quarta-feira, 4 de abril de 2018


OS EFEITOS PSICOLÓGICOS DA PRÁTICA DO RITUAL MAÇÔNICO

Extraído do Blog Bibliot3ca
Rafhael Guimarães [1]


O presente artigo visa realizar análise comparativa da psicologia junguiana com a simbologia maçônica, mais especificamente com os símbolos contidos em uma Loja Maçônica do Rito Escocês Antigo e Aceito e em suas práticas ritualísticas, além de observar os efeitos psicológicos da prática da ritualística do referido rito maçônico sobre seus adeptos.
Introdução

A definição mais comum de Maçonaria é a de que Maçonaria é ―um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos (ZELDIS, 2011). Isso já diz muito sobre a instituição e seu modo de ensino e aprendizagem, que ocorre por meio de rituais repletos de alegorias e expressões simbólicas. No entanto, entre o desdobramento do ritual e o comportamento moral de seus praticantes há um mecanismo psicológico que não pode ser ignorado e cuja compreensão pode colaborar um melhor entendimento da razão da Maçonaria atrair ao longo dos séculos o interesse de tantos distintos homens e a ira de tão perigosos inimigos, como os nazistas, papas e o Comintern – Comitê Comunista Internacional (ROBERTS, 1969).

Este estudo tem por objetivo analisar as influências psicológicas que a prática ritualística maçônica, suas falas, movimentos, símbolos, dramas e alegorias, pode ter sobre seus praticantes.

Muitos talvez possam julgar os rituais maçônicos como ingênuos, ultrapassados, estranhos ou até mesmo supersticiosos. Serão apresentados neste estudo indícios de que tanto os rituais como a mitologia possuem as mesmas fontes de origem — o inconsciente (CAMPBELL, 2007; JUNG, 2005).

Há, sem dúvida, inúmeras diferenças entre as religiões e mitologias da humanidade, e todas essas, de uma forma ou de outra, podem ser encontradas em alguma medida, representadas nas alegorias maçônicas (MAXENCE, 2010).

Foi em 1900 que Sigmund Freud apresentou ao mundo sua teoria do Inconsciente, na obra ―A interpretação dos sonhos‖ (FREUD, 1972). O conceito de Inconsciente já existia de alguma forma desde a Grécia Antiga, contudo foi somente com Carl Gustav Jung que tal teoria encontrou sua plenitude, alcançando um sentido mais amplo, quando o mesmo diferenciou a atuação do inconsciente de uma camada mais profunda, que chamou de Inconsciente Coletivo, que são formas ou imagens de natureza coletiva que se manifestam praticamente em todo o mundo como constituintes dos mitos e, ao mesmo tempo, como produtos individuais de origem inconsciente, que influenciam toda nossa psique (JUNG, 2011c).

Ao contrário da escola freudiana, que afirma que os mitos estão profundamente enraizados dentro de um complexo do inconsciente, para Jung, a origem atemporal dos mitos reside dentro de uma estrutura formal do inconsciente coletivo. Torna-se assim uma diferença considerável para Freud, que nunca reconheceu a autonomia congênita da mente e do inconsciente, enquanto que, para Jung havia uma dimensão coletiva inata e com autonomia energética.

As ideias apresentadas por Jung foram o embasamento científico que o estudioso das Religiões e Mitologias Comparadas, Joseph Campbell, adotou para sustentar as similaridades existentes entre todas as religiões e mitologias da história. Tal conceito chamado anteriormente de ―Monomito [2] por Jaymes Joyce, foi esmiuçado por Campbell, que mostrou todo o roteiro da manifestação arquetípica do herói, que se encontrava representado em todo o mundo como um arquétipo do Inconsciente Coletivo (JUNG, 2010; JUNG, 2011a).

Assim, será com base nas obras de Campbell e Jung o desenvolvimento deste artigo, que visa comparar e reapresentar o simbolismo maçônico sob a ótica científica da Psicologia Junguiana e da Ciência das Religiões.
Análise Comparativa da Psicologia Junguiana com o Simbolismo Maçônico

O que é um Símbolo? [3]

Os símbolos são, em síntese, metáforas e compêndios de um conhecimento sensivelmente elevado (CAMPBELL, 2007), mas que em outras palavras, são manifestações exteriores dos arquétipos. Os arquétipos só podem se expressar através dos símbolos em razão de se encontrarem profundamente escondidos no inconsciente coletivo, sem que o indivíduo os conheça ou possa vir a conhecer (JUNG, 2011b). Dessa forma, em nosso nível comum de consciência, para compreendermos um elevado sentimento contido no Inconsciente Coletivo, necessitamos dos símbolos, gestos existentes desde o início da humanidade (CAMPBELL, 2008; JUNG, 2011a).

Essas afirmações precedentes necessitam de um exemplo hipotético: O amor da mãe para com seu filho jamais seria compreendido por palavras ou descrições objetivas, como números ou letras. Em vez disso, podemos, ao invés de escrever sobre tal amor, apenas apresentar o conhecido símbolo do coração. Deste modo, mesmo que parcialmente, a noção que teremos a respeito do amor de uma mãe para com seu filho, será muito mais próxima do que as expressadas por meras palavras (JUNG, 2011d).

As mitologias e sentimentos são comumente manifestados por meio de símbolos e gestos. Do mesmo modo, a Maçonaria atua através da ritualística das suas iniciações e instruções. Os símbolos e gestos atuam como um catalizador de sentimentos de seus praticantes através do mito trabalhado pelo grupo-cultura (CAMPBELL, 2008). O avanço moral que a Maçonaria proporciona a seus adeptos é, além de consciente, educativo e ético, também um reforço psicológico.

A diferença crucial entre símbolo e arquétipo é que o primeiro pode ser visto e em alguns casos também tocado e sentido, ao passo que o segundo pode ser apenas sentido, e mesmo assim, somente por intermédio do primeiro. Portanto, para que haja símbolos, deve antes haver arquétipos, pois aqueles são a manifestação destes em menor escala (JUNG, 2011d; JUNG, 2012). Contrariamente a esta teoria junguiana agora apresentada, observamos na psicanálise de Freud outra visão dos arquétipos, que se encontra centrada nos três arquétipos relativos ao chamado ―Complexo de Édipo‖, que, por suas características peculiares, possui proximidades com a antropologia e com a linguística, ao passo que a visão apresentada neste artigo, Junguiana, possui proximidades com os conceitos do Inconsciente Coletivo sustentados pelo sociólogo francês Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia Moderna, onde em sua obra o define como o conjunto de crenças e sentimentos autônomos de uma sociedade (DURKHEIM, 2004). Suas teorias também influenciaram Freud, mas com devido efeito, acham-se proficuamente delineadas nas obras de Jung.

O Templo Maçônico do Rito Escocês e a Psique Humana

Os maçons são unanimes em dizer que o Templo Maçônico [4] é simbólico, e como já vimos, o símbolo é muito mais do que mera ornamentação artística para representar algo (JUNG, 2012). Importante registrar que o templo maçônico não é uma réplica do Templo de Salomão, se não apenas simbolicamente inspirado no Templo de Salomão, mas contendo muitas outras influências, de acordo com o Rito adotado (ISMAIL, 2012). No caso do presente estudo, refere-se a um templo do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Portanto, toda a ornamentação e divisão do templo não é fruto do acaso, a começar pela Sala dos Passos Perdidos, mais adiante o Átrio, a Câmara ou Caverna de Reflexões, e finalmente o Templo em si. Todos estes compartimentos são estágios há muito tempo utilizados para separar o sagrado do profano (VAN GUENNEP, 2011).

Nesse contexto, o ritual tem por objetivo a realização da passagem de um estado de consciência para outro, estados esses chamados maçonicamente de profano e sagrado, e em última análise, o templo com suas divisões simboliza o estado de consciência em que nos encontramos. Desta forma, o templo em si representa um estado intransponível de pureza e santidade para seus membros. As funções-cargos expressas no ritual e as disposições do templo são personificações simbólicas das leis psicológicas que atuam na psique (CAMPBELL, 2007; MAXENCE, 2010), conforme será demonstrado neste estudo.

Rituais ou simples gestos simbólicos identificam nossa consciência com o campo essencial de ação. O soldado que retorna da guerra, ao passar pelo Arco do Triunfo, um rito de passagem, acaba deixando a guerra para trás. Da mesma forma, ao passarmos pela sala dos passos perdidos e posteriormente pelo átrio, sabemos que estamos em um local consagrado para a prática do bem, o Templo Maçônico. Assim, as salas que antecedem o templo, cumprem a função psicológica de devidamente introduzir o adepto em um local que, por meio de seus símbolos, colabora para o ingresso a um estado da consciência necessário para que o ritual cumpra seu dever cognitivo de forma efetiva (JUNG, 1978; VAN GUENNEP, 2011).

De acordo com a psicologia analítica de Carl G. Jung, a psique divide-se em três níveis: A consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo (HALL & NORDBY, 2010). Conforme se segue abaixo, tais divisões se conciliam em significados e funções com os cômodos de uma Loja Maçônica do Rito Escocês Antigo e Aceito, ou seja, sala dos passos perdidos, átrio e templo, sendo que na parte interior, teremos o ocidente e o oriente.

Nível 1 – Consciência: Sala dos Passos Perdidos

A consciência é a única parte da psique a qual conhecemos direta e objetivamente (HALL & NORDBY, 2010), e nela tudo ocorre geralmente de forma racional e lógica. Da mesma forma, isso também ocorre antes de adentrarmos ao templo, pois é na sala dos passos perdidos que tudo ainda ocorre de forma desprovida de questões oníricas, sem sinais ou gestos simbólicos.

O significado psicológico de persona, para Jung, é aquela parte da personalidade desenvolvida e usada em nossas interações mundanas, ou profanas, no vocabulário maçônico. É nossa face externa consciente, nossa máscara social, como veículo não de nossa real vontade, mas da nossa necessária aceitação (JUNG, 1978; HALL & NORDBY, 2010). Assim que, nas iniciações maçônicas, o gesto dos candidatos serem despidos de todos os metais, e iniciarem todos exatamente da mesma forma, significa que, naquele momento, o indivíduo despe-se de suas personas. Esse desprendimento se faz necessário visto que, conforme Jung, no nível do inconsciente pessoal – que citaremos logo adiante – não há persona, a qual se manifesta apenas no nível consciente.

O crescimento psicológico ocorre, de acordo com Jung, quando alguém tenta trazer o conteúdo-conhecimento do inconsciente, para o nível consciente, e estabelecer uma relação entre a vida consciente e o nível arquetípico da existência humana (JUNG, 1978; JUNG, 2011b). O homem que assim o fizer, haverá de reconhecer as origens de seus problemas no próprio inconsciente, pois a pessoa que não torna consciente suas limitações e defeitos, acaba por projetar tais percepções negativas sobre os outros (HALL & NORDBY, 2010). Fazendo o devido paralelo, o crescimento na senda maçônica somente ocorre quando se aplica no chamado mundo profano o que se estuda e aprende no mundo maçônico, que é neste quadro comparativo o referido inconsciente pessoal, e assim tem-se a oportunidade de transformar o conhecimento em sabedoria.

Nível 2 – Pré-consciência: Átrio

Para Freud, a consciência humana se subdivide em três níveis, chamados de Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente. O estado intermediário entre a Consciência, abordada no Nível 1, e o Inconsciente, que será abordado no Nível 3, é o de Pré-consciência, o qual tem por característica uma experiência munida de relativo equilíbrio entre um material perceptível e um material latente (FREUD, 1972).

Dessa forma, tem-se o átrio do templo maçônico como representativo desse estado de pré-consciência, visto o átrio, apesar de muitas vezes interpretado como sendo uma extensão do templo, é fisicamente um cômodo intermediário entre a sala dos passos perdido e o templo maçônico. Nele ocorre o momento de transição entre os estados psicológicos, em que os maçons se concentram, geralmente com as luzes apagadas, para se desvencilharem dos problemas e pensamentos do chamado ―mundo profano‖ e adentrarem ao interior do templo. Assim, o átrio se assemelha em correspondência com o préconsciente na medida em que ambos não possuem uma natureza específica, mas sim transitória. Portanto, este estado intermediário tem por objetivo introduzir o personagem no recinto onírico e simbólico seguinte.

Nível 3 – O Inconsciente Pessoal: O Templo Maçônico

Todas as experiências que se têm, mesmo aquelas consideradas esquecidas, mas que, todavia, não deixaram de existir, são armazenadas no inconsciente pessoal. É nesse nível que ocorrem os sonhos quando se está dormindo, e como todos sabem, tais eventos sonhados são dotados de acontecimentos surreais e ilógicos perante a nossa realidade objetiva (JUNG, 2005).

Assim o Inconsciente Pessoal encontra correspondência com o templo maçônico, onde a ritualística e os símbolos alcançam a totalidade dos trabalhos, e estes retratam bem o estado fictício e mítico do drama maçônico, estado este que – paralelamente – também é encontrado nos sonhos, com seus símbolos abstratos, passagens ilógicas e surreais, onde tanto no estado onírico como na ritualística, pode-se viajar do Oriente ao Ocidente com alguns poucos passos, e do amanhecer ao pôr do sol, vai-se em alguns minutos, semelhante ao que ocorre nos sonhos, pois no nível do inconsciente pessoal não há uma limitação objetiva. Da mesma forma o simbolismo da ritualística não possui um senso lógico. Ambas linguagens (sonhos e ritualística) são figuradas. Assim como o ritual maçônico não é literal e tem por objetivo transmitir instruções morais, os sonhos também não o são e, segundo Jung (2011d), o crescimento e amadurecimento moral são a real e efetiva finalidade dos sonhos. Destarte, em ambos os casos perde-se o efeito do lógico e racional, para com isso, trabalhar o simbólico e onírico. Sendo assim, interpretar o ritual maçônico de forma literal é um erro lastimável, ao passo que o sonho, inexoravelmente, também deve ser interpretado de forma não literal (JUNG, 2012).

Os conceitos de Anima e Animus foram talvez as duas mais importantes descobertas de Jung. Ambos são aspectos inconscientes de um indivíduo. O inconsciente do homem encontra ressonância com o arquétipo feminino, chamado de Anima, enquanto que a mulher se associa com o arquétipo masculino, chamado de Animus. Cabe notar que quando se fala de masculino e feminino, em se tratando de Animus e Anima, está se referindo às expressões e características, e não algo literal (JUNG, 2011b; JUNG, 2012), pois, como supramencionado, o inconsciente reside em um nível atemporal, inteiramente psicológico, portanto não material.

A Anima manifesta-se na psique de forma emocional, passiva e intuitiva, por outro lado, o Animus manifesta-se de forma racional, ativa e objetiva. Jung costuma relacionar Anima ao deus grego Eros, o deus do Amor, ao passo que Animus é relacionado com o termo Logos, que significa verbo, razão (JUNG, 1978). No templo maçônico tal equilíbrio dual é conhecido pelas duas colunas, Boaz e Jaquim. No Rito Escocês, os Aprendizes Maçons tomam assento do lado da coluna Boaz, e ali são instruídos sobre a educação moral, espiritualidade e ética maçônica, conceitos perfeitamente associados ao arquétipo de Anima. Já do lado da coluna Jaquim tomam assentos os Companheiros Maçons, que, ao contrário dos aprendizes, possuem suas instruções voltadas para as artes ou ciências liberais, bem como para algum conhecimento esotérico, que são características de Animus. Ao Oriente vê-se o Sol e a Lua, que são símbolos conhecidos do Animus e da Anima.

Desta forma, Boaz e Jaquim, representam Anima e Animus, e a consecução entre ambas colunas representa o Casamento Alquímico, a totalidade do ser, ou seja, o Equilíbrio Perfeito, o Mestre. Aquele que caminha com tal união, anda pelo caminho ou câmara do meio (CAMPBELL, 2008), no nosso caso, o Mestre Maçom.

Nível 4 – Inconsciente Coletivo: Sólio do Oriente

Teoria proposta pela Psicologia Analítica, o inconsciente coletivo difere do inconsciente pessoal, visto que não se trata de experiências individuais, mas, como o nome sugere, são experiências coletivas (JUN, 1978). Trata-se de uma espécie de reservatório de imagens, essas chamadas de imagens arquetípicas. Tais imagens e concepções são herdadas pelo homem de forma inconsciente através do inconsciente pessoal. O inconsciente coletivo estimula no homem desde o nascimento um comportamento padrão préformado. Assim, recebemos a forma do mundo em uma imagem virtual e essa imagem transforma-se em realidade consciente quando, durante a vida, identificamos os símbolos a ela correspondentes (JUNG, 2011b).

Os conteúdos do inconsciente coletivo são denominados de arquétipos. Um arquétipo é compreendido como um modelo original que conforma outras coisas do mesmo tipo, semelhante a um protótipo (JUNG, 2011b). Tanto o inconsciente coletivo como o arquétipo se confundem com aquilo que chamamos de egrégora.

Jung acreditava que tanto a experiência quanto a prática religiosa eram fenômenos que tinham sua fonte no inconsciente coletivo (JUNG, 2011c). O céu, o inferno, o Jardim do Éden, o Olimpo, são interpretados pela psicologia junguiana e freudiana como símbolos do inconsciente (JUNG, 2011c; FREUD, 1972), e se enquadram ao simbolismo do dossel e do sólio no Oriente, localizado a sete degraus acima do nível onde se encontram os Aprendizes, Companheiros e Mestres, onde se encontra o chamado Trono de Salomão e que possui estampado o olho que tudo vê no Rito Escocês Antigo e Aceito.

Assim como o inconsciente coletivo dispõe da pré-formação psíquica da psique (JUNG, 1978), o direcionamento dos trabalhos vem do Oriente da Loja, além de que as informações originais da Loja, presentes na carta constitutiva, também se localizam na região do sólio.

Os efeitos e sinais da Ritualística Maçônica no Inconsciente

Os rituais praticados e todas as suas repetições centram o indivíduo dentro dos propósitos do mito, pois o ritual é a simples representação do mesmo. Ao participar de um ritual, vivenciase sua mitologia. Assim, tais gestos e movimentos transcendem os adeptos (CAMPBELL, 2008), como, por exemplo, na execução mito de Hiram Abiff, que ocorre no grau de Mestre Maçom. Tornar-se Mestre Maçom é o mesmo que Jung chamava de processo de individuação para realização do Si mesmo (MAXENCE, 2010).

Quanto à ritualística e seu potencial psicológico, Jung (2011b), discorre sobre a psicologia analítica e as formas de atuar no inconsciente pessoal do indivíduo:

Outra forma de transformação é alcançada através de um ritual usado para este fim. Em vez de se vivenciar a experiência de transformação mediante uma participação, o ritual é intencionalmente usado para produzir tal transformação. (…) Se recebe um novo nome e uma nova alma, ou ainda passa-se por uma morte figurada, transformando-se em um ser semidivino, com um novo caráter e um destino metafísico transformado. (Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, CARL GUSTAV JUNG, 2011, p. 231)

Desta forma, o indivíduo que vivencia o ritual, as iniciações, elevações e exaltações, acaba por se transformar, seja pelas convicções conscientes ou pela influência do inconsciente (JUNG, 1978).

Os maçons devem, portanto, realizar reflexões da simbologia maçônica. Ao executar um ritual de alto valor cultural, com gestos e passagens incomuns à sociedade, o qual, sob um olhar cético e profano, pode ser considerado como infantil e ingênuo, deve o maçom analisar tais movimentos a nível psicológico, onde reside sua maior força e resultado. Ademais, abordar o ritual maçônico ou qualquer outro ritual sem um entendimento psicológico e simbólico do seu significado, é como ver animais nas nuvens, ou seja, um exercício de vontade e imaginação sem maiores resultados.

Conhecendo a antropologia das sociedades primitivas, Jung comparou a vida com a trajetória do sol em um dia. A primeira parte, do nascimento para a sociedade, é semelhante ao amanhecer do sol. A segunda parte, da participação efetiva no mundo e na sociedade, é semelhante ao meio dia. E, enquanto o desafio da primeira metade da vida é a própria vida, o desafio da segunda metade é a própria morte, representada pelo anoitecer (CAMPBELL, 2008; JUNG, 2005).

Para o primitivo não bastava ver o Sol nascer e declinar. Esta observação exterior correspondia a um acontecimento anímico, isto é, o Sol representava em sua trajetória o destino de um Deus. Todos os acontecimentos mitologizados da natureza, tais como o verão, inverno, amanhecer, meio dia e pôr do sol, as fases da lua, as estações, não são alegorias destas experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através da dramatização dos rituais maçônicos (JUNG, 2011b).

Outro detalhe ritualístico curioso relativo ao sol é a circulação em sentido horário, também chamada de dextrocentrica. Uma prática tão antiga quanto a Maçonaria. Os gregos e romanos tinham o lado direito como favorável, visto que este, de forma geral, favorece mais seu dono do que o esquerdo. Relacionaram tal procedimento ao aparente movimento que o Sol faz diariamente em torno da Terra. Assim, essas civilizações, tendo sempre o aparente movimento do Sol como referência, adotavam a circulação em sentido horário, tendo altares, fogueiras, totens ou sacrifícios como eixo de seus templos (ISMAIL, 2012).

A função psicológica da ritualística maçônica é a de restaurar um equilíbrio psicológico por meio do sistema mitológico proposto pela instituição, de modo a produzir um material onírico no inconsciente de seus membros (JUNG, 2005). Desta forma, o conhecimento da Maçonaria retrata um estudo do inconsciente, tanto do inconsciente pessoal, através dos efeitos diretos da ritualística, como do inconsciente coletivo, através do estudo da Mitologia Maçônica.

Nos rituais tribais de iniciação os membros recebem uma marca, que nos tempos atuais figura como simbólica (VAN GUENNEP, 2011), e que distinguem o iniciado dos não iniciados. Na iniciação no Rito Escocês isso ocorre com uma chancela no peito esquerdo. Seja uma marcação física ou apenas simbólica, tais atos ritualísticos operam igualmente no inconsciente (JUNG, 2005).

A prática de diferentes termos linguísticos também é usada para separar o sagrado do profano nos grupos religiosos (VAN GUENNEP, 2011). Este exemplo é um dos diferenciais da ritualística maçônica, onde uma linguagem própria é comumente adotada. Inúmeros são os exemplos disso no Rito Escocês, como justo e perfeito, tronco, Huzzé, sólio, pálio, veneralato e muitos outros.

Conclusões

Em síntese, a mitologia pode ser entendida, sob a ótica da Psicologia Junguiana, como um sonho coletivo, sintomático dos impulsos arquetípicos existentes no interior das camadas profundas da psique humana (JUNG, 1978), ou, numa visão religiosa, como a revelação de Deus aos seus filhos. Tanto a mitologia como os seus símbolos são metáforas reveladoras do destino do homem e nas diversas culturas são retratadas de diferentes formas (CAMPBELL, 2007). Sendo assim, a vivência do drama de um mito nada mais é do que uma ferramenta de compreensão e promoção do crescimento psicológico do indivíduo, sendo esta a função principal do mito (CAMPBELL, 2008). Assim, a análise para toda questão mitológica, como também, este estudo da ritualística maçônica em questão, é, por derradeiro, o estudo da psique humana.

Em várias sociedades e cultos primitivos, a prática religiosa consistia em vivenciar a Mitologia de forma direta, pois o mito poderia influenciar o executor da prática religiosa de forma indireta no decorrer das cerimônias, por intermédio do inconsciente. Assim o crescimento e a finalidade da Mitologia aconteciam de forma particular em cada um, como uma semente que aos poucos iria germinando (JUNG, 2005). Entendimento similar ocorre na Maçonaria e é explicitado quando maçons dizem aos neófitos na Palavra a Bem da Ordem que ― hoje você entrou para a Maçonaria, mas precisa deixar que a Maçonaria entre em você. A tradição maçônica conserva esses costumes como forma de instrução aos seus membros, sendo atualmente uma das poucas instituições em que o homem pode ter contato com tais experiências (BLAVATSKY, 2009).

Referências Bibliográficas

BLAVATSKY, HELENA P. O ocultismo, prática e as origens do ritual na Igreja e na Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2009.

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, Mitologia Ocidental. São Paulo: Palas Athena, 1994.

CAMPBELL, Joseph. Herói de mil faces. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.

CAMPBELL, Joseph. Isto és Tu. São Paulo: Landy Editora, 2002.

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DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1972.

HALL, Calvin S.; NORDBY, Vernon J. Introdução à Psicologia Junguiana. São Paulo: Cultrix, 2010.

ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria. São Paulo: Universo dos Livros, 2012.

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JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005.

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JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.

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LEVI, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia. 20ª Edição. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2012.

MAXENCE, Jean-Luc. Jung é a aurora da Maçonaria. São Paulo: Madras, 2010.

MURPHY, Tim Wallace. O código secreto das catedrais. São Paulo: Pensamento, 2007.

ROBERTS, J. M.: Freemasonry: Possibilities of a Neglected Topic. The English Historical Review, Vol. 84, No. 331, p. 323-335, 1969.

STAVISH, Mark. As origens ocultas da Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2011.

VAN GUENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011.

ZELDIS, L., Illustrated by Symbols. New York, NY: Philalethes, The Journal of Masonic Research & Letters, Vol. 64, No. 02, p. 72-73, 2011.


NOTAS

[1] Rafhael Guimarães é Mestre Maçom, membro da GLMEES; e Maçom do Real Arco, filiado ao SGCMRAB. Além de pertencer a outras Ordens Iniciáticas, ministra cursos e palestras sobre Cabala, Astrologia e Tarô.

[2] ² O termo “Monomito” é de autoria de James Joyce, da obra “Finnegans Wake”.

[3] O conceito adotado nesta obra de símbolo é o da Psicologia Junguiana, que difere do conceito semiótico de símbolo instituído por Ferdinand de Saussure, pai da linguística, bem como também difere parcialmente de certas análises Psicanalíticas de Freud.

[4] O termo “templo maçônico” é comumente usado nos ritos maçônicos de origem latina. Os de origem anglo-saxônica costumam chamar o local de reuniões de “Sala da Loja”.




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OS MAÇONS ARQUITETO DA RAZÃO


Tradução J. Filardo
Por Victor Guerra


Por uma Latomia reformata, semper reformata

Após episódios negros que ocorreram na maçonaria espanhola nesses últimos meses, em que a Regularidade maçônica como se refere, pelo menos seu Grão-Mestre Óscar de Alfonso, deixou um rastro de notícias, ações e rancor, podemos mudar o terço e falar sobre se os maçons somos realmente isso o que o título do post diz: arquitetos da razão

Quando a Maçonaria se afasta dos focos quase comuns dos tópicos usuais, o que pode variar desde considerá-la como uma sociedade de árvores genealógicas rançosas de caráter pseudo-bíblico focada no crescimento pessoal; ou situá-la no outro extremo como o fruto de obras do mal e, portanto, fácil imaginá-la como uma sociedade secreta terrível incrustada nos cantos mais escuros do sistema econômico e político, onde sua suposta inclusão no Bilderberg pode ser um exemplo

E, no entanto, apesar de todas essas especulações imaginárias que foram exploradas desde as próprias lojas maçônicas até os renomados demagogos da Antimaçonaria, como o grande revelador Leo Taxil, e suas chaves para descobrir os grandes segredos maçônicos que manejavam o universo, no entanto, quando se estuda, vê-se, observa-se e vive-se a atividade maçônica que nada mais vê que a tentativa utópica do império da razão.

Se algo foi, e é maçonaria, é necessário dizer sem papas na língua que é uma grande construção humana, e desde a perspectiva da Maçonaria liberal, hoje podemos dizer que é a obra da racionalidade, e onde “sua ação intriga mais que inquieta e é por isso que não foge da mitologia » (A. Keghel).

Quando se sondam as lendas maçônicas, principalmente através das histórias bíblicas, já que elas dão sustentação à Maçonaria na forma de alegorias, além de articular o primeiro universo de referência construtiva que, por outro lado, será consignado nos catecismos da antiga franco-maçonaria das Antigas Obrigações formando assim os arquétipos que moldaram o imaginário maçônico.

Entre essas grandes referências ao trabalho construtivo, há três marcos principais: de um lado, a Torre de Babel, de outro, o Templo de Salomão e, finalmente, a figura do Mestre Arquiteto Hiram Abif.

Toda essa construção arquetípica em conjunto com outras articulações referenciais de menor entidade compõem o grande arquétipo construtivo da maçonaria moderna, que é o que, finalmente, de toda uma jornada terminará por dar origem a uma nova Maçonaria como os Arquitetos da Razão, em uma nova chave como é o Cosmopolitismo.

Uma construção de todos, nascida sob a utopia de 1717 e no calor das tavernas inglesas que reuniam o mundo iconoclasta eclesiástico dos racionalistas, simbolistas e libertinos latitudinários, uma autêntica Torre de Babel humana em busca de uma utopia nebulosa que ensaiava com a organização da primeira Grande Loja de Londres, uma tentativa primária mesmo com a “palavra perdida” de buscar a verdade à luz da razão.

Ao final se queria deixar a estranha certeza da fé e seus servos, e ainda que a necessária concordância de uma busca conjunta ainda não mediatizasse, buscou-se como primeiro passo naquele estágio semirreligioso inglês algo que não fosse além de constituir-se um “Centro de União”.

Mas essa busca será a germinação da semente que inicia uma longa jornada no escrutínio dos caminhos do conhecimento para encontrar a “linguagem universal” que permitisse aos homens livres se reconhecer como tais e, portanto, caminhar em direção àquela construção universalista, mítica e mitológica que simbolizará o Templo de Salomão, do qual tantos nos falam os textos maçônicos e que não deixa de representar outra coisa senão a ecúmeno.

Esse espírito de busca permanente atravessará o Canal da Macha, deixando para trás o imoralismo cínico para se construir como a verdadeira metáfora dos Arquitetos da Razão, colocando uma ênfase maior, não tanto na união com o establishment religioso e político, como aconteceria na Inglaterra e, assim, ser o Centro de União andersoniano que reunisse os crentes, mas muito pelo contrário esse novo caminho deixa parte dessa posição e se dedica a percorrer o caminho de maneira inversa, para construir um novo simbolismo fundamentalmente ligado aos conceitos republicanos e racionalistas que emanavam das Luzes, procurando uma maneira de não converter a nova utopia em uma religião ou filosofia, pela qual “eles se oporão aos sinais nos espaços e tempos de forte polarização nos edifícios espelhados nos sistemas simbólicos” (Pascal Ory).

Desde 1717, ocorreu uma abertura incomparável, quebrando não só as fronteiras espaciais, mas outra ainda mais difícil, qual seja a fronteira intelectual e conceitual da qual os homens são e devem ser desiguais, mas que, apesar disso, o cosmopolitismo maçônico buscará que a partir da dissensão, todos eles “possam reconhecer-se como iguais”, para poder construir não alegoricamente, mas a partir da práxis, o ecúmeno, o cosmos que será fundado a partir da cultura da mobilidade.

Será a partir da maçonaria francesa pré-revolucionária que essa cultura de início e será quando se colocam as primeiras pedras basais e se propaga a “arte de fazer as pessoas iguais sem que nada percam de sua categoria e sua distinção” (Alain Keghel).

Para isso, será necessário construir esse Templo Salomônico imaginário, mas não cheio de colunas, ou artesanatos que tanto Salomão quanto o mítico Hiram Abif haviam construído metaforicamente como um modelo do conhecimento antigo, embora também deva-se dizer que fora levantado a partir dos planos da diferença e da desigualdade.

Agora, os novos arquitetos, deixando de lado a caridade cristã que impede a justiça, já que dessa forma a ordem social das desigualdades é garantida, fundamentando uma possível mudança na esperança, daí que nas lojas em sua evolução para um novo conceito como a caridade, terão que articular todo um edifício simbólico-ritual de livre circulação baseado fundamentalmente em um novo pilar como é a filantropia, que toma como base fundamental de seu desenvolvimento o secularismo, em uma geometria variável que finalmente modelará o movimento maçônico em dois grandes continentes, um da autodeterminada Maçonaria regular representada pela GLUI, e do outro lado aquela que representa o mundo maçônico variado reivindicado como adogmático.

Será nesse último em que existem muitos elementos simbólicos, muitas escolas, muitos ramos do conhecimento, que cimentarão a partir da diversidade geográfica, política, religiosa e mesmo linguística o novo cosmos universalista mitificado em querer e desejar ser o Centro da Unidade, cuja grande obra se unirá na convicção de acreditar firmemente no progresso da humanidade, quem clamam os rituais, mas cimentado todo ele a partir da secularização.

Isto supõe para os maçons abolir um presente quase perpétuo, na medida que hoje a democracia caiu em uma caricatura, por isso os novos Arquitetos da Razão devem repensar seu projeto social e filosófico não caindo no onanismo das lojas e obediências de que nos fala o ex-Grão-Mestre do GOdF: A. Bauer.

Os maçons precisam trabalhar do meio dia à meia noite para salvar essas grandes distâncias, além da Cadeia de União de seus pares, na medida em que seu trabalho é se afastar da religião e, embora seja secular, seu lugar está longe das revelações místicas, ou das pedras filosofais que vemos com tanta frequência em muitos dos perfis maçônicos, tanto dentro da estrutura como sua expressão em Redes Sociais como o Facebook.

Portanto, a nova maçonaria não deve ser o elemento central do crescimento pessoal, mas outro caminho muito diferente que deve conformar a opção de tornar a maçonaria uma Sociabilidade sob a convicção de que a reflexão e a instrução são as ferramentas para alcançar o desejado Centro da Unidade.

Portanto, é necessário passar à ação, que cada um escolha sua decisão por si mesmo, a partir da conceitualidade máxima de um maçom livre em uma loja livre, que não deixará de ser uma opção legítima de ser o Novum organum da República Universal dos Maçons.

Ou como bem se expressava Jacques-Georges Plumet, a nova República Planetária, assim como os irmãos maçons em 1868 da Amis Philathropes, verdadeiro laboratório de iniciativas sociopolíticas e maçônicas, que criaram naqueles momentos de crise os Ateliers Reunis,cooperativa de alimentos apoiada pelo Município na pessoa do burgomestre e maçom Jules Anspach, que naquela época promoveu cemitérios abertos aos livres-pensadores, aos suicidas e aos mortos sem batismo, toda uma filosofia moral de natureza liberal e secular que promovia a construção de um projeto de sociedade.

Talvez nesses momentos tão abertos aos maçons como Arquitetos da Razão, lhes falte uma verdadeira cultura política de combate e crença no progresso, pelo menos da perspectiva maçônica, pois não é em vão, como dizia Brunno Etienne que “a Maçonaria liberal perdeu sua espiritualidade, sua própria identidade e foi persuadida pela esfera política profana, e esse é o grande perigo que corre».

Mas isso não deve significar abandonar a utopia que começou em 1717, com a quebra de um mundo quase feudal e religioso, mas que manter essa firme crença no progresso da humanidade e chegar a ser o Centro da Unidade deverão ser os novos esquadros e compassos para traçar o novo mundo a partir da Razão.

domingo, 1 de abril de 2018




DA TERRA AO CÉU E DA SUPERFÍCIE AO CENTRO DA TERRA: A EVOLUÇÃO FÍSICA DAS LOJAS MAÇÔNICAS AO LONGO DA HISTÓRIA

Extraído do blog Bibliot3ca - Editor Chefe J. Filardo.


Maquete de uma Loja do Rito Francês ou Moderno


Lucas Francisco Galdeano [1]

Kennyo Ismail  [2]

Ao se compreender a evolução do local de reunião das Lojas Maçônicas, de galpões improvisados em canteiros de obras no período operativo; seguindo para casas de maçons ou salas alugadas ou emprestas em tavernas e outros estabelecimentos comerciais no período pré-especulativo ou período de transição; até a construção dos primeiros edifícios maçônicos no período dito especulativo, mais precisamente a partir do início da segunda metade do século XVIII; buscou-se analisar as características dos locais de reuniões, as salas de loja ou templos maçônicos, a partir dos diferentes ritos maçônicos praticados no Brasil. Verificou-se que a diversidade de ritos praticados no Brasil se reflete na diversidade de decoração, características e elementos presentes em seus locais de reuniões.
Introdução

Aquela considerada a “premier” Grande Loja, tradicionalmente dita fundada em Londres, em 24 de junho de 1717, apresenta em sua antiga constituição, aquela elaborada pelo clérigo James Anderson, mais precisamente na edição atualizada de 1738, que quatro Lojas a fundaram. Essas quatro Lojas se reuniam: Na taberna Ganso e Grelha, ado da Igreja de São Paulo; Na taberna Coroa, ruela Parker; Na Macieira, rua Charles, distrito Jardim do Convento; E na Taça e Uvas, Linha do Canal, Westminster (…) (ANDERSON, 1738, p.109 apud DERMOTT; ISMAIL, 2016, p.40) Isso evidencia a realidade do local tradicional de reuniões das lojas maçônicas do início do século XVIII: tavernas, que eram estabelecimentos comerciais que funcionavam como bar, restaurante e, muitas vezes, também pousadas, com quartos para alugar.

Não iremos nos dedicar ao papel das tavernas, existentes há milhares de anos e que, em especial na Grã-Bretanha, berço do sistema maçônico estabelecido no mundo nos últimos três séculos, ainda exerce importante papel social. Há inúmeros artigos e livros dedicados a tal matéria (i.e.: KUMIN; TLUSTY, 2002).
Esta figura é de autoria do artista e maçom William Hogarth. Feita em 1738, é a última de uma série de quatro pinturas intitulada de “Four Times of the Day”, que pode ser livremente traduzido como “Quatro momentos do dia” e que ilustram cenas de um dia comum em Londres naquela época. A primeira pintura era a “manhã”; a segunda, “meio-dia”; a terceira, “tarde”; e esta, a quarta e última, “noite”. Ela é de relevância à Maçonaria por ilustrar um Venerável Mestre (título relativo a presidente de uma Loja Maçônica) embriagado, sendo auxiliado a andar pelo Cobridor (em inglês, “tyler”, que corresponde ao guarda da reunião).
O Venerável Mestre está trajado com chapéu, um longo avental e um colar com um esquadro como joia. Vê-se uma mulher despejando o conteúdo líquido de um penico sobre sua cabeça, não se sabendo se de propósito ou não. O Cobridor leva uma espada sob seu braço esquerdo, enquanto auxilia o Venerável Mestre embriagado a andar. Eles estão saindo da taverna “Taça e Uvas”, uma das quatro Lojas fundadoras da Grande Loja da Inglaterra. Ou seja, mais de vinte anos após a suposta fundação da Grande Loja, suas Lojas permaneceram realizando suas reuniões em tavernas.

Figura 1. Hogarth’s Night (1738).
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Premier_Grand_Lodge_of_England#/media/ 
File:Hogarth_05.jpg

A figura apresenta outros elementos interessantes. Há um menino no canto inferior esquerdo, soprando uma tocha. Trata-se de um “linkboy”, que era um garoto que andava com uma tocha à noite para iluminar o caminho para pedestres em Londres, antes de surgir a iluminação pública. Graças ao seu sopro, vê-se uma família de sem-teto abrigada abaixo da janela de um barbeiro-cirurgião, que está realizando um procedimento no nariz de um cliente. Atrás do Venerável Mestre e seu Cobridor, vê-se um funcionário de uma das tavernas adulterando o barril de bebida. Essa prática foi eternizada em uma poesia pelo poeta Matthew Prior, que era sobrinho de Samuel Prior, o proprietário da taverna “Taça e Uvas” (LEGG, 1921).

E, ainda relativo ao interesse maçônico pela pintura, vê-se, à direita, um homem portando um esfregão, o que pode sugerir alusão à possível prática das lojas maçônicas da época de desenharem com carvão os símbolos maçônicos no piso do aposento utilizado para reuniões nas tavernas, e apagá-los após o término da reunião.

Assim, compreender a evolução desse modelo de funcionamento retratado na figura e registrado na constituição daquela “primeira” Grande Loja, para os modelos atuais; das tavernas aos complexos templos sagrados; é a intenção deste artigo.
Resquícios históricos2.1. As Lojas e a evolução de seus locais de reuniões

O termo “Loja”, na verdade, está diretamente relacionado ao termo “alojamento”, no sentido de abrigar trabalhadores, sem qualquer relação com o sentido de estabelecimento comercial empregado à palavra “loja” na língua portuguesa atualmente. Esse entendimento é mais nítido ao observar o termo em inglês, “lodge”, pelo qual as lojas maçônicas são chamadas nos países que adotam tal língua, além dos termos em francês, italiano, espanhol e alemão, cujos países europeus berços de tais línguas receberam as primeiras lojas maçônicas quando da expansão a partir da Grã-Bretanha (ISMAIL, 2012).

Stevenson (2009) afirma que essas lojas eram inicialmente construções temporárias nos canteiros de obras, às vezes barracões, nas quais os maçons guardavam suas ferramentas, trabalhavam sobre as pedras protegidos do sol ou da chuva, mas também podiam comer, descansar e, em alguns casos, até viver temporariamente. Essa visão também é seguida por Robert Cooper (2009), que cita um documento de 1491, intitulado “statue anent Masons of St. Gilles”, o qual determina que aos “mestres pedreiros” seja permitido “ter uma recreação na Loja comum” (COOPER, 2009, p.28), o que indicaria que as lojas eram grandes o bastante para reuniões recreativas, por exemplo.

Esses alojamentos, chamados de “lojas”, inicialmente tinham um caráter provisório, sendo dissolvidos ao final da construção. No entanto, conforme surgiram construções que demandavam décadas de trabalho, como as grandes catedrais, castelos e fortes, essas lojas foram sendo desenvolvidas em caráter cada vez mais permanente, com estruturas sólidas e grandes o bastante para atender dezenas de pedreiros. Anderson, em sua já mencionada segunda edição da constituição (1738, p.106-7, apud STEVENSON, 2009, p.267), relata que “lojas particulares eram tão frequentes e, na maioria dos casos, apenas ocasionais no Sul (da Inglaterra), exceto nos lugares onde grandes obras eram executadas, ou perto deles”.

Há, por exemplo, o registro de uma loja de pedreiros com edifício próprio, em Aberdeen, Escócia, em, pelo menos, 1483; que, em 1605, após alguns anos de inatividades da mesma, teria sido reparada e dividida para abrigar três escolas. Assim, vê-se não somente o tamanho e estabilidade da edificação, mas o pioneirismo escocês nesse sentido. Entretanto, há que se observar que, nesse caso, refere-se a uma loja estritamente operativa.

De fato, as três lojas maçônicas mais antigas com funcionamento que possa ser considerado pré-especulativo (concessão de graus com transmissão de modos de reconhecimento) e que se pode documentalmente comprovar são também na Escócia: a Loja de Aitchison’s Haven (BEAVER, 2017), a Loja Mãe Kilwinning e a Loja de Edimburgo “Mary Chapel” (STEVENSON, 2009); todas com séries ininterruptas de atas a partir ainda do século XVI, enquanto que as primeiras atas maçônicas inglesas datam de 1716.

No entanto, as atas dessas e de outras lojas maçônicas da Escócia que funcionavam durante todo o século XVII indicam que as mesmas funcionavam nas casas dos membros, em estalagens ou tavernas.

A primeira dessas lojas com edifício dedicado exclusivamente à Maçonaria foi a Loja de Aberdeen, que adquiriu uma casa de campo para seu funcionamento, em 1700. Em 1712, a Loja de Hamilton discutiu a possibilidade de construir uma sede, mas a proposta não prosperou. Já a primeira construção realizada com finalidade estritamente maçônica teria ocorrido, conforme afirma George Smith (1866), em sua obra “O uso e abuso da Maçonaria”, em 1765, em Marselha, na França. Mas Coil e Brown (1961, p.301) desmentem essa afirmação ao informar que “a honra de ser a primeira a fazer um edifício dedicado exclusivamente aos propósitos maçônicos foi da Filadélfia, onde o templo maçônico foi dedicado em 24 de junho de 1755”.

Os registros indicam que a iniciativa de se construir uma sede própria para a maçonaria inglesa somente ocorreu em 28 de outubro de 1768, quando decidiu-se por um projeto “para buscar o meio mais eficaz de se criar um fundo para construir um Salão e comprar joias, mobiliário, etc., para a Grande Loja” (LIBRARY…, 2006, p.4), o qual foi inaugurado no dia 23 de maio de 1776. Ismail (DERMOTT; ISMAIL, 2016) credita a William Preston e Thomas Durckenley os principais esforços para tal empreendimento.

2.2. O Templo de Salomão e as Lojas Maçônicas

O ritual maçônico mais antigo historicamente aceito que se tem conhecimento, o Edinburgh Register House MS, data de 1696 e menciona em seu cate cismo o Templo de Salomão, não colocando a Loja como uma réplica do mesmo, mas declarando que a primeira Loja se encontrava no pórtico daquele templo e, ao se erguer uma Loja, deve-se observar a direção do ocidente para o oriente, como ele era em Jerusalém (CARR, 2012).

Outro catecismo antigo que faz interessante menção indiretamente relacionada ao Templo de Salomão é o de Dumfries No.4, que afirma que a “nobre arte ou ciência” foi encontrada “em duas colunas de pedra; uma não afundava e a outra não queimava” (STEVENSON, 2009, p.181) Stevenson interpreta que, a partir daí, há uma fusão do conceito dos pilares do conhecimento e das colunas do Templo de Salomão.

Ainda, o famoso Manuscrito Cooke, de cerca de 1410, afirma a tradição de que “o próprio Salomão ensinou-lhes as suas maneiras (isto é, costumes e práticas), que pouco diferem das maneiras ora em uso” (COOKE, 1410 apud HORNE, 1995, p.9), tradição essa que, também presente em outros manuscritos e documentos similares, por muitos anos alimentou as crença de que a Maçonaria possui tal antiguidade milenar e está diretamente ligada ao Templo de Salomão, e não apenas simbolicamente.

Horne (1995, p.16) lamenta o fato de muitos maçons, até mesmo ditos doutos, acabam por confundir tal tradição com uma verdade, ao afirmar que “malgrado todas as indicações em contrário a respeito da origem maçônica do Templo do Rei Salomão, verificamos que nos tempos atuais também se acredita nessa tradição”. Por sorte, alguns pesquisadores sérios sobre o assunto têm levado luz à questão, como no caso de Fort (1881), que, já no século XIX, alertou para o fato de que nem nas Old Charges, no Poema Regius, ou mesmo no Manuscrito de Halliwell, há qualquer afirmação de que a Maçonaria surgiu quando da construção do Templo de Salomão.

2.3. Aspectos do Edifício Maçônico

Atualmente, os edifícios maçônicos são comumente chamados de “templos maçônicos”, em especial nos sistemas de origem latina; e de “salas de lojas” (“lodge rooms”, em inglês), em especial nos sistemas de origem anglo-saxônica. A principal diferença que se vê entre o uso de tais nomenclaturas é o aspecto sagrado nos sistemas latinos, nos quais, em muitos casos, a construção precisa necessariamente passar por uma cerimônia especial de “sagração” ou “consagração”, sendo então condizente o uso do termo “templo”; enquanto que, naqueles sistemas em que se refere ao local de reuniões como “sala da loja”, esse status sacro não se faz predominante.

Enquanto os franceses, precursores da maçonaria latina e de suas edificações, tomaram como modelo de templo as igrejas; os ingleses, precursores da maçonaria anglo-saxônica, tomaram como modelo de sala aquela que era a principal sala de reuniões de Londres: o parlamento inglês. Castellani (1991, p.20) corroborava com esse entendimento, ao defender que a Maçonaria do século XVIII adotou “os modelos que lhe eram mais conhecidos: as igrejas e o parlamento britânico”.

No entanto, independente se o sistema maçônico é de inspiração latina ou anglo-saxônica, há características comuns desejáveis, mas não obrigatórias, conforme apontado por Mackey (1914): Uma Sala da Loja sempre deve, se possível, estar devidamente situada ao Oriente e ao Ocidente. Esta posição não é absolutamente necessária. Mas cabe exigir que alguns sacrifícios sejam feitos, se possível, para obter tal posição desejável. Também deve ser isolada, quando praticável, de edifícios circundantes, e sempre deve ser colocado em um andar superior. Nenhuma Loja deve ser mantida no piso térreo. A forma de uma Sala da Loja deve ser a de um paralelogramo ou quadrado oblongo, pelo menos um terço maior do Oriente ao Oeste do que é de Norte a Sul. O teto deve ser elevado, dando dignidade à aparência da sala, bem como para fins de saúde, compensando, em certa medida, o inconveniente das janelas fechadas, o que necessariamente irá deteriorar a qualidade do ar em um muito pouco tempo em uma sala baixa.
O atual status das Lojas físicas

Ao compreendermos a evolução do local de reunião das Lojas Maçônicas, de galpões improvisados em canteiros de obras no período operativo; seguindo para casas de maçons ou salas alugadas ou emprestas em tavernas e outros estabelecimentos comerciais no período pré-especulativo ou período de transição; até a construção dos primeiros edifícios maçônicos no período dito especulativo, mais precisamente a partir do início da segunda metade do século XVIII; dediquemos esforços para analisar as características dos locais de reuniões, as salas de loja ou templos maçônicos, a partir dos diferentes ritos maçônicos praticados no Brasil.

Para tanto, tomamos por base as descrições e layouts disponíveis nos rituais do grau de Aprendiz Maçom dos sete ritos adotados pelo Grande Oriente do Brasil, além do Rito de York, de origem norte-americana, versão da Grande Loja do Estado de New York traduzida para o português e adotada pela maioria das Grandes Lojas da CMSB e Grandes Orientes da COMAB.

Entre as características, levantadas, algumas possuem diferentes nomenclaturas para um mesmo elemento. Como exemplo, tem-se o “livro sagrado”, que pode aparecer como “livro das sagradas escrituras” ou mesmo “livro da lei”. O mesmo com o “altar dos juramentos”, em alguns casos chamado apenas de “altar” e, no caso do Rito Moderno, “altar dos compromissos”. Optamos por adotar o termo mais comum entre eles, considerando que a presente pesquisa não tem objetivo terminológico, mas simbológico.

Outra regra adotada foi quanto à forma de tais características. Optou-se por distinguir quanto à forma ou relevância, mas apenas pela visão binária do elemento estar visualmente presente ou não no local de reuniões, mesmo que apenas de forma ilustrada, ou seja, desenhado em um painel ou tapete exposto no local.

Quadro 1: Quadro Comparativo de características e elementos nas Salas e Templos dos diferentes ritos maçônicos praticados no Brasil.Fonte: elaborado pelos autores.

Fonte: elaborado pelos autores.

Ao analisar o quadro apresentado, observa-se que há uma presença maior de elementos nos ritos de origem latina no que daqueles de origem anglo-saxônica, o que, acreditamos, se deve ao aspecto sagrado dado ao local de reuniões maçônicas nos primeiros, conforme mencionado anteriormente, o que pode ser reforçado ao observarmos os elementos adicionais comuns aos ritos latinos: oriente elevado, balaustrada, delta, dossel, altar dos perfumes e abóbada celeste. Tais elementos não estão diretamente ligados à simbologia estritamente maçônica, ou seja, ao operativismo e à ritualística, ou mesmo com o Templo de Salomão. São elementos comuns a igrejas católicas medievais, templos sagrados majoritários no mundo latino quando do século XVIII, período inicial do surgimento dos primeiros templos maçônicos.

Os ritos que apresentaram maior concentração de elementos foram o Rito Escocês Antigo e Aceito e o Rito Brasileiro, sendo este último inspirado no primeiro, contendo, ambos, a mesma quantidade de elementos, 22, e a mesma quantidade de graus maçônicos, 33. O rito que apresentou menor quantidade de elementos, tendo, assim, um local de reuniões mais próximo do período de transição operativo-especulativo, ou pré-especulativo, foi o Rito de Schroeder, com apenas 5 elementos: o livro sagrado, o esquadro e o compasso; castiçais junto aos três principais oficiais ou luzes; as três luzes menores (três pedestais de vela única); as pedras bruta e polida; e o painel do grau que, no caso do Rito de Schroeder, tem a forma de um tapete, o que é outra característica “pré- especulativa”. O segundo rito com menos elementos é o Rito de York (norte-americano), com 11 elementos, empatado com seu irmão mais novo, o Ritual de Emulação (de origem britânica). Dentre os ritos latinos, os que apresentam templo mais simples são o Rito Escocês Retificado e o Rito Moderno, cada um com, respectivamente, 16 e 18 elementos.

Um livro da lei acompanhado do esquadro e do compasso, e as pedras bruta e polida, são os únicos dois elementos comuns a todos os ritos. Eles, de certa forma, estão conectados aos princípios de regularidade maçônica mais comuns entre as obediências: que o compromisso ou juramento seja assumido perante as três grandes luzes (livro, esquadro e compasso), e que deve haver simbolismo baseado na maçonaria operativa (ISMAIL, 2012).

Dentre as exceções, temos a ausência de Sol e Lua; dos estrados ou estações dos três oficiais principais; das colunas J e B; e do pavimento mosaico; apenas no Rito de Schroeder. Já o Rito de York é o único com ausência de um painel ou tapete do grau.

Há também aqueles elementos que somente estão presentes em um único rito. O Rito Escocês Antigo e Aceito, conforme praticado no Brasil, apresenta as adições de mar de bronze e colunas zodiacais. O Rito Brasileiro é o único que oficialmente exige a presença das estátuas de três deuses, Athena, Hércules e Vênus, apesar de adornar os templos de outros ritos ultimamente. E o Rito Adonhiramita é o único que prevê a presença em seu templo de um sino e um altar da chama sagrada.
Considerações finais

A diversidade de ritos praticados no Brasil se reflete na diversidade de decoração, características e elementos presentes em seus locais de reuniões. Enquanto os ritos anglo-saxônicos tornam possível que as lojas maçônicas que os praticam trabalhem em qualquer sala fechada, bastando, para isso, que alguns móveis sejam providenciados e utensílios maçônicos que, de forma geral, cabem em uma caixa, sejam levados, os ritos de origem latina demandam um maior investimento de tempo e recursos financeiros na construção ou reforma de espaços próprios para uso das lojas.

Dessa forma, enquanto o primeiro grupo de ritos, o de origem anglo-saxônica, está mais próximo das práticas maçônicas pré-especulativas, do período ilustrado por William Hogarth; o segundo grupo, de origem latina, parece ter implementado elementos não-maçônicos, emprestados de outras tradições, conforme o desenvolver de seus graus. As colunas zodiacais, por exemplo, relacionadas à Astrologia, arte distante do operativismo maçônico.

A análise realizada sobre o quadro comparativo das características apresentadas de cada rito levanta a hipótese dos ritos de origem latina terem adotado elementos religiosos, em especial católicos, por influência da hegemonia católica nos países latinos europeus. Suposições quanto à similaridade entre o mar de bronze de uma loja maçônica e a fonte de água benta de um igreja, inclusive quanto a suas posições nos respectivos templos; assim como entre o oriente elevado e sua balaustrada com os altares elevados com suas grades; ou mesmo a abóbada celeste, comum entre ambos; além de outras características similares, reforçam tal hipótese e merecem atenção em eventuais futuras pesquisas.

Por fim, fica o questionamento quanto a influência que elevados preços no mercado imobiliário, em material de construção e mão-de-obra na área pode ter sobre grupos de maçons em processo de fundação de novas lojas maçônicas, quanto especificamente a escolha do rito a ser adotado pelas mesmas.
Referências

BEAVER, H. Guinness World Records. Vancouver: Jim Pattison Group, 2017.
CARR, H. O ofício do maçom: o guia definitivo para o trabalho maçônico. São Paulo: Madras, 2012.
CASTELLANI, J. Origens Históricas e Místicas do Templo Maçônico. São Paulo: A Gazeta Maçônica, 1991.
COOPER, R. D. Revelando o código da Maçonaria. São Paulo: Madras, 2009.
DERMOTT, L.; ISMAIL, K. Ahiman Rezon: A Constitui- ção dos Maçons Antigos. Londrina: Editora Maçônica A Trolha, 2016.
FORT, G. F. The Early History and Antiquities of Freemasonry, As connected with Ancient Norse Guilds, and the Oriental and Medieval Building Fraternities.
Filadelfia: Bradley & Company, 1881.
HOGARTH, W. Hogarth’s Night. In: Four Times of the Day. Acesso: https://en.wikipedia.org/wiki/Premier_Grand_Lodge_of_England#/media/ File:Hogarth_05.jpg Acessado em: 15 de julho de 2017.

HORNE, A. O Templo do Rei Salomão na Tradição Maçônica. São Paulo: Editora Pensamento, 1995.

ISMAIL, K. Desmistificando a Maçonaria. São Paulo: Universo dos Livros, 2012.

KUMIN, B.; TLUSTY, B. A. The World of the Tavern: Public Houses in Early Modern Europe. Abingdon, UK: Routledge, 2002. LEGG, L. G. W. Matthew Prior: a study of his public career and correspondence. Cambridge: University of Cambridge Press, 1921.

LIBRARY AND MUSEUM OF FREEMASONRY. The Hall in the Garden: Freemason’s Hall and its place in London. Londres: Lewis Masonic, 2006.

MACKEY, A. G. An Encyclopedia of Freemasonry and its kindred sciences. New York: The Masonic History Company, 1914.

S.G.C.M.R.A.B. Ritual de Aprendiz do Rito de York: o Rito Inglês Antigo. Rio de Janeiro: Zit Gráfica e Editora, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito Schroder. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito Escocês Retificado. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito de York. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito Moderno. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito Brasileiro. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

SILVA, M. J. Ritual do 1o. Grau: Aprendiz-Maçom do Rito Adonhiramita. São Paulo: Grande Oriente do Brasil, 2009.

STEVENSON, D. As origens da Maçonaria: O século da Escócia (1590-1710). São Paulo: Madras, 2009.
NOTAS

[1] Lucas Francisco Galdeano tem Pós-graduação Lato Sensu em História da Maçonaria pela Universidade Cruzeiro do Sul / UDF. Atual Grão-Mestre do Grande Oriente do Distrito Federal – GODF/GOB, foi Grande Secretário Adjunto de Educação e Cultura do Grande Oriente do Brasil (1993-2001).

[2] Kennyo Ismail é Bacharel em Administração pela UnB, com MBA em Gestão de Marketing pela ESAMC e Mestrado Acadêmico em Administração pela EBAPE-FGV. É professor de pós-graduação em História da Maçonaria na UnyLeya e em Maçonologia na Uninter.

quarta-feira, 21 de março de 2018



O CAMINHAR DE UM COMPANHEIRO MAÇOM 


Por José Roberto Cardoso (adaptação de texto)

O Painel do Grau de Companheiro maçom ilustra o caminho tortuoso da vida em que deve trilhar para alcançar o grau de Mestre Maçom 

Nele estão presentes 15 degraus, dispostos em 3, 5 e 7. 

Na escada em caracol, nos três primeiros degraus estão os primeiros passos que o Companheiro Maçom percorreu na escada em caracol onde, ainda como aprendiz, tomou conhecimento das ferramentas que teria que utilizar para dar início ao desbaste da pedra bruta que nada mais é que ele próprio. Superada esta fase o Companheiro Maçom deverá ter aguçado os seus sentidos (paladar, tato, visão, audição e olfato) para aprender a discernir as coisas. 

Depois ele passa a ter contato com o Trivium (Gramática, Lógica e Retórica) e, em seguida com o Quadrivium (Aritmética, Música, Geometria e Astronomia), que são as chamadas Sete Artes Liberais. 

Ao contrário do que muita gente pensa, as artes liberais são mencionadas já na antiguidade, tendo, também, seus ensinamentos adotados na Idade Média. 

“Analisando fatos históricos podemos observar que as Artes Liberais estiveram presentes em civilizações antigas. Precisamos nos ater de que as primeiras escolas do ocidente e a própria origem do ensino na humanidade coincidem com a história das Artes Liberais, que ficaram conhecidas na Grécia, mas que já existiam em civilizações anteriores. Esta forma de ensino era chamada de Educação Liberal e posteriormente ganhou outros desenvolvimentos e nomes como Escolástica[1] e Educação Clássica. Para estudar as origens das artes liberais é preciso reviver a própria origem das civilizações, do cálculo e da escrita, e esta história é a própria história da Ciência e da Educação na humanidade”. 


Mapa do Crescente fértil: origem das primeiras civilizações. 

“Se considerarmos as sagradas escrituras, o repovoamento da humanidade aconteceu a partir do desembarque de Noé, com seus filhos Sem, Cam e Jafé e respectivas esposas, no monte Ararat, localizado na atual Turquia. Fica fácil, então, entender porque as primeiras civilizações se desenvolveram no chamado crescente fértil, como afirmam os historiadores. Local de clima quente que abrange o Egito, o Levante (hoje sul da Turquia, Síria, Líbano, Israel e Jordânia) e a Mesopotâmia (atual Iraque), que banhados respectivamente pelos rios Nilo, Tigres e Eufrates e pelo Jordão e seus afluentes, era o local de maior fertilidade do mundo antigo. No crescente fértil se desenvolveram as primeiras cidades e as primeiras civilizações: sumérios, acadianos, assírios, caldeus e egípcios. [1]” 

“A maioria dos especialistas reconhecem o surgimento da escrita entre 4000 a.C. e 3500 a.C. na Suméria na região da Mesopotâmia, que significa entre rios, por se localizar entre os rios Tigres e Eufrates, onde hoje é o Iraque. A escrita marcou o fim da pré-história, sendo possível então o registro para as futuras gerações. O estudo destes registros a história que nos é possível conhecer. A escrita, inicialmente, era ensinada por sacerdotes e principalmente de pai para filho, em ensino domiciliar, que é uma das primeiras formas de ensino da humanidade, sendo a família a primeira escola.” 


Epopeia de Gilgamesh em tabuleta de barro datada de 1200 a.c. em escrita cuneiforme acadiana. 

“Dentre os primeiros textos literários que se tem notícia estão textos e poemas sumerianos cravados em tabuletas com escrita cuneiforme, como a que conta o dilúvio mesopotâmio, a famosa epopeia de Gilgamesh (2000 a.C); os Provérbios de Ki-em-gir (2600 a.C.); os Hinos de Enheduana para Inana (2300 a.C.); a Lista de Reis da Suméria (2125 a.C.); as inscrições nas pirâmides de faraós (2425 a.C.); os textos dos sarcófagos egípcios (2250 a.C.); A lenda de Sargão de Acádia (2300 a.C.) e Conselho de um pai acadiano a seu filho (2200 a.C.). Estes textos, a exceção do primeiro, podem ser lidos no livro Cartas da Humanidade. [2]” 

“A origem da escrita, e consequentemente da história e da literatura, criaram as bases para a sistematização da ciência da gramática, da retórica, da dialética e da lógica. Porém onde estas artes foram estudadas e ensinadas pela primeira vez?” 

“Para Hugo de São Vitor o Egito é a mãe das artes liberais e, de lá que foram posteriormente para a Grécia por volta do século V e IV antes de Cristo. Tales, Pitágoras e Parmênides provavelmente beberam da fonte egípcia e criaram os primeiros centros de ensino da Grécia, onde eram transmitidos as artes liberais e os ensinamentos destes mestres de forma oral e sem salas de aula, como hoje.” 

“Platão também viajou ao Egito para aprender as artes liberais e voltando à Grécia, criou a Academia em 387 a. C., nos jardins de Academos, em Atenas, donde provém o nome de sua escola. Instituiu a lógica racional e ensinou filosofia e matemática por meio de questionamentos. Seu principal discípulo, Aristóteles criou sua própria organização, o Liceu, ampliou a lógica de seu mestre e sistematizou o estudo da retórica, que já era ensinada por sofistas como Górgias, mas foi Aristóteles que a elevou a elemento chave da filosofia, junto com a dialética e a lógica. Em 343 a.C., Aristóteles torna-se preceptor de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia. A partir de então, para as famílias mais abastadas tornou-se comum contratar um mestre para instruir e guiar as crianças nos estudos, a exemplo de Aristóteles e Alexandre.” 

“A origem do cálculo é bem remota, sabe-se que existia desde os babilônios, egípcios e chineses muito antes do século IV a.C., mas foi a partir Pitágoras de Samos (570 a.C a 495 a.C.) que a matemática foi organizada como ciência. Ele escreveu o Matentetrade, que era o livro da doutrina do que depois foi chamado de Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). [3]” 

“De acordo com Hugo de São Vitor em seu livro Didascalicon, a astronomia era atribuída à Cam, filho de Noé, sendo os primeiros a ensinar astrologia aos Caldeus. Josefo esculpiu Abraão como o fundador da astrologia no Egito. [3] Os antigos egípcios atribuíam a origem desta ciência ao Toth, conhecido também como Hermes na tradição grega e Mercúrio na romana. Alguns gregos atribuíam a origem da astrologia a Zoroastro ou Zaratrustra, que viveu na Assíria (depois conhecida como Pérsia e hoje Irã), foi o fundador da ordem dos magos (sim, a mesma que pertencia os três reis magos!) e de onde se originou uma das mais antigas religiões: o zoroastrismo. Escreveu um dos textos mais antigos que se tem notícia, o Gâtha, que é parte do Avesta, livro sagrado do zoroastrismo. Sabe-se pouco de sua vida e de quando viveu, mas os gregos estimam que vivera há cerca de 6000 antes de Platão, mas comparando outras fontes que são bem controversas, parece ser um exagero. O Gâtha é datado em termos linguísticos no século XIV ou XIII a.C. [2]” 

“A palavra escola deriva do grego σχολή (scholē), originalmente significa pausa, suspensão do trabalho, ou seja, o tempo livre que se tem para empreender livremente o que lhe interessa. Por conta disso este termo ganhou também o significado de “lazer”, pois é o que se faz geralmente no tempo livre. Então, escola originalmente é o local que uma pessoa emprega seu tempo livre para se instruir, por livre escolha e porque gosta (lazer). O conceito de escola está, desde sua origem ligado e, provavelmente foi determinado, pelo de arte liberal, que é a arte do homem livre, que por sua vontade decide estudá-la e este era o pré-requisito para a Educação Liberal. Nem todos homens eram livres, ou dispunham de tempo livre, e dentre os que dispunham nem todos escolhiam empreendê-lo na instrução das artes liberais.” 

“A palavra escola foi usada no latim para designar o mesmo significado que hoje no reinado de Carlos Magno, com as primeiras escolas para crianças, jovens e adultos. O rei franco ordenou a criação de escolas em cada corte (escolas palatinas), mosteiro (escolas monacais) e diocese (escolas catedrais). Todas eram dirigidas por um eclesiástico, subordinado ao bispado, o scholasticus, que significa aquele que empreendeu seu tempo livre para a instrução, ou seja, o instruído e instrutor.” 

 Sala de aula em iluminura carolíngia 

“Também durante o reinado de Carlos Magno se inicia o movimento filosófico conhecido como escolástica, que ganhou esse nome por seu conteúdo ensinado naquelas escolas: a integração cada vez maior da filosofia grega com o cristianismo e o ensino das sete artes. Até então, no século VII, o conhecimento das artes liberais e da filosofia grega estavam conservados nos mosteiros e catedrais.” 

“As obras fundamentais do Trivium carolíngio, além das de Alcuíno, figuram os manuais de gramática de Donato, Prisciano, para a retórica a obra de Cícero e poetas como Virgílio e Ovídio, para a dialética[2] a tradução de Boécio da obra de Aristóteles, a leitura bíblica acompanhada dos comentários dos padres, como Gregório Magno.” 

“A reunião das sete artes no Trivium e Quadrivium foi organizada por Alcuíno de Yorque com objetivos didáticos para as escolas do reino de Carlos Magno, como vimos em Carlos Magno e os pilares da civilização ocidental. Porém o próprio Alcuíno faz referência às sete artes ao templo de Salomão, cerca de 500 anos antes dos primeiros mestres gregos: 

“Discípulo: De qualquer modo que estas coisas devam ser ditas, rogamos que nos sejam apresentadas aos primeiros escalões da sabedoria, para que concedendo Deus e ensinando você, sejamos capazes de chegar desde as coisas inferiores até as superiores. 

Mestre: Lemos, quando disse Salomão, por quem a Sabedoria disse de si mesma: ‘a sabedoria edificou sua casa, levantou suas sete colunas’. Esta sentença corresponde à sabedoria divina, a que construiu sua casa no útero virginal, ou seja, o corpo, a fortaleceu com os sete dons do Espírito Santo, e inclusive iluminou a Igreja, que é a casa de Deus, com os mesmos dons. No entanto, a sabedoria é fortalecida pelas sete colunas das artes liberais, de outro modo não conduz a ninguém ao conhecimento perfeito se não for exaltado por estas sete colunas ou escalões”. (p. 71) [4] 

De acordo com as pesquisas de Lidice Canella, em seu livro “As viagens dos Vassalos do Rei Salomão ao Rio das Amazonas”, o templo de Salomão contava com três andares de 30 salas cada um, a parte reservada ao culto era bem reduzida, o terceiro andar guardava incalculáveis tesouros e os dois primeiros funcionavam como salas de aula de uma espécie de universidade, onde se ensinavam as sete artes (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia) além de Filosofia, Botânica e Zoologia. Esta universidade existente no templo de Salomão deu origem às escolas de mistérios, guildas e religiões fundadas na transmissão oral destes conhecimentos com objetivo de libertar o homem do irracionalismo, do fanatismo religioso e das condições que levavam tantas vezes à guerra. 

“Tendo como fundamento essas escolas que funcionavam no Templo, pode-se entender porque um aprendiz dos ensinos do Rei Salomão deve: falar pouco e bem (gramática e retórica), exprimindo a verdade (lógica); deve saber contar e medir seu pensamento, seus projetos e ações (aritmética e geometria), vivendo em harmonia com seus semelhantes (música), mantendo-se humilde diante do Grande Arquiteto Universal, mirando-se no exemplo de atração e harmonia existente entre os astros (astronomia)”. (p. 316) [5] 

Templo do Rei Salomão 

Se considerarmos a afirmativa acima como verdadeira, temos então o ensino das artes liberais no templo de Salomão como a mais antiga fonte de todas acima citadas, datando então de mais de 900 a.C., sendo o templo de Salomão a primeira escola e universidade organizada e a provável origem das sete artes liberais e, provavelmente até de outras ciências, como as citadas botânica, zoologia e a própria filosofia. Naquela época já havia comunicação entre todo o mundo conhecido e não é difícil imaginar que no templo de Salomão se aperfeiçoou artes antigas e se originou possivelmente outras tantas. E que estas mesmas fossem preservadas no Egito, na Mesopotâmia e na Grécia e também na transmissão oral como a tradição judaica e sufi, respectivamente de hebreus e árabes. 

Como vimos, a origem de cada uma das artes liberais é cercada de mistérios ainda a serem desvendados. A história das artes liberais é a própria história da ciência na humanidade, assim como a história da Educação Liberal, a própria história da educação e do ensino. Das artes liberais se originaram as primeiras escolas, currículos, didáticas, os primeiros mestres e discípulos, professores e alunos. 

Então, são esses ensinamentos que o Companheiro deve buscar para que seja um verdadeiro Mestre a guiar discípulos e não um cego conduzindo cegos. 

Para ser um bom Mestre é necessário estudo e perseverança na absorção dos ensinamentos que o transformarão em um Ser Espiritual, voltado à prática da Fraternidade e da Solidariedade humana. 

Texto de Thiago Brum Teixeira: A Origem das Artes Liberais, com alguns complementos feitos pelo Ir.´. José Roberto Cardoso. 

BIBLIOGRAFIA 

[1] BEITZEL, Barry J. Atlas da bíblia: Os acontecimentos, as pessoas e os lugares da Bíblia: do Gêneses ao Apocalipse. Barueri, SP: Girassol, 2014. 

[2] BORGES, Márcio. Cartas da Humanidade: civilização escrita à mão. Cinco mil anos de história em 141 cartas imemoriais. São Paulo: Geração Editorial, 2014. 

[3] S. VÍTOR, Hugo de. Didascalicon: A arte de ler. Campinas, SP: Vide Editorial, 2015. 

[4] ALCUÍNO de York. De vera philosophia. In: RIVAS, R. Alcuíno de York: Obras Morales. Espanha: EUNSA, 2004. 

[5] CANELLA, Lidice. As viagens dos Vassalos do Rei Salomão ao Rio das Amazonas. João Pessoa, 2011. 


[1] Escolástica ou escolasticismo (do termo latino scholasticus, e este por sua vez do grego σχολαστικός [que pertence à escola, instruído]) foi o método de pensamento crítico dominante no ensino nas universidades medievais europeias de cerca dos séculos IX ao XVI. Mais um método de aprendizagem do que uma filosofia ou teologia, a escolástica nasceu nas escolas monásticas cristãs,[1] de modo a conciliar a cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega.[2] Colocava uma forte ênfase na dialética para ampliar o conhecimento por inferência e resolver contradições. A obra-prima de Tomás de Aquino, Summa Theologica, frequentemente, é vista como exemplo maior da escolástica. 

[2] Dialética – il - em sentido bastante genérico, oposição, conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos. fil no platonismo, processo de diálogo, debate entre interlocutores comprometidos com a busca da verdade, através do qual a alma se eleva, gradativamente, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. fil no aristotelismo, raciocínio lógico que, embora coerente em seu encadeamento interno, está fundamentado em ideias apenas prováveis, e por esta razão traz em seu âmago a possibilidade de ser refutado. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018




Lewis – Os Filhos do Lobo


Por Luciano Rodrigues - Blog "Filhos de Hiran"

O Lewis ou o Lobo é um dos dispositivos que permitiam que um Maçom operativo levantasse cargas de pedras pesadas, dos tamanhos exigidos pelo planejamento da construção, e que os colocasse com segurança e precisão no local escolhido. 

O símbolo apresentado, tem o formado de um tripé, ou seja, três pernas conectadas por um sistema de cordas e polias, a uma pedra cúbica polida. Aparece em alguns painéis do grau de aprendiz e sua função e significado simbólico é explicado em alguns rituais, mas não em todos os ritos. 


Este símbolo, visto globalmente, evoca outras imagens: por exemplo, o delta luminoso, a conexão entre o ternário e a unidade e a subida do fio condutor. O próprio Lewis, uma ferramenta dos construtores de pedras, é a peça de metal na forma de cauda de pato que é inserida na pedra e conectada à corda e às polias, permitindo a ação de elevação. 

O nome de Lewis provavelmente vem do latim “leuis”, o que significa levantar-se. O orifício especificamente formado para acomodar o dispositivo é chamado de “furo no Lewis” ou “lugar do Lewis”. Ele é preenchido com a mesma argamassa da construção após a colocação da peça. 



De acordo com certas fontes, Lewis seria originalmente do termo francês “Lobo”, cujo uso é documentado desde 1611 e uma segunda explicação é a que se refere à analogia entre o arco, símbolo de constância e perseverança, e o maxilar de um lobo, onde sua presa é impossível de se libertar quando é atacada. Esta etimologia proposta, demonstra a função do Lewis e o conjunto em que está inscrito, constituindo a ferramenta de levantamento, própria do ritual de emulação; ritual cuja transmissão, ocorre na tradição inglesa, normalmente de forma oral, partindo do princípio de que se aprende praticando, sem escrever. 


O ritual de emulação não inclui referências alquímicas e outros elementos da “fantasia da imaginação” que caracterizam os ritos de origem francesa. 

Por exemplo, a circunvolução, o princípio da purificação pelos elementos e as viagens na cerimônia de iniciação que são praticadas por alguns ritos continentais. Trabalhando na “Glória do Grande Arquiteto do Universo”, os ritos repletos de referências judaico-cristãs, são caracterizados pela predominância do ritual sobre as pesquisas, porque, como alguns afirmam, “o coração da Maçonaria está dentro de seu ritual”. 

Então, tradicionalmente, no ritual de emulação (praticado na Inglaterra), há poucos ou nenhum trabalho (peça de arquitetura) nas sessões, mas mantém a possibilidade de apresentação destes, durante os ágapes. Permito-me aqui apresentar um ponto especial e importante desse ritual, que indica uma diferença nos costumes de alguns maçons continentais: O direito de falar é dado aos aprendizes! … e eles usam! 

Aqui, uma interessante explicação é necessária: os ritos ingleses praticam o princípio do “aprendiz adotado”, o “aprendiz recebido” e o “aprendiz admitido”. 

O aprendiz adotado é a condição ao lidar com o filho de um Maçom, chamado “louveteau” (em francês), o filho do lobo, e estará isento de investigação social ao ingressar na ordem. No Brasil, foi adotado o nome “Lowton” para esta condição. 

O aprendiz recebido é o candidato leigo, que ainda não foi iniciado, mas que se beneficia de algumas instruções antes da cerimônia. 

O aprendiz admitido é aquele que já foi iniciado e participa dos trabalhos da loja. O silêncio não é mais imposto, mas proposto, o que de modo algum diminui a importância inicial e o leva se perguntar sobre sua própria jornada. Isso também implica, que o mais antigo aprendiz admitido é aquele que dá a primeira lição aos novos iniciados durante a cerimônia de recepção. 

Uma vez que o cenário está explicado, voltamos para o Lewis, o lobo. Uma primeira observação: o lobo levanta uma pedra cúbica esculpida e não uma pedra áspera. 

No estudo deste símbolo, escolhi usar as referências bíblicas por causa do contexto e do ritual judaico-cristão. E também e acima de tudo, porque esse texto pode ser usado como fonte de elementos simbólicos, sem qualquer tipo de abordagem verdadeiramente religiosa; O Tetragrammaton é então entendido como uma referência à essência do Ser, seja essa fonte chamada Deus, GADU ou outro. 

Dentro de uma cerimônia no ritual de emulação, uma análise do painel da loja fornece os elementos de explicação dos símbolos que são representados e que incluí o Lewis, no grau de aprendiz. A explicação do ritual afirma que … “a pedra bruta é o símbolo do homem na sua infância ou nos estágios iniciais de sua vida”, enquanto a “pedra cúbica simboliza o homem ao declínio de seus anos”. A transição de um para o outro é realizada pelo iniciado, “graças à atenção amorosa e vigilante de seus pais ou seus mestres, dispensando uma educação liberal e virtuosa, que eleva sua alma”. Essa pedra cúbica ou pedra polida representa, veremos mais tarde, uma pedra fundamental. 

Na explicação do painel da loja, exposta ao novo iniciado durante a cerimônia, nos fala em primeiro lugar da transmissão da Força usada na ação de levantar a pedra, em vez de evocar a Força no que a transmissão se baseia. Ela ressalta que “O Lewis ou o lobo, simboliza a Força”. 

O Lewis transmite a força de elevação e possibilita o deslocamento da pedra a que está ligada. O processo de transmissão das forças na elevação da pedra, ilustra um dos propósitos da ligação simbólica entre o Lewis e a Força: cada um deve enfrentar suas dificuldades, algumas vezes consideradas demasiado pesadas para os componentes de nossa personalidade, mas que mesmo pesado, temos que fazer esforços para carregá-los. 

O Lewis, ilustra a transmissão da força para mover a pedra que parece muito pesada, e então elimina qualquer tentação de ignorar algumas das pedras que compõem nosso caráter, por medo de não poder agir sobre elas. O que serve também em relação ao que enfrentamos em termos maçônicos. Essa força leva à consolidação da consciência, a capacidade de se estruturar em torno das pedras fundamentais que são nossas construções culturais em constante adaptação. 

Além disso, de acordo com a explicação maçônica, “Lewis é o nome dado ao filho de um maçom. Ele ajuda seus pais a suportar o fardo dos problemas diários que ele deve encontrar por causa de sua idade, sua ajuda em momentos de necessidade e, assim, faça o resto de sua vida feliz e livre de preocupações … Se a educação for boa, o lobinho se torna o apoio de seus pais, se a educação tiver êxito, se a transmissão for recebida, então a criança cuidará de seus pais”. 

A iniciação maçônica mantém um forte vínculo com a ordem social e torna-se uma filigrana como meio de salvaguarda. O símbolo é principalmente um instrumento de reprodução de uma determinada sociedade, particularmente em certas classes sociais, por sua moralidade social, não importa se se reconheça que certas escritas enunciam os princípios de tolerância mútua que algumas famílias, hoje em dia, podem ignorar. “Ao fazê-lo, ele (o lobinho) terá o privilégio de ser recebido Maçom antes de qualquer outra pessoa, tão digno e merecedor quanto ele”. 

Assim, este símbolo, dentro da tradição maçônica que o emprega, representa, em primeiro lugar, uma visão moral da sociedade e um código de conduta na forma como um pai educa seus filhos e os filhos honram seu pai. E ninguém pode negar, embora nos preocupe, que o caminho maçônico constitui uma educação que também tem a função de assegurar a reprodução da sociedade em que atua. 

A maçonaria torna-se assim o guardião da ordem social, o paradigma da civilização. E o prêmio para o filho, como mérito, mas também para o pai, é a concessão de privilégios no processo de integração na loja. 

Esse reconhecimento da qualidade do Lewis ao filho do maçom, também pode, sob certas regras, ser objeto de uma cerimônia e permitir que este use um avental especial. Mas esse reconhecimento não é equivalente a uma iniciação e não lhe permite participar como membro de pleno direito da loja. A explicação também lembra a todos os que participam da cerimônia, que a pedra não é removida mais do que o estritamente planejado em um projeto arquitetônico que organiza uma transmissão e uma recepção, e que acompanhar esta construção possibilita a evolução. 

O confronto consigo mesmo, dá a cada passo a habilidade de dizer “eu”, de ser consciente e encontrar seu lugar como pedra na arquitetura. A importância da alteridade na construção de uma capacidade de pensar sobre si mesmo como indivíduo no “caminho do ser” para compreender o Ser na temporalidade, e reafirmar, recordar a todos aqueles que experimentaram a iniciação, que estão sozinhos quando nascem e vão morrer sozinhos, porque a experiência é em grande parte incomunicável. Mas também recorda que lhe permite progredir e somente a introspecção tornada possível pela ritualística em cada reunião, é integrada em cada um, à sua maneira. 

Paremos por um momento no ponto preciso de ancoragem, no cubo de pedra do Lewis. Esta ancoragem sofre tanto com as forças gravitacionais, como com as forças de elevação utilizadas para levantar a pedra na Força pela qual a Elevação torna-se possível. 

Assim, o movimento ocorre quando as forças da oposição não são equilibradas, mas ainda é necessário que esse movimento seja sinônimo de criação e progresso, de que as forças que nos impulsionam a olhar para trás e a nos envolver, não são mais poderosas do que o profundo desejo de libertação, que o chamado da luz que um dia nos levou a bater na porta do templo. 

Neste ponto, devemos retornar. 

É verdade que a câmara de reflexão não existe no ritual da emulação, mas para aqueles de nós que são de ritos que o possui, o ponto de ancoragem do Lewis somos nós e nos conecta, especialmente, ao VITRIOL. 

O profano é colocado na câmara de reflexão para lhe indicar, por meio de símbolos, que a iniciação exigirá que ele vá ao centro de si mesmo, ao ponto de ancoragem do Lewis, ponto de apoio para seus esforços. E para essa jornada imóvel, é que ele começará a identificar os múltiplos componentes do que ele verá durante sua iniciação. A Cabala ensina que a criação do mundo nasceu de um “tsimtsoum”, um movimento de retração do Ser que abriu a possibilidade de que o universo existisse e ofereceu à humanidade, um espaço onde o acesso ao pensamento e ao livre arbítrio foi concedido. 

A iniciação, pelo silêncio, oferece a descoberta de um maçom, abre-se às fases de introspecção e externalização, contração e expansão da consciência e neste duplo movimento, leva à compreensão da complexidade, da alteridade interna e externa que compõe a unidade da sua consciência. 

Este ponto de ancoragem, será o ponto de retração, o primeiro ponto do Tsimsoun interior, antes de uma fase de expansão? 

Existe algum ponto que relaciona o aspecto humano, a um componente do sagrado? 

Eu falo aqui sobre o Ser, que alguns acreditam refere-se à fé e referência a Deus. Mas, talvez seja algo mais simples, mas muito mais perturbador, o ponto de origem dos impulsos do ponto, de onde o EGO devorador se estende. 

E quando o trabalho de iniciação não ocorre da maneira correta, quando um elemento não vai ao lugar desejado, não corremos o risco de elevar a pedra cúbica através de um EGO muito afiado? 

Alguns podem pensar que, se o ponto de união, o ponto de partida, se refere a Deus, a iniciação se refere à vontade divina; outros que, se o ponto de ancoragem fosse o VITRIOL, o iniciado abriria os canais internos da maneira apropriada. 

Nessa abordagem, a primeira hipótese é determinista, enquanto que no outro, o iniciado se abre para o mundo voluntariamente. 

Blibliografia 
Uma adaptação ao texto “Les Enfants de la Louve” de autor não identificado.