domingo, 15 de janeiro de 2017

O LEGADO DOS ALQUIMISTAS


Autor: João Anatalino

Uma palavra sobre a alquimia


Cabe aqui uma palavra sobre a alquimia. Simultaneamente arte, técnica e ciência do espirito, essa misteriosa ocupação tem desafiado a argúcia dos historiadores, provocado perplexidade nos cientistas e alimentado a imaginação dos amadores do insólito desde tempos imemoriais. Fonte inesgotável de tesouros literários, rendeu algumas obras primas da literatura mundial, entre os quais o clássico de Rabelais, As Aventuras de Gargântua e Pantagruel. Segundo alguns autores, os romances do Graal são alegorias alquímicas que procuram transmitir aos adeptos da arte de Hermes o seu magistério. Inspirou também famosos contos de fadas, como O Gato de Botas, Ali Babá e os Quarenta Ladrões, O Pequeno Polegar, As Viagens de Guliver, etc.e algumas boas obras modernas como as estórias de Harry Potter, O Alquimista, de Paulo Coelho, os Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marques e outros. Segundo Pawels e Bergier, mais de cem mil livros foram dedicados a essa prática, o que no mínimo a eleva a fenômeno cultural dos mais significativos.[1]

Somente essa constatação já nos parece suficiente para que a alquimia não seja levada na conta de pura divagação de espíritos fascinados pelo fantástico. Hoje não se tem muita dúvida que se trata de uma técnica, cuja origem está na prática da metalurgia antiga - prática essa, como bem demonstrou Ambelain - de caráter sagrado. Tanto na China, com os taoístas, como no Egito dos faraós, com os sacerdotes de Heliópolis, ou na Grécia clássica, com os filósofos naturalistas, foram as técnicas metalúrgicas, aliadas ao pensamento mágico que elas naturalmente evocam, que deram origem á alquimia. Daí ela se organizou como ciência da natureza e prática espiritual para o desenvolvimento de uma consciência superior.

Os trabalhos de René Alleau e Mircea Eliade demonstraram com muita propriedade que a alquimia, desde a mais remota antiguidade, é uma arte iniciática, associada aos mistérios da natureza.[2] Por isso era praticada pelos sacerdotes egípcios e hindus em seus templos, não só como forma operativa de produção de artefatos preciosos, mas também como disciplina do espírito para atingir o êxtase espiritual. Mais tarde, os filósofos taoístas e gregos a elevaram á nível de disciplina acadêmica, organizando-lhe uma epistemologia própria, fazendo dela uma arte especulativa e empírica ao mesmo tempo. [3]

No Egito essa arte era própria dos ourives, mestres na fabricação do “ouro falso”, como eram chamados os artefatos fabricados com metais comuns, submetidos a banhos dourados para imitar o ouro. Essa atividade era praticada sob a supervisão direta dos sacerdotes e tida como “arte sagrada”, comparável á arquitetura. Durante muitos séculos os gregos tentaram descobrir o segredo de tais banhos, e foi no curso dessas tentativas que eles desenvolveram a forma operativa da alquimia, especulando primeiro e depois realizando experiências de laboratório, anotando e analisando os resultados. Com isso deram á essa prática, em principio uma arte empírica, um caráter de ciência experimental.

Foi na Grécia, já no século II da era cristã, que apareceu o primeiro tratado de alquimia, escrito por um filósofo gnóstico de nome Zózimo. Mais tarde, Jâmblico e Pelágio, mais filósofos do que cientistas, ambos ligados ao pensamento esotérico, retomaram o trabalho de Zózimo, vinculando a alquimia aos Mistérios Egípcios e a tradição hermética, com a qual ela ficou identificada desde então. Associando os símbolos alquímicos á tradição esotérica, fizeram da alquimia uma ciência do espírito, e mais tarde, quando ela se integrou á cultura medieval , passou a ser também a Art d’Amour, pela interação do sonho alquímico com as tradições da Gennete [4]

Foi, portanto, a partir dos trabalhos de pensadores gnósticos, como Jâmblico, Pelágio, Olimpiodoro e outros, que a alquimia ganhou o status de arte hermética, já que foram aqueles autores que divulgaram a lenda que tais conhecimentos teriam sido legados á humanidade por Hermes Trismegisto, sacerdote que teria vivido três encarnações no antigo Egito, e em cada uma delas legado aos homens os conhecimentos necessários para o desenvolvimento da civilização. Na primeira encarnação Hermes teria ensinado as técnicas de agricultura, na segunda a arte da escrita e na terceira a metalurgia, com os segredos a ela ligados, entre eles o da fabricação do ouro e da realização espiritual através da prática dessa arte. Para os gregos, Hermes foi sucessivamente o deus Osíris, o deus Toth e o próprio Hermes grego; houve inclusive quem o visse como encarnação de Moisés e Salomão, já que eram muitas as tradições que atribuía ao rei israelita a invenção da pedra filosofal.

Entretanto, os maiores divulgadores da alquimia foram realmente os árabes. Pelos menos, são muçulmanas ou mouriscas as mais fortes tradições e referências á respeito dessa prática, em épocas anteriores ao século XII, quando ela penetrou na Europa e caiu nas graças dos “espíritos de categoria”, na expressão de Pawels e Bergier.

Os métodos da Alquimia 

Especializando-se nas artes da metalurgia, os alquimistas procuravam aprender os processos pelos quais a natureza produz os minerais. Com esse conhecimento, trabalhando em seus laboratórios, poderiam repeti-los e realizar transmutações de metais simples em metais preciosos. Graças a esse trabalho, muitas descobertas no campo da química, da medicina e da metalurgia foram realizadas.

A possibilidade de transformar um metal comum em ouro não era um sonho, uma fantasia de loucos possuídos pelo delírio metafísico, como muitos autores racionalistas o definiram, mas sim uma prática desenvolvida a partir de uma teoria, que, se pelo menos não era exata, nada tinha de loucura. Os alquimistas acreditavam que os metais eram encontrados na natureza na forma perfeita e imperfeita. Os imperfeitos eram aqueles alteráveis pela ação da natureza. Oxidavam-se, corroíam-se, alteravam-se pela ação do fogo e outros elementos. Os perfeitos eram inalteráveis e resistentes a esses elementos. Entre os primeiros listavam o ferro, o chumbo, o estanho, o cobre; entre os segundos, a prata e principalmente o ouro.

Todos os metais, segundo essa teoria, eram formados por dois elementos, que eram o enxofre e o mercúrio, encontrados em quan-tidades variáveis em cada metal segundo sua categoria. O que conferia a cada metal a qualidade de perfeição era a pureza desses dois constituintes. O ouro era constituído por uma grande quantidade de mercúrio e uma pequena quantidade de enxofre, ambos muito puros. O estanho, o ferro, o cobre, ao contrário, eram constituídos por grandes quantidades de enxofre e pequenas quantidades de mercúrio, ambos mal fixados, ou impuros. Então, para se alterar as propriedades de um mineral impuro, tornando-o puro, era preciso submetê-lo a um processo de eliminação de suas impurezas, fazendo-o passar do estado imperfeito para o perfeito.[5]

O processo pelo qual um metal ordinário pode ser transformado em ouro é explicado por Ouspensky como sendo uma transmutação da matéria em seu estado físico para um estado “astral”, por meio da sua desmaterialização. Dessa forma o metal desmaterializado pode ser “modificado” pela vontade do operador, retornando ao mundo físico como outro metal, no caso, o ouro. Esse seria o processo pelo qual os alquimistas realizariam as suas transmutações. Convenhamos que é uma explicação um tanto imaginosa para uma operação que ninguém sabe se um dia foi sequer realizada. Só vale citá-la mesmo em razão do simbolismo que encerra.[6]

Na verdade, no plano físico, a crença que está no cerne da prática alquímica é simples e pode ser explicada a nível operacional. Trata-se simplesmente de isolar, pela ação do fogo e pelas diversas recombinações da sua estrutura, o chamado “DNA” de um determinado elemento da natureza, que segundo a crença dos alquimistas, conteria a chamada “alma” dos metais. Isolada essa “alma” e aplicada em novas combinações atômicas, o metal original mudaria de estrutura.[7]

Maçonaria e alquimia

No plano espiritual, esse mesmo processo poderia ser tomado como aplicável em relação ao homem, enquanto ser físico, para transformá-lo num “ser superior”, espiritualizado ao extremo. Essa seria a fundamentação da ritualística maçônica, pois, da mesma forma que as técnicas alquímicas realizavam uma transmutação sobre as moléculas do metal, alterando sua composição, a prática maçônica obteria o mesmo resultado sobre o espírito de seus praticantes, alterando-os para melhor.

Os adeptos da arte de Hermes acreditavam que a matéria bruta, sobre a qual deveriam trabalhar, era um caos, uma treva espessa, um depositório de energias desorganizadas. Mas no seu interior habitava a chama divina, a luz dos princípios, o raio, que liberto das suas amarras físicas, daria ao seu libertador o controle sobre todas as forças da natureza. Para eles, era também essa energia, que liberada, dava a todos os corpos, minerais, vegetais ou animais, suas conformações, fazendo deles um elemento químico, uma planta ou um animal, sendo também responsável pelos graus em que se organizam seus elementos internos, dividindo-os em espécies.

Essa energia, que Aristóteles chamava de enteléquia era a matéria prima do espírito.[8] O espírito, que é luz, habitava em meio a trevas. Ao ser libertado precisava ser convenientemente dirigido. Pois assim como os núcleos atômicos de materiais pesados que são rompidos sem medidas de controle, podem causar explosões imensas, com danos irreversíveis para o operador e para o ambiente, também o espírito liberado sem direcionamento, sem “magistério” próprio, pode causar terríveis perturbações.
A alquimia entrou na Maçonaria pelas mãos dos “maçons aceitos” do grupo rosacruciano, ali pelo início do século XVII. Ganhou adeptos em todas as Lojas Especulativas, provavelmente pela analogia que as tradições alquímicas guardavam com a idéia maçônica, de aprimoramento do espírito através do trabalho manual.

Para os alquimistas, o trabalho de manipulação da matéria nos laboratórios provocava no espírito do operador o mesmo resultado que o trabalho de edificação trazia para o construtor de edifícios. Ambas eram práticas sacralizadas, que levavam ao êxtase aqueles que nelas eram iniciados. Além disso, a esperança alquímica de revelação divina, através da manipulação da matéria, estava no mesmo nível da esperança maçônica, de obtenção da gnose através do simbolismo de um ritual iniciático. Daí tanto se pode dizer que a alquimia era a Arte Real praticada operativamente nos laboratórios por filósofos químicos, da mesma forma que a Maçonaria era uma alquimia espiritual praticada numa Loja maçônica ao invés de um laboratório. Ambas eram derivações de antigas artes operativas: a alquimia provinha da prática da antiga metalurgia, a Maçonaria da prática da arquitetura.[9]


Que tais idéias fossem associadas a uma disciplina espiritual, visando o mesmo resultado, não causa nenhuma perplexidade. Afinal, o que pregavam as crenças religiosas e as tradições iniciáticas de todos os tempos, senão a idéia de que o espírito humano é um elemento que deve ser expurgado de suas impurezas, para tornar-se uma entidade “luminosa”, limpa, pura, capaz de alçar-se ao território das divindades e com elas conviver num nível de igualdade? E não era essa também a finalidade da religião, a meta da filosofia, a esperança gnóstica e a realização derradeira de toda experiência mística?

Porque então, pensavam os alquimistas, essa esperança não podia ser realizada através da manipulação química da matéria, que ao mesmo tempo realizava a experiência espiritual da prática religiosa e o conhecimento superior da busca da gnose, de forma especulativa e operativa ao mesmo tempo?

Foi nesse passo que a Alquimia deixou de ser apenas a Arte de Hermes, destinada a apreender os segredos da natureza e aplicá-los na transmutação dos metais, para transformar-se em verdadeira ciência do espírito, capaz de realizar a iluminação do próprio operador, levando-o a um estado de consciência superior, que só um verdadeiro iniciado conseguia atingir. Essa era, pelo menos, a esperança da grande maioria dos praticantes da Art d’Amour, como ficou sendo conhecida a alquimia entre os românticos admiradores dessa arte. A esse respeito escrevem Pawels e Bergier: “ Finalmente pensamos o seguinte: o alquimista no fim do seu trabalho sobre a matéria vê, segundo a lenda, operar-se em si mesmo uma espécie de transmutação. Aquilo que se passa no seu crisol passa-se igualmente na sua consciência ou na sua alma. Há uma mudança de estado. Todos os textos tradicionais insistem nesse ponto, evocam o momento em que a “ Grande Obra” se realiza e em que o alquimista se transforma “ num homem desperto”. Parece-nos que esses velhos textos descrevem deste modo o termo de todo o conhecimento real das leis da matéria e da energia, incluindo o conhecimento técnico” [10]

Eis, portanto, realizada a ascese espiritual, a iluminação buscada pelos místicos de todos os tempos, a gnose dos antigos filósofos e o “insight” do cientista. O operador alquímico é agora um Homem Novo, renascido das próprias cinzas, como a fênix da lenda, como a matéria prima mineral que durante anos a fio triturou, dissolveu, aqueceu no crisol e cozeu no seu forno, “matando-a’ e “ressuscitando-a” inúmeras vezes, até que, por um fenômeno de interação entre suas moléculas modificadas e recombinadas infinitas vezes, produz-se o fenômeno.

E ao mesmo tempo, enquanto o metal se purifica no decorrer do processo, o operador alquímico torna-se também “purificado”, como o metal grudado no fundo do crisol. Ele é detentor de todo saber, todo conhecimento, todos os segredos da natureza e senhor do seu próprio psiquismo. É o Homem da Terra, feito á semelhança do Homem do Céu, da tradição essênia, o Homem Desperto das crenças teosóficas, o Homem Universal da esperança maçônica.


Simbolismo alquímico e maçônico

Eis enfim, realizado o grande sonho da humanidade. Enquanto o alquimista possui agora, um artefato capaz de introduzi-lo no mais íntimo dos segredos da natureza, que é o processo pelo qual ela “fabrica” os elementos naturais, ele agora é também, como homem desperto, um verdadeiro“ eleito” na sociedade em que vive, pois possui a gnose, a verdadeira sabedoria que tudo transforma.

Essa também é a simbologia que se aplica ao maçom, homem regenerado pela iniciação, possuidor de uma consciência superior, que lhe permite “ver” e agir num domínio ampliado pelo mundo interior que a prática da Arte Real finalmente lhe assegura.

Não é sem motivo que muitos autores sustentam que o objetivo da Maçonaria é a realização de uma obra espiritual comparável á grande obra dos alquimistas, representada pela pedra filosofal. Não é também irracional a comparação que se faz entre a construção simbólica do Templo de Salomão e a obtenção dessa “pedra”, capaz de transformar minerais impuros no mais puro ouro.[11]

E não é também, por acaso que a iniciação maçônica, e o seu próprio catecismo, são pródigos de evocações a símbolos alquímicos. E tanto se pode dizer que a Maçonaria é uma espécie de cavalaria simbólica, quanto uma forma de alquimia praticada especulativamente numa Loja, ao invés de um laboratório, tendo como matéria prima o psiquismo do praticante, e como finalidade a transmutação do próprio operador.

Bernard Rogers resume bem essa questão: “O objetivo que os franco-maçons perseguiam é a construção do Homem, isto é, da Humanidade Autêntica, concebida como projeto, a partir da construção do individuo”, escreve aquele autor. “Não causará surpresa”, prossegue ele, “o fato de que o eixo em torno do qual eles estabeleceram seu simbolismo seja a construção do Templo de Salomão, sendo o ser humano considerado como a morada da divindade. A quem venha opor esse propósito a afirmação de que há franco-maçons ateus, respondamos que nenhum desses, a menos que não mereça sua qualificação, poderia pelo menos negar sua fé na perfectibilidade do homem, cuja natureza divina- isto é- luminosa- não pode deixar de ser reconhecida por quem não tem medo das palavras e se recusa a tornar-se escravo do que esta ou aquela religião possa exigir dele”.[12]

Por acaso também não é que a disposição dos símbolos numa Loja maçônica, assemelhe-se, de forma notável, à quarta prancha do Mutus Líber dos alquimistas.[13] Ambas são visões simbólicas do universo. Nelas se representa a “energia dos princípios”, responsável pelas transformações internas e externas que se realizam na natureza e no homem. É na Loja que a mística da Palavra Perdida, o Verbo Divino, o Número Único, que na cabala representa o Princípio Criador de todas as coisas, e na alquimia a “ flos coeli”,“o dom de Deus”, é captada pela alma humana no momento da iniciação. É essa energia que age, á medida que a cerimônia avança, para a realização da transmutação do neófito, conferindo-lhe um status que o eleva de sua condição anterior de profano á condição superior de iniciado.


O piso da Loja maçônico

Em tudo e por tudo o magistério alquímico guarda a mais estreita relação com a tradição maçônica. Tanto é que as cinco telas do Mutus Líber ocupam, na iconografia alquímica, a mesma posição que o piso mosaico na Loja Maçônica, onde se realizam as transmutações dos aprendizes, na passagem sucessiva das fases de iniciação nas Lojas Simbólicas. O piso mosaico, em ambas as tradições, tem a função específica de “ receber e filtrar a luz” que vem do Oriente, a “ Luz de Rá” das iniciações egípcias, Principio Criador de tudo que há no mundo. E as cores desse piso, em preto e branco, repetem as mesmas cores do mercúrio dos filósofos alquimistas.[14]


Diz-se que o piso mosaico, na Loja maçônica, é uma representação do piso que ornava o Templo de Salomão. Mas essa referência histórica é apenas uma informação que não reflete o seu verdadeiro significado. Na verdade, desde o tempo de Moisés, ou até antes disso, esse traçado geométrico já representava idéias de alto conteúdo esotérico. Era utilizado nos templos egípcios, nas antigas sinagogas judaicas e nos templos greco-romanos como forma de captar e filtrar a luz solar, orientando-a para um fim determinado. Dessa forma, não é estranho que os alquimistas tenham utilizado a mesma disposição geométrica para preparar o seu “filtro”, fundamentados na mesma sensibilidade que tiveram os antigos profetas e hierofantes.

As antigas tradições maçônicas dizem que o Templo de Salomão era ornamentado por um piso mosaico formado por quadrados pretos e brancos, orientados de certa forma. Essa informação consta de diversos manuscritos antigos, pertencentes ao conjunto que hoje chamamos de Old Charges ( As Velhas Instruções).[15] É bom lembrar, entretanto, que em nenhuma parte da Bíblia, ou de qualquer outro documento histórico, esse detalhe foi realmente informado, o que nos leva a pensar que ele tenha, efetivamente, mais relação com o simbolismo alquímico do que, propriamente com as antigas tradições maçônicas herdadas da arquitetura medieval.


O iluminismo maçônico

Por analogia, podemos comparar o magistério alquímico com a prática maçônica. Há uma similitude nos objetivos de ambas as tradições e no processo de obtenção de resultados, que muito se assemelham entre si. Da mesma forma que na prática alquímica o metal se regenera a partir de uma conjunção entre a luz e as trevas, na Maçonaria essa regeneração é operada a partir do sol e da lua. Por isso esses astros estão representados no Oriente da Loja, atrás do trono do Venerável Mestre. No meio deles, no centro do triângulo, o “olho onisciente”, reina absoluto.

Essa simbologia, inspirada em tradições egípcias, é representativa da crença de que tudo no universo emana da conjunção de dois princípios, resultando num terceiro, que se propaga por todo o real existente.[16] O sol ali representado é Osíris, ou Rá, o Principio Criador de tudo que existe no universo. A lua representa Isis, a deusa-mãe em cujo ventre se opera o milagre da regeneração, e o “olho onisciente” é o olho de Hórus, o filho que nasce da união de Ísis e Osíris, após a ressurreição daquele deus. Por ele, a manifestação do Principio Criador projeta o universo real, dando forma a toda a criação cósmica. 

A trindade egípcia, pintada obrigatoriamente atrás do trono do Venerável Mestre é representativa do “mistério maçônico” que se opera na Loja, a partir do qual o maçom alcança a regeneração psíquica pela prática da iniciação. É da luz que vem do Oriente, a partir da consagração dada pelo Venerável, que o iniciado atinge a qualidade de homem renascido, após ter sofrido a morte psíquica, simbolizada por sua passagem pelos subterrâneos e sua descida ao ventre da terra.

Após ter passado um período perdido nas trevas, realizando diversas provas e viagens, o neófito “vê” a luz, no momento em que lhe são retiradas as vendas dos olhos. Momento limite de sua iniciação, ele percebe que essa luz lhe é conferida pelos astros ali representados, simbolizando que ele, finalmente, superou a primeira fase de sua jornada iniciática e sabe agora da existência de uma verdade maior que precisará ser descoberta. 

A correspondência entre o iluminismo maçônico e a tradição alquímica é evidente: o Aprendiz, que durante longo tempo permaneceu num estado de semente, lançada num profundo negro, evolui para o branco da regeneração, quando se torna Companheiro e conhece o vermelho da ressurreição ao tornar-se Mestre. O Mestre que renasce a partir de Hiram morto, eis o apogeu do processo que simboliza o nascimento de um maçom na sua plenitude iniciática, pois ao iniciar-se Aprendiz, e ao elevar-se a Companheiro, ele ainda está em processo de gestação. Será preciso um longo trabalho de manipulação e aprimoramento do seu caráter até que ele se torne, enfim, o Homem Universal, alicerce da nova sociedade, justa e perfeita, que a Maçonaria se propõe construir.

Essa é a alquimia que se processa no interior de uma Loja Maçônica, que nesse mister, repete o trabalho feito no laboratório do alquimista. 


[1] “Conhecem-se mais de cem mil livros ou manuscritos alquímicos” , escrevem aqueles autores. “Essa imensa literatura, á qual se consagraram espíritos de categoria, homens importantes e honestos, essa imensa literatura que afirma solenemente a sua adesão a fatos, a realidades experimentais, nunca foi explorada cientificamente. O pensamento reinante, católico no passado, racionalista atualmente, manteve em redor desses textos uma conspiração de ignorância e desprezo. Existem cem mil livros que possivelmente contém alguns dos segredos da energia e da matéria. Se isso não é verdade, eles pelo menos assim o proclamam” Pawels e Bergier- O Despertar dos Mágicos pg. 101
[2] Mircéa Eliade - Ferreiros e Alquimistas – Ed. Flammarion,1977
[3] Bernard.Rogers- Descobrindo a Alquimia pg. 28
[4]Gennete é palavra francesa que designa a instituição da Cavalaria.
[5] Na imagem, o alquimista moderno em seu laboratório. Fonte: alquimia.blogspot.com
[6] P. D Ouspensky,- Um Novo Modelo do Universo. pg. 92
[7] Serge Hutin. História da Alquimia. São Paulo, Cultrix, 1987.
[8] Enteléquia ( em grego entélékhéia) significa a qualidade do ser que tem em si mesmo a capacidade de promover o seu próprio desenvolvimento. No ser humano pode ser entendida como a força que o leva a enriquecer o espírito através da aquisição do conhecimento e também a promover o desenvolvimento do seu organismo em termos físicos.
[9] Na imagem a 3º tela do Mutus Liber- Nicolas Flamel, Livro das Figuras Hiroglíficas- Vol 16- Biblioteca Planeta.
[10] Pawels e Bergier op citado pg. 99.
[11] Não é sem razão também que o nome do Rei Salomão sempre foi conectado com as lendas alquímicas. Dizia-se que esse rei era possuidor da pedra filosofal, que era a origem da sua incalculável riqueza.
[12] Bernard Rogers- Descobrindo a Alquimia, pg. 260.
[13] O Mutus Líber são pranchas ou quadros nos quais se representam, de forma simbólica, as fases do processo de obtenção da pedra filosofal. É um conjunto de cinco telas semelhantes as dos painéis das Lojas Simbólicas. Na Maçonaria essas telas têm como finalidade justamente a representação, através de símbolos próprios, do processo pelo qual o universo maçônico é construído. É muito difícil não pensar que tais iconografias não tenham tido uma fonte comum de inspiração. Veja-se, por exemplo, que os diferentes “quadros”, das diferentes “Lojas” , na Maçonaria representam cada um, um motivo ligado á uma “ fase” do “iluminismo maçônico”, que, no seu desenvolvimento e objetivo, equivale, simbolicamente, as diferentes fases do magistério alquímico. Tal como na Arte de Hermes, a Arte Real se vale desse simbolismo para transmitir suas mensagens.
[14] Na imagem, o piso mosaico de uma Loja maçônica.
[15] Particularmente o chamado manuscrito Dunfries nº 4- que estabelece como ornamentação necessária de um Templo maçônico essa forma de piso.
[16] Da mesma forma que na doutrina da cabala, na qual o Princípio Criador se manifesta em forma de uma esfera de energia chamada Kether e se espalha pelo nada cósmico, formando a Árvore da Vida, que é o símbolo do universo físico e espiritual.
João Anatalino

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

GIORDANO BRUNO E SUA INFLUÊNCIA NA MAÇONARIA



Autor: João Anatalino

A grande influência gnóstica que se nota na Maçonaria foi a ela repassada diretamente pelos filósofos hermetistas da Renascença. Foram esses “magos renascentistas” que recuperaram a antiga tradição dos cultores das religiões solares e compuseram, a partir delas, um vigoroso sistema moral que os maçons especulativos iriam inteligentemente aproveitar em seus rituais. 

O mais interessante desses pensadores foi, sem dúvida, o grande Giordano Bruno. 

O gnóstico Giordano Bruno

A religião solar dos egípcios, que os hermetistas adaptaram magistralmente para justificar as teses defendidas no seu cristianismo místico, encontrou em Giordano Bruno o seu melhor divulgador.

Esse grande filósofo foi considerado o grande mago da Renascença. Seu trabalho tinha em mente a criação de um vasto sistema de pensamento, com o objetivo de revalorizar as religiões solares, cuja metafísica ele julgava superior á do cristianismo. Em muitos aspectos, ele foi o precursor dos chamados pensadores rosacrucianos que inspiraram o conteúdo espiritualista da Maçonaria moderna.

No começo do ano de 1583 ele visitou a Inglaterra para realizar, na Universidade de Oxford, uma série de conferências. Do grupo que participou dos debates faziam parte dois outros notáveis hermetistas, tidos como magos e alquimistas, chamados Jonh Dee e Philip Sidney. Eles ouviram o famoso mago italiano dissertar sobre a excelência e a superioridade da antiga religião egípcia e por certo devem ter ficado fascinados. Ali estava um intelectual, doutor em filosofia, professor dos mais respeitados em toda Europa, naquele santuário da ortodoxia religiosa que era Oxford, em pleno desenvolvimento da Contra Reforma Religiosa, pregando a superioridade de uma religião pagã, fundamentada sobre um panteísmo obscuro, sobre as excelências da religião de Cristo! 

E mais: dizendo que nenhuma fé podia superar, na salvação da alma, o conhecimento das realidades divinas, obtido através da gnose, ou da iniciação nos mistérios de uma religião pagã!

O Deus de Bruno era o “Deus das coisas” Havia uma presença divina em tudo, como manifestação, mas não como essência, pois a essência divina não podia ser separada da sua fonte primordial. A presença divina nas coisas, entretanto, já era atributo intrínseco delas desde a sua criação e só podia ser “ despertada “ por ritos de natureza mágica como os que eram praticados no antigo Egito. Nas próprias palavras de Bruno “diversas coisas vivas representam diversos espíritos e forças, que, além do ser absoluto que possuem, obtém um ser comunicado a todas as coisas, segundo a sua capacidade e medida. Por essa razão, Deus, como um todo( embora não totalmente, mas em alguns mais , e em outros menos excelentemente), está em todas as coisas. Pois Marte está mais eficazmente em vestígios naturais e em modos de substância, numa víbora ou escorpião, e não menos numa cebola ou num alho, do que em qualquer quadro ou estátua inanimada”[1]

Essa era a razão pela qual as antigas religiões, como a egípcia, via a essência do deus Rá em todas as coisas, num girassol, num narciso, num galo, num leão, e concebiam cada um de seus deuses em espécies agrupadas em gêneros de luz., pois era graças à luz que brilhava nas coisas, ao grau de luminosidade que cada coisa irradiava, que elas subiam mais ou menos á divindade que as presidia. 
Por isso, dizia Bruno : “E, na verdade, eu vejo de que modo o sábio, por esses meios, obtém o poder de fazer os deuses familiares, afáveis e domésticos, que através das vozes saídas das estátuas enunciam conselhos, doutrinas,adivinhações e ensinamentos sobre-humanos. Por essa razão, por ritos mágicos e divinos, eles ascendem as alturas da divindade pela mesma escada da natureza, graças a qual a divindade desce ás menores coisas por uma comunicação de si mesma”[2]

Bruno dizia que os sábios, para se comunicarem com a divindade que estava latente em todas as coisas, a “sacralizaram”, prestando-lhe culto através de determinadas cerimônias mágicas. Tais cerimônias estavam longe de ser “vãs fantasias, mas sim, eram vozes vivas que chegavam aos próprios ouvidos dos deuses”: “Assim,” escreve ele,“os crocodilos, os galos, as cebolas e os nabos jamais foram adorados por si mesmos, mas sim pelos deuses e divindades que existem nos crocodilos, nos galos e nas outras coisas, cuja divindade era, é e será encontrada em diversos sujeitos, na medida em que são mortais, em certos tempos e lugares, sucessivamente ou de uma só vez, o que vale dizer: a divindade que corresponde á proximidade e familiaridade dessas coisas, não a divindade que é altíssima, absoluta em si mesma e sem relação com as coisas que produz”[3]

Eis a essência do pensamento religioso desse estranho mago, um panteísmo muito próximo da visão hinduísta da divindade. Deus está em todas as coisas como manifestação, mas está fora de todas as coisas como “ser”. Não se realiza no homem um deus como “ser”, porque este é absoluto em si mesmo e embora tenha conferido divindade a todas as coisas em diferentes graus, tempos e lugares, Ele não interfere no destino de sua criação.

O que confere diferentes graus de divindade ás coisas é a presença de “luz” nelas. Os dois corpos luminosos mais relevantes e próximos á terra são o sol e a lua. Neles se junta a luminosidade da qual toda as coisas na terra se nutrem. Segundo suas próprias palavras “ nos dois corpos que estão mais próximos do nosso globo e divina mãe, o Sol e a Lua, eles concebem o que é a vida e o que informa as coisas segundo as duas razões principais. E entendem a vida segundo sete outras razões, distribuindo-as á sete outras estrelas errantes, que, como no principio original e na causa fecunda, reduzem as diferenças em espécie em cada gênero, dizendo das plantas, animais, pedras, influências e outras coisas, que umas pertencem a Saturno, outras a Júpiter, outras ainda, a Marte e assim por diante.[4]

Essa era, portanto, a cosmogonia de Bruno e o fundamento da reforma religiosa da qual ele pretendia ser o arauto. Era uma reforma que devolveria a antiga religião egípcia ao lugar de proeminência que nunca deveria ter perdido, pela sua substituição pelo cristianismo. A religião egípcia era a religião do intelecto, da inteligência, da sensibilidade, já que havia evoluído, com Hermes Trismegisto, para além do culto solar, para penetrar numa divina “mens”. Essa religião, que era a verdadeira gnose, seria a única capaz de unir o profano ao sagrado e tinha sido, no seu entender, suprimida pelos “falsos mercúrios” (os teólogos cristãos), em proveito de uma doutrina empobrecida, que nada mais era que uma grosseira degeneração de uma religião superior. 

Foram sem duvida, afirmações como essas que o levaram á fogueira. Ele acreditava que a antiga religião egípcia, por se fundamentar na adoração da verdadeira divindade através de suas manifestações nas coisas, proporcionava um estado ideal de ordem, harmonia e felicidade na terra, pois permitia ao homem uma verdadeira simbiose com tudo que havia na criação. Se o elo entre tudo era a luz, se tudo era luz, e tudo estava em tudo, então havia uma verdadeira unidade no universo como reflexo daquele que era Um. 

Esse pensamento permitia o desenvolvimento de um governo baseado no principio da Maat, a deusa da Justiça, pois num universo uno não haveria lugar para estratificações. Por outro lado, restabelecia o culto por meio dos símbolos, tradição que a liturgia cristã havia banido, em proveito de uma doutrina vazia de conteúdo místico, e pobre em interesse esotérico, que constitui a essência de toda religião.

Giordano Bruno e a Maçonaria

Para a Maçonaria, o interesse nas idéias de Giordano Bruno reside principalmente no fato de que sua reforma religiosa consiste num sistema onde os vícios são expulsos pela virtude. Isso se dá naturalmente através dos deuses. Na cosmogonia bruniana o movimento vicio\virtude vai povoando o espaço à medida que os deuses reformam os céus. A vitória final da antiga religião, por ser uma religião baseada na virtude, seria o corolário dessa reforma.

A reforma religiosa de Bruno é um verdadeiro discurso iniciático. Nele os deuses, (Júpiter, Apollo, Saturno, Netuno, Isis, Marte, etc), são todos representantes de virtudes e poderes da alma. Como o próprio homem é uma representação do universo, a “ reforma dos céus” feita pelos deuses reflete também no psiquismo humano. À medida que um deus, (ou uma virtude), ocupa um dos sete “céus”do universo gnóstico, o mundo divino se recompõe e isso ressoa também na própria humanidade Assim se vão produzindo as personalidades na terra e quando a “reforma” nos céus estiver completa, o homem também será um homem novo, reformado segundo o movimento dos deuses nos “ céus”.

A personalidade boa é a personalidade solar. Quando o sol ocupa o centro do universo, isto é, quando a luz está no centro, ela se irradia por todos os lados. Por isso, quando o universo estiver transbordando de luz, o reino da ordem, da harmonia, da justiça e felicidade será finalmente instalado.

Bruno trabalha magistralmente os símbolos. Para explicar seu sistema moral, inspirado no principio da Maat, as imagens das constelações no céu representam vícios e virtudes que se digladiam para ocupar lugar no espaço. Os vícios estavam sendo expulsos pela personalidade cósmica reformada. Os homens deviam ajudar os deuses repetindo esse processo aqui na terra. 

É possível imaginar um Jonh Dee, ou um Philip Sidney, famosos alquimistas ingleses, ouvindo tais discursos e comparando com suas próprias crenças e simbolismos ligados á tradição alquímica. Havia muitas analogias, como o principio da transmutação, que era o mesmo para Bruno e os alquimistas. Nada morre, nada desaparece. Tudo se transforma. Esse era também o discurso do Corpus Hermeticum. Os próprios homens estão sujeitos a essa lei da transformação. Por isso a necessidade da reforma. E daí Bruno define a personalidade do novo homem que resultaria dessa “reforma”: “serão homens necessários á comunidade, hábeis nas ciências especulativas, cautelosos na moralidade, solícitos no zelo e no auxílio de um ao outro, mantendo a sociedade (para a qual são prescritas todas as leis) pela proposição de certas recompensas aos benfeitores e pela ameaça aos criminosos de certas punições “[5]

Veja-se que a descrição do homem novo de Bruno se encaixa perfeitamente nos moldes maçônicos. Num dos mais importantes graus do Rito Escocês, o Grau Sete, serão exatamente essas características que serão destacadas. E em todo os graus das chamadas Lojas de Perfeição e Capitulares, principalmente, serão encarecidas aos maçons a aquisição de virtudes associadas com o estudo, a moral, o zelo e a lealdade recíproca, como garantia de sobrevivência da fraternidade maçônica, e principalmente um grande anelo pela prática da Justiça. É difícil não pensar que tais influências não tenham sido pescadas diretamente no fértil rio do pensamento de Giordano Bruno. Então, prossegue o filósofo, “Hércules descerá a terra para realizar as boas obras.” Quando se sabe que um dos mais importantes graus maçônicos fundamenta seus ensinamentos nos Doze Trabalhos de Hércules, é difícil imaginar que tal inspiração não tenha nada a ver com essa simbologia.

Com base nas teorias de Copérnico, Bruno também recupera o valor das antigas iniciações caldéias, órficas e pitagóricas; propõe a construção de um templo à sabedoria universal, fundamentado em idéias desenvolvidas por Galileu, Alberto Magno, Nicolau de Cusa e outros filósofos, porém sem desprezar o esoterismo, como fizeram aqueles pensadores. Essas também são propostas que o aproximam muito da Maçonaria que resultou da fusão do rosacrucianismo com o companheirismo das recém fundadas Lojas Especulativas. 

As idéias de Giordano Bruno representaram uma grande abertura para o pensamento místico-liberal que encantou muitas gerações de intelectuais. Até o século XIX os liberais o adoravam. Por isso é que advogamos a influência desse grande pensador sobre os homens que deram a Maçonaria a conformação que ela adquiriu a partir do século XVII, quando o grupo rosacruciano começou a fazer parte das Lojas maçônicas. Como se pode perceber, as idéias eram as mesmas. O Templo da Sabedoria, (O Templo de Salomão), segundo Bruno, simbolicamente, fora construído primeiro entre os egípcios e os caldeus, de onde os hebreus foram buscar as bases de sua cosmogonia. Depois a idéia passa pelos persas de Zoroastro e pelos ginnofisistas indianos. Depois pelos trácios com Orfeu, entre os gregos com Tales de Mileto, entre os italianos com Lucrécio, pelos alemães com Copérnico e Alberto Magno etc. O recurso á geometria como demonstração dos atributos da divindade é uma das suas ferramentas. “Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência está em parte alguma” diz ele.

Parece a definição do templo maçônico, que corresponde a todo universo. Deus é o Uno, o Perfeito, o Número que contém todos os números. O contato entre o profano e o divino se dá através dos ritos apropriados que elevam o homem as alturas; ao mesmo tempo faz a divindade descer ao mundo. A iniciação é parte desse processo; só o iniciado pode pretender essa elevação. A cabala é a ciência das combinações divinas. Por ela se pode chegar ao conhecimento do Nome Inefável, fonte da gnose divina. [6]

Ás três virtudes teologais, amor esperança e caridade, que os católicos consideravam as virtudes guias da religião, Bruno somou a mathesis e a magia, como essenciais a esse conjunto. [7]
Eis aí, na filosofia do mago renascentista, todo o estofo do que viria a ser, dois séculos mais tarde, a Maçonaria moderna.


O episódio Elias Ashmole

Por fim, é bom não esquecer que o final do século XVI é uma época de grandes demonstrações de intolerância religiosa, em que os adeptos do livre-pensamento só encontravam o hermetismo religioso como refúgio para suas doutrinas heterodoxas. Nesse meio apareceram as Lojas maçônicas como bastião desse sincretismo religioso, com suas práticas iniciáticas e idéias ligadas ao gnosticismo e tradições cavaleirescas. Então surge Giordano Bruno pregando exatamente o que a Maçonaria seria duzentos anos depois. E curiosamente, essa Maçonaria iria surgir exatamente na Inglaterra, onde ele começou a pregação de seu sistema moral e cosmológico.

É preciso lembrar que na platéia que ouvia Bruno havia muitos cientistas e filósofos que simplesmente deploraram suas idéias. Chamaram-no de “mergulhão italiano”, que tinha um nome mais comprido que o corpo, “mais atrevido do que sapiente”, e que, ao tentar provar que era a terra que girava, como dizia Copérnico, só mostrou que eram seus “miolos que não paravam.” Todavia, na platéia havia também outros intelectuais como o já nomeado Jonh Dee, famoso alquimista de Londres, a quem Papus se referiu como sendo mestre de Elias Ashmole, que em 1646 foi admitido na Loja de Companheiros de Warrington como “maçom aceito”. Não é improvável que espíritos como esses tenham trabalhado as idéias de Bruno e outros filósofos hermetistas, criando uma cultura favorável ao nascimento de uma Arte Real especulativa e iniciática, destinada a divulgar e praticar uma filosofia reformista, onde se pudesse combinar o exercício da liberdade política com a tolerância religiosa e a prática das virtudes cristãs com o espiritualismo das antigas religiões. 

Nasceria, dessa forma, a chamada Maçonaria especulativa. Mais tarde, com a adesão dos pensadores iluministas, e os acontecimentos políticos ligados á Reforma Religiosa, ás guerras dinásticas e as grandes revoluções que mudaram a face da civilização ocidental, a Arte Real incorporaria os elementos políticos e filosóficos que lhe deram a estrutura que hoje conhecemos. 

Ainda a propósito da obra de Giordano Bruno, conclui a Prof. Francês A Yates: “ Onde mais existe igual combinação de tolerância religiosa, vinculada emocionalmente ao passado medieval, com uma ênfase nas boas obras, além de um imaginativo apego á religião e ao simbolismo egípcio? A mim ocorre uma única resposta: na Maçonaria, herdeira da ligação mítica com os maçons medievais e com a sua tolerância,sua filosofia e seu simbolismo egípcio. Só apareceu na Inglaterra, reconhecível como instituição em meados do século XVII. Mas teve, decerto seus predecessores, antecedentes e talvez tradições, que se reportavam a um passado muito remoto. Esse porém, é assunto muito obscuro. Aqui caminhamos nas trevas, mas podemos conjeturar se, entre as pessoas espiritualmente insatisfeitas na Inglaterra , alguma não teria ouvido, na mensagem “egípcia”de Bruno, um prenúncio de alívio, ou dos acordes da Flauta Mágica que em breve soprariam no ar.[8]

Certamente a professora Yates tem razão. A Maçonaria que emergiu do século XVII tem tudo a ver com o “socialismo mágico” de Bruno e dos hermetistas da Renascença. A sua reforma moral da humanidade, que ressuscitava a velha idéia egípcia da Maat, era uma solução, ao mesmo tempo antiga e nova, para o problema que a Europa enfrentava justamente naquele momento. Faria desaparecer as dificuldades religiosas, ao passo que também educaria o caráter do homem para construir e viver um novo tipo de sociedade. De certa forma, seria essa mesma idéia que os iluministas iriam mais tarde desenvolver. 

O gnosticismo de Giordano Bruno inspirou gerações inteiras de intelectuais. Até o século XIX ele era estudado e profundamente admirado por uma grande plêiade de pensadores de orientação esotérica, escritores românticos e místicos de todos os tipos. É curioso que ele tenha sido tão pouco estudado e reconhecido entre os autores maçons, mesmo aqueles de orientação espiritualista. Com esta síntese do seu pensamento, e o reconhecimento da enorme influência que exerceu no desenvolvimento da cultura maçônica, acreditamos fazer justiça a esse extraordinário pensador. No conjunto das idéias que fundamentam o espiritualismo da Arte Real, só podemos compará-lo ao grande Teilhard de Chardin.

[1] Francês Yates- Giordano Bruno e a Tradição Hermética pg. 238. Na imagem, busto de Giordano Bruno.
[2] Idem pg. 239
[3] Ibidem pg. 240. Esse pensamento, como se pode ver, encontra um paralelo muito próximo na doutrina da cabala, especialmente a pregada por Isaac Lúria.
[4] Francês Yates, op citado, pg. 241
[5] Francês Yates- op citado pg. 255.
[6] De acordo com a doutrina da cabala , o Inefável Nome de Deus (Tetragrammaton), tinha quatro letras e sua luz era portada por setenta e dois anjos (Semhamphores). A multidão celeste, a partir desses portadores da luz divina, se expandiam progressivamente a uma razão aritmética de quatro por doze formando uma multidão inumerável. A cabala, combinando números e letras, davam ao iniciado em seus mistérios todos os nomes de Deus a partir dessa inumerável multidão, até o primeiro e Inefável Nome, geratriz de todos os outros.
[7]Mathesis é a ciência da contemplação.
[8] Francês Yates- op citado, pg 26- A Flauta Mágica é a ópera maçônica por excelência. Mozart a compôs a partir da influência que recebeu dos ritos maçônicos. As cerimônias de iniciação, as purificações pelo fogo e pela água, o misticismo do número três, temas explorados naquela opera, são todos influenciados pelos ritos maçônicos, já que tanto Mozart e o compositor do libreto, Schikaneder, eram maçons.

João Anatalino

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

AS SETE ARTES LIBERAIS





Autor: João Anatalino

Segundo a Wilkipedia, Artes liberais é o termo que define uma metodologia de ensino, organizada na Idade Média, cujo conceito foi herdado da antiguidade clássica.

Referem-se aos ofícios, disciplinas acadêmicas ou profissões ("artes") desempenhadas pelos homens livres. São compostas do Trivium (lógica, gramática, retórica) e do Quadrivium (aritmética, música, geometria, astronomia). Tal conceito foi posto em oposição às Artes Mechanicae (artes mecânicas),consideradas próprias aos servos ou escravos.

As Sete Artes Liberais constituíam o currículo de disciplinas que um estudante deveria aprender para entrar numa universidade medieval. Era o preparo obrigatório para todos aqueles que quisessem tornar-se doutor, mestre, filósofo, ou seguir carreira em qualquer outra profissão de nível superior.

Foi na Idade Média, durante o reinado de Carlos Magno que as Sete Artes Liberais foram reunidas num único currículo disciplinar, para fins de ensino metódico. Organizadas num sistema de ensino pelo capelão-mor de Carlos Magno, Alcuino, elas foram divididas em dois corpos distintos, chamados trivium, que compreendia a retórica, a gramática e a lógica e o quadrivium, que reunia a aritmética, a música, a geometria e astronomia.

A utilização dessas disciplinas para preparo dos estudantes de nível superior já vinha desde os tempos de Aristóteles, que as utilizava em sua famosa Academia. Durante o Império romano elas também tiveram larga aplicação no ensino dos romanos bem colocados.

As Sete Artes Liberais estão vinculadas a outros conhecimentos tradicionais e apresentam grandes simetrias com outras disciplinas, como, por exemplo, a astronomia. Dessa forma, é possível fazer uma analogia com o simbolismo dos planetas relacionando a Retórica com Vênus, a Gramática com a Lua, a Lógica com Mercúrio, a Aritmética com o Sol, a Música com Marte, a Geometria com Júpiter e a Astronomia com Saturno. Daí a atração que esse sistema exerce sobre os esoteristas principalmente, dada a riqueza simbólica que eles representam.

Nos tempos de Roma, e mais tarde, de Carlos Magno, o estudante das Artes começava a vida escolar aos catorze anos, estudando, em primeiro lugar os chamados “três caminhos” do trivium, que o monge Pedro Abelardo (1.079-1.142) chamava de os três componentes da ciência da linguagem. Essa tríplice disciplina era composta pela gramática (ciência de falar sem erro), a dialética, (a aprendizagem que consiste em distinguir o verdadeiro do falso – lógica) e a retorica, a disciplina que nos ensina a arte da persuasão.

Em outras palavras, o estudante precisava primeiro aprender a falar e escrever, a argumentar com lógica e a produzir discursos com estilo e precisão. Só depois disso é que ele podia partir para outros aprendizados. O aprendizado dessa tríplice grade curricular era considerado um verdadeiro desafio para a mente do estudante. Uma vez vencido ele podia passar ao quadrivium, considerado o aprendizado das coisas necessárias para o conhecimento do mundo. Então ele aprendia a ciência  dos números (aritmética), a harmonia dos sons (música), as formas simbólicas do universo (geometria) e os segredos dos astros celestes e sua mecânica de movimentos (astronomia). Só depois de adquirir esses conhecimentos primários podia o estudante pretender seguir uma carreira de nível superior.

O trivium era o que poderíamos chamar, numa analogia com a educação moderna, o primeiro grau do aprendizado. De fato, para o aluno poder aprender outras coisas era preciso primeiro aprender a falar, a escrever e a pensar. Por isso tinha que estudar gramática, retórica e dialética ou lógica. Sem esses conhecimentos dificilmente o estudante conseguiria acompanhar o difícil e rigoroso método escolástico, de ensino, que se fundamentava principalmente na lógica de Aristóteles. Depois vinha o quadrivium, como uma espécie de segundo grau, para complementar o aprendizado do estudante.

Em algumas escolas americanas, especialmente aquelas que seguem o modelo clássico, ainda se trabalha com um currículo semelhante para os alunos que desejam tornar-se máster-of Arts. No Brasil, até algumas décadas atrás, o nosso ensino de nível médio também guardava alguma semelhança com esse modelo, pois tínhamos dois currículos distintos, o ensino clássico para quem quisesse seguir ciências sociais (filosofia, direito, magistério, sociologia, etc.) e o cientifico para quem quisesse seguir outras carreiras profissionais (engenharia, medicina, química etc.).


Talvez pela necessidade de modernização do ritual, seus organizadores tenham modificado as sete Artes Liberais que no antigo ritual eram, respectivamente: Astronomia, Física, Química, Fisiologia, Psicologia e Sociologia, associando-as às virtudes do Devotamento, Tolerância, Justiça, Prudência, Paciência e Coragem, diferentes também dos originais, virtudes cardeais que eram a Prudência, a Justiça e a Fortaleza, a Temperança, a Humildade, a Sabedoria e a Compreensão. A importância desse sistema é que cada elemento contém potencialmente as habilidades filosóficas exigidas para a vida intelectual madura. É uma pena que esse sistema tenha sido banido das escolas brasileiras, substituído por um currículo que só carrega a mente do aluno com informações, sem ensiná-lo a usá-las adequadamente. Dessa forma, a Maçonaria ao recuperar a importância das Sete Artes Liberais e incluí-la no programa de aprendizado maçônico, presta um grande serviço à educação. Que o Irmão possa realmente se valer disso.

Anatalino, João - Mestres do Universo - Ed. Biblioteca 24 horas - São Paulo - SP, junho de 2010.

domingo, 25 de dezembro de 2016



Godofredo de Bouillon 2º Parte 



"Os guardiães do Cenáculo do Monte Sião!

Por: Eduardo R. Callaey
Tradução e organização: José Roberto Cardoso (Pedreiro de Cantaria)

1. O Defensor do Santo Sepulcro

Um dos pontos mais obscuros da história da primeira cruzada concerne as circunstâncias da eleição de Godofredo de Bouillón como seu primeiro governante secular. Imediatamente depois da queda de Jerusalém, ocorrida em 15 de julho de 1.099, se desencadeou uma febril discussão entre eclesiásticos e barões sobre se a cidade deveria ser governada por um clérigo ou um dos líderes militares da expedição.

A questão não era menor, posto que o que decidia, em definitivo, era si o incipiente Reino Latino de Jerusalém devia ser um estado religioso ou laico. A facção clerical aparecia gravemente debilitada. Em primeiro lugar porque o legado papal, Ademar de Monteil, havia falecido durante a expedição da mesma forma como Guilherme, o bispo de Orange. Outros homens virtuosos haviam ficado no caminho ou já ocupavam cargos nas cidades conquistadas na marcha até Jerusalém. Os que ficaram: Arnulfo, o bispo de Marturano e Arnulfo de Rohens, apelidado “Malecorne”, eram simplesmente imprestáveis.

Existe consenso entre os historiadores que a opção se reduziu a dois candidatos: o duque Godofredo e o conde Raimundo. As crônicas falam de um grupo de “eleitores” cujos nomes nunca se soube, aos que se lhes encomendou a missão de avaliar profundamente os antecedentes de cada um destes grandes chefes. Estes homens, em seguida, depois de se recolher a opinião sob juramento que os vassalos tinham sobre seus respectivos príncipes, decidiram de maneira unânime oferecer a coroa de Jerusalém a Godofredo de Bouillón que aceitou a indicação, porém pediu que o chamassem com o título de “Defensor do Santo Sepulcro”. Quem eram estes homens? Não o sabemos, mas devia tratar-se de gente singular, posto que o que se elegia era o rei de Jerusalém.

Cabe ressaltar a exasperação que causou a todos os historiadores a absoluta ausência de dados em torno da composição desse colégio eleitoral e quais forram os procedimentos que realmente foram empregados para tomar a decisão final.

Não parece haver dúvidas acerca das virtudes do eleito. As crônicas antigas coincidem nesta questão. Jacques de Vitry escreveu no final do século XII: “... elegeram por unanimidade como senhor da Cidade Santa a Gododofredo, senhor de Bouillón, cavaleiro valente, agradável tanto a Deus como aos homens...pleno de respeito pelo Senhor e humilde de coração, não quis ser chamado Rei nem levar a Coroa de ouro no lugar onde o Senhor havia sido coroado com espinhos para nossa redenção e para a salvação do mundo”. [1]. Outro tanto dizia Guilhermo de Tiro, que em suas crônicas ressalta as virtudes religiosas de Godofredo, assinalando a decepção que às vezes representava para seus súditos espera-lo com a mesa servida embora ele permanecesse longas horas em profundo recolhimento e oração.

Seu reinado durou apenas um ano. Lhe alcançou para infringir uma derrota quase definitiva o “almirante da Babilônia”, Al Afdal, frente às muralhas de Ascalón. Nesse breve de tempo foram muitos os que – uma vez cumprida sua promessa de libertar o Santo Sepulcro – regressaram a Europa. Ainda assim batalhou sem descanso, tratou de conformar a todos e demonstrou ser um bom organizador. Não estava só “...havia levado com ele monges de claustro, homens religiosos de valor, notáveis por suas santas obras, que ao longo de todo caminho, nas horas canônicas de dia e de noite, celebravam para ele os ofícios...” [2]

Por que os cluniacenses elegeram a este homem para reconquistar Jerusalém? Por que deixaram que fosse um chefe secular quem a governasse? Como temos adiantado, aquele homem que saiu de Lorena sabendo que jamais regressaria, talvez também soubera qual era o seu destino. Conq2uistou o umbigo do mundo, mas se negou a ser coroado rei. Morfeu de cansaço, imerso na oração, olhado a areia e recordando sua infinita limitação humana: “memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris. ” Conta Alberto de Aix que seu cadáver foi exposto durante cinco dias; logo os homens de Cluny, que o haviam acompanhado desde Lorena, o enterraram na Igreja do Santo Sepulcro. Até princípio do século XIX, ao entrar se via seu sepulcro a direita e a esquerda o de seu irmão Balduíno, morto em 1.017. Uma laje prismática de mármore triangular cobria o sarcófago de Godofredo, sustentado por quatro colunas. Em uma de suas faces se lia a seguinte inscrição:

“Hic iacet inclvtus dux Gottifridus de Bulión

Qui totam terram istam

Acquivisit cultui chistiano

Cuius anima cum Christo requiecat. Amen” [3]

Em 1.808 um incêndio devastou a Igreja. Dizem que os gregos aproveitaram o caos, provocado pelas chamas, para destruir os gloriosos monumentos erigidos sobre os sepulcros de ambos reis latinos. Eloquentes testemunhos da conquista de Jerusalém pelos latinos, muitos se apressaram a consumar seu desaparecimento junto com numerosas inscrições que atestavam o direito secular dos católicos a legítima possessão daqueles santuários. Há quem acredita que os restos se conservam ocultos ou enterrado em algum ignorado sítio da basílica.

Um dos últimos viajantes do Ocidente que chegou a ver aqueles cenotafios foi o visconde de Chanteaubriand: “...Não quis abandonar o sagrado recinto – escreveu então – sem deter-me e inclinar-me ante os monumentos funerários de Godofredo e Balduíno, que dão frente para a porta da Igreja. Com respeitoso silêncio saudei as cinzas dos reis cavaleiros que mereceram encontrar seu descanso junto ao grande Sepulcro por eles libertado...” 

2. As lendas em torno do Duque Godofredo

Das muitas hipóteses que se tem feito em torno de Godofredo de Bouillón merecem analisar-se alguns que resultam, ao menos, curiosos. O primeiro que surge com claridade é que, diferentemente de seu irmão Eustáquio de Bolonha – que nunca demonstrou demasiado fervor pela cruzada – Godofredo atuou como se soubesse que jamais regressaria a seus feudos em Lorena. Esta atitude se observa quando se analisa a forma em que se desprendeu de suas posições. Ou estava seguro de seu êxito ou conhecia um plano de vasto alcance que ia mais além da expedição militar. Provavelmente era de seu conhecimento a magnitude do objetivo cluniacense de estabelecer com caráter definitivo um reino cristão em Jerusalém.

A maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceito incluiu em sua tradição abundantes conjecturas em torno de Godofredo de Bouillón, particularmente no Grau 18, denominado “Cavaleiro” ou “Príncipe Rosacruz”. Nos antigos rituais do Grande Oriente Espanhol, ainda vigentes em muitas potências maçônicas latino americanas, se atribui ao próprio Godofredo a criação deste grau, logo após sua conquista de Jerusalém. Segundo esta versão Godofredo ingressa então na Ordem do Templo, que já existia antigas tradições essênias e de certo sincretismo com um cristianismo primitivo. Neste caso a ênfase está posta no fato de que esta Ordem atua como fator de vínculo e unidade de ação com outras escolas iniciáticas, tanto islâmicas como judias, cujo objeto é de restabelecer a paz e a concórdia entre as religiões cimentadas sobre a mesma tradição bíblica.

Posteriormente, esta ideia, de uma francomassonaria “superadora” das diferenças entre as grandes religiões monoteístas, reaparecerá com frequência. Do mesmo modo, a lenda insiste no vínculo filosófico das três grandes religiões abrâmicas.

O grau 18 tem profundas conotações na francomassonaria do rito escocês. Por um lado, recolhe elementos místicos e alquímicos próprios da tradição rosacruz; por sua vez, se considera o grau “cristão” por excelência. O eixo de sua filosofia se assenta em um processo de transmutação do espírito mediante o qual o iniciado alcança um novo nível de consciência. É um dos graus mais românticos, com um enorme simbolismo hermético e cerimônias muito particulares – como os banquetes pasquais (endoenças) – que guardam um claro esoterismo cristão. 

Mais recentemente se tem atribuído a Godofredo outras tradições, muitas das quais são o resultado da recriação destas antigas lendas maçônicas a que se agregam todo o folclore próprio do esoterismo moderno.

Se o tem vinculado insistentemente com a casa merovíngia que reivindicava uma descendência sanguínea com a dinastia davídica e com o próprio Jesus. Também se tem pretendido que ele fundou uma misteriosa Ordem pouco antes de conquistar Jerusalém, começando seus quartéis nos terrenos de uma antiga Igreja Bizantina sobre o Monte Sião, no lugar do Cenáculo donde Jesus e seus discípulos participaram da última ceia. Esta teoria, reivindicada por Michael Baigent, Richar Leigh e Henry Lincoln em “O Enigma Sagrado” sustenta que esta Ordem – que logo se denominaria com o nome de “Priorado de Sion” – teria por objeto restabelecer o reino dos merovíngios deslocando o eixo do cristianismo a partir de Roma até Jerusalém, convertendo esta última na capital de um novo império cristão.

Nesse esquema, a criação da Ordem do Templo respondia a necessidade de contar com um braço armado da suposta restauração baseada – como temos dito – na legitimidade das aspirações de Godofredo ao trono de Jerusalém, sustentada na origem merovíngia de sua linhagem.

Como geralmente ocorre, neste tipo de literatura se aportam como provas e “documentos” alguns fatos importantes de rigorosa comprovação histórica junto a outros de duvidosa origem ou coberta de falsidade. O resultado desta combinação geralmente é uma exitosa ficção baseada na atávica suspeita da conspiração, mas por sua vez um desgraçado afeito que culmina confundindo a verdadeira dimensão dos acontecimentos, apartando a verdade em causa de confusão.

Segundo os autores mencionados, o núcleo original do futuro Priorado de Sião tem que se buscar em um esquivo grupo de monges provenientes do sul da Itália que – sem causa aparente que o justifique – se estabeleceram no ano de 1.070 na localidade de Orval, na atual Luxemburgo Belga, a poucos quilômetros do Castelo de Bouillón, próximo da tumba do rei merovíngio Dagoberto II. Anos mais tarde – sempre de acordo com este relato – os monges calabreses abandonam o lugar tão misteriosamente como haviam chegado, marchando junto com Godofredo a cruzada. Já em Jerusalém assegurariam ao duque o acesso ao trono e fundariam aquela Ordem secreta no Monte Sião cujo objetivo era velar pela restauração merovíngia. Para ele devem encontrar e recuperar um suposto tesouro, documento secreto ou objeto místico escondido debaixo do Templo de Salomão desde os tempos de Jesus. Este pretendido segredo não é nem mais nem menos que o Santo Graal.

O empreendimento da Ordem do Templo em um setor do antigo templo garantiria o êxito da busca do tesouro perdido que, desde logo, outorgaria imenso poder a quem o encontrasse.

Esta é uma diferença fundamental entre a lenda maçônica em torno de Godofredo de Bouillón e a literatura moderna descrita. A francomassonaria baseia seu “corpus” em um conjunto de símbolos. Não tem uma pretensão de verdade histórica em torno de suas lendas, pois seu sistema pedagógico se baseia em ensinamentos velados por alegorias. A questão se complica quando – como ocorre neste caso – se pretendem sustentar fatos de suposto rigor histórico. Consideramos, portanto, que não ficaria completo nosso retrato de Godofredo de Bouillón sem uma análise dos pontos principais destas teorias.

3.- O misterioso empreendimento da Abadia de Orval

A Abadia de Orval ainda existe e mantém seu prestígio como uma das mais importantes da Bélgica. Seus monges atuais traalham sob a regra trapense da “Estrita Observância” e sua cerveja é famosa. Sua vinculação com os monges calabreses da Ordem de Sião não é a única curiosidade “esotérica” que se tem em torno dela, pois ali esteve hospedado por muito tempo Miguel de Nostradamus logo após a peste matar sua primeira esposa e seus filhos. Foi em Oral onde escreveu suas primeiras profecias.

Os trapenses tem realizado investigações históricas em torno das origens de sua Abadia, mas não têm conseguido estabelecer a prova da existência de alguma população antes da chegada dos italianos. Até o momento, segundo suas próprias conclusões, só tem sido descoberta algumas tumbas merovíngias em torno da localidade.

Estas mesmas investigações confirmam que um grupo de monges provenientes do sul da Itália se estabeleceu ali em 1.070, e que as terras foram doadas por Arnaud de Chiny, senhor do lugar e que imediatamente começou a construção de uma Igreja e um convento. Os mesmos trapenses confessam que desconhecem os motivos pelos quais estes pioneiros a deixaram quarenta anos depois. Logo após sua partida, Oton de Chiny – filho de Arnaud – estabeleceu ali um grupo de canônicos que completarão as obras iniciadas pelos italianos. Em 1.124 se finalizou a construção da Igreja que foi consagrada por Henri de Winton, bispo de Verdun. Em 1.132 a Abadia ficou sob a jurisdição da Ordem do Cister, criada por São Bernardo, inspirador e protetor da Ordem do Templo, a que lhe deveu sua própria regra [4]. Foi destruída pela Revolução Francesa e reconstruída em 1.926.

Uma antiga lenda conta que em 1.076 a soberana de Orval era a condessa Matilde (também duquesa de Toscana). Quer o relato que, estando sentada na borda de uma fonte de águas claras, por um descuido, deixou nela cair seu anel nupcial, lembrança de Godofredo, o corcunda, seu defunto marido. Desesperada por ter perdido esta joia, a condessa rezava à Virgem Maria com grande fervor. De imediato, apareceu uma truta na superfície da água devolvendo-lhe aquela preciosa joia. Assombrada por este milagre a soberana gritou então: “Eis aqui o anel dourado que estava buscando! Bendito seja o vale que me devolveu! A partir de agora e para sempre, quero que seja chamado de Val d´Or! A partir de então aquele lugar tomou o nome de “Valle do Ouro” e seu símbolo a truta e o anel de ouro este tem conservado até nossos dias. A fonte, todavia, alimenta de água o monastério e a sua cervejaria.

Na versão de Baigent, Leigh y Lincoln se atribui a Matilde de Toscana a sessão das terras para a fundação da Abadia. Afirma-se que Matilde era a mãe adotiva de Godofredo e que entre os calabreses havia chegado o homem que logo seria conhecido como Pedro, o ermitão – impulsionador fundamental da primeira cruzada – que se converteria em “preceptor” do jovem conde de Bouillón. É aqui onde começam a introduzir-se dados imprecisos ou falsos. Vejamos:

Certo é que até 1.076 Matilde de Toscana havia enviuvado. Seu marido havia sido nada menos que Godofredo, o corcunda, tio do futuro Godofredo de Bouillón. Sem dúvida, Matilde não só não era mãe adotiva de seu sobrinho político, mas que se opôs tenazmente que este recebesse as terras de seu tio, tal como finalmente ocorreu graças aos esforços da própria mãe de Godofredo, Ida de Lorena.

Quando os monges calabreses se estabeleceram em Orval, Godofredo tinha apenas nove anos. As baronias de Bouilón, Mosay, Stenay y Verdun, junto com o ducado da Baixa Lorena, pertenciam então a Godofredo, o corcunda, que ainda não havia morrido. Por outro lado, a maioria das fontes históricas – a exceção da mencionada pelos autores do “O Enigma Sagrado” – afirmam que Pedro, “O Ermitão”, era um homem proveniente da Picardia (atual Normandia). Nada se menciona acerca de sua tutoria sobre Godofredo, enquanto que seu desastroso desempenho na chamada “Cruzada dos Pobres” – cujo trágico final está amplamente documentado – não se condiz com o de um dos chefes encarregados de levar a cabo o plano estratégico para uma restauração monárquica merovíngia.

Se acredita que Pedro havia peregrinado com anterioridade à Terra Santa. Segundo Runciman, havia nascido em algum lugar próximo de Amiens; no momento de iniciar a cruzada já era um homem. O descreve como...”de pouca estatura, de tez morena, de rosto alargado, magro, terrivelmente parecido ao burro que montava... andava descalço e seus hábitos eram nojentos...” Sem dúvida, tinha um enorme magnetismo sobre o povo que o seguiu em grande número, dando lugar a uma verdadeira “cruzada dos pobres [5]. ”

Para a época que estamos analisando o deslocamento de monges a grande distância com o objetivo de fundar Abadias e Mosteiros era uma prática corrente que qualquer medievalista reconhece. Não é nenhum mistério que tal coisa ocorresse e de fato tem sido uma prática comum no apogeu da Ordem Cluniacense. Tampouco, é particularmente significativo que Orval tenha sido fundada sobre tumbas ou antigos restos merovíngios.

Muitas das grandes abadias do Império Carolíngio foram levantadas sobre as ruínas de edificações merovíngias e dos antigos acampamentos romanos. Fulda era um terreno inóspito quando ali chegou são Bonifácio. No século VIII, em tempos de Rabano Mauro ainda se percebiam as ruínas do antigo forte merovíngio.

Não se deve esquecer, em definitivo, que os carolíngios construíram sobre os antigos domínios dos reis merovíngios. Provavelmente, jamais poderemos determinar as razões pelas quais estes homens provenientes da Calabria escolheram as terras de Orval tão próximas de Stenay, o lugar onde havia sido assassinado quatro séculos antes Dagoberto II. Enquanto a possibilidade de que estes monges marcharam a Jerusalém resulta muito provável se se levarmos em conta sua vizinham ao condado de Boillón e a grande quantidade de monges cluniacenses que acompanharam a Godofredo em 1.096. 

4 - Os cluniacenses chegam a Jerusalém

Temos visto nos capítulos precedentes a importância alegórica que o Templo de Jerusalém tinha para as Lojas estabelecias nos monastérios beneditinos cluniacenses, pelo que resulta altamente significativa a presença destes – amplamente documentada – na cruzada. É um momento muito particular de nosso relato, posto que junto aos exércitos cruzados, ao lado de seus mestres beneditinos marcharam frades convertidos e frades barbados. Chegaram a Jerusalém para reconquistar o Templo sobre o qual haviam lido nas obras de Beda e na “Glosa Ordinária” de Walafrid Strabón. Levam em seus cofres os comentários dos grandes exegetas beneditinos cobre o Templo de Salomão e os manuais de arquitetura de Vitrúvio e Teófilo.

Conheciam sobre Hiram Abif e se inspiravam nos construtores do rei Hiram. Séculos depois da destruição do templo, estes novos obreiros de Salomão regressavam ao umbigo do mundo.

Acredita-se que um importante número de mestres maçons, em sua maioria monges beneditinos, provenientes de Lorena, Borgonha, Auvernia e Provença – acompanhados de um grande número de auxiliares laicos – chegaram a Palestina com os exércitos cruzados.

A arquitetura franca na Terra Santa – desenvolvida durante mais de dois séculos de dominação cristã – deve ser entendida como um processo complexo de adaptação dos arquitetos destas ordens beneditinas às circunstâncias da guerra, às necessidades da defesa, à influência de tradições arquitetônicas muito arraigadas na região – em especial a bizantina e a armênia - e a crescente presença e protagonismo das ordens militares.

A maioria dos historiadores reconhece a forte presença dos construtores cluniacenses na arquitetura religiosa dos cruzados. Tal é o caso da catedral de São Paulo, construída em Tarso no ano de 1.102, a primeira erguida pelos cruzados “...de estilo românico, com as Igrejas românicas do norte da França, mas com seus arcos ogivais...[6] e também o do complexo da Igreja do Santo Sepulcro, consagrado em junho de 1.149 [7]. “Em geral” – diz Runcian – “é provável que os arquitetos e artistas de todo o monumento foram franceses, educados na traição cluniacense”.

Afirma também que algumas das obras dos cruzados mostram um parentesco com as grandes Igrejas de peregrinação dos cluniacenses que – como temos visto – controlavam as rotas a Santiago de Compostela e aos Lugares Santos desde o século X – e agrega que “...os cruzados tiveram a seus lados seus próprios arquitetos, imbuídos dos estilos de França, sobretudo do provençal e do tolusiano...”[8]

Sem dúvida, os arquitetos francos de imediato se viram influenciados pelos construtores locais, aprendendo deles novas técnicas que levaram para a Europa. Tal é o caso do “Arco Ogival”, utilizado pelos armênios. Prova disso é que até 1.115, Ida de Lorena, mãe de Godofredo de Bouillón, construiu duas Igrejas que constituem os primeiros exemplos de utilização do arco ogival. Seu primogênito, Eustáquio de Bolonha, recentemente regressado da Palestina, havia trazido consigo os arquitetos que difundiram esta tendência em solo loranês. Estas duas Igrejas foram construídas em Wast e Saint Wlmer, na Bolonha e sua arquitetura lembra as obras árabes. Pela mesma época os arcos ogivais já aparecem em Cluny.

Outro indício do crescente intercâmbio entre construtores cluniacenses e palestinos encontramos no “livro de Suger, abade de Saint Denis”, que escreve no início do século XII que “...tinha o costume de conversar com os operários (vindos) de Jerusalém e saber com alegria, por eles que haviam visto os tesouros de Constantinopla e os ornamentos de Santa Sofia, se estas coisas nossas poderiam assemelhar-se com aquelas e valer algo...”[9].

5. Os guardiães do Cenáculo do Monte Sião

Centraremos agora nossa atenção no Cenáculo do Monte de Sião, lugar onde afirma-se que foi criada pelos monges italianos a Ordem homônima.

Atualmente, o edifício identificado como Coenaculum ou Cenáculo – o lugar onde teve lugar a última ceia – se encontra sob jurisdição do Estado de Israel. É uma estrutura de dois pisos dentro de um grande complexo de edifícios sobre o Monte de Sião. O piso superior lembra o lugar onde o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em Pentecostes, enquanto que o inferior contém um cenotafio[1] que, desde o século XII é considerado como a tumba de David. Sob este complexo se encontram fundações cruzadas, bizantinas e, mais abaixo, romanas. Se cré que o ábiside[2] localizado por detrás do cenotafio, que está alinhado com o Monte do Templo, pode ter sido a sinagoga mencionada pelo Peregrino de Bordeaux no ano de 333, um dos mais antigos relatos sobre os santos lugares.

Na tradição cristã este lugar tem uma máxima significação, pois ali originou dois dos sacramentos: a Eucaristia e a Ordem Sacerdotal. Por outro lado, foi ali onde Jesus apareceu aos Apóstolos no domingo da ressurreição. É o lugar onde se reuniram os Apóstolos com Maria e onde desceu o Espírito Santo. Nesse mesmo sítio foi eleito Matias para suceder a Judas. O lugar tem também uma sugestiva conotação política, pois foi a residência da denominada Primitiva Igreja Apostólica. Com efeito, ali foi consagrado Santiago, o Menor, como Bispo de Jerusalém e eleitos São Estevam e os seis diáconos. Dali saíram, também, os Apóstolos ao separar-se para ir pregar o Evangelho por toda a Terra.

Sobre o lugar de sua localização a tradição tem sido unânime e não tem variado, tal como ocorre com o do Santo Sepulcro. Sempre se tem acreditado que o Cenáculo esteve localizado no Monte Sião, a cem metros da porta que leva o mesmo nome.

Refere o Bispo Epifânio, no século IV, que o imperador Adriano visitou Jerusalém em 131 e a encontrou “completamente arrasada, exceto algumas habitações e a Igreja de Deus, que era pequena, onde os discípulos, voltando do lugar da ascensão de Jesus ao Céu, subiram ao piso superior”.

De acordo com as investigações históricas, na segunda metade do século IV, os cristãos bizantinos transformaram a pequena igreja original em uma grande basílica que chamaram “Santa Sião” e “Mãe de todas as Igrejas”, por sua origem apostólica. Esta basílica foi destruída pelos persas no ano de 614. Do Cenáculo só ficaram ruínas quando os cruzados chegaram a Jerusalém.

Por ordem de Godofredo – e isto aconteceu imediatamente depois da queda de Jerusalém – sobre suas fundações foram construídos um monastério cruzado e a Igreja de Santa Maria do Monte Sião e do Espírito Santo. Afirma Gebherdt – em sua já citada obra escrita no século XIS – que uma comunidade monástica se estabeleceu ali e que chegou a possuir importantes rendas com a obrigação de manter cento e cinquenta homens armados para a defesa do Santo Sepulcro. Em 1.106, visitou o Cenáculo um peregrino russo chamado Daniel, o Higumeo. Em seu diário de viagem descreve os antigos mosaicos bizantinos que ainda perduravam então e que continham imagens da Última Ceia, a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e outros temas vinculados com a tradição ali reunida [10].

Godofredo também ordenou a reconstrução da Basílica da Ascensão no Monte das Oliveiras. No monastério mediato a Igreja se constituiu uma comunidade de monges da Ordem de Santo Agostinho que tinha substituído os beneditinos que ali foram estabelecidos por Carlos Magno. Do mesmo modo, organizou e dotou uma comunidade de monges negros cluniacenses junto às ruínas da Igreja da Assunção da Virgem, situada aos pés do Monte das Oliveiras, no vale de Josaphat, com a ordem de proceder a sua reconstrução. 

Ao Santo Sepulcro ele dedicou especial interesse. Fez reunir sob um mesmo complexo o edifício das antigas igrejas construídas pelo monge Modesto, devolvendo-lhes a antiga grandiosidade.

E quanto ao complexo monástico do Monte Sião, no ano de 1.219, o sultão al Hakem ordenou sua demolição (provavelmente como parte do programa de destruição das muralhas e contrafortes que rodeavam a cidade) permanecendo em pé somente a Capela do Cenáculo com o cenotafio e tumba de Davi. Em 1.315, os Franciscanos receberam em custódia e como propriedade o Santuário, erigindo no lado sul um pequeno convento cujo claustro se pode visitar. Junto ao Cenáculo teve origem a Custódia da Terra Santa, oficialmente instituída a favor da Ordem Franciscana em 1.342. Mas, em 1.552, os frades foram obrigados a deixar o santuário nas mãos dos muçulmanos.

Como se algo faltasse, em 23 de março de 2.000, na ocasião de sua visita a Terra Santa, Sua Santidade o Papa João Paulo II, oficiou no Cenáculo do Monte Sião uma missa privada. Nesse dia a Agência Católica Internacional deu conta da grande expectativa que este fato havia suscitado e expressou que...”os cristãos e especialmente o Papa João Paulo II, quiseram que o Cenáculo, atualmente de propriedade do Estado de Israel, voltasse a ser um lugar de culto católico, devido a sua importância capital para a história do cristianismo...”[11]


6. O Exército de Cluny e a “Guerra Santa”.

Muitos enigmas permanecem inexplicáveis na vida de Godofredo de Bouillón.

Por que razão e o mais encarniçado inimigo de Gregório VII terminou aliado à sua política e contra a do imperador Enrique IV? Cremos ser possível que o espírito de Cluny tenha obrado – como em tantos outros guerreiros francos, bárbaros e incorrigíveis – o milagre de insuflar-lhes uma piedosa inspiração e uma ideia de “cristandade” capaz de comover sua vontade. Talvez estivesse convencido que o velho sonho cluniacense de estabelecer um reino cristão em Jerusalém era possível, pois ele não se importou de alienar todos seus bens, porque sabia que não regressaria.

Por que recaiu sobre ele a Coroa de Jerusalém? Nunca saberemos, mas não parece haver dúvidas quanto as suas virtudes, a sua entrega e a sua fé. “Não me cingirei uma coroa de ouro onde Jesus Cristo foi coroado com espinhos...” Se os cluniacenses tiveram o controle sobre a eleição, tudo indica que optaram por um estado secular no conclave mais sagrado da história do cristianismo.

Esgotado, Godofredo dedicou o ano que reinou em Jerusalém a consolidar a vitória cristã. Sua obsessão estava no plano militar. Poderia ter sido seu objetivo assegurar uma suposta dinastia merovíngia; mas estava preocupado com outras necessidades mais gratificantes. Nenhum documento da conta de Ordem alguma fundada pelo duque Godofredo, sem dúvida, empenhou seus esforços em restaurar as antigas Igrejas e Monastérios. Seja o que tenha acontecido em Santa Maria do Monte Sião, ali houve um quartel ocupado por “cento e cinquenta homens em armas” cuja missão não difere da que tinham as ordens militares que seriam fundadas em um futuro imediato. Os guerreiros do Monte de Sião parecem ter existido como organização antes que os próprios Templários

Mas também aqui parece haver uma explicação nos costumes cluniacenses. Desde a época em que o espírito de Cluny havia acompanhado a reconquista ibérica – especialmente a recuperação de Toledo em 1.085 = insuflando os combatentes a ideia de “guerra justa”, era comum que os monastérios congregassem “milites”, cavaleiros que adotavam uma vida de espiritualidade profunda e de oração. Esta prática deve ter sido frequente na Terra Santa. A cabalaria tinha muitos pontos de contato com as ordens religiosas e sua “iniciação” estava cheia de simbolismo, rito e religiosidade.

Provavelmente e de maneira simultânea, vários grupos de guerreiros se haviam constituído em torno dos monastérios cluciacenses e as grandes Igrejas, tal como ocorreu com os cavaleiros do Santo Sepulcro ou os do Monte Sião. Pela mesma época, um grupo de homens que respondiam a Hugo de Payens, iria estabelecer-se nas cercanias de um tanque de água nas proximidades das portas de Jerusalém onde, com frequência, se sucediam os assaltos aos peregrinos. Pode ter sido este o começo dos Templários? Não soa tão épico nem tão misterioso.

Neste caso, a realidade resulta mais atrativa que a lenda. Godofredo e os demais chefes que integraram os exércitos da expedição armada à Terra Santa criaram quatro estados cristãos no coração do Islam: O Principado de Antioquia, o Condado de Trípoli, o Condado de Edesa e o Reino de Jerusalém. Recuperaram todos os Lugares Santos e estabeleceram uma cultura cujos últimos filhos já não recordavam as cores nem os odores da Europa. Seu mundo era “ultramar”. Durante dois séculos resistiram a aliança muçulmana de árabes, kurdos e turcos, alternando períodos de proveitosa paz com outros de furiosa violência. Como veremos, os Templários tiveram um papel preponderante e contraditório nesse vínculo com o Islam.

Pode se dizer que quem estava por trás de Godofredo foram os cluniacenses, os arquitetos da Europa, os que construíram a alegoria de um Império Cristão no coração político e religioso de seu mundo: Jerusalém.

Para ele eram necessários maçons capazes de erigir Igrejas, monastérios, castelos e cidades e um exército. 

Nasceu então a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Tempo de Jerusalém e a dos Cavaleiros Hospitalários. Em qualquer caso, quando Ramsay se referiu a “nossos ancestrais os cruzados” fixou seu olhar naquele distante momento no que os cluniacenses, maçons e monges guerreiros formaram a mais temível e eficaz aliança cristã. Uma aliança que, sem dúvida, sonhava restaurar.

Enquanto isto sucedia, a maçonaria beneditina dava passo, lentamente, às futuras corporações de construtores laicos.


[1] Jacques de Vitr. “História de lãs Cruzadas”, Buenos Aires, Edema, 1991 p. 43

[2] Jacques Heras, óbito. P 242. La cita corresponde a E. Roy, “Lês poemas franças relates à lá première crise”, em România, 1929, t55, pp.411-468

[3] “Aqui face, ínclito, ele duque Godofredo de Bouillón, que ganó toda esta tierra para el culto cristiano, cuya alma descansa con Cristo. Amén”

[4] Puede consultarse la historia de Orval en la página web de la propia abadía: http://www.orval.be/

[5] Runciman, ob. cit. V. I, pag. 117-119. Guillermo de Tiro cree que era oriundo de Amiens, pero sus orígenes son imprecisos.

[6] Runciman; ob. cit. Vol. III p.368.

[7] ibid. p. 370.

[8] ibid. p. 372.

[9] “Libro de Suger” cap. XXXIII.

[10] Khitrowo, Mme. B. De; “Itinéraires Russes en Orient” (Réimpressión de l’édition 1889; Osnabrück, Otto Séller, 1966

[11] http://www.aciprensa.com/juanpabloii/viajes/tierrasanta/esp-tie2.htm

[1] Túmulo ou monumento fúnebre em memória de alguém cujo corpo não jaz ali sepultado; túmulo honorário. 

[2] Arq. nicho ou recinto semicircular ou poligonal, de teto abobadado, ger. situado nos fundos ou na extremidade de uma construção ou de parte dela.