terça-feira, 12 de julho de 2016



O MESTRE INTERIOR - NO TEMPLO




Autor: Pedro Neves


A porta do Templo é um símbolo de acesso ao interior, onde está oculta a verdade e outros tesouros. Quando solicitamos a entrada no Templo interior, somos questionados “Quem é o temerário que ousa interromper as nossas meditações”, e o nosso guia interior responde que é um candidato que não é escravo das paixões e desejos e que não é de maus costumes, pois, no Templo da verdade e da sabedoria, não entra quem é preconceituoso e possui péssimos costumes. Caso não tenhamos o desejo sincero de buscar a verdade, poderemos ser impedidos pela espada do guardião, que impede a entrada de curiosos temerários, invasores profanos e dos mercadores do santuário. Fazemos uma oração para solicitar o auxílio nos momentos de perigo, durante o trajeto na senda. Sabemos que o vício nos arrasta para o mal e que devemos ter disposição na alma para a prática do bem. As coisas boas da vida, a doçura, podem se transformar de uma hora para outra em amargor, em decepções, e temos que estar preparados para isso, Cristo passou por dores e momentos insuportáveis, os momentos difíceis nos deixam vulneráveis. Ao curioso que pensa somente em adquirir poderes, estabilidade financeira com riquezas e auxílios mútuos, e se esquecem do desenvolvimento espiritual, sentem a desilusão, porque, os espera um cálice de amargura, que ao ser apresentado a Cristo, este exclamou: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice”. O verdadeiro postulante, consegue absorver a mudança das doçuras da vida em amargor, e tem fé que o amargor se transforme novamente em doçura pela conhecimento da verdade. Temos que percorrer um caminho difícil e tortuoso, os obstáculos e a instabilidade do tempo (ar), com chuvas e trovoadas, e nessa viagem, começamos o trajeto na realidade exterior (ocidente), e passamos pela noite escura do norte utilizando apenas a visão intelectual, caminhamos com dificuldade, até podermos chegar ao lugar de luz (oriente), após conseguirmos a iluminação da consciência, não poderemos ficar parados neste local, não podemos guardar a luz, temos que levá-la aos que ainda se encontram no mundo material sem luz (ocidente). Temos que ter ciência que representamos o símbolo da sociedade, onde a inteligência de um pequeno grupo conduz as massas ignorantes que não podem se governar. O processo de busca da luz é contínuo, quando estivermos mais esclarecidos poderemos percorrer um caminho mais plano, ainda poderemos ouvir o som dos combates da vida, tinir de espadas, mas, ao final deste caminho, o nosso guia nos leva a uma fonte de água para purificarmos a alma. Novamente temos a demonstração da solidariedade humana. Então, seguimos por um caminho livre de obstáculos, podemos ouvir o crepitar das chamas durante este trajeto e sentimos o calor do fogo, que, além de purificador é o símbolo da descida do Espírito sobre a matéria. Estaremos aptos a nos submeter à terrível prova do batismo do heroísmo, do mártir, oferecemos o nosso fluido vital (sangue). Então, poderemos receber o selo da fé e da caridade em nosso peito. Devemos procurar auxiliar e socorrer os necessitados, os miseráveis e deserdados da fortuna, não podemos ser vaidosos e fazer doações com orgulho, humilhando a quem recebe as nossas dádivas, sentimos a angústia em nosso coração diante da impossibilidade de socorrer os miseráveis e necessitados. Com a prática da caridade, juramos fidelidade ao dever, e retiramos a venda material que nos cobria os olhos, podemos finalmente ver a luz. Somos consagrados e nos tornamos justos e perfeitos. Nascemos de novo, cumprimos o que disse o Divino Mestre Jesus: “O REINO DE DEUS ESTÁ DENTRO DE VÓS”


Pedro Neves .’. M.’. I.’. 33.’.
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A ÁGUIA DE LAGASH




Alguns símbolos adquiriram tal vigor que até o não iniciado sabe que o mesmo se refere à Maçonaria. O esquadro e o compasso são disso mesmo um bom exemplo: pessoas com um pouco de cultura os reconhecem como símbolo da maçonaria. Não sabem é, e só o iniciado sabe, que pela disposição dos mesmos existe um significado intrínseco. A águia bicéfala está num outro patamar, onde somente os mais atentos percebem quando esta é um símbolo maçónico.

A "Águia de Duas Cabeças de Lagash" é o mais antigo brasão do Mundo. Nenhum outro símbolo emblemático no Mundo pode rivalizar em antiguidade. A sua origem remonta à antiquíssima Cidade de Lagash (1). Era já utilizado há cerca de mil anos antes do Êxodo do Egito, e há mais de dois mil anos quando foi construído o Templo do Rei Salomão.

Com o passar dos tempos, passou dos Sumérios para o povo de Akkad (2) (Acádia), destes para os Hititas (3), dos recônditos da Ásia menor para a posse de sultões, até ser trazida pelos Cruzados aos imperadores do Oriente e Ocidente, cujos sucessores foram os Hapsburg e os Romanoff.

Em escavações recentes, este «brasão» da Cidade de Lagash foi descoberto numa outra forma: uma águia com cabeça de leão, cujas garras se cravam nos corpos de dois leões, estes de costas voltadas. Esta é, sem dúvida, uma variante do símbolo da Águia.

A Cidade de Lagash situava-se na Suméria, no sul da Babilónia, entre os rios Eufrates e Tigre, sendo perto da atual cidade de Shatra, no Iraque. Lagash possuía um calendário de doze meses lunares, um sistema de pesos e medidas, um sistema de banca e contabilidade, sendo ainda um centro de arte e literatura, para além de centro de poderes político e militar, tudo isto cinco mil anos antes de Cristo.

No ano 102 a.C., o cônsul romano Marius decretou que a Águia seria um símbolo da Roma Imperial. Mais tarde, já como potência mundial, Roma utilizou a Águia de Duas Cabeças, uma voltada a Este e outra a Oeste, como símbolo da unidade do Império. Os imperadores do Império Romano Cristianizado continuaram a sua utilização e foi depois adoptado na Alemanha durante o período de conquista e poder imperial.

É provável que a águia bicéfala tenha sido usada como símbolo maçônico desde o 12º século. Já as evidências disponíveis indicam ter sido ela usada pela maçonaria em 1758, após a criação do Conselho de Imperadores do Oriente e do Ocidente em Paris. Era parte do Rito de Perfeição, do antigo Rito dos vinte e cinco graus, evoluindo em grande parte para o sistema Escocês. Não existe dúvida relativa ao uso da águia bicéfala pelo Supremo Conselho, 33º, Jurisdição Sul dos USA desde 1801.

Os sucessores do Conselho de Imperadores do Ocidente e Oriente, são os vários Supremos Conselhos do Grau 33º espalhados pelo mundo, que herdaram a insígnia do emblema pessoal de Frederico o Grande, considerado como o primeiro Soberano Grande Comendador do Rito Escocês Antigo e Aceito, conferindo ao Rito o direito de usa-la em 1786. (Sic.) simultaneamente adotou (acrescentou) mais sete graus (Aceitos) aos vinte e cinco conhecidos (Antigos), chegando-se então a trinta e dois graus Antigos e Aceitos. A esses graus foi acrescentado o Grau governativo do Rito de número trinta e três.

Observa-se que os Supremos Conselhos que tinham laços com a grande Loja da Inglaterra têm em seus selos a águia com as asas para cima, conquanto os supremos conselhos que tinham laços com a Grande Loja da França, têm em seus selos a águia com as asas voltadas para baixo. Existe este padrão, seja ele intencional ou não.

Nos compêndios de heráldica encontramos a águia bicéfala e acreditamos que como resultado da presença dos cruzados no Oriente, trazida como símbolo para os Imperadores do Oriente e do Ocidente, cujos sucessores foram nos últimos tempos, os Habsburgos e os Romanovs, em cujas moedas ela aparece sistematicamente, sendo copiado pela maioria das "Cidades Livres da Europa", principalmente as da Alemanha, e como emblema no Império Oriental da união de Bizâncio com Constantino.
O fato de a águia estar representada com as asas abertas para cima ou para baixo é uma questão diretamente relacionada ao desenho do selo por um Supremo Conselho em particular, como resultante do gosto artístico de cada povo, preferindo uns o estilo clássico copiando a natureza, enquanto outros dão preferência à representação marcial. A Águia Bicéfala de Lagash é o mais antigo emblema do mundo e nenhuma outra figura pode gabar-se desta Antiguidade.

Como símbolo do Rito escocês Antigo e Aceito a Águia Bicéfala de Lagash tem suas asas abertas e coroada (encimada) pela coroa da Prússia. Suas garras estão pousadas em uma espada desembainhada que tem uma fita como ornamento serpenteando-a desde seu punho até a extremidade da lamina contendo a divisa: "Spes Mea in Deo Est" ("A Minha Esperança Está Em Deus").


Notas:
1. Lagash é uma das cidades mais antigas da Mesopotâmia. A cidade de Lagash situava-se na Suméria, no Sul da Babilônia, entre os Rios Eufrates e Tigre, perto da atual cidade de Shatra, no Iraque. Possuia um calendário de doze meses lunares, um sistema de pesos e de medidas, um sistema bancário e de contabilidade, sendo ainda um centro de arte e literatura, tudo isso cinco mil anos antes de Cristo. Envolveu-se numa guerra com outra cidade-estado vizinha, de nome Umma, por causa do controle da água, sendo este o primeiro conflito armado de que se tem notícia tendo como causa o chamado "precioso líquido".
2. Cidade que se localiza na parte superior da baixa Mesopotâmia, situada à margem esquerda do Eufrates, entre Sippar e Kish (no atual Iraque, a cerca de 50 km a sudoeste do centro de Bagdad). Geralmente, contudo, é comum referir-se à cidade como Ágade (ou Agade), e à região como Acádia. A cidade/região alcançou seu cume de poder entre os séculos XX e XVIII a.C., antes da ascensão da Babilônia, além de representar o núcleo do reino de Nimrod na terra de Sinar.
3. Os Hititas eram um povo indo-europeu que, no II milénio a.C., fundou um poderoso império na Anatólia central (atual Turquia), cuja queda data dos séculos XIII-XII a.C.. Em sua extensão máxima, o Império Hitita compreendia a Anatólia, o norte e o oeste da Mesopotâmia até a Palestina. Chamavam-se a si próprios Hatti, e a sua capital era Hattusa.


http://www.maconaria.net/portal/index.php/lagash.html


domingo, 10 de julho de 2016



Vitrúvio - o Microcosmo e o Gnómon

Extraído do site http://orvalhodohermon.blogspot.com.br/2013/04/vitruvio-o-microcosmo-e-o-gnomon.html

«O Número é a alma das coisas» (Pitágoras)


1 - O Templo


Até ao advento do cristianismo, a construção de templos aos deuses no mundo greco-romano obedecia a cânones arquitecturais precisos, que só vieram a ser expostos por escrito por Vitrúvio no século I a.C. na sua obra monumental “De Architectura”. Deste extenso tratado de Vitrúvio, expomos em seguida os quatro primeiros artigos do capítulo terceiro, que expõem sucintamente esses cânones para a construção de templos (1):

«A planta dos Templos depende da Simetria, cujas regras devem ser cuidadosamente observadas pelos Arquitectos. A Simetria nasce da proporção, que os gregos chamam ἀναλογία. A Proporção é a devida regulação das dimensões das diferentes partes, entre si e com o conjunto; da harmonia desta regulação depende a Simetria. Assim, de nenhum edifício se poderá dizer que foi bem desenhado, se não atendermos à sua simetria e proporções. Em verdade, elas são necessárias para a beleza do edifício, assim como para uma bem proporcionada figura humana» (Capítulo III, 1).

«O que a natureza estabeleceu é que, na cara, desde o queixo até o alto da testa, ou das raízes do cabelo, correspondem a uma décima parte da altura do corpo todo. Desde o queixo para a coroa da cabeça é uma oitava parte de toda a altura e, a partir da nuca do pescoço à coroa da cabeça, o mesmo. Desde a parte superior do peito às raízes do cabelo um sexto; à coroa da cabeça, um quarto. A terça parte da altura da face é igual à distância compreendida à que medeia entre o queixo e a parte inferior das narinas, outro terço até ao meio das sobrancelhas; e daqui às raízes do cabelo, onde termina a testa, o terceira parte restante. O comprimento do pé é uma sexta parte da altura do corpo. O antebraço, uma quarta parte. A largura do peito uma quarta parte. Da mesma forma os seus membros têm outras devidas proporções, em respeito às quais, os antigos Pintores e escultores granjearam tanta reputação» (Capítulo III, 2).

«Assim, as partes dos Templos devem corresponder entre si, e com o todo. O umbigo é, naturalmente, colocado no centro do corpo humano e, no caso de um homem deitado com o rosto para cima, e as mãos e os pés estendidos, e tendo o seu umbigo como centro, um círculo será descrito, que tocará os seus dedos das mãos e dos pés. Não é só por um círculo que o corpo humano é circunscrito, como pode ser visto se o figurarmos dentro de um quadrado. Medindo desde os pés à coroa da cabeça e, em seguida, à largura dos braços bem estendidos, constatamos que estas medidas são iguais às anteriores; de modo que duas linhas com ângulos rectos entre si, encerrando a figura, formarão um quadrado» (Capítulo III, 3).

«Se a Natureza constituiu o corpo humano de forma que os diferentes membros do mesmo são medidas do conjunto, assim, os antigos, com grande propriedade, determinaram o mesmo na perfeição das suas obras, cada parte deve ser uma parte alíquota do todo; e desde que o estabeleceram, tem vindo a ser observado em todas as suas obras, e de forma mais rigorosa, nos templos dos deuses, onde as suas falhas, tal como as suas belezas, permanecerão até ao fim dos tempos» (Capítulo III, 4).

O ideal greco-romano para a construção de templos cumpre assim um denso esoterismo: o homem é a medida de todas as coisas (Protágoras), e as suas proporções geométricas certificam que o Homem Individual (Microcosmo) presente na arquitectura sagrada é uma projecção do Homem Cósmico (Macrocosmo), divino e perfeito. O templo, tendo o Homem como modelo, enfatizava a sua função de ponte entre o indivíduo e as potências cósmicas.

A forma rectangular dos templos gregos e romanos, representava assim o corpo do homem e, por analogia, os céus. O rectângulo é uma extensão geometricamente proporcional do quadrado (2), e o quadrado ou quaternário, a expressão mais pura do espaço e do tempo: quatro regiões, Idades do homem, Eras do Mundo, estações do ano, fases da lua, etc.

O Homo Quadratus encarnado na arquitectura sagrada, é um símbolo pleno de significado. O seu centro assinala o ponto axial do mundo (o umbigo), uma cruz desenhada no interior do quadrado, e a divisão dos quatro quadrados resultantes em oito triângulos, resultam no seccionamento do quadrado em oito linhas que divergem do seu centro, e que apontam para os pontos cardeais e para os quatro cantos do mundo – divisão óctupla do espaço sagrado.

Assinalemos que o templo em forma de quadrilátero e a valorização religiosa das formas e volumes geométricos, não é uma criação dos gregos, mas que estes prolongam uma tradição milenar perpetuada nas margens do Nilo, onde podem ser encontradas as raízes do orfismo, e onde Pitágoras e Platão foram instruídos por sacerdotes egípcios.

Para a escola de Pitágoras, o quaternário era a origem da natureza divina e a raiz da tétractis (1+2+3+4), de cuja soma resultava o 10, a Década, o Número da Perfeição, e unindo com um traço a cabeça e os membros do Homem de Vitrúvio, obtém-se o Pentagrama, que era para a escola de Pitágoras, o símbolo do homem enquanto microcosmo, síntese do homem e do cosmos (número nupcial, matrimónio do número dois, masculino, e do número três, púbico e feminino). A geometria religiosa dos pitagóricos escalonava assim os números da tétractis: o um era a origem, a fonte da divindade e de todos os números; dois, o desdobramento do um, fonte da dualidade criadora; três, o universo vertical, céu, terra e inferno; quatro a justiça, a estabilidade; cinco o número nupcial; dez a perfeição absoluta. Ou, numa perspectiva espacial, um é o ponto (o ponto axial, do círculo ou do quadrado), dois, a linha, três a superfície, quatro, o volume (3). Todos estes números, mais o seis, o Número da Inteligência, repetem-se nas proporções acima transcritas da tratadística de Vitrúvio, e o seu Homem inscrito num quadrado (homo ad quadratum) interior a um círculo (homo ad circulum), não deixa de evocar a cosmologia pitagórica (4).

Continuemos com Vitrúvio:

«Os antigos consideravam o dez, um número perfeito, porque os dedos são dez em número, e o palmo deriva dele, e do palmo deriva o pé. Platão, atendendo a isso, chamou ao dez, um número perfeito; a Natureza formou as mãos com dez dedos, e também porque o dez é composto por unidades chamadas μονάδες em Grego» (III, 1).

2 – A Cidade Ideal


Para Vitrúvio, a planificação de uma cidade requeria tantos cuidados como a construção de um templo, e dedica grande parte da sua dissertação à disposição da cidade em função dos oito ventos.

«Com uma laje de mármore cria-se um nível fixo no espaço encerrado pelas muralhas, ou faz-se com que o terreno seja aplainado e nivelado de modo que a laje de mármore não seja necessária. No centro deste terreno plano, com o propósito de marcar correctamente a sombra, deve ser erigido um gnómon metálico. Os Gregos chamam a este gnómon cσκιαθήρας. Por volta da quinta hora da manhã, deve ser determinada a extremidade da sombra projectada pelo gnómon, e marcada com um ponto. Do ponto central do terreno, onde o gnómon está fixo ao solo, como um centro, descrever um círculo a partir do ponto assinalado pela extremidade da sombra. Depois do Sol ter passado o meridiano, observar a sombra que o gnómon continua a produzir até ao momento em que a sua extremidade toque novamente no círculo já traçado (5).

«A partir dos dois pontos obtidos na circunferência do círculo, descrever dois arcos interseccionantes entre si, e através da sua intersecção e do círculo inicialmente descrito, traçar uma linha até à sua extremidade – e obtém-se o diâmetro que deve separar os quartos do norte e do sul. A décima sexta parte da circunferência do círculo completo será medida para a direita e para a esquerda dos pontos norte e sul, e desenhadas linhas dos pontos obtidos para o centro do círculo, temos uma oitava parte da circunferência para a região norte e outra oitava parte para a região do sul. Divide-se o que resta da circunferência em cada lado em três partes iguais, e obtemos a divisão das regiões dos oito ventos, então projectar as direcções das ruas em função das linhas que separam as diferentes regiões dos ventos» (Capítulo I, 6, 7).

Vitrúvio descreve a planificação de uma cidade como era tradição no mundo antigo, mas acrescenta-lhe uma dimensão teórica, ideal, não cumprida até então: a cidade deveria não só ser orientada nas oito direcções (pontos cardeais e cantos do mundo), mas ter além disso, a forma de um octógono, a sua forma perfeita, com cada uma das faces voltada para um dos oito ventos dos geógrafos gregos e latinos: Setêntrio (norte), Áquilo, (nordeste), Solanus (Este), Eurus (sudeste), Auster (sul), Africus (sudoeste), Favonius (Oeste) e Corus (Noroeste).

O centro da cidade de Atenas, o seu umbigo, era uma torre com a forma octogonal, a torre dos Ventos de Andronicus Cirrestes, profusamente descrita por Vitrúvio, com faces no término dos oito raios do compasso, cada uma delas decorada com uma alegoria do vento que enfrentava (7).

Esta insistência de Vitrúvio nos oito ventos, dissimula um sentido esotérico subjacente.

Tudo começa com a “escolha” de um centro (o umbigo do microcosmo), muitas vezes, decerto, com rituais divinatórios para auscultar a vontade dos deuses ou perpetuando um lugar sagrado pré-existente. Nesse centro ergue-se o gnómon, que é a unidade sagrada, o ponto de irrupção de divino, eixo que unirá os três mundos na vertical.

A parir do gnómon traça-se o círculo, que delimita a fronteira do espaço cósmico, e desse círculo solar se obterá, com dois círculos interseccionantes, os quatro ângulos do quadrado interno que pode ser esquartelado pela cruz que aponta os pontos cardeais. Círculo, quadrado, cruz, que produzem o octógono, expressão da união da terra (o Quadrado) e do Céu (o círculo). Á divisão óctupla do espaço podemos acrescentar a divisão em oito do dia e do ano que eram praticados na Europa e Mediterrâneo e que persistiu na roda celta das oito festividades anuais. Para os pitagóricos, o oito seria considerado o Número da Igualdade, porque colocava no mesmo plano o mundo terrestre e o mundo celeste, os deuses e os homens (8).

Encontrei um texto de Réne Guenon, no qual ele reforça a ideia de que na arquitectura religiosa, ao quadrado corresponderia o edifício quadrangular em si, enquanto a esfera presidia a construção da abóbada do templo. Ainda que seja um anacronismo falar de abóbadas para o mundo grego, a sua explanação sobre o esoterismo do octógono merece ser seguida:

«As formas quadradas ou cúbicas referem-se à terra, e as formas circulares ou esféricas ao céu; o significado destas duas partes resulta imediatamente disto, e acrescentemos que a terra e o céu não designam aí, apenas, os dois pólos entre os quais se produz toda a manifestação, como ocorre particularmente com a Grande Tríade extremo-oriental, mas que correspondem igualmente, como no Tribhúvana hindú, aos aspectos dessa mesma manifestação que estão mais próximos, respectivamente, dos ditos pólos e que, por essa razão, se designam por mundo terrestre e mundo celeste. Há um ponto sobre o qual tivemos oportunidade de insistir anteriormente, mas que merece ser tomado em consideração: enquanto o edifício representa a realização de um "modelo cósmico", o conjunto da sua estrutura, se a reduzirmos exclusivamente a essas duas partes, seria incompleto no sentido de que, na sobreposição dos "três mundos", faltaria um elemento correspondente ao "mundo intermédio". De facto, esse elemento existe também, pois o domo ou abóbada não pode assentar directamente sobre a base quadrada, e para permitir a passagem de uma forma à outra é necessária uma forma de transição que seja, de certo modo, intermédia entre o quadrado e o círculo, forma que é, geralmente, a do octógono.

«(...) Na construção, a forma do octógono pode realizar-se, naturalmente, de maneiras diferentes, e especialmente, por meio de oito pilares que suportam a abóbada; encontramos um exemplo na China, no caso do Ming-Tang (...), cujo "tecto redondo está suportado por oito colunas que repousam sobre uma base quadrada, com a terra, pois, para realizar esta quadratura do círculo, que vai da unidade celeste da abóbada ao quadrado dos elementos terrestres, é necessário passar pelo octógono, que se encontra em relação com o mundo intermédio das oito direcções, da oito portas e dos oito ventos" (Luc Bennoist, "Art du Monde", p. 90). O simbolismo das "oito portas", que se menciona também nesta passagem, explica-se pelo facto de que a porta é essencialmente um lugar de passagem e representa, como tal, a transição de um estado a outro, especialmente, de um estado "exterior" a outro "interior", pelo menos relativamente, porque essa relação do "exterior" e do "interior" é sempre comparável, em qualquer nível que se situe, à do mundo terrestre e o mundo celeste».

Notas

(1) Servimo-nos da edição online da obra, em língua inglesa, do portal LacusCurtius de autores gregos e romanos
(2) ”O sistema da proporção definida que os gregos empregavam no desenho dos seus templos foi outra causa do efeito que eles produzem sobre as mentes incultas. Para eles não só a altura deveria ser igual à largura, ou comprimento duas vezes a largura - mas toda e qualquer parte devia ser proporcional a todas as partes com que ela se relacionava, em alguma razão tal como 1 para 6, 2 para 7, 3 para 8, 4 para 9, ou 5 para 10, etc. A medida que o esquema avança, esses números tornam-se consideravelmente altos. Nesse caso, eles revertem para alguma razão simples, tal como 4 para 5, 5 para 6, 6 para 7, e assim por diante” (James Ferguson, citado por Nigel Pennick, v. Fontes).
(3) Adaptado da tese “Números para Pitágoras” de Christian Quintana Pinedo.
(4) «Alexandre, no seu “A Herança dos Filósofos” diz ter achado também nos escritos pitagóricos as coisas seguintes: O princípio de todas as coisas é a unidade, e desta procede a dualidade, que é indefinida e depende, como matéria, da unidade que a origina. Assim, a numeração provém da unidade e da dualidade indefinida. Dos números provém os pontos, destes as linhas; das linhas, as figuras planas; e das figuras planas, os sólidos; e destes os corpos sólidos, os quais se compõem de quatro elementos, fogo, água, terra e ar, estes quatro elementos combinam-se entre si e transformam-se completamente uns nos outros, e delas se engendra o universo animado, inteligente, esférico, que tem a terra como seu centro, e a terra também é esférica e habitada no seu interior. Também há antípodas, e o nosso abaixo é o seu acima» (Diógenes Laércio, “Vidas, opiniones y sentencias de los filósofos más ilustres ”, tomo II, Livro VIII – o negrito é meu)
(5) Dito doutro modo, a distância máxima da sombra do gnómon de manhã e à tarde, fornece os pontos cardeais leste e oeste.
(6) «Por isso, Deus tornou o Todo em forma esférica e circular, sendo todas as distâncias iguais, do centro à extremidade. É esta, de todas as figuras, a mais perfeita e a mais completamente semelhante a si mesma» (Platão, "Timeu", 33).
(7) Não nos parece que a torre seja uma mera Rosa dos Ventos, mas um centro, um eixo, construído e respeitado como símbolo do equilíbrio cósmico.
(8) «O octógono resulta da união entre o quadrado da terra e do quadrado do céu, simbolizando a comunicação entre ambos», escreve Paulo Alexandre Loução no quinto capítulo de "Os Templários na Formação de Portugal" (Ésquilo, 2001), capítulo que abre com uma citação de Pitágoras: «O número oito, ou a octóada, é o primeiro cubo, vale dizer, quadrado em todos os sentidos, como um dado, que precede de sua base, o dois, ou de qualquer número; assim, o homem é quadrado ou perfeito".


sábado, 9 de julho de 2016



A Origem dos Vigilantes 


"A ampla simbologia maçônica, que evoluiu para interpretações morais e místicas no seu avanço especulativo ou moderno, nasceu na sua maioria dos costumes e da organização das corporações de construtores, basicamente fundamentada em suas funções e trabalho. Nos rituais, podemos entender muito destas razões".

Entre as corporações de ofício da Idade Média, hoje englobadas, sob o rótulo de 

Maçonaria de Ofício ou Operativa, destacava-se a dos Canteiros, ou esquadrejadores de pedras, ou seja, os obreiros que tornavam cúbica a pedra bruta, dando-lhe cantos, para que ela pudesse se encaixar nas construções. (Canteiro é o operário que trabalha em Cantaria, palavra derivada de canto, já que a função é fazer os cantos, ou ângulos retos na pedra). 

Os canteiros costumavam delimitar os seus locais de trabalho (que, por extensão, acabaram sendo chamados de canteiros de obras, denominação encontrada até hoje), cercando-os com estacas fincadas no chão e nas quais eram introduzidos aros de ferro, que se ligavam a outros elos, formando uma corrente. A abertura dessa cerca estava na parte ocidental do recinto de obras. Transpondo-se essa cerca, encontrava-se, bem na entrada, na parte frontal, ou lateral, um barracão, que funcionava como uma espécie de almoxarifado, onde eram guardados os planos da obra, o material de trabalho e os instrumentos necessários. 

Como responsável por todo esse material, havia um operário graduado, que era o Warden, ou seja, Zelador ou Vigilante. Este obreiro, além de tomar conta de todo o material, pagava o salário aos operários, despedindo-os então, no fim da jornada diária de trabalho. Posteriormente, para maior agilização dos trabalhos foi criado o encargo de mais um zelador, ou vigilante, postado geralmente ao sul, ou ao meio-dia. O hábito de chamar o sul de meio-dia é originário da França, onde o sul é chamado de midi. 

Assim, esse hábito dos trabalhadores medievais, principalmente dos canteiros, além de ser a origem da Cadeia de União e até da Corda de Oitenta e um Nós, deu, também, origem aos cargos de Vigilantes de uma Oficina maçônica, os quais, além de outras funções, devem, simbolicamente, ao fim do dia de trabalho, pagar aos obreiros o salário da jornada diária, despedindo-os, então, contentes e satisfeitos, por terem recebido sua paga.


Extraído de http://docslide.com.br/documents/fraternidade-maconica.html

sexta-feira, 8 de julho de 2016




AS ORIGENS DA CABALA 

Autor: João Anatalino

Graficamente, a palavra Cabala deriva da raiz hebraica Qibel, que significa “receber”. Assim, ela originou o termo hebraico Qabalah (Kabbalah), aportuguesado para Cabala, que por definição se refere ao recebimento da doutrina “não escrita” que supostamente estaria escondida em nomes e termos bíblicos, alguns deles intraduzíveis para as linguagens desenvolvidas pelos povos do ocidente, pois remetem a conceitos esotéricos só conhecidos pelo povo de Israel. Dessa forma, entende-se a Cabala como sendo uma tradição oral transmitida de geração a geração por alguns iniciados na mística da religião judaica e que pretende conter as verdades enunciadas por Deus aos profetas de Israel, verdades essas que não são reveladas na Torá escrita. E nas partes em que essas verdades são recepcionadas nos cinco livros atribuídos á Moisés, elas aparecem cifradas em títulos, nomes e outros termos, cuja transposição para letras e valores numéricos confere á essas verdades diferentes significados, só conhecidos pelos iniciados.(1) 

Resumindo, podemos dizer que a Cabala é uma tradição que acompanha a saga do povo de Israel desde a sua mais remota origem. Provavelmente, como bem assinala Dion Fortune em seu excelente estudo, suas raízes venham de antigas crenças do povo caldeu, de onde Abraão e seus descendentes a receberam, e por transmissão oral ela foi passando de geração em geração, como forma de tradição, e esta, por fim, acabou desembocando na corrente rabínica dos mestres da religião de Israel, que a desenvolveram em um sistema filosófico-místico nos primeiros séculos da nossa era.(2)

A tradição costuma atribuir a codificação da Cabala a um rabino chamado Simeon Ben Yohai, que viveu no século II da era cristã, no governo do Imperador Adriano. Segundo essa tradição o imperador romano o teria condenado á morte, razão pela qual Ben Yohai viveu boa parte da sua vida escondido em uma caverna. Teria sido esse rabino, muito famoso na história da religião judaica, que reuniu os ensinamentos dos antigos mestres e repassou-os oralmente ao seu filho, Rabi Ben Eleasar e a outros discípulos seus, na forma de discursos, feitos em uma linguagem simbólica e mística. Estes, por sua vez, reuniram esses ensinamentos em um livro denominado Sefer Há-Zhoar (o Livro do Esplendor), que se tornou a Bíblia cabalística por excelência. Esse livro é composto de vários comentários rabínicos, reunidos em diversos blocos, denominados “Siphras” entre os quais os mais importantes são o Siphra Ditzeniovtha, (Livro do Mistério Oculto), o Há Idra Rabba Kadisha (A Grande Assembleia Sagrada) e Há Idra Zuta Kadisha (A Assembleia Sagrada Menor).´

Há vários outros livros e tratados que se referem á essa tradição, como o Sepher Yetzirah e seus comentários, que contém a cosmogonia cabalística, o Sepher Sefiroth com suas referências, que esclarecem a teoria das séfiras, e o Asch Metzareph, que é um tratado que relaciona Cabala e alquimia, passível de ser entendido somente por quem domina o arsenal de simbolismo dessas grandes tradições. Porém, o mais importante dos tratados cabalísticos é mesmo o Sepher Há - Zohar³, não esquecendo também os livros escritos pelo grande mestre Isaac Luria, especialmente o “Livro das Revoluções das Almas” no qual esse famoso rabino desenvolve a tese da transmigração das almas e as obras de Maimônides, em especial o seu “Guia dos Perplexos”.(4)

Historicamente, porém, como bem demonstra Alexandrian em seu tratado sobre a filosofia oculta, o Sepher Há - Zhoar só aparece no Ocidente em fins do século XIII, revelado por um rabino judeu espanhol, chamado Moisés ben Schemtob (1250- 1305) mais conhecido como Moisés de León , que ensinou os princípios da Cabala nos reinos de Leão e Castela.(6) A partir de investigações conduzidas ainda na Idade Média, relatadas pelo autor acima citado, muitos estudiosos chegaram á conclusão que o Zhoar, na verdade, seria um trabalho compilado no século XIII, e dele teriam participado vários autores, a maioria oriundos da região do Languedoc, liderados por Moisés de Leon. (6) Nessa região, também conhecida como Provença, uma próspera colônia judaica florescera nos territórios dominados pelos príncipes simpáticos á doutrina cátara.(7) Todavia, ainda que se aceite esse pressuposto, não se pode negar que essa tradição já estava bem desenvolvida na Europa na época medieval, sendo de larga aplicação junto á comunidade judaica e também entre os cristãos gnósticos, anteriormente ao advento do catarismo. A prova disso é a existência de várias escolas de ensinamento cabalístico pelo continente europeu muito antes de a região do Languedoc ter se tornado a capital do misticismo na Europa e a heresia cátara a principal preocupação da Igreja de Roma. Exemplos dessas escolas foi a de Isaac, o Cego, que ensinou a Cabala entre 1160 e 1180 na Provença e seu aluno Ezra ben Salmon, que lecionou, na mesma época, essa disciplina na Espanha. Na Itália destacaram-se os famosos sábios cabalistas Abraham Abulafia (1240-1291) e na Alemanha Yehuda Ben Samuel, o Piedoso, e Eliazar, rabino de Worms (1176-1238), os mais famosos cabalistas medievais. (8)

Como já foi referido, ao longo do tempo os praticantes desse sistema desenvolveram dois tipos de aplicação para a tradição cabalística. Um deles, relacionado com as coisas divinas, foi chamado de Cabala sagrada, também dita Cabala prática ou operativa. Essa vertente trata dos elementos de magia relacionados com talismãs, rituais e cerimônias mágicas, invocativas de forças sobrenaturais. Essa tradição parece ter vindo de antigas fontes sumérias, nas quais os descendentes de Abraão se abeberaram. São fartas, no Antigo Testamento, as referências aos urins e tumins, espécie de amuletos mágicos que os patriarcas e sacerdotes hebraicos usavam para tentar adivinhar a vontade de Deus.(9)
Um dos magos dessa arte teria sido o próprio Moisés, cujas demonstrações frente aos sacerdotes egípcios e depois, quando invocou sobre o Egito as pragas e catástrofes que obrigou o faraó a libertar o povo de Israel, constitui um dos relatos mais impressionantes da Bíblia. 

É nesse sentido que Fílon de Alexandria (20 a. C - 50 e. C), historiador e filosofo judeu, que também cultivou a Cabala, e Maimônides (Rabi Mussa bin Maimun ibn Abdallah, 1135-1204) um dos mais famosos cabalistas medievais, entendiam ser a Cabala a verdadeira mensagem divina contida na simbologia da linguagem e na mensagem das formas geométricas. Fílon foi o filósofo que procurou interpretar as inspirações proféticas judaicas no contexto da filosofia grega, especialmente as ideias de Platão. Ele foi o precursor da escola de pensamento que se tornou conhecida mais tarde como neoplatonismo, a corrente filosófica que deu origem ao gnosticismo. Para esse sábio judeu o significado dos preceitos veiculados na Lei (a Sitrê Toráh) só podiam ser interpretados pelos iniciados no simbolismo iniciático da religião judaica, pois eles continham verdades metafísicas sobre a origem, o desenvolvimento e o destino do universo, que se revelados ao vulgo, causariam uma grande tragédia. Por isso Deus as colocara em símbolos, visões e metáforas que somente uns poucos eleitos conseguiam entender.Isso porque a Torá era o instrumento de Criação do mundo, pois ela própria era o Inefável Nome de Deus. Ela era , no jargão cabalístico, “ a séfira Hochmah (Sabedoria).(10)

Filon é o precursor da filosofia que vê o mundo sendo criado pela palavra Divina. Deus é o Logos, o Verbo, a Palavra que se transforma em obras. O Logos é a ferramenta com a qual Deus constrói o mundo. Os anjos são logói,ou seja, palavras saídas da boca de Deus, as primeiras coisas criadas, que combinadas em seus sons e valores tornam-se instrumentos de criação. O Verbo é, pois, a verdadeira ferramenta da Criação e através dele Deus fez todas as coisas. Por isso, Deus, ao apresentar-se a Moisés no Monte Horeb, não declinou o seu Nome, limitando-se a dizer: Eu Sou.

Destarte, na filosofia de Fílon, toda a verdade sobre o mundo e o homem estava contida na Torá na forma de símbolos e alegorias que precisavam ser adequadamente descodificadas para serem corretamente entendidas. Assim, criador e criatura tornavam-se uma coisa só, unida por um vínculo de causa e efeito onde o destino escatológico do mundo se consumava na própria necessidade de Ser. Por isso Deus era o Verbo. Deus era Eu Sou. O finito era o infinito tornado real, e entender o homem era penetrar na mente de Deus.

As ideias de Fílon, como se pode notar, apresentavam um caráter bastante místico que não agradou aos judeus tradicionalistas. Mas alcançou grande repercussão entre os praticantes da nascente doutrina que iria dominar o pensamento ocidental nos séculos seguintes. Essa doutrina era o Cristianismo. Foi sobre as especulações de Filon acerca do Logos e a cosmogonia que delas se derivou, que os pensadores cristãos, classificados como gnósticos, arquitetaram a maioria das suas concepções. Por isso boa parte da doutrina gnóstica apresenta um arsenal de simbolismo que só pode ser entendido por quem domina a linguagem própria dos iniciados na Cabala.(11)

Maimônides, nascido em 1135 na cidade espanhola de Córdoba, foi um dos mais importantes cabalistas da Idade Média. Foi ele o filósofo que transformou a Cabala numa verdadeira doutrina filosófica, colocando uma ordem lógica numa tradição que havia se abastardado com a influência das diversas doutrinas que invadiram o pensamento ocidental após o advento do Cristianismo. Essas doutrinas vinham principalmente do pensamento cristão gnóstico, impregnado pelos ensinamentos de Aristóteles e pelas concepções do Islamismo, que ganhara muita influência com as conquistas muçulmanas na Europa.

Maimônides era médico e filósofo. Como médico fez importantes contribuições á medicina, especialmente com seus comentários ao compêndio chamado Halachá. Esse compêndio, que contém as principais prescrições dos sábios israelenses sobre questões de saúde, foi grandemente enriquecido pelos comentários desse sábio cabalista. Em sua famosa oração do médico, ele mostra ter plena convicção do poder espiritual na medicina e que esta exercia influência fundamental sobre o corpo, porque alma e o corpo são indivisíveis, sendo que a cura de um depende da plena saúde do outro.
Deus era, para Maimônides, o Médico Celestial, e o médico terrestre não tinha muita força sem a presença Dele ao seu lado. Corpo e alma andavam de mãos dadas e sem força espiritual para curar as doenças a cura não aconteceria. É o que qualquer bom médico moderno reconhece: quando o paciente não ajuda, não há remédio que funcione. A atitude do doente em relação á cura é mais importante que os medicamentos. Um dos seus principais pressupostos dizia: "Para os mal-humorados, sua vidas não é vida" Ou seja, a alegria é a fórmula para a conservação da saúde.

Mas foi principalmente o seu trabalho como comentador da Torá que o tornou famoso entre os intelectuais. Os comentários de Maimônides sobre os dois Talmudes, o de Jerusalém e o da Babilônia, são considerados, até hoje, verdadeiros clássicos da literatura rabínica. Esse conjunto de comentários compõe a chamada Mishnê Torá.(12)

Outra de suas obras clássicas é o chamado Guia dos Perplexos, conjunto de 14 livros que contêm 982 capítulos e comentários sobre milhares de leis judaicas, escrito numa linguagem acessível, expurgando a tradição judaica das influências míticas e místicas que lhe foram dadas por Fílon e os neoplatônicos.

Maimônides pode ser considerado o verdadeiro codificador da tradição religiosa dos judeus e o fundador da Cabala filosófica, pois sem o seu trabalho a Cabala teria continuado a ser uma doutrina muito confusa, perdida entre as concepções judaicas e gregas do mundo, coisa que abalava os judeus em sua fé e não ajudava em nada aos cristãos que buscavam uma alternativa filosófica entre o atavismo dogmático de Roma e as concepções um tanto delirantes dos gnósticos.

Maimônides simplificou bastante o problema da linguagem que tornava ao estudioso comum o estudo da tradição oral da religião judaica. O seu Guia dos Perplexos, escrito justamente com essa finalidade (desmistificar principalmente as concepções cabalistas dessa tradição) é dividido em três partes. A primeira é dedicada á discussões dos equívocos que podem surgir diretamente do texto da Torá, que em sua opinião, apresentavam apenas contradições aparentes, geradas por comentadores influenciados por doutrinas estrangeiras. A segunda ataca problemas que brotam das incompatibilidades entre as chamadas abordagens "científicas" (inspiradas na filosofia de Aristóteles) e a visão bíblica de Deus e do mundo. A terceira discute temas filosóficos e teológicos, como a natureza do bem e do mal, o propósito do mundo, o significado ético e sociológico que está por trás dos mandamentos do Decálogo e o caráter moral e filosófico da pura devoção.

Malgrado o seu esforço para expurgar a tradição oral judaica dos aportes que lhe deram Filon e os neoplatônicos, os quais subsistem ainda hoje na Cabala, Maimônides não escapou da influência que o Sepher-há-Zhoar, o texto básico do misticismo judaico, tem sobre toda a tradição oral da religião de Israel.

Apesar disso, mais do que um grande intelectual, notável comentador do Talmude, Maimônides é considerado um grande cabalista. O seu Guia dos Perplexos foi responsável pela abertura de uma nova era de investigação filosófica sobre a Bíblia e seu conteúdo, não só em termos religiosos, mas também morais e sociológicos. Sua extensa obra vem abrindo campo para novas pesquisas e servindo, tanto como base fundamental para o estudo das obras antigas, quanto como um catalisador para as teses cabalísticas subsequentes.(13)


  
                                                                                                       

                                                                    Maimônides                                                                            

                                                      
                                                                     Isaac Luria

                                                 
 Da Cabala filosófica, pode-se dizer que esse tipo de doutrina, embora profundamente impregnada de ensinamentos esotéricos, tinha, não obstante, um objetivo bem prático. Sua função era revelar aos seus iniciados os grandes segredos da natureza, mediante os quais se poderia conseguir poder sobre ela. Nesse sentido ela se equiparava á alquimia, e em muitos casos, as duas tradições conviveram estreitamente, compartilhando os mesmos símbolos. Esse ramo mágico da Cabala acabou inspirando vários pensadores místicos cristãos, que viam nela uma forma de conhecimento da natureza. Foram esses filósofos cabalistas os mestres que precederam os pensadores rosacrucianos no desenvolvimento da filosofia oculta e no apostolado do livre pensamento, numa época em que discordar, ou pensar diferente dos doutores da Igreja significava a prisão, a tortura nas masmorras e a morte nas fogueiras. Entre estes pensadores podemos listar os filósofos Pico dela Mirandola (1463-1494), Marsilio Ficino (1433-1499), Johann Reuchlin (1455- 1522), Cornélius Agrippa (1486- 1535), Giordano Bruno (1548-1600), Guilherme Postel (1510-1581), Schelling (1775- 1854)e conhecidos ocultistas como Blaise de Vignére, Fabbre d’Olivet, Eliphas Lévi e Estanilau de Guiata, famosos mestres da filosofia oculta e consagrados alquimistas. (14)

Esse tipo de Cabala acabou inspirando também uma filosofia moral, destinada a aperfeiçoar o caráter humano e tornar mais feliz a vida do homem na terra. Dois dos nomes mais importantes desse ramo foram o já citado rabino Isaac Luria (1534-1572) que introduziu nessa doutrina o tema da transmigração das almas (Guilgou Neshamot) e Moisés Cordovero. (15)

Com a interpolação desse tema, mais os conceitos desenvolvidos acerca do processo cármico e a teoria da reencarnação, elementos fundamentais para o entendimento da doutrina cabalística, essa tradição acabou derivando, em sua parte filosófica, uma vigorosa disciplina de autoajuda, erigindo, ao mesmo tempo em que pugnava por uma liberdade de pensamento estranha aos costumes da época, um edifício cosmológico e ético que viria contribuir em muito para a construção das correntes de pensamento que influenciaram a Reforma religiosa e o sistema filosófico que se seguiu, o Iluminismo. Isso porque a Cabala recuperava a espiritualidade da experiência bíblica, conspurcada, de certo modo, pelas ideias gnósticas, cuja contaminação pelas doutrinas gregas era visível. Através dos mitos e dos símbolos, uma nova gnose estava sendo desenvolvida pelos intelectuais que trilhavam o caminho da Reforma. Grandes escritores, artistas e filósofos, como Dante, Milton, Francis Bacon, o pintor Rembrandt, Spinoza, Leibnitz, Hegel, Schelling, e principalmente Victor Hugo, Goethe, o poeta William Blake e outros, devem á Cabala algumas das suas mais profundas inspirações. Alguns dos movimentos filosóficos e literários mais importantes da história do pensamento ocidental também sofreram grande influência das doutrinas cabalistas. Citam-se, apenas á guisa de exemplo os movimentos conhecidos como idealismo, que congregou vários intelectuais de renome, principalmente na Alemanha e países da Europa central, entre os quais Hegel e o grande Franz Kafka, tido por muitos críticos literários um verdadeiro autor cabalista.(16)

Esse ramo da Cabala é hoje o mais difundido entre os povos de cultura cristã, pois encampa um vasto domínio nas doutrinas de conteúdo moral, sendo utilizado inclusive por profissionais da psicologia e da psicanálise para subsidiar estudos sobre o conteúdo mais profundo da mente humana. O exemplo mais conhecido da aplicação dessa doutrina na psicologia se encontra nos trabalhos do grande psicanalista e pesquisador Carl Gustav Jung.

Jung faz muitas referências à Cabala em seus escritos, especialmente quanto ás relações que ele encontrou entre os sonhos de seus clientes e os símbolos cabalísticos. Em muitas de suas obras ele fala da necessidade de se estudar essa tradição do ponto de vista científico, pois os símbolos e as visões presentes nessa doutrina estão intimamente conectados com o conteúdo psíquico que se hospeda no chamado inconsciente coletivo da humanidade.(17).

É nesse sentido que a Cabala desperta, ainda hoje, um grande interesse entre as pessoas que se preocupam em aperfeiçoar o seu caráter e desenvolver maiores padrões de espiritualidade.


1. As citações bíblicas aqui registradas foram extraídas da Bíblia Hebraica, traduzida por David Gorodovitz e Jairo Fridlin, publicada pela Editora e Livraria Séfer Ltda, São Paulo, 2015.
2. Dion Fortune- A Cabala Mística; Ed. Pensamento, São Paulo, 1957.
3. Zhoar significa Luz. É o Livro do Esplendor (brilho, luz), que propaga “o brilho da Torá”, a Luz de Deus.
4. Na verdade há milhares de obras cabalistas, umas mais importantes que outras, porque introduzem correntes doutrinárias diversas, que compõem a monumental literatura da Cabala. Citamos aqui apenas as mais importantes do ponto de vista histórico e doutrinário, porque elas constituem verdadeiros marcos no estabelecimento dessa doutrina.
5. Sarane Alexandrian, História da Filosofia Oculta, Esfinge, Lisboa, 1970.
6.Scholen também concorda com essa opinião. Segundo David Biale, (A Cabala e Contra História, Ed. Objetiva, São Paulo, 1982) a maior parte do Zhoar foi escrita por Moisés de Leon.
7. O Languedoc foi assim chamado por causa da língua falada nessa região. Era a língua occitana,também conhecida como occitânica, langue d'oc, ou provençal (em francês, langue d'oc; em occitano,lenga d'òc). Língua derivada do latim, era falada no sul da França, ao sul do rio Loire, em territórios italianos nos Alpes e algumas partes da Espanha e Portugal. A língua portuguesa arcaica sofreu muita influência do provençal. O Languedoc foi a terra dos cátaros, famosa seita gnóstica da Idade Média, cujo extermínio pela Igreja de Roma é considerado um dos maiores genocídios da História.
8. Alexandrian, História da Filosofia Oculta, citado.
9. Algumas referências bíblicas a esses amuletos podem ser encontradas em Êxodo 28:30, Levítico 8:8,Números 27:21 Deuteronômio 33:8 1 Samuel 28:6 Esdras 2:63 Neemias 7:65. Segundo os estudiosos, esses oráculos deixaram de ser usados depois da destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, mas Flávio Josefo (As Guerras dos Judeus, Vol II) diz que eles foram usados até o tempo de João Hircano (século II a,C.).
10.Que na doutrina gnóstica era conhecida pelo nome de Sofia.
11. O próprio evangelista João, tido por muitos estudiosos como gnóstico, usou a expressão Logos para referir-se a Jesus. “No princípio era o Logos (Verbo), o Logos estava com Deus e o Logos era Deus.”- João 1:1,2
12. O Talmude é o livro que contém os comentários dos rabinos sobre a interpretação da Torá e seus mandamentos (os mitsvot). São comentários que desdobram a Bíblia em conhecimentos sobre medicina, anatomia, astronomia, filosofia e outras ciências. Vem desse ecletismo o fato de a Cabala abranger assuntos tão amplos como a física, a biologia, a astronomia e outras ciências modernas.
13. Na imagem, os grandes mestres cabalistas Maimôides e Isaac Luria. Fonte: Portal da Cabala.
14. História da Filosofia Oculta, op. citado. 
15. Vide o capítulo XX deste estudo que se refere ao conceito de Guilgou Neshamot (a transmigração de almas). Moisés Cordovero (1522- 1570) foi o principal intérprete e organizador da Cabala no início da chamada Idade Moderna. Ele deu á Cabala uma estrutura de doutrina filosófica.
16. Ver nesse sentido, as obras da historiadora inglesa Frances Yates, que mostra, com muita propriedade, a influência desse tipo de pensamento sobre os filósofos da Renascença, especialmente o grande Giordano Bruno. Seus dois estudos, Giordano Bruno e a Tradição Hermética e O Iluminismo Rosacruz, são obras fundamentais para o entendimento do pensamento que inspirou a Reforma religiosa e as correntes filosóficas que a seguiram, como o Iluminismo e própria Maçonaria. Ambas foram editadas no Brasil pela Editora Cultrix. Sobre a influência do sabataísmo (corrente cabalista liderada por Sabatai Tzvi) no movimento idealista alemão e sobre o Iluminismo ver a obra já citada de David Biale, Cabala e Contra História.
17. Idem para as obras de Jung e Kafka, pags. 76, 77. Ver também Harold Bloom- Abaixo as verdadesSagradas, 2012.
João Anatalino

quinta-feira, 7 de julho de 2016




Autor João Anatalino

O salmo133


A primeira referência que um maçom encontra ao participar de uma seção em Loja Simbólica é o salmo 133.[1] Esse salmo, que é chamado “cântico de romagem de Davi” supostamente teria sido composto pelo famoso rei de Israel, quando se encontrava sitiado por tropas inimigas e precisava dar aos seus comandados uma âncora que os mantivesse unidos e lhes proporcionasse a confiança necessária para lutar pela sua pátria e a sua crença. 

O fato de os maçons terem adotado essa oração para ancorar a abertura de seus trabalhos em Loja de Aprendizes se explica pelo fato de a Maçonaria estar centrada em três fundamentos básicos que lhe dão suporte e fundamento. O primeiro é a idéia que está no núcleo central da sua própria existência como instituto cultural. Essa ideia é a de que uma ordem social perfeita só pode alcançada quando há pessoas com espíritos adequadamente preparados para implantá-la e, principalmente, para defendê-la e preservá-la. 

Essa ideia só pode ser realizada através da união entre as pessoas mais preparadas e comprometidas com a ordem social. É uma união que se faz “interpares” e que se realiza através da estratégia da Confraria. É nesse sentido que a invocação ao Salmo 133 realiza esse propósito: “Como é bom e agradável viverem Irmãos em harmonia. É como o óleo precioso, que unge a cabeça de Aarão, do qual escorrem gotas para sua barba, e daí para suas vestes. É como o orvalho do Hermon, que vem cair sobre as montanhas do Tsión, como bênçãos ordenadas pelo Eterno. Sejam elas perpetuadas em sua vida”.[2]

Isso quer dizer que todos os maçons são iguais e entre eles deve reinar a harmonia. Por isso, a virtude da Confraria, que se traduz na congregação dos Irmãos reunidos em Loja se realiza no simbolismo desse salmo, que consagra a união fraternal.
Na luta por um ideal, no respeito por uma crença, na confiança da realização de um objetivo.

A cadeia da União

O segundo fundamento é a prática que resulta da aplicação da Cadeia da União. Essa prática concita os membros da Confraria maçônica a se unir para servir a sociedade, como se esta fosse a sua própria família. Aqui está implícita a virtude da Fraternidade, que é outra divisa consagrada pela Ordem. É esse espírito fraterno, simbolizado no próprio ambiente gerado pela Loja que resulta em uma egrégora, captando e distribuindo entre os Irmãos a energia que ali circula. Daí a oração final, de encerramento das seções, fechando a Loja Simbólica.[3]

─ Ó Gra .·. Arq .·. do Univ.·., fonte fecunda de Luz, de Felicidade e Virtude, os OObr.·. da Arte Real, congregados neste Augusto Templo, cedendo aos movimentos de seus corações, Te rendem mil graças e reconhecem que a Ti é devido todo bem que fizeram. 
─ Continua a nos prodigalizar os Teus benefícios e a aumentar a nossa força, enriquecendo as nossas CCl .·. com OObr.·. úteis e dedicados.

─ Concede-nos o auxílio das Tuas Luzes e dirige os nossos trabalhos á perfeição. Concede que a Paz, a Harmonia e a Concórdia sejam a tríplice argamassa com que se ligam as nossas obras.[4]

E por fim a instituição, que é a própria organização conhecida como Maçonaria, pessoa jurídica organizada a nível internacional, que congrega milhões de cidadãos em todas as partes do mundo, irmanados por uma promessa, um código de conduta, uma tradição mística e um ideal comum, que é a defesa da Liberdade, da Igualdade entre as pessoas e a Fraternidade entre os povos do mundo. Essa proposta está consagrada nas palavras finais de encerramento dos trabalhos da Loja Simbólica do Aprendiz, através da pergunta feita pelo Venerável Mestre ao Primeiro Vigilante e da consequente resposta deste:

─ VEN.·. Para que nos reunimos aqui?

─ 1º VIG .·. Para combater o despotismo, a ignorância, os preconceitos e os erros. Para glorificar a Verdade e a Justiça. Para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando templos á virtude e cavando masmorras ao vício.[5]

Essa tradição está fundamentada na Bíblia. Em Êxodo, 28, 1:2, encontramos a informação de que Moisés consagrou o Tabernáculo na forma como o Grande Arquiteto do Universo lhe havia ordenado, santificando depois a Aarão e seus filhos como primeiros Sumos Sacerdotes de Israel. Depois espargiu sobre a cabeça de Aarão o óleo precioso, que escorreu para suas vestes, descendo ate ás orlas do seu vestido. Assim, na sagração do Tabernáculo e na unção do seu sacerdote, consumou-se a União que doravante deveria existir entre Jeová e seu povo, União essa que seria sacramentada toda vez que o povo eleito se reunisse em Assembleia. Nesse cerimonial, presidido por Moisés no deserto, aconteceu, pois, a instituição da Loja israelita, com todo o sentido simbólico que ela representa. Os maçons, no simbolismo do seu ritual, nada mais fazem do que evocar a mística dessa cerimônia para consagrar a reunião da sua própria Loja.


A força da egregóra

Essa é a disposição que também encontramos no estudo e na prática da Cabala. Como diz M. MacGregor Mathers, no preâmbulo da Kabbalah Revelada, de Von Rosenroth: “Grande importância é dada ao ideal de fraternidade. A potência da fraternidade sempre foi um fato essencial em uma ordem oculta, separada do seu ideal altruísta; há também o espiritual e o físico. Qualquer quebra na harmonia de um círculo permitirá a entrada de uma força oposta. Um espiritualista experiente testemunhará a favor da verdade desta afirmação.” [6]

Quer dizer: tanto na Cabala, quanto na Maçonaria, é a força da egregóra que leva o grupo á consecução do seu objetivo. O processo assim o exige, pois como já anteriormente declarado, a lei que rege a formação do universo é a Lei da União.[7]

A Cabala explica esse simbolismo da seguinte forma: a barba do Macroprosopo (Deus manifestado como realidade física) simboliza o fluxo de energia que nasce na primeira sefirá e percorre toda a Árvore da Vida (símbolo do universo), unificando a totalidade das realidades existentes no mundo.[8) Como se sabe, a Árvore Sefirótica, desenho mágico-filosófico com a qual os cabalistas explicam a formação do mundo é uma representação simbólica do universo como realidade macro e projeta o seu reflexo no homem como realidade micro. Por outro lado, sabemos que a palavra barba, em hebraico se escreve Hachad. Por aplicação da técnica chamada guematria essa palavra, quando decomposta em suas letras, tem valor numérico igual a 13. (A=1, CH=8, d=4 = 13). Esses valores correspondem às partes da barba do Macroprosopo, também chamado de Andrógino Superior, Vasto Semblante e Adam Kadmon, imagem usada pelos mestres cabalistas para designar a Energia Divina que se espalha pelo espaço cósmico, gerando a realidade que nós conhecemos como Universo. Na Siphra Dtzeniovtha, (O Livro do Mistério Oculto, parte do Sefer há Zhoar, Bíblia cabalista), se diz que “da barba, menciona-se que não é feita nem criada. Esta é o ornamento do todo. Ela procede dos ouvidos e tem o aspecto de uma circunferência que se expande constantemente pelo espaço aberto, enquanto seus caracóis sobem e descem. Está dividida em treze partes que pendem com treze adornos.” [9]
Nesse estranho e enigmático texto os mestres cabalistas querem dizer que a barba do Macroprosopo é a energia que unifica o total existente no Cosmo, fazendo dessa totalidade dispersa uma unidade, ou seja, umUniverso. Ela procede do ouvido porque o universo é feito através das combinações das letras do alfabeto sagrado (o hebraico) e o Nome Inefável de Deus. Tem o aspecto de uma circunferência porque esta é a forma geométrica que o Grande Arquiteto do Universo escolheu para dar formato ao universo físico. Essa é uma das razões de a Maçonaria ter na Geometria um dos objetos do seu cullto. É circunferência que se expande pelo espaço aberto, exatamente como faz o universo físico em sua expansão. Caracóis que sobem e descem são as ondas e partículas, formas de energia com a qual a matéria universal é produzida. As treze partes são os doze signos do Zodíaco, pelos quais a ciencia antiga dividia o universo, mais a parte sutil, o Pleroma, o espaço divino, de onde tudo emerge.

Sendo a energia que unifica ela (a barba do Macroprosopo) é a argamassa que dá liga ao mundo para que ele se torne um organismo único. É o símbolo da União. Para os antigos israelitas a invocação desse salmo designava o espírito de unidade e a fraternidade que devia imperar entre o povo de Deus. Essa Irmandade era simbolizada pela barba de Aarão, cujo corpo era tido como uma imagem da Árvore da Vida, na qual o fluxo da energia divina percorria desde a cabeça (a sefirá Kether) até a orla dos seus vestidos, ou seja, os pés, representados pela sefirá Malkuth ( o universo físico ). 
Assim, o Salmo 133, na verdade, é um simbolismo que está centrado em um segredo arcano de extraordinário significado e a Maçonaria, ao adotá-lo na abertura de suas Lojas não está apenas contemplando a ideia da Fraternidade pura e simples, mas realizando o objetivo cósmico de integração total de todas as emanações da energia divina. Trata-se, na verdade, de um mantra poderoso, uma âncora fundamental para o eliciamento da energia cósmica necessária para a formação da egrégora maçônica.

Que os Irmãos, ao ouvirem o Orador pronunciá-lo na abertura de suas reuniões tenham em mente essa informação, para melhor aproveitamento espiritual dessa invocação.


[1] A Loja Simbólica se refere ás seções previstas para os três primeiros graus, ou seja, os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
[2] Texto conforme a Bíblia Hebraica, traduzida Por David Gorodovits e Jairo Fridlin- Editora e Livraria Sefer Ltda. São Paulo, 2015. Para uma interpretação mais pormenorizada do simbolismo do salmo 133, ver a nossa obra “ O Tesouro Arcano”, publicada pela Editora Madras, 2013.
[3] Egrégoros, do grego “egrêgorein” são esferas de energia, emanadas dos pensamentos emitidos pelos indivíduos agrupados e ligados mentalmente por um objetivo comum. Aqui o termo é usado como símbolo de corrente energética.
[4] Cf. o Ritual do Aprendiz. As abreviações seguidas de três pontos se referem á Deus (O Grande Arquiteto do Universo) e á Colunas e Obreiros, que se referem á Maçonaria e seus membros, no jargão maçônico. 
[5] Idem, Ritual do Aprendiz.
[6] A Kabbalah Revelada- Ed. Madras, 2004
[7] Por isso o simbolismo da “Cadeia da União” que é renovada a cada seis meses, através da transmissão da palavra semestral.
[8] As sefirots (no singular sefirá) são esferas de energia segundo a qual Deus se manifesta para formar o universo físico. São em número de dez e constituem o que, na Cabala, se chama a Árvore Sefirótica, ou Árvore da Vida. São várias as formas de escrever essa palavra em português. Neste trabalho usamos a forma adotada no livro” Cabala e seu Simbolismo”, de Gerson G. Shollen, traduzido por Hans Borger e J.Guinbusrg, publicado pela Ed. Perspectiva, São Paulo 2015.
[9] A Kabbalah Revelada, citado, pg. 89.
João Anatalino

domingo, 26 de junho de 2016


A teologia da aritmética


Site Bibliot3ca

Tradução: S.K.Jerez


Qual é a importância do número? Qual é a importância da aplicação do número aos fenômenos, ou seja, contar?

Quais são os problemas com o número? Quais são os problemas da aplicação numérica aos fenômenos, ou seja, contar?

Qual é a vantagem de um relato numérica? O que pode ser feito com o número que não pode ser feito de outra forma?

Qual é a vantagem de relatos imagéticos ou narrativas?

Filolau, em Estobeu 1.3.8 ( DK11 )

O poder, a eficácia e a essência do número são vistos na Década; ela é grande, ele realiza todos os seus propósitos e é a causa de todos os efeitos. O poder da Década é o princípio e guia de toda a vida, divina, celestial ou humana em que se insinua; sem ela tudo é ilimitado, obscuro e furtivo. De fato, é a natureza do número que nos ensina a compreensão, que nos serve como um guia, e nos ensina todas as coisas que de outro modo ficariam impenetráveis e desconhecidas para todos os homens. Pois não há ninguém que poderia ter uma noção clara sobre as coisas em si mesmas, nem em suas relações, se não houvesse Número ou – essência Numérica. Por meio de sensação, o Número instila uma determinada proporção, e assim estabelece entre todas as coisas relações harmónicas, análogas à natureza da figura geométrica chamada gnomon; incorpora razões compreensíveis de coisas, separa-nas, individualiza-as, tanto coisas limitadas quanto ilimitadas. E não é só em assuntos relativos à daimons ou Deuses que você pode ver a força manifestada pela natureza e poder do Número, mas em todas as suas obras, em todos os pensamentos humanos, em toda parte, de fato, e até mesmo na produção de artes e música. A Natureza e a Harmonia não têm número, pois o que é falso não tem parte em sua essência e o princípio do erro e da inveja é impensado, irracional, de natureza indefinida. Nunca poderia o erro cair na Natureza, porque sua natureza é hostil a ela. A verdade é o caráter próprio, inato do Número.


Alexandre Polistor, em Diógenes Laércio VIII.24 -25

Este princípio de todas as coisas é a mônada ou unidade; decorrente desta mônada, a díade ilimitada ou dois serve como substrato material à mônada, que é causa; a partir da mônada e da díade ilimitada surgem os números; a partir de números, pontos; a partir de pontos, linhas; a partir de linhas, figuras planas; a partir de figuras planas, figuras sólidas; a partir de figuras sólidas, corpos sensíveis, os elementos dos quais são quatro, fogo, água, terra e ar; estes elementos intercambiam e se transformar um no outro completamente, e se combinam para produzir um universo, animado, inteligente, esférico.

Macróbio, em Comentário sobre Sonho de Cipião de Cícero I.vi.7 -8, 10-11 

O um é chamado monas, que é a Unidade, e é tanto masculino quanto feminino, par e ímpar, não é um número em si, mas a fonte e origem dos números. Esta mônada, o princípio e o fim de todas as coisas, embora ela mesma não conheça um começo ou fim, refere-se ao Deus Supremo… Não se incomode com o fato de que, embora a mônada parece superar todos os números, é especialmente louvável em conjunto com sete: a mônada incorrupta não é acompanhada com qualquer outro número mais apropriadamente do que com a Virgem. A reputação da virgindade cresceu tanto sobre o número sete, que é chamado de Pallas (Athena). Na verdade, ele é considerado virgem, porque, quando dobrado, não produz nenhum número abaixo de dez, sendo este último verdadeiramente o primeiro limite dos números. É Pallas porque nasce apenas da multiplicação da mônada, assim como se diz que Minerva só nasceu de um dos pais.

Pseudo-Iâmblico, em Teologia da Aritmética 13-14

Da divisão em dois, eles chamam a díade de ‘Justiça’ {dikê} (como se fosse ‘dicotomia’ {dikhê}, e a chamam de Isis, não só porque o produto de sua multiplicação é igual {ison} à soma de sua adição, como dissemos, mas também porque só ela não admite divisão em partes desiguais. E eles chamam de Natureza, uma vez que é o movimento no sentido de ser e, como se fosse uma espécie de vir-a-ser e extensão de um princípio semente. … Eles também a chamam de Diometor, a mãe de Zeus (eles disseram que a mônada era Zeus) e Rhea, após o seu fluxo e extensão, que são as propriedades tanto da díade quanto da Natureza, que está em todos os aspectos vindo a ser. E dizem que o nome díade é adequado para a lua, tanto porque ela admite mais definições {duseis} do que qualquer dos outros planetas, e porque a lua é reduzido pela metade ou dividido em dois.

Platão, em A República VIII 529b – 530c

[ 529B ] E atrevo-me a dizer que, se uma pessoa estivesse jogando a cabeça para trás e estudando as vigas do teto, você ainda acharia que sua mente foi a perceptora, e não os olhos. E muito provavelmente você está certo, e eu posso estar sendo um tolo: mas, na minha opinião, aquele conhecimento sozinho, que é do ser e do invisível, pode fazer a alma olhar para cima, e se um homem boceja aos céus ou pisca ao chão, procurando aprender algum sentido em particular, eu negaria que ele pode aprender, porque nada desse tipo é matéria de ciência; sua alma está olhando para baixo, não para cima, [529c] seja o seu caminho para o conhecimento por água ou por terra, quer ele flutue quer esteja deitado de costas. Eu reconheço, disse ele, a justiça de sua repreensão. Ainda assim, eu deveria verificar como a astronomia pode ser aprendida por qualquer forma mais adequada àquele conhecimento do qual estamos falando. Vou dizer-lhe, respondi: o céu estrelado que contemplamos é feito sobre um fundo visível e, portanto, apesar de ser a mais bela e [529d] mais perfeita das coisas visíveis, deve necessariamente ser considerado inferior até para os verdadeiros movimentos de rapidez absoluta e lentidão absoluta, que são relativos um ao outro, e transportar com eles o que está contido neles, em número verdadeiro e em todos os números verdadeiros. Agora, estes devem ser apreendidos pela razão e inteligência, mas não pela visão. Verdade, replicou ele. Os céus salpicados de luzes devem ser usados como um padrão e como uma visão do conhecimento superior; [529e] sua beleza é como a beleza de figuras ou imagens excelentemente forjadas pelas mãos de Dédalo, ou algum outro grande artista que tenhamos oportunidade de observar; qualquer geômetra que os visse apreciaria o requinte de sua obra, mas nunca sonharia em pensar que nelas poderia encontrar o verdadeiro [530a] igual ou o verdadeiro duplo, ou a verdade de qualquer outra proporção. Não, respondeu ele, tal idéia seria ridícula. E não terá um verdadeiro astrônomo o mesmo sentimento quando olha para os movimentos das estrelas? Não pensará ele que o céu e as coisas no céu são emolduradas pelo seu Criador da maneira mais perfeita? Mas ele nunca imaginará que as proporções de noite e dia, ou deles com o mês, ou do mês com o ano, ou [530b] das estrelas com eles e umas com as outras, e quaisquer outras coisas que são materiais e visíveis também podem ser eternas e sem qualquer desvio – o que seria absurdo; e é igualmente absurdo sofrer tantas dores ao investigar sua verdade exata. Concordo plenamente, embora nunca tenha pensado nisso antes. Então, disse eu, na astronomia, como na geometria, devemos empregar os problemas e [530c] deixar os céus por sua conta, se quisermos abordar o assunto da forma correta e assim fazer com que o dom natural da razão seja de real utilidade.

Platão, em A República X 616b – 617d

Cada grupo passava sete dias na planície. Ao oitavo, devia levantar o acampamento e pôr-se a caminho para chegar, quatro dias mais tarde, a um lugar de onde se via uma luz direita como uma coluna estendendo-se desde o alto, através de todo o céu e de toda a terra, muito semelhante ao arco-íris, mas ainda mais brilhante e mais pura. Chegaram lá após um dia [616c]de marcha; e aí, no meio da luz, viram as extremidades dos vínculos do céu, porque essa luz é o laço do céu: como as armaduras que cingem os flancos das trirremes, mantêm o conjunto de tudo o que ele arrasta na sua revolução. A essas extremidades está suspenso o fuso da Necessidade, que faz girar todas as esferas; a haste e a agulha são de aço, e a roca, uma mistura de aço e outras matérias. É a seguinte a natureza da roca: quanto à forma, assemelha-se [616d] às deste mundo, mas, segundo o que dizia Er, deve-se representá-la como uma grande roca oca por dentro, à qual se ajusta outra roca semelhante, mas menor, do modo como se ajustam umas caixas às outras, e, igualmente, uma terceira, uma quarta e mais quatro. Com efeito, há ao todo oito rocas inseridas umas nas outras, deixando ver no alto os seus bordos circulares [616e] e formando a superfície contínua de uma única roca em torno da baste, que passa pelo meio da oitava. O bordo circular da primeira roca, a que fica no exterior, é o mais largo, depois seguem esta ordem: na segunda posição, o da sexta; na terceira posição, o da quarta; na quarta posição, o da oitava; na quinta, o da sétima; na sexta, o da quinta; na sétima, o da terceira e na oitava, o da segunda. O primeiro círculo, o maior de todos, é o mais cintilante; o sétimo [ou sol] brilha com o mais vivo esplendor; o oitavo [ou da lua] [617a] tinge-se da luz que vem do sétimo; o segundo e o quinto [Saturno e Mercúrio], que têm mais ou menos a mesma tonalidade, são mais amarelos que os anteriores; o terceiro [Vênus] é o mais branco de todos; o quarto [Marte] é avermelhado; e o sexto [Júpiter] é o segundo mais alvo. Todo o fuso gira com um mesmo movimento circular, mas, no conjunto arrastado por este movimento, os sete círculos interiores realizam lentas revoluções de sentido contrário ao do todo. Destes círculos, o oitavo é o mais rápido, [617b] depois seguem-se o sétimo, o sexto e o quinto, que ocupam a mesma posição em velocidade; nesta mesma ordem, o quarto ocupava a terceira posição nesta rotação inversa; o terceiro, a quarta posição, e o segundo, a quinta. O próprio fuso gira sobre os joelhos da Necessidade. No alto de cada círculo está uma Sereia, que gira com ele fazendo ouvir um único som, uma única nota; e estas oito notas compõem em conjunto uma única harmonia. [617c]Três outras mulheres, sentadas ao redor a intervalos iguais, cada uma num trono, as filhas da Necessidade, ou seja, as Moiras, vestidas de branco, com a cabeça coroada de grinaldas. Elas cantam acompanhando a harmonia das Sereias, e são três: Láquesis canta o passado, Cloto, o presente, e Átropo, o futuro. E Cloto toca de vez em quando com a mão direita no circulo exterior do fuso, para fazê-lo girar, enquanto Átropo, com a mão esquerda, faz girar os círculos interiores. Quanto a Láquesis [617d], toca alternadamente no primeiro e nos outros, com uma e outra mão.