Criador em seu trono, sob jovens traços, o associando a Jesus, com o compasso sobre o cosmos, em uma moldura com quatro lobos apoiados por quatro anjos.

Para entender a razão, precisamos voltar à Bíblia, precisamente em Provérbios 8, tratando da sabedoria e, mais precisamente, Provérbios 8.25 a 31: “Antes que as montanhas fossem estabelecidas, Antes que as colinas existissem, eu nasci; Não havia ainda feito nem a terra, nem o campo, Nem o primeiro átomo da poeira do mundo. Quando ele organizou os céus, eu estava lá; Quando ele desenhou um círculo na superfície do abismo, Quando ele fixou para as nuvens acima, E as fontes das profundezas jorraram com força, Quando Ele deu um limite ao mar, Para que as águas não transbordassem, Quando eu coloquei as fundações da terra, eu estava trabalhando com ele, e eu fazia diariamente suas delícias, brincando constantemente em sua presença, brincando sobre o globo de sua terra e encontrando a minha felicidade entre os filhos do homem.”

Entendemos então por que, nessas primeiras representações, Deus não é o velho de cabelos grisalhos que agora imaginamos (visto que ele é à imagem dos homens que manuseiam o instrumento), mas também por que essa ferramenta de Geômetra sempre revestida nos operativos, como mais tarde entre os especulativos de tal importância: este círculo traçado sobre o abismo, portanto, coloca o compasso como a primeira ferramenta da Criação. Justificando assim seu lugar no Volume da Lei Sagrada.