domingo, 12 de junho de 2016


A FACE JUDAICA-TEMPLÁRIA DA MAÇONARIA



Na obra “Antigas Letras”, o Grão-Mestre Leon Zeldis 33º, da Maçonaria de Israel (The Grand Lodge of the State of Israel), chama a atenção para o fato de que os textos religiosos hebraicos onde aparecem os nomes divinos de D’us não são destruídos quando envelhecem, mas enterrados ou guardados em um lugar especial da sinagoga conhecido como guenizá. Diz a tradição judaica que qualquer fragmento de um texto sagrado que contiver o nome do Criador deve ser enterrado de acordo com determinados rituais. Entretanto, com o passar dos séculos e em função das perseguições sofridas pelos judeus, muitos documentos hebraicos foram apenas escondidos, daí o nome de guenizá (esconderijo), que corresponde em hebraico ao termo lignoz e significa guardar, manter secreto. 

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram a Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

No livro “A Chave de Hiram”, os autores maçons Christopher Knight e Robert Lomas destacam que os clérigos que acompanhavam os cavaleiros templários eram “todos capazes de ler e escrever em muitas línguas e eram famosos por suas habilidades em criar e decifrar códigos”. E transcrevem um comentário do historiador francês Gaetan Delaforge sobre os reais motivos dos templários: “A verdadeira tarefa dos nove cavaleiros era realizar uma pesquisa na área para recuperar certas relíquias e manuscritos que continham a essência das tradições secretas do Judaísmo e do Antigo Egito, algumas das quais provavelmente datavam do tempo de Moisés” (The Templar Tradition in the Age of Aquarius). 

Uma Ordem acima de reis e rainhas

Legitimada pelo papa Honório II em 31 de janeiro de 1128, a Ordem do Templo ganhou estatuto, regras e um comandante: o Grão-Mestre Hugh de Payens. Havia mais de 600 artigos no estatuto dos templários, segundo o historiador inglês Piers Paul Read, autor de “Os Templários”, sendo que a regra 325 relacionava-se com o uso de luvas de couro, que era consentido apenas aos capelães e aos pedreiros construtores de santuários e fortalezas. Mas, “em nenhum lugar havia qualquer menção a peregrinos ou à sua proteção, aparentemente ignorando a única razão para a criação dessa Ordem” (A Chave de Hiram). O papa seguinte, Inocêncio II, através da bula “Omne datum optimum” (1139), estabelece privilégios que tornam a instituição independente de toda interferência de autoridades políticas e religiosas. Segundo a encíclica, os templários só deviam obediência ao Papa. 

Durante os próximos 200 anos a Ordem do Templo cresce e se expande em poder e riqueza, recebendo doações em dinheiro e propriedades na Europa. De acordo com os investigadores históricos ingleses, Michael Baigent e Richard Leigh, que pesquisaram a herança templária no surgimento da maçonaria, “em meados do século 12, a Ordem do Templo já tinha começado a se estabelecer como a mais poderosa e rica instituição isolada em toda a Cristandade, com exceção do Papado, com frotas de navios, territórios extensos e ligações secretas com líderes sarracenos” (O Templo e a Loja). Esses mesmos autores e mais Henry Lincoln ainda afirmam que coube aos templários criar e estabelecer a moderna instituição bancária. “Através de empréstimos de vastas somas a monarcas necessitados, tornaram-se os banqueiros de todos os tronos da Europa” (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Com a perda de Jerusalém para os muçulmanos em 1291, a Ordem do Templo se transfere para Chipre. A ilha tinha sido conquistada pelo rei Jayme I (Coração de Leão), da Inglaterra, em 1191, e vendida, anos depois, para os templários. Em 1312, a Ordem é oficialmente extinta por um decreto papal emitido por Clemente V, sem que um veredicto conclusivo de culpa tenha sido pronunciado. Através da bula Vox in excelso o Papa extingue a Ordem do Templo “proibindo estritamente qualquer um de conjeturar em entrar para a referida Ordem no futuro, ou de receber ou usar seu hábito, ou de agir como um templário” (Os Templários). Em bula subsequente, a Ad Providam, todos os bens e propriedade dos templários são transferidos para a Ordem dos Hospitalários, uma instituição similar a dos templários, que também funcionava na Terra Santa. 

Na França, por ordem do rei Filipe IV, o Belo, os templários são perseguidos, presos e torturados. A Inquisição também se alastra por toda a Europa. As acusações concentram-se em supostas heresias e rituais praticados pelos membros da Ordem. O seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, é queimado até a morte, na Ile de la Cité, no Sena, em 1314.

Estado templário preocupava a Igreja 

Setecentos anos depois desses acontecimentos, dúvidas ainda persistem sobre a verdadeira natureza da Ordem e de seus cavaleiros. Seriam eles guardiões de um conhecimento secreto adquirido na Terra Santa em contato com outras culturas ou mesmo oriundo de documentos sobre as origens do Cristianismo descobertos nas escavações? Para Baigent e Leigh, o impacto de antigas formas de pensamento cristão, não Paulinas, podem ter influenciado as atividades da Ordem no seu projeto para a criação de um Estado Templário e na sua política de reconciliar o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. “Os templários não negociavam apenas dinheiro, mas pensamentos também. Através de seu contato com as culturas muçulmana e judaica, começaram a atuar como introdutores de novas ideias, novas dimensões do conhecimento, novas ciências” (O Santo Graal...).

A pesquisadora da Biblioteca do Vaticano, Bárbara Frale, em artigo publicado no “L’Osservatore Romano” (21.08.2008), jornal oficial da Santa Sé, afirma que os documentos originais do processo contra os templários, encontrados no Arquivo Secreto do Vaticano, demonstram que foram infundadas as acusações de que os cavaleiros praticavam em segredo ritos pagãos e haviam abandonado a fé cristã. De acordo com a autora, os templários não eram hereges e o que se descobriu nas atas conservadas no Vaticano é que “a disciplina primitiva do Templo e o seu espírito autêntico se haviam corrompido com o passar do tempo, deixando a porta aberta para a difusão de maus costumes” (Revelações do Arquivo Secreto do Vaticano: templários não foram hereges,no portal Zenit).

Aí caberia a indagação: quais seriam os “maus costumes”, segundo a avaliação da pesquisadora, adquiridos pelos templários? No mesmo artigo, Frale reconhece que “ainda há verdadeiramente muito que investigar” e adianta que o estudo da espiritualidade desta antiga ordem religiosa dará à cultura contemporânea novos motivos de discussão.

Escócia: refúgio dos templários e berço dos maçons
Da extinção oficial da Ordem até a fundação da primeira grande Loja Maçônica em Londres (1717), a trinca de autores do “Santo Graal e a Linhagem Sagrada” registra que os templários ingleses e franceses encontraram refúgio na Escócia (país que ignorou a bula papal), e muitos deles também se integraram a outras Ordens e sociedades secretas na Alemanha, Espanha e Portugal. Conta-se que em 1689, na batalha de Killiecrankie, na Escócia, um dos aliados do rei Jayme II da Inglaterra, John Claverhouse, visconde de Dundee, estava usando uma antiga vestimenta da Ordem do Templo, de antes de 1307, quando foi morto na luta. A referência ao fato foi publicada no jornal da primeira Loja de Pesquisas Maçônicas do Reino Unido (Quatuor Coronati), em 1920: “Lorde Dundee perdeu sua vida como líder do Partido Escocês Stuart. Segundo o testemunho do abade Calmet, ele teria sido Grão-Mestre da Ordem do Templo na Escócia” (O Santo Graal...). 

Mas, muito tempo antes, nos meados do século 16, um manuscrito já comprovava a existência dos chamados franco-maçons e a sua subordinação à monarquia dos Stuart, principalmente ao soberano escocês Jaime I (1566-1625), que também foi rei da Inglaterra e da Irlanda. O historiador maçônico, Robert F. Gould, em “The History of Freemasonry”, transcreve o que era exigido dos franco-maçons à época: “... que sejais homens leais ao rei, sem nenhuma traição ou falsidade e que não tolerais qualquer traição ou falsidade, tratando de combatê-las ou notificá-las ao rei”. Segundo definição de um ilustre estudioso maçom José Maria Ragon (1781-1866), o termo franco-maçom somente se aplicaria àqueles que efetivamente cooperassem na obra de instrução e regeneração da humanidade. Os demais membros de obreiros construtores e integrantes da corporação de pedreiros seriam denominados simplesmente maçons.

Observa-se que a Grande Loja da Inglaterra, criada para centralizar a franco-maçonaria inglesa e que se constituiu no marco oficial da imagem pública da Maçonaria, foi instituída em 24 de junho de 1717, data emblemática para os templários e que lembra o nascimento de João, o Batista. A devoção a essa figura histórica é um dos elos que ligam os franco-maçons aos templários. Segundo o “Dicionário de Maçonaria”, de Joaquim Gervásio de Figueiredo 33.º, João Batista é o patrono da Maçonaria e todas as lojas maçônicas simbólicas são intituladas Lojas de São João.

A tradição judaica dos essênios

Preso e decapitado em 32 da E.C. por ordem de Herodes Antipas, governador da Galiléia, Yochanan ben Ezequiel (nome hebraico de João Batista) provavelmente era membro da seita dos essênios, uma comunidade judaica que existiu durante os dois últimos séculos da era do Segundo Templo (150 antes da E.C. a 70 da E.C.). Historiadores judeus do século I, Flavio Josefo e Philo de Alexandria, registraram a presença desse grupo ascético, que praticava um Judaísmo ultra-ortodoxo, com jejuns frequentes e banhos rituais diários, e que habitava o deserto da Judéia, entre Jericó e Ein Guedi. 

A partir de 1947, e até 1956, com a descoberta dos pergaminhos nas cavernas de Qumran (os manuscritos do Mar Morto), a tese de que os essênios eram seus autores ganhou força entre estudiosos e peritos de várias nacionalidades. Segundo Leon Zeldis 33º, os iniciados da comunidade de Qumran, cujas idades variavam entre 25 e 50 anos, aprendiam a “amar a justiça e ter aversão à maldade”. Consideravam-se herdeiros dos reis sacerdotes, simbolizados por Salomão (do hebraico Shlomo, que deriva da palavra Shalom-paz) e Melquizedek (do hebraico Malki-Tzadik, rei justo), rei de Salem (a atual Jerusalém), à época de Abraão. Alguns de seus membros, como João, o Batista, faziam votos de nazareos - do hebraico “nazir” que corresponde a “separado” ou “consagrado”. Os autores do livro “A Chave de Hiram” acreditam que “a voz que clama no deserto” poderia ser a de João Batista “que viveu uma vida dura no deserto, de retidão qumraniana, comendo apenas os alimentos permitidos, usando um cinturão de couro e uma túnica de pelo de camelo”.

Na obra “Os Manuscritos do Mar Morto”, o professor e doutor em teologia Geza Vermes destaca que os membros da seita se consideravam “o verdadeiro Israel”, fiéis representantes das autênticas tradições religiosas. Os sacerdotes, chamados de “filhos de ZadoK” (o sacerdote da Casa de David), se constituíam na autoridade máxima da comunidade. A hierarquia era rigorosa. Cada membro era inscrito na “ordem de seu grau”. O mais alto cargo recaía na pessoa do Guardião, conhecido também como “Mestre” (maskil, em hebraico). Eram também instruídos a reconhecer “um filho da Luz” de um “filho das Trevas”. Na lista de infrações e de suas penas correspondentes, o pecado mais grave que demandaria em imediata expulsão da congregação seria qualquer tipo de transgressão, por ato ou omissão, às diretrizes da Lei de Moisés. 

Em um dos manuscritos – o Preceito do Messianismo – é especificado que somente a partir dos 30 anos os homens eram tidos como maduros, podendo participar das assembleias, de casos em tribunais e tomar assento nos altos escalões da seita. O neófito vindo de fora que se arrependia de seu “caminho de corrupção”, iniciava-se “no juramento da Aliança” no dia em que conversava com o Guardião, mas nenhum estatuto da seita deveria ser divulgado a ele. Na avaliação do professor Geza Vermes, o retrato que assoma da leitura dos manuscritos em relação às ideias e aos ideais religiosos dos essênios é uma observância fanática à Lei de Moisés. No campo político, os essênios eram frontalmente contra a dinastia de Herodes e o domínio dos romanos sobre a Terra Santa.

Livros secretos de Moisés

Dizimada pelos romanos em 66-70 da E.C., a comunidade de Qumram pode ter enterrado sua história, seus segredos e sua tradição secreta ligada a Moisés em algum lugar do templo de Jerusalém, seguindo a prática judaica de não destruir documentos sagrados (a cidade de Jerusalém fica a 40 minutos de carro de Qumram). Na obra “A Chave do Hiram”, os autores aventam a hipótese desses manuscritos terem sido descobertos pelos templários, no século 12, em função das sigilosas escavações realizadas no local por mais de uma década. No livro “A Odisséia dos Essênios”, o historiador britânico Hugh Schonfield faz referência aos livros secretos que Moises teria dado a Josué para que ele os mantivesse ocultos “até os dias de arrependimento”.

No livro do escritor francê Michel Lamy - Os Templários. Esses senhores de Mantos Brancos/1997 – é lembrado o interesse do abade Estevão Harding, amigo e mentor de Bernardo de Clairvaux (incentivador da criação da Ordem dos Templários e autor de suas regras), por textos hebraicos. O abade procurava a ajuda de rabinos nas suas traduções do hebraico dos livros do Velho Testamento. Para Lamy, esse intenso interesse por textos hebraicos demonstram a crença na existência de um tesouro oculto enterrado sob o monte do Templo e algum tipo de relação com o lugar que mais tarde se tornou a moradia dos templários. O historiador Piers Paul Read também destaca que uma das primeiras traduções encomendadas pelos templários na Terra Santa foi a do “Livro dos Juízes”, do Velho Testamento. “Havia uma íntima e inquestionável identificação dos cristãos da Palestina com os israelitas de antigamente” (Os Templários).

Erguido pelo rei Salomão para abrigar a “Arca da Aliança” – relicário das palavras divinas a Moisés no deserto - , o grande Templo de Jerusalém concentrava nesse local toda a sua santidade. Construído sobre o Monte Moriá, o aposento onde ficava a arca sagrada era o lugar mais recôndito do Templo, chamado de “o Sagrados dos Sagrados” (Kodesh há-Kodashim), recinto cuja santidade era tal que somente o grande sacerdote (Cohen Gadol, em hebraico) tinha permissão de lá entrar, uma única vez durante o ano, no Dia do Perdão - Yom Kipur (Revista Morashá).

A adoção pelos templários e maçons dessa simbologia estruturada nos mistérios e segredos que se iniciam com Abraão, tem seu ápice em Moisés, se perpetua com a construção do Primeiro Templo por Salomão e sofre transmutações generalizadas a partir dos primórdios da Era Comum, após a destruição da comunidade de Qumram, ainda permanece envolta em véus em sua nascente e tem se mostrado um desafio para a Igreja Católica. De igual forma, a imensa quantidade de publicações, teorias e suposições a respeito do tema ainda não produziu uma resposta diferente daquela que anima e justifica o trabalho da maioria dos pesquisadores: a da “busca pela verdade” .


Os guardiões da Aliança

Em “As Intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”, o leitor acompanha a trajetória dos manuscritos, desde das primeiras descobertas no deserto da Judéia, em 1947, durante o mandato britânico na Palestina, até o início da década de 1990, quando o conteúdo de muitos documentos ainda não tinha sido divulgado. A batalha para o livre acesso e publicação de mais de 800 manuscritos por parte de inúmeros pesquisadores de renome mundial é relatada por Michael Baigent e Richard Leigh que culpam a chamada “equipe internacional” comandada pelo padre Roland de Vaux, da École Biblique de Jerusalém, de manter por longo tempo o monopólio sobre os manuscritos. A polêmica se estendeu até a imprensa através das páginas do influente jornal americano New York Times que em editorial publicado em 9 de julho de 1989 criticou a morosidade das pesquisas, observando que “passados 40 anos, um círculo de estudiosos indolentes continua esticando o trabalho, enquanto o mundo espera e as preciosas peças vão se desmanchando em pó”. 

Hoje sabemos que os membros da comunidade de Qumram costumavam referir-se a si próprios como “os guardiões da Aliança”. Tal conceito se baseia essencialmente na grande importância da “Aliança”, que impunha um voto formal de obediência, total e eterna, à Lei de Moisés. Daí a expressão “Ossei ha-Torá”, encontrada em um dos pergaminhos, que pode ser traduzida por “Agentes da Lei”, expressão talvez que fosse a origem da palavra essênio (As intrigas em torno dos Manuscritos...). Mas, para o pesquisador Robert Eisenman, autor de vários livros sobre os Manuscritos, termos como essênios, zadoques, zanoreanos, zelotes, sicários, ebionitas (os pobres) apontam para um mesmo grupo ou movimento ortodoxo de rigoroso cumprimento da lei mosaica.

Em seu estudo “Paulo como herodiano”, apresentado na Sociedade de Literatura Bíblica (Society of Biblical Literature), em 1983, Eisenman credita a Paulo (Saulo de Tarso) o papel de agente secreto dos romanos, após ser ameaçado de morte pelos “zelosos da Lei”. A partir dos manuscritos e de referências encontradas no Novo Testamento, o pesquisador afirma que a entrada de Paulo em cena mudou o rumo da história. “O que começou como um movimento localizado dentro da estrutura do Judaísmo existente, e cuja influência se restringia aos limites da Terra Santa, se transformou em algo de uma escala e magnitude que ninguém na época poderia ter previsto. O movimento que estava nas mãos da comunidade de Qumran foi efetivamente convertido em algo que não tinha mais lugar para seus criadores” (As Intrigas em torno dos Manuscritos...).

Para os autores ingleses de “A Chave de Hiram”, Saulo de Tarso não conhecia profundamente os ritos nazoreanos da comunidade de Qumram e a sua simbologia da “ressurreição em vida”, cerimônia adotada pela Maçonaria em seu ritual de 3º Grau. Em um dos manuscritos encontrados, denominado “Preceitos da Comunidade”, é explicado que ao entrar na comunidade o sectário era elevado a uma “altura eterna” e unido ao “Conselho Eterno” e à “Congregação dos Filhos do Céu” (Geza Vermes, em “Os Manuscritos do Mar Morto”). 

Outro importante estudioso dos manuscritos, o historiador John Allegro, em seu livro “The Treasure of the Copper Scroll” que traz a tradução completa do Manuscrito de Cobre, explica que “Qumram” é uma palavra árabe moderna e que no século I da E.C. o local era conhecido como Qimrôn, raiz da palavra hebraica que significa abóbada, arco, portal. O pesquisador também observou a utilização de códigos no Manuscrito de Cobre quando são citados os 64 esconderijos com metais preciosos e manuscritos pertencentes à Comunidade. Detalhe igualmente notado pelo padre J.T.Milik, que fazia parte da equipe internacional que analisou os manuscritos em Jerusalém. O religioso constatou a presença de técnicas de codificação críptica em alguns documentos secretos que continham informações sobre eventos futuros.


Sheila Sacks
Jornalista de Investigação - Rio de Janeiro, Brasil
http://www.maconaria.net/portal



A Ordem Maçônica Moderna e suas características



Lorde Oliver Cromwell (Huntingdon, 25 de Abril de 1599 — Westminster, 3 de Setembro de 1658 )

Texto do Ir.´. MÁRIO SALES (http://imaginariodomario.blogspot.com.br/)


Existem três critérios que devem ser levados em consideração ao analisar-se uma ordem secreta: o esotérico, o ocultista, e o místico.

Por esotérico entendo o caráter de sigilo que envolve estas agremiações, onde seus membros são obrigados a prestar juramento de segredo sobre suas atividades e se comprometem a receber sanções, algumas extremamente graves, caso quebrem este compromisso.

Por ocultismo, considero o conjunto das práticas, comumente estudadas no século XVIII e XIX, ligadas a magia e a teurgia, sendo a magia o conjunto de técnicas ligadas ao domínio através de encantamentos e vocalizações das coisas da terra e a teurgia, o mesmo processo ligado às coisas e criaturas do céu (principalmente os Anjos de Deus).

E por último, entendo por Misticismo, a prática dirigida a comunhão interna com Deus, sem intermediários, que busca a integração e a fusão com a vontade divina em nosso próprio coração, e não fora de nós.

Há escolas que são mais esotéricas que místicas, mais místicas que esotéricas, ou mais ocultistas que místicas.

A ordem Maçônica já teve momentos históricos diferentes.

Do ano mil até o evento dos maçons aceitos (a partir da diminuição de prestígio e dos recursos financeiros da corporação dos pedreiros de Londres com o incêndio da cidade e a perda do monopólio da construção de catedrais, conseqüência da instauração da república protestante de Oliver Cromwell, com a conseqüente diminuição do tamanho das igrejas) a maçonaria tinha um caráter altamente esotérico, pouco ocultista e nada místico.

Com a instauração da maçonaria aristocrática, por volta de 1717 até 1789, quando se transforma em especulativa, a ordem maçônica vive um período ainda altamente esotérico, francamente ocultista com algumas pinceladas de misticismo.

De 1789 para cá, o que se viu foi o desaparecimento progressivo do aspecto esotérico, com a publicação aceita e aplaudida pelos líderes maçônicos de vários textos sobre maçonaria, dando detalhes precisos de seu funcionamento interno (haja visto, como exemplo, existir uma editora especializada nestas publicações) livros os quais são encontrados em qualquer livraria profana, em qualquer shopping, em qualquer banca de jornal.

Existem irmãos de maçonaria que inclusive tornaram-se especializados nestas publicações , como é o caso de Rizzardo Da Camino, autor gaúcho.

Nem por isso tiveram a garganta cortada ou foram expulsos por terem violado o sigilo que juraram preservar.

Além de perder seu caráter esotérico, a maçonaria abandonou as práticas ocultistas quase totalmente, por não serem mais compatíveis com a racionalidade moderna ou com os objetivos modernos da Ordem.

Por último, a Ordem maçônica também não tem mais um caráter místico. A referência ao GADU, que norteia nossas reuniões revestem-se mais de um aspecto quase religioso, de respeito a algo externo a nós, do que a busca de algo interior.

Atualmente, ao ir a Loja, o maçon vai em busca da fraternidade, da igualdade e da liberdade do convívio entre irmãos, mas não em busca da espiritualidade relacionada, por exemplo, à busca do sufista ou do monge.

Nada impede que um ou outro membro da Ordem tenha características espirituais mais exaltadas, ou interesses em ocultismo ao estilo dos trabalhos de Eliphas Levi, mas deverá trilhar um caminho individual e nada na prática coletiva maçônica moderna o ajudará neste caminho.

Talvez por isto mesmo, pela progressiva perda de interesse dos próprios membros da ordem, os símbolos do templo, principalmente aqueles de mais alto caráter ocultista, tornem-se aos poucos mais e mais ilegíveis para os irmãos que vão aos rituais e mesmo invisíveis, para a maioria.

Isto tudo para minha tristeza como de nobres irmãos já no Oriente Eterno, como Nicolas Aslan, minha referência constante.

CERIMÔNIA DE INCENSAMENTO


Texto de PEDRO NEVES

O incensamento é muito importante nas reuniões maçônicas, deve-se fazê-lo de forma ritualística.
As Lojas têm deixado de lado esta importante cerimônia de incensamento, acreditamos, por falta de um irmão que saiba manusear o turíbulo. Uma grande parte jamais assistiu uma cerimônia de incensamento e ignoram a sua benéfica prática.

A oficina possui um campo magnético cheio de vibrações mentais e espirituais, que na abertura ritualística partem do V.’. M.’. , para os oficiais Que vão sendo nomeados, voltando ao V.’. M.’. e se espalhando por todo o ambiente ( veja abertura ritualística: V .’. , 1º e 2º Vvig .’. , Or .’. , Sec .’., G.’. Tem.’. , M.’. Cer.’. ). 

Desde a mais remota antiguidade, em cerimônias de caráter religioso e iniciático, o incenso tem sido utilizado. A sua fumaça é anti-séptica, atuando no meio físico e psíquico, propiciando uma enlevação espiritual. Por isso, devemos fazer o incensamento em todas as reuniões.O odor agradável representa para nós, o Divino, o humano e o material. É então, que se forma a grande cadeia universal, da qual cada irmão é um elo, entrando em ação e formando uma força fabulosa, que só muito poucos têm a felicidade de perceber e sentir. Os oficiais da Loja devem ocupar decente e corretamente seu lugar, com respeito e recolhimento, não podem titubear, não podem errar, têm que estar preparados para exercer o cargo com desenvoltura, para que se possa fazer uso de uma força capaz de operar maravilhas, é quando a egrégora da Loja junta-se à Gr.’. Loj.’. eterna, O irmão que tem mais energia dá aos que têm menos e estes a recebem dos que têm mais. É assim que funciona quando utilizamos a B .’. P.’. Inf.’. e o Tron.’. Sol.’. , elas também servem para harmonizar o ambiente energético. Só então, estaremos prontos para praticar uma reunião, pura, fraterna, tolerante, com amor.

Estando todos irmãos de pé em seus lugares, sem estarem à ordem, e com as mãos sobre o 4º chacra, o do coração e, antes da abertura ritualística dos trabalhos com preparação do ambiente, devendo-se utilizar música apropriada, suave e terna, o ir.’. turiferário se aproxima do trono, e a autoridade ou V .’. M.’. , que estiver presidindo os trabalhos, magnetiza o incenso com uma elevação de pensamentos ao G .’. A .’. D .’. U .’. e coloca três colherinhas de incenso no turíbulo, sobre as brasas de carvão vegetal. O turiferário segura o turíbulo no meio das correntes com a mão direita, mantendo as pontas das correntes com a mão esquerda, dá um passo para traz e faz uma vênia para a autoridade que a retribui, sendo então incensado por três ictos por três x três jatos ( ... ... ... ), ou três oscilações triplas, com a correntes curta e o turíbulo oscilando ao nível dos olhos, baixando um pouco depois de cada 3ª oscilação. Em seguida o turiferário balança o turíbulo em forma de V, com três longos e solenes balanceios, à direita e à esquerda do trono (alternadamente ). Depois, faz sete círculos sobrepostos, a começar do pé do altar com o maior e vai diminuindo os seus tamanhos, de modo a terminar o 7º à altura dos olhos do V.’. M.’. . Saúda-o e se dirige ao A .’. J.’., incensando no meio o L .’. L.’., prossegue sempre balançando o turíbulo em círculos até o altar do 1º Vig .’. sempre saudando antes e depois do ato, e repete o que fez em frente ao V .’. M .’., mas, só com sete oscilações ou ictos ou jatos ( ... ... . ), indo logo após ao altar do 2º Vig .’., agido da mesma maneira, mas com cinco oscilações ( ... .. ), indo então em seguida, ao Or .’. Séc .’. e G .’. Tem .’. M .’. Cer .’. , procedendo da mesma maneira, mas, com três oscilações para cada um. Logo após vai ao Oriente e também com três oscilações, incensa conjuntamente todos que estão à direita do V .’. M .’. e logo a seguir os que se encontram à esquerda. Do oriente vira-se para Coluna do norte e incensa a todos em conjunto por três vezes, e em seguida a todos da coluna do sul. Ao final coloca o turíbulo no A .’. P .’. .

Em uma Loja Maçônica, cada oficial e irmão, representam diferentes planos da natureza e suas peculiares energias. Deste modo, quando se trocam perguntas e respostas na abertura ritualística, elas servem de invocação ao Devas ou Anjos de cada plano operante. A ritualística na Loja aberta, serve para trilharmos simbolicamente a senda da evolução, e devemos vibrar harmonicamente em relação uns com os outros, As respostas têm a virtude de chamar a atenção em todos os diferentes reinos da natureza e fazer com que os Devas, espíritos da natureza e elementais, saibam que vão deparar com nova e favorável oportunidade de ação. Quando o V .’. M .’. ,fala ao oficial, como nas perguntas da abertura, uma corrente de força, parte do Oriente, flui dele para a aura daquele a quem se dirige, e toda a força volta em direção ao Oriente e retorna ao seu curso, para o altar. Deste modo, quando se trocam perguntas e respostas, toda a Loja pulsa com a vida elemental que esta ansiosa para se lançar ao trabalho. Cada grupo com sua cor peculiar pairando sobre a cabeça do oficial que o representa no mundo físico. Por meio destes Devas representativos dos vários oficiais, é construído o edifício e se infunde energia. O efeito do incensamento é alisar e limpar a Aura. Assim, essas entidade prorrompem em febril atividade ( como as miríades que sobem e descem em um centro espírita, ou as potestades, querubins e serafins, em uma igreja ). Sempre que alguém hesita em seu papel ( ou erra ), surge certa instabilidade nos trabalhos. Perturba-se a atmosfera mental dos presentes, quando há pausa ou interrupção na execução das funções dos cargos. Daí, a necessidade de cada um desempenhar corretamente sua parte no ritual. Buscamos energias, não só para os presentes, como também para toda a HUMANIDADE.


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PEDRO NEVES – M .’. I .’. – GR .’. 33 
PÉRICLES NEVES .'. M .'. I .'. GR .'. 33
site maçônico
www.pedroneves.recantodasletras.com.br



BIBLIOGRAFIA:
Elaborado após diversas pesquisas em : 
Livros, Jornais, Revistas, Artigos, Trabalhos


Pedro Neves




A LINGUAGEM DOS DEUSES

                                                                                                                         Texto de João Anatalino

Cabala e Maçonaria

A Maçonaria é um instituto cultural que agasalha muitas influências. Gnose, alquimia, teosofia, filosofia neoplatônica, a mística rosa-cruciana, o pensamento iluminista e principalmente temas bíblicos, ora tratados de uma forma alegórica operativa, na linguagem herdada dos antigos construtores medievais, ora desenvolvidos numa linguagem mística, segundo a tradição cabalística. 
A Cabala é um sistema de linguagem desenvolvido pelos estudiosos da religião judaica para interpretar a Bíblia e desvendar os grandes segredos contidos na palavra de Deus, que no entender dos mestres dessa religião, esse formidável monumento literário que os judeus legaram ao mundo, encerra.

Ela se fundamenta na idéia de que o alfabeto hebraico constitui uma forma de escrita que vem de um mundo superior ao nosso, pois foi desenvolvida para fins de comunicação entre Deus e os seus agentes, os mestres construtores do universo, assim entendidas as Ordens angélicas surgidas em cada uma das etapas de manifestação da Essência Divina nos quatro mundos da sua ação criadora. Segundo Rosenroth, “a Kabbalah foi delineada por Deus, para um grupo de seletos anjos que formavam uma escola teosófica no Paraíso. Depois da queda, os anjos mais graciosos comunicavam sua doutrina celestial aos filhos desobedientes da Terra, para fortalecer o protoplasma com os significados que assinalariam o caminho de regresso à sua pristina nobreza e felicidade.” [1]

Percebe-se nessa visão, que Cabala são ramos de uma mesma árvore, pois segundo Anderson escreveu em suas Constituições, a Maçonaria foi estabelecida por Deus, no paraíso, e dali, após a queda, teria sido espalhada pelo mundo, através do filho caçula de Adão, Seth.[2] 

Um código secreto

Segundo a tradição, esses “anjos mais graciosos” ensinaram a Cabala a alguns homens na terra, escolhidos especialmente por Deus para receber essa sabedoria, com a qual a própria humanidade pode contribuir para a tarefa de construção do mundo planejado pelo Criador. Daí o termo “Cabala” significar, numa tradução livre, “tradição recebida”, pois o seu conteúdo semântico, inacessível ao vulgo, só pode ser comunicado a alguns iniciados. Nesse sentido ela seria uma espécie de código secreto, uma escrita sagrada, cujo conteúdo não deve ser revelado aos profanos.

Diz-se que os sons e os valores numéricos desse alfabeto, devidamente combinados, formam palavras e signos que contém as grandes verdades físicas e espirituais que formatam o universo em todas suas partes, sejam elas materiais ou espirituais. Conhecer cada combinação e seus significados é o grande ensinamento dessa tradição. Daí a Cabala ter desenvolvido uma semiótica própria, cujo entendimento, por parte dos não iniciados nessa disciplina, parece ser inacessível. Na verdade o que se observa na Cabala é muito mais a utilização de um sistema de comunicação, próprio das culturas orientais, que apela para o uso frequente de metáforas e signos para dar significado aos conteúdos mais profundos da mente humana, que a linguagem cotidiana não consegue representar. Por isso a Cabala só pode ser estudada e absorvida através do chamado método iniciático, no dizer de Ouspensky,[3] ou o método fenomenológico, utilizado por Teilhard de Chardin na composição de suas obras.[4] Pois é somente através de uma pesquisa que integre as descobertas da ciência na física, na química e na biologia com a capacidade inata do espírito humano para gerar intuições, que se pode entrar no universo cabalístico com alguma luz que nos permita “sentir” as grandes verdades reveladas por essa tradição.[5]

A linguagem da Cabala

Fulcanelli também faz referência á uma Cabala fonética, que segundo esse autor era utilizada na Idade Média pelos habitantes de Paris e principalmente pelos artistas, artesãos e maçons operativos para se comunicarem entre si, numa linguagem só inteligível á pessoas pertencentes ás suas Confrarias. Esse tipo de Cabala fonética era uma espécie de gíria que combinava palavras existentes na língua francesa, criando termos completamente estranhos á linguagem vernacular, com significados muitas vezes simbólicos, de conteúdo esotérico, que veiculavam ideias cujo sentido não devia ser revelado ao homem comum. Era também uma linguagem codificada, destinada a transmitir informações cifradas, que somente a determinados grupos interessava comunicar.

Ao se referir ao estilo de arte gótica, que se expressa na arquitetura das grandes catedrais medievais, Fulcanelli diz também que essa arte é “uma deformação ortográfica da palavra argótica cuja homofonia é perfeita, de acordo com a lei fonética que rege, em todas as línguas, sem ter em conta a ortografia, a cabala tradicional. A catedral é uma obra de art got ou argot”, afirma esse autor. Ou seja, uma arte cabalística por excelência.[6] 

É nesse sentido que esse tipo de Cabala interessa aos maçons, já que sua arte, a Maçonaria, também se vale dessa simbologia muito particular, que é veiculada atráves de uma linguagem específica. Esse tipo de linguagem, que segundo o autor em questão, era a lingua dos mestres maçons que construiam as catedrais, era também a lingua dos alquimistas, dos mestres cabalistas e dos artistas em geral. Eles formavam, nesses antigos tempos, uma comunidade que cultivava um espirito diferente, rebelde, livre da dogmática conformadora que a Igreja impunha á mentalidade medieval. “Todos se exprimiam em argot; tanto os vagabundos da Corte dos Milagres─ com o poeta Villon á cabeça ─ como os frimasons ou franco-maçons da Idade Média “hospedeiros do Bom Deus”, que edificaram as obras primas que hoje admiramos”, escreve Fulcanelli, mostrando a importância desse elemento de cultura na construção do espírito de uma época. [7] E segundo o mesmo autor, essa forma de falar e escrever não era apenas uma brincadeira, um jogo de palavras, mas em tudo isso havia uma verdadeira ciência, uma capacidade inata, prodigalizada aos homens pelo próprio Criador, para exprimir sua sabedoria. Porque, fora disso,“a soberania que ele possui sobre tudo que vive, perde a sua nobreza, a sua grandeza, a sua beleza e não é mais que uma aflitiva vaidade.” [8]

As fórmulas cabalísticas

A linguagem tem uma grande importância na estrutura da Cabala, pois esta, enquanto construção linguística é baseada em três processos originais, conhecidos como gematria, notaricom e temura. A gematria consiste em aproximar duas palavras que tem o mesmo valor numérico no alfabeto hebreu. Como nesse alfabeto cada letra corresponde a um número, as palavras formadas com as diferentes letras representam também um determinado valor e um significado, que variam segundo esse valor.
Assim, diversas palavras, formadas com as mesmas letras, podem ter diferentes significados. As letras da palavra Abraão, por exemplo, corresponde ao número 248, que também têm o mesmo valor numérico das palavras misericórdia, piedade, sabedoria. Dessa forma, quando a Cabala se refere á alguém como sendo um “Abraão”, isso significa que esse alguém é sábio, misericordioso, piedoso, etc. Da mesma forma, as letras da palavra escada equivale ao número 130 e corresponde em valor numérico, ás palavras Sinai, subida, ascensão. Assim, subir o Monte Sinai, como fez Moisés, significa ascender até o Senhor. 

Baseado nessa transposição, vários autores maçons deduziram que o significado do sonho que o patriarca Jacó teve assumia uma noção de escalada iniciática, de ascensão espiritual, aperfeiçoamento contínuo, etc. Essa alegoria, nos graus superiores da Maçonaria é utilizada para representar a passagem do iniciado pelos diversos graus de elevação no catecismo maçônico. Esse simbolismo, conhecido entre os maçons comoEscada de Jacó, é uma das mais significativas alegorias da Maçonaria. 

Já o notaricom é uma fórmula que permite construir palavras novas a partir das letras iniciais ou finais de uma frase. Também serve para construir frases inteiras a partir de uma só palavra, à semelhança de um acróstico na arte da poesia. Essa fórmula proporciona aos cabalistas uma imensa profusão de construções linguísticas e um arsenal extremamente rico de interpretações da Bíblia. Com muita propriedade, Rosenroth observa que essa técnica foi manipulada com extrema habilidade pelos cabalistas cristãos para tentar provar aos judeus que Jesus era de fato o Messias das escrituras. Ele dá como exemplo de construção teológica cristã, feita com a técnica do notaricon, uma tese desenvolvida por Prosper Rugers, judeu cabalista que abraçou o Cristianismo e passou a vida tentando converter outros judeus á nova fé. Com a palavra Bereschit, que é a primeira palavra do Gênesis, ele criou várias outras palavras, construindo com elas frases inteiras, para provar aos judeus que essa palavra, que significa Criação, na verdade se referia a conceitos defendidos pela teologia cristã, ou seja, que a vinda de Jesus já estava prevista nas primeiras frases da Bíblia, que se referem á criação do mundo.[9]

Quanto à técnica denominada temura, esta consiste na substituição de uma palavra, ou letra, por outra, de acordo com as combinações alfabéticas denominadas tsirufim. Temura significa permutação e de acordo com as regras estabelecidas para o uso dessa técnica, uma letra é substituída por outra que a precede ou antecede no alfabeto, para formar uma palavra a partir de outra palavra, distinta tanto em ortografia quanto em significado. Rosenroth nos dá como exemplo de expressões linguísticas formadas pela técnica da temura as palavras ben (filho), ruach (espírito), berackhah(benção), todas obtidas por transposição de letras da palavra bereschit(criação, princípio).[10]
Assim, pelo uso de uma dessas técnicas, ou da combinação entre elas, a palavra hebraica Gan Éden (jardim do Éden), por exemplo, pode assumir significados diferentes, tais como gouf (corpo) nefesh (alma), etsem(ossos), daath (ciência), netsah (eternidade) etc..[11]
Destarte, de acordo com esses métodos de construção linguística, há uma Bíblia que pode ser lida por qualquer pessoa alfabetizada e outra que só pode ser entendida pelos iniciados. É nesta última que está oculta a verdadeira sabedoria (daath), ou seja, aquela ciência que foi transmitida de forma oral á Abraão e confirmada pela transmissão á Moisés, no Monte Sinai, quando Jeová lhe ditou o Decálogo e os demais preceitos contidos na Torá. 
É nesse sentido que os Dez Mandamentos escritos nas tábuas da lei e todas as demais prescrições do Deuteronômio, inclusive as estranhas leis sobre higiene e alimentação que fazem parte dos costumes judaicos não são meras idiosincracias medradas pelo inconsciente de um povo supersticioso e chauvinista, como alguns autores antissemitas propagam. Tratam-se, na verdade, de prescrições ditadas por intuições longamente testadas empiricamente e crenças ancestrais rigorosamente observadas em milênios de prática social e religiosa.
Por isso, cada palavra, cada símbolo, cada alegoria, cada parábola, cada nome, na língua hebraica, e por consequência, na doutrina cabalística, tem o seu significado literal e outro, de natureza iniciática, que encerra um conhecimento de fundo esotérico ou moral. [12]

Cabala Operativa e Cabala especulativa

Historicamente, a Cabala é trabalhada em duas vertentes. A primeira é aquela que nasceu da necessidade de os judeus criarem uma forma de linguagem que servisse de defesa contra o acirrado antissemitismo que se desenvolveu contra o povo de Israel desde as suas origens. Essa rejeição é derivada do fato de os israelitas terem se afastado do convívio com outros grupos em razão das suas crenças um tanto elitistas e de certo modo, chauvinistas, que situam o povo de Israel como um povo especial, eleito por Deus para ser uma espécie de modelo para a humanidade. 

Esse tipo de Cabala, que pode ser chamado de prática ou operativa, hospedava, em princípio, um sistema de alta magia, que tinha por objetivo a invocação dos poderes do mundo sobrenatural para realizar os desejos do operador. É nesse contexto que se situam os milagres, as visões e profecias realizadas pelos antigos profetas do Velho Testamento e as famosas lendas cabalistas que atravessaram séculos e que ainda hoje povoam a imaginação das pessoas, servindo inclusive de fonte de inspiração para formidáveis trabalhos literários.[13]

Mais tarde surgiu outro tipo de Cabala, que podemos chamar de filosófico ou especulativo. Este tipo inspirou um sistema de pensamento e uma disciplina de conduta moral que foram desenvolvidos por um grupo de filósofos, a maioria de origem judaica, a partir do século XII da era cristã, provavelmente na região do Languedoc francês. Embora a temática desse tipo de Cabala aparecesse somente na Idade Média, e seu conteúdo tenha sofrido uma larga influência da Gnose, as raízes dessa doutrina estão fincadas em uma antiga tradição já encontrada entre os rabinos dos tempos bíblicos e utilizada principalmente por grupos sectários judeus nos séculos anteriores ao nascimento de Jesus Cristo. Pode também ser recenseada em obras de escritores esotéricos cristãos nos primeiros séculos do Cristianismo, que a usaram para disfarçar a pregação da doutrina de Jesus, então posta na clandestinidade pelas autoridades judaicas e romanas. 

Um exemplo dessa literatura cristã clandestina, escrita em linguagem simbólica, abusando largamente de fórmulas cabalísticas é o Apocalipse de São João. Essa curiosa obra, que foi escrita para divulgar a doutrina cristã ás Sete Igrejas da Ásia, até hoje desafia a argúcia dos estudiosos, em face da estranha simbologia usada pelo autor. Nessa obra, um dos mais significativos exemplos da técnica cabalística aplicada na linguagem é a que o autor utiliza para designar a enigmática figura da Besta. “E aqui está a sabedoria. Quem tem inteligência calcule o número da Besta. Porque é número de homem. E o número dela é seiscentos e sessenta e seis”, escreve o autor. Esse número (666), correspondia, usando-se a técnica da gematria, ao nome do imperador romano Nero, que justamente na época em que o autor escrevia o Apocalipse havia desencadeado uma feroz perseguição aos cristãos em todos os territórios dominados por Roma. [14]

Entretanto, parece que o uso da Cabala como linguagem de código foi popularizada mesmo pelos essênios, seita judaica radical, que entre os séculos I e II antes do nascimento de Jesus se afastou do convívio social para viver a sua crença em um final apocalíptico para este mundo e a construção de um mundo novo, liderado pelo Messias. Essa seita, cujos documentos foram recentemente recuperados em cavernas situadas ás margens do Mar Morto, é tida como a verdadeira inspiradora do Cristianismo, pois suas doutrinas muito se aproximam daquelas pregadas por Jesus e principalmente por aquele que é considerado como seu verdadeiro mentor, o profeta João Batista.[15]

Uma forma de Gestalt

Como explica Northrop Frye, “há, no Velho Testamento, uma concepção de linguagem que é poética e “hieroglífica”, não no sentido de uma escrita de sinais, mas no sentido de se usarem as palavras como um tipo particular de sinal.” [16] Quer dizer, há, na própria Bíblia, uma visão semiótica toda particular que nos sugere diferentes interpretações para uma mesma palavra, ou de uma frase, que não podem ser conformadas em um único significado.

Destarte, muitas palavras, que na linguagem comum significam uma coisa, na linguagem usada pelos autores desses antigos textos significam coisas muito diferentes, que só podem ser devidamente descodificadas se postas no exato contexto em que viveram os seus autores e recenseadas as suas relações de sentimento e interação com o ambiente e os acontecimentos que fizeram parte da experiência que eles relatam. Referindo-se ainda ao estudo do autor acima citado, verifica-se que nas sociedades antigas há uma interação mais estreita entre o sujeito e o objeto, no sentido de que a ênfase do sentimento experimentado pela pessoa recai mais sobre a relação que a liga ao ambiente do que na própria observação do sentimento em si, coisa que só começou a acontecer depois da experiência grega. Essa característica do pensamento antigo também foi explorada por James Frazer em seu estudo sobre as tradições dos antigos povos, quando se refere ao sentimento do homem primitivo em relação aos seus deuses. É uma relação de simbiose, no sentido de que o homem primitivo não possui um “self” bem desenvolvido, ou seja, um sentimento de si mesmo, independente da divindade que ele cultua. Essa noção, como bem viu esse autor, só seria desenvolvida mais tarde, já nos tempos históricos, pelos gregos, com a cultura do pensamento filosófico. [17]

É nesse sentido que Frye explica o fato de que “muitas sociedades primitivas possuem palavras que expressam essa energia comum á personalidade humana e á natureza circundante e que são intraduzíveis em nossas categorias e correntes de pensamento. (...”). “A articulação das palavras pode dar corpo a este poder comum; daí emana uma forma de magia, em que os elementos verbais, como fórmulas de “feitiço” ou encantamento, ou coisas parecidas, ocupam um papel central. Um corolário desse princípio é o de que pode haver magia em qualquer uso que se faça das palavras. Em tal contexto, as palavras são forças dinâmicas, são palavras de poder.” [18]

O autor em questão cita, á guisa de exemplo, a palavra maná, ou mana, que em Êxodo, 16, aparece como sendo uma espécie de pão que Jeová faz cair do céu para alimentar o faminto povo de Israel no deserto. Essa palavra (man, maná, manes, em várias línguas antigas), refere-se á uma força, ou energia, que se encontra concentrada em objetos ou pessoas e que pode ser adquirida, conferida ou herdada. Na mitologia romana, por exemplo, esse termo conecta-se com o termo “manes”, palavra que designa a influência que os ancestrais mortos podiam exercer sobre os vivos. No Egito antigo falava-se de Menes, que segundo a tradição teria sido o primeiro rei da unificada nação egípcia. Os historiadores suspeitam, no entanto, que esse Menes está conectado com a lenda de Osíris, o deus que teria instituído a civilização entre os egípcios, sendo, portanto, a representação de uma força natural, ligada á importância que o sol, ou o rio Nilo, tinha para esse povo, e não á um personagem histórico.

A Cabala, portanto, é uma forma de Gestalt, ou seja, uma forma de ver o mundo e explicá-lo a partir de um simbolismo todo particular. Reflete o pensamento dos escritores e comentadores da Bíblia, que intuem nas estranhas visões dos profetas bíblicos uma descrição dos planos de Deus para a construção do edifício universal.

O interesse para a Maçonaria

Essa é a visão que interessa á Maçonaria, tradição que integra em sua mística a ideia que o universo é pensado por um Grande Arquiteto e construído pela ação de seus mestres, os arcanjos, e pedreiros, os homens. E escudada nessa visão, desenvolveu um sistema de pensamento e uma prática de vida que vêm deixando indeléveis marcas na história da humanidade. Sócias do mesmo projeto de desenvolvimento espiritual, Cabala e Maçonaria comungam do mesmo simbolismo iniciático e da mesma proposta cultural. Por isso interessa ao maçom conhecer um pouco mais dessa importante tradição de origem judaica, para entender a própria arte em que ele se propôs iniciar. 

[1 A Kabbalah Revelada, pg. 26.
[2]James Anderson- As Constituições- Ed. Fraternidade, 1982.
[3] Piotr Demianovitch. Ouspensky - Um Novo Modelo do Universo, São Paulo, Ed. Pensamento, 1928. Método Iniciático é aquele que proporciona ao estudante das ciências ocultas uma fórmula para estudar o pensamento místico.
[4] Pierre Teilhard de Chardin - O Fenômeno Humano, Ed. Cultrix, 1968. O método fenomenológico de Teilhard de Chardin proporciona ao estudante a possibilidade de entender o mundo como resultado de uma evolução que se processa “por dentro” (espírito) e “por fora” (matéria), por força de dois movimentos existentes na energia. Esses movimentos são o de expansão e de compressão. Quer dizer, o mundo da matéria é formado pela combinação dos átomos (expansão energética) e o mundo espiritual é formado pela compressão da energia em espaços cada vez menores (complexidade-pensamento).
[5] “Sentir” e não entender, pois a experiência cabalística, como a maçônica, é algo que só pode ser absorvida pelos sentidos e não pelo intelecto.
[6] Fulcaneli- O Mistério das Catedrais, Ed. Esfinge, Lisboa, 1964.
[7] Idem, pg. 57
[8] Ibidem, pg. 58
[9] A Kabbalah Revelada, op.citado, pg. 28. A partir da palavra Bereschit (Criação) ele deduziu as frases Ben Ruach Ab Shaloshethem Yechad Themim (O Filho, o Espírito, o Pai, Sua Trindade, Perfeita Unidade); Bekori Rashuni Asher Shamo Yeshuah Thaubado(Adorais meu primeiro-nascido, meu unigênito, cujo nome é Jesus).
[10] A Kabbalah Revelada, op. citado, pg. 32.
[11] Paul Vuliou, citado por Alexandrian, História da Filosofia Oculta, pg. 81 
[12] Assim, Abrão, um nome comum entre os caldeus, ao ter acrescentado um “a” ao seu nome, torna-se Abraão, o “Pai de uma multidão”. Êxodo, 17:4.
[13] Exemplos de temas cabalísticos em obras literárias famosas são as lendas do Golém, que inspiraram a escritora inglesa Mary Shelley na composição do seu clássico romance Frankeinsten. Outras obras, como o Aleph, famoso conto de Jorge Luís Borges, o Golém de Gustav Meirink, e mais recentemente, As Aventuras de Pi, filme vencedor do Oscar em 2012, baseado no romance de Yann Martel, também são inspirados em temas cabalísticos.
[14] Ver, a esse respeito Hugh Schonfield- A Bíblia Estava Certa- Ibrasa, São Paulo, 1958.
[15] Para maiores referências sobre a seita dos essênios e sua influência na história do pensamento maçônico, ver nossa obra “Conhecendo a Arte Real”, publicada pela Ed. Madras, São Paulo, 2009.
[16] Northrop Frye- O Código dos Códigos, Ed. Boitempo, São Paulo, 2004.
[17] Sir James Frazer, “ O Ramo de Ouro”- Zahar Editores, São Paulo, 1982.
[18] Northrop Frye, O Código dos Códigos- citado, pg. 27. Quer dizer, o homem só tomou consciência de si mesmo a partir do momento em que começou a refletir sobre o seu próprio ser. Esse momento, que ocorreu com a civilização grega, pode ser expresso na frase de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”.

João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 10/06/2016 
Alterado em 10/06/2016

O QUE É A CAVALARIA

Texto organizado por José Roberto Cardoso MI - GLMDF

A visão comum que temos da palavra CAVALARIA é a de que se trata de um conjunto de soldados montados a cavalo, o que é verdade, no entanto ela é muito mais ampla do que podemos imaginar e sua origem se faz presente na Idade Média tardia. É uma longa história onde, à princípio, o nome em si, em sua tradução original, tem origem no vocábulo “milite” que era como se chamava o exército romano. 

 CAVALO


O surgimento do cavalo se deu antes do Homo Sapiens e o animal descente de uma linha evolutiva com cerca de milhões de anos quando o seu antecessor, o Hiracohterium tinha apenas 40 cm de altura. Esses antecessores são originários do norte da América, mas foram extintos na região no período do Pleistoceno há cerca de 120.000 anos.

Os cavalos selvagens originais eram de constituição mais robusta do que as raças de membros esguios que existem na atualidade. Há cinquenta milhões de anos atrás, uma pequena criatura semelhante a uma lebre, possuindo quatro dedos nas patas dianteiras e três em cada traseira, corria através de densas e úmidas vegetações rasteiras, alimentando-se de plantas e pastagens. Pelo fato de poder fugir e esconder-se de seus destruidores, o pequeno mamífero conseguiu prosperar. Esse animal era o Fohippus, o antecessor do cavalo moderno.

Poucos animais possuem um registro tão antigo e completo como o cavalo. Através do estudo de sua história, toma-se conhecimento dos efeitos causados pela crescente mudança do meio-ambiente na batalho do animal pela sobrevivência, e das adaptações que foram sendo necessárias durante o processo de sua evolução. Com a mudança gradual do clima, a terra se tornou mais seca, e os pântanos foram cedendo lugar a extensas planícies gramadas. De Fohippus, no espaço de vinte milhões de anos aproximadamente, evoluiu e passou a ser classificado como Mesohippus, maior e mais musculoso, possuindo três dedos e patas mais longas. Seus dentes, foram ligeiramente modificados.

Outros vinte milhões de anos se transcorreram, e apareceu Merychippus, no qual apenas o dedo do meio, bem maior, tocava o solo quando o animal corria, sendo que os dedos laterais, assaz reduzidos em tamanho, eram usados somente em terreno molhado e pantanoso. Esse cavalo tinha o porte de um cão, com dentes notavelmente diferentes: mais adequados para triturar a mastigar. A cabeça possuía maior flexibilidade em sua base, sendo proporcionalmente mais longa do que a de seus antecessores, e assim o animal pastava com mais facilidade.

Pliohippus, o primeiro cavalo de um dedo só, apareceu na época pliocênica. Era um animal adaptado para desenvolver maior velocidade em descampados e pradarias, para evitar a captura. Estava-se, então a um passo do surgimento do Equus, o cavalo moderno, cuja estrutura de pata é formada pelos ossos do dedo central e cuja unha alargou-se enormemente, formando o casco. Equus, pequeno, mais robusto e fértil, capaz de suportar os mais rudes climas, prosperou e espalhou-se pelo mundo.

A evolução do cavalo.

Cavalos, asnos e zebras pertencem à família equídea e caracterizam-se por um dedo funcional em cada pata, o que os situa entre os monodáctilos. As outras duas falanges formam a quartela e o osso metatársico, os quais são ligados pelo machinho, junta que possui grande flexibilidade, e à qual se deve a facilidade que apresenta o animal para amortecer o choque com o solo após saltar grandes obstáculos.

O machinho é responsável também pela capacidade do animal de desenvolver grande velocidade sobre terrenos ondulados e, ainda, por sua habilidade em esquivar-se agilmente de obstáculos, voltar-se sobre si mesmo e correr em sentido oposto, em verdadeiras manobras de fuga. O nascimento dos dentes acontece de maneira a permitir que os mesmos possam ser usados, sem que apresentem qualquer problema, desde o nascimento do animal até que este complete oito anos, aproximadamente.

Os cavalos, de maneira geral, são muito semelhantes em sua forma física, possuindo corpos bem proporcionados, ancas possantes e musculosas e pescoços longos que sustentam as cabeças de acentuada forma triangular. As orelhas são pontudas e móveis, alertas ante qualquer som, e a audição é aguçada. Os olhos, situados na parte mais alta da cabeça e bem separados um do outro, permitem uma visão quase circular e as narinas farejam imediatamente qualquer sinal de perigo. O pelo forma uma crina ao longo do pescoço, possivelmente para proteção. A maioria dos inimigos do animal, membros da família dos felinos, por exemplo, costuma saltar sobre o dorso do cavalo e mordê-lo no pescoço.

Cavalos selvagens foram difundidos na Ásia e Europa em épocas pré-históricas, mas as vastas manadas foram se esgotando através das caçadas e capturas para domesticação

O Tarpan ((cavalo selvagem da Tartária) sobreviveu até 1850 na Ucrânia, Polônia e Hungria, países de onde se originou. Acredita-se que seja o antecessor do cavalo Árabe e de outros puros-sangues. Pequeno, tímido e velos, o Tarpan possuía uma pelagem longa e de tonalidade cinzento-pálida, com uma faixa negra sobre o dorso. A crina era ereta e a cauda coberta por pelos longos e ásperos. Evoluiu durante a época glacial, quando os cavalos que viviam em florestas foram forçados a se deslocar para o sul, onde, então, cruzaram com os animais locais, que viviam em planícies. Desde 1932, esforços têm sido desenvolvidos no sentido de recriar o Tarpan, e vários parques zoológicos já possuem grupos de Tarpans. Os pequenos cavalos representados nas pinturas de cavernas em Lascaux, França, são, quase certamente, Tarpans.

O CAVALO E O HOMEM

Embora voluntarioso, o cavalo se submeteu ao homem que o domou e o utilizou como meio de transporte e também em seus exércitos, em um primeiro momento para puxar os carros de guerra que ficaram conhecidas como bigas utilizadas pelo exército egípcio, antes de Cristo, e mais tarde pelos romanos.


Carro de guerra Egípcio


Biga Romana



Biga Grega


Vários foram os povos que utilizaram os cavalos tanto como meio de transporte quanto como peça de guerra. Alguns cavaleiros, em um primeiro momento, montavam o cavalo sem o estribo e sem arreios, ou seja, “em pelo”, o que exigia muita destreza e treinamento.

Cavaleiros Gregos


Cavaleiro Mameluco

O estribo, ao que parece, foi inventado na Ásia, talvez pelos povos da Mongólia, ele se fazia muito útil na vida de povos dependentes de seus cavalos como eram os povos das Estepes. À partir das Estepes Asiáticas seu uso se difundiu por boa parte da Ásia; tanto que, no século IV a.C., quando Alexandre realizou sua expansão, ao entrar em contato com os exércitos Persas, logo notou a existência do estribo e o adotou em seus cavalos, pode-se dizer que a utilização do estribo pelas tropas de Alexandre deu tanto fôlego à sua cavalaria que talvez tenha sido a responsável pelo assombroso tamanho de suas conquistas. Apesar de Alexandre ser um monarca Europeu, depois de deixar Pela (capital da Macedônia Antiga) para realizar sua expansão, ele nunca mais retornou à Europa, tendo morrido na Babilônia. Sendo assim, depois de sua morte, seu Império fragmentou-se em três grandes Reinos, um Europeu (o qual não conhecia o estribo), outro Africano (que também não o utilizava) e o terceiro Asiático (do qual o estribo continuou sendo parte integrante).

Cavaleiro Otomano


Cavaleiros Árabes

Se observarmos essas duas últimas imagens veremos que os cavaleiros já se utilizam de arreio e estribo.

A civilização começou a se aninhar na mesopotâmia quando vários povos desceram das montanhas e encontram uma terra fértil, cercada de rios e com abundância de frutos. Foi nesse momento que várias tribos se uniram formando os clãs e mais tarde as cidades.

Isso também ocorreu nas estepes (porções de terras situadas entre as montanhas e os desertos da Rússia e da China), onde viviam as tribos mongóis.

Os povos dessas tribos eram exímios cavaleiros e se juntaram por volta do século III d. C e iniciaram uma marcha rumo ao Ocidente, talvez pelo frio ou por qualquer alteração climática.

Eram nômades, mas às vezes se estabeleciam temporariamente em uma determinada região onde saqueavam as cidades e depois de alguns anos continuavam sua marcha.

Em meados do século IV, os Hunos estabeleceram-se ao norte do mar Cáspio. Não tinham condições de avançar mais, pois seu efetivo não se comparava (numericamente falando) ao dos Ostrogodos, que estavam estabelecidos ao norte do Império Romano do Oriente. Porém, essa situação começou a mudar em 372, quando, devido à sua contínua marcha para o oeste, os efetivos Ostrogóticos diminuíram, possibilitando uma investida Huna.

O general Ostrogodo Ermanarico não pode conter a leva de Huno que arrasou seus exércitos e tomou de assalto todas as regiões ao norte do mar Negro e boa parte das regiões à nordeste do Império Romano do Oriente.

Essa expansão dos Hunos fez com que os Ostrogodos pedissem asilo no Império Romano e acabassem, em pouco tempo, preponderando militarmente dentre dele.

Por mais de sessenta anos, os Hunos mantiveram suas posições na Europa Oriental. Radicaram sua principal base na cidade de Szeged, nas margens do rio Tisza, na Hungria e, de lá, controlavam toda a região; até que, em 434, Átila torna-se Rei (título que dividia com seu irmão Bleda). Inicialmente, a atenção dos dois monarcas estava voltada para o Império Persa, porém, aos poucos, eles voltaram seus esforços contra o Império Romano do Oriente, devastando boa parte dos Balcãs em 441.


Em 445, Átila mata seu irmão e co-regente Bleda, tornando-se o único Rei dos Hunos. Esse assassinato fortaleceu o poder dos Hunos que continuaram sua campanha de terror contra o Império Romano. Em 447, o Império Huno estendia-se dos montes Urais, na Rússia, até o rio Rhône, na França. O Império Romano havia feito de tudo para conte-los, mas sua superioridade militar era indiscutível e, sendo assim, não puderam ser detidos.

A superioridade militar dos Hunos residia na utilização de uma peça desconhecida dos povos Europeus da Antigüidade e que só teve se uso difundido na Europa à partir do Reinado de Carlos Magno, nos século VIII e IX: o estribo. O estribo é a peça que se prende à cela do cavalo, na qual o cavaleiro encaixa seus pés. Hoje ele nos parece (àqueles que montam à cavalo) uma peça sem muita importância, mas aqueles que de fato entendem de equitação sabem que, sem ele, perde-se mais da metade da estabilidade sobre o cavalo, além disso, não se pode utilizar uma arma que ocupe as duas mãos, isso por que uma das mãos, necessariamente, precisa servir de apoio ao cavaleiro, ficando assim encarregado de segurar na cela ou nos arreios. Graças ao estribo, os Hunos não só podiam utilizar armas de duas mãos (como lanças), como também podiam portar escudos, ou manejar arcos sem precisarem apear de seus cavalos. Isso fazia deles guerreiros muito perigosos, pois mesmo não podendo contar com armaduras pesadas para protege-los, eles se tornavam mortais devido às armas que utilizavam e à velocidade com que atacavam e fugiam. Nenhuma infantaria Romana era páreo para eles.

Em 451, vendo que não podiam deter os Hunos, os Romanos partiram para uma batalha decisiva, com a ajuda dos Ostrogodos (que apesar de não utilizarem o estribo, eram guerreiros peritos em cavalaria) e de tropas Gaulesas, enfrentaram os homens de Átila na Batalha dos Campos Catalúnios. Essa batalha, decidida em Chalôns, graças à maestria do general Gaulês Aecius, foi uma das mais importantes vitórias do Cristianismo, pois caso os Romanos a tivessem perdido, os Hunos teriam conquistado não só a França, mas toda a Europa, o que poria fim ao Cristianismo, devido à intransigência dos invasores quanto à Religiosidade.

A derrota de Chalôns (onde morreram mais de cem mil pessoas, sendo uma das mais sangrentas dentre todas as batalhas da Antiguidade), apesar de barrar o avanço dos Hunos em direção ao ocidente, não foi definitiva, visto que dois anos depois, em 453, Átila, cujas forças estavam parcialmente recompostas, voltou sua atenção para a Itália, pois sabia que se Roma caísse, todo o Império cairia também.

Em seu mais impressionante reide, Átila devastou diversas cidades Romanas, dentre as quais estavam Aquiléia e Milão. A primeira, uma das mais importantes cidades da Itália na época, foi totalmente destruída; quase todos os seus habitantes foram mortos e as construções foram saqueadas e depredadas. Os poucos sobreviventes do massacre de Aquiléia se refugiaram em algumas ilhotas no extremo nordeste da Itália; onde fundaram Veneza.

Depois de devastar quase toda a Itália do norte e central, Átila chegou às portas de Roma. O Imperador Valentiniano III, vendo que não poderia impedir a tomada da cidade, enviou o Papa Leão I para negociar com os invasores. O Papa foi tão persuasivo e o tributo oferecido por Valentiniano III tão alto, que Átila desistiu de tomar Roma quando estava pronto para fazê-lo.

Retornando para a Hungria, Átila morreu e seu Império foi dividido entre seus diversos filhos. Estes iniciaram uma série interminável de lutas para ver quem seria o novo Imperador dos Hunos. Aproveitando-se da situação, os Germanos (povo que estava submetido aos Hunos), revoltaram-se e, na Batalha de Nedao, em 454, destruíram o poderio dos Hunos na Europa. Derrotados, os Hunos que restaram recuaram em direção à Ásia, estabelecendo-se nas costas do mar de Azov (um pequeno mar ao norte do mar Negro). Lá coexistiram por mais de cem anos, três tribos Hunas: os Utigures, os Kutrigures e os Sabirianos. Em 561, todos os Hunos foram exterminados por uma nova leva migratória vinda da Mongólia, os Ávaros.

Quando os Hunos realizaram sua migração para fora da Mongólia nem todos partiram, alguns permaneceram nas Estepes Asiáticas. Por volta do mesmo período em que, na Europa, Átila operava suas conquistas, esses Hunos, conhecidos como Hunos Brancos, invadiam a Índia e destruíam um Império que lá existia. A partir da Índia, os Hunos Brancos edificaram um gigantesco Império que se estendia desde o mar de Aral, até a Índia, passando por Samarkand e por boa parte do Império Persa (na época, governado pela dinastia Sassânida), do qual se tornaram protetores (uma posição semelhante àquela que os EUA desempenha na América de hoje, ou seja, não manda de fato, mas se faz obedecer por meio de pressões militares e financeiras, no caso dos Hunos Brancos, as pressões eram apenas militares), apesar de não o terem conquistado, uma vez que o Império Persa era forte o suficiente para impedir que isso acontecesse.


O Império dos Hunos Brancos no oriente perdurou até o ano de 527, quando foram vencidos na Índia e expulsos de lá. Como a Índia era o centro de seu poder, todo o seu Império desmoronou, pois os Persas conquistaram as diversas regiões que a eles haviam pertencido. A marcha de fuga dos Hunos Brancos levou-os de volta à Mongólia, onde se depararam com a seguinte situação:

Como já referi, os Turcos também eram um dos povos das Estepes que coexistiam com os Mongóis, ora dominando-os, ora sendo dominados por eles. Nesta época, havia acabado de ruir um Reino Mongol em que os Turcos eram vassalos. Este Reino ruiu devido a uma imensa revolta dos Turcos e, os Mongóis dominantes (como já expliquei no item 2, antes de Gengis Khan unificar a Mongólia, não havia uma única tribo Mongol, mas muitas), no caso os Juan Juan, foram obrigados a fugir para não serem exterminados por seus antigos vassalos.

Os Hunos Brancos e os Juan Juan, por terem interesses em comum, acabaram unindo forças numa nova tentativa de subjugar os Turcos. Porém, foram novamente derrotados, o que os obrigou a fugir. Como todos os povos das Estepes que fogem por algum motivo, os Hunos Brancos e os Juan Juan fugiram para a Europa.

Chegaram à Rússia em 559, onde foram contatados por Justiniano, o Imperador Bizantino. Este contratou esses povos (que por estarem coexistindo há muito tempo, já não pareciam dois povos distintos, sendo assim, foram confundidos pelos Bizantinos como sendo um único povo), os quais ele chamou de Ávaros, para defenderem as fronteiras do Império Bizantino contra os Hunos (que, como vimos, estavam radicados no litoral do mar de Azov e que faziam reides esporádicos ao Império Bizantino) e os Eslavos.


Entre 559 e 561, os Ávaros destruíram totalmente os Hunos, em 562 atravessaram o rio Elba (um importante rio do leste Europeu) e entraram em contato com os Francos. Aos poucos, Hunos Brancos e Juan Juan passaram se reconhecer como um único povo e adotaram o nome que os Bizantinos lhes deram, ou seja, Ávaros.


Os Ávaros também adotavam a nomenclatura Real Mongólica, ou seja, Khan, sendo assim, organizaram seu Canado, que entre 561 e 568, sob o Khan Bayan, expandiu-se, dominando uma vasta região dentro da Europa (desde a Alemanha, a oeste, até Moscou a leste; e desde a Macedônia, ao sul, até a Polônia, ao norte). Depois de 568, o Rei Franco (da dinastia Merovíngia) Sigeberto I, barrou sua expansão e os Ávaros se limitaram a consolidar suas posições na Hungria, além de realizarem reides dentro do Império Bizantino (em 617, estiveram muito perto de tomar Constantinopla).

Entre 622 e 626, uma grande revolta dos Eslavos fez com que o Canado Ávaro diminuísse muito de tamanho. Com efeito, a área ocupada pelo Canado correspondia mais ou menos à Hungria atual. Lá, seu poderio perdurou até o século VIII, quando entre 791 e 797, Carlos Magno derrotou-os e os obrigou a se converterem ao Cristianismo.

Depois de sua conversão, os Ávaros foram perdendo gradativamente suas características de povos das Estepes Asiáticas para se tornarem cada vez mais um povo Europeu. Com o tempo, acabaram absorvidos pelos Eslavos, Búlgaros e Magiares e foram um dos componentes fundadores do Reino (ou Canado) da Bulgária. 

Como já foi mencionado anteriormente, a Mongólia estava dividida em diversas tribos compostas por clãs. Dentre essas tribos, as mais importantes (lembremos que a partir de agora estarei tratando do final do século XII, sendo assim, os Turcos já não mais habitavam a Mongólia, restando nesta os Mongóis e os Tunguzes, etnia de menor expressão sobre a qual não julguei ser necessário destinar um item) eram os Tártaros, os Keraites, os Markites, os Naimanes, os Quirquizes, os Mongóis e os Oirates.

Três dessas tribos, os Keraites, os Tártaros e os Naimanes, dominavam as demais, sendo, de fato, preponderantes na época do nascimento de Gengis Khan.

Na Mongólia, estava começando a ocorrer uma nova situação política dentro das tribos. Os clãs se tornavam cada vez mais independentes e, sendo assim, os clãs mais poderosos constituíam verdadeiras tribos menores, sob a vassalagem da tribo. Essa situação ocasionava uma espécie de Feudalismo nômade, uma vez que os grandes clãs possuíam muitos homens (o chefe, seus filhos e seus servos), que podiam lutar pelo Khan da tribo, numa espécie de código de cavalaria.

Foi dentro desse mundo que nasceu, em 1155 (ou 1156), Gengis Khan, aliás, esse não era seu nome, ele se chamava Temudjin, e era filho de Yasugai, chefe do poderoso clã Borjingin, vassalo da tribo dos Keraites. Notem que Temudjin era filho da principal mulher de seu pai, isso porque havia uma hierarquia entre as mulheres do chefe do clã e, sendo assim, os filhos desta estavam mais propensos a herdar uma maior quantidade de bens do pai.

Quando Temudjin ainda era uma criança, os Keraites entraram em guerra contra os Tártaros. Yasugai, o pai de Temudjin, acabou morto envenenado, deixando-o órfão (é bom lembrar que Temudjin não era filho único). Com a morte do chefe do clã, seus filhos herdam suas mulheres e seus bens, porém, a mãe de Temudjin, foi dada em casamento a Toghril, o Khan dos Keraites. Este adotou o garoto e seus irmãos e cuidou deles como filhos, tanto que, Temudjin o chamava de pai.

A infância de Temudjin foi marcda por muitos reveses, o primeiro deles foi a morte do pai, depois, seus irmãos mais velhos (filhos das outras mulheres de seu pai), ao repartirem a herança, por terem raiva da mulher principal do pai (mãe de Temudjin), não só não aceitaram-na como esposa, como também destituíram-na de tudo o que possuía, deixando Temudjin, sua mãe e seus irmãos, na mais profunda miséria.

A situação começou a melhorar quando, talvez por dó, talvez por gratidão a Yasugai, Toghril casou-se com a mãe de Temudjin. Vivendo como um dos filhos do Khan, o jovem rapidamente adquiriu paixão pelos assuntos políticos de sua tribo, e começou a se tornar um grande líder. 



Gengis Khan foi um guerreiro, 
não só um governante 

Depois de se casar, Temudjin deixou de fazer parte do clã de Toghril para criar o seu próprio (fato que ocorria com todos os homens importantes que se casavam, veremos no item sobre a pirâmide social, que os homens de classe mais baixa não tinham recursos para formar um clã, sendo assim, mesmo se casando, faziam parte do clã de algum homem mais abastado, eram os chamados servos), mas continuou como vassalo do Khan dos Keraites.

O clã de Temudjin se tornou muito numeroso (pois por possuir muitos recursos, ele se casou com várias mulheres tendo vários filhos) e, portanto, poderoso.

Tendo participado de várias batalhas, Temudjin se tornou não só um grande guerreiro, mas também um grande tático, um general de fato. Sendo assim, percebeu que os exércitos dos clãs eram mal organizados e, dessa forma, estruturou os exércitos de seu clã de uma forma mais eficiente. Temudjin fez valer os laços de vassalagem que possuía com os clãs de seus filhos (agora, muitos deles, crescidos e, alguns, casados, tendo formado outros clãs), dessa maneira, ele podia contar em tempo integral com uma guarda pessoal dividida em turnos e com mensageiros que, em pouco tempo, podiam convocar seus vassalos para a luta.

O poder crescente de Temudjin rendeu-lhe muito prestígio e popularidade, o que começou a despertar a ira de seu padrasto, Toghril. Este, ao que parece, começou a conspirar contra Temudjin e a arquitetar seu assassinato. Essa situação gerou uma grande rivalidade entre os dois e, por volta de 1200, Temudijn e Toghril se bateram no campo de batalha. A guerra entre os dois foi uma espécie de guerra civil dentro da tribo dos Keraites; e Toghril, apesar de possuir mais homens à sua disposição, perdeu para as táticas de Temudjin. O Khan Keraite, um velho de mais de 60 anos, foi morto e seu clã destruído.

A derrota do Khan dos Keraite fez de Temudjin, agora com cerca de 45 anos, o novo Khan dessa tribo, sendo assim, o ápice de sua pirâmide social, seu suserano. Nessa qualidade, Temudjin organizou todos os clãs Keraites da mesma forma que outrora havia organizado os clãs que lhes eram vassalos. Com efeito, a ascenção de Temudjin ao poder na tribo Keraite, acabou com o Feudalismo nômade em que ela estava mergulhada e transformou-a numa espécie de Estado nômade.

Depois de obter sucesso em controlar sua tribo, Temudjin retomou as guerras contra as outras tribos Mongólicas. Entre 1204 e 1206, todas as grandes tribos das Estepes haviam sido conquistadas por Temudjin.

O soberano Keraite não havia unido as tribos derrotadas à sua, mas apenas colocado-as sob a sua suserania, dessa forma, ele havia dominado os outros Khans da Mongólia, o que lhe valeu o apelido de Grande Khan, ou seja, Gengis Khan.

Em 1206, Gengis Khan reuniu os Khans derrotados (que a partir de agora chamarei de Príncipes Mongóis) e organizou o Quriltai, uma espécie de assembléia de Príncipes, que o elegeu Khagan da Mongólia, ou seja, Khan dos Khans, Grande Khan, algo equivalente a Imperador.

A eleição de Gengis Khan teve a pompa de uma verdadeira sagração Imperial, uma vez que o grande Xamã (sacerdote de religiões animistas, como era a Mongólica e que estudaremos mais adiante) Kokchu, que estava presente, proclamou o seguinte: "Mongka Koko Tengri (o Eterno Céu Azul, principal Deus do panteão Mongol) acaba de nomear Gengis Khan como seu representante na Terra". Essa frase teve um impacto importante nas populações Mongóis, pois elevava Gengis Khan a uma categoria de semi-divindade. Seu clã, o Borjingin (que apesar de ter cessado de existir após a morte de seu pai, havia sido recomposto por ele quando se casou pela primeira vez) se tornou sagrado e foi declarado como sendo o Altan Uruk, ou seja, a Família de Ouro; além disso, o clã de Gengis Khan se tornou oficialmente o ápice da sociedade Mongol, sendo assim, todos os demais clãs estavam submetidos a ele. Na prática, isso foi algo como a unificação da Mongólia, pois criou-se uma estrutura social na qual acima das tribos (que continuavam chefiadas por seus Khans), estabelecia-se o país, governado pelo Khagan.

Ao que parece, depois que Gengis Khan foi eleito como Khagan, não se foi mais falado no nome das tribos, mas apenas em um povo unitário, algo compreensível, uma vez que, pela primeira vez, a Mongólia estava unificada sob um só governante, sendo assim, precisava criar uma identidade nacional, o que seria em muito ajudado por um nome em comum. O nome adotado foi o de Tártaros, ou Mongóis (notem que o nome Tártaros pode ser pelo fato de aquela tribo ser a mais numerosa na região, enquanto que o nome Mongóis, muito provavelmente começou a ser utilizado depois da conquista da China, uma vez que os Chineses se referiam assim aos povos da Mongólia).

Depois de sua sagração Imperial, Gengis Khan se esforçou para submeter os últimos povos Mongóis que ainda eram independentes: os Oirates e os Quirquizes, feito operado entre 1206 e 1209.

Quando, em 1209, todos os povos nômades da Mongólia estavam sob a autoridade de Gengis Khan, este, agora com cerca de 55 anos, julgou necessária a construção de um posto militar fixo para seus exércitos, este posto foi construído no lugar habitado pelos Naimanes e foi nomeado Caracórum (notem que Caracórum ainda não era uma cidade, como alguns dizem, mas apenas uma espécie de grande quartel general dos Mongóis, onde não só se reuniam os exércitos, como também se armazenavam armas e mantimentos, apesar disso, não é um erro dizer que Caracórum era a capital do Império Mongol).

Tomamos a história dos mongóis como exemplo embora soubéssemos que os povos mais antigos já se utilizavam dos cavalos em seus exércitos, pelo simples fato de que eram exímios cavaleiros e formavam uma cavalaria de excelência.

Os chineses, vizinhos dos mongóis, também eram excelentes cavaleiros e, tão bem como eles, manejavam com maestria o arco e a flecha.


Cavaleiro couraçado chinês

A CAVALARIA

Cavalaria é a arma das forças terrestres que, antigamente se destinava ao combate a cavalo, em ações de choque ou de reconhecimento. Historicamente, a cavalaria é a arma mais móvel dos exércitos e a segunda mais antiga - a seguir à infantaria.

A noção de cavalaria é mais complexa e multifacetada do que se imagina. Se salientarmos somente o aspecto puramente militar do guerreiro a cavalo, podemos ser levados a confundir os significados de cavalaria. Seria preciso, nesse caso, falar de cavalaria carolíngia, merovíngia, até romana e, por que não, bárbara, cítica ou sármata. O historiador italiano Franco Cardini demonstrou toda a importância que tinham, para os povos das estepes, a cavalaria pesadamente armada e os valores guerreiros que lhe eram associados: o culto do cavalo e da espada, a veneração da força física, da coragem e o menosprezo da morte, etc. Esses valores oriundos das estepes foram transmitidos aos invasores “bárbaros” da Europa ocidental e se encontram, ligados a outros traços germânicos, como a devoção pessoal ao rei-chefe da tribo, na sociedade guerreira, que caracteriza as novas realezas surgidas do desmembramento do Império Romano. Mas, ele também demonstrou que a presença desses traços não basta para caracterizar a cavalaria. Ela nasce em um contexto histórico político-social particular que Georges Duby e eu mesmo, entre outros, tentamos precisar. Ela, de fato, possui elos estreitos com a vassalagem que se instaura, certamente, desde antes do desaparecimento do Império Romano no Ocidente, mas também com o declínio da autoridade dos reis, depois dos condes, decorrente da desintegração do Império Carolíngio, com a formação das castelanias que marcam o início da chamada época feudal, com as tentativas da Igreja de inculcar nesses guerreiros uma ética ou, ao menos, regras de conduta que limitassem a violência e seus efeitos sobre as populações desarmadas; e com alguns outros fenômenos da sociedade que abordaremos mais adiante. Ora, a maioria desses elementos quase não aparece antes do ano 1.000. Não é, portanto, sábio falar de cavalaria antes dessa data.[1]

Seria dizer com isso que a cavalaria é apenas um subproduto do que chamamos de a “mutação do ano 1.000” e que não teria aparecido sem ela? Seria ir longe demais. A existência da cavalaria, tal como é compreendida neste livro, não está totalmente vinculada à mutação feudal, e o estudo que é feito dela tampouco está totalmente vinculado à tese “mutacionista”, que encontra hoje alguns detratores zelosos, embora, às vezes, um pouco excessivos. Convém aqui nos explicarmos sumariamente. A tese mutacionista, resultante de obras de história regional, que seriam muitas para serem enumeradas, de Georges Duby a Jacques Le Golf e Pierre Toubert, passando por Pierre Bonnassie e a maior parte dos melhores historiadores do pós-guerra, ressalta uma profunda ruptura que teria ocorrido por volta do ano 1.000 na sociedade ocidental, principalmente na França. Podemos, com o risco que comporta todo resumo desse tipo, esquematiza-la, limitando-nos aos aspectos que dizem respeito diretamente à cavalaria, da seguinte forma: o declínio da autoridade do rei, já perceptível no final do século IX, teria sido acompanhado pelo declínio dos principados e dos condados, e pela emancipação política, militar, administrativa e judiciária, mais ou menos profunda e rápida, conforme as regiões, de seus subordinados, os castelões cercados de seus milites, os cavaleiros. Essa emancipação é acompanhada por tumultos e exações, que não se relacionam a causas externas (guerras ou invasões, por exemplo), mas à pressão e mesmo à opressão dos cavaleiros. Estes, oriundos das falanges internas da aristocracia ou de meios mais humildes ainda, aproveitam-se da ausência da autoridade pública forte para impor às populações camponesas, por meio da força de suas armas, costumes, taxas e impostos que eles cobram desses povos desarmados, em nome dos senhores condes e castelões. Em torno do ano 1000, forma-se assim uma nova classe social que cavalga: a classe dos cavaleiros, os milites, que aparecem cada vez com mais frequência nos textos dessa época, demonstrando a militarização da sociedade desse tempo. Isentos dessas diversas taxações, eles se separam da massa camponesa e se aproximam da aristocracia; tentam fundir-se com a nobreza e conseguem isso em datas que variam conforme as regiões. Esses direitos, taxas e “maus costumes”, que se arrogam os senhores, a pretexto de proteger a população desarmada, por meio da força de seus próprios guerreiros (de onde o termo de senhoria banal que a designa, do termo ban= autoridade ligada à detenção da força armada), são impostos de fato a todos os habitantes do distrito castelão, sejam eles livres ou não, sujeitos do senhor proprietário fundiário ou colonos, isto é, proprietários das terras que eles cultivam. Assim, pela extensão da senhoria banal e do poder feudal, a diferença social que outrora separava os livres dos não-livres, ameniza-se em benefício de uma nova divisão, que isola aqueles que portam as armas (os milites) daqueles que são desprovidos delas, as massas camponesas, livres ou não-livres (imermes).[2]

Cavaleiros Cruzados


Cavaleiro Medieval

Essa tese mutacionista recentemente foi objeto de algumas críticas às vezes fundadas, muitas vezes excessivas, a exemplo de Dominique Barthélémy. Para ele, não teria havido, por volta do ano 1000, nem crise castelão, nem crise social, nem formação de uma classe nova de cavaleiros. O brusco surgimento, bem real, do termo milites nas atas, e cartas principalmente, não significaria de forma alguma o crescimento de uma nova categoria social, ele traduziria uma simples mudança nos hábitos redacionais dos escribas, simplesmente uma revolução no nível do vocabulário; miles (cavaleiro) teria apenas substituído vassus (vassalo). Não se deveria, por outro lado, insistir na ruptura, no declínio de autoridade sobre os distúrbios “feudais”, mas, pelo contrário, salientar a continuidade, minimizar as exações e as guerras particulares. Analisando essa perspectiva, a cavalaria resultaria apenas de um confisco qualquer de migalhas do poder por guerreiros de origem relativamente humilde que tentavam se unir à nobreza. A cavalaria, desde sua origem, confundia-se com a nobreza e com o poder, não apenas porque as palavras milites e nobiles seriam intercambiáveis, mas porque o termo cavalaria, que se aplicaria a toda a aristocracia, nada mais seria que um termo que designava o direito de governar. A aristocracia o compartilhava com o rei que, nessa perspectiva, teria somente um pouco mais de “cavalaria” que os outros. Cavalaria, nobreza, aristocracia e poder seriam, no fundo, para simplificar a mesma coisa.[3]

Outra percepção da cavalaria é expressa por Karl-Ferdinand Werner. Para ele a cavalaria não seria de origem germânica e guerreira, mas de origem administrativa romana. Haveria assim continuidade entre a milícia da época imperial cristã e a cavalaria, designada também por esse mesmo termo. No Baixo Império, essa palavra se aplica ao conjunto do serviço público, administrativo, hierarquizado e disciplinado, segundo o modelo militar. A entrega do cingulum militiae (que mais tarde, acredita-se, marcará a investidura dos cavaleiros) significaria, portanto, a entrada no serviço do Estado, em um nível elevado do exercício da função pública, muito mais que a entrada de um soldado ordinário no Exército.[4]

A essas diversas concepções sobre a cavalaria permitam-me acrescentar a minha. Ela, na minha concepção, coincide em muitos pontos com a tese mutacionista, principalmente em sua descrição (que parece bem fundada) do crescimento das castelanias, sem, todavia, confundir-se com ela; admite algumas das críticas da segunda sem, no entanto, segui-la em seu conceito globalizante da cavalaria assimilada ao poder e ao direito de reinar – menos ainda na noção dos “graus diversos de cavalaria”, avatar supremo dessa confusão. Minha concepção aceita uma parte da terceira, principalmente a que vincula ao serviço público (ou ao que resta dele) a entrega das armas àqueles que governam em seu nome, sem com isso aceitar a ideia de uma real continuidade entre as instituições romanas e a cavalaria. Coincidem a cavalaria resultante da fusão lenta e progressiva, na sociedade aristocrática e guerreira que se implanta entre o fim do século X e o fim do século XI, de muitos elementos de ordem política, militar, cultural, religiosa, ética e ideológica. Esses elementos fornecem, pouco a pouco, à entidade essencialmente guerreira na origem, os traços característicos do que ela se torna aos olhos de todos no decorrer do século XII: a cavalaria, a nobre corporação de guerreiros de elite, a ponto de se transformar em corporação de nobres cavaleiros, com uma ética que lhe é própria e, antes de se tornar uma instituição moral, uma ideologia e até um mito.[5]


Como podemos ver a Cavalaria, embora pudesse ser o conjunto de homens armados e montados à cavalo, teve sua origem na palavra milites que era o exército romano ou como mais tarde ficou conhecida como sendo uma organização de servidores públicos nas mais diversas funções e que também, nos tempos atuais, vem dar sentido às palavras militar e militante, na idade média alta, passou a ter “cavaleiros” nobres que não montavam à cavalo, mas que assim eram nomeados por homenagem a atos de bravura ou por vontade da Igreja em tê-los como vassalos por interesse em se proteger e em manter o poder.


Normalmente esses “cavaleiros” eram nobres que detinham sobre seu poder pequenos exércitos que se juntavam quando solicitada a sua presença pelo rei ou príncipe ou outra figura da nobreza.

A constituição desses nobres em “cavaleiros” era feita através de sagração por um membro da igreja ou pelo próprio Papa e recebiam títulos pomposos que davam um charme especial. Na história fabulosa do rei Arthur vemos um conjunto de guerreiros que eram intitulados “Cavaleiros da Távola Redonda” e assim por diante. Nesse caso eram sagrados por bravura, mas quase sempre o era por interesses outros como já foi dito.

E essa tradição nós adotamos na maçonaria, nos graus filosóficos, quando alguém busca na história um determinado título e o insere no rito, por exemplo: “Cavaleiro Rosa Cruz”, que é um grau dos chamados filosóficos do REAA.

Esses graus são também concedidos mediante sagração, de forma simbólica, entre os maçons.

Como disse no início do presente texto, esta pesquisa tem por finalidade a apresentação de um resumo sobre a história da cavalaria na maçonaria. Há inúmeros livros a respeito do assunto e um bem interessante do qual inseri uma pequena parte neste trabalho é “A CAVALARIA” – Origem dos Nobres Guerreiros da Idade Média”, editado pela Madras e de autoria de Jean Flori.


Bibliiografia:
- Wilkipedia
- Jean Flori – A CAVALARIA – Origem dos Nobres Guerreiros da Idade Média - Editora Madras



Notas.

[1] Jean Flori – A CAVALARIA – Editora Madras 

[2] Idem 

[3] Ibidem 

[4] Ibidem 

[5] Ibidem