segunda-feira, 8 de maio de 2017

A CAUSA MAÇÔNICA JACOBITA



Texto extraído do livro: A Loja e o Templo Baigent, Michael e Leigh Richard – Editora Madras

Enquanto a Grande Loja prosperava e florescia, as Lojas pró-Jacobitas na Inglaterra eram, progressivamente, relegadas. Certamente, algumas persistiram, particularmente na região Nordeste, nos arredores de Newcastle e das propriedades da família Radclyffe em Derwentwater, mas o clima reinante permitiu-lhe pouco espaço para se desenvolverem e se expandirem. O mesmo se deu na Escócia, onde muitas evidências e provas referentes à Franco-Maçonaria entre 1689 e 1745 foram, deliberadamente ou de alguma outra forma, perdidas no calor e no tumulto dos acontecimentos. No entanto, a Irlanda foi uma questão à parte e diferente.

Já em 1688, a Franco-Maçonaria era bem conhecida na Irlanda. Naquele ano, um orador de Dublin, tentando atrair a atenção de sua audiência conseguiu seu intento ao referir-se a um homem que “foi feito franco-maçom de uma nova maneira”, - o que, certamente, implica na existência também de “uma maneira antiga”. No mesmo ano, aconteceu um pequeno escândalo quando um notório sujeito, chamado Ridley, conhecido como um espião e informante anticatólico, foi encontrado morto com algo sobre seu corpo que foi considerado uma “Marca Maçônica” – embora não haja qualquer indicação sobre qual seria aquela “Marca”, como teria sido ela ativada ou gravada, ou mesmo se ela tinha algo a ver com a sua morte.

A documentação existente sobre a antiga história da Grande Loja na Irlanda é remendada e irregular, com todos os livros de Atas anteriores a 1780 tendo sido extraviados, bem como todos os registros anteriores a 1760. Qualquer informação que possam ser obtidas provêm de fontes externas, tais como relatos em jornais e cartas. As provas e evidências existentes indicam que a Grande Loja Irlandesa foi criada entre 1723 e 1724, seis ou sente anos após a sua rival inglesa. O seu primeiro Grão-Mestre foi o duque de Montague que, em 1721, presidira a Grand Loja da Inglaterra. Montague era um afilhado de George I e leal pró-Hanoveriano. Não é de se surpreender que ele, dado a profunda e penetrante fidelidade aos Stuart na Irlanda, tenha atraído muita atenção, e a Grande Loja irlandesa passou a ser atormentada  por disputas e brigas internas. Entre 1725 e 1731, nota-se uma total lacuna em sua história, e os posteriores comentaristas chegam à conclusão de que deve ter ocorrido uma divisão entre patrocinadores Hanoverianos e Jacobitas.

Aparentemente em março de 1731, surgiu alguma consolidação sob o Grão-Mestrado do conde de Ross. Um mês mais tarde, Ross foi sucedido por James, lorde Kingston. Também ele, em 1728, presidira a Grande Loja da Inglaterra, porém, depois de 1770, quando a Grande Loja inglesa ratificou certas não especificadas mudanças, ele “limitou sua dedicação à Franco-Maçonaria irlandesa” – Kingston haveria de personificar a orientação da Grande Loja irlandesa. Ele tinha um passado Jacobita e vinha de uma família Jacobita. Seu pai tinha sido um cortesão de James II e acompanhou o rei deposto ao exílio, retornando à Irlanda em 1693 para primeiro ser perdoado e depois, preso e acusado pelo recrutamento de militares em favor da causa Stuart. Em 1772, o próprio Kingston incorreu em semelhantes acusações.

Assim, A grande Loja irlandesa haveria de ficar como repositório de questões e aspectos da Franco-Maçonaria que a Grande Loja da Inglaterra repudiara ou renegara. E haveria de ser para a Franco-Maçonaria da Grande Loja irlandesa que os numerosos regimentos britânicos passando pela Irlanda ou ali estacionados seriam expostos. Quando a rede de Lojas militares itinerantes começou a proliferar graças ao exército britânico, a maioria delas, ao menos inicialmente, foi certificada pela Grande Loja irlandesa. Isso haveria de ser de extrema importância, mas os seus efeitos não haveriam de se tornar aparentes pelos 25 anos seguintes.

Enquanto isso, a corrente original da Franco-Maçonaria mudara-se com os exilados Stuart para o Continente. Foi na França, durante o período imediatamente anterior a 1745, que os mais consequentes desenvolvimentos haveriam de acontecer. E foi na França que a Franco-Maçonaria Jacobita haveria de se tornar integrada – ou talvez reintegrada – com a antiga herança Templaria.

AS PRIMEIRAS LOJAS

Aparentemente, a Franco-Maçonaria chegou à França com os contingentes do derrotado exército Jacobita, entre 1688 e 1691. Segundo um relato do século XVIII, a primeira Loja na França data de 25 de março de 1688, tendo sido fundada por um regimento de infantaria, o Royal Irish, que fora formado por Charles II em 1661, que o acompanhara à Inglaterra em sua restauração e, então, ido novamente ao exílio com James II. Subsequentemente, no século XVIII, essa unidade ficou conhecida como o “Regimento de Infantaria Walsh, em alusão ao seu oficial comandante. Os Walsh formavam uma proeminente família de armadores irlandeses exilados. Um de seus membros, o capitão James Walsh, forneceu o navio que transportou James II para porto seguro na França. Mais tarde, Walsh e seus parentes fundaram um grande estaleiro em St. Málo, que se especializou no fornecimento de navios de guerra para a Marinha francesa. Ao mesmo tempo, eles continuavam fervorosamente leais à causa Jacobita. Duas gerações depois, o neto de Walsh, Anthony Vicent Walsh, junto com Dominic O Heguerty, outro influente mercante e armador, forneceria os navios com os quais Charles Edward lançaria sua invasão da Inglaterra. Em reconhecimento aos serviços prestados, Anthony Walsh foi feito conde pelos exilados Stuart, tendo o seu título sido oficialmente reconhecido pelo governo francês.

Na França, os militares irlandeses responsáveis pela transplantação da Franco-Maçonaria se movimentaram, de forma bastante natural, nos mesmos círculos que os refugiados pró-Stuart da Escócia – tais como David Granhame, o irmão de John Claverhouse, visconde Dundee, que dizia ter sido encontrado depois de Killiecrankie com uma cruz Templária. Se a Franco Maçonaria tinha antes, ainda que temporariamente, perdido o contato com a meada da tradição Templária, aquele contato foi restabelecido na França durante o primeiro quarto do século XVIII. No entanto, na França, a pressão combinada da Igreja e do Estado provou ser inimiga, e o ímpeto do pensamento cartesiano passou para a Inglaterra, onde se manifestou por meio de homens tais como Boyle, Hume e Newton, bem como por meio de instituições tais como a Sociedade Real (Royal Society) e a própria Franco-Maçonaria. Assim, foi na Inglaterra que os pensadores franceses de mente progressista, tais como Montesquieu e Voltaire, buscavam novas ideias. Eles e seus compatriotas haveriam de se mostrar particularmente receptivos à Franco-Maçonaria.

Mas se a Franco-Maçonaria começou a aparecer na França em 1688, cerca de 35 anos haveriam de se passar antes de ser fundada a primeira, oficialmente documentada, Loja Francesa. Segundo a maioria das fontes, essa foi fundada em 1725, e, segundo outra fonte talvez ainda mais confiável em 1726. O seu fundador original foi Charles Radclyffe, conde de Derwentwater, cujo irmão mais velho, James, tinha sido executado por ter tomado parte da rebelião de 1715. Entre os cofundadores de Radclyffe, estavam Sir James Hector Maclean, chefe do clã MacLean; Dominic O´Heguerty, o poderoso expatriado mercante e armador que, junto com Anthony Walsh, forneceu os navios para a expedição de Charles Edward Stuart em 1745; e um misterioso homem, que diziam ser um restaurador, cujo nome figura em documentos sobreviventes como “Hure” ou “Hurc”. Um certo autor persuasivamente argumenta que este pode ser uma corruptela de “Harry”. Sir John Hurry havia sido decapitado em Edimburgo em 1650 por sua lealdade aos Stuart. Sua família continuou militante Jacobita e foi enobrecida por Charles II, pode muito bem ter sido um de seus filhos ou netos exilados que, junto com Radclyffe, MaclLean e O´Heguerty, fundou a primeira Loja francesa.

Em 1729, as Lojas francesas já proliferavam nos moldes da Franco-Maçonaria Jacobita. Para não ser sobrepujada pela “concorrência”, a Grande Loja da Inglaterra começou, naquele mesmo ano, a fundar suas próprias Lojas afiliada na França. Durante algum tempo, os dois diferentes sistemas de Franco-Maçonaria seguiam caminhos paralelos e rivais de desenvolvimento. Embora jamais tenha conseguido impor um monopólio, o sistema Jacobita foi, aos poucos, ganhando ascendência. Dele finalmente evoluiu, em 1773, o mais importante Corpo Franco-Maçônico na França, o Grande Oriente.

Uma das mais proeminentes Lojas na França foi a Loja de Bussy. A rua na qual se localizava essa Loja, a Rue de Bussy (hoje Rue de Buci) leva diretamente à praça defronte à St. Germain des Prés. A outra rua que levava àquela praça era a Rua de Boucheries, onde ficava a Loja fundada por Radclyffe. Em outras palavras, as duas Lojas estavam apenas poucos metros, uma da outra, e a vizinhança era, efetivamente, um encrave Jacobita. Os Jacobitas franceses logo haveriam de espalhar ainda mais a sua rede. Em setembro de 1735, por exemplo, a Loja de Bussy iniciou lorde Clewton, filho do conde de Waldegrave, embaixador britânico na França (ele próprio um Membro da Loja “Horn” desde 1723) e o conde de St. Florentin, secretário de Estado de Luiz XV. Entre os presentes estavam Desaguliers, Montesquieu e o primo de Radclyffe, o duque de Richmond. Mais tarde. Naquele mesmo ano, o duque de Richmond fundou sua própria Loja em seu castelo em Aubigny-sur-Nère.

Embora Radclyffe tenha sido cofundador da primeira Loja registrada na França, ele não foi Grão-Mestre. Segundo os mais antigos documentos existentes, o primeiro Grão-Mestre, nomeado em 1728, não foi outro senão o Grão-Mestre anterior da Grande Loja da Inglaterra, o duque de Wharton. Cada vez mais ativo e militante em suas afinidades Jacobitas, Wharton, depois de ter sido substituído na Grande Loja, foi para Viena, esperando persuadir os austríacos Habsburgo a montar uma invasão da Inglaterra em nome dos Stuart. As peregrinações que se seguiram levaram-no a Roma e depois a Madri, onde ele fundou a primeira Loja da Espanha. Durante sua estada em Paris, ele parece ter ficado durante algum tempo com a família Walsh. Ao retornar para a Espanha, ele foi substituído como Grão-Mestre da Franco-Maçonaria francesa por Sir James Hector MacLean, colega de Radclyffe. Em 1736, MacLean por sua vez, foi sucedido por Radclyffe, a “eminência parda”, que saiu dos bastidores para assumir seu lugar no palco.

Radclyffe foi um dos dois mais importantes personagens na disseminação da Franco-Maçonaria em toda a França. O outro era um eclético e itinerante indivíduo chamado Andrew Michael Ramsay, nascido na Escócia na décda de 1680. Ainda jovem, ele ingressou numa sociedade meio “Rosacruz” chamada “Philadelphians”, e estudou com um amigo próximo de Isaac Newton. Mais tarde ele se associaria a outros amigos de Neston, entre os quais estava John Desaguliers. Ele também era um particular amigo de David Hume, e eles exerciam uma mútua influência entre si.

Em 1710, Ramsay estava em Cambrai, estudando com aquele que ele considerava seu mentor, o filósofo místico liberal católico François Fénelon. Quando Fénelon morreu em 1715, Ramsay foi para Paris. Ali, ele se tornou íntimo amigo do regente francês, Philippe d´Orleans que o induziu na neo-cavalheiresca Ordem de St. Lázaro, daí em diante, Ramsay passaria a ser conhecido como “Cavaleiro”. Não se sabe ao certo quando ele conheceu Radclyffe, mas em 1729 ele foi afiliado à causa Jacobita e serviu, durante algum tempo, como tutor do jovem Charles Edward Stuart.

Em 1729, apesar de seus laços Jacobitas, Ramsay retornou à Inglaterra. Lá, apesar de aparente falta de qualificações, ele foi prontamente admitido na Sociedade Real (Royal Society). Ele também se tornou um membro de outra prestigiada organização, o elegante Gentlemen´s Club of Spalding, do qual faziam parte, também, o duque de Montagne, o conde de Abercorn, o conde de Dalkeith, Desaguliers, Pope, Newton e Fraçois de Lonraine. Em 1730, ele estava de volta na França, cada vez mais ativo em favor da Franco-Maçonaria e cada vez mais próximo a Charles Radclyffe.

Em 26 de dezembro de 1736 – data em que Radclyffe assumiu o Grão-Mestrado da Franco-Maçonaria francesa – Ramsay proferia um discurso que haveria de se tornar um dos principais marcos da história da Franco-Maçonaria, e, desde então, uma inesgotável fonte de controvérsia. Esse discurso, que foi reapresentado numa versão levemente modificada para o público em geral em 20 de março de 1737, ficou conhecido como “A Oração de Ramsay”. Havia um posterior motivo político por trás dele. Na época, a França era governada por Luis XV, então com 27 anos de idade. No entanto, o verdadeiro poder governante no país, tal como fora Richelieu um século antes, era o conselheiro chefe do rei, o cardeal André Hercule de Fleury. Cansado de guerras, Fleury estava ansioso por estabelecer uma paz duradoura com a Inglaterra. Consequentemente, ele era hostil ao então ao nicho da conspiração anti-Hanoveriana que a Franco-Maçonaria Jacobita na França acabou se tornando. Os Stuart, por sua vez, esperavam poder dissuadir Fleury de seu intento e manter a França, a tradicional protetora e apoiadora da Casa Real escocesa, firmemente aliada ao seu sonho de retornar ao trono da Inglaterra. A “Oração de Ramsay” tinha o objetivo, ao menos em parte, de abrandar a antipatia que Fleury nutria em relação à Franco-Maçonaria na França sob o patrocínio real. Ele esperava poder iniciar Luiz XV. Com o rei assim envolvido, a Franco-Maçonaria constituiria uma frente franco-escocesa unida, e uma nova invasão da Inglaterra poderia ser contemplada, uma nova tentativa para devolver aos Stuart o trono da Inglaterra. Esses objetivos levaram Ramsay a revelar mais do que qualquer outro jamais revelara acerca das atitudes e orientação da Franco-Maçonaria Jacobita de início do século XVIII – e, ao mesmo empo, divulgar, mais do que qualquer outro tivera feito antes, sua alegada História.

Numa declaração plagiada quase textual de Fénelon, Ramsay diz:”O mundo nada mais é do que uma enorme república, na qual cada nação é uma família e cada indivíduo é filho”. Essa declaração não produziu grande efeito em Fleury, um cardeal católico monarquista nacionalista, que, de qualquer forma, não apreciava Fénelon. Mas a declaração haveria de se mostrar enormemente influente entre os futuros pensadores políticos, não apenas na França, não apenas no resto da Europa, mas também, nas colônias americanas. E Ramsay continua: “Os interesses da fraternidade havendo de se tornar os mesmos de toda a raça humana”. E ele condenou a Grande Loja, bem como outras formas de Franco-Maçonaria não Jacobitas, classificando-a de “herege”, apóstata e republicana”.
Ramsay ressaltava que as origem da Franco-Maçonaria estavam nas escolas de doutrinas secretas e seitas do mundo antigo:

“Assim a palavra franco-maçom não deve ser tomada no sentido literal, bruto e material, como se os nossos fundadores tivesse sido simples trabalhadores em pedra, ou menos, gênios curiosos que queriam aperfeiçoar suas habilidades. Eles não eram apenas experientes arquitetos, desejosos de consagrar os seus talentos e técnicas na construção de templos materiais mas também religiosos e príncipes governantes que se destinavam a esclarecer, edificar e proteger os vivos Templos do Altíssimo”.

Porém, embora eles possam ser oriundos das escolas de doutrinas secretas da Antiguidade, eles eram, segundo afirmava Ramsay, fervorosos cristãos. Na França católica da época, certamente seria imprudente chamar os Templários pelo nome. Porém, Ramsay enfatizava que a Franco-Maçonaria tinha os seus primórdios na Terra Santa, entre os “Cruzados”.

“Na época das Cruzadas na Palestina, muitos príncipes, lordes e cidadãos se associaram e juraram restaurar o Templo dos Cristãos na Terra Santa, e se empenharam em trazer de volta a sua arquitetura à sua primitiva instituição. Eles combinaram diversos Sinais antigos e Palavras simbólicas extraídas do acervo da religião para poderem se reconhecer entre os pagãos e os sarracenos. Esses Sinais e Palavras foram transmitidos apenas àqueles que solenemente prometiam, às vezes até ao pé do altar, jamais revela-los. Essa sagrada promessa não era portanto, um juramento execrável, como tem sido chamado, mas um respeitável laço para unir cristãos de todas as nacionalidades em uma só Fraternidade. Algum tempo depois, nossa Ordem formou uma união íntima com os Cavaleiros de São João de Jerusalém. Desde então, nossas Lojas adotaram o nome de “Lojas de São João”.

Desnecessário dizer que os Cavaleiros de São João, tal como eram no início do século XVIII, jamais reconheceram qualquer afiliação de tal natureza. Se eles tivessem sobrevivido como uma instituição pública acreditada, é possível que os Templários o tivessem feito. Ramsay, por sua vez, mapeando o conteúdo histórico da Franco-Maçonaria, rapidamente se mudou da Terra Santa, voltando para a Escócia e o reino celta pouco antes de Bruce:

“Na época dos últimos Cruzados, muitas Lojas já haviam sido criadas na Alemanha, na Itália, na Espanha e na França. James, lorde Steward da Escócia, era Grão-Mestre de uma Loja existente em Kilwinning, no Oeste da Escócia, MCCLXXXVI, logo após a morte de Alexander III rei da Escócia, e um ano antes de John Baliol ter chegado ao trono. Esse lorde admitiu como franco-maçons, em sua Loja os condes de Gloucester e Ulster, sendo um inglês e o outro irlandês”.

Finalmente, numa inconfundível referência à Guarda escocesa, Ramsay declara que a Franco-Maçonaria “preservou o seu esplendor entre aqueles escoceses a quem os reis da França haviam confiado, ao longo de muitos séculos, a proteção e a defesa de seus entes da realeza”.

Um pouco mais adiante, abordaremos as implicações e o significado da “Oração de Ramsay”. Por ora, basta notar que a tentativa de ganhar a simpatia e o apoio do cardeal Fleury saiu pela culatra. Dois anos antes, em 1735, a polícia agiu contra a Franco-Maçonaria na Holanda. Em 1736, o mesmo ocorreu na Suécia. Agora, depois de poucos dias da segunda “Oração” de Ramsay, Fleury ordena à polícia francesa que seguisse o mesmo exemplo. Foi determinada uma imediata investigação sobre a Franco-Maçonaria. Quatro meses depois, em 1º de agosto de 1737, um relatório policial estava disponível. A Franco-Maçonaria foi declarada inocente de “indecência”, mas potencialmente perigosa “em virtude da indiferença da Ordem em relação às religiões”. Em 02 de agosto, a Franco-Maçonaria foi interditada na França e o seu Grande Secretário foi preso.

Nesta série de batidas policiais, inúmeros documentos e listas de integrantes foram confiscados. Fleury e seus conselheiros certamente devem ter se surpreendido e chocado pela extraordinária qualidade de famosos nobres e clérigos que já figuravam como franco-maçons. O capelão da Garde du Corps, o guarda-costas do rei, por exemplo, apareceu como membro da Grande Loja Jacobita Bussi-Aumont, ou como era chamada a antiga Loja de Bussy. Também era o Intendente da Guarda. Na verdade, quase todos os integrantes da Loja eram oficiais, funcionários ou íntimos da Corte.

Roma já estava alarmada, e pouca dúvida pode haver de que Fleury tenha exercido alguma pressão sobre seus colegas e superiores eclesiásticos. Mesmo antes que a investigação na França estivesse concluída, o Papa Clemente XII entrou em ação. Em 24 de abril de 1738, uma bula papal, “In eminenti apostolatus specula” , proibiu a todos os católicos de se tornarem franco-maçons, sob a pena de serem excomungados. Dois anos mais tarde, nos Estados papais, os membros em uma Loja estavam sujeitos à pena de morte.

Segundo uma autoridade no assunto, o primeiro efeito da bula de Clemente pode ter sido o de forçar a remoção de Radclyffe do Grão-Mestrado da Franco-Maçonaria francesa. No decorrer de um ano, ele foi substituído por um aristocrata francês, o duque d´Antia. O duque, por sua vez, foi sucedido em 1743 pelo conde de Clermont, um príncipe de sangue. Assim, fica claro que a bula papal surtiu um efeito mínimo em dissuadir os católicos franceses de se tornarem franco-maçons. Ao contrário, após a promulgação da Bula, alguns dos mais ilustres nomes na França acabaram se envolvendo. Ao que parece, até o rei estava a ponto de ingressar numa Loja. Aparentemente, o Papa nada conseguiu, salvo derrubar os Jacobitas de sua anterior posição de supremacia nas questões franco-maçônicas francesas. A partir da bula papal, os Jacobitas passariam a exercer um papel cada vez menos influente na Franco-Maçonaria francesa, e deixou de afetar completamente a sua evolução e desenvolvimento. Como já vimos, finalmente o Grande Oriente estava prestes a surgir como o principal repositório da Franco-Maçonaria na França.

Em alguns lugares a postura da Igreja deve ter parecido – e ainda deve parecer – um tanto quanto enigmática. Além do mais, a maioria dos líderes Jacobitas ou tinha nascido católica ou tinha se convertido. Assim, por que deveria o Papa agir contra eles – principalmente quando ao assim fazer significaria a Franco-Maçonaria estar, cada vez mais, sob a influência anticatólica da Grande Loja da Inglaterra? Com análise retrospectiva, a resposta a essa pergunta é mais clara do que provavelmente era para muitos – católicos, franco-maçons, ou ambos – da época. A questão é que Roma temia, de forma não totalmente injustificada, que a Franco-Maçonaria, como uma instituição internacional, poderia representar uma razoável chance de oferecer uma alternativa filosófica, teológica e moral à Igreja.

Antes da Reforma Luterana, a Igreja proporcionava, com sucesso, uma espécie de fórum internacional. Potentados e príncipes, embora suas nações pudessem estar em guerra entre si, ainda eram católicos e atuavam sob o manto protetor da Igreja; as pessoas podiam pecar, mas pecavam conforme o contexto e a definição estabelecidos por Roma. Enquanto esse guarda-chuva protetor estava em seu lugar, ele assegurava que os canais de comunicação continuassem abertos entre as partes beligerantes e que, ao menos em teoria, Roma pudesse atuar como árbitro. É claro que com a Reforma, a Igreja já não era mais capaz de preencher essa função, tendo perdido a sua autoridade entre os Estados protestantes do norte europeu. Porém ela ainda desfrutava de considerável aceitação geral na Itália, no sul da Alemanha, na França, na Espanha, na Áustria e nos domínios do Santo Império Romano.

A Franco-Maçonaria ameaçava oferecer o tipo de fórum internacional que Roma proporcionava antes da Reforma, fornecendo uma arena para o diálogo, um a rede de comunicações, um projeto para a unidade europeia que transcendia a esfera de influência da Igreja, tornando-a irrelevante. A Franco-Maçonaria ameaçava se tornar, com efeito, algo como a Liga das Nações ou a Organização das Nações Unidas da época. Vale a pena repetir a declaração de Ramsay em sua “Oração”: “O mundo nada mais é do que uma enorme república, na qual cada nação é uma família e cada indivíduo é filho”.

A Franco-Maçonaria pode não ter sido mais bem-sucedida do que a Igreja em promover e sustentar a união, mas também não foi menos. A Áustría e a Prússia estavam em guerra. Ambos, Frederick – O Grande, rei da Prússia, e François, imperador da Austria, eram franco-maçons. Em virtude desse laço que tinham em comum, a Loja oferecia uma oportunidade de diálogo e, ao menos, uma possibilidade para a paz. Foi num esforço – fútil, no caso, e até, poderia se dizer, contraproducente – de impedir tais progressos que Roma agiu contra a Franco-Maçonaria. Os Jacobitas e a Franco-Maçonaria Jacobita no continente foram casualidades acidentais de considerações muito mais amplas. E a sua queda de importância foi provavelmente, no final, mais custosa para Roma do que teria sido se o seu status tivesse sido mantido intacto.

Como já vimos, a bula papal, que pretendia excluir os católicos da Franco-Maçonaria, provou ser totalmente inócua. Na verdade, foi exatamente na esfera romana de influência que a Franco-Maçonaria, ao longo de meio século seguinte, haveria de se espalhar mais vigorosamente e assumir algumas de suas mais agressivas e exóticas permutações. Ela foi patrocinada mais entusiasticamente por potentados católicos – como, por exemplo, François da Austria – do que por quaisquer outros. E ela haveria de se mostrar mais influente exatamente naqueles baluartes da autoridade romana, tais como Itália e a Espanha. Ao colocar a Franco-Maçonaria como vilã, Roma, com efeito, transformou-a num refúgio e num reduto para os seus próprios adversários.

Na Inglaterra, a Grande Loja se tornou cada vez mais divorciada tanto da religião como da política. Ela criou e alimentou um espírito de moderação, tolerância e flexibilidade, e muitas vezes trabalhava de mãos dadas com a Igreja anglicana, da qual muitos clérigos eram franco-maçons, quais não encontraram nenhum tipo de conflito de fidelidade ou obediência. Por outro lado, na Europa católica, a Franco-Maçonaria se tornou um repositório de sentimentos e atividades anticlero, anti-instituição e, finalmente, revolucionárias. É verdade que muitas Lojas permaneceram como baluartes do conservadorismo. Porém, muitas mais tiveram um papel vital em movimentos radicais. Na França, por exemplo, proeminentes franco-maçons, tais como o marquês de Lafayete, Philippe Egalité, Danto e Sieyès, agindo em conformidade aos ideais franco-maçônicos, estavam entre os principais que interferiram nos acontecimentos de 1789 e no que veio a seguir. Na Bavária, na Espanha e na Áustria, a Franco-Maçonaria haveria de representar um foco de resistência aos regimes autoritários, agindo principalmente nos movimentos que culminaram com as revoluções de 1848. Todas as campanhas que levaram à unificação da Itália – dos revolucionários do fim do século XVIII, de Mazzini, até Garibaldi – podem ser descritas como essencialmente franco-maçônicas. E das fileiras da Franco-Maçonaria europeia do século XIX surgiria um personagem que viria atirar a sinistra sombra do terrorismo, não apenas sobre a sua própria geração, mas também sobre a nossa – um homem chamado Mikhail Bakumim.

(Extraido do Livro O Templo e a Loja – Michale Baigent e Richar Leigh – Editora Madras).





domingo, 7 de maio de 2017


OS STUARTS E A MAÇONARIA, HISTÓRIA OU LENDA?

Tradução de José Filardo (blog Bibl3oteca)

Publicado em 04 de abril de 2017 por Pierre Mollier



James II da Escócia

A associação dos Stuarts com a Maçonaria continua a ser uma das grandes figuras da imaginação maçônica do século XVIII. Muitos rituais ou correspondência explicam que desde tempos imemoriais, os Stuarts eram os protetores e chefes secretos da Ordem, alguns até mesmo adicionam que um propósito oculto das Lojas era então restaurar a infeliz dinastia escocesa em seu trono legítimo. O que é realmente isso; história ou lenda?

Talvez não haja aqui fumaça sem fogo, mas ainda hoje os historiadores não conseguem encontrar provas documentais sobre o envolvimento real dos últimos representantes da grande dinastia com a Maçonaria escocesa. Elementos raros emergem como existência comprovada de uma oficina “jacobita” na comitiva de James III no exílio em Roma, ou a de algumas lojas stuartistas claramente identificadas em Paris na década de 1730 por Pierre Chevallier. Mas, por outro lado, todas as patentes ou cartas constitutivas supostamente concedidas assinadas ou promulgadas pelos Stuarts revelaram-se falsas.


Desde 1653, a Loja de Perth exibe um pergaminho dizendo que James VI da Escócia foi iniciado como Aprendiz em seu seio em 15 de abril de 1601. Os rumores em torno da existência de uma Loja no exílio de Saint-Germain-en-Laye em 1688 ocupam os maçons de Paris desde 1737. Em 1749, o ritual da Sublime Ordem dos Cavaleiros Eleitos afirma que os Templários perseguidos foram acolhidos e protegidos pelos reis Stuart na Escócia, onde eles se esconderam nas Lojas dos maçons. A lenda tornou-se ainda mais viva que a personalidade, a epopeia e o trágico destino de Charles Edward Stuart, conhecido como Bonnie Prince Charlie – chamado de “jovem pretendente” (1720-1788) – lhe conferem uma forte dimensão romântica. Sua reconquista inaudita da Escócia por alguns meses em 1745 e, em seguida, a fuga para as montanhas depois da derrota fatal de Culloden apaixonaram então toda a Europa.

Seja por cálculo, como a crítica moderna o acusou, ou mais ou menos de boa fé como pensamos, o Barão de Hund conservou essa genealogia Templária e stuartista quando começou a desenvolver a “Estrita Observância” Templaria na Alemanha a partir de 1750. Ele alegava ter sido recebido em Paris na década de 1740, na Ordem do Templo restaurada no seio de uma loja reunindo membros ingleses e escoceses seguidores de Charles Edward Stuart. Fizeram-no supor que Charles Edward era o Grão-Mestre secreto dos Maçons sob o nome de “Eques a sole Aureo”. A Maçonaria que dissimulava a continuação secreta da Ordem do Templo era na realidade dirigida por chefes que ninguém conhecia, os “Superiores Desconhecidos”.

O grande sucesso da Estrita Observância Templária popularizou mais o suposto papel do Stuarts nas Lojas. Após a morte de Hund, o novo Grão-Mestre, o príncipe Ferdinand de Brunswick quis saber onde se colocar. Em 1777, ele então envia um Maçom muito ativo, o Barão de Waechter junto ao “jovem pretendente”, que não o é de fato, para interrogá-lo “oficialmente” – finalmente! – sobre as ligações reais dos Stuarts com a Maçonaria. Este dá uma resposta confusa, mas da qual finalmente fica claro que nem seu pai nem ele eram maçons. Mas o lado evasivo da resposta e a reputação de dissimulação ligada a Charles Édward não resolvem a questão, e os dignitários maçônicos alemães e suecos voltam à carga. Abordado diversas vezes, ele acaba por insinuar que se as lojas desejassem ele estava pronto para assumir os deveres do seu cargo! Pressionado por todos os lados – e à procura de reconhecimento e … dinheiro! – em 1783, ele finalmente dará uma Patente “verdadeira-falsa” ao rei Gustavo III da Suécia reconhecendo-o como seu legítimo sucessor como chefe da Ordem dos Cavaleiros de São João do Templo, isto é, da Ordem Maçônica Templária.

Desde tempos imemoriais à pergunta “Sois maçom? ” as instruções maçônicas mandam responder: “Meus Irmãos como tal me reconhecem.” Se é quase certo que ele nunca foi iniciado em boa e devida forma, Charles Edward era reconhecido desde longa data “como tal” por muitos maçons do século XVIII. No crepúsculo de sua vida, ele finalmente aceitou esta coroa que todos lhe queriam colocar.

A única que ele jamais colocaria em sua cabeça.



Publicado em http://www.fm-mag.fr/article/tradition/les-stuarts-et-la-franc-maconnerie-histoire-ou-legende-1512

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A MATEREGRA (REGRA MÃE)  DOS TALHA-PEDRAS DE VENEZA

LA MARIEGOLA[1] DEI TAGIAPIERA[2] DI VENEZIA


— Tradução, adaptação e notas por Tiago Roblêdo M\ M\


INTRODUÇÃO


A intenção desta análise é melhor compreender qual seria a relação entre os irmãos da Escola de "Tagiapiera" de Veneza no período medieval e entender, também, seus posicionamentos para com os membros de outros Ofícios edificativos, suas relações com as instituições eclesiásticas e com o governo local, seu sistema de proteção e de salvaguarda contra os estrangeiros, a comparação com outras realidades em outros lugares etc. Pede-se ao leitor compreensão, pois em alguns casos a transcrição ou tradução, não estar rigorosa em determinados momentos, isto, devido às más condições do documento original.

O TALHA-PEDRA


Em Veneza, a Corporação tinha uma característica predominantemente artesanal, apesar de ter sido posteriormente descoberto que, em paralelo, havia um mercado típico, ou seja, a atividade do comércio de matérias-primas e produtos finais.

A Corporação era dividida em três categorias: os Tagiapiera ou pedreiros, os Fregadoriou ilustradores, os Segadori ou serradores. Os Intagiadori, ou entalhadores de pedras, aqueles que entalhavam folhas, flores e frutos, formavam um outro pequeno ofício, que se se tornaria por decreto do Senado em 1724 parte do Colégio de Scultori, ou escultores.A Escola poderia aceder aqueles que tinham atingido a idade de 15 anos. Neste Ofício estavam contemplados quatro graus:

- O primeiro era caracterizado pela figura do aprendiz, jornaleiro ou Peão;
- O segundo pela figura do operário ou do Trabalhador;
- O terceiro era representado pela figura do Mestre;
- O quarto era caracterizado pela figura do Mestre da Corte ou "Paron de Botega", ou Patrono da Oficina, o dito "Paron de Corte";

Em Veneza dominava uma aristocracia de Mestres, que gozavam de privilégios especiais estendidos ainda aos seus filhos, que não eram obrigados a submeter a formação de aprendizes, e ao esforço daquele trabalho. Cada aprendiz se sabia, passava por um estágio como Peão, se tornava um trabalhador e, após bons serviços prestados, submetia-se a um teste no qual provava que era um perito, tornava-se um Mestre e legava aos seus filhos o privilégio de se tornarem por sua vez, Mestres sema necessidade de provações. Foi de fato uma aristocracia sempre vívida, e sempre revivida. Todos que ingressavam no Ofício tinham poder de voz, entretanto, as propostas e as eleições eram feitas por um conselho de 40 eleitos pelo Capítulo Geral a cada ano. O teste para se tornar Mestre consistia em esculpir uma base ática[3] que tinha de projetar e conduzir a si mesma com fruição plena, sem a utilização de uma forma e feita meramente a partir de um desenho. Em seguida, este trabalho era medido com uma forma de cobre.

A Escola, que se reuniu sob a proteção dos Quatro Santos coroado, foi inicialmente instalada no Hospital São João Evangelista, onde, em um cômodo no andar térreo disponibilizado pelo Prior, dava lugar as reuniões do Capítulo, ou seja, o Conselho da Associação, presidido pelo Gastaldo[4]. Como outras Escolas Menores, também a deTagiapiera tinha tarefas de assistência mútua e de controle de qualidade do trabalho. Em 1515, a Irmandade se mudou para Igreja de São Apolinário, onde graças em especial, o envolvimento de Pietro Lombardo, comprou os fundos ao lado do campanário para construir as suas próprias instalações, tal construção, na rua do Campanário, e ainda hoje se mantém no topo da fachada um baixo-relevo com os Quatro Santos Coroados e a inscrição: "MDCLII SCOLA DI TAGIAPIERA". 


Havia também um altar de mármore esculpido em ambos os lados com ferramentas doOfício. O altar está agora sob custódia da Igreja de São Silvestre.

A fraternidade entre os escultores e pedreiros anda iria durar muito tempo. Ela só seria dissolvida em 1727 por um certo Antonio Corradini e outros escultores barocchi (barrocos).

A MATEREGRA

A definição de "Mariegola" provavelmente remonta ao nome latino “matricola”, diminutivo de “matrix” (mãe em latim), consequentemente derivado para “mare”, mãe no dialeto veneziano, combinado com “regola”, regra (do latim, regula), ou seja, "regra mãe" ou “máter regra”. Ele era o principal documento da fraternidade e, como tal, era tido em consideração máxima por seus membros.

As Escolas, eram corporações de categorias, sendo orientados a defesa da classe e ao interesse da assembleia de membros: de fato, estas corporações tentaram impor formas de privilégio exclusivo e barreiras protecionistas, o que limitava o exercício de atividades estrangeiras, impunha leis e estabelecia um monopólio rígido para o exercício do Ofício e do ingresso na corporação.

Na cidade de Veneza o termo Escola termo refere-se tanto a uma antiga instituição de caráter associativa-corporativa, quanto ao edifício que lhe constitui a sede. Cada Escola no exercício das suas funções tinha necessidade de expedir e receber documentos que acabavam por descrer a vida da própria comunidade, por isso, seria criado o seu próprio arquivo e nomeado um secretário para o gerir, a Escola também regulava a sua atividade através do estatuto e seus capítulos.

Os estatutos das bancadas eram recolhidos para estes Mariegolas. Os itens preservados na Escola eram decorados lindamente e transferidos para a custódia do chefe da bancada. Eram uma forma de compromisso e cumprimento entre as pessoas que praticam o mesmoOfício qual possuíam um papel bem definido na sociedade. Seus capítulos dirimiam disputas, mantinham listas periódicas de membros e empregados, era, portanto, um documento disponível ao tempo e a necessidade. O Mariegola também era exibido em uma procissão durante as cerimônias religiosas mais importantes e era mantido em casos especiais com outros documentos importantes.

Com a queda da República e da crise econômica, juntamente com muitas outras obras de arte, e com o mobiliário das Escolas, o Mariegola foi vendido, o que restou, sobreviveu parcialmente intacto, ou seja, despojado de suas decorações preciosas e reduzido as iluminaras de suas páginas: tudo isso para pagar as dívidas das Escolas. Mas muitas foram salvas graças aos grandes colecionadores, estudiosos e historiadores como Teodoro Correr, Domenico Zoppetti, Agostino Corrier, Sante della Valentina, Cesare Augusto Levi, Emmanuele Cicogna, Giovanni Rossi, Girolamo Soranzo e outros. Hoje, em particular, o museu Correr possui 246 além de 14 provindos do Museo del Vetro di Murano.

O MARIEGOLA DE TAGIAPIERA DE VENEZA

O mais antigo documento sobre os pedreiros como uma corporação legalmente reconhecido são os capítulos de 1307, elaborados como XVII tópicos e aprovados porGiustizieri Vecchi, seguido depois pelo Mariegola, elaborado em vernáculo, no início de 1500, que receberia outros conteúdos destes capítulos, porém, sem este processo respeitar uma ordem cronológica. Neste se encontra registrado, que a Corporação foi governada por trêsSoprastanti (Superiores), dos quais um seria então nomeado o Gastaldo, um secretário e posteriormente, também, dois sindicantes, o que seria perpetuado até o final do século XVIII.

Os capítulos são ricos em miniaturas, ornamentações e outros itens decorativos, era uma obra de grande arte, mas não apenas uma pilha de documentos importantes para a instrução de fraternidades corporativas, confrades que exerciam a mesma profissão. Também são uma série de documentos históricos, estatutos, capítulos e informações muito importantes para a 
compreensão dos diversos significados histórico-sociais e culturais da Veneza nos tempos antigos.
No Mariegola, um documento raro e único em seu gênero, foi estabelecido as regras de conduta internas e normas legais confiadas ao Gastaldo, esses capítulos resolviam contendas, asseguravam as cerimonias, estabeleciam os procedimentos eleitorais, atualizavam a lista dos Gastaldi, dos guardiões e dos irmãos. Ainda aplicava os impostos tributários, como a taxa chamada de luminária anual que servia para manter e despesas doOfício. Diante do altar da Escola dedicado ao padroeiro aos novos membros prestavam seu juramento pela leitura do estatuto.

Em sua página 13, há uma fachada decorada com quadro filigranas com flores, folhas, botões de ouro outros motivos, no painel superior, figuram os padroeiros da fraternidade, os Quatro Santos Coroados, que estão segurando a palma do martírio. No painel inferior, mostra uma bênção do Deus Pai: provavelmente tal iluminura remonte ao século XVI, embora nela encontremos também o texto do estatuto que é datado de 15 de setembro de 1307.




Nela ainda pode ser encontrada, a referência à Virgem Maria, os Quatro Santos Coroados não são mencionados, esses patronos do Ofício, no entanto, são mencionados no texto da convenção com o prior da Igreja de São João Evangelista, datado de 1396, para ser então ser registrado no Cap. XIV, na mesma data. Eles seriam nomeados no capítulo sete. Se pode deduzir, portanto, que provavelmente a adoção dos Quadro Santos Coroados como os santos padroeiros da Escola de "Tagiapiera" tenha ocorrido no período entre 1307 e 1396.

Ao se analisar a convenção assinada pelo Ofício com o Prior da Igreja de São João Evangelista sobre a sede da Escola, se contata uma datação de 16 de novembro 1396, o documento é composto por cinco fachadas (5R-7R), nele é feito o acordo entre o nobre Marco Badoer, Pior do Hospital de São João Evangelista e Girard Tagiapiera, CesarioTagiapiera e Zorzi Tagiapiera, os Soprastanti do Ofício.
O Badoer acorda para o Ofício dos terrenos no térreo, um cômodo para as reuniões do Capítulo, e, caso não fosse possível, em seu lugar, um cômodo superior entre a Igreja e o Hospital. Ele compromete-se a celebrar uma missa na Igreja vizinha toda terça-feira no altar de Santa Clara e uma missa solene em 8 de novembro, um dia dedicado aos “Quatro Sancti Coronati confaloneri delarte predicta”. Toda segunda-feira, o sacerdote, celebraria a missa e estaria comprometido a atravessar pelo “larário” recitando o ofício dos mortos. O ano contratual teria início no primeiro domingo do mês de março.

O Ofício de Tagiapiera, representado por Girard, Cesario e Zorzi, em contrapartida seria obrigado a pagar a Badoer o valor de cinco "pizoli" para cada morto, qual seria enterrado à custa do Ofício, e para aqueles do Ofício que fossem enterrados à custa da família do falecido, além da soma dos cinco “pizoli”, seria também oferecido valor que o Badoer acordou com as pessoas que tiverem as despesas do funeral.

O Ofício prometia dar esmolas aos pobres do Hospital mantidos pela caridade da casaBadoer, e, para ele e seus sucessores, em entregar os “honorantie infrascripte”, ou seja, seis doses de vinho e seis porções de pães brancos qual seriam doados aos pobres do Hospitalcitado e um quarto de um Cordeiro mais um quarto de carne de Bode, como era de costume naquele tempo. Para os necessitados das terças-feiras e a sua solenidade, foi estabelecida a obrigação de pagar dois ducados de ouro por ano.

Isto foi seguido por declarações de cumprimento do acordo, e, no caso da ausência de uma das partes, a obrigação de pagar uma multa de 50 ducados de ouro. O contrato foi gravado por um notário, na presença de testemunhas.
Se segue agora, uma análise dos primeiros 63 capítulos do Mariegola, cada item será apresentado começando com o número do capítulo em algarismos romanos[5] como o original, seu conteúdo é em ordem seguido de:

Dat.: A data, no caso a data que é encontrada no capítulo.
Col.: A possível correlação, quando indicada, com os capítulos de 1307.
Com.: Quaisquer elementos para comparação de diferentes estatutos de corporações na Itália e em outros estados.
Ext.: Em alguns casos, um extrato do capítulo no vernáculo.

I. Cap. I: Estabelece que se deve realizar os Capítulos no primeiro domingo de abril, qual deve nomear o Gastaldo e os oficiais e também que no primeiro domingo do mês de maio subsequente, os oficiais da antiga bancada deverão entregar os cargos aos novos oficiais.
Dat. 1363.
Col. provém do capítulo II do Capítulo[6].
Com. Ao contrário de Antuérpia, são nomeados dois anciões e dois jurados.

II. Cap. II: Refere que o Gastaldo e seus companheiros devem eleger entre eles 40 pessoas, incluindo os patronos e Mestres do Ofício que se tornarão eleitores.
Col. provém do capítulo II do Capítulo.

III. Cap. III: Emenda a idade mínima para quinze anos, a fim de eleger o Gastaldo e oficiais da "Bancha" (Bancada).
Dat. 21 de agosto de 1325.
Ext. “Ordenamos que a partir doravante que nenhum membro deste Ofício, qual não tenha a idade de completa de quinze anos, possa ou deva participar da eleição de Gastaldo nem a de qualquer dos outros oficiais da bancada, sob a pena qual o Chefe de Justiça julgar conforme o mérito”.

IV. Cap. IV: Zela quanto à hegemonia numérica de estrangeiros em relação aos Venezianos, em função da rogativa dos últimos, os Provveditori[7] exigiam que, em reunião, o número de estrangeiros eleitos não excedesse o de venezianos.
Dat. 25 de outubro de 1491.

V. Cap. V: Exige a eleição, a cada ano, de um secretário a quem é atribuído à transcrição das entradas, das saídas e tudo o que fosse intrínseco ao Ofício. Ficava entendido que não poderia expressar qualquer opinião ou estimativas, mas apenas escrevê-las.


VI. Cap. VI: Exige que dentro do prazo de um mês o antigo Gastaldo entregue todos os bens e recursos para o novo Gastaldo da Escola.
Dat. 08 de novembro de 1412.

VII. Cap. VII: Exige para os oficiais a anuência das taxas internas.
Dat. 03 de março de 1375.
Col. Recorde Capítulo III do Capítulo.
Ext. "Que nenhum dos nossos oficiais que estejam engajados no Ofício possa refutar o seu encargo sob a devida pena[8].".

VIII. Cap. VIII: Exige que seja instituído um grupo de três “Soprastanti" formado por um “Paron da Corte” (Patrono da Corte) e dois “Lavoradori” (Trabalhadores). Seus encargos teriam mandato de um ano.
Dat. Corrigido em 05 de outubro de 1329.
Col. Corresponde ao capítulo I do Capítulo.

IX. Cap. IX: Ordena que os "Soprastanti” do Ofício devem diligentemente visitar, pelo menos uma vez por mês, todas as cortes ou oficinas de talha-pedras dirimindo, a eventual existência de imbróglios entre os colegas relacionados ao trabalho e aos materiais.
Col. Corresponde ao capítulo IV do Capítulo.

X. Cap. X: Ordena que os Soprastanti, presente e futuro, tenham autoridade para aplicar penalidades, caso seja necessário, no valor de “XX de pizoli”.
Col. Corresponde ao capítulo V do Capítulo.

XI. Cap. XI: Estabelece que ninguém deva ousar a insultar ou proferir injúrias aoGastaldo, ao Soprastanti e nem ninguém a serviço do Ofício sob a pena de "libre X de pizoli" para cada infração e para cada incidência.

XII. Cap. XII: Ordena que seja realizada uma missa pela "a salvação de nossas almas" e pelos irmãos falecidos, no terceiro domingo do mês e que todo aquele do Ofício lá vá e salde um centavo.

XIII. Cap. XIII: Ordena que todo Soprastanti ou oficial do Ofício, não gaste arbitrariamente os bens da Escola, sob a pena de “libre 5” para cada infração.
Dat. 17 de julho de 1339.

XIV. Cap. XIV: Ordena que toda terça-feira da semana, se deva celebrar uma missa na Igreja de São João Evangelista[9] e também a cada ano, no dia 8 de novembro, em memória dos Quatro Santos Coroados[10], aqueles que não se fizerem presentes na última função pagarão a pena de "soldi 10”, salvo um justo impedimento.
Dat. 1396.
Com. Em Luxemburgo, o patrono escolhido foi São Teobaldo.
No Malines eram celebrados os Quatro Santos Coroados.
Em Audenarde ao santo padroeiro escolhido foi São João Batista.
No Auvergne é comemorando no Dia da Assunção.
Em Maiorca encontramos a Virgem Maria e os Quatro Santos Coroados.
Ext. "que se deva celebrar uma missa a todos os mártires por semana: Na igreja do misericordioso São João Evangelista, e anualmente em oito de novembro em memória dos Quatro mártires do Ofício, misericordioso São Cláudio, misericordioso São Castório, misericordioso São Nicóstrato e o misericordioso São Sinfrônio, ou seja, uma missa solene em louvor & reverencia do misericordioso Senhor Deus e da mão Santa Maria que sempre se mantém em sua graça.”.

XV. Cap. XV: Ordena que seja celebrada uma missa todas as terça-feira na qual será obrigado a saldar “libre 3 de pizoli”.
Dat. 28 de abril de 1430.

XVI. Cap. XVI: Ordena que seja celebrada, festejada e respeitada a festa dos Quatro Santos Coroados com a proibição de trabalhar ou ordenar trabalhar naquele dia, sob pena no valor de "cento de pizoli” para cada um e para cada infração, tal compensação será destinada em um terço para a Escola, um terço a câmara e um terço ao acusador.
Dat. 01 de abril de 1403.
Ext. “que todos aqueles do Ofício de “Tagiapiera” devam celebrar e festejar a festa dos quatro mártires patronos do dito Ofício quais constituem São Nicóstrato, São Cláudio, São Castório e São Sinfrônio a qual é realizada no dia 8 de novembro: E não possa ninguém do Ofício de “Tagiapiera” trabalhar ou fazer trabalhar para que si possa ou para outros, na dita festa que os ditos mártires são venerados...”.

XVII. Cap. XVII: Obriga o Soprastanti a visitar os membros enfermos a fim de oferecer concretas ações de caridade[11] para estes necessitados.
Col. Corresponde ao capítulo XII do Capítulo.

XVIII. Cap. XVIII: Requer a visita do irmão ao funeral de um membro do Ofício e no cortejo de seu sepultamento.
Col. A primeira parte corresponde ao capítulo XII do Capítulo.
Ext. "e nesta ocasião todo aquele da Escola deverá ir a casa daquele que veio a falecer & qual deverá acompanhar até o lugar que será sepultado: e lá perdurar até que o corpo seja enterrado sob pena no valor de “X”, para cada um que infringir a presente ordem a cada vez que incidir...".

XIX. Cap. XIX: Regula o pagamento da luminária[12] e entrega da vela no dia do Capítulo e no dia da festa dos Quatro Santos Coroados.
Dat. Ratificado em 18 de outubro 1424 e 17 de fevereiro de 1439.

XX. Cap. XX: Exige a presença na festa dos Quatro Coroados e para aqueles que não o cumprirem, saldar a pena no valor de “XXXII” para cada um dos infratores e a cada vez que incidir, revisto no capítulo XIII anterior de 1396 qual cuja pena foi fixada para o valor de "10".
Dat. 08 de abril de 1462.


XXI. Cap. XXI: Exige aos filhos ou parentes dos patronos a entrada na Escola após de cinco anos de trabalho com seu pai ou parente.
Ext. "Ainda que cada filho de patrono, parente de mestre não possa trabalhar mais que cinco anos com o pai, parente, ou ambos, tendo de ingressar na dita Escola de forma que trabalhe com outro, sob pena de livre de “XXV de pizoli” a ser dividida por três como o supracitado”.

XXII. Cap. XXII: Veta o trabalho à noite e durante os dias de festa sob pena no valor de "XL" para cada infrator, e para cada incidência.
Col. Corresponde ao capítulo VIII do Capítulo.
Ext. "Ainda se estabelece e ordena que nenhum mestre empregador súpero a Peão do presente Ofício não ousará ou presumirá trabalhar ou escriturar em nenhuma das festas que sejam celebradas a qualquer “câmara” de Justiça sob pena de “XL”...".

XXIII. Cap. XXIII: Regula o trabalho noturno possibilitando o pagamento de um ducado de ouro com a respetiva liberação de uma publicação válida por um mês.

XXIV. Cap. XXIV: Regula a relação com outros mestres e os seus comitentes, proibindo o trabalho em grandes obras não pagas com antecedência, sem um acordo prévio entre os mestres e estes comitentes.
Dat. 27 de setembro de 1465.

XXV. Cap. XXV: Indica como aconselhar o comitente fazendo referência em especial à qualidade, tipicidade e valor dos materiais utilizados.
Col. Corresponde ao capítulo VII do Capítulo.

XXVI. Cap. XXVI: Ocupa dos irmãos que nasceram de pais estrangeiros em Veneza, considerando aqueles associados como cidadãos "nativos", também estipula que aqueles quais são noivos de uma mulher veneziana possam ser eleitos Gastaldi eJuízes do Ofício.
Dat. 07 de fevereiro de 1460.

XXVII. Cap. XXVII: Declara que o Soprastanti do Ofício de “Tagiapiera” tem “liberdade de fazer justificadamente todas as coisas concernentes ao Ofício...”.

XXVIII. Cap. XXVIII: Veta o gasto de dinheiro da Escola para comer ou beber no dia do Capítulo, sob pena de “libre X...".
Col. Corresponde em parte ao capítulo XVI do Capítulo.
Dat. 08 de novembro de 1412.

XXIX. Cap. XXIX: Afirma que, a fim de ampliar os bens da Escola a partir de então, cada Patrono da Oficina, terá que pagar por sua luminária, a cada ano, no dia do Capítulo o valor de “XXXIV” e para outros mestres e trabalhadores o valor de “XIV” no prazo de quinze dias, sob pena no valor de “X” para os patronos e “V” para os outros mestres e trabalhadores.
Dat. 08 de novembro de 1412.



XXX. Cap. XXX: Trata de disputas com membros de outros Ofícios, como muratori (mureiros), marangoni (carpinteiros), etc., e os proíbe qualquer trabalho de "Tagiapiera".
Reexaminada em um capítulo de 1519.
Dat. 04 de abril de 1412.
Ext. "... que doravante nenhum mureiro ou carpinteiro forasteiro sem ocupação não arvore sobre qualquer trabalhador pertencente ao Ofício de “Tagiapiera” sob pena no valor de “libre cento pizoli”, mas bem poderá o citado mureiro ou carpinteiro vir a compensar de outras formas”.

XXXI. Cap. XXXI: Ocupa daqueles que pertencem ao Ofício de “Tagiapiera” e estejam fora de Veneza com a família por mais de um ano, que, após o seu regresso, para realizar novas obras, deverá reingressar na Escola e pagar as taxas devidas.
Dat. 03 de janeiro de 1319.

XXXII. Cap. XXXII: Estabelece que aqueles que não tenham dominado o Ofício em Veneza não possam trabalhar para os mestres por mais de oito dias sem serem registrados no Ofício e pagarem a sua inscrição.
Col. corresponde em parte ao capítulo XV do Capítulo.
Com. Na cidade D'Anversa, seria recebido no Ofício quem pagasse uma inscrição de 10 florins de ouro do Reno, ou o mesmo valor em outra moeda além de, para cada ancião ou jurado, uma medida de vinho do Reno e ao Peão um copo de vinho do Reno.
Ext. "... E porque quando alguém desta terra, for nesta terra trabalhar para um mestre, deverá pagar um ducado e uma libra a sua Escola. Porém, caso este seja oriundo de fora, para trabalhar cá em Veneza, deverá pagar além do devido a nossa Escola, um ducado pela inscrição como é justo e conveniente já que em tudo que se usa, outrossim, é da terra ... ".

XXXIII. Cap. XXXIII: Veta o trabalho em pedra de "mão branca", pedra mais frágil e não muito consistente qual é mais pobre, excluindo no caso qual tenha sido solicitado pelo comitente, com a exigência de se registrar o acordo na Justiça Antiga.
Dat. 28 de setembro de 1311.
Ext. "... que doravante qualquer um do citado Ofício não ouse ou pretenda trabalhar ou fazer trabalhar na pedra a qual é chamada de mão branca a fim de fechar aquele trabalho: Mas se alguém exigir a dita na pedra qualquer trabalho, que todo aquele do presente Ofício a qual foi exigido seja compelido e obrigado pela presente parte, em proceder condicionado nesta pedra...”.

XXXIV. Cap. XXXIV: Veta o uso de diferentes tipos de pedras no mesmo trabalho, também é liberado o uso de "pedra de Pola[13] de mão forte" para a construção de soleiras, janelas e varandas...
Dat. 26 de setembro de 1313.

XXXV. Cap. XXXV: Veta a introdução de pedras de "mão branca" em Veneza.

XXXVI. Cap. XXXVI: Especifica que todas as penalidades devem ser subdivididas em três partes: um terço ao Soprastanti, um terço para o Ofício e o outro terço à Justiça Antiga.
Com. Em Antuérpia, por exemplo, um terço ia para o senhor, um terço para a cidade e o outro terço para a Escola.
No Malines iria para a igreja e para o erário dell'Elemosina.
Em Audenarde o lucro das penas iria para o senhorio e “São João”. 
No Luxemburgo, o lucro das penas iria para o serviço de Deus.
Dat. 12 de agosto de 1314.

XXXVII. Cap. XXXVII: Impõe a proibição de misturar diferentes tipos de pedras no mesmo trabalho, ou seja, nas portas, janelas, varandas, etc.
Col. Corresponde ao capítulo VIX do Capítulo.

XXXVIII. Cap. XXXVIII: Veta aqueles que estão fora da Escola de vender, trabalhar ou prover trabalho em Veneza em tudo o que diz respeito ao Ofício de “Tagiapiera”.
Col. Corresponde ao capítulo XI do Capítulo.

XXXIX. Cap. XXXIX: Mais uma vez, refere-se à matéria-prima ordenando a especificar a origem do material, por exemplo, Pola, Parenzo ou Rovigno.
Col. Corresponde ao capítulo X do Capítulo.

XL. Cap. XL: Neste Capítulo de 1397 é nomeada a obrigação de assistir à festa de 8 de novembro, sob pena do valor de "X".
Dat. 01 de abril de 1397.
Ext. "... Que aqueles que não se fazerem presentes à missa qual foi deliberada para cada ano em oito de novembro pagará a pena no valor de “X”...”.

XLI. Cap. XLI: Trata da relação de trabalho entre os Mestres e os Peões, ou seja, os aprendizes, e obriga sua inscrição na Justiça Antiga, pelo prazo de ao menos cinco anos[14].
Com. Em Antuérpia durava quatro anos, em Bruxelas três anos (artigo 12), em Maiorca 4 anos, em Alicante 4 anos (artigo 2), em Bolonha 5 anos, em Malines (massoni) 3 anos, (Cleynstekers) 4 anos, 2 anos em Audenarde, em Luxemburgo 5 anos (artigo 13), em Louvain 2 anos, em Bruges 4 anos (artigo 2).
Dat. 30 de abril 144Q.
Ext. "... O que doravante um Mestre de nossa profissão de “Tagiapiera” não possa pretender ter Peão algum a empregar consigo se não estiver inscrito na câmara da Justiça Antiga ao menos por cinco anos, sob pena de “libri cento”...”.

XLII. Cap. XLII: Trata do pagamento a Escola no montante de "32 pizoli" ao ano para ser permitido transportar pedras em Veneza e trabalhá-las.

XLIII. Cap. XLIII: Impõe sobre aqueles que estiverem fora de Veneza, o pagamento da luminária e um valor ao mês para a missa, como se estivesse em Veneza.
Dat. 2Q de abril de 1450.

XLIV. Cap. XLIV: Veta o emprego ou fazer empregar estrangeiros para trabalhar em Veneza, com exceção o trabalho em mármore e lista todas as questões relacionadas a trabalhadores importados que criariam grandes perdas para ao Ofício.
Dat. 27 de setembro de 1465.

XLV. Cap. XLV: Veta a introdução na cidade de Veneza de pedras importadas, a pena seria dividida em quatro partes: um quarto aos “Senhores Provedores", o quarto "Senhores Justiceiros", um quarto ao "Acusador" e a último a Escola.
Com. Esta prática também é encontrada em Bruxelas, em que a terça parte era atribuído ao Acusador.

XLVI. Cap. XLVI: Autoriza o Gastaldo a defrontar as despesas para a celebração doOfício em benefício do Prior da Igreja de São João Evangelista.
Ext. "... Ainda constando no dito Capítulo que o dia da nossa celebração de “Tagiapiera” deverá haver música e procissão: e o Gastaldo deverá liberar a verba para a dita música para o benefício de nossa Escola...".
Dat. 28 de outubro de 1461.

XLVII. Cap. XLVII: Afirma que, se alguém desejar vir e trabalhar em Veneza e não tenha aprendido seu Ofício nesta terra, que não irá poder cá trabalhar, se, previamente, não tenha sido inscrito nessa Escola, pagando a "boa-entrada de quatro ducados de ouro" que serão destinados aos necessitados em aprendizado.

XLVIII. Cap. XLVIII: Veta aos forasteiros de possuírem oficinas em Veneza, para comprar para si ou para os outros e para vender, excetuando os que residem permanentemente na cidade com sua família.
Dat. Ratificada 14 de maio de 1474.

XLIX. Cap. XLIX: Repudia a corrupção entre os mestres que tomam quatro, seis, dezPeões, que executem trabalhos sem as circunstâncias adequadas qual necessitam e por vezes não trabalhem o suficiente, tudo isto em detrimento dos trabalhadores pobres que vivem de jornada. Se ordena que cada mestre possa tomar até um máximo de três Peões inscritos na Justiça Antiga, além de seus irmãos e filhos.
Dat. 13 de junho de 1507.
Ext. “... tal coisa se converte em prejuízo dos nossos trabalhadores necessitados que vivem de jornada: E por isso um prejuízo da Escola e do patrono. Porém, ficou decidido pelo Gastaldo Lorenzo de Vielmo e seus companheiros de bancada que patrono algum ou mesmo mestre de oficina, doravante, não possam ter mais de três Peões inscritos consigo na Justiça Antiga além de seus irmãos e filhos...”.

L. Cap. L: Veta o trabalhador de modo algum a manter Peões quais não estejam inscritos na Escola há pelo menos 10 anos.

LI. Cap. LI: Ordena que cada Peão inscrito, quando terminado seu período de aprendizagem com o patrono ou mestre, deva apresentar-se ao Gastaldo para fazer sua "boa-entrada", entende-se que os patronos por sua vez, já possam então, o designar ao Gastaldo.
Ext. “... para cada um obreiro antes um Peão inscrito qual havendo comprido seu tempo, os patronos e os mestres serão obrigados a comunicar ao Gastaldo e aos companheiros a fim de realizar sua boa-entrada e igualmente os patronos são obrigados a informar ao Gastaldo seu tempo de aprendizado como concluído...”.

LII. Cap. LII: Especifica que os patronos de oficinas têm de pagar "lire 2 soldi 4" todos os anos para suas luminárias, os trabalhadores, no entanto, terão de pagar "24 soldi".

LIII. Cap. LIII: São nomeados dois sindicantes para revisar as contas da Escola e se impõe que sejam eleitos um mestre e um trabalhador, homens de boa reputação e discrição.
Dat. ratificada 20 de julho de 1507.

LIV. Cap. LIV: Estabelece que os oficiais do Ofício não possam recusar-se aos encargos, sob pena de "lire X de pizoli" e que os mestres estrangeiros que vivam em Veneza por ao menos seis anos podem ser eleitos Gastaldi da Escola.
Dat. 13 de maio de 1408.

LV. Cap. LV: Repudia a situação de na qual o Gastaldo em visita aos patronos, a fim de verificar se os Peões estão em um número não superior a três, conforme afirmado em capítulo anterior (Cap. XLIX), e muitos mestres escondem sua demasia dePeões, também falsificando seus nomes. O Capitulo estabelece que o "Patrono da Oficina" e os trabalhadores têm de entregar uma nota para o Gastaldo no prazo de oito dias em que todos os seus Peões, filhos, irmãos e sobrinhos sejam listados e quais trabalhos respectivamente executam, especificando o seu nome e sobrenome.
Dat. 1 de abril 1509.

LVI. Cap. LVI: Autoriza a aquisição de terrenos para a construção da Escola e ordena a eleição de quatro pessoas, dois "Patronos de Oficinas" e dois Trabalhadores comoSoprastanti dos trabalhos...
Dat. 08 de novembro de 1514.



LVII. Cap. LVII: Estabelece que aqueles que não pagaram suas luminárias dentro do prazo de dois meses a partir da festa dos Santos Padroeiros, possivelmente convocados a quaisquer trabalhos, os patronos não deverão contratá-los para o trabalho, sob pena de pagar as luminárias devidas.

LVIII. Cap. LVIII: Estabelece que aqueles que se recusarem a contribuir e estando devendo a Escola, não deverão receber caridades do Gastaldo, sob pena deste último pagar a mesma quantidade de caridades as dando aos necessitados da Escola. Também estipula que a Escola não estará obrigada, no caso da morte do irmão, prestar-lhe as honras da Escola e acompanhá-lo até a sepultura que lhe reservarem, exceto no caso deste ter caído em ruína, o qual deverá se formalizado ao Gastaldo.

LIX. Cap. LIX: Trata daqueles que tiverem encargos na Escola quais terão de permanecer por mais de cinco anos à revelia.
Dat. Ratificada 29 de maio de 1515.

LX. Cap. LX: Trata dos devedores da Escola quais não deverão receber trabalho de seus irmãos.

LXI. Cap. LXI: Obriga o Gastaldo e seus companheiros a irem "buscar por trabalho” e caso não cumpram, que paguem 10 ducados como pena.

LXII. Cap. LXII: Obriga o Gastaldo, os dois companheiros e ao secretário a ceder os cargos, uma vez concluído o mandato, sob pena de pagar 12 ducados: metade que irá para a Justiça Antiga e a outra metade para a Escola.
Dat. Ratificada em 31 de julho de 1516.

LXIII. Cap. LXIII: Impõe que cada irmão seja obrigado a pagar suas luminárias na festa dos Santos Padroeiros e aqueles que não o pagarem no prazo de quinze dias após a festa, terão perdido seu pão e sua vela.
Dat. 15 de fevereiro de 1516.

CONSIDERAÇÕES

Após esta análise do Mariegola se podem realizar algumas considerações que destacam as peculiaridades de Veneza, em comparação com outras realidades da mesma época.
Como a atenção para com a matéria de alguns capítulos que ao longo dos séculos foram várias vezes retomadas e revisadas.

Outra observação diz respeito aos graus abrangidos neste Ofício em Veneza; eram ao menos de 4 graus: o “Patrono da Oficina" (Paron de Bottega), Mestres (Maestri), os Trabalhadores (Lavoranti) e Peões (Fanti), diferentemente de outras cidades da Europa.

Outro fato curioso é que em Veneza, em alguns casos, o acusador se beneficiava de uma parte do lucro das penas.

Ao se abordar a questão dos Santos Padroeiros do Ofício de “Tagiapiera”, que eram osQuatro Santos Coroados, se observa que figuraram no documento pela primeira vez em 1396 e posteriormente foram resgatados em vários capítulos. Também é possível encontrá-los em outras agremiações europeias deste Ofício e podem ser observados em instruções pertinentes a vários artigos. Tudo isso leva a pensar que havia alguma forma de comunicação entre estas organizações ou até mesmo uma origem comum.

Muitos capítulos são impregnados com referências a caridade, a ajuda mútua para aqueles que caíram em necessidade ou foram atingidos pela moléstia, os irmãos mais velhos, a obrigação de velar os falecidos e acompanhá-los até a sepultura, em ajudar viúvas e a imposição à prática da adoração. Tudo isso também pode ser justificado pelo fato de que há muitos séculos, em Veneza, os Ofícios foram frequentemente associadas a entidades religiosas, e que foram afetados pela cultura religiosa através da figura representada em Veneza peloDoge[15].

Por fim, segue uma classificação, onde se observa o expediente dos 63 capítulos analisados:

- 19 são dedicados à organização da Escola.
- 15 são atribuídos às obrigações e feriados religiosos.
- 10 são voltados para as relações de trabalho.
- 08 são relativos às relações com forasteiros.
- 08 referem-se os materiais empregues.
- 03 reservados para as relações sociais.

REFERÊNCIAS

[1] O Mariegola, do latim "matricula", ou Materegra (Regra Mãe), nas Escolas de Veneza eram o estatuto dos direitos e deveres dos membros. Consistia dos capítulos da versão inicial e as alterações e adições feitas ao longo dos anos, como resultado de resoluções, decretos ou proclamações. De modo mais geral, uma Mariegola é um livro em que são recolhidas leis sistemáticas de algumas corporações de Ofício e até mesmo define seus lugares e dias santos.
[2] "Tagiapiera" em dialeto veneziano significa “Talha-Pedra” ou Pedreiro (mesmo que Maçom). Durante a "Sereníssima República" em Veneza, havia muitos pedreiros que trabalharam com cinzéis para gravar e desbastar pedras e esculturas ornadas, pilares ou vergas de igrejas e edificações. Eles usavam principalmente pedras de Ístria (Croácia), mas também Trachyte e calcário das Colinas Euganei perto de Pádua.
[3] Base ática é uma base que consiste de uma escócia entre dois toros sem plinto, ou mais frequentemente com um plinto na parte inferior. O toro inferior é um pouco mais largo e tem o diâmetro maior, também chamado bocelão. Seu uso era próprio debaixo das colunas jônica e coríntia.
[4] Gastaldo, ou Castaldo, foi um título administrativo que surgiu entre os lombardos na Idade Média. Era uma posição de alta hierarquia, sendo administradores do patrimônio régio, nomeados pelo monarca e sob sua supervisão direta, eram enviados para províncias e cidades para administrá-las em seu nome, tendo atribuições similares às dos duques. Os Gastaldi mais destacados usualmente recebiam o título de conde, indicativo da sua elevada dignidade. Seu ofício era temporário e primariamente executivo e administrativo, mas também podiam ser encarregados de atribuições judiciárias e policiais, bem como, em tempos de guerra, assumiam o comando de milícias. No período comunal da história italiana, o título passou a ser conferido a administradores de burgos e vilas, com a função principal de administrar o patrimônio público. Também foram chamados Gastaldi os chefes de algumas corporações de ofícios.
[5] Os números romanos da versão original do texto em Italiano empregavam uma sequência ligeiramente diferente de nosso vernáculo, os mesmos foram adaptados a nossa utilização usual para melhor entendimento do leitor.
[6] Para manter maior fidedignidade a expressão empregada no texto original, o termo “Capítulo” foi repetido por falta de termo mais próximo no vernáculo. Entenda-se “capítulo” em minúscula, como o tópico do estatuto e, “Capítulo” em maiúscula, como o estatuto em si.
[7] Na República de Veneza o título de Provveditori (Superintendente) era atribuído a um número de magistrados indicados pelos vários conselhos no qual era articulado o governo de ”provvedere”, para temas específicos ou para o governo das províncias, para regimentos, ou regiões inteiras. Os Provveditori eram nomeados por um período de tempo específico, alguns exerciam em estruturas monocráticas, outros, no entanto, constituíam colégios. Em alguns casos, também faziam parte do colégio um ou mais Provveditori, que também poderiam ter competência para recorrer das decisões de outros Provveditori.
[8] No curso dos demais capítulos a pena tem caráter predominantemente monetário (apesar de haver sugestão de serviços prestados como alternativa em certas situações), a forma como as cifras foram registradas no texto original variam, possivelmente em função do próprio desgaste do Mariegolaenquanto fonte a ser decifrada, e da variação linguística das diferentes épocas na qual o texto foi acrescido de novas regras.
[9] A proximidade da corporação com uma igreja dedicada a São João talvez tenha originado ou reforçada (caso o costume seja ainda mais antigo) a reverência que este santo em suas diferentes representações (Evangelista, Batista, Esmoler, da Escócia etc.) teve da maçonaria operativa (e mesmo especulativa).
[10] Os Quatro Santos Coroados, na literatura hagiológica são os chamados "Santi Quatro Incoronato" quem tinham os nomes de Cláudio, Nicóstrato, Castório e Sinfrônio que foram torturados e depois martirizados em Panônia (hoje Hungria), pois se recusaram a esculpir uma estatua de uma divindade greco-romana para o Imperador Diocleciano (243-305). Um quinto mártir chamado Simplício também morreu com eles, mas a Igreja celebra apenas 4 deles. Os Quatro Santos Coroados figuram em diversas das Antigas Obrigações Maçônicas (período operativo) como os padroeiros do Ofício (em contraste ao predomínio de São João no período especulativo).
[11] Já da à ideia de que o costume ainda hoje praticado de “hospitalaria” no aspecto da ajuda mútua maçônico estava bem estabelecido. No curso do texto se observa que determinas regras estabeleciam procedimentos que angariavam renda para estas caridades.
[12] A luminária era uma contribuição ou oferta típica da época, a coleta desse donativo financeiro tornou-se prática usual das corporações de ofício. As contribuições exigidas aos irmãos constituíam a principal fonte de renda para uma escola. Estas incluíram a “benintrada”, ou boa-entrada, a taxa de entrada e a luminária, ou taxa de velas, taxas funerárias e uma contribuição anual de caridade. A luminária como seria de esperar, era diretamente destinada para a aquisição das velas (dentre outros utensílios fúnebres ou religiosos necessários) que a escola distribuída aos membros (principalmente aos mais necessitados) nas ocasiões pertinentes (missas, procissões, velórios etc.).
[13] Pola ou Pula é a maior cidade do Condado de Ístria, Croácia, situada na ponta sul da península de Ístria. Como o resto da região, que é conhecida por seu clima ameno, o mar calmo e natureza intocada. A cidade tem uma longa tradição de vinificação, pesca, construção naval e turismo. Foi também o centro administrativo da Ístria desde tempos romanos antigos. Os venezianos assumiram Pola em 1331 e iriam governar a cidade até 1797.
[14] O período de estágio típico para a graduação, ainda hoje utilizado (simbolicamente) na maçonaria especulativa.
[15] O Doge de Veneza (derivado do latim dux, "líder militar"), às vezes traduzido como Duque, era o magistrado chefe e líder da Sereníssima República de Veneza por mais de 1.100 anos (697-1797). Os Doges de Veneza tinham mandato vitalício e eram eleitos pela aristocracia da cidade-estado. Comumente, o homem escolhido como Doge era o mais velho e douto na cidade. O Doge não era um duque, no sentido moderno, o título "doge" na realidade, foi o título do mais alto-funcionário eleito de Veneza e Genova.

Os “obreiros de Salomão”

Autor: João Anatalino


Sinopse


Poucos acontecimentos na história da humanidade provocaram tantos desdobramentos na vida dos povos quanto a extraordinária experiência deixada pelos Cavaleiros Templários. Uma verdadeira cultura de lendas, mitos e tradições, derivadas da estranha saga vivida por esses monges guerreiros continua, ainda hoje, a despertar o interesse e a excitar a imaginação das pessoas. Quem eram esses bravos defensores da fé cristã que acabaram sendo sacrificados justamente pela suspeita de profanarem essa mesma fé? Possuiam mesmo segredos históricos e científicos que poderiam subverter todo o curso da história da civilização ocidental? Eram realmente hereges e conspiradores, que por estarem muito adiantes do seu tempo, se tornaram perigosos demais para o sistema e por isso tiveram que ser eliminados? Os Templários foram os inspiradores da Maçonaria e da Companhia de Jesus? Qual o fundamento histórico dessa tradição? Porque eram chamados de Filhos de Viúva? Quem era a misteriosa Virgem que eles adoravam? Quem, ou que, era o ídolo conhecido como Baphometh? Os Templários foram vítimas de uma conspiração, ou eles mesmos eram conspiradores?
Usando a forma literária do romance, o autor penetra a fundo na história dos Cavaleiros Templários, abordando esses e outros assuntos relativos á fantástica experiência vivida por esses famosos monges guerreiros, ao mesmo tempo santificados e amaldiçoados. Fundamentando-se nas crônicas escritas por autores antigos e modernos, e especialmente nas atas do processo que os condenou, a estranha e misteriosa saga dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo do Rei Salomão é reconstruída e mostrada em toda sua dramaticidade épica, com especial destaque para as influências e tradições que ela inspirou e ainda estão presentes na imaginação e no comportamento popular. Um misto de romance e história que leva ao leitor a uma fascinante viagem ao mundo do mistério e das sociedades secretas, que ainda hoje influenciam o comportamento das pessoas.


Depois da primeira oitiva, Jacques de Molay voltou para sua cela, muito preocupado. Primeiro porque, até aquele momento, o papa não havia se pronunciado acerca da prisão dos membros da Ordem e nem da sua própria detenção. Talvez não tivesse ainda sido informado disso. Afinal, Poitier, onde ele agora estava enclausurado, ficava a mais de trezentos quilômetros de Paris. 

Tinha certeza que Clemente V não concordaria com aquela violência praticada por Filipe, mas sabia também que o pontífice era politicamente fraco e o rei tinha muita ascendência sobre ele. 

Pelas perguntas do inquisidor-mor e pela amostra que dera no interrogatório, ele sabia o que o esperava. Tortura. Tortura moral e física. Horas sendo esticado no cavalete, fatiado na roda de esviceramento, humilhado e martirizado no “berço de Judas”, submetido ao suplício da forquilha ou do garrote, com os pés untados com gordura de porco e assados em fogo brando. Ele imaginava o que estava por vir e já antecipava as dores que sentiria. Estava velho, mas era ainda um soldado rijo e valente. Não cederia aos desejos de Nogaret, não diria para onde mandara o tesouro do Templo, nem confessaria os crimes que estavam sendo imputados á irmandade que ele chefiava. Ele estava pronto a morrer pelos segredos da Ordem e pelos seus objetivos. 

Jurara isso quando fora elevado a grão-mestre geral e se fizera guardião desses segredos. Mas esse, agora, se revelava ser um grande problema. Jacques de Molay sempre se ocupara dos assuntos militares, políticos e administrativos do Templo, porém jamais se preocupara com questões doutrinárias. A Ordem, desde que se tornara uma grande potência econômica, multiplicara suas atividades, se tornando, ela mesma, uma igreja dentro da Igreja e um estado dentro dos estados onde se instalara. 

Ele sabia que dentro da complexa organização que comandava, existiam vários grupos de interesses, cada qual se ocupando de seus proprios assuntos, nos quais a Ordem havia se envolvido nos últimos dois séculos. O Templo mantinha uma organização militar que cuidava das campanhas nas quais a irmandade estava envolvida; essa organização estava agora desmobilizada, com o fim das cruzadas, e isso o preocupava, pois soldados sem atividade, confinados em seus claustos, estão mais afeitos a influências ruins; havia um organismo burocrático, constituido por monges juristas, contabilistas e advogados, que cuidava dos interesses econômicos da Ordem, que eram muitos; isso, pensava de Molay, também era um perigo, pois a riqueza, tanto quanto o poder, era um poderoso elemento corruptor. 

Havia também um corpo eclesiástico, que cuidava da parte espiritual. Esse era o canal por onde as ideias estranhas á ortodoxia da Igreja havia penetrado na Ordem, e ali estava a maior de suas preocupações, pois ele pouco entendia sobre o cerne daquelas doutrinas, embora as repetisse para os seus irmãos e até nelas acreditasse, pois as recebera de seus antecessores e nunca lhe passara pela cabeça contestá-las. Jacques de Molay era um bravo soldado e um exímio administrador, mas em política e principalmente em questões filosóficas, que compunham a doutrina divulgada intramuros na Ordem que presidia, ele era tão despreparado quanto era iletrado. 

Havia dentro da Ordem um grande contingente de artesãos e mestres em construção civil, que cuidava das construções templárias, atividade essa que era uma das mais importantes dentro da organização que ele comandava. Desde os primórdios de sua origem, os templários haviam aprendido a construir seus próprios edifícios, arquitetonicamente projetados e erguidos de acordo com os seus propósitos, fossem eles militares ou religiosos. Dessa forma, espalharam pela Europa e pelo Oriente Médio um sem número de capelas, preceptorias, fortalezas e castelos, que causavam inveja nos nobres senhores feudais e no próprio clero. Pierre de Montreil, o famoso arquiteto, mestre dos maçons franceses, dizia-se, era um afiliado da Ordem. Nesse mesmo instante, seu primo, o cavaleiro Jean de Longwy, mestre eleito da Compagnonnage, estava comandando uma associação de compagnons, trabalhadores em construção civil, na construção de mais um transepto na Catedral de Notre Dame de Paris. 

Molay tinha conhecimento de que os chamados pedreiros-livres, conhecidos como maçons, formavam uma poderosa confraria, a qual tinha a sua própria liturgia e usavam, em sua cultura interna, uma estranha simbologia que ele não entendia nem fizera muita questão de conhecer. Tratava-se de símbolos ligados á geometria, á astrologia e á estranha ciência cultivada pelos judeus, que eles chamavam de Cabala. Ele sabia que tudo isso revelava um universo místico e transcendental, feito de conhecimentos muito profundos que a simplicidade do seu espírito não lograva alcançar. E isso, ele sabia, também despertava bastante desconfiança entre as autoridades eclesiásticas, sempre muito ciosas em relação á qualquer tipo de prática litúrgica que escapasse ao seu controle.

Algumas vezes conversara com seu primo, Jean de Longwy, sobre esses assuntos, tentando entender um pouco da complicada ciência que os maçons aplicavam em suas obras. Longwy lhe dissera, por exemplo, que a arte dos compagnons mantinha profundas ligações com conhecimentos do passado, conhecimentos esses que remontavam ás antigas civilizações como os egípcios, os caldeus, os gregos e os romanos. E que essa arte era uma forma de transcendência do espírito através do trabalho das mãos.

─ Como nosso mestre Vitrúvio ensinou ─ explicou-lhe Longwy─ a arte de construir edifícios, arquitetura, como a chamamos, possui duas faces. Uma, que é profana, consiste na aplicação da ciência para a obtenção da obra, e a outra, sagrada, que pr

Jacques de Molay, um rústico monge-soldado, não tinha a chave intelectual para entrar nesse estranho mundo da simbologia usada pelos maçons. Por isso pediu uma explicação mais simples.

─ Deus é como se fosse um arquiteto ─ disse Longwy. Ele constroi o mundo com as energias que tranforma em coisas sólidas, usando os princípios da Geometria. Por isso nós o chamamos de Grande Arquiteto do Universo.

─ Ainda não dissestes nada que me seja inteligível ─ queixou-se Jacques de Molay.

─ Pensai no seguinte ─ disse Longwy. Um artesão pega uma pedra e esculpe nela uma forma. Ao fazer isso ele está imitando o gesto criador de Deus. Ele está colocando sobre a matéria bruta a força do seu espírito, como Deus faz com o mundo. É a energia divina, transformada em formas físicas, que constitui este mundo em que vivemos. Quanto mais perfeita for a obra obtida, mais se revela a perfeição do espírito criador. No trabalho na pedra o espírito do artesão se realiza. É a mesma coisa quando construímos um edifício. Nele se revela o espírito do seu idealizador. Prestando culto aos seus deuses ou perpetuando as virtudes da pessoa ou do povo que os construiu, os edifícios revelam o verdadeiro espírito do homem e do tempo em que ele viveu. É o espírito humano que flui, pela habilidade de suas mãos. Por isso a arte do maçom é sagrada e precisa ser tratada como se fosse uma verdadeira religião.

─ É por isso então que vossas reuniões são secretas e vossos conhecimentos não podem ser transmitidos a não ser aos aprendizes de vossa própria escolha? ─ perguntou de Molay.
─ Exatamente ─ respondeu Longwy. Nossa ciência se assemelha aos segredos que nos são transmitidos no Círculo Superior da nossa Ordem eclesiástica. Da mesma forma que eles só podem ser compartilhados pelos irmãos que detém o mesmo grau de conhecimento, na nossa confraria dos pedreiros-livres essa estratégia também é usada.

─ No nosso caso eu posso entender a razão ─ disse de Molay. ─ Imaginai se os noviços, os capelães, os sargentos e todos os membros da Ordem viessem a conhecer os nossos mais altos segredos. O que aconteceria se todo o conhecimento acumulado pela nossa irmandade viesse a público e fosse compartilhado por pessoas sem caráter, ambiciosas, maldosas? Que mal isso não faria ao mundo?

─ Tocastes no ponto sensível da questão ─ disse Longwy. ─ Pois o segredo dos maçons também exige o mesmo cuidado. Porque só verdadeiros iniciados na nossa arte sabem que o movimento giratório da terra emite forças que seguem uma trajetória horizontal. Essas forças são as correntes que fazem movimentar os mares, os ventos, os assentamentos da crosta terrestre, a direção dos vapores que se formam no interior do planeta, enfim, tudo que constitui a força telúrica que dá vida á terra. Essas correntes percorrem o interior do planeta numa trajetória sinuosa que parece uma serpente no seu movimento. Por sua vez, os astros no firmamento despejam sobre a terra forças que se projetam nela numa trajetória vertical. No cruza-mento dessas linhas energéticas, horizontais e verticais, situam-se os pontos telúricos do planeta, que os orientais chamam de “chacras” da terra. É nesses pontos que devem ser construídos os edíficios que estão destinados a se tornar símbolos da passagem do homem sobre o nosso planeta. Edifícios que ligam o espírito humano com a divindade. A ciência para fazer esses cálculos e determinar o local e a estrutura do edifício a ser construído, só um mestre maçom possui. E esse é um segredo que só pode ser compartilhado com um iniciado. Assim como os marinheiros do Templo utilizam o conhecimento que têm das correntes marítimas para velejar para continentes distantes, nós também usamos nosso conhecimento das correntes telúricas para construir esses centros de captação dessa energia. Pois se um dia os “pontos de encontro” entre Deus e o homem forem construídos em qualquer lugar, sem a devida técnica, então a própria espiritualidade do homem estará comprometida.

─ Estais a dizer que alguns edifícios realizam um propósito divino só conhecido pelos maçons? ─ perguntou, incrédulo, de Molay.
─ Isso mesmo ─ respondeu Longwy. ─ Os antigos mestres sabiam identificar esses pontos de cruzamento das forças cósmicas. A Bíblia está cheia desses exemplos. O lugar onde Jacó viu uma escada, pela qual anjos subiam e desciam, é um deles. As pirâmides do Egito, os menires de Stonehenge, o templo da deusa Athena, que vós conheceis como Partenon, também. E o próprio Templo de Salomão, que como sabeis, foi construido sobre a Rocha do Domo e por mais que seja destruído, sempre é reconstruído no mesmo lugar. Várias catedrais e outros templos, em todo o mundo, também são construídos segundo essa ciência. Aqui mesmo em Paris, temos a nossa Notre Dame, que como sabeis, foi construída no local onde havia um Templo dedicado á Isis, nossa mãe viúva. Sobre essas coisas, só os mestres maçons sabem...

Jacques de Molay nem estava ouvindo mais a bizarra arenga do seu sobrinho e irmão de armas. Pensava na estranha concidência de os templários terem sido alojados exatamente nas ruínas do antigo Templo de Jerusalém, que fora erguido por Herodes, sobre as ruínas do antigo Templo de Salomão. Teria alguma coisa a ver com essas crenças que Longwy professava?

─ E nós, irmão grão-mestre ─ disse Longwy, sem se dar conta de que pensamento do monge comandante havia se evadido para longe ─ somos o Templo do Senhor. Ele nos constroi com a mesma fórmula com que faz o universo. Cada um de nós é uma composição numérica e geométrica que resulta em uma forma específica. O nosso grande mestre Vitrúvio nos ensinou isso. “Estudai a estrutura do corpo humano, e encontrareis a fórmula pela qual Deus constrói o universo” ─ completou ele.

Jacques de Molay não respondeu. Limitou-se a olhar para Longwy com olhos de quem estava tentado concatenar, em sua cabeça, algumas informações que tinha, mas nunca entendera. A terra e o homem. Forças que se cruzam no interior da terra em movimentos ondulatórios, que parecem o rastejar de uma serpente. O ritual de iniciação templário. O beijo no umbigo, o beijo na boca, o beijo na base da espinha dorsal. Algumas conexões, ainda muito tênues para fazer sentido, começaram a surgir na sua mente. Aquilo que sempre lhe pareceu uma perversão do ritual de iniciação templário, talvez tivesse, afinal, alguma razão de ser...

O grão-mestre do Templo ficou sabendo então a razão de os maçons manterem aquela estranha tradição que os remetia aos construtores do Templo de Salomão, a quem se diziam ligados por laços de conhecimento e transmissão iniciática, que eram compartilhados entre eles através de sinais, símbolos e palavras de passe. 

Não via nada de estranho nisso, porquanto a própria Ordem que ele comandava também tinha seus segredos ritualísticos, seus sinais de reconhecimento e suas palavras de passe, que foram desenvolvidos na Terra Santa para que os irmãos se reconhecessem e conservassem as regras da irmandade dentro dos círculos restritos a que cada capítulo se circunscrevia. Toda confraria, fosse ela religiosa ou laica, tinha sua própria linguagem simbólica, que lhes servia de meio de comunicação. Na própria Ordem do Templo, palavras como Montjoie, Beauséant, Shibbolet, Moabon, Huzah, eram palavras de passe ou de reconhecimento, usadas pelos templários na Terra Santa para se identificarem em um ambiente infiltrado de espiões dos inimi-gos.

A guilda dos pedreiros-livres, associação conhecida como Compagnonnage, formada pelos profissionais da construção civil era uma confraria laica, mas se comportava como se fosse uma seita religiosa. E como tal já havia chamado a atenção da Igreja, por causa dos seus “segredos iniciáticos.” Esses segredos incorporavam uma simbologia e uma linguagem própria, que lhes permitia comunicar entre si os conhecimentos da profissão de uma forma que quem fosse estranho ao metier não os pudesse entender. Era um conhecimento que passava de mestre para aprendiz, em uma cadeia iniciática feita de símbolos, diagramas, lendas, palavras de passe e ritos de passagem, que se assemelhavam ás antigas práticas dos hierofantes egípcios e gregos. Destarte, a tradição dos pedreiros-livres, incorporava antigas tradições egípcias, fenícias, persas, gregas e principalmente judaicas, sempre relacionadas com o mistério da construção do Templo de Salomão. Nisso estava a sua ligação simbólica com a Ordem do Templo, pois os compangnons, também chamados de “Pedreiros do Bom Deus”, eram, como os monges-cavaleiros do Templo, ‘obreiros’ do Templo do Rei Salomão ─ símbolo da construção da humanidade autêntica ─ guiada pelo verdadeiro e único Deus. Nessa identidade mística e simbólica estava o elo que os ligava.

(síntese do capítulo VIII do livro Os Monges Malditos, São Paulo, 2014)


João Anatalino