domingo, 28 de junho de 2015


                                     


A FLAUTA MÁGICA

Dr. Carlos Raitzin (Spicasc)
Publicado no Site da Grande Loja Unida da Venezuela
Traduzido, Editado e Internetizado por José Antonio de Souza Filardo M.´. I.´.


                                                        

Cena de A Flauta Mágica

A famosa ópera de Wolfgang Amadeus Mozart e Emanuel Schikaneder,“A Flauta Mágica” tem sido objeto de inúmeros estudos, sem dúvida motivado tanto pelo seu imenso valor musical quando pelo tema subjacente ao seu livreto.


                                                                 Ir.´. Wolfgrang Amadeus Mozart

As claras referências esotéricas feitas em seu desenvolvimento motivaram inclusive que Goethe escrevesse uma segunda parte, continuação do livreto de Schikaneder e, não satisfeito com isso, ele preparava pessoalmente os esboços para uma representação da ópera de Mozart em Weimar, esboços que foram parcialmente preservados. Mas, infelizmente, a grande maioria dos estudos realizados são devidos a musicólogos. Estes são, sem dúvida, muito competente na sua disciplina, mas o são muito pouco em matéria de esoterismo.
    
Por isso, entendemos que poderia ser interessante uma análise da ópera do ponto de vista iniciático, deixando quase que totalmente na parte técnica da música (como nós entendemos que existem outros mais competentes do que nós para lidar com eles).

Além dos musicólogos quem vez por outra tentou mergulhar em “A Flauta Mágica” foram os maçons. Com relação a isso, porém, convém ser taxativamente claro.

Na verdade, existem dois tipos distintos de maçonaria. Por um lado temos a Maçonaria política e econômica formada quase inteiramente por pessoas pouco ou nada se importam com as tradições espirituais dessa Ordem.

Este tipo degradado de Maçonaria tem sido amplamente difundido no mundo, porque sempre existiram aventureiros sem escrúpulos, como desejos de poder político. Naturalmente, em tais organizações não deve buscar nem se pode encontrar valores espirituais.

Há, porém, um outro tipo de maçonaria que transmite um legado espiritual real que vem desde o antigo Egito. Naturalmente, isso a Maçonaria é a antítese da anterior. Vale a pena parar um momento sobre este assunto para entender melhor a questão que hoje nos ocupa. Segundo nos informa o erudito francês antimaçônico Jacques D’Plonchard D’Assac, Mozart, bem como Schikaneder pertencia à Maçonaria Egípcia em Viena, aquela que praticava o rito de Mizraim.

Este rito havia se difundido enormemente tanto na Áustria quanto na Espanha desde meados do século XVIII, dando então origem ao Rito Nacional Espanhol neste segundo país.

Deve-se mencionar que o Rito de Mizraim originou-se no iniciação transmitida pelo Mestre Althotas a Joseph Balsamo, conhecido como Conde de Cagliostro.


Cagliostro

Mais tarde, esse rito se difundiu na Itália e mais tarde na França. É interessante notar, de passagem, a Espanha, porque foi iniciado (na Loja “Lealidad” de Cádiz), o então jovem tenente do exército espanhol Don José de San Martín. O fato é que em 14 de dezembro de 1748 Mozart foi iniciado como aprendiz na loja “Zur Wohlthätigkeit” ascendendo a companheiro em 07 de janeiro do ano seguinte (menos de um mês entre as duas iniciações).

Ir.´. José de San Martin

Imediatamente começa a composição de sua famosas Sonatas Maçônicas. 

Ir.´. Leopold Mozart, pai de Wolfgang

Em abril de 1785 Mozart já é Mestre Maçom e em seis desse mesmo mês, é iniciado seu pai, o compositor e maestroLeopold Mozart. Este foi sem dúvida um homem de talento e provou-se recentemente que a famosa “Sinfonia dos Brinquedos”http://www.youtube.com/watch?v=qDnrL46wY44 atribuída por muito tempo a Haydn é, na realidade, de autoria de Leopold Mozart.

Na loja, Mozart conheceu Johann Joseph Schikaneder, que tinha ali o nome de Emannuel, e que mais tarde seria o libretista de “A Flauta Mágica”.

Schikaneder era um homem de caráter, barítono de boa voz e bom gosto e, mais tarde, diretor de um pequeno teatro. Sabe-se que ele representou o primeiro Papageno

Papageno

Papageno, personagem de A Flauta Mágica na estréia da ópera em questão. Também frequentava a loja Karl Ludwig Giesecke que aparentemente contribuiu com algumas idéias para o libreto.


Ir.´. Gieseke


O fato incontestável é que Mozart foi um maçom ativo até o fim de sua vida. Em 18 de novembro de 1791, quando só lhe restavam dezessete dias de vida, conduziu pessoalmente sua “Pequena Cantata Maçônica” (Köchel 623)http://www.youtube.com/watch?v=WyHWEFA3Yzk por ocasião da consagração do novo templo da Loja “Zur neugekrönten Hoffnung”. Schikaneder por outro lado adormeceu, ou seja, retirou-se da loja logo depois de ter conhecido Mozart, embora a amizade e a cooperação entre os dois tenha persistido, dando conforme sabemos um magnífico resultado.

Uma das mais vis calúnias que circularam sobre Wolfgang Amadeus Mozart foi ter sido envenenado pelos maçons por ter revelado segredos da Ordem em “A Flauta Mágica”. Justamente por isso eu mencionei o fato de que poucos dias antes de sua morte, foi especialmente convidado para dirigir o sua Cantata para a consagração de um novo templo. Isso aconteceu um mês e meio após a estréia de “A Flauta Mágica”, ou seja, a ópera em questão. Isso prova a falsidade de tal afirmação.

Se houve revelação, como alguns dizem, o principal responsável teria sido Schikaneder o autor do libreto e não, evidentemente, o autor da música. Schikaneder continuou a viver por muitos anos, mas este fato não é mencionado por esses caluniadores.

Mozart e seu libretista estavam bem cientes destas coisas e por isso colocaram em sua ópera um arquétipo que simboliza a via lunar governada pelas emoções mais baixas que se disfarçam e se ocultam nas aparências religiosas.

Este arquétipo é a Rainha da Noitehttp://www.youtube.com/watch?v=0rZdM73uivA cujas duas árias expressam aspectos bem contrastantes de uma personalidade sinistra.

Em sua primeira ária aparece como a mãe de coração partido por ter-lhe sido tirada sua filha. Tamino se deixa seduzir por suas lágrimas falsas e suas mentiras. Ela o elogia e lhe promete a mão de Pamina, enquanto sutilmente planta o ódio no coração do jovem príncipe.

Muito diferente é a sua atitude na segunda ária “Der Holle Rache kocht em meinem Herzen” (O rancor do inferno ferve no meu coração) http://www.youtube.com/watch?v=ZNEOl4bcfkcquando coloca um punhal na mão de Pamina para que a virtuosa, porém perturbada jovem assassine o Venerável Mestre Sarastro.

Nessa cena se revela toda a traição e maldade que antes a Rainha encobria com sentimentalismo e lágrimas, pois ela ameaça Pamina se ela não cumprir seus desejos. Claramente aqui se aproxima do que temos tratado amplamente em vários artigos e conferências.

Trata-se do antagonismo existente entre os que praticam a via lunar ou religiosa (a pitriyana ou o caminho dos ancestrais ​​dos hindus) e os Iniciados, que praticam a via solar ou Devayana (caminho dos deuses).

A via lunar se reveste de emotividade e pretende ser um conforto para as massas, a quem manipula com base justamente no medos e nas emoções. Desta forma, aceita-se indistintamente a todos os que se apresentam, pois seu último desejo é o poder temporal com base na quantidade. Corresponde ao modo passivo e é a única forma de vida espiritual a que podem aspirar as pessoas não qualificadas.

A via solar iniciática está reservada para as elites, quer dizer, a indivíduos plenamente qualificados. Naturalmente, os grupos sectários que são os religiosos nunca quiseram aceitar sua subordinação aos Mistérios Iniciáticos e se esforçaram para destruí-los.

Na alegoria de Mozart e Schikaneder, a Rainha da Noite, que representa, sem dúvida, a Igreja Católica, organização sectária tipicamente lunar.

As damas da Rainha da Noite, apesar do flerte e do bom humor que revelam no início da ópera, não hesitam em se apresentar a Tamino e Papageno para derramar calúnias insidiosas contra a Sarastro e seus sacerdotes.

Finalmente, em cumplicidade com o traiçoeiro mouro onostatos, http://www.youtube.com/watch?v=79a2Riic5DI&feature=related a Rainha prepara uma grande complô nas sombras para destruir o templo. Felizmente eles fracassam nessa tarefa e são jogados de volta para as trevas do mundo profano.

Parece muito provável hoje em dia que Mozart e Schikaneder tenham sido aconselhados por Ignaz von Born sobre este tema. Von Born era o Venerável Mestre da Loja “Zur Wohltätigkeit” naquela época, e um verdadeiro erudito nos mistérios da Grécia antiga.


Ir.´. Ignaz von Born

A interpretação de alguns autores do rancor da rainha contra Sarastro para impor a primazia de sucessão matrilinear em relação à tradição patriarcal nos aparece hoje pura fantasia. Ainda em mais alto grau é fantasiosa a interpretação do escritor maçônico M. Zile, que em 1866 sustentou ingenuamente que Tamino representava oImperador Joseph II, Pamina o povo austríaco, Sarastro era mencionado como Venerável Mestre e a Rainha da Noite, a imperatriz Maria Teresa, que então tinha começado a perseguir a Maçonaria.



Imperador Joseph II

Até aqui, um primeiro símbolo mais político que esotérico e que refletia uma realidade daqueles tempos. Não se pode esquecer que em 1738 o Papa Clemente XII havia excomungado a Maçonaria com sua encíclica “In eminenti specula”. Embora pouca atenção fosse dada em Viena a tal resolução, era evidente que o velho ódio da Igreja pelos Mistérios Iniciáticos subsistia em pleno vigor.

De maior interesse para esta alegoria são outros símbolos de natureza tanto anagógica quanto tropológica que vemos desfilar na ópera. Vamos recordar brevemente que, segundo a classificação estabelecida por Dante Alighieri em “Il Convivio”, os símbolos podem ser agrupados em quatro categorias.

A primeira é a dos símbolos literais. Como exemplo podemos citar um texto escrito em qualquer língua ou uma equação matemática.

A segunda categoria corresponde aos símbolos alegóricos. Como tal, pode-se mencionar a




Paloma de Picasso

pomba, símbolo da paz, a lira de Apolo representando a música, a foice uma reminiscência de Saturno que recorda a morte, Mercúrio representando o comércio e a cornucópia simbolizando abundância, entre muitos outros.




Cornucópia

Símbolo tropológico(De tropos: mudança de direção) é o que tem um sentido ético-moralizante, indicando uma mudança de rumo na vida. Como tal, podemos citar um esquadro simbolizando a retidão, um prumo indicando a disciplina e verticalidade, e a colher do pedreiro que recorda necessidade de suavizar as asperezas.

Por último, temos os símbolos anagógicos (De Anas: no alto). Estes últimos representam uma indicação de elevação através da espiritualização da existência e, geralmente, têm conteúdo esotérico.


Escada de Jacó

Podemos mencionar aqui a escada de Jacó que recorda precisamente isso, ocaduceu de Hermes-Mercúrio que esotericamente se refere à transmutação das energias inferiores do homem e o Olho de Deus que simboliza que nada do que fazemos foge ou está oculto para a Consciência Suprema.

Um desses últimos símbolos, muito interessante e que escapou completamente da análise dos musicólogos está no início da ópera, imediatamente após a abertura. Nos referimos à serpente ou dragão, um tema que reaparece mais tarde, com o mesmo significado na Tetralogia deRichard Wagner. (Recordemos o dragão Pfafnir em cujo sangue deve o herói solar Siegfried deve banhar-se).



O dragão

Aqui estamos lidando com um símbolo tradicional que reaparece continuamente na literatura esotérica. Trata-se, naturalmente, do Primeiro Guardião do Umbral.

O candidato à iniciação deve enfrentar os efeitos cármicos que ele mesmo acumulou em incontáveis ​​existências. Seu enfrentamento supõe um processo doloroso de purificação e de um risco; quem evita isso renuncia para sempre à recompensa espiritual desejada; e Tamino, assim como Siegfried deve passar por essa prova.

Se Tamino pode ser bem-sucedido é com a ajuda das damas da Rainha da Noite. Mas essa ajuda, como era de se esperar, não é desinteressada. As damas têm a missão a lhe designar: é claro que se trata de salvar Pamina.

Tamino e Pamina são um casal arquetípico precursor como o são de certa forma Siegfried e Brunhilde. Não são diferentes, na verdade um do outro em ambos os casos.

Pamina é a alma de Tamino, a alma que deverá passar por novas e duras provas antes de chegar à Iniciação: odisséia de Pamina é uma verdadeira “Noite Escura da Alma” (A Nigredo na terminologia dos alquimistas). São provas iniciáticas que conduzem à purificação através do caminho do sofrimento humano e das dúvidas que assaltam os aspirantes. Constituem o chamado Segundo Guardião do Umbral e são uma parte inevitável da Via Iniciática. Desgraçado daquele que as evita ou cede ante estas dúvidas, pois se verá cada vez mais mais mergulhado nas trevas do mundo profano e não chegará a receber a luz espiritual da Iniciação.

Este processo vital de transmutação interior (cuja realidade só pode ser negada pelos ignorantes) tem como contrapartida visível as provas simbólicas do ritual, aquelas que em “A Flauta Mágica” são mencionadas com maior clareza.

Felizmente, Mozart e Schikaneder foram suficientemente discretos e seria muita ingenuidade alguém pretender conhecer alguma coisa dos mistérios da Iniciação Maçônica apenas assistindo à ópera.

As damas dão a Tamino, para ajuda-lo em sua missão de resgate a Flauta Mágica que dá o título à ópera, e também Papageno que será seu companheiro recebe sinos de prata, também dotados de incríveis poderes. Aqui há alusões simbólicas a várias pontos da tradição esotérica que merecem ser mencionadas rapidamente.

É uma dupla referência ao poder do som, o poder que pode ser incompreensível e absurdo, não só aos profanos, mas também aos pseudo-maçons tão ignorante quanto arrogante a quem referimos anteriormente.

É fácil ver que isso é verdadeiro; basta perguntar a qualquer um dos maçons orientados para a política e os negócios, qual é a verdadeira origem dos símbolos e sinais de seus graus, e quais são as sílabas de poder associadas a tais sinais. Não terão outra alternativa, a não ser reconhecer a enormidade da sua ignorância sobre o assunto e nem por um momento mencionarão que existe uma antiquíssima tradição secreta a respeito disso.

Esta tradição foi, inclusive, transmitida pelo Profeta Maomé aos seus mais fieis discípulos e o Corão contém certas sílabas intraduzíveis que estão ligadas a este mistério.

Mas, tudo isso e muito mais é e será para sempre desconhecido por este tipo de pessoa que têm a audácia de se auto-qualificar como maçons regulares e de qualificar outros como irregulares. Seria possível escrever um livro sobre isso e é bem possível que algum dia este autor o faça.

Na Índia, este poder oculto do som é ensinado no Matrika Yoga e testemunhamos pessoalmente alguns fatos surpreendentes feitos por este meio.

A pergunta honesta, desde já, se Mozart e Schikaneder estavam ao corrente de tais fatos. É provável que eles estivessem, somente por tradição mítica na forma de contos de fadas populares.

O que é fato estabelecido é que a trama externa, profana digamos, o enredo de “A Flauta Mágica” era uma narrativa deste tipo intitulada “Lulu oder die Zauberflöte”.

Seja como for, é interessante notar com William Mann que, tendo sido esculpida a flauta pelo pai de Pamina, este a havia feito de carvalho. Na tradição esotérica, esta árvore é um símbolo desabedoria e força. Para ser esculpida, à madeira foi adicionada aBeleza e agora estamos de volta à tradição maçônica completo. Isto se refere, evidentemente, à Tradição Sagrada tanto maçônica quanto não maçônica.

Na tríade é simbolizado tanto a divindade quanto a síntese de opostos. Isto é bem conhecido e só se pode acrescentar que unido ao quaternário conduz ao setenário, símbolo do justo e perfeito.

Na encenação original se referia ao Quaternário (símbolo do material), com uma inscrição em uma pirâmide que os vigilantes armados do templo liam para Tamino: “Quem passa por este caminho difícil será purificado por terra, ar, fogo e água.”

A pirâmide, assim como a famosa ária de Sarastro “Ísis e Osíris”http://www.youtube.com/watch?v=K_IaJDqz2Zo eram uma clara referência à origem egípcia do Rito de Mizraim.




Ir.´. Giuseppe Garibaldi

Curiosamente, esse rito (unificado posteriormente com o outro Rito Maçônico egípcio, qual seja o Rito de Memphis pelo Grão-Mestre Giuseppe Garibaldi) reverencia a memória de um notabilísimo Mestre Arquiteto: Imotep, que a Bíblia menciona com o nome de Hiram Abif, diretor das obras de construção do famoso Templo de Salomão, uma das maravilhas do mundo antigo e também artesão excelso.

Note-se que o referido Rito de Memphisconstitui, em seu próprio direito, o mais notório da tradição maçônica, pois vem, por sua vez, dos mistérios de Isis do antigo Egito e das antiquíssimas filiações maçônicas drusas. Este Rito foi trazido à Europa por Napoleão I, Champollion e oficiais do exército francês que foram iniciadas por ocasião da expedição ao Egito.

Not-se de passagem, que as três crianças-guias na decoração original levavam em suas mãos folhas de palmeira. Este é um símbolo permanente na tradição esotérica, cujo significado é ascensão, vitória, regeneração e imortalidade.

Até agora, os aspectos anagógicos do simbolismo da ópera. Passemos agora a abordar rapidamente os aspectos tropológicos, ou seja, aqueles que tornam o conteúdo ético, moral e filosófico.

Em primeiro lugar, não se pode ignorar a tipologia psicológica que estabelece uma clara diferença entre os dois casais: Tamino – Pamina e Papageno – Papagena.

Os primeiros são seres superiores com aspirações nobres, autênticos “homens de desejo”, para usar a terminologia de Louis Claude de Saint Martin. Esta atitude contrasta com a dos outros dois que só aspiram a uma boa comida, um bom relacionamento conjugal e que, em suma, são seres humanos bons, mas pequenos e medíocres.

Assim, vemos que a Iniciação de Tamino e Pamina acontece, mas a de Papageno e sua futura esposa falha (como não poderia ser de outra forma). De fato, a esmagadora maioria dos seres humanos em seu estado atual não é iniciavel, e deve se contentar com as pequenas coisas da vida: seu estado atual não lhes permite aspirar outra coisa.

Papageno o diz claramente: “Ein Netz fur Mädchen möchte ich, ich fing sie dutzenweis fuer mich”. (De uma rede para garotas eu preciso, eu as teria às dúzia para mim.)

No entanto, e apesar da sua vulgaridade. Papageno é bom em seus sentimentos. Isto se manifesta no célebre dueto com Pamina,http://www.youtube.com/watch?v=mO-h1sPcsKQ onde eles expressam o fato de que o amor é a lei suprema da natureza, e que ele leva o casal ao limiar da Divindade.

Cabe perguntar se os dois personagens, tão charmosos quanto diferentes entre si, concebem o amor da mesma maneira e no mesmo nível. Pamina é a própria espiritualidade e Papageno a pura sensualidade. Ela pode conceber e sentir o amor divino, assim como o humano. Seria demais pedir isso a Papageno.

Uma segunda lição pode ser encontrada nas palavras das crianças-guias. Deve ser dito que estas crianças são referências às Columbas, a personificação da voz da consciência. Tais Columbas foram introduzidas nos Ritos Maçônicos Egípcios por Cagliostro. Hoje eles desapareceram, mas ainda são preservados nos rituais de certas ordens Rosacrucianas de origem moderna e que afirmam ter uma filiação inexistente proveniente (segundo eles) de tais Ritos.

As crianças-guia são claras com Tamino: “Sei standhaft, duldsam und verschwiegen” (Seja persistente, paciente e guarde o silêncio). http://www.youtube.com/watch?v=EeSxGG64T2g

Aqui estão três regras de ouro que devemos adicionar ao amor fraterno entre os seres humanos.

Com isso, Tamino chega às três portas do templo. Sua reflexão é precisa: “Onde reina e atividade e o ócio é proibido, o vício dificilmente pode criar raízes.”

As dúvidas e os erros afligem Tamino. O Segundo Guardião do Umbral está em ação. Surge então do fundo de seu ser a pergunta-chave “Quando então verei a luz?”. Uma pergunta honesta da parte de alguém que está disposto a reconhecer seus erros e que cada profano de valor deve fazer em um dado momento a si mesmo.

Cabe recordar de passagem que Richard Wagner na Tetralogia também menciona claramente este Segundo Guardião do Umbral. Referimo-nos à passagem de Siegfried atacado pelo anão Alberich a quem a capa mágica torna invisível.

E aqui é imperativo encerrar pois não se trata de esgotar o tema, mas apenas fornecer abundantes motivos para reflexão a cada um dos amados leitores.


Construtores de Império – Maçonaria e Imperialismo Britânico – 1717 – 1927


Tradução José Filardo
Por Jessica L. Harland-Jacobs


O Duque de Connaught, GM da Maçonaria Inglesa liderando uma procissão maçônica em Bulawayo, Rodésia, 1910,

Introdução

A Antiga e Honorável Fraternidade dos Maçons Livres e Aceitos

Em 1827, uma carta de um oficial de polícia na jovem colônia de Nova Gales do Sul chegou à sede da Grande Loja da Maçonaria Inglesa. O nome do oficial era John Stephen. Filho de um juiz inglês, ele tinha migrado para Sydney menos de um ano antes de enviar a carta. Nos meses que se seguiram, ele contou às autoridades maçônicas na metrópole que ele mesmo havia se familiarizado com o “estado da Maçonaria nesta parte distante do Mundo.” Stephen expressava tanto preocupação quanto otimismo. Ele estava preocupado com o que via como uma superabundância de lojas irlandeses na colônia, bem como a falta de uma autoridade centralizada para conduzir aqueles que queriam filiar-se a lojas inglesas. Mas ele estava otimista sobre as perspectivas para a Maçonaria nos assentamentos, que estavam em rápida expansão com a chegada “quase diária” de emigrantes livres. Na carta, este colonialista bastante comum passou a fazer duas observações percucientes sobre o papel da Maçonaria no crescente Império Britânico do início do século XIX. Primeiro, ele observou que “a maior parte da comunidade livre fora admitida como maçons na Inglaterra a partir da noção predominante da necessidade de o ser ao se tornar um viajante.” A esta altura, a Maçonaria tinha ganhado uma reputação merecida de ser uma instituição que oferecia aos seus membros um passaporte para inúmeros benefícios disponíveis em todas as partes do império e, na verdade, em todo o mundo. Em segundo lugar, Stephen percebeu que esta fraternidade tinha um papel a desempenhar no fortalecimento do Império Britânico. O crescimento da Maçonaria nas colônias australianas serviria para criar “um vínculo eterno de unidade que conectará mais intimamente esta colônia com a Inglaterra do que qualquer outra que possa, eventualmente, ser concebida.” Apesar de Stephen estar escrevendo sobre uma determinada parte do império em um momento particular, as suas observações sobre o valor da Maçonaria para os colonialistas e o império são aplicáveis ​​ao longo do tempo e do espaço.

A fraternidade a que este oficial de polícia do início do século XIX pertencia – Antiga e Honorável Fraternidade de Maçons Livres e Aceitos – tinha formalmente surgido em Londres em 1717, embora as suas raízes remontem a meados do século XVII na Escócia e Inglaterra. Durante meados do século XVIII, a fraternidade tornou-se uma instituição global. Uma por uma, as lojas criaram raízes ao longo das Ilhas Britânicas, Europa, império atlântico da Grã-Bretanha e no resto do mundo. A Maçonaria expandiu-se à medida que o império se expandiu, e os principais centros de atividade maçônica no exterior igualavam-se aos principais centros do império do século XVIII: o Caribe, América do Norte Britânica e Sul da Ásia. Até 1752 as lojas onde quer que a fraternidade lançasse raiz ou esperava-se que florescesse. Os três mecanismos – lojas regimentais, processos de migração e Grandes Lojas provinciais – combinados com o efeito da proliferação de uma vasta rede de lojas que ligavam homens através dos impérios formais e informais. A Maçonaria espalhou-se de forma tão eficaz que até o final de 1880 o Grão-Mestre da Escócia poderia justificadamente afirmar: “Onde quer que a nossa bandeira chegou, nós somos capazes de dizer que ali chegou a Maçonaria, e fomos capazes de fundar lojas para aqueles que deixaram nossas praias para fundar impérios frescos. “- Na verdade, mais de 820 lojas britânicas estavam funcionando por todo o império a essa altura; este número não inclui as centenas de lojas sob as Grandes Lojas semi-independentes no Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul (ver quadros 1-3).

Quadro 1 Lojas britânicas no exterior (incluindo lojas militares)


               Inglesas         Escocesas        Irlandesas 

1850          222                   12ª                     53         
1859          293                   46                      64b. 
1875          369                     –                      76c. 
1886          541                 208                      76 
1890          432                 175                      74 
1900          469                 218                      50 
1930          704                 321                      65 


Fontes: Processos da Grande Loja da Escócia; Laurie, História da Maçonaria; Calendário dos Freemasons e Pocket Book (London 1850, 1859, 1886, 1890, 1900,1930); Calendário dos Freemasons irlandeses e Directory (Dublin, 1850, 1856, 1876, 1886, 1890, 1900, 1930); FC 111, 2869 (4 de janeiro de 1930): 4-5.

Nota> A redução do número de lojas inglesas entre 1886 e 1890 pode ser atribuída à fundação de grandes lojas independentes em New South Wales e Victoria. Ver Quadro

1836
1856
1876

Onde quer que estivessem, os maçons britânicos recorriam ao que um membro do século XIX adequadamente descreveu como a “vasta cadeia (da Maçonaria) que se estende ao redor de todo o globo”. Os comerciantes e administradores coloniais, soldados e oficiais, e colonialistas comuns de todos os tipos ingressavam na fraternidade, porque a adesão oferecia um passaporte para a sociedade convivial, refinamento moral e espiritual, assistência material, e ascensão social em todas as partes do império. Ao atender uma grande variedade de necessidades – que iam da associação homossocial até facilitar a transição dos homens de uma sociedade colonial para outra – pertencer à Fraternidade tornava a vida mais fácil para os britânicos que dirigiam, defendiam e viviam no império. Seu apelo se estendia a homens nos mais altos escalões do mundo imperial britânico, homens como Benjamin Franklin, Joseph Brant, Príncipe Edward (Duque de Kent), Lord Hastings, Lord Durham, Lord Dalhousie, Lord Kitchener, Lord Woseley e o Duque de Connaught. Ela tinha uma forte presença nas instituições oficiais do império, especialmente o Exército, a monarquia e o serviço colonial. A Maçonaria, ao que parece, foi fundamental para a construção e coesão do império. Observando essa relação fundamentalmente recíproca entre a Maçonaria e o imperialismo, o ex-Secretário de Estado para as Colônias e alto funcionário Maçônico Lord Carnarvon proclamou: “Seguindo de perto, na esteira da colonização, onde quer que a cabana do colono fosse construída ou a bandeira de conquista tremulasse, ali a Maçonaria teria logo igual domínio. Ela refletiu e consolidou o Império Britânico. ” Este livro conta a história da Maçonaria imperial britânica e, no processo, oferece algumas novas maneiras de pensar sobre a história do imperialismo.

Quadro 2. Lojas na Índia (incluindo Ceilão e Burma)

              Inglesas          Escocesas         Irlandesas 
1850          56                       7                       1ª.
1886        109                     34                       4
1890        113                     37                       4 
1900        138                     43                       3 
1930        229                     78                     14 

Nota: Estes números são subconjuntos dos números do Quadro 1.

a. 1856

Como o império que ajudou a constituir. A Maçonaria – e as concepções de fraternidade que ela promovia – sofreram mudanças significativas no período aqui examinado. Desde o seu início, a instituição identificou-se estreitamente com os ideais do cosmopolitismo do Iluminismo: fraternidade universal, sociabilidade, tolerância e beneficência. O único requisito declarado para o ingresso era a crença na existência de um ser supremo, descrito genericamente na loja como o Grande Arquiteto do Universo (GADU). Assim, a instituição alegava admitir homens de qualquer formação religiosa, política, nacional ou racial. Como um orador maçônico do século XVIII colocou, a Maçonaria “ensina homens de todas as nações, de todos os credos diferentes e de todas as classes na vida, superando os preconceitos e distinções, que a Educação ou a Fortune possam ter instituído, abraçar uns aos outros como irmãos e entregar a alma à harmonia e o amor. “- Para preservar um ambiente de tolerância, as regras da ordem proibiam a discussão de política e religião dentro da loja.

Quadro 3. Lojas no Caribe

                    Inglesas       Escocesas      Irlandesas 
1859                  35                14                   2ª. 
1886                  29                21                   2 
1890                  29                21                   2 
1900                  28                14                   2 
1930                  27                21                   3 

Nota: Estes números são subconjuntos dos números do Quadro 1.

a. 1856

Examinar o destino da promessa inclusiva da Maçonaria nas diversas circunstâncias históricas apresentadas pelo Império Britânico é o pivô central sobre o qual se desenrola esta história. O Império Britânico do século XVIII ofereceu um terreno fértil para a construção e funcionamento de uma extensa rede maçônica (Capítulo l). Neste período, a fraternidade permaneceu uma instituição relativamente fluida e inclusiva que, às vezes, viveu de acordo com sua ideologia de fraternidade cosmopolita. Embora dominada por homens brancos protestantes, a Maçonaria britânica do século XVIII tinha realmente espaço em suas lojas para judeus e muçulmanos, afro-americanos e sul-asiáticos e outros “outros”. ” As mulheres, no entanto, nunca foram admitidas à comunhão Maçônica; o cosmopolitismo da Maçonaria era, por definição fraternal (Capítulo 2). A Maçonaria do século XVIII também incluía homens de uma variada gama de opiniões políticas que tanto apoiaram quanto desafiaram a oligarquia Whig (conservadora) que governava a Inglaterra hanoveriana e seu crescente império (Capítulo 3).

À medida que a Grã-Bretanha passava pela era da revolução e saia vitoriosa das guerras napoleônicas, a Maçonaria passou por uma grande transformação que refletia as correntes fortalecedoras do nacionalismo, capitalismo e imperialismo. Como os seus irmãos do século XVIII, os maçons do século XIX continuaram a defender a ideologia de abertura da Maçonaria, mas na prática a fraternidade abandonou, em grande medida, os seus passados cosmopolitas e radicais. Reagindo contra a elasticidade da maçonaria durante o século anterior, os oficiais da Grande Loja lutaram e venceram uma batalha para ganhar o controle sobre a irmandade através da identificação consciente da fraternidade com a lealdade ao Estado. Enquanto isso, como a Igreja Católica empreendia uma campanha sustentada contra a Maçonaria mundial, a fraternidade tornou-se uma instituição essencialmente protestante (Capítulo 4). Nas colônias. As associações de longa data da Maçonaria com homens de destaque (tais como oficiais militares e governadores coloniais) a tornou atraente para homens em ascensão que buscavam status e poder para acompanhar a sua riqueza. As lojas locais estavam dispostas a admitir alguns homens de origem humilde, mas os maçons coloniais fizeram todos os esforços para garantir a respeitabilidade da fraternidade através da regulamentação da adesão, a realização de elaboradas cerimônias públicas, e a manutenção de posições de liderança nas mãos dos irmãos mais respeitáveis. A irmandade foi, portanto, fundamental para tornar uma classe média colonial e definir suas fronteiras no exato momento em que os seus constituintes do sexo masculino estavam celebrando acordos de partilha de poder com as elites tradicionais (Capítulo 5). A irmandade que era inicialmente aberta a todos os homens era, após a idade de revolução, dominada por homens brancos legalistas, protestantes e respeitáveis. Ela, assim, refletiu e contribuiu para o “reordenamento fundamental do Império”, à medida que o império Atlântico antigo transformou-se no chamado “Segundo Império britânico” do século XIX.

Até o último terço do século XIX, a irmandade maçônica havia se tornado um aliado incondicional do estado imperial britânico. Ela participou de vários esforços para fortalecer o império em face de pressões internas e externas durante a época do alto imperialismo. Pro cônsules imperiais como Kitchener, Wolseley e Connaught consideravam a Maçonaria um aliado valioso não só quando eles governaram e defenderam o império, mas também à medida que eles continuaram a missão imperialista de tornar o império uma fonte de força nacional. Em lugares como o Canadá, Austrália e Nova Zelândia, a Irmandade ajudou a transformar os homens em cidadãos ardentes do império que contribuíram com sua energia, dinheiro e até mesmo suas vidas para a causa imperial (Capítulo 7). Enquanto isso, fora das colônias de povoamento, os homens indígenas de várias formações religiosas e raciais tinha começado a procurar admissão na Maçonaria. O império se tornou um campo de teste prático do compromisso dos maçons com sua ideologia de fraternidade cosmopolita em uma época de atitudes cada vez mais raciais. Os maçons britânicos na periferia imperial em último caso e relutantemente admitiam elites nativas, mas eles faziam isso só porque acreditavam que ajudaria a fortalecer o império (Capítulo 6). Como se viu, muitas elites indígenas foram atraídas para a Maçonaria devido à sua ideologia de fraternidade cosmopolita, uma ideologia que podia ser usada tanto para minar quanto para defender o imperialismo britânico (Conclusão).

Contar a história da Maçonaria imperial britânica – de uma fraternidade Iluminista que se cruzou com o imperialismo e foi transformada como resultando – nos obriga a viajar ampla e longinquamente. Como muitos dos indivíduos examinados nestas páginas, viajaremos da metrópole para dentro do império e de volta às Ilhas Britânicas. Uma e outra vez, a história da Maçonaria demonstra a grande medida em que a metrópole e a colônia eram espaços mutuamente constitutivos, partes de uma “formação social imperial” composta por contextos domésticos e imperiais distintos e ainda assim interatuantes. A “metrópole”, para os nossos propósitos consiste na Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda. Embora os historiadores da Maçonaria tenham se concentrado em contextos “nacionais” específicos dentro das Ilhas Britânicas, a irmandade era de fato uma instituição britânica que devia ser abordada adotando as perspectivas e pressupostos da “história britânica”. Ocupando um lugar ambíguo entre metrópole e império, a Irlanda é especialmente crucial para a história da Maçonaria imperial britânica. Primeiro, a Grande Loja Irlandesa inventou a maioria dos mecanismos administrativos que facilitaram a propagação da Maçonaria no exterior. Em segundo lugar, as atividades dos maçons irlandeses em Londres estimulou a criação de uma Grande Loja Inglesa rival, conhecida como “os Antigos”, com enormes consequências para a Maçonaria tanto nas ilhas britânicas quanto no Império. Em terceiro lugar, acontecimentos na Irlanda na virada do século XIX ilustram precisamente a mudança em direção ao legalismo traçada no meio do livro. Finalmente – como vemos na carta de John Stephen citada acima – os maçons irlandeses nas colônias muitas vezes encontravam resistência dos “irmãos” ingleses, que acusavam os irlandeses de falta de respeitabilidade e de serem desordeiros. Como resultado, os maçons irlandeses em lugares como Upper Canada e Nova South Wales lideraram movimentos para a criação de grandes lojas independentes nas colônias. Assim, a própria complexidade que faz com que muitos historiadores evitem a Irlanda apresenta, de fato, um prato principal fascinante sobre a história do imperialismo britânico.

Relatar a história da Maçonaria imperial britânica também exige uma abordagem comparativamente ampla do império. Como grande parte da chamada “nova história imperial,” este estudo examina a relação da Grã-Bretanha com a Índia e as colônias tropicais. Mas ele não sacrificar as colônias de povoamento no processo. Na verdade, a fraternidade floresceu nas colônias da América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, onde os emigrantes plantaram novas Inglaterras no exterior. Incorporar totalmente os domínios é importante por mais do que a razão básica de que a Maçonaria era popular entre os colonos nestes locais; tem também um retorno metodológico significativo. Examinar simultaneamente os desenvolvimentos na metrópole, no império dependente, e nas colônias de povoamento proporciona oportunidades para fazer perguntas de natureza comparativa. Por exemplo, como as autoridades metropolitanas reagiram aos desenvolvimentos simultâneos no Canadá e na Índia? Além disso, nos permite apreciar a observação de Linda Colley de que “a história imperial é vitalmente sobre a conexidade, a identificação e investigação das conexões múltiplas que existiram ao longo do tempo entre os diferentes setores do mundo e diferentes povos”. Assim, aproveitando a mesma pergunta, como o fato de que os homens conectados em rede da Maçonaria na Grã-Bretanha, Canadá e Índia efetuaram desenvolvimentos simultâneos em todos os três lugares? Dessa forma, a história da Maçonaria exige que recuperemos as colônias de assentamento das margens historiográficas a que foram consignadas.

Embora esta história da Maçonaria assim se construa e acelere um trabalho recente em história britânica e a nova história imperial, ela também é concebida como um exercício de história do mundo. Acompanhando uma instituição discreta e identificável através de ampla expansão cronológica e geográfica do Império Britânico apresenta um caminho viável para “fazer história” fora do quadro restritivo do Estado-nação, uma categoria analítica cujo peso tem sobrecarregado a profissão de historiador por muito tempo. Em especial, este não começou como um projeto de história do mundo. Mas as fontes primárias rapidamente levantaram questões que exigiam atenção para as preocupações e metodologias deste subcampo florescente, tais como o surgimento de redes comerciais, o jogo de rivalidades imperiais e o movimento de pessoas ao redor do mundo. O mundo da Maçonaria britânica abrangia não só os diferentes elementos do império britânico – as Ilhas Britânicas, as colônias de povoamento, a Índia e as colônias da coroa, – mas também partes do mundo, sobre as quais a Grã-Bretanha não reivindicava soberania. Com lojas britânicas operando em toda a Europa, nos impérios de rivais europeus, e em esferas da influência comercial britânica conhecidas como o “império informal”, a rede maçônica britânica se estendia por dimensões internacionais. Além disso, a Maçonaria proporcionava um espaço para homens de diferentes nações se encontrar, mesmo em tempos de intensa rivalidade nacional. A primeira reunião maçônica a ter lugar em New South Wales, por exemplo, ocorreu entre oficiais navais franceses da expedição Baudin e oficiais britânicos do New South Wales Corps em 1802, no meio de uma corrida para mapear e, portanto, reivindicar regiões do sul do continente australiano. Descobri, portanto, que, simultaneamente, sobrepor as lentes da história nacional, imperial e transnacional aumenta significativamente a nossa visão da Maçonaria.

Apesar da presença bem estabelecida da Maçonaria no Império Britânico e no resto do mundo, os historiadores do imperialismo ainda têm de investigar a fraternidade. Em 1969, John M. Roberts publicou um artigo intitulado “Maçonaria: Possibilidades de um tema negligenciado” na English Historial Review em que ele instava os historiadores a atentar para o registro documental rico da Maçonaria em suas investigações da sociedade e cultura Inglesas do século XVIII. Embora ele corretamente identificasse lojas maçônicas como importantes “agentes culturais” que funcionavam “como geradores e transmissores de ideias e símbolos, e como fontes de atitudes e imagens”, Roberts estava focado no contexto inglês, em vez dos contextos britânicos ou imperiais. Ronald Hyam foi o primeiro historiador imperial a tomar nota da Maçonaria sete anos mais tarde, quando observou no Século Imperial da Grã-Bretanha (que sofreu posteriormente uma segunda e terceira edição) que a “função (da Maçonaria) na divulgação de influências culturais britânicos. foi seriamente subestimada” e exortou os historiadores a investigar o papel da Maçonaria no império. Apesar de tais chamados, não há ainda nenhuma literatura para a Grã-Bretanha imperial comparável ao trabalho sofisticado sobre a Maçonaria na Europa continental, nas treze colônias e nos Estados Unidos do século XIX e Rússia. O único historiador imperial para fazer da Maçonaria um foco de sua análise é Paul J. Rich. Rich escreveu sobre a ligação entre a Maçonaria, as escolas públicas e ritualismo. Baseando-se em conceito de hegemonia de Gramsci, ele argumenta que os britânicos usaram o ritualismo como um “instrumento de controle” eficaz para estender o seu poder no exterior.

A Maçonaria, de acordo com Rich, era parte do “currículo secreto” de escolas públicas que moldava alunos em pro cônsules imperiais e lhes dava acesso à “rede dos velhos amigos, em última análise.” Embora este trabalho seja sugestivo em relação à natureza multifacetada do poder imperial, ele trata a Maçonaria de uma forma superficial e não é suficientemente sintonizado com contextos históricos específicos.

Nesse meio tempo, nenhum dos estudiosos que examinaram a Maçonaria na Europa e América estudou a fraternidade pelo que ela nos pode dizer sobre o imperialismo. . Os capítulos iniciais de Steven C. Bullock em Revolutionary Brotherhood chegaram bem perto, mas ele está mais preocupado com o papel da fraternidade na transição da América do Norte colonial para a democracia, do que com o exame da Maçonaria como uma instituição imperial. E, surpreendentemente para investigações de uma irmandade que chegou a abranger todo o globo, a historiografia existente da Maçonaria mostra uma clara falta de perspectiva transnacional. Agora sabemos muito sobre a história da fraternidade em contextos nacionais específicos (com o estudo de Margaret Jacob da Maçonaria na Grã-Bretanha, França e Holanda sendo o mais amplamente concebido). Mas a promessa do tema de realizar história conjuntiva e comparativa não foi ainda concretizada. Mesmo o volume publicado recentemente, editado por William Weisberger, a Maçonaria nos dois lados do Atlântico, parece ser apenas isso mesmo – estudos de casos da Maçonaria em nações de ambos os lados de um corpo de água que parecia servir mais como um obstáculo do que uma ponte.

O momento é propício, portanto, para ver o que a Maçonaria no pode revelar sobre o imperialismo britânico e, no processo, a “conexidade” que resultou de redes globais de instituições, comércio e pessoas. Especificamente, minha análise da Maçonaria através de dois séculos e várias localizações geográficas apoia-se em cinco temas interligados que funcionam no decorrer deste estudo: globalização, instituições supranacionais e identidades, poder imperial, masculinidade e fraternalismo.

Minha primeira ênfase é sobre o papel das instituições culturais na globalização, o processo pelo qual diversos povos e lugares distantes tornaram-se cada vez mais interligados ao longo do tempo. Obsessões atuais com o significado da globalização em nossos tempos – sejam comemorativas ou de admoestação – tendem a obscurecer o fato de que as raízes do fenômeno vão de volta longe no tempo. A relativa ausência de historiadores nos debates atuais significou que a maioria das análises da globalização são “presentistas” e baseadas em pressupostos problemáticos sobre sua trajetória histórica. Incitar historiadores a se envolver com os outros, assim como cientistas sociais, sobre a globalização é o ponto central da Globalização na História Mundial, um volume provocante editado pelo historiador A. G. Hopkins (2002). Em seu próprio capítulo, “A História da Globalização – e a Globalização da História”, Hopkins expressa surpresa que os historiadores tenham sido tão delinquentes no reconhecimento de potenciais áreas de pesquisa na história da globalização. Ele os incentiva a tirar proveito de uma “oportunidade considerável. para dar uma contribuição sistemática e eficaz a este debate amplo e de grande atualidade.” Para Hopkins, a oportunidade não se limita ao que os historiadores possam contribuir para o debate sobre a globalização, “comentar sobre as alegações feitas a favor e contra a novidade da globalização.” Ela envolve também a abertura dos historiadores para “usar preocupações atuais com a forma de mudança da ordem mundial para enquadrar novas perguntas sobre história.

Hopkins e seus colegas contribuintes para o volume Globalização na História Mundial estão certamente certos ao identificar impérios como “poderosos agentes da globalização. ” O imperialismo, em seus vários aspectos formais e informais, e seu frequente companheiro de cama, o capitalismo, têm sido, sem dúvida, as forças conjuntivas mais poderosas da história mundial. Embora não sejam participantes centrais no debate sobre a globalização, os historiadores estudam há muito tempo o papel dos estados imperiais e das redes comerciais que seus cidadãos criaram reunindo povos e lugares diferentes em complexas relações de exploração e interdependência. Ao fazê-lo, eles têm enfocado principalmente as dimensões econômicas e políticas da globalização. Mas seus aspectos culturais, conforme assinala Tony Ballantyne no volume de Hopkins, ainda têm de ser submetidos à análise histórica rigorosa.

Examinar a história da Maçonaria, eu argumento, apresenta uma excelente forma de avaliar a contribuição de instituições culturais para o processo histórico da globalização. Os maçons estabeleceram uma das primeiras redes institucionais globais, que não só ligava britânicos distantes uns aos outros, mas também colocava os britânicos em contato com outros imperialistas europeus, assim como homens indígenas em todos os impérios formais e informais. Uma análise da Maçonaria torna possível identificar várias características que permitem que instituições funcionem em uma base mundial e promovam a globalização. Estas incluem uma estrutura administrativa bem estabelecida com um hub central; um conjunto de mecanismos para efetuar a proliferação de rede da instituição; uma capacidade de adaptação a diferentes circunstâncias ao mesmo tempo em que mantém características institucionais distintas e identificáveis; evidência de “extensividade” geográfica; maneiras de seus membros se identificarem e comunicar uns com os outros, mesmo que eles sejam estranhos; utilidade para os membros; e, finalmente, uma ideologia que promova a conscientização do resto do mundo. -1 Que tal rede institucional estava em funcionamento na segunda metade do século XVIII, sugere que o período entre 1750 e 1815 foi uma fase crucial na globalização. Por conseguinte, devemos buscar a história da globalização, não só nas redes de comércio e impérios do início do período moderno, e as vastas correntes migratórias e fluxos de mercadorias do século XX, mas também nas instituições culturais que ligavam os homens em todo o cenário global dos séculos XVIII e XIX.

O notável sucesso da Maçonaria na construção de pontos de rede globais para a segunda preocupação deste livro, ou seja, a constituição e o funcionamento de identidades supranacionais. A identidade tornou-se uma preocupação central dos estudiosos nos últimos anos. A principal razão para sua popularidade é a sua abrangência e flexibilidade como um conceito. Os estudiosos que buscam usar a classe, gênero e raça como categorias interatuantes de análise têm algum conforto em serem capazes de abarcar a sua ambiciosa agenda sob a rubrica de “estudar identidades.” Mas a própria amplitude e flexibilidade que o torna atraente também exige que aqueles que afirmam estudar identidade definam o seu entendimento disso. Aqui, eu uso o termo para descrever o processo contínuo pelo qual as pessoas definem, dentro de limites determinados pelas circunstâncias em que vivem, as suas comunidades de pertença. Por exemplo, as pessoas que nascem na escravidão são definidas por suas circunstâncias como escravos, mas têm algo a dizer na decisão com a quais outras comunidades eles se identificam, tais como a que sistemas religiosos eles decidem subscrever. Identidades, conforme historiadores como Kathleen Wilson e Catherine Hall tão magistralmente demonstraram, não são fixas ou estáticas, não são baseadas em características essenciais que possuem poder transcendente. Em vez disso, eles são sempre contingentes, tentativas e em fluxo, mudando de acordo com a configuração de circunstâncias históricas específicas. As identidades das pessoas são múltiplas e, por vezes, até mesmo contraditórias. 21 Sua natureza complexa resulta do fato de que elas são feitas de tantos eixos, incluindo idade, gênero, sexualidade, raça, etnia, nacionalidade, religião, comunidade linguística, ocupação e classe. As identidades são construídas e expressas através de discursos que revelam a “interdependência incipiente” dessas e de outras categorias. Finalmente, como “o produto tanto de ação quanto de coerção”, as identidades significam relações de poder.

Graças ao fato de que muitos estudiosos têm dirigido a sua atenção às identidades e formação de identidade nos últimos anos, temos entendimentos cada vez mais cheios de nuances de como homens e mulheres se definiram em termos de classe, gênero, raça e nação. A literatura sobre a interação de gênero, nação e raça no contexto do imperialismo é especialmente sofisticada. Mas análises sustentadas de identidades supranacionais e as instituições que as promovem são relativamente raras, tanto dentro quanto fora da disciplina da história. A identidade supranacional resulta quando as pessoas definem uma comunidade de pertença que se estende além do seu lugar de origem nacional. Identidades supranacionais podem ser ideológicas (p. ex. comunismo), religiosas (p. ex. Catolicismo) ou políticas (p. ex., Pan-africanismo). Elas assumem outras formas, tais como as investigadas aqui: universalismo, fraternalismo, cosmopolitismo e cidadania imperial. Identidades supranacionais não necessariamente substituem ou se conflitam com identidades nacionais. Ao contrário, elas interagem de formas complexas com as identidades nacionais, e muitas vezes podem servir para solidificá-las, especialmente quando intimamente ligadas a uma missão imperial.

Em terceiro lugar, eu uso a história desta irmandade para explorar a complexa dinâmica de poder na Grã-Bretanha e o império. Ainda temos muito a aprender sobre as variadas formas e faces do poder imperial; sobre as formas como os colonizadores implantaram seu poder e como as populações subjugadas responderam a ele. Conforme explica Dane Kennedy: “Embora historiadores imperiais tenham atentado para a questão do poder desde o início da sua área de estudo, e embora suas investigações tenham dado origem a um corpo sofisticado de trabalho que traça o exercício do poder de coerção até a colaboração, o fato é que as circunstâncias que permitiram a relativamente pequenos contingentes de europeus adquirirem e manter a autoridade sobre números muito maiores de asiáticos, africanos e outros representam um dos enigmas mais persistentes a surgir do estudo do imperialismo ocidental.” Uma razão para isso é o fato de que a maioria dos estudos enfocou os agentes óbvios de poder imperial – o exército e a marinha, a coroa, o Parlamento, os governos coloniais, empresas comerciais e outros interesses mercantis e tecnologia. Precisamos, é claro, apreciar o papel desses agentes imperiais cruciais que serviram de bases primárias de poder ultramarino britânico. Mas podemos alcançar uma compreensão mais completa e matizada do poder imperial se também voltarmos nossa atenção para instituições e agentes que exerceram uma influência mais sutil. Uma instituição informal esquecida da construção do império, a Maçonaria contribuiu de forma importante para o estabelecimento, manutenção e expansão do poder imperial. Primeiro, ela foi fundamental na lubrificação das redes militares, administrativas e comerciais mencionadas acima, nas quais se baseia o poder da Grã-Bretanha. Pertencer à fraternidade ajudou autoridades coloniais, militares e comerciantes a se mover através do império, ajustar-se a ambientes difíceis, assegurar promoções e lucros, em suma, realizar seus trabalhos. » A Maçonaria também facilitou a passagem de migrantes comuns que estenderam a influência da Grã-Bretanha através do estabelecimento de colônias de povoamento no exterior. O prédio da loja maçônica era, às vezes, a primeira e única estrutura da comunidade em novos assentamentos nas fronteiras do império. À medida que as colônias de povoamento amadureceram, a irmandade continuou a solidificar o império, auxiliando os homens em ascensão em suas pretensões de se tornarem agentes de poder locais, ajudando assim a constituir as elites coloniais em meados do século XIX. E durante a época do alto imperialismo, a partir da década de 1870 passando pela Primeira Guerra Mundial, a instituição encorajou seus membros a dar sua energia, dinheiro, e até mesmo suas vidas para defender o poder e prestígio imperial da “mãe pátria.”.

Examinar a Maçonaria nos permite explorar outra dimensão do poder britânico ultramarino: o uso do ritual, cerimônia e simbolismo para projetar a impressão de invencibilidade e permanência. O poder imperial eficaz envolve mais do que a implantação de força bruta. Trata-se também de desempenho. Comentando sobre este aspecto do poder britânico, o historiador A. J. Stockwell observa que “apologistas contemporâneos favoráveis ao império britânico, portanto, usaram peças cerimoniais e imagens de suas instituições para justificar a sua existência, suavizar seu impacto, ou disfarçar sua fraqueza, e para acalmar seus súditos, conter os seus críticos, ou disciplinar seus praticantes. “Outros estudiosos exploraram as dimensões de desempenho do poder britânico”. Olhando para as formas em que governadores coloniais de meados do século XIX usaram cerimônias para mostrar a sua autoridade, o cientista político Mark Francis argumenta que “na sociedade colonial, procedimento cerimonial era de igual importância para a política ou a eficiência”.” De acordo com Paul Rich, “a capacidade de fazer cumprir a política pela força era limitada. Os ingleses usavam cerimônias como um substituto para canhoneiras.” Por fim, em um argumento muito mais sofisticado e contextualizado, David Cannadine identificou a pompa imperial (evidente nas cerimônias, arquitetura, honras imperiais, e Ordens de Cavalaria) como o principal meio através do qual os britânicos construíram e expressaram uma cultura de que o ornamentalismo era a base do império.

Ainda assim, argumentar que as dimensões cerimoniais do poder imperial foram mais significativas do que a força militar bruta é de certa forma um exercício inútil. O poder imperial eficaz precisa tanto de vigor quanto de impressão; eles trabalham em conjunto. Atenção mais cerrada ao mundo da Maçonaria revela esta dinâmica em ação. Ao mesmo tempo em que as lojas estavam viajando com regimentos do exército à medida que eles se moviam pelo império fazendo cumprir a vontade da Grã-Bretanha, os maçons também eram engajados como as tropas de choque da cerimônia imperial. Seu papel cerimonial não se limitava à privacidade da loja. Embora se assumisse ser envolta em mistério e intriga, a Maçonaria foi durante o período examinado neste livro ser uma instituição tão pública quanto um clube esotérico. Em toda parte que se ia no império, podia-se testemunhar Maçons marchando em procissão, ocupando lugares de destaque em cerimônias oficiais para cumprimentar ou se despedir de funcionários imperiais, e comemorando marcos na vida do monarca. E em todos os lugares eles lançavam pedras fundamentais – de igrejas, edifícios legislativos, prédios maçônicos, hospitais, bolsas de valores, mercados, hotéis, teatros, monumentos, casas particulares, escolas, pontes, orfanatos, tribunais, prisões, canais, faróis, bibliotecas e colégios. Nestas aparições públicas elaboradamente encenadas, os maçons colocavam seus finos adornos e ferramentas em exposição, depositavam as moedas do reino, e ungiam a arquitetura do império com os símbolos de sua ordem. Ao fazê-lo, estes construtores do império ajudavam a construir edifícios imperiais, bem como a impressão de que a presença da Grã-Bretanha era uma característica permanente da paisagem colonial.

Através de uma combinação de força e impressão, os britânicos procuraram não só fazer ao seu modo, mas também convencer seus súditos de que o governo britânico defendia seus melhores interesses. Neste ponto, o ponto de hegemonia, o poder britânico estava no auge. Os maçons britânicos achavam que sua fraternidade poderia ajudar a alcançar o objetivo de obter o consentimento dos homens indígenas de elite ao domínio britânico. Um argumento central para a admissão de Hindus, de fato, era a crença de que a loja poderia servir como uma fábrica para a construção de colaboradores que eram investidos em e leais ao império. O entusiasmo com que os homens indianos de elite se juntaram à Maçonaria sugere que a Maçonaria, de fato, contribuía para este processo. Mas os indígenas tinham muitas respostas diferentes ao governo imperial, respostas que são muito mais difíceis de medir do que as intenções dos poderosos. O que parecia ser colaboração também pode ter elementos de manipulação. Um homem indígena podia juntar-se à fraternidade para encarecer-se aos britânicos, mas ele também podia usar a ideologia da irmandade de fraternalismo cosmopolita para desafiar a “regra da diferença colonial” subjacente ao poder imperial e exigir a igualdade com seus “irmãos” britânicos. Afinal de contas, a Maçonaria, uma instituição altamente elástica, tinha um histórico de ser colocada para fins subversivos no mundo britânico atlântico tumultuado do século XVIII. Ela certamente poderia desempenhar um papel semelhante na era do nacionalismo colonial. Em suma, esta história elucida como uma instituição que ajudou a ampliar o poder imperial (em suas formas materiais, cerimoniais e hegemônicas) também pode ser usada para contestar a legitimidade daquela autoridade.

Estudar a história de uma instituição exclusivamente masculina também se presta a uma exploração de masculinidades, que é o meu quarto tema. O livro impele o projeto de demonstrar “os caminhos críticos nos quais a construção, prática e experiência do Império, tanto para colonizador quanto para o colonizado foi sempre e em toda parte vinculada ao gênero, ou seja, influenciados em todos os sentidos pela compreensão das pessoas sobre a diferença sexual e seus efeitos, e pelos papéis de homens e mulheres no mundo. “- O trabalho sobre mulheres, gênero e império está cada vez mais sofisticado. Mas “o estudo de gênero dos homens” e instituições exclusivamente masculinas ainda está em sua infância. Para ter certeza, vários estudiosos têm escrito sobre ideias vitorianas sobre masculinidade e os ambientes exclusivamente masculinos, tais como a escola pública, que os promoveu. aa Ainda assim, conforme aponta John Tosh, muito do trabalho sobre masculinidade tem sido “bastante inocente de gênero”. – – Como os historiadores que estudaram escolas públicas e clubes esportivos, eu examino um ambiente predominantemente masculino que excluía as mulheres, mas as mulheres não são de forma alguma excluídas da minha análise. Pelo contrário, o caso da Maçonaria demonstra claramente a qualidade fundamentalmente relacional de todas as masculinidades. Qualquer análise aprofundada da masculinidade deve explorar a forma como os papéis e responsabilidades dos homens, as expectativas dos homens, e até mesmo as interações dos homens com outros homens foram sempre regulados tendo em mente as mulheres.

A Maçonaria nos permite olhar para a natureza relacional das masculinidades, explorando o significado da homossocialidade em relação ao imperialismo. O império em si era um ambiente predominantemente masculino, especialmente antes de meados do século XIX. Para muitos administradores, comerciantes, soldados, e especialmente marinheiros, suas interações com outros britânicos ocorria dentro de “uma cultura da masculinidade singular”. Que diferença o funcionamento de instituições exclusivamente masculinas como a Maçonaria, dentro de um ambiente já predominantemente do sexo masculino fez para homens e mulheres? Para os homens, os espaços homossociais oferecidos pela Maçonaria ofereciam oportunidades para a construção de relações estreitas com colegas britânicos no império. A relativa ausência de mulheres em muitas partes do império exigia que os homens se voltassem uns para os outros em busca de apoio. Desta forma, a Maçonaria operava como uma família substituta que ajudava a atender a uma gama de necessidades materiais, de lazer e psicológicas. Mas se alguns homens se juntavam à Maçonaria por causa de uma ausência de mulheres, muitos outros participavam devido à sua presença. Estudos recentes demonstraram que o império não foi tão exclusivamente um ambiente masculino como já se presumiu. Embora certamente superadas em número pelos homens, as mulheres britânicas ajudaram a constituir a população que construiu o império como as esposas, companheiras, ou relações dependentes de militares, administradores coloniais, missionários e colonizadores. E o tempo todo, é claro, homens britânicos envolveram-se em relações de diferentes graus de coerção com mulheres indígenas. Operando em paralelo com este mundo heterossocial e heterossexual estava um mundo homossocial vibrante, fora dos limites para as mulheres (independentemente da sua raça ou status) e zelosamente guardado por seus frequentadores. Homens imperiais, ao que parece, precisavam de refúgios homossociais quando as mulheres estavam no meio deles, mesmo que essas mulheres fossem vastamente superadas em número e ocupando claramente posições de dependência e subordinação.

É precisamente neste contexto – de relações de poder de gênero – que espaços homossociais como as lojas maçônicas tiveram um profundo impacto sobre as mulheres. Ao restringir ainda mais o já limitado o acesso das mulheres ao mundo extra doméstico, a homossocialidade ajudou a manter as mulheres subordinadas. Explicando como associações exclusivamente masculinas reforçaram “o edifício do poder excludente do sexo masculino”, Tosh argumenta que elas “são parte integrante de qualquer noção de patriarcado além do lar. Elas incorporam o acesso privilegiado dos homens à esfera pública, reforçando simultaneamente o confinamento das mulheres ao domicílio e vizinhança. “Desta forma, o mundo associativo dos homens é um aspecto que Eve Kosofsky Sedgwick identificou como uma dinâmica homossocial mais ampla (as outras manifestações das quais incluem “amizade, orientação, direito, rivalidade, hetero e homossexualidade masculina”) que ajuda a sustentar a autoridade masculina. Maçonaria excluía as mulheres de suas lojas e, ao fazê-lo, a partir das identidades e papéis incentivava seus membros a adotar. Conforme veremos, transformar-se por meio da Maçonaria, em um cidadão cosmopolita ou imperial era uma oportunidade disponível apenas para os homens.

Embora as mulheres fossem significativas por sua exclusão do santuário interior da Maçonaria – a loja – elas efetivamente desempenham papéis fundamentais no mundo mais amplo da cultura fraternal da Maçonaria. Na verdade, a sua presença foi fundamental para a “demonstração pública de masculinidade. “Em primeiro lugar, as mulheres serviram como espectadores e observadores de impressionantes cerimônias maçônicas públicas em todo o império, pois (Ironicamente, os maçons precisavam que as mulheres constituíssem suas audiências, mas eles citavam a curiosidade desenfreada das mulheres como uma das principais razões pelas quais elas nunca deveriam ser admitidas na irmandade.). Em segundo lugar, os maçons imaginavam as mulheres como objetos dignos de sua caridade. Lojas registraram inúmeros casos de alocação de seus recursos para a manutenção das viúvas e órfãos de membros falecidos. Ser membro da irmandade, assim, habilitava os maçons a cumprir os seus deveres masculinos com seus dependentes até do além-túmulo. A caridade maçônica sublinhava o fato central da dependência das mulheres – primeiro de seus pais, em seguida, de seus maridos, e, em última análise, viúvas, da irmandade. Por fim, a Maçonaria encorajava os homens a agir de forma adequada em casa e preservar suas reputações como chefes de família honrados. Em sua sexta obrigação, que especificamente se refere ao “Comportamento (do Maçom) em casa e no seu Bairro”, as constituições que regem a irmandade determinam: “Os maçons devem ser homens morais, conforme acima obrigado; consequentemente, bons maridos, bons pais, bons filhos e bons vizinhos; não ficar muito tempo longe de casa e evitar todos os excessos; além disso, Homens sábios também, por certas razões conhecidas por eles.” Dessa forma, a Maçonaria servia para defender as “masculinidades hegemônicas” em jogo em um determinado período, reforçando as noções amplamente difundidas sobre como homens imperiais deviam agir, quais qualidades deviam possuir, e quais responsabilidades eram as suas.

O quinto e último tema – fraternalismo- está intimamente relacionado, conceitualmente e na prática, à masculinidade. Na verdade, Mary Ann Clawson, uma historiadora do fraternalismo americano, identifica a masculinidade, juntamente com uma linguagem “corporativa”, ritual e propriedade como uma característica definidora de fraternalismo. «Fraternalismo é o processo pelo qual os homens biologicamente não relacionados passam por uma experiência ritual compartilhada projetada para criar os vínculos e obrigações que supostamente caracterizam a relação entre verdadeiros irmãos.” Vinculados por ritual e, muitas vezes, por ideologia, membros de associações fraternais comprometem-se a privilegiar os interesses uns dos outros sobre aqueles que não pertencem à fraternidade. O que fraternalismo tem a ver com imperialismo? Segundo o historiador imperial Ronald Hyam, sabemos muito pouco sobre o papel das “doutrinas de irmandade da Maçonaria em sustentar as atividades em nível mundial de comerciantes e construtores do império.” Meu argumento de que a primeira e mais bem sucedida organização fraternal do mundo moderno esteve, desde seus primórdios, intimamente ligada no imperialismo sugere que, em grande medida, o Império Britânico foi uma empresa fraternal.

O termo que emprestou mais poder a explicações contemporâneas de fraternalismo maçônico foi a da família. Como veremos, as lojas utilizavam rótulos familiares, até mesmo “mãe”, “irmã” e “filha”, para descrever suas relações umas com as outras, e os escritores e oradores maçônicos baseavam-se em entendimentos idealizados da família para transmitir as expectativas relativas ao comportamento dos membros. Descrevendo a Maçonaria do século XVIII, como uma “Família ativa”, o historiador Steven C. Bullock explica, “a fraternidade maçônica dava peso emocional às relações sociais iluminadas afirmando a sua semelhança com a experiência generalizada, aparentemente natural da família. Os membros eram unidos pelos mesmos laços permanentes de afeto e responsabilidade que parentes verdadeiros.”- A Maçonaria era entendida como uma espécie de família, mas ela diferia significativamente de famílias tradicionais. Como uma família de sexo específico, ela excluía dois grupos geralmente vistos como críticos, embora subordinados, de membros da família: mulheres e crianças. Por todo o período abrangido aqui, os maçons britânicos de forma consistente e inequívoca sustentaram que sua família fraternal não tinha necessidade de mulheres. A irmandade também excluía homens com idade inferior a vinte e um anos. Os membros desta família fraterna eram, assim, ligados um ao outro, com base em seus valores comuns, interesses e ideologia, e não com base no sangue compartilhado.

Na ausência de laços de sangue, os maçons e outros grupos fraternais usavam rituais para criar um senso de comunidade e obrigação mútua. O Ritual maçônico deriva primariamente de duas fontes: as práticas artesanais de guildas medievais de maçons operativos e relatos judaico-cristãos da construção do Templo de Salomão. Irmãos aprenderam um novo ritual, juntamente com a senha e símbolos que o acompanham, à medida que eles passaram cada nível, ou grau, na Maçonaria. Apesar de alguns ramos da Maçonaria desenvolvessem dezenas de graus, a Maçonaria britânica limitava-se a três graus, conhecida como Craft ou graus “Azuis”. No primeiro, o grau de Aprendiz, o mestre e irmãos introduzem o iniciado no mundo da maçonaria. Parcialmente nu, com os olhos vendados, e apertado por uma corda que é amarrada em volta do pescoço, o iniciado experimenta o mistério da maçonaria enquanto aprende sobre o seu significado. O ritual transmite os “pontos de referência” centrais da Maçonaria: a caridade que os irmãos demonstram para com o outro e com o mundo externo, “o espírito perfeito da Igualdade entre os irmãos”, e a universalidade da irmandade. O grau seguinte, Companheiro, é ainda mais esotérico por natureza, à medida que o iniciado aprende os significados secretos da geometria e do Grande Arquiteto do Universo. Os graus do Craft culminam no ritual do Mestre Maçom, que representa a cena do assassinato de Hiram Abiff, o mestre construtor do Templo de Salomão, que se dizia ter sacrificado sua vida para proteger o conhecimento secreto de sua irmandade de ofício.

Esses rituais alegóricos têm várias funções. Eles realizam um papel pedagógico, transmitindo princípios maçônicos a iniciados e membros. Com o tempo, eles também combinam um elaborado sistema de apertos de mão, senhas e símbolos para se transformar em uma língua franca para os maçons de todo o mundo identificar-se e comunicarem-se uns com os outros. O mais importante para fins de constituição de família, eles criam laços fraternais entre os irmãos. Cerimônias maçônicas funcionam como uma cerimônia de casamento, outra forma de ritual, que procura criar vínculos permanentes onde existem laços de sangue. Com acontece na troca de votos de casamento, a cerimônia inicial imprime no Aprendiz a ideia de que ele está entrando em um novo conjunto de relações que exige um compromisso vitalício. Submetendo-se aos rituais subsequentes de Companheiro e Mestre Maçom, o novo membro conclui as etapas necessárias para se tornar um membro de pleno direito, igual de uma irmandade jurada. Ele está agora vinculado a um grupo de homens – seus irmãos – que se comprometeram a respeitar, ajudar e amar uns aos outros através de todas as circunstâncias. Falando perante uma audiência de maçons em 1799, o reverendo Joseph Inwood exortou: “A vocês, meus irmãos, que se ligaram uns aos outros, na grande e real ordem da Maçonaria, além destes vários laços de união com o qual todos os homens estão unidos como irmãos, dirijo-me a lembrá-los das obrigações solenes e compromissos com os quais celebramos a união de fraternidade, diante de Deus e de nossos irmãos.”

Mas até onde os maçons britânicos estavam dispostos a assumir seu fraternalismo? A Irmandade na Maçonaria foi concebida como um subconjunto de um fraternalismo mais amplo a que os maçons gostam de se referir como “a paternidade comum de Deus e a irmandade dos homens.” Como vimos, desde que professasse a crença em um ser supremo e tivesse mais de vinte anos de idade, qualquer homem era elegível para a admissão. Foi este latitudinarianismo que permitiu à Maçonaria servir, de acordo com suas Constituições, como “um centro de união e os meios de conciliar a verdadeira amizade entre as pessoas que deviam ter permanecido a uma distância perpétua”. O fraternalismo maçônico se tratava, assim, não apenas de homens britânicos cuidando uns dos outros em ambientes coloniais estrangeiros, mas também de acreditar em uma afinidade básica com “outros” encontrados nesses mesmos ambientes coloniais estrangeiros. Não surpreendentemente, as exigências da regra imperial consistentemente colocaram em teste o compromisso dos maçons com a ideia de fraternidade universal. Como vários estudiosos de Maçonaria apontaram, os maçons estavam engajados em um constante ato de equilíbrio, pesando os apelos inclusivos de sua ideologia com a necessidade que sentiam, dadas as suas circunstâncias particulares, ser exclusivas em suas práticas de admissão. Mas, ainda que as circunstâncias pudessem mudar, as alegações de inclusividade da Maçonaria mantiveram-se constante ao longo do tempo, e grupos excluídos – mulheres, negros livres, escravos emancipados, parsis e hindus – estavam sempre desafiando a instituição a viver de acordo com essas alegações. Em resposta a esses desafios, os maçons britânicos estavam engajados em um processo de definir não só os limites da sua instituição, mas também suas identidades como britânicos, maçons e homens.

Identidades supranacionais como fraternalismo e cosmopolitismo merecem nossa atenção. Mas porque os historiadores têm estado tão enfocados em como os britânicos definiram suas identidades nacionais, raciais e de gênero através de diferença, as dimensões “construção de conexão” de formação de identidade têm sido quase completamente esquecidas. A historiografia do imperialismo tornou-se excessivamente preocupada com questões de alteridade. Conforme o caso da Maçonaria deixa claro, identidades e ideologias coloniais eram mais complexas do que apenas “nós contra eles.” Mover-se para o outro extremo – enfatizar a “construção de afinidade”- não é o tipo de corretivo de que precisamos. Em vez disso, chegou a hora de explorar o que Jane Samson, uma historiadora de missionários britânicos no Pacífico, adequadamente descreveu como “a tensão constante entre alteridade e universalismo… ou, dito de outra maneira, entre ‘ser outro’ e ‘Ser irmão’.” Embora os maçons fossem claramente imperialistas interessados em defender a regra da diferença colonial, eles estava ao mesmo tempo propondo uma ideologia que reivindicava o outro como seu irmão, mesmo durante o período de alto imperialismo. Era uma ideologia de governo que era poderosa e insidiosa, com certeza, mas algo que também era suscetível de interpretações revolucionárias.





Lendas da Maçonaria Operativa -1401-1500


Dados publicados em wikipedia.

Devem ser vistos com reserva, pois é preciso considerar que a Maçonaria (a instituição que existe até hoje) só seria inventada em 1717 como uma instituição totalmente nova que se destinava ao controle político e social da sociedade inglesa em crise e que elegeu os símbolos ligados ao ofício de pedreiro, por sua estrutura em Guildas.
1410 – O Manuscrito de Cooke é descoberto por Matthew J. Cooke e divulgado por ele em forma impressa em 1861. Está escrito em prosa (930 linhas) com 19 artigos sobre a historia da Geometria e a Arquitetura; seguem os deveres, uma parte histórica, artigos que regulamentam o trabalho e a sua organização, que haveriam sido promulgados na época do rei Athelstan; 9 conselhos de ordem moral e religioso e 4 regras relativas a vida social dos maçons. Neste Manuscrito aparece pela primeira vez o termo “especulativo” falando do filho (irmão, médio irmão ou sobrinho) do rei Athelstan. O Manuscrito não menciona a Hiram Abif, unicamente fala que na construção do Templo de Salomão o “filho do rei de Tiro foi seu Mestre”, que alguns interpretam como sendo a primeira alusão maçônica a Hiram Abif. O historiador Wilhem Begemann indica Gloucester como o local de origem do Manuscrito. Outras datas do origem são 1430 ou 1440 conforme “Os origens religiosos e corporativos da Francmaconaria”.

1436 – Na Biblioteca Bodleian, creditada como a Biblioteca em atividade mais antiga do mundo (Oxford, Inglaterra) existe um manuscrito, supostamente escrito pelo rei Henrique VI (1421-1471) e copiado fielmente por John Leyland sobre “Perguntas e respostas referentes ao mistério da maçonaria”. Fala do cálculo aplicado a construção de edifícios, manifesta que a Ordem teve seu início em Oriente e que foi trazida ao Ocidente pelos fenícios; chegou a Inglaterra da França onde tinham chegado iniciados da G L de Crotona, fundada por Pitágoras. Ao que parece, as perguntas representam o exame de um maçom. O rei Henrique VI (1421-1471) e os nobres da corte teriam sido iniciados na Fraternidade em 1442. A data de emissão do manuscrito, 1436, indicaria que o Rei só tinha 15 anos ao ser iniciado. Outra versão atribui o manuscrito a Henrique IV (1367-1413) mas ele morreu antes.

1439 – Em virtude de um privilégio concedido pelo rei Jayme II, as lojas escocesas passam a ter como G\ M\ hereditário os senhores Saint-Clair de Roslyn.

1452 – É realizado o Convento Maçônico de Estrasburgo, Alemanha, convocado por Erwin de Steinbach e com a participação de arquitetos de Alemanha, Inglaterra e Itália. Foi estabelecido um Código de Regulamentos e foi organizada a Fraternidade de Franc-maçons. Foram reconhecidas 3 classes de artífices : Mestre, Companheiro e Aprendiz, estabelecendo sinais e saudações como métodos de reconhecimento, parte dos quais foram tomados dos maçons ingleses. Foram criadas cerimônias de iniciação com simbolismo que ocultava doutrinas profundas de filosofia, religião e arquitetura.Como resultado do Convento foram estabelecidas Lojas em muitas cidades da Alemanha, reconhecendo a supremacia da Loja de Estrasburgo. Erwin de Steinbach foi eleito G\ M\


1459 – É realizado um Convento Maçônico em Ratisbona (Regensburg) Baviera.
Dotzunger, arquiteto da Catedral de Estrasburgo, como Presidente do Grêmio da Alemanha, convoca a Assembléia de Mestres de todas as Lojas, sendo discutido e sancionado o Código de Leis adotado em 1452 conhecido como As Constituições dos Maçons de Estrasburgo. Foi estabelecido que deveriam ser criadas 4 Grandes Lojas, em Estrasburgo, Viena, Colônia e Zurich, e que o Mestre de Obras da Catedral de Estrasburgo seria o G\ M\ dos maçons da Alemanha.

1462 Ago 24 – As Lojas de Magdeburgo, Halberstadt, Hidesheim e de todas as cidades de Saxónia inférior se reúnem em Torgau, onde aceitam as Constituições aprovadas em Estrasburgo. Redigiram uma Constituição com 112 artigos que ficou conhecida como Ordenações de Torgau
A Associação de Investigação maçônica de Manchester, Inglaterra, deu a publicidade em 1941, um documento dos Estatutos alemães de 1462 onde está escrito o juramento do Aprendiz de não revelar a saudação maçônica.

1464 – É realizado um novo Convento Maçônico em Ratisbona, convocado pela G\ L\ de Estrasburgo para estudar as divergências das GG\ LL\ de Estrasburgo, Colonia, Viena e Berna.

1469 Abr 24 – E realizado um Convento Maçônico em Esfira (ou Spira) convocado pela G\ L\ de Estrasburgo para que fosse estudada a construção de obras públicas, religiosas e monumentais dos principais Estados da Europa, para estudar a verdadeira situação das confrarias maçônicas e, especialmente as estabelecidas na Inglaterra, nas Gálias, Lombardia e Alemanha e, finalmente para tratar dos direitos e atribuições das Lojas e suas recíprocas relações. (Fonte : Nicola Aslan em Historia Geral da Maçonaria).

1475 – Um Código escrito no reinado de Eduardo VI da dinastia normanda, para instrução dos candidatos a novos irmãos, diz : “Que, pese a que muitos antigos documentos da Fraternidade em Inglaterra foram destruídos ou perdidos nas guerras de saxões e daneses, o rei Athelstan, insigne arquiteto, que ordenou traduzir a Bíblia a língua saxão no ano 930, uma vez que estabeleceu a paz e a tranqüilidade no reino, construiu grandes obras e estimulou a muitos maçons vindos da França, nomeando-os sobrestantes”. Estes trouxeram consigo as Obrigações e Regras da suas Lojas, conservadas desde os tempos de Roma e obtiveram também do Rei a reforma da Constituição das Lojas inglesas “segundo o modelo estrangeiro e o aumento de salários dos maçons operativos”.

1498 – A Fraternidade de Pedreiros de Estrasburgo e da Alemanha, que tinha declinado devido a distúrbios políticos, foi restabelecida pelo Imperador Maximiliano I, quem confirmou seus Estatutos e reconheceu seus deveres e privilégios.

1500 – Leonardo da Vinci, Américo Vespucio e o Grande Bibliotecário Paulo Toscanelli, criam Oficinas-Escolas e concebem, junto com o Grêmio de Construtores a formação de Academias; esta forma de maçonaria intelectual inicia-se em Florença e brilha em Milão.
O Manuscrito de Dowland, escrito entre 1500 e 1550, cita que o Príncipe Edwin “convocou uma Assembléia em York e lá ele constituiu maçons e lhes atribuiu deveres”.






Tradução José Filardo

Apesar de se nutrir de referências cristãs, a maçonaria será, entretanto, muito rapidamente condenada pela Igreja católica, devido ao segredo que cerca seus ritos e sua proximidade com o protestantismo. Aos olhos do papa atual, seus adeptos continuam em “pecado grave”.

Londres, Junho de 1717. Assim que se constitui a Grande Loja da Inglaterra, a Santa Sé não intervém. No início, este primeiro reagrupamento orgânico de quatro lojas londrinas se faz na maior discrição, e o papa não é, de forma alguma, informado. Em seguida, os primeiros consolidadores destes maçons-livres – Jean Théophile Desaguliers e James Anderson – são pastores protestantes. Enfim, as primeiras regras conhecidas destas misteriosas assembleias fazem a parte bela a Deus, à religião, à moral cristã. O maçom escreve o pastor Anderson, não será jamais “nem ateu estúpido nem libertino irreligioso”. Em seus primeiros anos, e assim que ela se expande por toda a França, Alemanha e Itália, a maçonaria reúne essencialmente cristãos – protestantes ou católicos – inclusive muitos clérigos. Aliás, ela se inspira no cristianismo em muitos de seus rituais e símbolos, desde suas mais antigas referências bíblicas até a veneração do Grande Arquiteto do Universo.

Clemente XII, eleito papa em 1730, vai ouvir falar dessas lojas mais ou menos secretas que abordam esoterismo e mitologia, muito mais do que elas se misturam com religião. Parecia, informam a ele alguns bispos locais, que algumas delas atacam violentamente a religião! Verdade ou mentira? Em Avignon, em Flandres, em Portugal, em Viena, a Sagrada Congregação da Santa Inquisição instaura inquéritos, realiza algumas detenções que desembocam em processos. Menos para condenar os membros dessas associações suspeitas, que para saber mais sobre seus objetivos. Clemente XII não gosta dos maçons por um motivo muito pessoal. Ele, um Corsini, devota ódio feroz à família Médici, que privou o papa de sua cara Toscana, dedica a François de Lorraine. Este notório maçom confiou o governo ao príncipe de Craon, outro ilustre maçom. Eis o que vai precipitar a condenação desta “seita” em 1738, na célebre bula In Eminenti, por pelo menos três motivos.

O primeiro é o segredo que preside as atividades dos maçons e que faz pronunciar a todos os adeptos o juramento de observar o silêncio, “sob pena de ter a garganta cortada”. Um juramento assim solene reduz a muito pouco a confiança que um diretor de consciência – ou mesmo um juiz civil – pode conceder àquele que o presta.

O segundo motivo é a “má reputação” que acompanha as atividades maçônicas – que derrapa, algumas vezes, para a libertinagem desenfreada – e que explica, pensa o papa, o famoso segredo em que esta gente cerca os suas atividades. Mas o terceiro motivo de intervir toca o cerne da religião. Todas as lojas adotam uma grande tolerância em relação a todas as confissões religiosas sem distinção. E, esta redução da importância da religião católica ao mesmo nível das confissões “heréticas” e inaceitáveis para a igreja que condena este sacrilégio de “indiferença”.

Nas décadas seguintes, sete papas condenarão a maçonaria mais ou menos nos mesmos termos: Bento XIV (1751), Pio VII (1821), Leão XII (1825), Pio VIII (1829), Gregório XVI (1832), Pio IX (1846) e Leão XIII cuja encíclica Humanum Genus em 1884 confirmará claramente que existe incompatibilidade entre a adesão a uma loja e a condição de membro da Igreja. A sanção é assim ameaçar aquele que violasse estas regras com a excomunhão pura e simples.

Duas evoluções importantes na Europa vão contrariar esta posição imutável do papado. Em primeiro lugar, os papas são ameaçados em suas possessões territoriais, e mesmo algumas vezes em suas vidas, pelos terremotos que são a Revolução francesa de 1789 e a Primavera dos povos em 1848. O fim dos estados pontificais em 1870 consegue mergulhar o papado em uma confusão gravíssima. A tentação é grande, nos corredores do Vaticano, de imputar todas as suas infelicidades a algum complô maçônico anticlerical, ou seja, “satânico”. Em seguida, a própria maçonaria se divide. Em 1877, o Grande Oriente – anticlerical e muito ativo nos corredores da República francesa – separa-se da maçonaria tradicional. A invocação do “Grande Arquiteto do Universo” não é mais obrigatória para grande insatisfação da maçonaria do norte da Europa que permanece deísta e não pretende, de forma alguma, declarar guerra ao papa.

Que certas lojas maçônicas como o Grande Oriente de França não tenham então cessado de trazer o combate secular contra a religião católica, é uma evidência. A separação entre Igreja e Estado em 1905 é um exemplo chocante. Mas trata-se de condenar firmemente uma “seita hostil à Igreja” – como diz o novo Código de direito canônico publicado em Roma em 1917 – e não somente uma “sociedade secreta” de “reputação duvidosa”, e quando se trata de obediências favoráveis à religião, que não colocam de forma alguma em perigo a ordem pública?

Diante de um adversário multiforme, e impulsionado por algumas tentativas de diálogo mais ou menos bem-sucedidas, o papado vai se encontrar arrastado entre duas atitudes. De uma parte, a vontade de distinguir os maçons hostis à Igreja dos outros, expressa em 1972 pelo cardeal Franjo Seper, prefeito da Congregação para a doutrina da fé. De outro lado, a exigência de definir uma posição comum a toda a instituição, no sentido da proibição reiterada por seu sucessor o cardeal Joseph Ratzinger em 1983. Este último não condena mais o membro católico de uma loja a ser excomungado, é verdade, mas ele considera sempre esta confusão como um “pecado grave”. Ora, e é justamente ele que se tornou papa em 2005, sob o nome de Bento XVI…

Jornalista e escritor, especialista em Catolicismo, Bernard Lecomte acaba de publicar "Os últimos Segredos do Vaticano"



Tradução José Filardo

Por Ed Halpaus

“Oh… orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam. Haja paz dentro de teus muros, e abundância nos teus palácios. Por amor de meus irmãos e companheiros, eu te desejo prosperidade. Sim, porque é a casa do Senhor, nosso Deus, procurarei fazer-te bem “.Do Livro de Preces Comum.

Diz-se que todos os maçons vieram da Loja do São João Santo em Jerusalém. É muita coisa dizer que viemos de lá. Quando fui iniciado maçom, perguntei ao meu padrinho sobre esta Loja de São João em Jerusalém; eu queria saber mais sobre essa Loja. Meu novo amigo e irmão me disse que era apenas simbólico, e que não era real. Bem, é simbólico e aprender sobre alguns dos simbolismos associados a ela, de onde veio, é bastante divertido, mas também a torna mais real para mim em meu coração e mente.

A primeira referência ao São João em ritual na América pode ser encontrada no Monitor de Webb de 1797. No século XVIII, era bastante comum ver cartas entre as Lojas Maçônicas começar com a saudação: “Da Loja do Santo São João de Jerusalém, sob o nome distintivo de _______ Loja No. ______ ”

Uma questão interessante é quem era o Santo São João a que se refere a frase “a Loja do Santo São João?”

Um dos primeiros maçons franceses, de nome Bazot escreveu em um manual da Maçonaria francesa que era São João, o Esmoler. Este santo em particular foi canonizado santo pelas igrejas grega e romana, (católica). O pai dele São João era um rei de Chipre, e há duas datas designadas para os festivais deste Santo, 11 de novembro e 23 de janeiro .

No manual de Bezot, ele escreveu suas razões para pensar que este Santo era o patrono original da Maçonaria e, assim, o santo mencionado na Loja do Santo São João: “Ele deixou seu país e a esperança de um trono para ir a Jerusalém, a quem ele generosamente ajudou e assistiu os cavaleiros e peregrinos. Ele fundou um hospital e organizou uma fraternidade para assistir aos cristãos doentes e feridos, e prestar ajuda pecuniária aos peregrinos que visitavam o Santo Sepulcro. São João, que era digno de se tornar o patrono de uma sociedade cujo único objeto é a caridade, expôs sua vida mil vezes em prol da virtude. Nem a guerra, nem a peste, nem a fúria dos infiéis, podia impedir suas atividades de benevolência. Mas a morte, finalmente, o impediu no meio de seus trabalhos. No entanto, ele deixou o exemplo de suas virtudes aos Irmãos, que fizeram seu dever esforçar-se por imitá-las. Roma o canonizou com o nome de São João, o Esmoler ou São João de Jerusalém, e os Maçons – cujos templos, destruídos pelos bárbaros, que ele fez reconstruir – o selecionaram por unanimidade como seu patrono “. [i]

Embora isso seja interessante, não é certo; foi bem documentado que São João Batista era o santo padroeiro dos Maçons Operativos. Ele foi adotado como santo padroeiro da Maçonaria e, posteriormente, essa distinção foi compartilhada com São João Evangelista. Isto é demonstrado pelo fato de que a data de formação da Primeira Grande Loja em 1717 é 24 de Junho ; Dia de São João Batista.

Entretanto, São João Esmoler não deve ser esquecido entre os maçons, porque ele foi escolhido como o padroeiro da Ordem Maçônica dos Templários, e suas Comanderias, que são dedicados à sua honra por conta de sua caridade aos pobres, a quem ele chamava seus Mestres. Ele se referia a eles como seus mestres, porque ele lhes devia todo o serviço, e por conta do seu estabelecimento de hospitais para ajuda e ministério aos peregrinos no Oriente. [ii]

Antes de 1440, a Fraternidade Maçônica era conhecida pelo nome de Irmãos de João. É provável, por isso, que o nosso irmão, George Oliver D.D. cunhou o nome Maçonaria Joanita nome para descrever a Maçonaria como ela é praticada nos Estados Unidos, Irlanda e Escócia. As diferentes Lojas desses países e Grandes Jurisdições são dedicadas ao Santo São João, e em suas Lojas pode ser encontrado o símbolo do ponto com um círculo e duas linhas paralelas, que é tão familiar aos maçons nesses países. Assim, os três primeiros graus conferidos pelas Lojas Simbólicas nesses países são, por vezes, embora raramente agora, chamado de Maçonaria Joanita, porque essas Lojas são dedicadas a São João Batista e a São João Evangelista. [iii]

É interessante notar que após a formação da Primeira Grande Loja em 1717 os termos Lojas de São João, e Maçons de São João, eram aplicados a aquelas Lojas e maçons que pertenciam à Fraternidade antes da organização da Primeira Grande Loja, e quem não se filiaram à nova Grande Loja depois que ela foi inventada. Essas Lojas permaneceram principalmente Cristãs Trinitárias, enquanto a nova Grande Loja era não sectária. O nome de Lojas de São João ou Maçons de São João passaram a simbolizar o trabalho das Lojas antigas, onde significava um Maçom regular, mas não-reconhecido e não-filiado.

Há uma razão muito boa porque essa referência totalmente simbólica dizer que esta Loja do Santo São João está em Jerusalém. “Jerusalém tem, quando tomada simbolicamente, o significado de paz, descanso, [e] contentamento.” “O nome Jerusalém significa Cidade de Paz”. [iv]

Este simbolismo de paz é importante porque, quando consideramos que o primeiro grau representa a juventude, e o segundo representa a idade adulta, é preciso considerar que a paz não é, necessariamente, um atributo da juventude. Shakespeare refere-se à juventude flamejante [v] como a exuberância natural e entusiasmo da juventude. Pessoas jovens, em torno de 14 anos ou mais, são difíceis de gerenciar e elas estão em um período muito perigoso, moral e fisicamente. Isso é às vezes “adequadamente simbolizado pela condição do povo de Jerusalém no momento em que João Batista veio do deserto, vestido de pele e repreendendo as pessoas por seus pecados.”[vi]

Após da primeira “chama da juventude”[vii] ter começado a passar, o homem é trazido ao mundo onde precisa continuar a ganhar a vida para si mesmo. “Ele é colocado em contato com fatos concretos e frios, e logo descobre que a sua suposta sabedoria nada era senão a loucura habitual de juventude e da inexperiência.” Após vários anos de trabalho e aprendizagem, ele começa a se perguntar sobre os significados mais profundos da vida, do conhecimento e suas finalidades. Isso é simbólico de João Batista e seu ministério ao povo de Jerusalém, e representa o despertar da natureza moral do adulto.

A pesquisa posterior de uma forma de instrução é simbolicamente representado por São João Evangelista; ele representa o “impulso intuitivo” do eu superior, que pode ser chamado de despertar da natureza espiritual, que, eventualmente, direciona o homem para as portas da Loja Maçônica onde ele encontra paz, instrução e apoio.

Além de simbolicamente vir da Loja do Santo São João em Jerusalém, presume-se o candidato aos graus foi previamente preparado para ser iniciado maçom, “o candidato já é um maçom no sentido de que ele é um ‘construtor’ que deseja mais instrução técnica na arte de construir, e por isso é perfeitamente natural que ele venha para uma Escola de Instrução para o Ensino “,[viii] que é a Loja Maçônica.

“Orai para que Jerusalém possa ter paz e felicidade: Deixe aqueles que te amam a à tua paz ter ainda prosperidade. ” Salmo Métrico escocês [Salmo 1650 122:1


[i] Mackey’s Encyclopedia of Freemasonry – Clegg Edition Volume

[ii] ibid

[iii] A Dictionary of Freemasonry, by Robert Macoy, que inclui A Dictionary of Symbolical Masonry de George Oliver, D.D.

[iv] The Lost Key, by Prentiss Tucker

[v] Oh, que vergonha! Onde está teu rubor? Inferno revoltoso, se podes te amotinar nos ossos de uma matrona, para a flamejante juventude que a virtude seja como cera, e derreta em seu próprio fogo; não proclame vergonha quando o ardor compulsivo dá a investida, já que a própria geada tão ativamente queima e a razão é alcoviteira da vontade! Hamlet. Ato III. Cena. 4.

[vi] The Lost Key

[vii] “Porque Gin na verdade sóbria cruel fornece o combustível para a juventude ardente”. Noel Coward

[viii] The Lost Key