segunda-feira, 15 de maio de 2017


O TEMPLO E A LOJA.



Autor: João Anatalino

Do alto dos andaimes de Notre Dame, Jean de Longwy contemplava Paris. O quanto essa cidade havia crescido nos últimos anos! De fato, Filipe, O Belo, com suas maquinações, com sua volúpia em transformar a França em um estado nacional, fora responsável também por uma grande transformação na paisagem urbana das cidades francesas, especialmente na sua capital. Quase todos os núcleos urbanos, de uma maneira geral, haviam encorpado. Ocorrera uma migração em massa dos campos para a cidade, em razão das novas leis que Filipe impusera ao país, tornando mais fácil e menos onerosa a libertação dos servos da gleba, antiga e detestável lei que vinculava as pessoas á terra, como se elas fizessem parte da propriedade e passíveis de serem transferidos com ela, como se fazia com os animais e demais utensílios que nela existia.

Esse era o sistema feudal. Ele atava as pessoas em um elo de suserania e vassalagem, onde os barões mais aquinhoados mantinham uma rede de nobres menos providos de fortuna, através de uma cadeia de vassalagem que começava no mais simples dos cavaleiros e terminava na pessoa do rei, o maior de todos os suseranos. 

E na base desse sistema, o povo. Não havia fazenda que não pertencesse a um nobre, nem cidade ou aldeia que não fizesse parte dos domínios de algum barão. O rei concedia os feudos aos seus escolhidos e os escolhidos faziam os seus próprios vassalos. E o povo, nas cidades, aldeias e fazendas de cada feudo eram os braços e pernas que sustentavam o sistema, trabalhando para produzir a riqueza que os mantinha. 

Por isso é que ocorria, ás vezes, de um vassalo se tornar mais rico e poderoso que seu próprio suserano. O poder sempre dependia do tamanho e da riqueza que as propriedades feudais garantiam para o seu senhor. Feudos como a Aquitânia, a Normandia, o Artois, eram territórios disputadíssimos, pois contavam entre os mais ricos no reino da França. Daí a constante disputa entre os reis de Inglaterra e França, pois a Normandia, e algumas possessões na Aquitânia pertenciam ao rei da Inglaterra, que por essa razão, era vassalo do rei da França. Essa estranha relação de suserania entre um rei e outro frequentemente era motivo para conflitos. Esses conflitos, de um modo geral, sempre eram resolvidos por casamentos entre as duas casas reais. Ora um príncipe francês casava-se com uma princesa inglesa, ora era o contrário, uma princesa francesa que se casava com um membro da família real inglesa.

Isso foi o ocorreu com os dois reis, de França e Inglaterra. A guerra que havia se iniciado entre os dois países em 1294 só terminou em 1303, pela assinatura do Tratado de Paris, quando Filipe, o Belo, deu sua filha Isabel, então com onze anos de idade, em casamento para Eduardo, herdeiro do trono inglês. Esse casamento iria, mais tarde, ser o estopim de uma nova guerra entre os dois países, quando o filho de Isabel de França e Eduardo II, da Inglaterra, viria a reivindicar o trono francês. Esse foi o motivo político da Guerra dos Cem Anos.

Sentado nos andaimes montados no frontispício da catedral de Notre Dame, Jean de Longwy olhava para a Ilha dos Judeus e pensava nos acontecimentos dos últimos anos. A extinção da Ordem do Templo, a cremação dos seus comandantes, as mortes, do rei, dos seus ministros, do papa... As dificuldades pelas quais a França passava no momento, com as péssimas colheitas, os invernos rigorosos, as revoltas populares, a política interna e externa instáveis, as guerras externas. Eram calamidades que pareciam não ter fim.

No entanto, as dificuldades da família real e as mudanças políticas ocorridas no seio do poder tinham sido benéficas para ele. O poder conquistado por Carlos de Valois junto aos filhos de Filipe, o Belo, que se tornaram reis, trouxe-lhe bons dividendos. Valois era partidário das antigas tradições feudais, e seu apoio á Liga dos Barões borgonheses fez com seu poder aumentasse dentro do reino. Ele era, agora, um dos principais barões de França. 

Longwy vinha constantemente á capital francesa, inspecionar serviços e atender a outros afazeres, próprios de um importante dignatário como ele era, e como mestre da poderosa confraria dos construtores civis, a Compagnionnage.

Sobrinho de Jacques de Molay, fora a ele que o velho grão-mestre do Templo, em um dos seus últimos encontros realizado na masmorra do Castelo de Paris, dias antes de ser levado á fogueira, delegara amplos poderes para reestruturar a Ordem em França, que havia sido formalmente dissolvida pela bula papal Vox in Excelso, em 22 de março de 1312. Jean de Longwy, naquela ocasião, apresentara á de Molay um balanço do que restara da Ordem do Templo.

– Todas as nossas 556 preceptorias em França foram ocupadas pela polícia do rei – disse Longwy.

– E o que houve com os nossos irmãos?– perguntou de Molay.

– Seiscentos e vinte foram presos e até agora temos notícia que cerca de cento e quarenta morreram, queimados em fogueiras, ou em consequência das torturas ou de doenças, nas masmorras – disse Longwy.

– Malditos! – vociferou o grão mestre. – Um dia haverão de pagar por isso. Deus não pode deixar impune essa infâmia!

– Se Deus não fizer, nós o faremos – disse Longwy, levantando-se e olhando cautelosamente pelo postigo da porta da cela, para ver se alguém os estava escutando. 

– Então tendes um plano em mente? Perguntou, esperançoso, Jacques de Molay.

– Enquanto estiverdes preso aqui em Paris, não podemos nutrir qualquer esperança de libertar-vos– disse Longwy. – Este castelo, como sabeis, é inexpugnável e está muito bem guardado pelas tropas do rei. – Mas nós sabemos que o papa não quer a vossa execução, nem dos altos dignatários do Templo. Então creio que logo sereis solto, ou condenado á clausura em uma cela em alguma Ordem, de onde podereis vos evadir, ou até continuar a nos comandar.

– Não tenho mais essa esperança, irmão. A Ordem do Templo nunca mais será o que foi. No entanto – ponderou o velho monge, cofiando a hirsuta e desgrenhada barba – dissestes que apenas seiscentos e vinte dos nossos irmãos foram presos, não é isso?

– Sim, meu irmão– respondeu Longwy.

– Então a maior parte dos nossos cavaleiros escapou, não é? Se não estou errado, nós tínhamos três mil e duzentos membros em França, entre cavaleiros, sargentos e monges. 

– Sim, irmão grão-mestre. E dos nossos trezentos e cinquenta monges cavaleiros, mais de cem escaparam para outros reinos ou se refugiaram nas montanhas de Lyon. Aliás – continuou Longwy – só nas montanhas de Lyon há mais de mil e quinhentos refugiados do Templo aguardando as nossas ordens para agir.

– Dizei a eles para esperar até que esse processo se finde e conforme for o resultado, vós os comandareis nas ações. Por enquanto não é conveniente nenhuma reação, pois como dizeis, se o papa está indeciso em relação ao que fazer conosco, então ainda existe uma esperança – disse de Molay. 
– De qualquer modo, nós cumprimos vossas instruções – informou Longwy. – O tesouro do Templo já foi destinado conforme estipulastes. Continuará servindo aos propósitos da Ordem. Ajudará os escoceses na sua luta pela liberdade e financiará nossos irmãos portugueses na sua luta contra os infiéis. Servirá também aos nossos propósitos de vingança. Com isso, aconteça o que acontecer, a Ordem continuará viva.
– Fico feliz em saber disso, meu irmão. Se eu tiver que morrer pela nossa causa, morrerei sabendo que nosso sacrifício não foi em vão – disse Jacques de Molay. – A propósito, nosso irmão Larmenius de Chartres, em Chipre, já tem suas instruções também, de como dar continuidade ao nosso ideal, mesmo que seja na clandestinidade. Prestai a ele toda a colaboração necessária e mantei sempre contato com os nossos irmãos de Ultramar.
– Sim, irmão grão-mestre. A nossa confraria de maçons tambémestá se preparando para dar continuidade aos nossos ideais de espírito. Quanto a isso podeis ficar sossegado. Estamos já procurando realizar uma fusão entre os ritos de iniciação e passagem, praticados pelos nossos iniciados e os ritos praticados pela Ordem. Com o tempo, o Templo e as Lojas dos maçons se tornarão uma única organização – disse Longwy.

– Posso então ficar tranquilo em relação aos nossos segredos iniciáticos – disse de Molay. – Espero que os tenhais bem de memória, pois como sabeis, tive que mandar queimar todos os livros, documentose rituais que a Ordem utilizava, para que eles não fossem descobertos e usados contra nós – completou.

– Fizestes bem. Esses padres ignorantes jamais iriam entender o verdadeiro significado deles. São tão rústicos que tomam por heresia toda e qualquer sabedoria que não conseguem entender –, disse Longwy. 

– Heresia. Heresia é tudo aquilo que ameaça o poder da Igreja, meu irmão – disse o grão- mestre.
– É verdade, meu irmão. Mas um dia todos os homens serão livres para escolher no que acreditar. Ninguém irá para a fogueira só por ousar ter ideias próprias a respeito de religião, ou por procurar saber como a natureza trabalha para produzir os seus fenômenos– disse Longwy, com um profundo suspiro.

– É um sonho, sem dúvida. Uma utopia pela qual lutamos e derramamos o nosso sangue. Uma pátria universal, onde todas as religiões possam conviver em paz e os homens se guiarem apenas pela consciência do bom e belo que cada uma ensina. Pois esse seria o nosso reino, se triunfássemos, – disse Jacques de Molay. 

─ Um reino onde a religião seria a moral que faz os homens justos e virtuosos e não uma superstição vendida nos púlpitos ─ suspirou Jean de Longwy.

─ A propósito, o que sabeis sobre o destino da nossa sagrada relíquia ─ perguntou de Molay, olhando para todos os lados, como se a confirmar que estavam sós na cela.
─ Sei que ela foi oculta em lugar onde ninguém jamais a encontrará. Podeis ficar tranquilo quanto á isso, irmão grão-mestre.

─ In Arcádia Ego ─ murmurou Jacques de Molay,

─ In Arcádia Ego ─ repetiu Longwy. ─ Oxalá Ele repouse finalmente em paz, e as pessoas aprendam a viver pelo que ele ensinou e não deturpem mais a sua doutrina como justificativa para suas próprias ambições.

─ Esse foi o nosso sonho, irmão. Um reino onde a verdadeira doutrina de Cristo fosse praticada ─, suspirou De Molay. 

─ Foi um belo sonho, meu irmão, e devemos nos orgulhar de tê-lo sonhado ─ disse Longwy.

─ Sim. O sonho de reconstruir o Templo de Salomão. Mas eis que esse Templo também acabou sendo destruído como os outros. Quando será que a humanidade aprenderá a construir um Templo de Jerusalém perene, que seja capaz de resistir ás investidas da cobiça, da inveja e da maldade humana ─ perguntou, desconsolado, Jacques de Molay. 

– Esse sonho não acabou, meu irmão. Um dia haveremos de realizá-lo. O Templo de Jerusalém é a própria humanidade e nela se hospeda tanto o mal quanto o bem. E também sempre haverá nele um Mestre, que como vós e nossos irmãos serão sacrificados para que ele possa existir. Nós, os Obreiros de Salomão, tivemos no nosso arquiteto Hiram Abiff, o sacrificado do primeiro Templo. Jesus foi o sacrificado do segundo. Vós sereis o sacrificado do terceiro. Mas nós continuaremos a erguer templos á virtude e cavar masmorras ao vício. Os Soldados de Cristo e os Obreiros de Salomão, ambos Filhos da Viúva, doravante trabalharão pelo mesmo ideal. A nossa tradição será conservada pelos séculos dos séculos através dos ritos e da arte de construir edifícios e nações. E um dia...

– Oxalá eu pudesse viver para ver esse sonho realizado, meu irmão– disse Jacques de Molay, abraçando fortemente o mestre da Compagnionnage.

Os três abraços cruzados, peito contra peito, cada um seguidopor três batidas nas costas, que os dois Templários se deram, não passaram despercebidos á messier Jean de Janville, que havia chegado silenciosamente, e estava parado, junto á porta da cela, com um pique na mão. 
Jean de Longwy percebeu a presença importuna.

─ Chove sobre o Templo, irmão ─ disse Longwy, ao ver o carcereiro, em pé, na porta da cela.
- Resguardemo-nos das goteiras, então- respondeu de Molay. Imediatamente, de Molay levou a mão direita, em forma de garra, ao lado esquerdo do peito, como se estivesse arrancando o próprio coração. Esse era um gesto que tinha por objetivo ocultar a cruz no peito, quando na presença de profanos. Longwy repetiu o gesto. Esse era um sinal distintivo entre os Templários que se fazia quando, entre eles, pessoas estranhas ao seu convívio eram introduzidas.

À Janville, a estranha troca de sinais não passou despercebida.“Pois é”, pensou o arguto carcereiro: “Bem que me disseram que esses Templários eram mesmo uma gente muito estranha.”

(EXCERTO DO CAPÍTULO XXVIII DO ROMANCE " OS MESTRES MALDITOS)



A ENTRADA NA CAVALARIA: A INVESTIDURA


A investidura de um cavaleiro desperta em nossa memória, no melhor dos casos, de iluminuras de manuscritos muitas vezes tardios (séculos XVI e mais ainda XV). No pior dos casos, talvez mais frequente, de filmes ditos “históricos” muito romanceados, mais preocupados em responder à expectativa emocional do público que em conformar-se a uma realidade julgada muitas vezes banal demais, colorida com significados demasiadamente diversos e ambíguos e ainda variam conforme os lugares e as épocas. Foi assim que se impôs, em uma grande parte do público, a imagem estereotipada de uma investidura ritualizada pela qual todo cavaleiro pode por sua vez “fazer cavaleiro” um postulante que seja digno. Em pé diante desse postulante, às vezes com um joelho do chão, ele o investe, batendo-lhe levemente aos ombros com a lâmina de sua espada e, com esse gesto, lhe “confere a cavalaria”, tal como Bayard fez cavaleiro seu rei na véspera de uma batalha. Ele acrescenta, às vezes, a seu gesto uma declaração ética que menciona os deveres que lhe competem doravante enquanto cavaleiro; ser em toda parte o defensor dos fracos e oprimidos, o protetor da mulher e do órfão, o sustentáculo das causas justas.

Essa representação de investidura não é radicalmente mentirosa, mas ela não deixa de ser totalmente inexata. Trata-se, de fato, de uma imagem compósita, que reúne traços que surgiram em épocas diversas e nunca coexistiram. A maioria deles é muito tardia, outros são primitivos e rapidamente desapareceram, outros ainda pertencem mais ao domínio do sonho e do mito que ao da realidade.

Existe uma outra imagem da investidura, menos difundida, mas também inexata porque é demasiadamente parcial e partidária. Nela é um bispo que oficia e a cena se passa em uma catedral. Depois de uma noite inteira passada em orações, o futuro cavaleiro é investido. Sua espada, previamente depositada sobre o altar, foi abençoada pelo oficiante, assim como a maior parte de suas armas. O bispo, ao lhe entrega-las, pronuncia orações e fórmulas de bênçãos carregadas de elementos éticos de caráter religioso. Por fim, ele “faz cavaleiro” o postulante ao cingi-lo com o gládio, símbolo de uma missão de defensor da Igreja, de combatente da fé, de protetor de todos aqueles que não portam armas; membros do clero, pobres, viúvas e órfãos.

Há uma terceira imagem, menos difundida, mas talvez menos errada, ao menos originalmente: em certa corte de castelo, um senhor fornece publicamente aos guerreiros que ele acaba de recrutar, assim como alguns jovens de sua casa que têm idade, as armas que farão deles cavaleiros a seu serviço ou a serviço de parentes ou aliados. Simples entrega de seus “instrumentos de trabalho” a guerreiros na maioria das vezes subalternos, essa formalidade quase não apresenta traços cerimoniais e marca somente a entrada de um rapaz na carreira militar.

Por fim, há uma quarta imagem: quando da sagração real, a exemplo de São Luís, o futuro soberano era armado e feito cavaleiro antes de ser coroado. 

Essas quatro imagens ilustram traços diferentes resultantes de horizontes e épocas diversas. Nenhuma reflete a realidade da entrada na cavalaria que não tem evidentemente as mesmas características, nem talvez o mesmo significado, conforme se trate da investidura de um guerreiro comum no início do século XI ou da promoção à honra cavalheiresca de um rei no começo do século XVI.

Como a cavalaria, a investidura reconheceu uma profunda evolução no decorrer de sua história. Essa história da investidura nunca foi feita. Só poderemos, portanto, fazer aqui um breve resumo apoiado essencialmente em obras pessoais e nas obras de alguns raros medievalistas que tentaram esclarecer essas áreas diversas de que os padrões muito rígidos do ensino universitário não favorecerem muito a utilização conjunta. O historiador, preparado para o estudo crítico severo e austero dos textos latinos, principalmente diplomáticos e jurídicos, desconfia muitas vezes – quando ele não as ignora totalmente – das fontes literárias que lhe parecem pouco seguras, pois são demasiadamente atingidas pelo imaginário. O medievalista literário interessa-se muitas vezes mais pela forma do texto e seu valor poético que por sua dimensão documental e seu gosto e leva geralmente pouco às investigações minuciosas e áridas da pesquisa histórica. Ambos são igualmente pouco atraídos pelos textos de natureza teológica ou litúrgica. Ora, acontece que a história da cavalaria em seu conjunto e da investidura em particular exige o recurso a essas três áreas. Sua exploração e a síntese resultante apenas são difíceis, mais vastas e mais lentas.

O SIMBOLISMO DAS ARMAS

Convém antes de tudo evitar uma armadilha: a generalização apressada. Uma mesma palavra como vimos no capítulo anterior não designa sempre e em toda parte um fenômeno único. Mais ainda, ela não abrange a mesma realidade ao longo do tempo que passa. Os termos ministro, gabinete, ou...cavaleiro dão uma clara demonstração disso. O mesmo acontece também com a entrega das armas cujo significado difere de acordo com os tempos e as circunstâncias. Nem todo recebimento de arma é necessariamente entrada na cavalaria, nem toda concessão da espada é uma investidura.

As mais antigas menções de entregas solenes da espada, de fato, não são ligadas à entrada na cavalaria: elas constituem um dos ritos fundamentais da coroação dos reis francos do Ocidente, muito antes que se pudesse realmente falar de cavalaria, a partir do século IX.

A razão disso é simples: na sociedade ocidental, merovíngia, depois carolíngia, resultante da impregnação da malha romana antiga pelas mentalidades novas dos conquistadores germânicos, a guerra constitui um valor fundamental; as armas têm um caráter sagrado e todo rei, todo governantes, todo “grande” só podia ser um guerreiro. Os primeiros reis germânicos, como sabemos, eram eleitos pela assembleia de seus companheiros guerreiros, elevados ao posto mais alto e revestidos com armas de pompa digna de sua posição. Ao se “romanizar” um pouco, as realezas bárbaras policiaram-se, a Igreja atenuou e institucionalizou seus usos e costumes, mas sem eliminar seus fundamentos guerreiros. Quando muito, ela “batizou”, cristianizou seus ritos que de “mágicos e pagãos” tornaram-se “mágico-cristão”. É particularmente o caso dos ritos ligados à espada, sinal, entre os germanos, do poder armado de direito divino, da autoridade, da violência guerreira de caráter sagrado. Esse valor eminente das armas entre todos os germanos já atingia César, para o qual a entrega das armas significava a entrada em uma profissão característica, o exército, e não a entrada em uma classe de idade. Eles escrevem de fato: “Negócios públicos ou negócios privados, eles não fazem nada sem estar com armas. Mas o costume diz que ninguém toma das armas antes que a cidade tenha reconhecido que ele é capaz de fazê-lo. Então, na própria assembleia, um dos chefes ou o pai, ou seus próximos, paramentam o rapaz com o escudo e a lança; essa é sua toga, aí estão as primeiras honras de sua juventude; mas, antes disso, eles devem pertencer a uma casa, em seguida ao Estado” (Tácito, A Germânia, Ed. J. Perret, Paris, 1983, p. 783). Oito séculos mais tarde, o historiador Paul Diacre relata que os filhos dos reis lombardos não são admitidos à mesa de seu pai enquanto não tivessem sido julgados dignos de receber as armas da mão de um outro rei, em uma outra corte. Apesar do caráter fragmentário desses testemunhos, muitos historiadores não hesitam em ver neles os traços contínuos do costume que, nos séculos X e XI, levava os senhores a enviar seus filhos à corte de um próximo (geralmente um tio materno) a fim de que eles fossem “alimentados”, isto é, educados como escudeiros, servindo “por armas” até sua investidura por esse mesmo senhor. É difícil afirmar, pois há aí uma “lacuna” documental de diversos séculos. Esses relatos testemunham em todo caso o valor sobre-eminente das armas nessas sociedades germânicas (testemunhado também pela arqueologia, em particular os túmulos) e o sentido “cívico” e social, próximo de um raio de passagem, da entrega das armas nos meios elevados.

A espada, em particular, assume na Idade Média novos significados. Entre os romanos, como vimos, ela era associada ao poder delegado dos magistrados que agiam em nome do Estado. O desaparecimento, ou, ao menos, a privatização da noção de Estado e de serviço público enriqueceram essa simbologia. O rei inicialmente, depois, a partir do século IX, os condes e outros príncipes são representados “em majestade”, portadores dos signos de sua função e em particular de espada, símbolo de sua autoridade sobre os homens, diríamos hoje de seu poder de justiça, de polícia e de direção das forças armadas. Essa espada dos príncipes tem tal valor simbólico que, em uma assembleia tumultuada, reunindo franceses, normandos e alemães que brigavam, bastou que o duque da Normandia, Guilherme Longa-Espada, a enviasse ao local por intermédio de um de seus barões para que os espíritos, ao vê-la, se acalmassem imediatamente e que a ordem fosse restabelecida.

Para “os grandes” (os únicos que, nos textos mais antigos, recebem a atenção dos redatores), a entrega da espada não marca, portanto, apenas, nem mesmo sobretudo, sua entrada em uma calaria que ainda viria a nascer. Ela tem um significado social e político mais que profissional ou militar.

A ENTREGA DAS ARMAS COMO SINAL DE PODER

As menções mais antigas de entrega de armas (e em particular da espada), nos anais e crônicas, referem-se de fato a imperadores, reis depois príncipes no momento em que eles atingem a idade das responsabilidades. Isso é evidente no caso da entrega da espada aos reis na sua coroação. Encontramos menção disso já no século VIII, mas as formas rituais são conhecidas somente a partir do século X, principalmente por meio dos rituais de benção do Pontífice Romano-Germânico que se impõe pouco a pouco no Ocidente dessa época e cujos textos nos são fornecidos por muitos manuscritos. Esses rituais merecem atenção, pois várias orações e bênçãos, ligadas à entrega do gládio ao soberano (ao lado da concessão do cetro, da coroa e outros símbolos do poder real) foram bem mais tarde reutilizados para investiduras de cavaleiro. A ética real que está expressa aí foi então transferida aos cavaleiros depois de um longo percurso que vamos descrever.

Além dessas entregas de armas, parte integrante dos ritos de coroação real, há outras que não estão diretamente ligados a eles, mas que não deixam de expressar, por lembrança ou por antecipação, um direito de governo. Quando um rei ou um príncipe já coroado se tornava (ou se tornava novamente) o mestre de um principado, ducado ou condado, ele não era coroado novamente, mas uma entrega solene das armas, geralmente a espada, traduzia simbolicamente sua autoridade sobre essa região. Conhecemos vários exemplos disso nos séculos IX e X. Por outro lado, quando o novo príncipe não tinha idade para ser coroado (e ainda menos, desconfiamos, para se tornar cavaleiro, o que não era praticamente possível antes dos 15 anos), ele recebia armas que não tinham evidentemente nenhum significado “profissional”, mas expressavam aos olhos da assistência o poder que era conferido ao príncipe tão jovem. Essa autoridade incluía, certamente, a função militar (como chefe dos exércitos), mas de forma alguma o exercício efetivo dessa função, como “cavaleiro” ou simplesmente guerreiro. Observamos isso claramente, por exemplo, em 781, quando Carlos Magno concede a seu filho Luís o governo da Aquitânia, ao qual são entregues, antes de sua partida, “armas adaptadas a sua idade”...ele tinha de fato 3 anos na época. Dez anos depois, ele foi “cingido com a espada” por seu pai em Ratisbonne. Não era ainda muito cedo para se tornar “cavaleiro”? É melhor vermos nisso novamente o sinal da divulgação de um direito de governar. É também nesse mesmo sentido que, no momento de sua deposição (por exemplo, a de Luís, o Piedoso, em 833), os imperadores, os reis ou os príncipes são privados de seu cingulum militae, que, aqui, não designa evidentemente o “boldrié da cavalaria”, mas sim, o “cinturão do serviço público”. Observamos isso no mais alto nível uma vez que se trata de soberanos. Podemos citar numerosos exemplos que vão nesse mesmo sentido.

A evolução da coroação para baixo e a entrega de armas, principalmente da espada (que os alemães chamam Schwertleite para distingui-la, exatamente, da investidura cavalheiresca, Ritterschlag) tem início já no século X e temos traços mais claros disso no decorrer dos séculos XI e XII. Nessas épocas, conhecemos fórmulas de coroação reservadas a duques e condes e também entregas de armas destinadas a príncipes de menor importância, e até a senhores ou castelões que exerciam, teoricamente em nome de seu rei, funções públicas da alçada real; direito de banimento ou autoridade militar, direito de justiça, direito de cunhar moedas, etc. Aqui também, na maiores dos casos, essas entregas de armas não são geralmente sinal de uma entrada na cavalaria, mas a manifestação pública (em uma época em que gestos e ritos visíveis são mais importantes que a escrita) da acessão de um jovem senhor a suas novas responsabilidades de governantes e chefe da guerra. É a razão pela qual essas entregas de armas são, na maioria das vezes, associadas a outras cerimônias que demonstram igualmente a autonomia e o poder adulto dos “grandes”; casamento, investidura, concessão de uma área, etc.

Até onde ocorresse essa evolução para baixo? É muito difícil dizer. Podemos afirmar isso em todo caso com relação aos mestres das grandes senhorias. É provável que também os castelões, aqueles que ao menos detêm uma parte importante do poder público privatizado, o termo militia, como vimos, também os designassem. Mas quanto mais descemos na hierar1quia dos poderes efetivos, mais esses poderes se reduzem até confundir-se apenas com o exercício do poder armado. É nesse nível que devemos situar os cavaleiros. Não conhecemos infelizmente, para eles, rituais de investiduras específicos antes do século XII. A Cavalaria, antes dessa data ainda está no limbo e os cavaleiros são apenas guerreiros, subalternos na maioria, que combatem por seus mestres e dos quais se exige somente força física, coragem, fidelidade e obediência. Essas são virtudes de base da futura cavalaria.

A IGREJA E A ENTREGA DAS ARMAS

Antes do início do século XI, a Igreja quase não se interessa pelos cavaleiros, que são apenas executores. A entrega de armas “principesca”, por outro lado, merece toda a sua atenção, pois se trata de personagens que detém o poder e dos quais ela tem tudo a esperar ou a temer. Os rituais da sagração real testemunham isso, já que são tão fortemente carregados de declarações éticas pedindo a Deus que ajude o rei nos diversos aspectos de sua missão: boa justiça, fidelidade à fé, proteção das igrejas, defesa de seus interesses, assistência aos pobres e aos fracos. Só podemos ficar surpresos com a estreita semelhança desses deveres expressos na liturgia sacra como nas obras didáticas que denominamos “espelhos dos príncipes” e com as quais a Igreja, por intermédio da planta de Alcuin, Jonas de Orléans ou Hincmar de Reims, ensina então aos reis como eles devem conhecer e conduzir sua missão nesta terra. Aqui está a título de exemplo, a tradução de uma dessas bênçãos reais: “Receba, com a benção de Deus, esse gládio que te é transmitido para punir os malfeitores e honrar as boas pessoas. Que por meio desse gláudio tu estejas apto, pelo poder do Espírito Santo, a resistir e a vencer todos os teus inimigos e todos os adversários da santa Igreja de Deus, preservar o reino que te é confiado e proteger a casa de Deus”. Vamos encontra-la mais tarde com utilizações menos elevadas.

A fraqueza do poder central, particularmente na França, conduziu como sabemos ao que temos o costume de chamar a “feudalidade”. Seria melhor falar de principados, depois de senhorias, pois o elemento feudo não é central. À unicidade do poder imperial de Carlos Magnos sucedem primeiramente os reinos francos resultantes da partilha de Verdun, logo depois a emancipação dos ducados e condados e a formação de entidades autônomas, principados territoriais, condados e até castelanias. Foi para os príncipes, muito provavelmente, que a Igreja compôs fórmulas litúrgicas muito próximas das da coroação real, utilizadas na entrega de sua espada, símbolo de seu poder e de sua função de proteção, ou quando das partidas em campanha dos exércitos reais ou principescos contra os pagãos, principais inimigos do Ocidente nessas épocas de invasões normandas, sarracenas e húngaras que só cessam definitivamente depois de 972. Algumas dessas fórmulas foram igualmente reutilizadas mais tarde, com algumas modificações necessárias, em diversos rituais de investidura.

O imperador é inicialmente, para a Igreja, o defensor designado. Mas a explosão política e a multiplicação dos conflitos internos que acompanham o declínio do poder central obrigam a Igreja – não apenas a de Roma, que na mesma época recruta milites sancti Petri e tenta cercar-se de vassalos e príncipes “fiéis de São Pedro” -, mas também todos os estabelecimentos eclesiásticos, e principalmente monásticos, a encontrar forças militares locais capazes de defender suas pessoas e seus bens cobiçados. Esse papel de “defensor da igreja” incumbia naturalmente ao advogado leigo do monastério, mas também aos vassalos que as igrejas possuíam em razão de suas grandes propriedades de terras, assim como aos soldados que elas recrutavam diretamente, como temos prova, para muitas igrejas como Reims, Toul, Rodez, Albi, Cambrai, etc.

E sem dúvida para sua investidura solene, que incluía por parte do senhor eclesiástico a entrega de objetos que simbolizavam sua função guerreira protetora (armas diversas, mas, sobretudo, bandeira e espada), que foram compostos os mais antigos rituais de benção de “milites”, considerados outrora como rituais de investidura. Eles são apenas seus ancestrais, destinados não a cavaleiros “comuns”, mas a guerreiros de um tipo particular, os “defensores ou vassalos-guerreiros das igrejas”, como o indica aliás o título do ordo de Cambrai contido em um manuscrito de Colônia do fim do século XI. A função específica desses guerreiros facilitava oportunamente a adoção de orações anteriormente reais ou principescas, muito ricas em elementos éticos que incluem, entre outros, a defesa e a proteção da Igreja no sentido amplo do termo. Portanto, não ficamos surpresos ao encontrar nesse ritual de Cambrai a oração já mencionada anteriormente e uma fórmula antiga (século IX) pronunciada sobre a espada de príncipes que iam lutar contra os pagãos. Eis aqui seu texto inicial: “Atenda nossas orações, Senhor, e nos conceda a benção com Tua direita majestosa dessa espada com a qual Teu servidor. Desejou ser cingido, para que ela possa ser defesa e proteção das igrejas, das viúvas, dos órfãos e de todos os servidores de Deus contra as violências dos pagãos e que a todos os outros promotores de tumultos ela inspire medo, terror e pavor. Mas, no ordo de Cambrai, para adaptá-lo à situação, a expressão “contra os pagãos” foi substituída por “contra seus adversários”. Juntam-se a ela outras fórmulas de benção (sobre a lança, a bandeira, a espada, o escudo, enfim sobre o miles todo armado), lembrando ela também a missão que cabe a esse guerreiro que é recrutado e abençoado para esse propósito. Uma dessas fórmulas foi utilizada, no decorrer do século XII, para a investidura de cavaleiros “comuns”, que são os únicos que vão nos interessar nas páginas que seguem.


A INVESTIDURA CAVALHEIRESCA

AS ORIGENS

Além das investiduras de príncipes ou vassalos de que acabamos de falar, não conhecemos rituais de investidura destinados a cavaleiros antes do século XII. É muito provável que sua entrada na carreira das armas dava lugar, antes disso, a uma cerimônia talvez bastante simples para os milites de base. Por meio dela, o senhor que os empregava anunciava assim publicamente seu recrutamento regular, sua função oficial como representantes da ordem, “mão armada do príncipe”, conforme a expressão de Jean de Salisbury; por meio dela, também, talvez, a exemplo dos soldados romanos em quem se inspiram os teóricos da Idade Média, eles se engajavam, como salientam muitos textos que retomam Fronti ou Gégèce, a combater fielmente por seu senhor sem temer a morte, a não fugir ao combate, mas a proteger as terras e os bens da pátria, entendamos com isso o “país”, o distrito que eles serviam. A investidura, para esses cavaleiros de base (podemos acreditar que eram mais numerosos que seus mestres), confundia-se sem dúvida com a simp0les entrega das armas como “instrumentos de trabalho”, se ousarmos dizer, a marca de entrada do exército de sua profissão. Parece-me, aliás, que o significado é conservado para todas as investiduras cavalheirescas, qualquer que seja seu nível. Mas, certamente, a entrada em função de um cavaleiro de base implica para ele deveres a título somente pessoal, enquanto “soldado”: deveres de obediência e de serviço para com seu empregador. Se for o caso, por outro lado, de um castelão ou de um grande senhor, sua entrada na carreira das armas se insere em um conjunto muito mais vasto de funções, obrigações, serviços e relações de poder. Todos implicam a ação guerreira, mas eles a ultrapassam singularmente, como já mencionamos.

Em outros termos, a entrega das armas “cavalheirescas”, a investidura, significa, no sentido forte da palavra, que esse guerreiro é admitido oficialmente a agir por meio do uso dessas armas no âmbito das funções que lhe cabem, levando-se em conta sua posição. Trata-se, portanto, de um ato declarativo público de ordem profissional e não de uma promoção social, da concessão honorífica de um título ou grau. A cavalaria não é, nos séculos XI e XII, uma confraria honorífica igualitária na qual se entra por meio de uma investidura promocional que seria a colação de um título ou de um grau honorífico. É a entrada em uma profissão, a corporação dos guerreiros de elite. Uma corporação desigual: o príncipe-cavaleiro comanda os cavaleiros que dependem dele; os guerreiros recrutados têm por função e missão obedecer a seu mestre e combater sob suas ordens. A investidura faz, de cada um deles, cavaleiros legítimos (e não bandidos ou usurpadores), que têm permissão para usar armas características da cavalaria. Mas cada um tem sua posição social, a mesma que antes da investidura.

A investidura pode, então, ser considerada promocional e honorífica? Sim, mas em um sentido muito limitado e por duas razões somente. Ela representa, para aqueles que comandam, a entrada na era das responsabilidades pessoais, na idade adulta. Ela expressa, para os guerreiros da base, sua admissão em uma profissão invejada: agentes auxiliares do poder (enquanto estiverem em condições de exercê-la), eles convivem com os poderosos e elevam-se, assim, acima da condição da massa anônima dos trabalhadores da terra, de onde muitos vieram. Os mais humildes passam desse modo, mesmo que apenas como servidores armados, do mundo submisso e explorado dos inermes ao mundo dirigente e temido daqueles que portam as armas, símbolos e fundamentos do poder medieval.

As expressões que, nos textos assinalam essa acessão ao uso pessoal das armas (miles factus em particular), têm, portanto, conotações sociais muito diferentes conforme se trate de um filho de rei, de um jovem senhor ou de um cavaleiro de base. A única significação comum é a da entrada na cavalaria, com a condição de que se entenda com essa palavra, ao menos até o século XII, um tipo de corporação antecipada, a dos guerreiros profissionais, que combatem com armas característica. Uma corporação desigual (todas o são ou serão), com seus patrões e mestres (os príncipes e senhores recrutadores), seus companheiros (os cavaleiros de base), seus aprendizes (os juvenes, bachelers, escudeiros, valetes, que servem “por armas” na companhia dos senhores); seus santos patronos protetores (os santos militares cujo favor não cessa de crescer no século XI: George¸Demétrius, Mercúrio, etc); seus instrumentos particulares (as armas cavalheirescas); seu ritual de entrada (a investidura, ao mesmo tempo rito iniciático e de passagem que faz do jovem um adulto e do “civil” um guerreiro).

Essa corporação permanece aberta até o fim do século XII. Ela se fecha no início do século XIII e se transforma em casta, que exige, para a investidura de um jovem, a prova de que quatro de seus ancestrais ao menos haviam sido eles próprios nobres e cavaleiros. Ela perde então pouco a pouco seu caráter essencialmente profissional para salientar os aspectos honoríficos, decorativos, éticos, culturais. A nobre corporação dos guerreiros de elite se transforma em confraria guerreira dos nobres de elite. Há aí uma nuança importante à qual voltaremos mais tarde.

A INVESTIDURA NO SÉCULO XII

As mais antigas descrições de investidura cavalheiresca – e as mais completas – nos são fornecidas pelos textos literários, principalmente as epopeias. A maioria dos elementos conhecidos depois já figura aí e essas descrições, destinadas a agradar ao público aristocrático e guerreiro das cortes, têm a vantagem de salientar o que importava mais para esse público. Os aspectos religiosos revelados pela liturgia e que poderíamos julgar essenciais figuram pouco aí ou nem figuram. Certamente, as armas (e em particular a espada entregue ao cavaleiro) podiam ter sido previamente objeto de uma benção. Podemos ao menos supor isso em uma época em que a Igreja abençoava praticamente todos os elementos da vida, das ferramentas do trabalho dos camponeses ao leito dos jovens recém-casados. Sabemos, por meio de diversos textos do século XCII (Jean de Salisbury), Pierre de Blois, por exemplo), que sua espada, ao menos em certos casos, havia sido previamente depositada sobre o altar; esses autores eclesiásticos deduzem que, por isso mesmo, ao ter recebido sua espada “do altar”, os cavaleiros deviam sentir deveres para com a Igreja; eles não dizem mais nada e, evidentemente, esses aspectos religiosos e litúrgicos quase não mereceram a atenção do público das epopeias. Vemos isso, por exemplo, na descrição da investidura do jovem Girard, sobrinho do conde Guilherme, antes de ele partir para o combate no dia seguinte. Para retomar as forças, Girard comeu e bebeu o dia todo abundantemente, depois ele dormiu uma noite e um dia inteiro (estamos longe aqui, da vigília de armas que, diz um texto do fim do século XII, é, às vezes, praticada em certas regiões). À noite, Girard é investido: “Ele é revestido com uma broigne (espécie em cota) muito bela, depois um elmo verde é amarrado sobre sua cabeça; Guilherme lhe cinge a espada do lado esquerdo e Girard segura pelo cabo um grande escudo; ele recebe um cavalo, dos melhores do país; ele monta nele pelo estribo esquerdo; a Dama Guibourc lhe segura o estribo direito e o recomenda a Deus, o Pai todo-poderoso”. (Canção de Guilherme, e. 1075-1082).

O poeta repete a mesma cena com relação à investidura do jovem Gui, um outro sobrinho de Guilherme, investido antes dos 15 anos, mas que demonstrou coragem e valor guerreiro. Outras epopeias são mais prolixas e mencionam, às vezes, uma missa (a investidura dos grandes acontece, em geral, na época de uma festa: Pentecostes, Páscoa, Natal ou São João principalmente), mas sobretudo as festividades e os exercícios esportivos e guerreiros que acompanham a cerimônia. A narrativa da investidura de Geoffreoy de Anjou, no Pentecostes do ano 1128, confirma as epopeias: ao amanhecer “conforme o costume relativo àquelas que vão receber as armas”, é preparado um banho para ele e para seus companheiros que serão investidos. Ao sair do banho, Geoffroy é vestido com uma camisa de linho, com um manto ornado de ouro e uma cota púrpura. Seus companheiros são também vestidos de linho e púrpura. Enfim, acompanhados de seu séquito, eles aparecem em público. Geoffroy recebe um soberbo cavalo da Espanha: “depois ele é vestido com uma cota de malha incomparável, com duas malhas, que nenhuma lança ou flecha pode perfurara” e com calções de malhas da mesma qualidade; esporas douradas são presas a seus pés; é pendurado em seu pescoço um escudo decorado com dois filhotes de leão; sobre sua cabeça é colocado o elmo ornado de pedras preciosas, que nenhum gládio pode romper. Ele recebe uma lança de freixo armada com um ferro de Poitou e por fim uma espada maravilhosa, tirada do tesouro real. Assim armado, o novo recruta, “futura flor da cavalaria”, lança-se a cavalo. Em honra dos novos cavaleiros, de fato, o dia todo foi consagrado aos jogos e exercícios guerreiros (torneios, estaferma, etc). A festa durou a semana toda.

Ao aspecto profissional se junta aqui a dimensão festiva, por causa talvez da posição elevada do novo cavaleiro. Notemos aqui o caráter coletivo das investiduras: aqui uns 30, em outros lugares 40, 50, e até 100 cavaleiros assim investidos. Quanto aos traços litúrgicos, ou simplesmente religiosos, e ao caráter ético dessa entrada na cavalaria, nada faz referência a isso. Os romances de Chrétien de Troyes, nas oito menções de investidura que eles contêm, fazem referência quatro vezes à entrega da espada, três vezes às esporas, três vezes ao banho que precedia a investidura, uma vez ao tapa, tipo de golpe com valor mneumônico dado pelo investidor no pescoço ou na face do investido (Lambert d´Ardres, que o assinala também por volta de 1200, o denomina “a bofetada que não termos o direito de retribuir”). Os elementos religiosos faltam, os traços éticos ainda são rudimentares. Chrétin os evoca somente acerca de Perceval, que foi instruído nas armas ou por um bravo vassalo que depois o investiu, entregando-lhe a espada. Em toda parte, de fato, nos textos de toda natureza, tanto históricos quanto literários, é a entrega pública da espada que “faz o cavaleiro”. Ao fazer isso, lhe diz o homem de valor, ele o faz entrar na “ordem da cavalaria que deve ser vilania” (Perceval e. 1595-6). Ele precisa seguir o que consiste essa ética cavalheiresca: poupar o cavaleiro derrotado que pede misericórdia e socorrer as jovens mulheres solitárias que outros cavaleiros violentam. Os textos do século XII não dizem mais que isso (e até menos) sobre a investidura propriamente dita. Gislebert de Mons e Lambert d´Ardres, que o mencionam bastante, quase não fazem alusão a outra coisa, mas ficam em silêncio acerca de totó aspecto ético. É o caso, por exemplo, da investidura de Arnoul por seu pai, no Pentecostes de 1181, que Lambert d´Ardres descreve mencionando o tapa, a entrega das esporas e da espada, em uma cerimônia laica seguida de generosidades diversas, uma refeição e depois um torneio. A investidura, como podemos ver, permanece ainda essencialmente leiga e pouco carregada de elementos éticos. Ela permanece também aberta: as epopeias e os romances, assim como alguns raros textos históricos, assinalam a investidura de personagens que não são manifestamente “nobres” nem membros da sociedade aristocrática, mas que por sua coragem, sua força física, suas aptidões para o combate e sua fidelidade são assim “investidos”; nesse caso, a “cerimônia” é das mais sóbrias: as armas são entregues a ele e é só.

A IGREJA E A LITURGIA DA INVESTIDURA

A importância que assume a cavalaria na sociedade do século XII leva rapidamente a Igreja a interessar-se pela investidura. A espada que era entregue ao guerreiro recrutado era muito provavelmente benzida, como todo instrumento de trabalho. Foram encontradas lâminas de espadas dessa época que têm gravadas invocações que testemunham a crença dos cavaleiros na proteção divina no exercício de sua função guerreira. Porém, isso não quer dizer que os cavaleiros se sentiam, por isso mesmo, “a serviço da Igreja”, como lamentam, aliás, muitos textos eclesiásticos que deploram as depredações, ataques, violações e pilhagens às quais se entregam tantos cavaleiros contra os estabelecimentos eclesiásticos, às vezes em detrimento das próprias igrejas que os recrutaram para sua proteção. Para tentar inculcar em todos os cavaleiros uma ética que lhes seja própria e geral, a Igreja elaborou para sua investidura rituais que retomam em grande parte a ideologia que ela propunha desde sempre aos reis e que ela tenta ampliar agora para o conjunto da classe guerreira.

Essa evolução testemunha um triplo movimento. De um lado, a Igreja observa, com um certo atraso, a existência de forças armadas que escapam em grande medida à autoridade dos príncipes (no momento exato, aliás, em que a autoridade real começa, na França, a se reconstituir); por outro lado, ao dirigir-se a cada cavaleiro investido, a Igreja constata o surgimento de uma consciência individual que, ainda fortemente engajada nas estruturas de vassalagem e linhagem, começa, todavia, a se mostrar. O apelo de Urbano II à primeira cruzada, dirigido diretamente aos cavaleiros sem passar pelo intermédio dos reis ou príncipes, participa da mesma nova mentalidade. Enfim, com o apelo à cruzada, essa elaboração litúrgica expressa a tentativa da Igreja de assumir os destinos da sociedade ocidental e, principalmente, de controlar e dirigir as forças vivas dessa sociedade: a cavalaria. Essa tentativa, como sabemos, só teve um sucesso parcial.

O mais antigo ritual conhecido de investidura puramente cavalheiresca traduz bem essa tentativa de colocar a cavalaria a serviço da Igreja e lhe inculcar seus valores. Ele data do fim do século XII e foi composto na Itália do Sul, região governada por príncipes normandos, muitos dos quais eram vassalos diretos do papa. Não é impossível que essa origem geográfica explique o caráter muito religioso e até teológico desse ritual. Ele é composto essencialmente da oração já mencionada e, antes da entrega “um nome do Paí, do filho e do Espírito Santo”, da espada, da lança, do escudo e, enfim, das esporas, da fórmula seguinte, muito rica com elementos ideológicos: “Quanto a ti, agora que tu estás a ponto de ser feito cavaleiro, lembra desta palavra do Espírito Santo: “Valente guerreiro, cinge tua espada; essa espada é de fato a do Espírito Santo, que é a Palavra de Deus. De acordo com essa imagem, sustenta então a Verdade, defende a Igreja, os órfãos, as viúvas, aqueles que oram e aqueles que trabalham, ergue-te prontamente contra aqueles que atacam a Santa Igreja, a fim de q8ue possa surgir coroado, na presença do Cristo, armado com o gládio da Verdade e da Justiça. ” Notemos a alusão clara à missão da ordem dos milites, em seu conjunto, encarregada de proteger e defender as duas outras ordens, “aqueles que oram” e “aqueles que trabalham”, conforme a uma divisão tri-funcional bem conhecida, aliás. Não sabemos infelizmente em que proporção as investiduras praticadas na Europa ocidental nessa época utilizavam efetivamente tais fórmulas éticas, assim como ignoramos o real uso e a difusão do ritual de investidura do bispo de Mende Guilherme Durand que, no extremo fim do século XIV confronta a maior parte das fórmulas de bênçãos encontradas até aqui para fazer da investidura um tipo de sacramento litúrgico e do cavaleiro assim investido um verdadeiro servidor da Igreja, defensor dos sacerdotes, dos fracos, das viúvas e dos órfãos. Os cavaleiros da realidade, como veremos, nem sempre haviam adotado essa ideologia e haviam ao menos acrescentado a ela outros valores mais laicos, profanos e mundanos.


A EVOLUÇÃO DA INVESTIDURA NOS SÉCULO XIII E XIV

Discernimos, todavia, uma tendência maior rumo à clericalização da investidura a partir do primeiro terço do século XIII. Muitos autores de origem eclesiástica se esforçam, em obras didáticas ou poéticas, para apresentar uma interpretação alegórica, ética e espiritualizadora dos diversos aspectos dessa cerimônia. É o caso de um poema composto por volta de 1230-1250, a Ordem de cavalaria, que relata como o príncipe muçulmano Saladim exigiu de seu prisioneiro cristão Huc de Taharie que ele o fizesse cavaleiro e lhe explicasse o significado dos ritos de investidura. O banho é comparado ao batismo; o cavaleiro deve sair dele “sem vilania”; ele é deitado em um leito que significa que, por sua cavalaria, deve “conquistar um leito no paraíso”; o fino linho simboliza a pureza que deve manter e o púrpura, o sangue que deve derramar para defender Deus e a fé cristã; o cinto branco deve afastá-lo0 de toda luxúria; os calções negros evocam a terra para onde ele retornará, levando-o a evitar o orgulho; as esporas simbolizam a coragem e o ardor que deve ter por Deus; a espada, a integridade e a lealdade devem levar o cavaleiro a defender o pobre e o fraco, a fim de que o risco e o poderoso não possam lhe fazer mal. Quanto ao tapa, ele tem por única função trazer ao cavaleiro a lembrança daquele que o investiu. Outros textos interpretam essas fazes diferentemente, mas tendem todos a inculcar na cavalaria as regras de um comportamento que coloque o cavaleiro a serviço da Igreja e do bem. O filósofo e teólogo catalão Reymon Lulle, no fim do século XIII, inspira-se na Ordem para dar às armas do cavaleiro um significado ético e religioso da mesma ordem, tentando fazer da cavalaria em seu conjunto o que Bernard de Clairvaux, um século e meio antes, esperava dos Templários. Por volta de 1230, Lancelot do Lago, um dos romances mais difundidos na Idade Média, utiliza a mesma simbologia para mostrar que o cavaleiro deve ser ao mesmo tempo o senhor do povo e o servidor de Deus e da Igreja. Episódio bem isolado nesse romance em que Lancelot, o melhor cavaleiro do mundo, amante da rainha Guinevere, preocupa-se muito pouco em servir a Igreja, mas busca, antes de tudo, a glória e sua única motivação é o amor adúltero que o une à esposa de seu rei.

O aspecto social da investidura reforça-se no decorrer do século XIII. Como a nobreza era agora adquirida apenas pelo direito de nascença, todos os nobres não são mais obrigados, como outrora, a se fazer investir. A investidura torna-se então uma “decoração” suplementar que se une à nobreza, mas que esta reserva a alguns de seus filhos, proibindo o acesso a plebeus. Somente a dispensa real, verdadeira carta de enobrecimento, autoriza que um não-nobre seja “feito cavaleiro”. A maioria dos nobres e muitos plebeus praticam, entretanto, o ofício das armas e combatem como cavaleiros sem ter esse “título”. A investidura desliza, então, cada vez mais para a significação honorífica e promocional que, evocamos no início deste capítulo. Nos séculos XI e XII, quando “investia-se muitas vezes na véspera de uma batalha para se dispor de mais guerreiros a cavalo. Nos séculos XVI e XV, fazia-se isso mais frequentemente depois da batalha que antes dela, recompensando assim, com a outorga de um título honorífico, os nobres guerreiros a cavalo que combateram bem. Compreendemos, então, que a cerimônia fosse nesse caso abreviada, reduzida a seu rito principal, transformando o tapa em abraço.

O aspecto militar da investidura, entretanto, não desaparece ao longo dos séculos. A corporação apenas se transformou, se aristocratizou, transformada em casta elitista não somente no plano profissional, mas também social. O valor moral e religioso da investidura não se reforçou, todavia, e podemos até considerar a formação das ordens laicas de cavalaria, no decorrer do século XIV, como uma tentativa de devolver à cavalaria um lustro moral que aos olhos de muitos ela havia perdido. Da mesma forma, o hábito enaltecido por algumas dessas ordens, como a dos cavaleiros do Santo Sepulcro, de se fazer investir nos lugares santos traduz sem nenhuma dúvida a nostalgia de uma cavalaria ideal que teria estado outrora, como os cruzados e os Templários dos primeiros tempos, a serviço da Igreja e da fé cristã, impregnada por seus valores e sua ética.

Uma cavalaria mítica, idealizada, sempre foi, segundo a palavra de S. Painter, apenas um “doce sonho”.

(TEXTO EXTRAIDO DO LIVRO “A CAVALARIA” – Origem dos Nobres Guerreiros da Idade Média – por Jean Flori – Editora Madras)




quarta-feira, 10 de maio de 2017



TEOREMA DE PITÁGORAS


Trabalho do Ir.´. Hiram Luiz Zocolo - Museu Maçônico

HISTÓRIA:


O chamado Teorema ( ou triângulo ) de Pitágoras, a bem da verdade não é de Pitágoras, que nasceu em aproximadamente 530 a. C. na ilha grega de Samos. Este triângulo já era conhecido na Mesopotâmia, especificamente, na Babilônia, mais de 1500 a. C., portanto 1000 anos antes do nascimento de Pitágoras.

Conforme citação abaixo:

Poderá ler o artigo na íntegra, neste link:

O triângulo retângulo deve ter sido descoberta dos Babilônios. Por quê? Através da tábua antiga mais famosa - a Plimpton 322


Talvez os Babilônios já conhecessem o princípio por detrás dos triângulos retângulos: "que o quadrado da diagonal é a soma dos quadrados dos lados e que o sabiam séculos antes de os gregos o reivindicarem." Esta tábua mostra que alguém detinha conhecimento profundo de como os números se relacionavam. Será que os Babilônios foram os primeiros guardiões do Teorema de Pitágoras? Talvez, mas...





É numa placa com um exercício escolar (com quase 4 mil anos) que revela que os Babilônios realmente sabiam sobre triângulos retângulos. Usa o princípio do teorema de Pitágoras para encontrar o valor de um novo número. Nasce, o que conhecemos hoje como número irracional, a partir da raiz quadrada de dois.

"Se escrevermos com casas decimais ou mesmo sexagesimais, nunca acaba, os números continuam para sempre depois da vírgula decimal."

Praticamente o mesmo ocorre em relação a maçonaria, hoje a maioria só considera os pouco poucos documentos históricos existentes deixando de lado todo o conteúdo simbólico maçônico, valorizando as alterações feites em 1720 conforme pag. 74 da Constituição de ANDERSON.

São grandes as implicações desse cálculo, a saber:

1º - os Babilônios sabiam algo sobre o teorema de Pitágoras, mil anos antes de Pitágoras;

2º - mesmo tendo conseguido calcular este número com uma exatidão de quatro casas decimais, apresenta uma habilidade aritmética e uma paixão pelo detalhe matemático fora do comum. 

Pois é... "Mas os Gregos também eram apaixonados pela Matemática, além de colonizadores inteligentes. Eles aproveitavam o melhor das civilizações que conquistavam, para fazer avançar o seu próprio poder e influência, mas cedo começaram a dar a sua contribuição".

Sabem qual foi o presente que os gregos nos deram? Não, não foi o cavalo de madeira... rsrsrsr
Foi o poder da prova! Eles decidiram que tinha que haver um sistema dedutivo para a sua matemática, e tal sistema "consistia em começar com certos axiomas que se assumem serem verdadeiros, como se assume que certos teoremas são verdadeiros sem os provar, e depois usando métodos lógicos e passos bem pensados, a partir desses axiomas provavam teoremas, e a partir desses teoremas provavam mais teoremas." (Prof. Christopher Anagnostakis - Colégio Albertus Magnus)



2 B - OS NÚMEROS E PITÁGORAS NA MAÇONARIA:

Pitágoras atribuia um significado metafísico aos números, sendo o numero 1 o Princípio, a Unidade; o 2 a Dualidade, a Harmonia dos opostos; o 3 o Ternário, a Trindade, os 3 ASPECTOS DIVINOS; E O 4, A MATÉRIA, O FÍSICO E O NUMERO 5, REPRESENTANDO O HOMEM.

SIMBOLIZADO NO TEOREMA OU NO TRIÂNGULO PITAGORICO DA SEGUINTE

FORMA.











OBSERVE QUE O NUMERO 3 ESTA RELACIONADO AO TRAÇO VERTICAL ( POSITIVO = MUNDO DIVINO, ESPIRITUAL) E O NUMERO 4, TRAÇO HORIZONTAL ( NEGATIVO = MUNDO FÍSICO MATERIAL ); O NUMERO 5 REPRESENTA O HOMEM, TAMBÉM SIMBOLIZADO POR UMA ESTRELA DE CINCO PONTAS, DEMONSTRANDO QUE POSSUI A POSSIBILIDADE DE FAZER A LIGAÇÃO ENTRE ESTES DOIS MUNDOS.

PITÁGORAS COSTUMAVA ESTIMULAR O ESTUDANTE A PENSAR; ENTRETANTO, EUCLIDES ERA MAIS DIRETO EM SUAS EXPLICAÇÕES, DETALHANDO-AS, COMO PODEMOS PERCEBER NA DEMONSTRAÇÃO:

Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo. - Pitágoras.

Temos aqui a repetição do que acontece em termos maçônicos, chamamos de Teorema de Pitágoras quando na Mesopotâmia este já era conhecido 1000 anos antes.

E em termos maçônico, nos referimos a 1717, como início da maçonaria e esquecemos das atividades anteriores com os ensinamentos simbólicos.



47º TEOREMA DE EUCLIDES

"Nos triângulos retângulos o quadrado do lado que subentende o ângulo reto é igual aos quadrados dos lados que compreendem o ângulo reto."
47.1 - Seja ABG o triângulo retângulo, sendo BAG o ângulo reto. (Hip.)
47.2 - Digo que o quadrado do lado BG é igual aos quadrados dos lados BA, AG.

terça-feira, 9 de maio de 2017



A ORDEM DOS CAVALEIROS TEUTÔNICOS


(Texto extraído do Livro Templários, Sua Origem Mística, por Pier Campadello)

A Sagrada Ordem dos Cavaleiros Teutônicos foi fundada na Palestina durante o cerco de São João do Acre (1189-1190), por comerciantes alemães como uma Ordem Hospitalária com intuito de formar postos de auxílio para socorrer seus companheiros sediados na Palestina e sujeitos às doenças desses lugares quentes, tornando-se uma Ordem Militar.

Recebeu a aprovação do papa Innocêncio III, em 1198, e uma Regra (Agostina) inspirada naquela dos Cavaleiros Templários, tomados como modelo para sua fundação e organização, porém se inspiraram também nos Cavaleiros Hospitalários. Os primeiros membros do grupo estabeleceram entre os integrantes do exército cristão acampado fora de São João do Acre. Pouco tempo depois, foram doadas umas terras para que construíssem um hospital e um estado monástico.

Alguns anos depois, em1199, foram surpreendidos com uma instrução do papa Innocêncio III, para que se tornassem uma Ordem Militar, limitando a admissão de membros aos componentes da nobreza alemão. Tornou-se, assim, a mais nova das três Ordens militares de Cavalaria do Oriente. Porém, a Ordem dos Teutônicos sediada na Palestina não restringiu aos seus membros a exigência Papal de pertencer à nobreza alemã. A única exigência imposta aos novos membros era a de que deveriam ser livres e, principalmente solteiros. 

A Ordem foi organizada no modelo templário, no qual o Grão-Mestre detinha o poder absoluto sobre os Cavaleiros, que seguiam o lema “isque ad mortem”, isto é, não podiam recuar jamais diante dos inimigos. Ele comandava os 12 Capítulos em que era dividida a Ordem e cada um destes era comandado por um líder conhecido como Komtur, significando Oficial de Diligências. Quando um Grão-Mestre morria, todos os Komturs se reuniam para eleger 13 membros, dos quais era escolhido o novo Grão-Mestre. Os outros oficiais do comando (Grosskomtur) eram: o Ordensmarshall, o Tressler (o tesoureiro), o Spitler (Hospitaleiro) e o Trapier (chefe do quartel).

Os Cavaleiros Teutônicos usavam pelote e mantos brancos e neles era estampada uma cruz “de sable”, quer dizer, uma cruz negra, dobrada em prata. Todos os membros, ao entrarem na Ordem, faziam os três votos monásticos de Obediência, de Castidade e de Pobreza.

Uma das principais condições para ingressar na Ordem Teutônica era que o candidato tivesse um vigor físico acima do normal, ampliado com um duro treinamento militar, em uma de suas sedes, que depois passou a ser o Castelo de Marienburg. Seus uniformes de batalha eram similares a todos os outros Cavaleiros, em alguns casos, um Teutônico podia portar alguns suplementos opcionais inseridos em seu vestuário normal, que consistia no escudo, nas costas de malha, cobertas por uma capa branca, adornadas com uma cruz preta simples e as armas de praxe.

Por um longo período, um pequeno destacamento de teutônicos serviu em Viena como se fosse uma pequena chama que mantinha vida a Ordem, sendo vistos pela população em geral como pessoas normais pertencentes a uma Ordem semiclerical.

A Ordem nunca se destacou na Terra Santa nem participou de nenhuma batalha famosa, como também não usufruiu do apoio, das benesses e riquezas que eram dados às outras Ordens. Na sua única participação, em 1216, a Ordem Teutônica perdeu a maioria de seus membros, inclusive seu Grão-Mestre, em uma ação em defesa da Terra Santa.

A Ordem ficou em Acre até a queda do reino, no fim do século XIII, quando direcionou seus interesses para seu país de origem, a Alemanha, deslocando sua sede para Veneza e dessa cidade foi aumentando gradativamente sua força e seu prestigio nos Balcãs.

Assim, a Ordem ajudou, em 1210, o Rei Andrew da Hungria a desalojar os Kumans que estavam invadindo a Transilvânia. O Duque polaco Conrad de Masovia também pediu sua ajuda contra os pagãos que invadiam suas terras.

Em 1229, foram chamados para converter e pacificar os eslavos pagãos da Prússia em uma dupla ação de conquista e Cruzada (Drangnach Osten), e foram tão eficientes nessa campanha, que praticamente esmagaram os eslavos de uma forma tão impiedosa, que lhes rendeu a reputação de guerreiros do mal, pois esses Cavaleiros, devido à sua superioridade militar adquirida com rigorosos treinamentos, tornaram-se vaidosos de sua força e perícia com as armas, endeusando-se, tornando-se cínicos e, ainda mais, adotando o critério de que para atingir rapidamente seus objetivos era necessária a eliminação total do inimigo, único meio de erradicar rapidamente o problema. Portanto, a Ordem era desumana em suas lutas contra as tribos pagãs, até mesmo com pequenos contingentes de cavalarias; eram praticamente invencíveis enfrentando qualquer inimigo. Os Cavaleiros Teutônicos não tinham misericórdia; qualquer homem, mulher ou criança conquistados tinham que se converter ou seriam executados. Desta forma, os nativos das regiões conquistada tornaram-se naturalmente servos da Ordem, que os controlava desde a mais próxima da série de poderosas fortalezas que foram sendo instaladas pelos Balcãs, na Polônia, Lituânia e Suécia.

Em 1226, o seu Grão-Mestre, Hermann Von Salza, conquistou a soberania do País de Kuln, assim como os direitos sobre as futuras conquistas. Em 1237, deu-se a fusão com a Ordem dos Porta Espada (Porte-Glaive ou Schwerttager), fundada em 1202 por Albert de Bruxhovden, que adotou a Regra de Citeaux escrita por Saint Bernard de Fontaine (São Bernardo), inspirado em Santo Agostinho de antioquia. O objetivo da Ordem era reduzir os pagãos da Livórnia, conquistando também a Coulândia e os territórios de Semigalle. Na sua fusão com os Cavaleiros Teutônicos, conservou seu Grão-Mestre Montgommery d´Eisenhower. Seu último Grão-Mestre foi Ghottard Kettler que, em 1559, foi derrotado por Ivan IV, cedendo a Livórnia à Polônia, secularizou a Ordem e erigiu por sua conta a Couriandia e a Zemgale (Semigalle) e ducados, sob a soberania polonesa (1561). Com o enfraquecimento dos Teutônicos, a Ordem conseguiu recuperar parte de sua independência.

Algumas rebeliões ocorridas em 1260 forçaram a Ordem a emprenhar-se acima dos seus limites.

Os Cavaleiros Teutônicos governaram as terras conquistadas com eficácia, mesmo que a maioria dos colonos estranhasse o fato de responder sobre impostos e assuntos financeiros a monges que não eram autorizados a possuir qualquer coisa, mas isto limitou a corrupção e permitiu que os negócios fossem operados com eficácia.

No início do ano 1300, a Inquisição atacou os Templários e os Teutônicos com as acusações de crueldade bruxaria, entretanto, o teatro de operações dos Teutônicos (Prússia e a Costa do Báltico) colocou-os de uma certa forma, em segurança, fora do alcance de qualquer autoridade que poderia agir contra eles.

As regras impostas pelos Cavaleiros Teutônicos não eram fáceis seguir, assim, quando notavam que suas normas não eram seguidas à risca, enviava expedições punitivas, de tal forma que, somente no século XIV, promoveram uma série de campanhas punitivas contra os lituanos (80 expedições ao todo, com uma média de sete expedições por ano).

Assim, governando com extremo rigor, os teutônicos alcançaram o cume de seu poder e reputação, durante o século XIV, no qual apareceram algumas das melhores mentes militares da época. Porém a extensão das terras dominadas não lhes permitia manter grandes guarnições de homens em todos os seus domínios, por esse motivo foram derrotados, em 1410, pelos polacos e lituanos na Batalha de Tannenberg, e os Cavaleiros Teutônicos foram obrigados a ceder a Prússia Ocidental e Pomerelia à Polônia, em 1466, e mudar sua sede para Konigsberg, na Prússia Oriental. O golpe de misericórdia foi dado mais tarde, em 1525, pelo Grão-Mestre Alberto de Brandenvurg, que acabou convertendo-se ao Luteranismo, enfraquecendo a Ordem.

Sua fama era a de possuírem um temperamento agressivo, como puro instinto animal e sempre prontos para entrar em ação. Esse tipo de atitude era condenada pelos Hospitalários e Templários que não apreciavam o ódio e a despreocupação com que os Teutônicos agiram contra os inimigos.

Os Teutônicos, normalmente, gastavam a maior parte de seu tempo preparando-se e treinando para entrarem em ação ou lutarem, pondo rapidamente em prática tudo o que aprenderam. Portanto, ficavam frustrados com planos e estratégias a longo prazo. Por este motivo, em geral, apresentavam uma forte tendência antissocial de difícil relacionamento com as outras pessoas; esta atitude motivou vários desentendimentos, tanto com os Hospitalários como com os Templários, porque, muitas vezes, fora da Ordem, ignoravam as instruções de seus próprios oficiais, por julgá-las impróprias ou incorretas.

Em menos de 100 anos, eles estenderam seus domínios ao longo do Báltico, do Golfo da Finlândia, e suas margens do Pomeranian. Colonizaram as terras conquistadas instalando colonos alemães, estabelecendo um forte governo central com sede em Marienburg, na Prússia Ocidental (agora Polônia). Essa sede foi construída, em 1276, pelo Grão-Mestre von Winrich Kniprode; era uma poderosa fortaleza situada em um local estratégico para o comando e controle dos territórios conquistados pelos Cavaleiros Teutônicos. Por volta de 1308-1309, esforçaram-se para submeter-se à Lituânia, a fim de religar suas terras à Prússia, alargando os territórios de Dantzig e Pomérélle até a Polônia. Conseguiram, assim, a expansão de seu território, trazendo uma grande estabilidade e paz para toda a região, de forma que o castelo se tornou um magnífico hotel para os nobres visitantes e Cavaleiros que quisessem tomar parte nas campanhas da Ordem.

O castelo de Marienburg foi completamente reformado no século XIX, porém foi bombardeado pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, sendo reduzido a ruínas. O governo polonês reconstruiu o castelo e o devolveu aos Teutônicos como um meio de restabelecer a tradição histórica.

Oficialmente, a Ordem está sediada na Áustria como uma simples hospitaleira, contudo, existem muitas ligações e filiações com diversas sociedades secretas alemãs mantendo o ideal germânico, cujo fim era elevar a Alemanha a um império pan-germânico que, no século passado, identificou-se com o III Reich, no qual o ideal foi distorcido em xenofobia e nacionalismo pueril, fora do contexto da marcha evolucional do gênero humano, que defende os excelsos princípios de Igualdade, Liberdade e Fraternidade Universais.

A imagem da Ordem Teutônica era tão forte para os alemães que foi adotada como modelo pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial, ao criarem as forças da SS, que chamaram de Ordem Teutônica ou Ordem Negra, adotando ainda como emblema a Cruz Sovástica (que representa as forças involutivas). De acordo com o livro Hitler m á dit (edição Portuguesa, pp, 225-6), no capitulo “A Criação do Super-homem” encontramos a frase: “O homem novo vive a nosso lado. Está ali! – exclamou Hitler triunfalmente – Não lhe basta isso? Vou dizer-lhe um segredo. Vi o Homem novo. É intrépido e cruel. Senti medo diante dele”.

Hitler é, pois, a síntese perfeita do fim de um ciclo racial, como foi Gênghis Khan, e, com suas visões de distorcida grandeza, provocou milhões de vítimas para comprovar suas tentadoras doutrinas de superioridade que nem todos sabem recusar, mesmo que depois chorem copiosas lágrimas de sangue.

O Verdadeiro progresso do gênero humano, o verdadeiro caminho da Iniciação e da Sabedoria Divina jamais promete coisas enganosas e mirabolantes que provocam o caos espiritual, mas coisas reais ou régias, baseadas no esforço, perseverança e sacrifícios diários, que poucos querem seguir, de acordo com a frase: “faze por ti que eu te ajudarei”, que é a síntese do Trabalho Magno, Opus Magnum de cada um.

Assim, a Cruzada Eslava da Ordem Teutônica foi adotada e sustentada pelos nazistas como um exemplo de superioridade alemã e usada como uma desculpa para atacar, entre outros países, a Polônia e a Rússia.

Agora, após o restabelecimento da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, readquiriram sua antiga sede e funções, dedicando-se ao trabalho de caridade e, ainda nos dias de hoje, existe, na Áustria uma espécie de organização semiclerical que se dedica ao trabalho de caridade.

Atualmente, os Cavaleiros Teutônicos escolhem cuidadosamente seus membros, especialmente entre as polícias especiais ou nas forças armadas de vários países ao redor do mundo. De qualquer forma, seu comportamento e suas atitudes devem ser discretos e reservados. Em geral, são proibidos de revelar sua identidade em público, esta é a única Ordem que obriga os seus membros, de acordo com antigas regras, a não manterem correspondência ou contatos com seus familiares.

Os fundos financeiros que sustentam a Ordem são quase impossíveis de serem localizados, assim como seus detalhes pessoais são protegidos até mesmo dos próprios irmãos Teutônicos no mesmo nível hierárquico, e suas habilidades específicas de luta são desenvolvidas cuidadosamente.

segunda-feira, 8 de maio de 2017



ORDEM DOS CAVALEIROS HOSPITALÁRIOS DE SÃO JOÃO, DE JERUSALÉM, MALTA E RHODES

ORIGEM E OS OBJETIVOS DOS CAVALEIROS HOSPITALARES


A Ordem dos Cavaleiros Hospitalares foi fundada em Jerusalém por um grupo de comerciantes italianos, em um hospital dedicado a São João, aproximadamente em 1.070, isto é, 30 anos antes da Primeira Cruzada. Acabou transformando-se em uma Ordem, em 1.100, logo após a Primeira Cruzada, quando empossaram o seu primeiro Grão-Mestre, que definiu seu objetivo principal de dedicar-se ao conforto e repouso dos peregrinos bem como ao cuidado de seus corpos, curando-os ou praticando a medicina preventiva. Porém, devido aos contínuos ataques e invasões muçulmanas, os Hospitalários acabaram por adotar a mesma filosofia guerreira que os Templários, concorrendo com estes na defesa militar da cristandade, sem esquecer jamais seus objetivos originais, de tal forma que se esmeraram em construir e manter hospitais em lugares estratégicos para cuidar dos peregrinos doentes e feridos e para manter sua filosofia de cura, todos seus membros eram treinados em primeiros socorros e cuidados médicos. Desta forma foi a única Ordem a sobreviver incólume aos turbulentos séculos da Idade Média até os dias de hoje (ainda existe a Ordem Hospitalária, com sede na ilha de Malta, no mar Mediterrâneo).

Ao longo dos séculos, tiveram uma dupla atuação: de cura e de servir como uma espécie de órgão de espionagem do Vaticano, apresentando-se normalmente, muito bem vestidos em público, de forma que as pessoas os vêem como dedicados seres altruístas que correm o mundo inteiro em serviços de auxílio, em desastres e obras beneficentes. Os membros desta Ordem, na sua maioria, são médicos ou enfermeiros especializados, que aplicam conceitos de altos padrões de limpeza e higiene. Usam um uniforme cerimonial que consiste em uma reoupa negra com uma cruz branca (Cruz de Malta). Antigamente os monges guerreiros usavam batas vermelhas com a cruza de Malta estampada em sua roupa.

Cavaleiros Hospitalários


Nos anos 1700, foram expulsos por Napoleão de sua sede na Ilha de Malta, recolhendo-se a uma pequena propriedade em Roma, perto do Vaticano. No entanto, recentemente, ganharam na Justiça os seus direitos de propriedade do castelo de Valleta, em Malta, porém, os nativos da ilha não aceitam mais os membros como seus senhores.

A escolha dos membros da Ordem é feita geralmente entre médicos, homens de ciência ou que possuam tendências ao sacerdócio altruísta. É uma Ordem tradicional de elevado cunho religioso (submetida às ordens do Vaticano), dando uma ênfase toda especial às cerimônias religiosas.

Os Hospitalários adotaram com tanto rigor os princípios de justiça que são incapazes de prestar auxílio a pessoas que consideram possuir uma vida desregrada ou a uma criatura que julgam ter um mau comportamento. Por este motivo, frequentemente entraram em conflito com os Cavaleiros Templários e Teutônicos.

É uma Ordem de cunho militarista, portanto, somente aceitam o serviço das mulheres dentro da Ordem em tarefas não combativas. Apareceram por volta do ano 1126, assumindo publicamente um caráter de crescente cunho militar, mais marcante que o próprio serviço de hospital originário. Com o tempo, tornaram-se, com os Cavaleiros Templários e Teutônicos, a principal força militar e poder financeiro da Terra Santa, poder este que foi se expandindo ao longo do Mediterrâneo.

A Ordem ficou muito rica, possibilitando a organização de um poderoso exército, que controlava uma vasta área com os Templários; possuíam, ainda, uma organização eclesiástica, administrativa e de serviços secundários, atendendo a uma rede de fortalezas e propriedades (hospedarias e hospitais), que eram servidos por centenas de cavaleiros e pajés auxiliares, que compunham as guarnições sediadas em pontos estratégicos, cobrindo uma enorme área do mundo cristão.

A Ordem permaneceu fiel aos objetivos de sua fundação e origens, mantidos até os dias de hoje, como nos hospitais como suas hospedarias, atendidas por seus próprios membros.

Quando em 1307, os Templários foram acusados por Felipe, o Belo, de uma série de ofensas contra a ortodoxia católica, os Hospitalários conseguiram ficar isentos de qualquer acusação, pois eles sempre privaram dos favores e beneplácito do Papado, de tal forma que na Inglaterra e em outros países foram beneficiados após o processo dos Templários, com a entrega oficial de propriedades destes últimos à suas administração e posse, acabando por enriquecê-los ainda mais.

Em 1291, os Cavaleiros de São João retiraram-se para Chipre e, em 1309, estabeleceram um principado privado e sede de suas atividades na Ilha de Rhodes. Nesta ilha, permaneceram durante dois séculos, resistindo a dois ataques dos turcos, entretanto não resistiram ao terceiro ataque, em 1522, quando foram forçados a abandonar a ilha, estabelecendo-se, então, em Malta, no ano 1530.

Nessa ilha, suportaram heroicamente, em 1565, o sitio e os repetidos ataques de 30.000 turcos, enfrentados e vencidos por 541 Cavaleiros Hospitalários, seus sargentos e mais 1.500 soldados mercenários a pé. Com essa histórica derrota infligida, os turcos terminaram seus ambiciosos planos de invadir e conquistar todo o Mediterrâneo.

Seis anos depois, em 1571, a frota da Ordem, com navios de guerra da Áustria, Itália e Espanha, ganharam a batalha naval de Lepanto, acabando com o poder naval dos turcos e sendo decisiva para que estes desistissem definitivamente de invadir a Europa. Desta forma, a Ordem contava, no século XVI, com um poderoso exército, apoiado por uma poderosa frota naval considerada entre as melhores do mundo cristão, contando com forças e recursos financeiros comparáveis à maioria das nações europeias.

A reforma protestante (1798) diminuiu a força da Igreja Católica na Europa, atingindo a própria Ordem e seus Cavaleiros sediados em Malta, que se haviam transformado em uma pálida sombra do que eram anteriormente, em decorrência dos vários enfrentamentos e pressões das novas convicções que arremessaram a Europa para um período de tolerância religiosa e mercantilismo.

Por outro lado, a Franco-Maçonaria com seu lema “Liberdade, Fraternidade e Igualdade” conseguiu diminuir as submissões populares de fé cega à teologia pregada pela Igreja Católica, assim, quando Napoleão invadiu a ilha de Malta a caminho do Egito, os Cavaleiros Hospitalários não ofereceram nenhuma resistência e foram expulsos da ilha.

Em 1834, aparece uma base oficial destes em Roma, dedicando-se com afinco ao serviço dos hospitais e ao trabalho da saúde do povo. 

Quando Horatio Nelson reconquistou suas propriedades na ilha de Malta, os Cavaleiros Hospitalários restabeleceram sua presença não oficial na ilha, mantendo sua fortaleza, porém, sem requerer nenhum poder de governo. 

Curiosamente, após a Segunda Guerra Mundial, cogitou-se seriamente a possibilidade de entregar Israel aos Cavaleiros Hospitalários porque, do ponto de vista de direitos internacionais, os Cavaleiros de Malta são encarados como um principado soberano independente, com a opção de possuir um assento nas Nações Unidas (nunca ocupado por eles) podendo ser identificadas embaixadas em vários países da África e amperica, com plenos privilégios diplomáticos.

De todo o exposto, verificamos que os Cavaleiros Hospitalários são uma Ordem com todas as bases legais, tornando seus oficiais reconhecidos em todas as partes do mundo até os dias de hoje.

Desde a época das Cruzadas, seus rivais tradicionais eram os muçulmanos, porém, periodicamente defrontavam-se com os Cavaleiros Templários, aparentemente irmãos na cavalaria e no credo, mas com várias divergências em relação à sua estrutura básica. Os Templários possuíam um conhecimento oculto proveniente do contato com outras ordens da Ásia Menor e os Hospitalários devam prioridade e maior ênfase ao servido de atendimento médico e aos cuidados da saúde da população.


LUGARES SANTOS DOS HOSPITALÁRIOS (VALLETA E MALTA)

A Ordem dos Cavaleiros Hospitalários foi fundada com o escopo inicial de ser uma Ordem Hospitalária e como tal construíram uma série de albergues (pousadas), distribuídos por diversas regiões da Europa, tais como: Aragão, Alemanha, Castilha, França, Itália, Inglaterra, Provença, etc.

Na ilha de Malta, os Cavaleiros têm uma marcante presença por meio de várias estruturas e fortificações que se revestem de um profundo significado religioso para eles. Assim, na costa norte da ilha possuem a baía onde São Paulo naufragou em sua tentativa de chegar em Roma; em uma proeminência sobre o mar, possuem o castelo de Saint´Angelo, e forte de Santo Elmo e um subúrbio cercado por um muro em Vittoriosa, que abrange dois promontórios que guardam um porto natural de fácil defesa. Todos estes pontos fazem parte da cidade de Valleta, assim chamada em homenagem ao Grão-Mestre Jean de La Valette, veterano no ataque a Rhodes, sendo considerado o defensor mais proeminente de Malta contra os turcos otomanos.

No centro das fortificações construídas para defender o principal porto da cidade está a Catedral de São João, construída em 1578 pelos Cavaleiros Hospitalários como centro da adoração. A parte externa da Catedral é simples e austera, porém seu interior é luxuoso e extravagante. No chão de um dos quartos, conhecido como o mausoléu de cavalheirismo, existem 375 lajotas de mármore, cada uma ricamente decorada com desenhos que registram várias ações da Ordem.

Existe, também, um grande hospital, um dos maiores de toda a Europa, considerado como o expoente da construção médica hospitalária. No hospital, eram exigidos rígidos padrões de limpeza e higiene, de tal forma que os Hospitalários cuidavam de seus pacientes usando instrumentos de prata, para garantir a higiene. O corpo de médicos da Ordem contava com cirurgiões, cuja fama era de serem os melhores e mais bem treinados de toda a Europa.

A cidade de Valleta foi tomada, em 1798, por Napoleão Bonaparte, que não encontrou nenhuma resistência por parte dos Cavaleiros, que, desta forma, foram perdendo as suas propriedades, ficando restritas a algumas terras e um edifício em Roma. Com o tempo e após o reaparecimento de seu pode e prestígio, foram-lhes devolvidos todas as suas propriedades dentro de Valleta.


(Texto extraído do livro “Templários, sua Origem Mística, por Pier Campadello – Editora Madras)