quinta-feira, 22 de dezembro de 2016




A Cabala e a Lenda de Hiram 

Autor: João Anatalino

Entre as seitas que mais influenciaram nas tradições maçônicas encontramos os judeus denominados cainitas, tidos por muitos autores maçons como os verdadeiros criadores da Lenda de Hiram. Os cainitas constituíram diversas seitas místicas, preenchidas principalmente por judeus cabalistas, que procuravam compatibilizar antigas tradições judaicas com ensinamentos cristãos, especialmente aqueles veiculados pelos chamados cristãos gnósticos. A denominação “cainita” vem do fato de eles considerarem-se descendentes diretos de Adão, através de Cain, de cuja geração saiu Tubalcain, mestre artesão, hábil trabalhador de martelo e fundidor de obras de bronze, segundo a Bíblia.[1]

Os cainitas desenvolveram uma tradição, segundo a qual Cain era filho adulterino de Eva com um anjo rebelde de nome Samael. Essa tradição, que faz parte do Sepher-ha-Zhoar, o livro base da Cabala judaica, atribui á estirpe de Cain uma família de demônios, entre os quais figuram as irmãs de Tubalcain, Noema e Lilith, famosas demônios fêmeas da tradição cabalística.

O personagem que os maçons conhecem por Hiram é de difícil caracterização. Nas crônicas bíblicas ele é citado duas vezes: Em Reis- 13, ele é referido como sendo um israelita da tribo de Naftali, perito fundidor de obras de bronze; mas já nas Crônicas (Paralipômenos), ele é referido como sendo filho de uma mulher da tribo de Dan, perito, não só em fundição de metais, como também na confecção de obras de madeira, tecelagem , escultura etc.

Dessa forma, Hiram aparece na Bíblia como profissional ligado á tradição dos fundidores, dos metalúrgicos, dos “sopradores”, (como eram conhecidos, na Idade Média, os trabalhadores de forja), informação essa que o remete a Tubalcain, e por via direta á Cain, o filho amaldiçoado de Adão.

Robert Ambelain se refere ainda á tradição que faz de Séfora, a esposa de Moisés, uma cainita, pois que ela era filha de Jetro de Madian, líder de um importante centro de fundição de metais, localizado no oásis que leva aquele nome. Dessa fonte cainita Moisés teria recebido os ensinamentos secretos (iniciáticos) que não se encontram expostos na Torá, mas que foram repassados por tradição oral aos sacerdotes levitas e conservados pelos essênios, que por sua vez os legaram aos cainitas cristãos. E estes, em conseqüência, os desenvolveram no corpo doutrinário que se convencionou chamar de Cabala, cujo conteúdo está exposto no Zhoar.

A esse respeito, diz o texto de Ambelain: “Hiram, por seu pai Ur, descende de Tubalcain, e por ele, em linha direta, de Cain e Samael. Este, na tradição judaica, é o Anjo Rebelde, o Tentador, o Anjo da Morte e por morte ritual a Maçonaria sacraliza o profano) (...) Dessa estranha tradição nasceu um costume, o de denominar “vale” o lugar onde se reunissem certos altos graus da Maçonaria (....) No século XVIII um grupo (de maçons) tomou o nome de “ Filhos do Vale”. Num dos altos graus maçônicos, onde os membros se reúnem num “vale”, o presidente da Loja leva o nome de “ sapientíssimo Athersatha”, (....) Esse nome, traduzido do hebraico, significa “Prodigioso fundidor do deus forte” [2]

Portanto, a lenda de Hiram, que teria, segundo Ambelain, sido introduzida na Maçonaria através dos“ maçons aceitos”, entre os quais haviam inúmeros judeus, é de clara inspiração gnóstica-cabalística. Da mesma forma que ela é uma adaptação do drama osírico, as analogias que mais tarde se fizeram entre ela e Paixão de Cristo são frutos da licenciosidade interpretativa que as alegorias desse tipo permitem aos espíritos de imaginação fértil. E esse talvez tenha sido o objetivo de seus formuladores, já que, no fundo dessa lenda, o que remanesce mesmo é o culto ao sol, conexo ao mito do sacrificado. [3]

É importante, entretanto, ter em mente que tais concepções só são aceitáveis do ponto de vista filosófico, do praticante do livre-pensamento, que se acredita ser o maçom. Na verdade, o misticismo é uma forma alternativa de se explicar o mundo. Se suas concepções são avessas as doutrinas oficiais, não há que se ver aí qualquer motivo de escândalo. As concepções extraídas pelos cainitas sobre os textos bíblicos são apenas o ponto de vista que um grupo de pensadores heterodoxos desenvolveu sobre alguns temas polêmicos que aparecem nos textos sagrados, e que, até hoje, não encontraram consenso entre os estudiosos. Do ponto de vista meramente acadêmico merecem ser analisadas com o mesmo respeito, (e cuidado), que aquelas veiculadas pelos doutrinadores ortodoxos .[4]

Em nosso livro “Conhecendo a Arte Real” discorreremos com mais profundidade sobre o conteúdo da Lenda de Hiram e a sua influência gnóstica, bem como sua origem cabalística.[5]. Por ora é suficiente lembrar que a maioria das tradições dos antigos povos associa o despertar da consciência humana, a aquisição do conhecimento e os primeiros rudimentos de ciência a uma “rebelião” que afastou o homem dos deuses. Na Bíblia essa “rebelião” está, de certa forma, conectada com a família de Cain. Dela, por descendência direta, sairiam os personagens Jubal, Jabel e Tubalcain, que na tradição maçônica estão conectados com o Drama de Hiram. As associações que se podem fazer entre esses personagens e o simbolismo da Loja de Companheiros correm por conta do conhecimento e da intuição dos irmãos, mas a partir dessas informações já é possível pressentir uma explicação para a estranha trama que envolve o arquiteto do Templo do Rei Salomão. No momento oportuno voltaremos a esse assunto.

A lenda cainita que liga a família de Hiram, fundidor, á Tubalcain, nome bastante conhecido dos maçons nas Lojas Simbólicas, em síntese, diz o seguinte:

“ Salomão, ao receber de Deus a incumbência para construir o Templo, entrou em acordo com o rei de Tiro, que se comprometeu a lhe enviar todo o material necessário, bem como os técnicos requeridos para a construção, pois em Israel não havia profissionais capazes de realizar tal trabalho. Entre os profissionais enviados por Hiram, rei de Tiro, estava Hiram, o construtor, também perito em fundição. Na ocasião em que fundia as colunas do Templo, três israelitas invejosos, descontentes pelo fato do Templo do Senhor estar sendo construído por um estrangeiro, (embora Hiram fosse de origem israelita), sabotaram o molde que iria servir para a fundição. Hiram, descobrindo a sabotagem, denunciou-a ao rei Salomão, que, no entanto, não tomou nenhuma providência. No dia da fundição, o mar de bronze escorreu pela multidão que a assistia, matando uma grande parte dela. Hiram foi acusado de negligência e abandonou o canteiro de obras. Refugiando-se no deserto, foi tomado por uma visão. Um gigantesco homem barbado surgiu á sua frente: disse ser o espírito de todos os que trabalham e sofrem nas mãos dos poderosos. Convidou-o a segui-lo. Hiram acompanhou o misterioso personagem, que o conduziu ás entranhas da terra, até o lugar onde habitava Enoque, pai de todos os homens de ciência, que no Egito se chamava Hermes.

Foi então que Hiram descobriu os segredos com os quais foi construída a cultura da humanidade. Enoque, ou Hermes, ensinou-lhe todos os segredos da arte de construir; apresentou-lhe também Maviel, o carpinteiro, que ensinou a humanidade a trabalhar a madeira, Matusael que criou a arte da escrita, Jabel que criou a arte da tecelagem, Jubal que inventou a música e os instrumentos musicais e Tubalcain, aquele que ensinou aos homens a arte de curtir peles, a tecer a lã, a arte de fundir e transformar os metais, e foi pai daqueles que trabalham a forja e controlam o fogo. E depois Enoque, ou Hermes, disse a Hiram como o mundo foi feito: “Dois deuses criaram o universo”, disse Enoque: “ Adonai, senhor da matéria e Iblis, senhor do espírito”. Adonai criou o homem a partir do barro da terra e Iblis insuflou-lhe no peito o espírito. O homem, que era belo e inteligente como um deus, despertou em Lilith, deusa irmã de Iblis, uma intensa paixão. Esta, em conseqüência, tornou-se amante do homem Adão. Os deuses haviam feito uma companheira para Adão, tirada da sua costela, chamada Eva. Por vingança, pelo fato de Adão ter se amasiado com sua irmã Lilith, Ibles seduziu Eva e gerou-lhe um filho, que foi Cain[6]. Ao saber que Cain era filho ilegítimo de Eva com Iblis, Adão o expulsou. Cain separou-se de sua família celeste e deu inicio á família terrestre. Abel, o outro filho de Adão com Eva manteve-se fiel ás origens, razão pela qual o conflito instalou-se na terra. 

Foi assim que ocorreu a separação entre as estruturas do céu e da terra, evocadas pela tradição egípcia, e a expulsão do homem do paraíso terrestre, referida na Bíblia. Hiram foi então apresentado a Cain, que fez amargas queixas contra os deuses, especialmente Adonai. Reivindicou para si a origem da ciência e do conhecimento e disse ser essa a razão pela qual Adonai recusou seus sacrifícios, aceitando, no entanto, os de Abel. “Adonai”, diz Cain, “detesta a ciência e o conhecimento, porque eles tornam o homem insubmisso ao seu poder”. Como os homens cresceram e multiplicaram-se sobre a terra, Adonai, ciumento e temeroso que os homens escapassem do seu controle, resolveu destruí-los mandando que as águas cobrissem a terra e afogasse todos seus habitantes. Mas Noé, instruído por Maviel, o carpinteiro, frustrou os planos de Adonai construindo uma arca na qual ele salvou-se a si a sua família, dando continuidade á família terrestre. [7]

O Mestre Hiram nas “Velhas Regras”

Por conta dessa origem luciferina da arte metalúrgica, a Bíblia diz que Deus “proibira a utilização de ferramentas de ferro no interior do canteiro de obras do templo”. O “tabu do ferro” sempre acompanhou a cultura hebraica na forma de uma grande aversão pela metalurgia. Uma explicação histórica para essa aversão talvez esteja no fato de que, durante os anos de ocupação da Palestina pelos filisteus, os israelitas foram proibidos de praticar qualquer oficio ligado á fundição de metais. Era uma proibição que objetivava impedir que os filhos de Israel se armassem e promovessem uma revolução. Só no tempo de Davi essa proibição foi levantada e os israelitas puderam fundir e fabricar espadas.

A tradição cabalista vai mais longe nessa lenda. De acordo com algumas interpretações rabínicas, constantes do Zohar, a arte da metalurgia está conectada com o lado mau e rebelde da família humana, ligada ao nome de Tubalcain. É, portanto, uma arte luciferina, de inspiração malévola. Um povo consagrado ao Senhor não poderia praticá-la.[8]

Só assim é possível entender o temor das técnicas de metalurgia que acompanha a antiga cultura hebraica. Veja-se, inclusive, que todas as experiências daquele povo com essa arte estão conectadas com alguma tragédia: Aarão com seu bezerro de ouro, Moisés com a serpente de bronze, Hiram com o mar de bronze etc. Dessa forma também é possível explicar a utilização do nome de Tubalcain como senha na transposição do companheiro para o mestre.[9]

A Lenda de Hiram acabou sendo um denominador comum entre todas as práticas maçônicas. Hiram arquiteto é o detentor dos grandes segredos iniciáticos. Ele é o construtor do Templo de Salomão, cuja estrutura reflete o próprio universo. Sua morte representa a transição do profano para o sagrado, do técnico para o científico, do reino grosseiro da matéria para o reino sutil do espírito. Pelo fenômeno da simbiose, o companheiro rebelde, que vivia no domínio inferior da consciência, se reconcilia com o substrato superior do espírito, e adquire, agora da forma correta (e não pela violência), a sua passagem de grau. 

Esse foi o conteúdo da lenda desenvolvida para o catecismo maçônico das “Velhas Regras” (Old Charges). Nas Old Charges o nome de Hiram é citado como sendo filho do rei de Tiro, cujo nome também é Hiram.Tanto no Manuscrito Cooke quanto no Downland, essa informação é referida. Horne acredita que isso é resultado de uma interpretação equivocada da palavra Hiram Abi, que significa “Hiram, meu pai”. As referências a Hiram, entretanto, aparecem em várias outras Old Charges, e em algumas delas, ele é citado como sendo “príncipe maçom”.[10]

As referências a Hiram nas “Velhas Regras”, entretanto, são muito contraditórias. Em alguns desses antigos manuscritos, o mestre arquiteto do templo de Salomão chega a ser confundido com o rei Nenrode, construtor da Torre de Babel. Por isso é que as informações mais confiáveis sobre a identidade do Mestre Hiram ainda são aquelas veiculadas pela Bíblia e por historiadores como Flávio Josefo, por exemplo.

Com exceção do fato de que nos textos sagrados ele não aparece como arquiteto, mas como fundidor de bronze, todo o conteúdo da lenda pode ser encontrado nas crônicas bíblicas: Em Reis, 13:7 lemos que Salomão “Escolheu obreiros em todo Israel, e ordenou que fossem trinta mil homens. E ele os mandava ao Líbano, dez mil a cada mês, de sorte que ficavam dois meses em suas casas e Adoniram era o encarregado do cumprimento dessa ordem. E teve Salomão setenta mil que acarretavam as cargas, e oitenta mil cabouqueiros nos montes; fora os aparelhadores de cada obra, em número de três mil e trezentos, que davam as ordens aos que trabalhavam. E o rei mandou que tirassem pedras grandes, pedras de preço para os alicerces do Templo, e que as facejassem. E lavraram-nas os canteiros de Salomão e os canteiros de Hirão; e os de Gíblios ,porém, aparelhavam as madeiras e as pedras para edificar a casa”.[11]

Os giblitas, no entanto, eram considerados estrangeiros. Como estrangeiros não poderiam compartilhar dos segredos dos mestres até que recebessem a devida elevação. Era uma elevação que não se alcançava meramente cumprindo um interstício de tempo como companheiro, ou simplesmente aprendendo o segredo dos planos de construção, que eram arte especulativa. Nisso estava envolvida principalmente uma questão religiosa, e essa questão era a proibição de que um segredo de natureza sagrada fosse revelado a pessoas que ainda não tinham obtido o devido merecimento. Era preciso encontrar uma fórmula que superasse esse impasse, permitindo que o companheiro pedreiro, estrangeiro para as tradições hebraicas, pudesse romper essa barreira para ser admitido no seleto circulo dos mestres.

Não sendo assim a chamada Escola de Arquitetura de Salomão, que a imaginação de Anderson colocou nos canteiros de obras do Templo do Rei Salomão acabaria se transformando numa alegoria sem sentido. A solução foi o sacrifício ritualístico do Mestre Hiram, que como já dissemos, é a porta de entrada nos Mistérios Maçônicos. Com essa alegoria Anderson introduziu na tradição maçônica dois arquétipos de grande significado histórico, psicológico e religioso, que são o mito solar, que está na origem do mito do herói sacrificado e o sacrifício da completação. A finalidade desse sacrifício é francamente escatológica, como veremos.

O mito do herói sacrificado 


Todo maçom que tenha sido elevado ao mestrado na Arte Real já fez a sua marcha ritual em volta do esquife do Mestre Hiram Abiff, o arquiteto do Templo do Rei Salomão, assassinado pelos três companheiros ambiciosos que queriam abreviar o prazo de seu aprendizado e obter os graus mais elevados sem o devido mérito. A alegoria da morte de Hiram é uma clara alusão ao mito do sacrificado. Ele está conectado, de um lado ao simbolismo da ressurreição e de outro lado ao mito solar. Pois nas antigas religiões solares, como vimos, o sol, princípio da vida, morria todos os dias para ressuscitar no dia seguinte, após passar uma noite em meio ás trevas.

Assim como toda a teatralização dos Antigos Mistérios, fosse na Grécia ou no Egito, ou em qualquer outra civilização que praticasse esses festivais, mais do que uma simples homenagem aos deuses protetores da natureza, esses rituais simbolizavam a jornada do espírito humano em busca da Luz que lhe daria a ressurreição. É nesse sentido que a marcha dos Irmãos em volta do esquife de Hiram, sempre no sentido do Ocidente para o Oriente, nada mais é que uma imitação desse antigo ritual, que espelha a ansiedade do nosso inconsciente em encontrar o seu “herói” sacrificado (ou seja, o sol), para nele realizar a sua ressurreição. Pois o sol, em todas essas religiões, era o doador da vida. Ele fertilizava a terra e fazia renascer a semente morta. Destarte, toda a mística desses antigos rituais tinha essa finalidade: o encontro com a luz que lhe proporcionaria a capacidade de ressurreição.[12]

O sacrifício da completação


Conectado com esse simbolismo, os antigos povos, em suas tradições iniciáticas relacionadas com grandes obras arquitetônicas, desenvolveram o chamado “sacrifício da completação”. Esse sacrifício consistia em oferecer ao deus a quem era dedicado o edifício um sacrifício de sangue, que podia ser o holocausto dos inimigos aprisionados em guerra ou pessoas escolhidas entre próprio povo. Muitas vezes essa escolha recaia sobre mulheres virgens (as vestais) ou jovens guerreiros, realizadores de grandes feitos na guerra. Acreditava-se que assim os deuses patronos dos poderes da terra se agradariam daquele povo, prodigalizando-lhes fartura de colheitas e proteção contra os inimigos.[13]

Esse tema remonta á antigas lendas, cultivadas pelos povos do Levante, segundo o qual nenhuma grande empreitada poderia obter bom resultado se não fosse abençoada pelos deuses. E essa benção era sempre obtida através de um sacrifício de sangue. Esse costume era praticado até pelos israelitas, como prova o texto bíblico ao informar que Salomão, ao terminar a construção do Templo “sacrificou rebanho e gado, que de tão numeroso, nem se podia contar nem numerar.”[14]
Dessa forma, na Maçonaria, o Drama de Hiram tem uma dupla finalidade iniciática: de uma lado presta sua referência ao culto solar, sendo Hiram, nessa mística, o próprio sol que é homenageado; de outro lado, cultua o herói sacrificado, pois é nele que se consuma a obra maçônica.
E dessa forma, a principal alegoria do ensinamento maçônico assume o seu verdadeiro e real significado.

[1] Gênesis, 4:22..
[2] Robert. Amberlain op citado pg. 84-85
[3] O mito do sacrificado é uma tradição cultivada por todos os povos antigos que desenvolveram religiões solares. O “sacrificado”, no caso, é o próprio sol, que “morre” todos os dias e renasce no dia seguinte. E graças ao seu calor e sua luz, a vida na terra também têm os seus ciclos regenerativos. Em função dessa crença, acreditava-se que todo período de tempo deveria ser agradecido aos deuses através de um sacrifício de sangue, para que a terra prodigalizasse ao povo o benefício de grandes colheitas. Essa era a crença que estava na raiz dos chamados Mistérios Antigos. De outra forma, todos os grandes empreendimentos também tinham que ter um “sacrificado” para que essa obra fosse levada á bom termo. Na imagem, reconstituição do Templo de Salomão. Fonte: Alex Horne: O Templo de Salomão e a Tradição Maçônica.
[4] É também originária dos cabalistas cainitas a exclamação Huzz, Huzz, Huzz , que no Rito Escocês costuma ser utilizada na abertura e no encerramento dos trabalhos em Loja. Essa exclamação (aportuguesada para Huzé, Huzé, Huzé) também era utilizada pelos Cavaleiros Templários, na recepção de seus grãos-mestres. A palavra é derivada do hebraico hoschea, que significa libertador.
[5] Publicado pela Editora Madras, 2006. Atualmente está esgotado. Estamos preparando uma segunda edição para 2017.
[6] A Bíblia também se refere á essa tradição quando fala nas belas filhas dos homens, por quem os deuses se apaixonaram e geraram filhos, os audazes “nefilins”. Na imagem, o “Mar de Bronze” fundido pelo Mestre Hiram.
[7] A Franco-Maçonaria, op citado pg. 81 a 86.
[8] Veja-se que na mitologia grega, o deus que cumpre esse papel, é Vulcano, tido pelos gregos como o deus da forja, controlador do fogo. O arquétipo do deus Vulcano, que habita o interior da terra, está conectado com tradições luciferinas.
[9] Pois o companheiro, na tradição da Maçonaria, é aquele que assassina o Mestre Hiram para obter o segredo do grau de mestre.
[10] No Manuscrito Melrose nº 2 de 1674 e no Manuscrito Harris de 1789.
[11] Reis, 13-17. Os giblios, ou giblitas, eram os trabalhadores das pedreiras de Biblos, cidade fenícia que ficava cerca de 120 quilômetros ao norte de Tiro. Essa cidade é conhecida hoje como Gebal. Nos Primeiros Catecismos Maçônicos, os giblitas eram considerados como sendo os verdadeiros pedreiros, razão pela qual o Manuscrito Wilkinson, uma Old Charge utilizada por algumas Lojas inglesas do inicio do século XVIII, continha o seguinte trolhamento para o iniciando: “P. Qual é o nome do pedreiro?” “R. Giblita”. Segundo Horne, essa palavra ainda hoje é utilizada em cerimônias de iniciação em Lojas inglesas e americanas
[12] Na imagem, o herói sacrificado. Gravura extraída do livro de James Frazer, o Ramo de Ouro.
[13] Veja-se o relato bíblico em Juízes: 11;30,31, na qual o juiz Jefté sacrifica a própria filha em razão de um voto feito á Jeová.
[14] Reis I- 8:5- Na imagem 2, gravura mostrando os maçons em volta do esquife do Mestre Hiram. Fonte: “Morals and Dogma”, de Albert Pike - Kessinger Publishing Co. 1992.
João Anatalino

terça-feira, 20 de dezembro de 2016



Viajando com os Painéis




Autor: Dr. Jorge Norberto Cornejo


Complemento, tradução e pesquisa: Pedreiro de Cantaria (JRCardoso)

Todos nós sabemos que desde a antiguidade dos operativos que os ensinamentos eram transmitidos de forma oral e os trabalhos de construção desenhados em pedras e isto aparece de forma clara no Filme “Os Pilares da Terra”.

Cristopher Wrem, em uma de suas manifestações, nos diz sobre a arte da palavra e da importância que ela tinha, pois antes da imprensa propriamente dita, ou se escrevia pergaminhos, ou em pedras, ou se transmitia o conhecimento através da palavra.

Mais próximo da época dos maçons especulativos começaram a aparecer desenhos no chão das oficinas, marcados com giz, onde se formava uma espécie de painel, que eram apagados depois das reuniões.

A partir do século XVIII começam a surgir os painéis tais como os conhecemos hoje.

Os painéis a seguir, com alguns poucos comentários são frutos da pesquisa do Ir.´. Dr. Jorge Norberto Cornejo e são de grande beleza, pelo menos no meu ponto de vista.

Neste painel de F. Harris, do século XX, podemos notar que a escada se apoia sobre o círculo com as linhas paralelas. Podemos ver o livro da Lei, o Esquadro e o Compasso, e em seus degraus encontramos a cruz (Fé), a chave, a âncora (Esperança) e o símbolo pouco discernível da caridade. Este nos parece uma aplicação religiosa, fora de lugar na maçonaria.

De todas as formas, símbolos como a escada do Ser (a escada evolutiva, ou Escada de Jacó), a chave e a cruz (fora de seu contexto religioso) são esotericamente muito valiosos. Notar que na base da escada as linhas paralelas representam a dualidade, e em seu cimo está o diamante, símbolo da Unidade.

Os painéis têm sido sempre característicos das Lojas Inglesas ou Norte Americanas, mas também podemos encontrar Painéis de Lojas Francesas ou de outros países.

Em inglês, cada Painel se denomina “Tracing-Board” ou, também, “Trestle-Board”, correspondente à Tábua de Traçar.

Algumas tradições afirmam que todos os Aprendizes, nas Lojas Operativas, devem traçar no solo, com giz, os símbolos do seu grau.

Notemos, ademais, que o Painel apresenta uma grande analogía com o Templo, pois ambos consistem em uma integração harmônica dos símbolos do grau.

Uma imagem, possivelmente do século XVIII, na qual os membros recebem a “iluminação” como resultado de seu trabalho sobre o Painel

Aquí o Painel aparece montado sobre um marco de tábuas.

Em uma divulgação publicada em Londres, em 1762, chamada de “Jachim e Boaz”, se diz que o candidato a iniciação aprende como avançar até o mestre (dando a marcha ou o “o passo”) através do desenho no chão.

Se afirma que tal Desenho é semelhante a “Grande Construção” (o Templo de Salomão), “chamada palácio de mosaicos e que deve descrever-se com a maior exatidão possível”.

Aqui o termo “palácio” talvez seja um erro de tradução (por pavimento), ou talvez se disse tal nome se referindo ao Templo de Salomão.

O instante da iniciação em que se ensina ao Candidato a forma de marchar sobre o Quadro da Loja ou Painel.

A obra acima menciona que, entre as figuras que aparecem no Painel, se encontram a Corda de Laços e o Trono cravejado de Estrelas.

O costume era desenhar tais símbolos com giz e apagá-los ao final da reunião.

Voltando a mesma obra, se diz que, em algumas Lojas, “o membro recentemente admitido”, é obrigado a apanhar um esfregão e um balde de água e limpar o desenho feito no chão, o que o lhe causa grande confusão, mas provoca uma grande alegría nos demais irmãos.



Posteriormente, na Inglaterra, os desenhos foram copiados em carpetes ou tapetes e, progressivamente, o costume de desenhar e apagar os Quadros ou Painéis,em cada Oficina foi desaparecendo.

Estas práticas foram copiadas no continente Europeu, na França, Alemanha e Áustria, na forma de carpetes, lonas ou tapetes de Loja. Todavia, mais tarde, as telas foram apoiadas em uma tábua com cavaletes e dai vem o costume de executar o desenho sobre uma tábua rígida.

Na imagem acima, um antigo Painel francês.


Segundo Ferry Haunch (Transações da Loja Quatour Coronati n 2076), existe certa evidencia de que o termo: “Tábua de Cavalete”, expressado em inglês com vocábulos tais como “trestle”, “trassle” e “training board”, ficou finalmente na forma corrupta de “trainsing” para finalmente consolidar-se como “traicing”.

Nos Estados Unidos a expressão “trestle board” se emprega com o mesmo significado.

Na imagem acima, Painel de 1.800.

Muito poucos Painéis anteriores a 1.800 sobreviveram.

A partir desta data surge um conjunto de desenhistas ingleses de alto nível, entre eles John Cole, cujas gravuras apareceram em 1.801 e John Browne, que por volta de 1.800 desenhou um conjunto de Painéis coloridos.

Com as obras de Josiah Bowring e John Harris os Painéis ganharam ainda mais em qualidade artística, incluindo um conjunto simbólico mais detalhado e empregando a perspectiva com finalidade estética.

Na imagem acima, Painel de John Harris (1.801). toda a simbología, do Aprendiz. O Esquadro e o compasso aparecem na posição de Companheiro Maçom.

Painel anónimo (1.802) Painel de J. Bowring (1.819). 


 Painel de 1845. Observar as “tesouras”  que sustentam os pés.l Painel contemporâneo. 

Painel contemporâneo. Note-se o erro de se colocar janelas de se colocar as janelas no norte. (Quadro de 1.873)

Painel do Rito Francês (2008) Sem referência





Segundo Dom Falconer os Painéis Maçônicos devem ser construídos seguiindo a proporção áurea, isto é, , . Esta deveria ser a relação entre “latitude e longitude de um painel, para ser harmonioso.

“Só pela contemplação regular dos símbolos maçônicos é possível compreender seu verdadeiro e esotérico significado. A chave do conhecimento maçônico está presente nos emblemas mostrados nos painéis de cada grau, porém só através de seu estudo frequente se pode retirar o véu da alegoría e revelar sua verdade oculta (Mackey).”


OS SIMBOLOS



De acordo com a tradição o painel da Loja de Aprendiz deveria conter, no mínimo nove símbolos:

1 - Um pórtico elevado sobre três degraus, adornado com duas colunas de bronzes sobre cujos capitéis descansam três granadas entreabertas, que deixam aparecer suas sementes.
2 - uma pedra bruta.
3 - uma pedra talhada de forma cúbida.
4 - Um esquadro, um compasso, um nível e um prumo.
5 - Um maço e um cinzel.
6 - Uma tábua polida, denominada prancha de trançar.
7 - Três janelas abertas na Loja (as luzes fixas ou luzes da Ordem).
8 - Ao oriente (leste) da Loja, o sol e a lua.
9 - A Loja está ornada com uma orla dentada que decora o friso interior da abóbada.



 



O que significa pórtico.

R – Significa o ponto do Oriente donde o Sol se eleva sobre o Hemisfério. É também a figura da iniciação, a porta que separa o mundo profano do mundo maçônico. “se introduz o candidato no Templo para que conheça o Universo”.

O que significam as duas colunas de bronze?
R – Significam os dois pontos solsticiais, mas no grau de Companheiro se procura ter um conhecimento mais profundo.

O que significam as granadas entreabertas sobre os capiteis das colunas?
R – A vida Universal.

O que quer dizer a pedra bruta?
R – Toda obra em seu começo e, em particular, o homem antes de ser iniciado, o homem bruto e ignorante.
                     


O que indica a pedra polida e cúbica?
R – Representa o iniciado, o homem que tem trabalho sobre si mesmo.

O que representam o esquadro, o compasso, o nível e o prumo?
R – Como esses instrumentos são indispensáveis para fazer construções sólidas e duráveis, nos recordam as faculdades que o ser humano pode utilizar em sua vida. O Esquadro, a razão; o Compasso, a análise, a medida; o nível, a humanidade; o prumo, o esforço por se aperfeiçoar perante o mundo e perante Deus.

Que quer dizer o maço e o cinzel?
R – São os símbolos da força dirigida ou controlada, possivelmente porque assim foram utilizados pelos trabalhadores da pedra.


                          


O que representa a prancha de desenhar?
R – A ardósia onde o Mestre ou Arquiteto traça os plano da Obra; aquilo donde se grava o pensamento.

O que representam as três janelas?
R – O Oriente, o Sul e o Ocidente; o amanhecer, o meio-dia e o ocaso. Trata-se, por suposição, de janelas simbólicas, por que o Templo realmente não tem janelas. É através desses pontos que se localizam, respectivamente, o Mestre e os Vigilantes, por onde entra a Luz no Templo.

Por quê o Sol e a Lua estão representados na Loja?
R – Porque são arquetipos profundamente gravados na psiquê humana.

O que quer dizer a orla denteada?
R. A cadeia, a unidade, a fraternidade.

Alguns tem buscado correspondencias entre os símbolos do painel (tabuleiro ou prancha de desenho) e os astros que podem divisar-se no céu a olho nú, tal como apreciamos na imagen da direita.

Os quadros maçons tem adquirido todas as formas, cores e variedades possíveis, incluindo a Arte Moderna.

Especialmente, destacam-se os do artista Ferenc Sebok, entre o estilo Arte Deco e o Surrealismo.

Em todos eles a letra hebráica yod geralmente substituem a letra G, o que implica recuperar um símbolo tradicional.

OBRAS DE FERENC SEBOK

             
 


 

O Quadro à direita é da Loja "Eperon dos de Namur". Parece ser do Grau de Companheiro.



Um painel muito original, de data desconhecida, baseadona arquitetura clásica. No século XVIII, O painel (ou quadro) era diretamente denominado “Loja”. 



Um Painel bem simples “minimalista”, mas que não carece dos símbolos fundamentais.


Um Painel incompleto? Falta a inicial da Coluna B (talvez isto tenha sido de propósito, mas desconhecemos os motivos)

O Painel ou Quadro de Desenhar é conhecido em inglês como “drawing the Lodge”, literalmente “desenhando (ou descrevendo) a Loja”.

                   





Um painel de corte “metafísico”, no que se apresenta ao Logos o Filho (o Mestre), como o equilíbrio entre o céu (Pai) e a Lua (Mãe), representados pelos Vigilantes



Um Painel, possivelmente do século XVIII, no qual aparecem símbolos do Aprendiz e do Companheiro. Os quatro pontos cardeais, símbolos da regularidade e perfeição são conhecidos como “Pontos Geométricos”.

Antigamente, as três janelas que se vêm no Quadro, ou Painel, se chamavam as “luzes imóveis” e se dizia que sua função era “iluminar aos homens no ir e vir de seus trabalhos.



Este Painel, muito parecido com o anterior, foi utilizado pela Ordem dos Arquitetos Africanos.



Painel do “Aprendiz de Maçom”, no qual se superpõe símbolos do Painel propriamente dito com outros da “Câmara de Reflexões”.



Outro Painel no qual se combinam símbolos do Aprendiz e do Companheiro.


Um Painel iluminado a mão, feito possivelmente para uso de um membro individual, isolado.


Painel do Grau de Aprendiz (Rito Escocês), por Jean Beauchar. Note-se a presença da rosa e que as mãos unidas estão na posição do toque de Aprendiz.


Painel do Grau de Aprendiz do Rito Memphis. Note-se que nos quatro vértices do Painel há borlas, que é muito habitual em todos os Ritos. Estas quatro Borlas (no vértice) se fazem corresponder aos quatro sinais: gutural, peitoral (que se dá no Grau de companheiro), manual (o toque) e pedal ou pedestre. E por meio dos sinais Se associam as quatro virtudes cardeais: temperança, fortaleza, prudência e justiça.


Um painel com características dos três graus simbólicos, mas com alguns símbolos não tão habituais na Loja Azul, como a Chave e a Cruz de Malta.

Painel de Aprendiz do Ritual do Supremo Conselho da Itália, tomado, por sua vez, de “Simbologia Maçônica”, de J. Boucher.



Painel do Grau de Aprendiz do Rito de Schoreder (1960)
Quantos ángulos tem a Loja de São João?
R – Quatro, com Painéis adjacentes.






“Traçavam com giz o piso da Loja, com o que sacralizavam o lugar” (Grande Oriente da França).

Este é um trabalho de pesquisa no qual se procurou sintetizar a história dos painéis. Espero que tenham gostado. TFA

José Roberto Cardoso (Pedreiro de Cantaria)