quarta-feira, 1 de julho de 2015



A ÁRVORE DA VIDA- CAP. 1


                                                                                                 Autor: João Anatalino

A ÁRVORE DA VIDA


Dizem os cientistas que o universo começou com a explosão de um corpo celeste que concentrava uma inimaginável quantidade de energia. Que corpo era esse e que energia era essa ninguém foi ainda capaz de definir. Os cientistas chamam esse corpo de Singularidade Inicial.(1) Os religiosos chamam de Deus. Por isso, os livros sagrados de todas as religiões do mundo, sejam elas reveladas ou metafísicas, sustentam que o universo começou pela ação de uma divindade, que de alguma forma, deu início a todas as realidades cósmicas.(2)
A Bíblia, por exemplo, diz que Deus fez o mundo tirando a luz das trevas. E quando viu que a luz era boa, ele fez o restante do universo com ela. (3) 

Essa visão bíblica de maneira nenhuma contrasta com as modernas teorias cientificas que mostram um universo nascendo de um átomo primordial que não podendo conter em si a formidável densidade energética que acumulou, explodiu, enchendo de luz o vazio cósmico. E a luz, por um processo de condensação, se transformou no universo como hoje o conhecemos. 

Galáxias, estrelas, planetas, são condensações de luz. Como disse Newton, se a gravidade fosse retirada do universo, a luz também desapareceria e todo o universo desabaria sobre si mesmo.

Hawking nos mostra que existem no universo duas leis que regem a sua formação: a lei da expansão, que é a energia primária que emanou do Big-Bang, e a lei da retração, que faz o universo se retrair e concentrar-se em sistemas. A explosão inicial fez a luz viajar em todas as direções e desde então o universo está em constante expansão. Essa força, essa energia inicial atua de acordo com a lei da relatividade.Esta provoca no universo um imenso caos, pois a luz, viajando em todas as direções, não tem direção nem organização, como quando uma bomba explode e atira fragmentos de energia para todos os lados. Já a lei da gravidade organiza esse caos impedindo universo se comporte como uma manada de bois estourada, correndo em todas as direções. Por ela, a força inicial, que impele o universo a uma incontrolável expansão, é controlada através de uma retração, ou seja, uma força que atua no sentido contrário à expansão, forçando corpos maiores a reter em suas órbitas os corpos menores, formando assim os sistemas cósmicos, ou seja, as nebulosas, as galáxias e os sistemas solares com seus planetas e os planetas com seus satélites.(4)

Nasce dessa forma a organização cósmica, da mesma forma que a matéria bruta e a matéria orgânica também assim se organizam. A primeira é feita de átomos, os átomos se juntam para formar moléculas e as moléculas se juntam para formar os elementos químicos. Da mesma forma, a matéria orgânica se forma a partir de células que se juntam para formar moléculas e estas se reúnem em sistemas. 

Assim, relatividade e gravidade são duas forças contrastantes que “lutam” no infinito cósmico, mas não são conflitantes, pois elas se complementam, promovendo o equilíbrio universal. Na filosofia chinesa essa força é chamada de Tao, equilíbrio entre masculino/feminino, ou yang/yin. Essas forças são como as margens de um rio. Uma precisa da outra para manter a torrente em equilíbrio. Da mesma forma que sem duas margens antagônicas não existe rio, também sem relatividade e gravidade não existiria o universo.

Isso mostra que só pode haver equilíbrio na presença de duas forças semelhantes. E Criação também. Na dinâmica da Bíblia, a criação divina precisou de duas forças contrárias para dar início à criação. A Luz e as Trevas. E simbolizou uma delas como noite, outra como dia. Ou, para dar símbolos mais precisos à essas forças, deu o nome à uma de sol, à outra de lua. Na dialética da ciência, essas forças podem ser representadas como sendo a eletricidade e o magnetismo. Através da eletricidade (O Pai), energia masculina, a força, a potência do Criador vai se espalhando pelo vazio cósmico, levando o “esperma” divino ao “útero” do universo. Esse útero recebe esse “esperma”, através do magnetismo natural(A Mãe) que existe em todos os corpos celestes, e é esse encontro, essa união entre eletricidade e magnetismo que formata as realidades universais (O Filho). Assim, o magnetismo é a mãe, ou seja a correspondência feminina necessária para o nascimento do universo físico, que é "filho da eletricidade com o magnetismo.". Repete-se assim, nas leis físicas e químicas, o mesmo processo utilizado pela natureza para a formação da vida. 

Na Cabala, essas três primeiras realidades universais correspondem às três primeiras séfiras, chamadas Kether, a coroa, Chokmah, a Sabedoria, e Binah, a Inteligência.

Assim, para entendermos corretamente a Árvore da Vida, é preciso ter em mente que ela simboliza a vida do universo e do homem. Ela mostra como tudo se forma e evolui. 

_____________________________________________________________

(1) Stephen Hawking- O Universo Numa Casca de Nóz.
(2) Gênesis 1;2,3
(3) Idem, 
(4) Stephen Hawking, op citado.


João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 26/03/2010
Reeditado em 09/04/2010
Código do texto: T2160998 
Classificação de conteúdo: seguro



O SACRIFÍCIO DE JEFTÉ

                                                                                                             Autor: João Anatalino


Quem costuma ler o Velho Testamento conhece a história de Jefté. Ela está no Livro dos Juízes.

Aconteceu no tempo em que Israel ainda não era uma nação organizada, não tinha um exército nem um governo centralizado que pudesse tomar decisões de estado. As tribos israelitas haviam chegado recentemente de seu cativeiro no Egito e estavam ocupando, gradativamente, as terras palestinas. Mas os povos que já habitavam aquelas terras, naturalmente, viviam em guerra contra os israelitas. Lá viviam cananeus, jebuseus, amonitas, amorreus, moabitas,amalecitas dezenas de outras tribos. 

Assim, os conflitos eram freqüentes. Os israelitas para se defender sempre escolhiam, entre os ho-mens mais valentes das doze tribos que compunham o seu povo, um líder. Esse líder era chamado de Juiz. Era juiz porque em tempos de paz ele julgava as querelas que surgiam entre os israelitas, e nos tempos de guerra ele chefiava as forças da nação contra os inimigos.

Jefté era um sujeito valente que pertencia á tribo de Galaad, uma das doze tribos de Israel. Seu pai era o patriarca da tribo e sua mãe era uma prostituta. Jefté foi criado com seus irmãos, filhos da esposa legítima de Galaad, mas quando o velho patriarca morreu, seus irmãos o expulsaram de casa pelo fato de ele não ser filho da legítima esposa do patriarca. Literalmente, ele era um “filho de puta”, que não merecia ser herdeiro do patriarca.

Jefté deixou a casa de seus irmãos e se juntou aos bandoleiros que habitavam na montanha de Tob. Esses eram bandidos que viviam de assaltar caravanas e fazendas, coisa muito comum na Israel daqueles dias. 

Próximo das terras onde habitava o povo de Galaad habitava uma tribo não israelita, muito belicosa, chamada povo de Amon. Eles resolveram expulsar a tribo de Gallaad daquelas terras e começaram uma guerra contra eles. 

O povo de Galaad se defendeu bravamente, mas sem uma liderança competente, logo viu que ia ser derrotado. Depois de várias derrotas eles se sentiram muito ameaçados e foram buscar Jefté para liderá-los na guerra contra os amonitas.

Jefté concordou, mas exigiu ser o chefe supremo da tribo, assim que ele derrotasse os inimigos. O povo concordou e ele montou uma força militar capaz de enfrentar os amonitas. Em princípio, ven-do que seu exército era mais fraco do que o de Amon, Jefté tentou negociar com o rei daquele país uma paz aceitável para os dois povos, mas não teve sucesso. Então ele resolveu ir para a guerra total contra o inimigo. 

Todavia, os amonitas eram muito fortes e Jefté não tinha certeza se podia derrotá-los. Então fez uma promessa á Jeová: “Se tu entregares em minhas mãos os filhos de Amon, a primeira pessoa, seja ela quem for, que sair das portas da minha casa, quando eu voltar vitorioso desta guerra, eu oferecei ao Senhor em holocausto.”

Naquele tempo era uma prática comum o sacrifício humano entre as tribos que habitavam a Pales-tina. Mesmo entre os israelitas esse bárbaro costume era aceito, pois o próprio Abraão, primeiro patriarca desse povo, não teve dúvidas em oferecer seu único filho Isaac em holocausto á Jeová, quando Ele o pediu. Na última hora, porém, Jeová desistiu da vida do menino e contentou-se com um carneiro. Na verdade, Ele só queria saber se Abraão era mesmo fiel... Assim, Jefté não viu ne-nhum mal em prometer um sacrifício humano à Jeová, pois se Ele o atendesse e lhe concedesse a vitória, era sinal que Ele o havia aceitado. 

Dessa forma, Jefté prometeu que sacrificaria alguém de sua casa (parente ou escravo), se Jeová lhe concedesse a vitória contra os inimigos. E assim aconteceu. Jefté venceu e arrasou os amonitas de tal forma que eles nunca mais perturbaram os israelitas. 

Só que Jefté pagou um preço bem alto por isso. Pois a primeira pessoa que saiu da sua casa para saudá-lo quando ele voltou foi a sua única filha, uma bela menina, ainda virgem. Jefté ficou deses-perado, mas promessa é promessa. Jefté teve que sacrificá-la. Antes, porém, da degola ou da fo-gueira (a Biblia não diz como a menina foi sacrificada), ele contou para a menina o voto insensato que havia feito. E a garota, (que outra coisa não podia mesmo fazer), concordou em ser sacrificada, mas como era virgem, pediu ao pai que a deixasse chorar por dois meses a sua virgindade. E durante dois meses ela perambulou pelos montes, acompanhada de outras meninas da mesma idade, cho-rando o fato de ter que morrer virgem. 

Daí em diante, tornou-se tradição em Israel que a mocinhas ainda virgens, passassem dois meses nos campos chorando pela filha de Jefté. 

Depois disso Jefté tornou-se líder oficial dos israelitas e conduziu-os a muitas outras vitórias. Julgou o povo de Israel durante seis anos e teve que lutar contra os próprios conterrâneos da tribo de Efrain, os quais expulsaram de suas terras. Segundo a Bíblia ele mandou degolar quarenta e dois mil efrainitas que não conseguiam pronunciar a palavra de passe que ele havia criado como senha para diferenciar entre os homens de Galaad e e Efrain. 

Estranha história essa que a Bíblia nos conta. Se fôssemos interpretá-la literalmente diríamos que esse Jefté foi um “filho de puta” que além de sacrificar a própria filha para conseguir um bom re-sultado para si próprio, também devia ser maçom. Pois foi ele que inventou a palavra de passe Schibbolet (espiga), que os maçons usam como senha em dos seus graus. Essa era a senha que os efrainitas não conseguiam pronunciar, por isso tiveram suas gargantas cortadas. Realmente uma história bem a gosto dos Irmãos Três Pontos.

Mas não julguemos as coisas assim tão precipitadamente. As histórias da Bíblia nunca devem ser interpretadas literalmente. Por trás delas tem muita coisa para ser contada. Aguardem. 
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Bíblia Sagrada-Velho Testamento- Livro dos Juízes, 11:12, Edição Organizada pelo P. Matos Soares.


João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 10/06/2010
Reeditado em 29/06/2010
Código do texto: T2312446 
Classificação de conteúdo: seguro

A MAÇONARIA E AS SANTAS CASAS DE MISERICÓRDIAS

                                                                                                Autor: João Anatalino

BREVE RESUMO HISTÓRICO

“ Os soldados hospitalares, que renunciaram à sua própria vontade, e aos demais,que servem por tempo assinalado,lhes mandamos com todo encarecimento, que, sem Licença do Mestre, se não atrevam a sair do lugar, salvo para ir ao Santo Sepulcro, e aos Santos Lugares, que se visitam dentro dos muros da cidade.” Regra 35 – Regula pauperum Commilitonum Templi in Sancta Civitae.
(Regra dos Cavaleiros Templários). – Templários- Os Cavaleiros de Deus Edward B. Burman

OS CRUZADOS

No ano de 1099 o exército cruzado conquistou Jerusalém e um reino cristão foi fundado na Terra Santa. A Europa estava mergulhada na miséria e na ignorância. Aventureiros de todos os cantos da cristandade passaram a ver no Oriente Médio uma oportunidade para uma vida melhor. Uma multidão de peregrinos cristãos desembarca na Palestina, provocando nos habitantes locais, muçulmanos em sua esmagadora maioria, uma onde de protesto e violência sem paralelo na história. Os doentes e os feridos se amontoavam nas cidades. 

Para resolver a questão da proteção aos peregrinos que buscavam a terra santa para viver, ou mesmo somente para visitar os lugares santos, foi fundada a Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, mais conhecida como Ordem dos Templários. E para tratar dos doentes e dos feridos, foi fundada a Ordem dos Cavaleiros do Hospital de São João, conhecida popularmente como Ordem dos Hospitálários. 

Enquanto os cavaleiros templários estabeleceram sua sede nas ruínas do antigo Templo, os hospitalários montaram a sua num mosteiro pertencente à Ordem dos Beneditinos, uma vez que era essa ordem que prestava, já desde o início das Cruzadas, serviços médicos á multidão de cristãos que se deslocaram para a Terra Santa por causa desse movimento. Esse mosteiro, conhecido como Hospital cruzado, foi fundado pelo monge beneditino, João, O Esmoleiro, filho do rei de Rodes, que havia chegado junto com os primeiros cruzados a Jerusalém. Esse hospital recebeu o nome de Hospital dos Cavaleiros de São João Batista, e pode-se dizer que foi o primeiro hospital filantrópico do mundo. 

Com a fundação da Ordem dos Hospitalários, a direção desse hospital passou para esses irmãos. Á semelhança da Ordem dos Templários, os irmãos hospitalários também cresceram e se tornaram muito poderosos, tanto política quanto economicamente. Mas diferentemente dos seus congêneres templários, os cavaleiros do Hospital de São João se mantiveram fiéis aos seus propósitos e nunca se desviaram da sua missão institucional, que era a construção e a manutenção de hospitais e proporcionar asilo e abrigo à pobreza necessitada.

Com o fim das Cruzadas, os Irmãos do Hospital de São João deixaram a Terra Santa e se estabeleceram em Rodes. A partir dessa ilha se espalharam por todo o mundo cristão, fundando asilos e hospitais, tornando-se a principal referência em serviços médicos e filantropia em toda a Europa Ocidental. Em razão disso jamais foram incomodados pela Igreja, que, ao contrário dos cavaleiros templários, sofreu feroz perseguição em princípios do século XIV, que ocasionou, inclusive, a extinção da Ordem em 1314 e à morte na fogueira dos seus principais lideres, inclusive o seu Grão-Mestre, Jacques de Molay. 

OS TEMPLÁRIOS E HOSPITALÁRIOS EM PORTUGAL

Muitos cavaleiros templários, para escapar da perseguição que lhes movia a Igreja, se filiaram aos hospitalários. O recém criado reino de Portugal foi um dos territórios onde esses proscritos cavaleiros se homiziaram. Em terras portuguesas, o jovem rei Afonso Henriques lhes deu asilo e proteção. Em troca, os Cavaleiros do Hospital de São João lhe prestaram uma preciosa ajuda na campanha de reconquista que o primeiro monarca português empreendeu contra os mouros, recuperando para a cristandade esse importante território que hoje abriga a pátria portuguesa.

Afonso Henriques era Cavaleiro Templário, como ele próprio afirma, em carta que assinou em 1129, doando à Ordem do Templo, entre outros bens, uma possessão no condado de Soure, próximo à cidade de Guimarães. A presença templária no território português é um episódio bastante marcante na história daquele país e sua participação na expulsão dos mouros foi deveras relevante, como registram os historiadores portugueses.

Com a extinção da sua ordem, os sobreviventes templários se refugiaram em reinos onde os soberanos concordaram em lhes dar abrigo e proteção. Esses países foram justamente aqueles que estavam em guerra com os muculmanos – caso de Espanha, Portugal, e Escócia – principalmente, esta última em razão da guerra pela independência, que aquele país travava contra os ingleses. Em Portugal, os cavaleiros Templários e Hospitalários foram reunidos em uma única Ordem, fundada por Afonso Henriques, denominada Ordem dos Cavaleiros de Cristo, da mesma forma que na Escócia eles receberam o nome de Ordem dos Cavaleiros de Santo André. 

Bastante conhecida é a participação dos cavaleiros templários e hospitalários na formação do reino de Portugal. Sabe-se, inclusive, que boa parte das riquezas dos templários serviu para o financiamento das grandes navegações iniciadas no século XVI, e que fez de Portugal a maior potência marítima da época. E também os conhecimentos de navegação trazidos pelos irmãos templários e hospitalários foram de extrema utilidade para os portugueses, fazendo com que o pequeno reino luzitano cumprisse um papel tão importante no descobrimento e colonização do novo mundo . 

A grande maioria dos navegadores portugueses, ( Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Diogo Cão, entre outros), pertenciam à Ordem dos Caaleiros de Cristo, sucessora dos Templários e Hospitalários em Portugal. As próprias naus portuguesas singravam os mares sobre a proteção da cruz templária ( que era também o simbolo da Ordem dos Hospitalários). 

Quanto à Ordem dos Hospitalários propriamente dita, em face da conquista daquela ilha pelos turcos otomanos, em 1530, ela deixou sua sede em Rodes e se estabeleceu na ilha de Malta, mudando seu nome para Ordem dos Cavaleiros de Malta, com o qual sobrevive ainda hoje. 

Em 1798 a ilha de Malta foi capturada pelos soldados de Napoleão. Os Cavaleiros de Malta foram praticamente absorvidos pelos maçons franceses. Quando Napoleão foi derrotado e os ingleses ocuparam a ilha, a Ordem foi dissolvida e a maioria dos seus membros encarcerados. Os que conseguiram escapar fugiram para a Itália onde refundaram a Ordem de Malta e estabeleceram sua nova sede em 1834. 

Hoje a Ordem dos Cavaleiros de Malta, sucessora dos Irmãos Hospitalários, está estabelecida em Roma e o prédio onde ela está sediada tem status de estado livre, semelhante ao Vaticano.
Os Irmãos Hospitalários continuam até hoje cumprindo a finalidade pela qual a Ordem foi fundada: cuidar dos doentes e oferecer asilo aos necessitados. Comandam a Cruz Vermelha e diversos hospitais por todo o mundo, principalmente Santas Casas de Misericórdia. Sua principal atuação está centrada em Portugal, França e Itália, onde uma grande parte dos hospitais filantrópicos está sob sua direção.

A ORDEM DOS CAVALEIROS DE SÃO JOÃO E AS SANTAS CASAS DE MISERICÓRDIA

Foram os cavaleiros hospitalários que fundaram as primeiras Santas Casas de Misericórdia que se tem notícia. Evidentemente não com esse nome, mas com o mesmo propósito que norteia essas entidades até os dias de hoje: oferecer abrigo aos pobres e cuidados médicos à população carente em geral. 

Foi, aliás, com esse propósito que João, o Esmoler, fundou o Hospital de Jerusalém, na época da Primeira Cruzada, e deu origem à Ordem dos Cavaleiros de São João do Hospital, hoje conhecida como Ordem dos Cavaleiros de Malta. 

Muitas das atuais Santas Casas de Misericórdia, especialmente em Portugal, tiveram sua origem em hospitais fundados pelos cavaleiros templários e hospitalários. Entre elas podemos citar as Santas Casas de Braga, Évora, Santa Maria da Vitória na Batalha e Proença Velha, entre tantas outras que ainda hoje servem à população de Portugal. 

Foi o Rei Dom Manuel I, o Venturoso, que também pertencia à Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que mudou o nome dos antigos hospitais filantrópicos para Santas Casas de Misericódia. Em seu governo muitas Misericórdias foram fundadas, inclusive nos territórios ultramarinos, para onde elas foram levadas pelas mãos, principalmente dos jesuitas e beneditinos. 

No Brasil, a primeira Misericórdia foi fundada em 1534, na então vila de Santos, por Tomé de Souza. Logo em seguida, em 1560, foi fundada a Santa Casa de São Paulo. Durante o período colonial, as Misericórdias, sempre ligadas à Igreja, eram os únicos hospitais existentes nas povoações brasileiras. 
Hoje elas respondem por cerca de 60 º dos serviços médicos e hospitalares prestados pelo estado português e no Brasil esse percentual está próximo de 42 º, segundo a Confederação Brasileira das Santas Casas de Misericórdia.

A MAÇONARIA E AS SANTAS CASAS DE MISERICÓRDIA

É inegável a responsabilidade da Igreja Católica na fundação e manutenção das Santas Casas de Misericórdia. Em praticamente todas elas iremos encontrar a mão eclesíástica a dirigir esse trabalho.

Mas desde a sua origem, a Maçonaria tem exercido um importante papel nessa instituição, como bem mostram os registros históricos, apontando sempre a presença dos maçons operativos, seja na construção dos prédios onde os hospitais eram instalados, seja na própria gestão dessas entidades.

Era a esses irmãos que o Cavaleiro André Michel de Ransay se referia em seu famoso discurso de 26 de dezembro de 1736. Disse ele que “nossos antepas-sados, os Cruzados, reunidos de todas as partes da Cristandade na Terra Santa quiseram reunir assim, numa só Confraria, os indivíduos de todas as nações (....). Certo tempo depois, (a) Ordem se uniu aos Cavaleiros de São João de Jerusalém. Desde então nossas Lojas trouxeram todas o nome de Lojas de São João. Essa união foi feita a exempo dos israelitas, quando construiram o Segundo Templo. Enquanto manejavam a trolha e a argamassa com uma mão, traziam na outra a espada e o escudo.(....)(1)

Eis aí, portanto, a razão das Lojas maçônicas, até hoje, serem conhecidas como Lojas de São João.Vem desses irmãos cavaleiros, não só a tradição arquitetônica, propriamente dita, aplicada especialmente na construção de asilos, hospitais, mosteiros e outras obras públicas, mas principalmente a atuação filantrópica que se observa na Ordem maçônica. Tanto que Lojas de hoje ainda se mantém a tradição de nomear um irmão “hospitaleiro” para recolher as contribuições dos irmãos para o “hospital”. (2)

Assim, a história dos hospitais filantrópicos está intimanente ligado as origens e ás tradições da maçonaria. Podemos dizer, sem nenhum constrangimento, que foi o braço filantrópico e piedoso dos irmãos cavaleiros que deram origem a esse importante equipamento de saúde, que ainda hoje responde por uma boa parte dos serviços médicos e assistenciais que servem à população carente do mundo ocidental. 

Destarte, embora as Santas Casas de Misericórdias sejam, inegávelmente, uma concepção da Igreja Católica, delas não se pode isolar a valiosa contribuição maçônica. Principalmente nos dias de hoje, há uma grande participação da Ordem na gestão dessas entidades. Na grande maioria das cidades brasileiras são maçons os dirigentes das Misericódias. Esse é um trabalho que engrandece a maçonaria e enche os maçons de todo o mundo de justo orgulho.
__________________________________________________________________
(1) Jean Palou- Maçonaria Simbólica e Iniciática- Ed. Pensamento, 1968 
(2) Hospital, na maçonaria,se refere às obras filantrópicas praticadas pela Loja.


Referências bibliográficas
Burman, Edwuard- Templários, os Cavaleiros de Deus- Ed Nova Era-1998
Gomes, Saul Antonio- Livro do Compromisso da Confraria e Hospital de Santa Maria da Vitória- Ed. Ícone - Portugal- 2002
Palou, Jean-A Maçonaria Simbólica e Iniciática- Ed. Pensamento 1964

A GEOMETRIA SAGRADA


Geometria

Assim como a alquimia, as tradições arquitetônicas, em todo o mundo antigo e medieval, estavam umbilicalmente ligadas ao espirito religioso dos povos que as praticavam. Templos, tumbas, palácios e fortalezas, todos esses complexos arquitetônicos eram construídos obedecendo a um plano que tinha mais apelo ao místico e ao transcendental, do que ás necessidades técnicas e utilitárias das pessoas a quem eles deveriam servir. É nesse sentido que a geometria, principal ferramenta intelectual usada para o desenho desses planos, e a arquitetura, ciência que transforma em realidade esses planos, passaram à categoria de artes do espírito, muito mais que do que simples realizações da engenharia humana.

Para os antigos mestres da arquitetura o ofício de construir sempre foi uma Arte do Espirito. Construir edifícios com estabilidade e beleza era antes uma manifestação de transcendência, patrocinada pela divindade a quem o templo era dedicado, do que uma obra de engenho do seu construtor. É nesse sentido que Salomão, o patrono máximo de todos os maçons da terra, manda Hiran, seu mestre arquiteto, fundir duas enormes colunas de bronze para sustentar, com Estabilidade e Força, o templo que ele resolveu construir para abrigar o culto ao deus hebreu Jeová.[1]

Em todos os edifícios antigos, a geometria é a principal ferramenta de construção do plano estrutural da construção. Por isso, a geometria, na tradição maçônica, é considerada uma síntese da “alma do universo”. É a fórmula segundo a qual Deus, o Grande Arquiteto do Universo, constrói o mundo. A analogia, pela qual Deus é comparado a um arquiteto é uma ideia de Platão, que no seu diálogo com Timeu, chama Deus de Tecton (arquiteto). Assim, Arch-Tecton, o Grande Arquiteto, seria o Mestre-Construtor do Universo, aquele que constrói o mundo usando a geometria. Destarte, para os maçons, a geometria é a fórmula sintética da “alma da natureza” que é transposta em formas e medidas para dar estrutura á construção. Ela sintetiza a multiplicidade de formas, números e valores que Deus espalhou no universo. Destarte, o estudo da geometria é o estudo das leis fundamentais que regem o universo em todos os seus planos e conhecê-la é conhecer como o universo é construído e como ele se compõe. Esse é o supremo conhecimento que a tradição maçônica consagra. De acordo com essa tradição, o mundo nasceu caótico, informe e desorganizado. Por isso Deus criou a geometria, a ciência das formas, para que a ordem pudesse ser posta nesse caos (ordo ab chaos). Assim, a geometria é a ferramenta com a qual Deus organizou e pôs ordem no caos inicial do mundo. Por isso ela é o símbolo da arte sagrada.

ARQUITETURA

Marcus Vitruvius Pollio (Vitrúvio) arquiteto romano que viveu no século I a.C. , no reinado de Otávio Augusto, foi o mais famoso arquiteto da era clássica. Deixou um grande legado no campo da arquitetura e no estudo dessa arte, que também para os romanos tinha um sentido sagrado e iniciático. Sua obra, "De Architectura" (obra de 10 volumes, escrita entre 27a 16 a.C.), continua sendo uma fonte de inspiração para os arquitetos modernos.

Vitrúvio pode ser considerado um dos inspiradores da maçonaria. No século I da era cristã todos os templos que ele desenhava tinham seus altares orientados para o Oriente, onde o sol nasce. Ele dizia que o arquiteto, mais que um mero desenhista de edifícios, devia ser um matemático, ou geômetra, com conhecimentos de música, filosofia, mate mática e astrologia. Na opinião dele ninguém poderia ser arquiteto se não conhecesse a fundo a geometria. Essa mística seria reproduzida na construção das igrejas medievais, onde a aplicação das regras da geometria deveria combinar com todas essas tradições para fins de se obter um edifício que transcendesse as necessidades do culto e refletisse a própria espiritualidade que se pretendia refletir nele. [2]

Dessa concepção mística da arte de construir os filósofos neo-platônicos derivaram interessantes concepções sobre o espirito, a matéria e a forma, bem como sobre os planos divinos de construção do universo e do homem. Para esses filósofos, o homem, tanto no corpo como no espirito seguia o mesmo padrão de construção que Deus usava para construir o universo. Por isso, quem conseguisse entender como um era construido também entenderia a estrutura do outro. Na imagem ao lado, o “homem vitruviano”, desenho de Leonardo da Vinci, inspirado nas ideias de Vitrúvio, onde ele mostra que o corpo humano também é construído segundo proporções geométricas e matemáticas que seguem um padrão que podem ser identificados na geometria do próprio universo físico.[3]

OS COLLEGIA FABRORUM

Nenhuma história da Maçonaria seria completa sem elencar os Collegia Fabrorum entre suas fontes de influência. É evidente que existem consideráveis diferenças entre aquelas associações e as Lojas Maçônicas tais como as conhecemos hoje e mesmo como possivelmente funcionavam na Idade Média e início da Idade Moderna. A similitude aqui é em nível de aproximação entre objetivos, funcionamento e estrutura, já que tais colegiados incorporavam muitas práticas análogas ao que temos nas Lojas maçônicas de hoje. 

Alguns historiadores tem reivindicado uma ligação direta entre os Collegia Fabrorum e a Maçonaria citando a organização conhecida no mundo romano como Colégio dos Artífices de Dionísio. Supostamente, essa organização teria sido uma herdeira dos antigos construtores, que desde a construção do Templo de Salomão continuavam preservando os segredos místicos da arte de construir. [4]

Essa hipótese busca confirmação na já bem conhecida teoria Comacine, segundo a qual alguns egressos desse grupo de arquitetos, fugindo das invasões bárbaras, buscaram asilo em um mosteiro próximo ao Lago Como na Itália, e ali sobreviveram vivendo como monges, preservando esses segredos durante séculos. Foram esses conhecimentos que permitiram os povos da Europa reconstruir suas cidades destruídas pelas invasões bárbaras. Esses arquitetos comacinos teriam servido de mestres para esses novos maçons, que viriam a ser os antecessores dos nossos Irmãos operativos medievais. Segundo essa teoria, os comacinos, agindo como missionários cristãos, fundaram escolas de arquitetura em vários. países europeus, principalmente nas Ilhas Britânicas, na França e Alemanha, onde seus ensinamentos prosperaram com maior vigor. 

Por fim cabe citar aqui a teoria proposta por Robert F.Gould em sua História da Maçonaria (Londres, 1727). Segundo esse autor os Collegia Fabrorum entraram nas Ilhas Britânicas através dos exércitos romanos, que deles necessitavam para construir e reconstruir as cidades que foram destruídas na guerra de conquista. Quando os romanos foram, enfim, expulsos da ilha, essa instituição tipicamente romana foi recepcionada por seus sucessores anglo-saxões na forma de guildas formadas pelos profissionais dos mais variados serviços, entre eles, o mais importante, os pedreiros profissionais. 
Essa teoria tem vários seguidores entre os historiadores maçons e apresenta uma certa lógica confirmada pela História da civilização nas Ilhas Britânicas. Todavia, há bem pouca documentação que a confirme.[5]

Há também quem acredite que os Collegia Fabrorum tenham, de algum modo, sobrevivido no Império Romano do Oriente, através das guildas dos construtores bizantinos. Sua influência se fez sentir na Europa, servindo de núcleo para a fundação das guildas europeias. Teriam sido, segundo essa crença, um importante elemento de influência na chamada Renascença, principalmente através das suas ligações com um famoso grupo de arquitetos florentinos. Teria sido a partir deste último grupo, aliás, que surgiu a chamada Maçonaria Especulativa, grupo de pensadores que tem a arquitetura como forma simbólica de expressar a sua filosofia. Essa linha de pensamento nos leva até Leonardo da Vinci, a Paulo Toscanelli, famoso arquiteto da Renascença, e ao navegador Américo Vespúcio, que no início do século XVI fundaram a Academia de Arquitetura em Milão, sob os auspícios da família Sforza. Reunindo em torno de si uma formidável plêiade de artistas e intelectuais da época, essa Academia foi o foco irradiador do movimento cultural conhecido como Renascença. As ideias geradas por esse grupo influenciaram a Europa inteira e penetraram com mais vigor nas universidades e academias, que nessa altura já se disseminavam por todo o continente europeu. Essa influência se espalhou também por outras organizações, inclusive as Corporações de Ofício.[6]

MAÇONARIA

Evidentemente, a existência dos Collegia Fabrorum não explica, por si só a origem da Maçonaria, como também os Antigos Mistérios, nem as guildas dos antigos construtores medievais. Todas essas organizações e manifestações culturais constituem ligações que podem ser estabelecidas com maior ou menor grau de certeza, porém nenhuma delas pode ser efetivamente eleita como a legítima antecessora da nossa Ordem. A verdade é que a Maçonaria, como todo arquétipo que habita no inconsciente coletivo da humanidade, não tem, como os demais institutos que moldam o espírito humano, uma fonte única de referência. 

Da mesma forma que os Antigos Mistérios, as guildas medievais, as seitas religiosas dos judeus, as seitas gnósticas e os diversos clubes e agrupamentos de defesa de interesses mútuos que já se formaram no mundo, em todos os tempos, os Collegia Fabrorum ocupam um lugar proeminente nessa eterna luta em que o espírito humano se empenha, com o objetivo de organizar suas sociedades. A idéia de agrupar-se, de procurar juntar-se aos seus iguais é uma necessidade que o homem tem procurado suprir desde a aurora da sua existência. Ninguém consegue vencer sozinho os desafios que o mundo nos coloca. Por isso é que nos reunimos em grupos. Essa á a forma de colocarmos ordem no caos (Ordo ab Chaos), missão que o Grande Arquiteto do Universo nos confiou.

Por isso a história da Maçonaria é a história do sentimento de cooperação e da ideia da fraternidade universal entre os povos. É, em última análise, a história da Irmandade. Seja ela ligada por laços de uma mística idéia de que um dia essa união já existiu em seu estado mais perfeito, e que se pode recuperá-la pelo espírito da egrégora, seja simplesmente pela cultura pura e simples das virtudes que tornam a vida social mais feliz. Essa é a esperança e o objetivo de toda Irmandade e é para realizar essa ideia que a Maçonaria existe.


[1] As chamadas colunas Boaz e Jakin (B J) símbolos maçônicos de grande transcendência.
[2] Ver Fulcanelli- O Mistério das Catedrais- Ed. Esfinge-Lisboa, 1942
[3] Sobre a mística da arquitetura antiga ver Viollet-Le-Duc- Dictionary of Medieval Archicteture, no qual esse medievalista discorrre sobre o esoterismo da geometria usada pelos arquitetos medievais para construir os seus edifícios.
[4] Hipótese defendida pelo Irmão da Costa- History of the Dionysian Artificers –Ensaio- Loja The Montana Mason - November 1921,
[5] Um desses raros documentos é a constituição do lendário Rei Athelstan, da Inglaterra, que século X, outorgou aos profissionais de construção do país um estatuto regulando essa profissão
[6] SUTTON, Ian; História da arquitectura do Ocidente; Lisboa: Verbo, 2004
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 06/02/2015
Reeditado em 06/02/2015
Código do texto: T5127894 
Classificação de conteúdo: seguro

segunda-feira, 29 de junho de 2015



A lenda de Baphomet

Autor: João Anatalino – Recanto das Letras


Uma das acusações lançadas contra os Templários foi a de que eles, em suas iniciações, eram obrigados a adorar uma estranho ídolo que foi chamado de Baphomet. A primeira vez que esse assunto apareceu no processo foi durante o interrogatório de Hugo de Pairaud.

– Consta que em vossas cerimônias de iniciação, vós solicitais aos iniciados que adorem uma certa cabeça humana. Como era esse ídolo e como faziam?

– Existia, sim, uma cabeça – disse Pairaud. – Eu a vi em Montpellier, quando participei de um Capítulo. Fiz-lhe as reverências pedidas, assim como todos os Irmãos presentes. Mas não as fiz de coração, mas apenas com as palavras do ritual.

– E como era esse ídolo? – perguntou o Inquisidor.

– Era semelhante a uma cabeça humana. Tinha uma barba negra.Parecia ser feita de madeira ou metal, não sei bem, e aparentava ter quatro pés, dois na frente e dois atrás...

Jacques de Molay e os três dignatários do Templo, perguntados sobre a tal cabeça, disseram nunca a ter visto. Tinham ouvido falar dela através de uma menção que o Papa Clemente V havia feito certa vez, de que, em alguns Capítulos da Ordem estariam havendo um culto idólatra. Mas fora disso, alegaram nada saber a acreditavam tratar-se de uma maledicência dos inimigos da Ordem.

Foi o preceptor de Paris, Renaud du Tremblay, que deu mais detalhe sob o assunto:

– Vi essa cabeça no Capitulo de Montpellier, dirigido pelo Irmão Peiraud – disse o preceptor. Os Irmãos do Capítulo a adoravam. Eu também o fiz, mas falsamente, e não com o coração...

– Como se parecia ? – perguntou o Inquisidor.

– Parecia uma cabeça humana, um rosto com uma grande barba negra. 

– Como era esse rosto?

– Terrível! Assemelhava-se a um demônio.A cada vez que olhava para ele, eu era invadido por um extremo terror...

– E porque vos a adorastes?

– Tinhamos feito coisa pior negando Cristo. Adorar aquela cabeça parecia ser pecado menor. Mas nunca a adorei com firmeza de coração...

A todos os Templários foram feitos perguntas sobre o misterioso ídolo a quem eles adoravam em seus Capítulos. Os depoimentos eram muito contraditórios. Nenhum dos depoentes soube dar uma descrição exata do tal ídolo, o que levou os inquisidores a concluir que ele não tinha uma imagem definida, ou que cada Capítulo tinha a sua própria imagem dele. As descrições mais consistentes o davam como sendo uma cabeça de três rostos, um olhando para a frente e os dois outros, um para a direita e outro para a esquerda. Era uma cabeça barbada, que usava um turbante semelhante aos que os rabinos judeus usavam. 

O que significava essa cabeça e quais eram as palavras usadas no ritual, nenhum dos templários inquiridos soube explicar. 

Em várias das preceptorias invadidas e varejadas pela polícia de Filipe, e também nas preceptorias de outros reinos, procurou-se desesperadamente os tais ídolos e rituais escritos, que se encontrados seriam uma prova contundente da heresia templária. Mas nada foi encontrado que pudesse servir de prova irrefutável dessa prática. 

Tudo que se referia ao tal ídolo era muito contraditório.Um notário público, chamado Antoine Siccus, de Vercellyz, que estivera no Oriente a serviço dos Templários, deu um estranho testemunho a esse respeito. Disse ele que ouvira essa história em Sidon, contada por um cavaleiro templário. Ela acontecera na Armênia, onde um cavaleiro da Ordem se apaixonara por uma jovem. 

E ela por ele. Mas estando ele impedido de possui-la, em razão dos seus votos de castidade, e ela de desposá-lo pela mesma razão, a jovem tirou a própria vida. O cavaleiro, enlouquecido de dor e de amor, foi, á noite, ao túmulo da jovem e violou o cadáver. 

Cometeu com a morta aquilo que não tivera coragem de fazer enquanto viva. Após terminar o seu ato infame, ouviu uma voz que dizia: “ voltarás daqui a nove meses para ver o resultado do teu ato.” Nove meses depois, o cavaleiro voltou ao túmulo da sua amada e lá encontrou uma cabeça humana entre as pernas da jovem, e o cadáver na posição e na condição de uma mulher que dera a luz. E novamente uma voz se fez ouvir: “ guarda bem essa cabeça. Dela lhe virão todas as riquezas futuras.”

Mas outros Templários, instados a falar sobre o assunto, foram menos delirantes que o inefável notário. Disseram, sem muitas contradições, que os Templários possuiam relicários, aos quais davam muito valor. Uns diziam que se tratava de uma cruz de madeira, feita com lascas da verdadeira cruz em que Jesus foi crucificado, e sobre essa cruz havia uma cabeça esculpida. Essa cabeça, disseram as testemunhas, era milagrosa, pois fazia cair chuva quando dela se precisava e afastava pestes quando ela tomava conta das aldeias.

Em todas as preceptorias varejadas foram encontrados alguns relicários que, de alguma forma, corroboraram esses testemunhos. Por ocasião da invasão do Castelo do Templo, em Paris, o Irmão encarregado da guarda e administração dos bens da Ordem foi intimado a apresentar todos os objetos de culto existentes naquele edifício. No auto de apreeensão e guarda que se lavrou do ato, o oficial encarregado escreveu que “ os comissários mandaram que Guilherme Pidoye e seus companheiros Guilherme de Gisors e Raignier Bordone, apresentassem todas as cabeças em metal ou madeira, encontradas no edifício do Templo. Os três apresentaram aos comissários uma grande cabeça trabalhada em prata amarela; tinha rosto de mulher, e interiormente ossos de uma cabeça humana, envolvidos em um pano branco; por cima tinha um sudário, feito de tecido fino ou gaze da Síria, de cor avermelhada, cobrindo-a. Havia um número, numa etiqueta, cozida nesse pano: Caput LVIII. Perguntado o que significava aquela cabeça, os ditos Templários responderam que se tratava da cabeça de uma das Onze Mil Virgens que foram sacrificadas pelos bárbaros hunos quando as hordas de Átila passaram por Colônia[1]

Nada mais foi encontrado na casa do Templo.” 

Em outras preceptorias, por toda a Europa e além-mar, os inquisidores encontraram outras relíquias que, vagamente, foram associadas á lenda de Baphometh. Na verdade, porém, nunca se chegou a nenhuma conclusão do que era, ou do que significava esse símbolo. Alguns dos Templários inquiridos sugeriram que esse culto tinha se originado nas crenças dos muçulmanos, que veneravam o seu profeta Mohamed, e por isso, talvez, o nome do tal ídolo. Outros, definiram o assunto como “segredo da Ordem”, só conhecido pelos Mestres dos referidos capítulos. Assim criou-se a lenda de Bafometh, mas em todas as precptorias templárias, a única que continha uma réplica dessa enigmática figura era a preceptoria de Tomar em Portugal. Ela ainda pode ser vista hoje. Trata-se de uma cabeça barbada de três rostos, coberta com um turbante semelhante aos que usavam os antigos fariseus. Em nenhum lugar se encontrou uma figura de bode, com traços demoníacos. 

[1] A lenda das Onze Mil Virgens se refere á Santa Úrsula, filha do rei romano-britânico Donaut condado de Dumnonia, no sudoeste da Inglaterra. Ela foi dada em casamento ao governador romano Conan Meriadoc da Armórica (península da Bretanha). Ao viajar para a Inglaterra para juntar-se ao noivo, com um séquito de 11 mil servas virgens, uma tempestade as levou para o continente, onde foram capturadas pelos hunos, que então estavam devastando toda a Europa. Ao se recusarem entregar sua virgindade aos belicosos guerreiros de Átila, elas foram todas decapitadas. Isso teria acontecido em Colônia, na Alemanha. A princesa Úrsula, por ter se recusado a deitar-se com o próprio Átila, teria sido morta pelo famoso chefe bárbaro, conhecido como “Fragelo de Deus”, com uma flechada. Úrsula foi canonizada como mártir e se tornou uma santa muito respeitada no calendário católico. Mas na revisão acontecida em 1969, a Igreja considerou não haver provas a veracidade da lenda das Onze Mil Virgens e retirou Santa Úrsula do calendários dos santos. Seu nome, entretanto, como São Jorge e São Benedito, que também tiveram seus nomes “cassados” do rol dos santos, continua a ser muito respeitado,. No século XVI a freira Angela Merici fundou a Ordem das Ursulinas Essa Ordem, dedicada à educação de meninas, existe até hoje e presta excelentes serviços na área social e na educação. 
__________________________
Da obra "Filhos da Viúva", A Conspiração dos Templários- título provisório, no prelo.




MAÇONARIA- A MAQUETE DE DEUS.

                                                                                     Autor: João Anatalino – Recanto das Letras 


Na sua essência, o rito do Arco Real busca recompor a ideia utópica da antiga nação de Israel, “o povo eleito” de Deus para servir de modelo para as demais nações da terra. Por isso, em todo o desenvolvimento do rito, o simbolismo é desenvolvido com base na estrutura da nação israelita, especialmente nos seus momentos históricos mais culminantes, que se realizam na construção do Templo de Jerusalém, na sua destruição e reconstrução, pois o Templo é o simbolismo máximo dIsse povo, e representa a sua ligação com o Grande Arquiteto do Universo. Assim, por mais que se destrua o edifício, o simbolismo que ele representa deve permanecer vivo, por que enquanto se cultuar esse símbolo haverá uma ligação direta entre o homem e Deus e a humanidade sobreviverá. 

Boa parte da liturgia desse rito é consagrada á reconstrução de Jerusalém, após a volta do cativeiro da Babilônia. Daí a ênfase posta sobre o trabalho de maçonaria empregado nessa reconstrução, comandado por Zorobabel, e historiado pelo cronista Esdras, pois este mostra o zelo dos israelitas na reconstrução da sua cidade e de seu sagrado templo. Ali, segundo esse cronista, os filhos de Israel manejavam a trolha com uma das mãos, enquanto na outra mantinham em guarda o escudo e a espada, porque eram muitos os inimigos que queriam impedir a reconstrução da cidade e a volta dos israelitas para Jerusalém. Essa metáfora (trolha e espada) tornou-se um dos simbolismos mais estimados na maçonaria do Arco Real, e é também bastante invocado nos graus filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito. A propósito, os chamados graus filosóficos do Rito Escocês também trabalham com o tema da reconstrução do Templo de Jerusalém e tem na figura de Zorobabel um de seus mais importantes personagens.[1] 

As origens do rito do Arco real são muito obscuras e muito difícil de identificar. Alguns historiadores remontam essas origens ao século XVII na Irlanda, sendo praticado por soldados irlandeses engajados nas diversas guerras da época. Outros reivindicam uma origem inglesa, pois sabe-se que esse rito já era praticado na Inglaterra em 1738, quando ele aparece, pela primeira vez, em registros maçônicos como sendo uma dissidência da Grande Loja londrina, formada pela fusão das quatro lojas de Londres em 1717. 

O Rito do Arco Real, conhecido como Rito de York, como já foi dito, teve seu maior desenvolvimento nas colônias inglesas da América do Norte, onde se tornou o rito maçônico preferido. Os americanos criaram praticamente uma estrutura toda nova para o desenvolvimento desse rito, o que lhe deu um caráter bastante particular, com sensíveis diferenças de seu congênere inglês. Em várias partes do mundo maçônico as disposições americanas para esse rito foram copiadas, e o Arco Real, modelo americano, se espalhou por vários países, principalmente na América.

No Brasil sua instalação é bem recente. O Capítulo José Guimarães Gonçalves, reunindo os Maçons do Real Arco foi instalado pelo Capítulo Jerusalém em 8 de maio de 1993. Recebeu sua Carta Constitutiva Nº 1, em outubro de 1997, diretamente do General Grand Chapter of Royal Arch Masons International. Dele surgiram depois dois outros Capítulos, o Thomas Smith Webb Nº 2, no Rio Grande do Sul, em 1997, e o Keystone Nº 3, no Estado do Rio de Janeiro, em 2000. 

Os praticantes do rito do Arco Real enfatizam a ideia de que ele não é rito, mas sim uma Ordem, cuja razão de existência é recuperar a ideia básica que motivou o nascimento da Israel bíblica, como nação modelo do Grande Arquiteto do Universo.[2]

Então os Irmãos que adentrarem o Real Arco, devem já ser mestres maçons, formados em uma Loja Simbólica, pois esse título equivale á qualidade de um israelita de raça e tradição, com direito, portanto, a participar do Capítulo destinado a reconstrução de Jerusalém.

Por isso é que nas cerimonias do Capítulo do Arco Real, as assembleias são dirigidas por três comandantes cujos títulos são oriundos da tradição rabínica de Israel, constantes do Talmud e do Zhoar. São eles o Aterzata(Zorobabel), tratado como Excelentíssimo; Argeu, representado por um olho irradiado, tratado como Excelente Companheiro( Excelente Emeth no REAA) e Josué, cujo título também e de Excelente Companheiro. 

Diferente do Rito Escocês, que também trabalha com os mesmos temas, mas sem desenvolvê-los em sua parte histórica, a maçonaria do Arco Real se remete aos fundamentos das tradições israelitas, para buscar, na sua história, o cerne do ensinamento que o ritual busca passar aos irmãos. Por isso, em cada grau o que se busca é uma reconstituição daquilo que foi perdido em cada derrocada do povo de Israel, e o que se recupera em cada reconstrução. Essa simbologia é representada na alegoria da Palavra Perdida, mas na verdade o que se pretende mesmo é mostrar que cada momento da civilização, com suas ascensões e quedas é uma fase peculiar na construção do edifício cósmico. 

[1] Nos graus filosóficos o presidente da Loja é chamado de Aterzata, em homenagem ao próprio Zorobabel, que presidiu os trabalhos de reconstrução de Jerusalem. Aterzata era o nome dado ao sátrapa (governador nomeado pelo rei persa) para governar os povos conquistados. No caso, tendo o rei Dario II conferido ao próprio Zorobabel a tarefa de chefiar os israelitas nesse trabalho, era ele a maior autoridade nessa região. Dai merecer ele o título de Aterzata.

[2No sentido maçônico, Israel seria uma espécie de “maquete” da humanidade autêntica, que o Grande Arquiteto do Universo queria construir. 

João Anatalino



ISAQUE E ISMAEL- ETERNO CONFLITO

                                                                                Autor: João Anatalino – Recanto das Letras


“ De Isaque sairá a descendência que há de ter o teu nome. Mas também do filho da escrava farei um grande povo por ser do teu sangue.” Gênesis, 21:13.

De Abraão, um homem velho e sem potência,
E Sara, mulher estéril, pois tinha muita idade,
O Senhor, que é gestor de toda possibilidade,
Fez nascer a Isaque, pela divina providência.

A esse Isaque Deus deu grande saber e glória,
E a Ismael, o meio-irmão, nascido da egípcia,
Senhor dotou com muita coragem e perícia;
Juntos eles fundaram nações de bela história

Isaque deu origem ao heroico povo de Israel,
Que logo se tornaria a nação da Providência;
Os árabes valentes são da semente de Ismael.

Quem lê entenda, pois aqui existe sabedoria:
Israel é o espírito da terra– é forte na ciência,
Ismael é o coração – tem a fé como seu guia.
Abraão, o fundador de nações

Diz o texto bíblico: “Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção.”(Gênesis 12:1-2).

Depois, á vista das vicissitudes enfrentadas por Abrão na Palestina, Deus resolveu dar a ele para sempre toda a terra que ele pudesse medir com os olhos, bem como multiplicar a sua descendência como o “pó da terra”. Eis aí, nessa promessa feita ao agora Abraão, o cerne da reivindicação israelita sobre as terras palestinas, e o principal móvel da disputa milenar que ainda se trava naquela região. 

Israel, segundo as crônicas bíblicas, teria um “direito divino” sobre essas terras, o que tornaria a sua luta uma verdadeira “guerra santa”, idéia essa que também é combatida pelos seus inimigos palestinos, para quem “eliminar para sempre Israel do concerto das nações”, é a vontade inalienável de Alá.
Assim, a saga de Abraão, como exposta na Bíblia, revela bem o intuito ideológico que os cronistas bíblicos quiseram lhe dar.

Na consistência temática e na continuidade histórica que o povo de Israel lhe deu, estão as raízes da reivindicação dos judeus. E essa é, também, a grande força da Bíblia, que até hoje continua sendo o maior monumento literário já produzido pela humanidade e o que mais influiu no pensamento humano até os dias de hoje.

Historiadores como Israel Finkelstein e Neil Archer Silbermam (A Bíblia Não Tinha Razão, Ed. Girafa, 2003) argumentam que a religião monoteísta de Israel não nasceu antes da separação que o unificado reino de Israel sofreu, em consequência da rebelião de Jeroboão, que após a morte de Salomão provocou a separação de Israel em dois reinos inimigos(931 a.C.).[1]

Na verdade, segundo esses historiadores, o monoteísmo dos israelitas só teria se consolidado no século VII, no reinado do rei Josias, e seria durante sua gestão como rei de Judá que os cronistas da sua corte teriam terminado a compilação das histórias bíblicas, criando uma literatura épica e ideológica, com claras intenções de forjar para Israel uma origem nobre e um direito hereditário sobre as terras que haviam sido conquistadas pela espada de Josué, primeiro, e consolidadas por Saul e Davi depois. 

Segundo esses historiadores, os cronistas da corte do rei Josias “criaram” uma história para Israel com claros propósitos ideológicos e políticos. O único problema é que, ao fazer de Abraão o "pai de multidões", eles abriram também a possibilidade de que os demais povos, descendentes desse patriarca, viessem reivindicar sua parte nessa herança. Destarte, praticamente todos os povos do Oriente Médio poderiam, hoje, se dizer descendentes de Abraão. E as religiões que se originaram do Javismo confirmam esse fato, pois todas têm sua origem no monoteísmo hebraico.[2]

A questão ideológica

De fato, tantos judeus quanto árabes procuraram dar á história de Abraão e seus dois filhos claros contornos ideológicos. No direito consuetudinário das tribos orientais é sempre do filho primogênito o direito de sucessão. Abraão não tinha um filho de sua esposa Sarai, por isso usou o expediente comum de tomar uma serva para gerar esse filho. Para os israelitas, aceitar que seu povo tivesse origem no filho de uma escrava não era uma coisa que os honrasse muito. Daí o estratagema imaginado pelos cronistas bíblicos, de fazer Sarai, de forma milagrosa, ter um filho para que Israel não tivesse que amargar uma descendência espúria por parte de mãe. 

Então Deus fez nascer Isaque, por divina providência. E isso subverteu a tradição legal, pois esse “truque” divino, que se assemelha á uma chicana jurídica, tirou dos árabes ─ descendentes de Ismael, primogênito de Abraão ─ seu legítimo direito á herança do pai. 

Assim, a animosidade entre árabes e judeus teria começado já naqueles tempos, face ao conflito instaurado nas tendas do patriarca Abraão entre suas duas mulheres e seus respectivos filhos, cada um, por seu lado, reivindicando a herança do velho patriarca. 

Sarai, a esposa legal de Abraão venceu a disputa e a concubina de Abraão, Agar, junto com seu filho Ismael, foram expulsos do acampamento hebreu. Para que o episódio não fosse contabilizado como uma grosseira injustiça, os cronistas bíblicos compensaram o deserdado Ismael com a geração dos povos do deserto (como os antigos israelitas chamavam os árabes) [3] Assim, embora árabes e israelitas fossem irmãos por parte de pai, esse episódio teria criado um profundo poço de descontentamento e animosidade entre os dois povos. 

Essa animosidade se tornou ainda mais profunda quando os árabes adotaram a religião de Maomé, o Islã. Embora sustentando que o Islã é uma continuação renovada do Javismo e que o Alcorão é um complemento da Toráh, e Maomé uma espécie de reencarnação de Moisés, o livro sagrado dos muçulmanos é um tanto ambíguo quanto á relação entre árabes e judeus.[4] Ao mesmo tempo que instrui os muçulmanos a tratar os judeus como irmãos, também ordena que os judeus que não se converterem ao Islã sejam tratados como inimigos. 

A hostilidade entre judeus e árabes, entretanto, só se tornou violenta depois da Segunda Guerra Mundial, quando as Nações Unidas permitiram que uma leva de israelitas voltasse para a Palestina e lá começasse a fundar o novo estado de Israel, que havia sido abolido definitivamente pelos romanos em 135 da era cristã pelo Imperador Adriano. 

Essa nova repatriação dos judeus (a primeira havia acontecido após a queda da Babilônia), provocou violenta reação dos povos que viviam na Palestina, povos estes de cultura árabe. A maioria das nações árabes protestou veementemente contra o fato de o povo de Israel voltar a ocupar porções da terra palestina. Originaram-se nesse fato os conflitos que ainda sacodem a Terra Santa nos dias de hoje. E á medida que Israel amplia seus domínios na região, esse problema mais se acentua. 

Uma visão maçônica desse tema

A maçonaria tem raízes muito fortes na tradição de Israel. Na verdade, entendemos que a própria ideia que informa a prática da maçonaria é uma derivação do ideal que fundamentou a fundação de Israel como nação e o desenvolvimento de sua crença como povo eleito de Deus, nação modelo para todos os povos da terra, como diz a Bíblia.

Nessa visão, o proto-estado de Israel, antes de se tornar um reino semelhante aos demais estados palestinos (após a instituição do reinado), pode ser considerado como a primeira vivência maçônica prática da história. Isso porque a tese que fundamentou o desenvolvimento do estado israelita está centrada numa idéia utópica que deveria ser realizada através de um povo inteiro vivendo uma estrutura de confraria, ligada pelos laços do sangue e da religião, e pelo compartilhamento de uma forte tradição cultural.

Esse era o espírito dos antigos clãs israelitas , que foi rompido pelo conflito entre Isaque e Ismael. Em linguagem maçônica, o conflito entre os dois filhos de Abraão poderia ser visto, alegoricamente, como uma dissidência ocorrida dentro da Grande Loja de Israel.

Os laços da Maçonaria com a tradição de Israel já eram bem fortes entre os antigos Irmãos operativos, que viam em figuras da tradição israelita os seus mestres arcanos. Figuras bíblicas como Nenrode, o suposto construtor da Torre de Babel, Enoque, o patriarca que subiu ao céu sem conhecer a morte, Seth, o filho caçula de Adão, e principalmente o Rei Salomão e seu arquiteto construtor Hiram Abiff, já eram figuras importantes na tradição mais antiga da Arte Real. 
Essa relação se tornou ainda mais forte na transição da maçonaria operativa para a especulativa, quando aos ritos maçônicos foram incorporados diversos motivos históricos inspirados na história de Israel, como a reconstrução de Jerusalém, os temas do Apocalipse, a organização do estado de Israel sobre o Rei Salomão e principalmente o Drama de Hiram, formidável alegoria que fundamenta a proposta iniciática da maçonaria.

Algumas lendas cultivadas especialmente no rito do Arco Real se referem á Abraão como verdadeiro mago, conhecedor de segredos arcanos obtidos junto aos hierofantes da Caldéia. Esses segredos, referentes principalmente á geometria e á astrologia, teriam sido muito importantes no desenvolvimento da tradição religiosa israelita e foram incorporadas pela maçonaria através de lendas que veiculam conhecimentos iniciáticos e ensinamentos morais. 
As questão ideológica e racial que estão no cerne do conflito Israelense-Palestino são importantes do ponto vista histórico e não devem ser negligenciados quando se trata de discutir esse assunto. É preciso tomar muito cuidado quando se abordam temas como esse.

Ainda mais quando se trata de Maçonaria. Pois ela é uma organização ecumênica que não incentiva debates ideológicos nem toma partido em querelas desse tipo. Para ela tanto a Bíblia quanto o Alcorão são livros inspirados, que revelam a vontade de Deus, expressa no pensamento dos profetas que os receberam. Já as questões ideológicas são frutos de doutrinas desenvolvidas por pessoas e grupos que desejam fazer valer seus interesses particulares. Não tem nada a ver com Deus ou com a sua vontade, ou com o seu propósito em relação á humanidade.A religião, na sua forma mais pura, nos proporciona uma ligação com Deus. Mas a ideologia, quando a ela se mistura, a transforma num mapa para o inferno.

Não cabe à Ordem maçônica mundial discutir quem tem razão nessa luta travada entre os modernos estados de Israel e seus desafetos palestinos. Talvez ambos tenham, talvez ninguém tenha. O mais importante em tudo isso é a idéia inscrita na esperança que informou a criação do estado de Israel, ou seja, a idéia de que a humanidade deve ser um povo só, que se liga pelos princípios da fraternidade e do amor á beleza. Esse, aliás, foi o que disse o Cavaleiro De Ransay em seu famoso discurso de 1738, quando ele começou a divulgar os ideais maçônicos por toda a Europa.

“Os homens não de distinguem essencialmente pelas diferentes línguas que falam, as roupas que usam, os países que ocupam, ou as dignidades com que são investidos.

O mundo todo não passa de uma república onde cada nação é uma família e cada indivíduo um filho. É para fazer reviver e espalhar estas máximas essenciais, emprestadas da natureza do homem que a nossa Sociedade foi inicialmente estabelecida.

Queremos reunir todos os homens de espírito esclarecido, maneiras gentis e humor agradável, não só pelo amor às belas artes, mas ainda mais pelos grandes princípios de virtude, ciência e religião, onde o interesse da Fraternidade se tornam aqueles de toda a raça humana, onde todas as nações podem recorrer a conhecimentos sólidos, e onde os habitantes de todos os reinos possam aprender a valorizar um ao outro, sem abrir mão de sua pátria.”[5]

A arte da maçonaria é informada, em seu núcleo científico, pelos fundamentos da Geometria Sagrada. Nos princípios que a informa, todas as formas se condensam em um princípio único. Assim, a esperança maçônica é que um dia todos os povos da terra se estreitem numa Irmandade, não importando a língua que falem nem as tradições que cultivem. A tolerância e o amor ao belo e ao bom que cada cultura possui serão mais fortes que quaisquer ideologias. Nesse dia, Isaque e Ismael se unirão num forte abraço fraterno, e talvez o mundo que eles inspiraram, com suas ideologias, possam, finalmente encontrar a paz. 

[1] Reis 11.26-33

[2][2] Javismo, ou a religião de Javé, ou Jeová em português. Javé era o deus dos pastores residentes no norte da Mesopotâmea, região de origem de Abraão.

[3] Os árabes, mercadores por excelência, habitantes de tendas no deserto, eram chamados pelos israelenses de ismaelitas.

[4] Judeus, os herdeiros do reino de Israel.

[5] Excerto publicado por Jean Palou- Maçonaria Simbólica e Iniciática- Ed.Pensamento, 1986.

João Anatalino