sexta-feira, 26 de junho de 2015



FREDERICO II, REI DA PRÚSSIA E OS ALTOS GRAUS DO REAA


Assim como a maçonaria simbólica é regida pela Constituição de Anderson, os Supremos Conselhos do Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA o são pelas Grandes Constituições de 1786. Ainda que muito importantes, as Constituições de 1786 não foram redigidas por Frederico II da Prússia, conforme se demonstrará a seguir.

Causa espanto verificar que, no Brasil, uma grande parte dos maçons dos Altos Graus, por falta de conhecimento de história maçônica, continua ainda acreditando e “jurando de pés juntos” que as Constituições de 1786 foram elaboradas pelo rei prussiano. Pensam, erroneamente que, por constar nos rituais do REAA, Frederico tenha criado e legitimado as Constituições de 1786. Isto, ipso facto, transforma-se em artigo de lei e de crença inabalável.

Um fato ponderável e concorrente para essa mitologização foi a certeza que os EEUU, à época em que se criaram os 33 graus, não eram nenhuma potência maçônica, como vieram a se tornar posteriormente. Necessitavam, portanto, de um forte aval para legitimar o Supremo Conselho de Charleston para que não caísse no ridículo. Seria como se fosse hoje a Nigéria pretendesse criar um novo rito para a maçonaria mundial. Nada melhor, então, que um rei europeu, um déspota esclarecido, com nítida simpatia pela maçonaria, tornar-se o autor das Constituições de 1786.

Vejam-se então, os autores do primeiro time maçônico e tudo que tiveram a dizer sobre a propalada e ridícula assertiva de ser Frederico II da Prússia, o autor das Constituições de 1786.

Em primeiro, George von Kloss (1787-1854), conhecido como o “pai da crítica histórica da franco-maçonaria” mundial e maior historiador maçônico alemão, que qualifica, na sua obra Geschichte der Freimaurerei in Franckreich (História da Franco-maçonaria na França) [ed. Damstadt, 1852, pag. 409] “as Constituições [1786] e as leis como uma grande mentira da Ordem”.

Joseph Grabriel Findel [1828-1905], discípulo de Kloss, na sua História General de la Francmasoneria (in Dicionário Enciclopédico de la Masoneria, tomo IV, Editorial del Valle de México, México, 1977, pag. 338), citando documento expedido pela Grande Loja-Mãe Nacional “Os Três Globos Terrestres” de Berlim, diz que “depois de um maduro exame das peças etc., depositadas nos arquivos, crê-se, sem mais, aderir ao manifesto e declarar apócrifas tais constituições e leis porque:

I) O rei Frederico II, o Grande, não dirigiu nem comandou uma participação direta pessoal nos trabalhos maçônicos, nos sete anos depois de sua recepção de 1739 a 1744...

II) Em 1762, a última campanha da Silésia absorveu por completo a atenção do rei, e a primeiro de maio de 1786, nos últimos anos de sua vida, e sobretudo nos últimos meses antes de sua morte (17 de agosto de 1786), atormentado pela gota, caduco e fatigado da vida, permaneceu no seu castelo de Sans-Souci, em Potsdam sem ir a Berlim.

Segundo os dados oficiais mais seguros, o grande rei foi a Berlim, em 09 de setembro de 1785, quando visitou sua irmã, a princesa Amélia; apeou em seu palácio, passou a noite no estabelecimento de águas minerais e assistiu, na manhã seguinte – 10 de setembro – às manobras do corpo de artilharia. De Wedding, onde se situava o campo de manobras, o rei voltou à Potsdam. Jamais retornou a Berlim, porque depois de passado o inverno, em meio a cruéis sofrimentos, os médicos não tiveram dúvidas sobre o terrível término da enfermidade, até o mês de janeiro de 1786. O augusto enfermo voltou, em 17 de abriu, ao castelo de Sans-Souci, onde padeceu ainda, mais quatro meses, morrendo como um mártir.

III) É, por conseguinte, falso que o rei Frederico, o Grande, tivesse reunido em 1º de maio de 1786 um Grande Conselho em seu palácio de Berlim para regular os altos graus. A maneira de operar e de pensar deste nobre príncipe impede de que se creia que, no final de sua carreira, pudesse ocupar de coisas que considerava vãs e fúteis ninharias.

IV) Os relatos concernentes à época em questão e conservados nos arquivos da Grande Loja-Mãe Nacional não apresentam traço algum dos documentos maçônicos citados acima, nem de um Grande Conselho em Berlim.

Fiquem de lado os alemães e busque-se suporte no maior historiador maçônico inglês – Robert Freke Gould [1836-1915], ex-venerável da Loja de Pesquisa Quator Coronati de Londres. Na sua monumental obra (The History of Freemasonry, vol. III, Thomas C. Jack, London, 1887, pag. 128) afirma que...”temos as Grandes Constituições em 18 artigos. De acordo com a lenda, o jovem Pretendente transferiu sua suprema autoridade em maçonaria para Frederico, o Grande, que no seu leito de morte em 1786, revisou as regulamentações transformando os 25 graus em 33, e revestiu com sua autoridade pessoal, o Supremo Conselho dos 33. Autores que me antecederam, pouparam-me o tormento de provar que tudo isso é uma ficção... e que os 33 graus nunca apareceram na França até que De Grasse-Tylli os introduzisse. As Constituições de 1786 foram, sem dúvidas, fabricadas na América e assim, provavelmente, também, as de 1762.

Como a infantaria inglesa não é muito forte no REAA, dê-se atenção à infantaria escocesa antes da apresentação da infantaria pesada francesa. Conforme o rito – a palavra escocesa – apesar de ter sido fundado na França, durante muito tempo instigou-se os escoceses a escreverem algo sobre o tema. Na década de 50, Robert Strathem Lindsay, Grande Secretário Geral do Supremo Conselho para a Escócia do REAA escreveu uma obra prima “O Rito Escocês para a Escócia” (The Scottish Rite for Scotland, W. & R. Chambers Limited, 1958, pag. 55) com o “imprimatur” do Supremo Conselho. Como não poderia deixar de acontecer, o trabalho toca no “affaire” Frederico e as Constituições: “Fisicamente, Frederico poderia ter assinado as Constituições em 1º de maio de 1786. Mas por que ele faria isso? Na ocasião pressentia que sua prolongada, fatal e dolorosa doença estava perto do fim e sua mente estava inteiramente tomada pela preocupação de como prevenir a divisão da Prússia após sua morte. ...Não teria sido mais natural que o sobrinho favorito de Frederico, treinado por ele e que era, ao contrário de seu tio, pessoalmente interessado e ligado aos “Altos Graus”, ter introduzido o REAA na Prússia? Nem ele se agregou ao rito e muito menos seu tio, pois o rito só foi introduzido na Alemanha aproximadamente 200 anos após a morte de Frederico. ... Pesquisas têm sido realizadas em Berlim para se encontrarem evidências das Grandes Constituições ou alguma menção sobre o colóquio do Supremo Conselho do Grau 33 supostamente realizado no dia 1º de maio de 1786 quando, de acordo com as Grandes Constituições, o próprio Frederico estaria presente, e o resultado é zero.

Agora, a artilharia francesa para discutir a lenda. Destaca-se Paul Naudon, o maior historiador maçom (GLNF) francês do REAA, com o seu clássico História, Rituais e Cobridor dos Altos Graus Maçônicos (Histoire, Rituels et Tuileur des Hauts Grades Maçonniques, Dervy Livres, Paris, 1984). Na página 153, afirma que “pesquisas têm sido realizadas em Berlim para encontrar os traços de uma reunião do Supremo Conselho do Grau 33 que teria sido realizada no dia 1º de maio de 1786 e na qual Frederico II estaria presente. O resultado foi nulo”. Após analisar várias impropriedades de datas, pessoas, referências e intitulações nobiliárquicas, Naudon notou que chamou “Frederico de Frederico II Guilherme II” e logo em seguida de “Nosso ilustre irmão Frederico de Brunswick”. O erro desta vez é bem flagrante. Acrescentado ao precedente, sublinha nitidamente que Frederico II não poderia ter aprovado tal texto e que este não seria obra de maçons alemães, que jamais cometeriam tais equívocos (pag. 156)”. Outro fato convenientemente notado é “o da possibilidade de nomear quatro inspetores gerais não-cristãos significando a porta aberta aos judeus (p.160)” ... pois “esta admissão de judeus na Ordem Maçônica teria sido inconcebível na Alemanha na época de Frederico – (e ela só aconteceu nos meados do século XIX), como também na França antes da Revolução e mesmo antes da organização oficial do culto e da Concordata de 1801 (p. 161)”. Conclui, finalmente, que “os oito novos graus e a hierarquia dos 33 graus nasceram na América. A Europa os ignorou até a fundação do Supremo Conselho de França em 1804 (p. 163)”.

René Le Forestier (1868-1951), maçonóloco, germanista e o maior historiador francês dos iluminados Bávaros e da maçonaria ocultista e templária afirma, peremptoriamente, no seu erudito livro “A Franco-maçonaria Templária e Ocultista nos séculos XVIII e XIX (La Franc-Maçonnerie Templière e Occulstist au XVIII e XIX siècle, vol I, La Table, D´Emeraude, Paris, 1987, pag. 287) que “muitos graus franceses foram colocados arbitrariamente sob a patronagem de Frederico II, que tinha feito parte da maçonaria na sua juventude, e a tolerava nos seus domínios, mas que não tinha mais assistido a nenhuma sessão desde a sua ascensão ao trono.

O historiador e bibliotecário da Grande Loja de França – Albert Lantoine [1869-1949] - no primeiro tomo de sua trilogia “História da Franco-maçonaria Francesa “Histoire de la Franc-Maçonnerie Française – La Franc-Maçonnerie chez ele, vol I, Slatkine Reprints, Genève-Paris, 1981, pag. 247) no capítulo “O Grande Frederico ou o Deus da Fábula” apresenta os seguintes argumentos contra a lenda: “...sua atividade maçônica (e esta palavra atividade não deve ser entendida como assiduidade) não durou mais que 7 anos (1738-1744). Aliás a participação de Frederico II nos trabalhos e desenvolvimento da Ordem foi criteriosamente estudada pelos alemães – existe uma biografia copiosa sobre a questão – mas todos, apesar de diferindo em alguns pontos, são unânimes em desligar sua memória da criação dos “Altos Graus” ... “que ideia bizarra, além do mais, que esse prussiano fanático de sua nação – e como! – ter passado seus famosos poderes aos americanos em lugar de os transmitir simplesmente a Frederico-Guilherme, seu filho primogênito? (p. 250)” e termina dizendo: “como uma tal lenda se infiltrou entre os maçons? (p. 254)”.

Pierre Chevalier, maçonólogo, falecido em1998, no seu História da Franco-maçonaria Francesa (Histoire de la Franc-maçonnerie Française, vol II, librarie Arthème Fayard, Paris, 1974, p. 65) pergunta: “que pensar das Grandes Constituições de 1786 falsamente atribuídas a Frederico II e pelas quais se passou dos 25 graus do Rito de Perfeição para os 33 do REAA? “... “mas parece também que o REAA seja uma criação feita na América. Seriam os irmãos John Mitchel, Frederico Dalcho (um médico de origem prussiana e aqui se explica a referência a Frederico II) e alguns outros, dos quais vários israelitas, os fundadores do primeiro Conselho, em Charleston, em 1801”.

Finaliza-se a artilharia francesa com Alex Mellor [1907-1988] da GLNF, no seu Dicionário da Franco-maçonaria e dos Franco-maçons (ed. Martins Fontes, São Paulo, 1989, p. 98) cujo verbete Constituições (Grandes) reza o seguinte: “o documento célebre intitulado Grandes Constituições de 1786 e atribuído a Frederico II, rei da Prússia, que teria, assim, dado a sua carta histórica ao REAA, foi longa e minuciosamente estudado pelos eruditos. Admite-se, hoje, que o documento é apócrifo”.

Por último, mas não menos importante, referir-se-á o que a prata da casa brasileira diz sobre o assunto:

Nicola Aslan no seu Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia (vol. II, Editora Artenova, Rio de Janeiro, 1974, p. 438), no verbete Frederico II, o Grande [1712-1786], diz o seguinte: “a ratificação da Constituição do Supremo Conselho do REAA, no dia 01 de maio de 1786, por Frederico II da Prússia, não passa de uma invenção do Irmão Frederico Dalcho, que a lançou no seu discurso de 08 de dezembro de 1802.

Este foi completamente desmentido pela “Grande Loja Mãe Nacional dos Três Globos Terrestres de Berlim, em carta datada de 17-08-33 dirigida ao Irmão Marconnay, de Nova York, em resposta à solicitação que este maçom lhe fizera, em sua correspondência de 25-05-1833, a respeito daquele monarca no Rito Escocês. Naquela data 01-05-1786, Frederico estava no seu castelo de Potsdam, atacado de gota, caduco e absolutamente cansado da vida. Faleceu três meses e meio depois, em 17 de agosto de 1786. ”

Castellani do seu clássico “O Rito Escocês Antigo e Aceito” (Cadernos de Estudos Maçônicos nº 04, ed. Trolha, Londrina, 1988, p. 24) é bastante enfático: “E foi nos Estados Unidos que surgiu a maior empulhação, o maior logro da história do escocesismo: a invenção de que os Altos Graus (e, em suma, a própria Ordem “escocesa”) fora crida pelo rei da Prússia, Frederico II. Na realidade, aos 25 graus criados pelo Conselho dos Imperadores, os maçons americanos, sob, provavelmente, a inspiração de Morin, acrescentaram mais oito, criando o sistema dos trinta e três graus. Reunidos, então, na cidade de Chaleston, no Estado da Carolina do Sul, fundaram a 31 de maio de 1801, o primeiro Supremo Conselho do Rito Escocês, concentrando em suas mãos todo o poder administrativo sobre os Altos Graus. Esse Supremo Conselho só se tornou conhecido pelo restante da maçonaria mundial, a partir de 04 de dezembro de 1802, quando expediu uma circular comunicando o fato, enaltecendo o sistema dos 33 graus e atribuindo a sua organização – em maio de 1786 – ao rei Frederico II da Prússia. Se isso houvesse, realmente, acontecido nessa data que é a da publicação, segundo os americanos, da Constituição e dos Regulamentos do Supremo Conselho – é, no mínimo estranho que só se tivesse conhecido o fato em 1802...

Apesar da documentação, essa versão não tem a mínima credibilidade entre os bons autores maçons, sendo refutado por homens como Findel, Lindsay, Marconnay, Rebold, Thory, Ragon, Clavel e Cordier...

Desta maneira, tanto as “Constituições, Estatutos e Regulamentos”, quanto os “Novos Institutos Secretos e Fundamentais da Muito Antiga e Venerável Sociedade dos Antigos Maçons Livres Associados, ou Ordem Real e Militar da Franco-Maçonaria, de 1º de maio de 1786, atribuídos a Frederico, devem ser vistos como documentos históricos do escocismo, mas de autoria dos criadores do primeiro Supremo Conselho do mundo e com data posterior à que consta dos documentos, pois, vale repetir, se uma inovação tão grande como essa já ficava totalmente organizada na Europa, em 1786, porque ela permaneceria oculta e ignorada até 1802, sendo necessário que os norte-americanos revelassem aos europeus a sua existência?

O golpe mortal dos brasileiros na lenda viria com o livro de Kurt Prober – Frederico, o Grande e a Maçonaria (ed. Maçônica “A Trolha”, Londrina, PR, 1988, p.58) ao dizer que: “não seria completo esse estudo, assim mesmo ainda lacunoso, se não houvesse um comentário sobre a autenticidade discutida da Grande Constituição de Frederico II de 1/05/1786, lamentavelmente ainda hoje considerada legítima, especialmente pelos Supremos Conselhos “Latinos” – Estou me referindo aos Supremos Conselhos Regulares, e isto depois de ter ficado comprovado há mais de século e meio, que se trata de uma história muito mal contada. E entre nós, mesmo depois de eu ter publicado um vasto comentário no meu livro: “História do Supremo Conselho do Grau 33 do Brasil (vol. I – 1832/1927 – p. 5/16).

Na realidade e mesmo na prática, seria irrelevante se esta Grande Constituição seja de 1786 ou de 1801/1802, pois as duas são praticamente iguais, variando apenas na tradução do original escrito em francês. Ou seria em “inglês” e depois traduzida para o “francês”?

Faço esse comentário, pois se deve dar a Cesar o que é de Cesar – (Caesar quae sunt Caesaris) e que não deve haver a mais ligeira dúvida que Fridericus Rex... não foi o autor da mesma, e nem a poderia ter assinado, senão vejamos:

A – O rei tinha aversão aos Altos Graus, considerava-os ocos e para os vaidosos;

B – Nunca possuiu ele “qualquer Alto Grau”;

C – Durante mais de seis meses antes de falecer, em 17/08/1786, o rei estava acamado e entrevado, e dizem os contemporâneos – Umnachtet – o que corresponde ao nosso “Anuviado”, ou seja, incapaz de coordenar bem os fatos. Quer dizer que este estado vinha de pelo menos fevereiro de 1786;

D – Em 1786 não existia, em Berlim, nenhuma “Residência Real”, pois desde 1747 residia o rei em Sans-Souci, em Potsdam, então uma vila distante de Berlim mais de 25 km.

E – Não existia em Berlim nenhum Grande Conselho do Rito Escocês, só se sabendo da existência (...provavelmente já adormecido durante o auge da atividade da “Estrita Observância” ...) de um Capítulo Clermont, fundado em 17/09/1760. E finalmente,

F – Desde 1744, o rei nunca mais participou de nenhuma atividade maçônica. 

Nestas condições é totalmente apócrifa a Constituição de 01/051786.

Bom, pelo menos, com os últimos autores não se tem a desculpa de que escreveram em língua estrangeira.

À guisa de conclusão convém salientar que o Congresso de Laussane, em 1875, produziu uma nova versão das Grandes Constituições de 1786 tentando escoimar alguns erros históricos, principalmente os relativos a Frederico II. Assim, o artigo 16, reza o seguinte: “São e permanecem revogados os artigos XII, XIII e XIV das Antigas Constituições.

Nas Constituições de 1786, o que reza o Art. XII? Simplesmente o seguinte: “O Supremo Conselho exerce todos os soberanos poderes maçônicos de que sua augusta majestade Frederico II, rei da Prússia, era revestido, e quando for conveniente protestar contra as patentes de deputados inspetores, como ilegais, enviar-se-ão informações disto a todos os Supremos Conselhos do mundo”.

Laussane, enfim, não quis ficar com esse passivo histórico em sua consciência e o revogou, mas parece que a notícia, infelizmente, ainda não chegou ao Brasil dos Altos Graus do REAA.

Espera-se que este pequeno artigo ajude a esclarecer ao mundo maçônico do REAA que as Grandes Constituições de 1786 não foram redigidas por Frederico II, rei da Prússia, e que tudo não passou de uma lenda inventada pelos norte-americanos no início do século passado. Das lendas, podem se tirar belíssimas lições de sabedoria, mas a verdade histórica deve prevalecer numa maçonaria madura que se propões a iluminar o século XXI.

(Ir.´. Willian Almeida de Carvalho)
















“I. N. R. I.”


No princípio era a palavra (verbo). A palavra estava com Deus e a palavra era Deus. Este (verbo) estava no princípio com Deus e todas as coisas por ele foram feitas. Sem ele nada do que foi feito, foi feito. João 1.1:3

O primeiro capítulo do Evangelho de São João, nos narra como o Verbo sendo uma extensão, ou parte da natureza ativa de Deus, toma parte da essência de si mesmo, e com suas próprias “mãos” forma tudo quanto existe. Mas não sendo consistente com isso, encarna sua própria criação habita entre nós. 

ORDO AB CHAO – a tradição cabalística explica que no início da criação Deus criou um espaço finito dentro de si, deixando resíduos de matéria primordial no caótico e imóvel. O espaço finito foi cercado pelo infinito. Em seguida, Deus emitiu uma palavra e se conta que foi seu nome e esta palavra penetrou e reverberou no espaço primordial, como um raio luminoso ou espada flamígera, gerando o movimento e a vida, como as ondas dos Elohins, os construtores da aurora do novo amanhecer do universo manifesto.

Conta a tradição que esta palavra foi revelada a Adão, Enoch, Abraão, Moisés e Aarão. E que em algum momento no tempo se perdeu. Desde então, grupos, ordens e fraternidades mística, esotéricas e ocultistas tentaram e tentam encontrá-la. O poder desta palavra é tão grande que poderia construir e destruir universos.

O Príncipe Rosa Cruz tem meta buscar esta palavra perdida e acredita-se que esta palavra é a sigla I.N.R.I., que PAPUS diz que é o mesmo como ‘HIRAM” ou IHVH. Ensinaram-lhe vários significados, tais como:

1. INSTRUM NECARE REGES IMPIOS – É justo matar os reis malvados.

2. IGNEM NATURA REGENERANDO INTEGRAT – Regenerando-se, a natureza, mantem a integridade do fogo.

3. INTRA NOBIS REGNUM DEI – O reino de Deus está dentro de nós.

4. IN NECI RENACOR INTEGER – Na morte se renasce intacto e puro.

5. JESUS NAZREUS REX IUDEORUM – Jesus de Nazaré Rei dos Judeus.

6. IAMININ. NOUR, RUACH, IEBSCHAH – Água, Fogo, Ar e Terra, em hebreu.

7. IGNE NATURA RENOVATUR INTEGRA – A natureza será integralmente renovada pelo fogo.

As possíveis respostas, em minha opinião, que mais se aproximam do propósito da palavra são as de números 6 e 7, que estão fortemente relacionadas com o nome IHVH em hebreu, cujas letras tem uma relação com os quatro (04) mundos da formação da Cabala e os quatro elementos de que é constituído o Universo. A resposta 7 nos fala do processo da meditação transcendental e da contração do Universo no final dos tempos de volta ao “Pai” , quando os quatro mundos emanados de Deus e que estão representados por cada uma dessas letras se contrairá à primeira letra IOD, em hebreu, que é um símbolo do fogo, o ar e palavra de Deus que deu início à vida no Universo manifesto.

“Eu os batizo na agua, porém virá um mais poderoso que eu, de quem não sou digno de desatar a correia de sua sandália; Ele vos batizará com o Fogo do Espírito Santo” Lc. 3:16.

João, o Batista, se vestia com peles de camelo, símbolo da matéria e da animalidade. Cristo, o Deus Solar é o símbolo fogo da consciência e da alma do homem.

Nós não podemos e nem há poder no mundo fora de si mesmo, que possa iniciá-los no “ulterrimo”[1] segredo do Grau 18. No silencioso santuário de seu íntimo cintila essa luz e só você, unicamente você, pode, com esforço e vontade inquebrantável penetrar até esse lugar” “O Grau 18 ensina ao Maçom o caminho luminoso de retorno e lhe proporciona as ferramentas dos Cavaleiros Rosa Cruz para que possa limpar o seu caminho e plantar, porém cada qual tem que fazer isso no silêncio e na solidão.

A palavra perdida habita dentro de nós e sua busca é pessoal, não é possível encontra-la através das palavras escritas, do que se ouve ou até mesmo pelo intelecto objetivo, e menos ainda através de terceiras pessoas. É necessário fazer uma introspecção a mundos internos do ser e voltar fonte consciente do homem.

A maçonaria é em essência Esotérica, e esta natureza ou condição não se alcança apenas na forma especulativa, mas operacional. Aqueles cuja mentalidade não consegue alcançar o mundo subjetivo e abstrato do espírito e que estão sempre procurando desqualificar aquilo que seus sentidos físicos ou racional, ou lógico, ou materialista não podem compreender. A liturgia do Grau 18 lhes sugere alguns exercícios no campo mental e espiritual e apresenta uma seção de “exercícios e práticas” e outra de esoterismo. Continuo dizendo que o maçom deve encontrar a palavra perdida ou o verbo criador que é ele mesmo, ou seja, sua verdadeira entidade, seu ego. Para tanto deve alcançar sua iniciação transcendental. Estas últimas palavras falam que é necessário transcender a materialidade de tudo que nos rodeia e do nosso próprio “eu objetivo”, olhar para os mundos sutis e internos do UM, nossa verdadeira identidade, espírito ou alma, o IOD que nele habita e isso não alcançará através de palavras escritas, faladas ou pensadas, nem pela intelectualidade racional e lógica, porque esta a temos formado em nosso dia a dia no universo tridimensional e material que nos rodeia. “Porque graças a esta denominação das ideias ABSTRATAS, alcançadas por meio do Verbo, pode o homem desenvolver seu raciocínio.

Nos fala sobre a ação, como qualquer ato físico, emocional, intelectual e espiritual. “A ação é a aplicação do raciocínio às manifestações de energia”. Sim, a energia potencial que se converte em força pela ação. O maçom deve procurar também a ação nos mundos internos, onde a alma também deve executar e transcender a objetividade e a materialidade do corpo físico. Esta é a INICIAÇÃO TRANSCENDENTAL que a liturgia menciona, quando a alma cobra consciência de si mesma, e O HOMEM SE VOLTA CONSCIENTE DE SEUS DOIS MUNDOS, O MATERIAL E O ESPIRITUAL.

Cláudio Bristol em seu livro “A Magia de Pensar” nos diz: “Assim como a mente consciente é a fonte do pensamento, o inconsciente é a fonte do poder”. Muito provavelmente, a mente da alma é colocada no inconsciente do homem, porque desde que nascemos e dedicamos toda nossa atenção ao aspecto racional objetivo, e a mente espiritual da alma é esquecida na obscuridade do sótão do inconsciente através da identificação com o ego da personalidade do nosso cotidiano... É preciso resgatá-lo e devolvê-lo à luz do consciente da ação dos dois mundos. “IN MOBIS REGNAN ILE” o. Ser regulador encontrado em todos os humanos, e que nos mostra que Deus em cada um de nós. Os templos de Deus na terra são os corpos humanos, e em cada um deles se encontra, como uma projeção sua, um mestre cuja mente está embebida na MENTE CÓSMICA, um mestre cuja alma e vida são alma e vida de Deus.

Vários escritores sobre Maçonaria, como Aldo Lavagnini, frequentemente menciona a Cabala e o Tarô, porém são poucos ou quase ninquém os que falam sobre estes temas em minha Loja. A sexta carta do Tarô de Rider, “OS AMANTES” que se localiza entre Tiphareth (Beleza) e Hod (esplendo, Glória), onde o homem representa a Mente Objetiva a qual só pode ver o Anjo ou a “Mente Cósmica” e o “Sol” símbolo do Deus Único, refletida nos olhos da mulher, que representa a mente subconsciente...a “Mente da Alma”.

Concluo sem terminar:

“A palavra perdida, que se diz ser o nome de Deus, não é possível, porque Deus sendo o todo, ter nome o individualizaria separando-o do resto do Universo. NO entanto, por meio das quatro letras que é o mesmo que I.N.R.Í. nos dá “luz” sobre alguns mistérios, como o Tetragrama de Pitágoras, e o “Seen Hammephorash” o nome explicado de Deus compostos de 72 (setenta e duas) letras, o Anjo da Criação. Papus em seu livro se estende e vai mais fundo sobre o assunto.

A palavra como o homem e o universo são vibrações. Cada órgão, tecido, ou célula, cada sentimento, emoção e pensamentos tem sua própria nota vibratória que somadas geram uma única nota, cujo ritmo, frequência, e harmonia, alguns dizem que dita a atividade do coração.

A palavra perdida, “vibração” e origem da vida, NO HOMEM É SUA PRÓPRIA ALMA, a qual impõe ordem, harmonia, vitalidade e existência dentro de seu próprio universo, o corpo humano, a qual forma parte da alma cósmica e que por sua vez impõem ordem e harmonia no Universo inteiro.

Na medida em que o homem se identifica e seja uma projeção mais nítida de sua própria alma, a qual por sua vez é uma projeção da alma cósmica e do G.´.A.´.D.´.U.´. nesta mesma medida será a harmonia, saúde e perfeição manifesta em si mesmo.

Aqueles que encontram a palavra perdida são aqueles que se submeteram à iniciação transcendental. Esta é a revelação do mistério da exaltação ao terceiro grau da Maçonaria, onde o membro eleito está subindo da morte do seu caixão, o corpo físico, e quem ressuscita é a ALMA EM PLENITUDE DE COSNCIÊNCIA E FACULDADES. Este é o momento em que a ROSA abre suas pétalas no centro da CRUZ, dando seu aroma para o resto da árvore (madeiro). Este é o noivo e a noiva do Cantar dos Cantares do Rei Salomão, a rosa de Sarón e o Lírio dos Vales, que quando consumido o matrimônio na noite nupcial, engendram a Emmanuel, o homem iluminado que se reencontra com sua própria originalidade e divindade.

Ai de vocês, peritos na Lei, porque se apoderaram da chave do conhecimento. Vocês mesmos não entraram e impediram os que estavam prestes a entrar

“"Ai de vocês, peritos na lei, porque se apoderaram da chave do conhecimento. Vocês mesmos não entraram e impediram os que estavam prestes a entrar!"

Fraternalmente,

Lazaharo Hael.
Revista Fenix News – Edição de março de 1991

Tradução:
José Roberto Cardoso.









[1] Ulterrimo – Átomo  Ulterrimo - A Luz da Criação, pois o átomo ultérrimo é o fundamento da Criação Divina. O Átomo Ultérrimo está em toda parte, neste planeta. Penetra em tudo a todo mínimo instante. Dá Forma a Tudo. Movimenta-se com a velocidade da luz e, o que já foi descoberto e intriga os Cientistas da Física Quântica, perfaz um átomo químico que nãoexiste de verdade. Revista Fenix Neus.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

OS TRÊS PONTOS NAS ABREVIATURAS MAÇÔNICAS


Os três pontos .´. na maçonaria é uma forma especial de escrita com que nos documentos da maçonaria se abreviam algumas palavras. Na realidade é uma forma de abreviatura que consiste em colocar as letras iniciais das palavras seguidas de três pontos em forma de triângulo com o vértice na parte superior.

Esta forma de escrita é conhecida por abreviatura triponteada.

A origem desta forma de abreviatura se desconhece, sendo sua aparição mais antiga em um escrito do Grande Oriente da França datado de 12 de agosto de 1774, para anunciar a tomada de posição de sua mudança para um novo local, pelo que se supõe que apareceu já na Maçonaria Especulativa Moderna.

Durante o período Operativo a transmissão dos conhecimentos era feito de forma prática e verbal pois eram muito zelosos na transmissão de seus segredos e de sua arte ou ofício. Daí não se ter encontrado vestígios de documentos a respeito.

Os três pontos vem do período dos Companonage[1], que parece ter simbolizado ao triângulo, estes três pontos simbolizam também o TRIQUETRE, que era um símbolo que consiste de três pernas, dobradas em triângulo, como é encontrado em algumas medalhas antigas, como aparecem em algumas obras da Companones.

No terreno puramente especulativo, se pode pensar que a utilização dos três pontos na escrita maçônica tenha nascido da escritura hebraica cujas letras começam sempre com um ponto para log continuar com o traço.

Esses três pontos devem estar sempre dispostos na forma de um triângulo equilátero, no esquadro como aparece em alguns impressos; talvez por conta de que na imprensa não existia um signo de três pontos dispostos em forma de triângulo equilátero.

Não existe uma explicação concreta do significado destes três pontos, porém se referem às três luzes do altar dos juramentos, ou quiçá, de uma forma mais geral ao número três e ao triângulo, ambos símbolos importantes no sistema maçônico.
(revista Fenix – site del guajiro)




[1] O termo “compagnonnage” aparece na língua francesa somente por volta de 1719, para designar o tempo do estágio profissional que um companheiro devia fazer com um mestre. “* Do latim popular *Companionem, propriamente ” aquele que partilha o pão com o outro” de cum “com”, e panis, “pão”. Fixar uma data precisa para o nascimento de companheirismo exigiria dar-lhe uma definição precisa, que ele jamais teve, e os arquivos das guildas de companheiros não vão além do século XVIII. Era uma espécie de Guilda ou Corporação de Companheiros

sábado, 26 de julho de 2014

A MISSÃO DOS CONSTRUTORES


Alguns obreiros estavam aparando pedras ao pé de um enorme edifício em construção. De repente, um visitante se aproximou de um deles e lhe perguntou:

— O que estão fazendo aqui?

Um dos obreiros o olhou de forma rude e respondeu:

— Por acaso você não vê o que estamos fazendo? Estou aqui aparando pedra como escravo por um salário miserável e sem o mínimo reconhecimento. Olhe você esse cartel, tem os nomes dos engenheiros e dos arquitetos, porém nós outros, nem sombra... Estamos aqui de sol a sol trabalhando nas pedras.

O visitante se aproximou então de outro dos obreiros e lhe fez a mesma pergunta. Este, menos resmungão, disse:

- Como bem vê você, estamos aqui lapidando as pedras para levantar este enorme edifício. O trabalho é duro e mal pago, no entanto o que poderemos fazer? Não tem outra forma e tenho que levar o alimento para meus filhos.

O visitante se aproximou de um terceiro trabalhador e fez novamente a mesma pergunta: que estás fazendo? O homem, com mais entusiasmo e alegria respondeu:

- Estamos levantando um grande hospital, o melhor do mundo. As gerações futuras o admirarão e ele poderá salvar a vida de milhares de pessoas. Talvez jamais o possa usar, mas 

.........

O mesmo trabalho, o mesmo salário, a mesma ausência de reconhecimento, a mesma realidade.

No entanto existe em cada obreiro três maneiras diferentes de ver a mesma realidade, de vive-la; um deles a vê como escravidão; o outro como resignação e o último como uma apaixonantes aventura e como um desavio para si mesmo.

Deveríamos, todos, viver com ilusão, desfrutar nosso trabalho com paixão e nos sentirmos partes das boas obras.

A recompensa está naquilo que acreditamos!

Que possamos cuidar sempre de construir o melhor que pudermos, afinal somos construtores!


(Site Del Guajiro)

domingo, 2 de março de 2014

AS VIRTUDES NO PENSAMENTO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

Paulo Roberto da Rocha 
Prof. Dr. Carlos Alberto Albertuni (Orientador) 
Prof. Dr. Arlei de Espíndola (Coordenador) 

RESUMO

O tratado das virtudes de Tomás de Aquino, tendo como base a ética de Aristóteles que é um verdadeiro tratado sobre moral e a tradição cristã, tem como objetivo esclarecer qual a finalidade do homem em suas ações. No tratado das virtudes, Tomás faz uma distinção entre virtudes morais e virtudes intelectuais. Segundo ele, as virtudes intelectuais aperfeiçoam o intelecto especulativo e prático, enquanto que as virtudes morais aperfeiçoam a potência apetitiva. Ambas funcionam como motores com a função de aperfeiçoar o homem. Tomás define como principais as virtudes morais, juntamente com a virtude intelectual da Prudência, sendo que exigem a retidão do apetite. Mas não bastam ao homem somente osprincípios naturais pelos quais o homem consegue agir bem de acordo com suas possibilidades. De acordo com Tomás, é necessário que lhes sejam acrescentados por Deus certos princípios pelos quais ele se ordene a bem-aventurança sobrenatural que se chamam virtudes teologais, porque tais virtudes são transmitidas unicamente pela revelação divina, através da sagrada escritura. Trabalhamos aqui com a hipótese de que Tomás, a exemplo da virtude teologal da caridade, tenha considerado também a virtude da prudência como excelência. 

PALAVRAS- CHAVE: Virtude, hábito, ações humanas. 

A moral no pensamento de Tomás de Aquino é uma ciência do ato humano, ou seja, prática. Como o fim do homem é a felicidade eterna, Tomás propõe um estudo dos princípios gerais da moral, que poderiamconduzir o homem a esse fim. Mas sem a liberdade não há moral, e esta tem seu fundamento na razão. Diante dos bens particulares, nossa vontade permanece livre, sendo ela determinada apenas pelo bem absoluto. O que ocorre é que o homem pode errar nas escolhas concretas em sua vida, o que poderá torná-lo apto ou não em possuir a bem-aventurança prometida por Deus. De acordo com Tomás, o homem deve agir em vista do fim, sendo ele racional e tendo, portanto, domínio sobre os seus atos pela razão prática e pela vontade. Na intenção de distinguir fim e bem, Tomás define o bem como algo “que toda coisa deseja” e este se apresenta ao intelecto como verdadeiro e, portanto, algo desejável à vontade. O papel da razão prática, portanto, é de suma importância, pois, por meio dela, o homem tem a possibilidade de conhecer as realidades contingentes, e estas ficam a mercê da vontade. A faculdade da razão e da vontade é por ele denominada de livre-arbítrio, onde a própria vontadecom seu poder de escolha enquanto penetrada pela razão tem como objeto próprio a escolha dos meios para alcançar o bem como um fim. A concepção de liberdade de Santo Tomás repousa sobre uma espécie de “colaboração harmônica” entre o Intelecto que apreende o verdadeiro e a Vontade que tende para o bem, compondo, portanto, a ação humana. 

Para falar sobre virtudes na concepção de Tomás de Aquino, primeiramente seria fundamental definir como Tomás classifica e comoelas atuam no agir humano conforme seu pensamento. Na Iª seção da IIª parte da Suma Teológica, antes de abordar acerca das virtudes, Tomás faz uma espécie de preparação, partindo da questão 49 até a questão 54, por meio de considerações muito relevantes acerca dos princípios dos atos humanos, dando ênfase neste caso a um princípio segundo ele intrínseco denominado de hábito. Mas qual a relevância desse princípio no agirhumano na ética de Tomás de Aquino? Na questão 55, ele faz a seguinte observação: 

“A virtude designa certa perfeição da potência. Mas a perfeição de uma coisa é considerada, principalmente, em ordem do seu fim. Ora, o fim da potência é o ato. Portanto, a potência será perfeita na medida em que é determinada por seu ato. As potências racionais próprias do homem não são determinadas a uma coisa só, antes se prestam, indeterminadamente, a muitas coisas. Ora, é pelos hábitos que elas sedeterminam aos atos. Por isso as virtudes humanas são hábitos.” (Suma Teológica, Iª seção, IIª parte, q. 55 a.1). 

Influenciado pela tradição tanto filosófica quanto teológica, Tomás classifica as virtudes como hábitos, ou seja, um estado, uma maneira de ser. “É uma disposição, uma capacidade da natureza humana, a qual se enraíza em sua natureza específica e individual, finalizada pelo agir”. Assim define[1] Tomás:

“O filósofo define o hábito como uma disposição segundo a qual alguém se dispõe bem ou mal, e no livro II da Ética, diz que é segundo os hábitos que nos comportamos em relação com as paixões, bem ou mal. Quando, pois, é um modo em harmonia com a natureza da coisa, então tem a razão de bem; e quando em desarmonia, tem a razão de mal.” (Suma Teológica, Iª seção, IIª parte, q. 49 a.2). 

Tomás, portanto, não qualifica o hábito a um determinismo como um único tipo de agir, a certo condicionamento ou domesticação; como é uma disposição natural não regrada pelo instinto ou por qualquer tipo dedeterminismo, está sempre aberto, buscando descobrir a melhor maneira de agir concretamente no singular, em fidelidade a especificidade da natureza humana, ou seja, a inteligência que deseja. Mas tanto a virtude, que orienta o homem para a bem-aventurança como também seu oposto, o vício, que faz com que o homem se afaste dela, são hábitos. O verdadeiro sentido do hábito, segundo Tomás, é pura e simplesmente uma qualidade adqurida[2] e livremente desenvolvida que facilita e aperfeiçoa a ação e o próprio homem. Como o hábito é “aquilo de que alguém se vale quando quer”, Tomás afirma na questão 50, artigo 5 que “a própria razão de hábito revela que ele é ordenado sobretudo a vontade”. 

No artigo 1 da questão 51, Tomás faz uma espécie de classificação do hábito quanto ao seu caráter inato. Segundo ele existem hábitos que são inatos[3], dados prontos ao agir e outros são adquiridos como vimos anteriormente, mas a partir de uma disposição inata presentes no homem em conformidade com a sua natureza. Tomás, seguindo os passos de seu “mestre” Alberto Magno propõe, então, essa inovação referente à questão do Hábito, ou seja, existem no homem também hábitos inatos, uma espécie de princípio evidente da razão prática[4] , denominado de sindérese que são os fins das virtudes morais e o fim de tais virtudes é o bem humano, que consiste na conformidade com a razão. Segundo a definição de Tomás na Suma[5] , os fins das virtudes morais devem preexistir na razão. Cabe, portanto, a razão prática, pormeio da sindérese, preestabelecer o fim das virtudes morais. A sindérese pode ser definida como uma espécie de “intuição” dos primeiros princípios da lei moral, constituindo não uma potência, mas um hábito inato, infuso por Deus e distinto da consciência. O papel da consciência seria de julgar um ato que se realizou ou que será realizado e sua função, sendo em ato e não em potência, é de fazer a ligação da sindérese com a prática. Pela lógica podemos entender qual a função da consciência pelo seguinte exemplo: temos como premissa maior a concepção de que Deus é o sumo bem; a premissa menor afirma que o adultério fere o mandamento de Deus; com isso, a conclusão é de que o adultério é pecado e é mal. A consciência seria responsável pela conclusão do silogismo[6]. 

A sindérese[7], portanto, é como uma espécie de “centelha” da consciência com a função de drecionar o comportamento. Quanto a essa questão, Tomás afirma que: 

“...para compreender a sindérese é preciso considerar que o raciocínio humano, sendo uma espécie de movimento, procede da intelecção de algumas coisas naturalmente conhecidas sem pesquisa racional como um princípio imóvel e termina igualmente em uma intelecção, na medida em que, mediante princípios naturalmente conhecidos por si mesmos (hábito natural), julgamos as conclusões que encontramos raciocinando, no caso da razão prática, sobre as coisas que tem relação com a ação.”(Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª Iªe, V.II, Q. 79, a. 12. São Paulo: Loyola, 2004) 

Em outras palavras, a função da sindérese é de apreender a lei natural que nos é proporcionada por pura graça de Deus e preestabelecer um fim para a virtude moral que é o bem humano, em conformidade com a razão. A inovação de Tomás em relação ao pensamento aristotélico está no fato de admitir que existe, além de um princípio de ordem especulativa, um princípio da ordem da ação, como um hábito natural chamado sindérese que incita o bem e condena o mal. Diferentemente da vontade que tende a ser boa ou má, a sindérese, por ter como objetivo principal a apreensão da lei natural, tende somente para o bem. Em sua tese de Doutorado, o prof. Albertuni[8] afirma que Tomás, na solução da questão ratifica as relações e diferenciações entre a lei natural, a sindérese e a consciência. A lei natural é apresentada como os princípios universais, sendo a sindérese o hábito desses princípios e a consciência aparece como certa aplicação da lei natural àquilo que se deve fazer. A partir da questão 55, Tomás começa o seu tratado das virtudes partindo de sua essência. Como já foi definido, Tomás classifica as virtudes como hábitos bons. É essa habilidade que torna o homem bom, dando condições de fazer o melhor uso possível de sua liberdade, com o intuito de colocar em ordem harmoniosa suas paixões no caminho das bem-aventuranças[9]

Tomás, a partir da questão 58, faz uma distinção entre virtudes morais e virtudes intelectuais. Ele começa afirmando que, “para poder definir virtudes morais é preciso considerar o que é o costume”. Em sua concepção moral, as virtudes morais são vivenciadas na afetividade humana, ou seja, em seus desejos e aversões, motivações, prazeres e tristezas. Por meio dos costumes [10], os homens entendem suas maneirasde viver de acordo com uma espécie de inclinação natural para alguma ação, tendo a capacidade de exercer o seu império sobre as paixões. Segundo Tomás: 

“para agir bem, é necessário que não só a razão esteja bem disposta pelo hábito da virtude intelectual, mas que a potência apetitiva também esteja pelo hábito da virtude moral. Tal como o apetite se distingue da razão, assim também a virtude moral se distingue da intelectual. E como o apetite é princípio dos atos humanos enquanto participa, de algum modo, da razão, assim o hábito moral tem a razão de virtude humana,na medida em que se conforma com a razão.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, V.IV, Q. 58, a. 2. São Paulo: Loyola, 2004) 

Portanto, segundo Tomás no artigo seguinte, enquanto as virtudes intelectuais aperfeiçoam o intelecto especulativo e prático, as virtudes morais aperfeiçoam a potência apetitiva. Ambas funcionam como motores com a função de aperfeiçoar o homem (q. 58, a. 3). 

Virtude moral, segundo Tomás, vem do latim “mos” que pode ter o sentido de costume ou com o sentido de inclinação natural ou quase natural para alguma ação. Mas ambos os significados são bem próximos,de acordo com a concepção tomásica no artigo 2 da questão 58. Essa espécie de inclinação para o ato convém da virtude apetitiva, pois move, com isso, todas as outras potências para a ação. Por isso, as virtudes morais estão presentes na faculdade apetitiva. Mas para que aja uma ação boa é necessário que a potência apetitiva esteja bem disposta pelo hábito das virtudes morais e este tem a razão de virtude humana, na medida em que se conforma com a razão. 

Partindo da questão 4, percebemos a importância que Tomás dá para a virtude da Prudência[11] que, segundo ele é a reta razão do agir de modo tanto geral como particular, pois sem ela, não pode existir virtude moral, já que é um habito que faz escolhas e, para que estas sejam certas ou boas é necessário que haja primeiro a devida intenção na busca de um fim, que se faz pelas virtudes morais com sua função específica de inclinar as potências apetitivas para o bem conveniente com a razão, que é o fim devido, e segundo “que se usem corretamente os meios, e isso só se alcança por uma razão que saiba aconselhar, julgar e decidir bem, o que é próprio da Prudência. Logo, a virtude moral não pode existir sem a Prudência” (1ª seção, II parte, q. 58, a. 4). Mas Tomás afirma que a reta razão pressupõe princípios tanto universais como particulares, pelos quais ela possa proceder. Segundo ele: 

“assim como nos dispomos a proceder retamente em relação aos princípios universais, pelo intelecto naturalmente, ou pela ciência habitual, assim também, para nos dispormos bem em relação aos princípios particulares de nossas ações, que são os fins, é preciso que sejamos aperfeiçoados por certos hábitos que, de alguma forma nos tornam conatural o correto julgamento do fim. E isso se faz pela virtude moral, porque o virtuoso julga retamente sobre o fim da virtude. Logo, a razão reta do agir, ou seja, a Prudência, exige que o homem tenha a virtude moral”. (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 58, a. 5. São Paulo: Loyola, 2004) 

As virtudes morais, juntamente com a virtude intelectual da Prudência porque esta é de certa forma uma virtude moral também, sendo as que exigem a retidão do apetite, pois produzem a potência de agir bem e são a causa do exercício da boa ação, Tomás as define na questão 61, artigo1 como virtudes principais ou cardeais[12]. No artigo 2 Tomás descreve quais são as virtudes cardeais. Segundo ele estas podem ser estabelecidas tanto por princípios formais como pelos sujeitos. Por meio de princípios formais descreve primeiramente a prudência como já foi indicado, como sendo uma virtude tanto intelectual como moral sendo ela a própria consideração da razão e uma virtude principal; e outras trêsvirtudes morais, mas agora enquanto se afirma a razão em relação aalguma coisa, sendo, pois, a justiça em relação às ações e, em relação às paixões, é preciso que haja duas virtudes, pois, para se afirmar a ordem da razão nas paixões, é necessário levar em conta a oposição delas à razão, sendo, portanto, a temperança que tem a função de controlar a paixão quando essa se impele a algo contrário a razão, e a fortaleza que nos afirma inarredavelmente no que é racional quando a paixão tende a nos afastar das normas da razão como o temor do perigo ou do sofrimento. Em relação ao sujeito, Tomás afirma que chegamos ao mesmo número de virtudes: 

“... pois são quatro os sujeitos da virtude que estamos falando aqui, a saber: o racional por essência, que a Prudência aperfeiçoa, e o racional por participação, que se divide em três, ou seja, a vontade, sujeito da justiça; o apetite concupiscível, sujeito da temperança e o irascível, sujeito da fortaleza.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 61, a. 2. São Paulo: Loyola, 2004). 

Como vimos, Tomás faz uma distinção entre as virtudes morais e intelectuais. Para ele, as virtudes morais são consideradas principais em relação às outras virtudes, “devido à principalidade da matéria” (q.61, a.3). Mas devido a essa distinção e considerando que a função da virtude intelectual é de aperfeiçoar o intelecto especulativo e prático para o bom agir do homem e que para que haja uma ação boa, tanto a potência apetitiva como a razão devem estar bem dispostas. Se faz necessário, portanto, uma análise das virtudes intelectuais. Tomás, na questão 57, classifica as virtudes intelectuais em especulativas, que tem por objeto o necessário, a verdade, ao passo que as virtudes práticas se ocupam do contingente. No artigo 1 afirma que os hábitos intelectuais especulativos, apesar de não influenciarem na parte apetitiva, poderão ser chamados de virtudes, pois auxiliam na busca da verdade nas boas ações, tornando o sujeito apto a contemplá-la nas coisas das quais tem conhecimento, por moção da vontade. Como a finalidade do homem está presente na vida contemplativa, a inteligência especulativa tem uma função muito significativa, pois o que se deseja contemplar é justamente a verdade que está presente em Deus. Herdando de Aristóteles, Tomas faz a mesma distinção das atividades da inteligência em três categorias[13]: a sabedoria onde temos o desenvolvimento da inteligência, capacitando o sujeito em emitir um julgamento definitivo e universal sobre todas as coisas e dois outros hábitos considerados como partes potenciais da sabedoria, a ciência que tem a função de aperfeiçoar os múltiplos processos da inteligência e o intelecto que habilita o sujeito a fazer um bom uso dos primeiros princípios. A distinção das virtudes intelectuais práticas das intelectuais está justamente no seu objeto, ou seja, no contingente, e são elas: a arte enquanto se ocupa do contingente no domínio da produção e a prudência, que se ocupa do contingente no domínio da ação. No artigo 3, Tomás classifica a arte como “a razão reta de fazer algumas obras”, ou seja, um hábito operativo e se identifica como um hábito especulativo pois esta também torna a obra boa a partir da faculdade de bem agir e não pelo aperfeiçoamento do apetite. Mas a arte se distingue da prudência, pois esta se ocupa do contingente da ação e, como vimos acima, é uma virtude especial, justamente por ter como objeto “a totalidade da conduta da vida e o fim último da vida humana”, e é considerada tanto uma virtude intelectual como moral, pois “não faz somente essa faculdade agir bem, como também o exercício, já que diz respeito ao apetite, por lhe pressupor a retidão” (a.4). 

Mas, segundo Tomás, não basta ao homem somente os princípiosnaturais pelos quais o homem consegue agir bem de acordo com suas possibilidades, para ordená-lo a bem aventurança, pois, estes excedem a natureza humana. 

“É necessário, pois, que lhes sejam acrescentados por Deus certos princípios pelos quais ele se ordene a bem-aventurança sobrenatural, tal como está ordenado ao fim que lhe é conatural por princípios naturais que, porém, não excluem o auxílio divino. Ora, esses princípios se chamam virtudes teologais, primeiro por terem Deus como objeto, no sentido que nos orientam retamente para ele; depois por serem infundidos só por Deus; e, finalmente, porque essas virtudes são transmitidas unicamente pela revelação divina, na sagrada escritura”. (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 62, a. 1. São Paulo: Loyola, 2004) 

Tomás, no artigo 2 afirma que a distinção das virtudes teologais em relação as virtudes morais e intelectuais está no objeto. Nas virtudesteologais é o próprio Deus, fim último das coisas, enquanto ultrapassa o conhecimento da nossa razão, enquanto que nas virtudes morais e intelectuais, o objeto é algo que a razão humana pode compreender. As virtudes teologais têm, portanto, a função de ordenar o homem à bem aventurança sobrenatural:

“Primeiramente, no que diz respeito ao intelecto, são acrescentados ao homem e apreendidos por iluminação divina alguns princípios sobrenaturais, que são o conjunto do que se deve crer, o objeto da fé; em segundo lugar, a vontade se ordena para o fim sobrenatural, seja pelo movimento de intenção que tende parta esse fim, como para algo possível de se obter e isso é a esperança; seja por uma união espiritual, pela qual a vontade é de certa forma transformada nesse fim, o que se concretiza na caridade. (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 62, a. 3. São Paulo: Loyola, 2004) 

Para Tomás, o essencial na virtude da Fé é a verdade. Por esse motivo, quando avalia o objeto da fé na 2ª seção da 2ª parte, ele começa pela verdade primeira. É a verdade que comanda, e é ela que Deus quer nos transmitir. De acordo com Tomás na questão 1, artigos de 1 a 10, o que está sob a fé está ordenado para Deus e implica o assentimento do intelecto àquilo em que se crê, e este adere ao objeto por escolha voluntária, com certeza e sem qualquer temor. “O primeiro artigo diz o essencial: só se deve crer em Deus. Os nove outros: como Deus se deu a crer.”[14] No artigo 1 da questão 4, Tomás relaciona os dois elementos que compõem a fé, a saber, a inteligência e a afetividade. “A fé reside essencialmente na inteligência, mas ela começa na afeição que inclina o espírito a assentir e o fixa; e termina na afeição, pois só a caridade[15] faz dela de fato uma virtude”[16]. Assim, Tomás define no artigo 1 da questão 4 que: “o ato de fé é crer; é um ato do intelecto que se define por um objeto, por ordem da vontade”. 

A esperança é uma virtude bem distinta da fé e da caridade. Enquanto a fé é uma virtude intelectual que leva o homem a aderir a Deus enquanto este é para nós princípio do conhecimento da verdade, como vimos acima, a esperança é uma virtude da vontade, ou seja, um impulso do apetite rumo ao Bem absoluto tão distante de nós, que é Deus. No artigo 1 da questão 17 Tomás afirma que é justamente a espera do auxílio divino que torna a esperança uma virtude, pois ela pode tornar bom o ato humano, e como a nossa esperança como criatura de Deus é alcançar a bem-aventurança eterna, este se torna o objeto próprio e principal dessa virtude.

“A esperança faz com que o homem se ligue a Deus, enquanto ele é para nós princípio da bondade perfeita, enquanto pela esperança apoiamo-nos no auxílio divino para obter a bem-aventurança eterna.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. IIª IIªe, v.V, Q. 17, a. 6. São Paulo: Loyola, 2004) 

A palavra Caridade em nossa sociedade é de certa forma uma distorção da proposta bíblica apresentada por Tomás na Suma. O artigo 1 da questão 23 sobre a caridade já esclarece bastante coisa, pois define ela como uma espécie de amizade do homem para com Deus que nos torna participantes de sua bem-aventurança. E o amor, palavra que se identifica mais com a definição tomásica de Caridade, é o que se funda nessa comunhão de Deus e o homem. Assim como as demais virtudes teologais, a caridade é uma virtude, pois está relacionada a Deus, e uma virtude especial, sendo que o objeto próprio do amor de caridade é o bem divino, e, por isso, um amor especial. Segundo Tomás no artigo 7, não pode haver verdadeira virtude sem a caridade, pois ela é considerada uma virtude absolutamente verdadeira enquanto ordenada ao bem principal do homem, que é Deus. No artigo anterior, Tomás define assim a caridade: “...entre as virtudes teologais, será mais excelente aquela que mais alcançar a Deus. Ora, a fé e a esperança alcançam Deus na medida em que recebemos dele ou o conhecimento da verdade ou a posse do bem. Mas a caridade alcança Deus para que nele permaneça e não para que dele recebamos algo.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. IIª IIªe, v.V, Q. 23, a. 6. São Paulo: Loyola, 2004).

Portanto, Tomás considera que as virtudes teologais, que consistem em alcançar a regra primeira que é Deus, são mais excelentes que as virtudes morais e intelectuais, que consistem em alcançar a razãohumana. É importante ressaltar que Tomás de Aquino, no tratado da caridade, ressalta a excelência dessa virtude em relação às demais, mas considera também a virtude da Prudência como excelência diante das virtudes morais: 

“Daí resulta que a caridade é mais excelenteque a fé e a esperança e, por conseguinte, que todas as outras virtudes. Assim também a prudência, que alcança a razão em si mesma, é também mais excelente que as outras virtudes morais, as quais alcançam a razão na medida em que a prudência se constitui como meio termo nas operações ou paixões humanas.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. IIª IIªe, v.V, Q. 23, a. 6. São Paulo: Loyola, 2004). 

Carlos Nascimento[17] destaca o fato de que, em nosso tempo a palavra prudência tem sido vítima de desqualificação, a exemplo tanto da palavra virtude como também da palavra moral. Além disso, destaca uma critica feita por A. Gauthier que considera a construção de Tomás sobre a virtude da prudência uma “desfiguração” da phrónesis-prudência de Aristóteles. Mas ressalta que a phrónesis-prudência foi o centro da análise da práxis por Aristóteles e foi posta por Tomás em lugar bem privilegiado e, apesar de apresentar pontos de divergência da concepção aristotélica, esta não fica reduzida a uma “rotina moral”. Na IIª parte da Suma Teológica, Tomás dedica 56 artigos divididos em 9 questões somente para esclarecer e fundamentar a virtude da Prudência. Como mostra a citação acima, a função da virtude da prudência é alcançar a razão em si mesma, e fazer com que esta alcance também o meio termo nas operações ou paixões humanas. O papel da prudência dentro da ética proposta por Tomás de Aquino ocupa um lugar privilegiado dentro da sua concepção ética. Em seu tratado da prudência, Tomás afirma na questão 47, artigo 1 que “a prudência reside propriamente na razão” e que é próprio dela conhecer o futuro a partir das coisas presentes e futuras. Cabe, portanto, ao prudente auxiliar na ordenação ou impedimento das coisas que devem ser feitas no presente e seu mérito está no fato dessa aplicação contingente, que é o fim da razão prática. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Referências utilizadas ;
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. IIª Seção da IIª Parte, Introduçãoe notas das virtudes teologais por Antonin-Marcel Henri e da prudência por Albert Raulin. São Paulo: Loyola, 2004. 
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Volume I, III e IV. São Paulo: Loyola, 2004 
NASCIMENTO, Carlos Arthur Ribeiro do. A Prudência Segundo Tomás deAquino. Revista Síntese Nova Fase. Belo Horizonte, v.20 n. 62, PP. 365-385, 1993. 
ALBERTUNI, Carlos Alberto. Tese: O conceito de Sindérese na moral deTomás de Aquino. Campinas: UNICAMP, 2006. 

Referências consultadas; 
SCIACCA, Michele Federico. História da Filosofia I – Antigüidade e Idade Média. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1966. 
TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino – Sua Pessoa e Sua Obra. 2ed. São Paulo: Loyola, 2004. 
VAZ, H. C. de Lima. Escritos de Filosofia IV: Introdução à Ética Filosófica 1. São Paulo: Loyola, 2002. 
REALE, Giovanni/ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus, 1990. 
THONNARD, F. J. Compêndio de História da Filosofia. Tradução Valente Pombo. São Paulo: Editora Herder, 1968. 
GARDEIL, H. D. Iniciação à Filosofia de S. Tomás de Aquino. TraduçãoPe. Augusto J. Chiavegato. São Paulo: Duas Cidades, 1967. 

[1] Introdução da Suma Teológica das Edições Loyola sobre os Hábitos e Virtudes por Albert Plé. 
2] No artigo 1 da questão 49, Tomás define o hábito como uma qualidade que se pode ter. 
[3] Nota de rodapé da q. 51, a. 1. 
[4] NASCIMENTO, Carlos A. Ribeiro do. A Prudência Segundo Tomás de Aquino. Revista Síntese Nova fase. Belo Horizonte, v.20 n. 62, PP. 365-385, 193. 
[5] Nota de rodapé da Suma Teológica. Q. 79, artigo 12. Iª parte. p. 460 
[6] O silogismo é um termo proveniente do grego antigo e significa “raciocínio”, é uma palavra muito utilizada no meio filosófico, principalmente nos estudos realizados por Aristóteles. Esse filósofo efetuou o conceito de argumentação lógica e perfeita baseada em três proposições relacionadas entre si. 
[7] Sindérese. Do grego synderesis. Faculdade natural de julgar com retidão; descrição, bom senso. Estado de contrição da alma, quando compara o que é com o que devia ser. 
[8] Albertuni, Carlos Alberto. Tese: O conceito de Sindérese na moral de Tomás de Aquino. Campinas: UNICAMP, 2006. 
[9] Nota de rodapé da Suma, q.55, a.1. Edições Loyola, p. 94. 
[10] Nota de rodapé da Suma, q.58, a.1. Edições Loyola, p. 129. 
[11] “Transposição operada por Tomás de Aquino do conceito de phronesis, principal virtude intelectual segundo Aristóteles.” (Vaz, Lima. Escritos de Filosofia IV. São Paulo: Loyola, 2002.) 
[12] A virtude humana e humanizante, levada a perfeição, habilita o homem a agir com todo o seu ser em conformidade com sua natureza racional. É dessa forma que ela assegura, de uma vez só, tanto o bem da obra cumprida quanto o do sujeito que age. Já as virtudes da inteligência e da arte não tornam moralmente bom o sujeito. Elas são, portanto imperfeitas quanto à total realização do homem; falta-lhes, tomadas em si mesmas, retificar o apetite, o que justamente realizam as virtudes morais. (Nota de rodapé da Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 61, a. 1, p. 162. São Paulo: Loyola, 2004) 
[13] Nota de rodapé da Suma, v. IV, q.57, a.2. Edições Loyola, p. 117. 
14] Nota de rodapé da Suma, v. V, q.1, a.1. Edições Loyola, p. 47. 
[15] É importante ressaltar que Tomás destaca no artigo 3 da questão 4 que o ato de fé ordena-se ao objeto da vontade, que é o bem, como a um fim. Este bem, que é o fim da fé, isto é, o bem divino, é o objeto próprio da caridade. 
[16] Nota de rodapé da Suma, v. V, q.4, a.1. Edições Loyola, p. 96. 
[17] NASCIMENTO, Carlos A. Ribeiro do. A Prudência Segundo Tomás de Aquino. Revista Síntese Nova fase. Belo Horizonte, v.20 n. 62, PP. 365-385, 1993

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014


MAÇONARIA, DEUS e DEUSES

(TEÍSMO E DEÍSMO)

Ir.´. José Roberto Cardoso -MM
Loja Estrela D´Alva nº 16 - GLMDF

A MESOPOTÂMIA


Para muitos cientistas o homem teria se originado da Eva Mitocondrial, na África, e dali povoado todo o globo.

Em princípio, o homem era nômade, vivia da caça, da coleta de frutos, até começar a domesticar os animais e a conhecer a agricultura.

Numa dessas correntes migratórias o homem teria chegado à região da Mesopotâmia e ali se aninhou, se tornou sedentário, formou suas tribos, clãs, cidades e estados. Isso teria ocorrido, pelo que se tem registrado nas tábuas de argila dos sumerianos, seis mil anos a. C. No entanto, tal fato, pode remontar alguns milênios a mais.

A mesopotâmia era uma região muito fértil, cercada pelos rios Tigres e Eufrates e por esse motivo foi considerada o Eden, o Paraíso.


Inserida na área do Crescente Fértil - de Lua crescente, exatamente por ter o formato de uma Lua crescente e de ter um solo fértil - uma região do Oriente Médio excelente para a agricultura, exatamente num local onde a maior parte das terras vizinhas era muito árida para qualquer cultivo, a Mesopotâmia tem duas regiões geográficas distintas ao Norte a Alta Mesopotâmia ou Assíria, uma Região bastante montanhosa, desértica, desolada, com escassas pastagens, e ao Sul a Baixa Mesopotâmia ou Caldéia, muito fértil em função do regime dos rios, que nascem nas montanhas da Armênia e desaguam separadamente no Golfo Pérsico. O termo também designa o estudo do período histórico entre o III e o I milênios a.C., quando a região desenvolveu uma cultura em comum e apresentou momentos variáveis de unificação territorial, desde o surgimento das primeiras cidades, como Ur e Uruk até o fim da dominação persa aquemênida.[1]

A SUMERIA


A civilização sumeriana é a mais antiga civilização da humanidade, da qual se tem evidência. Situava-se na parte Sul da Mesopotâmia, embora os proto-sumerianos tivessem surgido na parte norte, no atual Curdistão. 

Essa civilização floresceu, teve seu apogeu, mas devido a liberdade que se dava às suas cidades-estado foi se enfraquecendo e dominada posteriormente por vários povos, dentre eles os babilônios.

Nessa região foram construídos os primeiros grandes templos de adoração a um deus, conhecidos como zigurates que são muito parecidos com as pirâmides encontradas na América do Sul. Um famoso zigurate foi a Torre de Babel, ou Torre da Confusão por ter sido construída por povos de diferentes idiomas.

Os registros mais antigos da história de um povo foram encontrados naquela região e são as famosas tábuas de argila dos sumerianos.


AS TÁBUAS DE ARGILA


Essas tábuas de argila nos relatam a história dos annunakis, extraterrestres oriundos de Nibiru e bem assim fazem um relato de como teria surgido nossa raça. Dizem os registros que esses annunakis, que tinham facilidade de se locomover em naves e com muita rapidez, teriam realizado uma experiência genética em uma mulher-macado de origem africana inserindo em seu útero esperma de um extraterestre e depois transplantando o embrião para o útero de uma mulher anunnaki. Dessa experiência genética teria surgido a raça humana, fazendo sentido a história da “Eva Mitocondrial”.

A experiência teria sido um sucesso, e da mistura “dos gens” da Eva Mitocondrial com os “gens dos anunnakis” surgiu nossa espécie.

Os anunnakis viviam centenas e centenas de anos, chegando bem próximo a um milênio, e eram vistos como deuses pela raça recém criada que trabalhava como escravos.

Os primeiros deuses com forma antropomórfica adorados pelos homens foram os “anunnakis” e foi através desses deuses que, mais tarde, surgiram os deuses dos panteões egípcio, grego e romano.

Naquela comunidade haviam os grandes comandantes e dentre eles estavam Yaweh e Baal que sempre entravam em contenda, sendo que numa dessas batalhas Yaweh foi o grande vencedor e ficou representando o bem e Baal passou a simbolizar o mal, embora fossem ambos annunakis.

O povo de Nibiru tinha como líder ANU que proibia o relacionamento entre os “annunakis” e “terráqueos”, no entanto, cerca de duzentos desses desobedeceram seu rei e, por isso, foram expulsos e ficaram conhecidos como “os anjos caídos”.

Contam as tábuas de argila que Yaweh, embora tivesse boas intenções, era tido como um deus vingativo e rancoroso e por conta da traição dos “anjos caídos” e da decepção com a raça que haviam criado resolveu se vingar provocando uma grande enchente (dilúvio) com o objetivo de exterminarná-los. Mas, diante da ponderação de alguns importantes annunakis resolveu salvar alguns.


O DRAMA DOS HUMANOS

Da desobediência dos “anjos caídos” vieram descendentes que viviam um drama relacionado a existência, pois seus pais poderiam viver quase mil anos e eles uma migalha desse tempo. Foi daí que surgiu a famosa lenda de Gilgamesh, que não se conformava em saber que morreria tão cedo, como todos os demais humanos. É por conta dessa lenda que sabemos a respeito de outra que fala da “fonte da juventude” tão procurada por antigos reis e grandes comandantes.

OS SUMERIANOS E OS RELATOS BÍBLICOS

Conta a Bíblia, em Genesis, sobre Noé, que teria recebido de Deus (Yaweh) a incumbência de construir uma arca para salvar sua família e a criação.

É interessante se observar que de acordo com o pentateuco[2] Noé viveu 950 anos e era filho de Lameque, que era filho de Matusalém[3], que era filho de Enoque, que era filho de Jared, que era filho de Malalel, que era filho de Cainan ou Quenã, que era filho de Enos, que era filho de SETE, que era filho de ADÃO, que era filho de Deus.

Ora, é fácil observar que os ascendentes de Noé, assim como ele, eram “annunakis”, pois viviam como os deuses e que ADÃO também o era e, provavelmente tenha sido um dos “anjos decaídos”. Me parece que essa linhagem é paralela a linhagem humana obtida da experiência genética na qual ADÃO que teria cedido o experma para fertilizar a Eva africana.

Por fim, a região da Mesopotâmia era conhecida como o Paraíso ou o Eden e era lá que vivia Adão, que “comeu o fruto proibido” (desobedeceu a Anu) dando origem a raça humana, ou seja, ao pecado original.

UM TIQUINHO MAIS SOBRE NOÉ

O nascimento de Noé é relatado no apócrifo de Enoque e relata a história de uma estranha criança.

Conta a história que Matusalém escolheu uma esposa para o seu filho Lameque e esta ficou grávida de um filho. Quando este nasceu repararam que era um bebê muito diferente dos outros e o seu pai teve medo. Ao ter medo, dirigiu-se a Matusalém para lhe contar o sucedido e disse-lhe: "Eu tive um filho estranho, diferente de qualquer homem, e a sua aparência é como a dos filhos de Deus do céu; e a sua natureza é diferente e não é como um de nós." (Enoque 106:7)

Matusalém, ouvindo isto, viajou para longe, ao encontro de Enoque e contou-lhe o sucedido e este, ouvindo tudo, lhe respondeu: "O Senhor fará algo de novo na terra, porque na geração de meu pai Jared, alguns dos Anjos do Senhor transgrediram a palavra de Deus e a sua lei, e uniram-se pecaminosamente com as filhas dos homens e tiveram filhos (anjos caídos). Estes filhos resultantes desta união foram gigantes, não de acordo com o espírito mas de acordo com a carne. Por isto, Deus destruirá a terra com um grande dilúvio e haverá grande destruição e castigo. E este filho que nasceu de teu filho será salvo, e os seus filhos com ele. E toda a humanidade restante morrerá." (Enoque 106:13-17)

Os livros de Enoque e esta história não foram aceitos pelos Judeus, porque, segundo a sua doutrina, os Anjos não se poderiam misturar com as mulheres comuns. Além disto, Matusalém não poderia ter feito qualquer menção a respeito de Noé a Enoque, pois este já não podia ser encontrado mesmo alguns anos antes do nascimento de Noé, conforme a Bíblia, no capítulo 5 do Livro de Gênesis, versículos 21 a 29. Afirma-se entretanto que a origem deste episódio, estaria na Bíblia, em uma das interpretações para os versículos 1 e 2 do capítulo 6 do livro de Gênesis.

O PATRIARCA ABRAÃO

O nome Abrãao significa: chefe de muitas nações, pai de reis, aliado do Senhor.[4]

Abrãao, segundo a Bíblica Sagrada, teria vivido 175 anos. Nasceu em Ur na Caldéia, mesma região da Babilônia, da Suméria, na Mesopotâmia e lá aprendeu com seus ascentrais sobre os deuses e sobre Deus. Ele abominava os “outros deuses” e adorava apenas o “deus vencedor: YAWEH ou JAVÉ e por isso é o pai do monoteísmo judeu.

De Abraão vieram as três grandes religiões da humanidade: judaísmo, cristianismo e islamismo. O judaísmo veio de Isaque e o Islamismo de Ismael. O Cristianismo nasce de dentro do judaísmo.

O Judaísmo compila o Velho Testamento e o segue (Torá) tendo como Deus Todo Poderoso a Yaweh, o mesmo “deus” Yaweh dos sumerianos e nota-se nas antigas escrituras o mesmo Deus vingativo que fará com que Moisés crie a Lei de Talião, olho por olho, dente por dente. É o Deus dos sacrifícios e das guerras. É bom lembrar que o Yaweh sumeriano devia obediência a um rei, a um ente superior.

O Cristianismo surgiu com o sacrifício de Jesus, O Cristo. Jesus Cristo teria sido enviado à Terra por ABBA o Deus Supremo do Universo, para corrigir os erros de Yaweh e implantar a Lei do Amor.

Jesus “batia de frente” contra os sacerdotes judeus e membros do Sinédrio e a inveja, a ambição, levaram-no à morte na cruz.

Após a morte de Jeus, os primeiros cristãos saiam em pregação aos gentios levando a boa nova, ou seja, os maravilhosos ensinamentos do Mestre dos Mestres.

Nessas idas e vindas de uma cidade para outra pernoitavam em casas que estrategicamente eram construídas e que ficaram conhecidas como “Casas do Caminho”.

Das reuniões desses cristãos nessas chamadas Casas do Caminho surgiu o esboço do clero e, um pouco mais além, começou a surgir a organização da Igreja Católica Apostólica Romana e seus bispos.

Não muito além, o Cristianismo se espalha pela Europa e pelo mundo e nesse trajeto muitos foram os cristãos primitivos martirizados principalmente por imperadores romanos, cujos soldados adotavam o mitraísmo como religião.

Tempos depois, no século IV São Jerônimo compila a Vulgata Latina (Bíblia Sagrada) e Teodósio, imperador Romano, defende o Cristianismo como religião e o implanta, cautelosamente, em substituição ao Mitraísmo. O Cristianismo toma força e domina o mundo trazendo e centralizando em si a educação, a cultura e a ciência, que compartilhava com a aristocracia. A partir de então, todo conhecimento que confrontasse as leis e parâmetros estabelecidos pela igreja era considerada heresia.

Todos esses fatos tiveram início já na idade média conhecida também por “A idade das trevas”.

A MAÇONARIA E A IGREJA

Nâo se sabe com exatidão a origem da Maçonaria.

A palavra “mason” ou “maçom” significa pedreiro, construtor e creio que Maçonaria é uma organização de pedreiros e de construtores.

Se levarmos por esse lado veremos que as primeiras organizações maçônicas vieram da antiguidade e claramente as enxergamos nas construções dos zigurates sumerianos, na construção das pirâmides egípcias, principalmente na região de Deir El-Medineh, onde já havia algo semelhante às guildas e corporações da idade média. Os obreiros se ajudavam, amparavam as famílias, tinham seus segredos inerentes à profissão, enfim.

Em razão do caráter sempre sagrado do trabalho e da ciência, as associações profissionais foram sempre sacerdotais entre os povos da Antigüidade.

No Egito, os sacerdotes formavam classes separadas e consagravam-se ao ensino de algum ramo especial do conhecimento humano. Em todos os casos, os alunos passavam por um noviciado e por provas de iniciação para se assegurar de sua vocação.

Como as demais ciências, a Arquitetura também era ensinada em sigilo. A função sagrada de arquiteto construtor era exercida pelos sacerdotes como, por exemplo, Imhotep, sacerdote do Deus Amon, que era conselheiro do faraó Sozer (3.800 a.C.) e que construiu a primeira pirâmide em Sakkarah. Sennemout, arquiteto da rainha Hatsepout, era o controlador dos domínios de Amon e chefe dos sacerdotes de Monthou, na cidade de Armant.

O caráter sacerdotal e místico das associações de construtores é encontrado entre os persas, os caldeus, os sírios e os gregos. A religião também era o fundamento dos Colégios Romanos e de nossas antigas confrarias.[5]

Ao longo da trajetória da humanidade até o Renascimento a maçonaria operativa esteve sempre presente.

Essa maçonaria operativa da Idade Média era a partir dos séculos VI praticada por monges, portanto os maçons eram monges católicos e sofriam influência da religião e tanto é assim que Bento de Nursia dá origem ao período conhecido como MONACAL responsável pela construção de Igrejas e Catedrais.

Esse período vai se esgontando com a chegada do Renascimento onde a cultura e o conhecimento em geral, na Itália, tem uma explosão, surgem os engenheiros e outros profissionais da área de construção e os prédios tomam outra forma. Entre esse período e a chegada do Iluminismo a Maçonaria Operativa, antes composta de construtores e de pessoas com pouco ou quase nenhum estudo, passa a sofrer o assédio das pessoas com formação acadêmica e, pouco a pouco, durante mais de dois séculos, vai desaguar na formação da Grande Loja Unida da Inglaterra, em 1717.

O interessante é que essa Grande Loja foi criada pelos aceitos, ou seja, justamente por aqueles que assediavam os operativos.

No ano de 1751 vários maçons vindo da Irlanda aportaram em Londres e pediram filiação nas Lojas e como eram simples homens, gente sem “sangue azul”, não tiveram o MICTMR. O que fizeram eles então? Simplesmente fundaram uma outra Grande Loja (vou tratá-la como Segunda Grande Loja).

Antes de prosseguir devo responder a uma pergunta que com certeza alguém mentalmente formulou: - Por que ao invés de fundar uma outra “Grande Loja” não fundaram um “Grande Oriente”? Simplesmente porque a expressão “Grande Oriente” só começou a fazer parte do vocabulário maçônico muitos anos depois. Naturalmente as duas Grandes Lojas não se reconheciam e ainda trocavam “farpas”; os membros das Lojas jurisdicionadas à Segunda Grande Loja usavam os rituais primitivos e atacavam os Irmãos da Primeira Grande Loja, chamando-os de perjúrios, profanadores e “moderninhos” (afinal eles haviam alterados os antigos rituais) e a si mesmos eles chamavam-se de “Antigos”.

Durante 72 anos, ambas as Lojas discutiram a unificação que só foi levada a cabo em 1823.

De qualquer forma, em 1723, Anderson, um pastor presbiteriano foi encarregado de elaborar a Constituição da Maçonaria que ficou conhecida como Constituição de Anderson, a base da regularidade maçônica das potências de todo o mundo junto àquela Grande Loja

A maçonaria na Inglaterra sempre foi conflituosa, mas Cristã. Com o advento da reforma e a influência política da nobresa ocorriam as lutas pelo poder e, coincidentemente, entre católicos e protestantes. Os católicos eram os jacobitas (dinastia dos Stuarts) e os protestantes os da Casa de Hanover. 

A dinastia Stuart tendo perdido o poder se exilou na França e influenciará na criação do Rito Escocês Antigo e Aceito.

De qualquer forma, até aqui, estamos falando de uma maçonaria altamente influenciada pelo Cristianismo e, principalmente, pela Igreja Católica. 

Essa é a maçonaria TEÍSTA que segue os ensinamentos da cultura judáico-cristã tendo como referência a Bíblia Sagrada, aceitando os dogmas e ditames da Igreja em princípio e, depois, no conceito do Grande Arquiteto do Universo e na forma como ELE é designado nas outras demais religiões.

A MAÇONARIA DEÍSTA

Sabemos que a Idade Média ficou conhecida como a Idade das Trevas e que além do imenso poder da Igreja Católica a população era praticamente analfabeta, submetida ao jugo do feudalismo e a tirania da Aristocracia.

O conhecimento era restrito à nobreza e a Igreja que às vezes se misturavam para deter o poder temporal ou espiritual. 

De repente eclode o Renascimento, na Itália, que permite a muitos o conhecimento nas artes, na filosofia, na cultura em geral e isso vai despertar, no Iluminismo, as condições necessárias para a retirada dos grilhões do povo, trazendo consigo a liberdade, a igualddade e a fraternidade por ocasião da Revolução Francesa, fazendo com que caia a aristocracia e retirando da Igreja o poder absoluto.

Desse cadinho surgem os grandes pensadores e dentre eles Baruch Spinoza e Jonh Locke que trazem consigo o uso da razão, da ética e da moral.

É dessa corrente de pensamento filosífico que nasce o Grande Oriente de França, em 1728, que adota o Deus da Razão, o Deus Absoluto e Supremo, que não influencia diretamente em nossas vidas e não se subordina à dogmas. 

Isso se dá pelo fato de que eram livres pensadores e, para buscar a verdade, o maçom não poderia ter amarras e limitações.

Essa maçonaria adotou os ideais da revolução francesa de liberdade, igualdade e fraternidade e, por isso as pessoas poderiam ser livres para escolher o seu caminho, a sua crença e serem iguais independentemente da sua condição social. E, por esse motivo, não havia a necessidade da crença em um ser Supremo, as mulheres tinham o mesmo direito que os homens.

É bom esclarecer que embora a Grande Loja da Inglaterra tenha surgido em 1717, isso representava tão-somente os aceitos, já que os antigos não aceitavam os modernos e nem a forma como procederam para fundar aquela Grande Potência. Por conta dessa contradição os antigos fundaram outra Grande Loja e a partir de então começaram as discussões para a unificação que só veio a ocorrer em 1823.

Portanto, a Grande Loja de França era e ainda é, nos dias atuais, DEÍSTA.

O Grande Oriente de França é uma organização laica, não admitindo interferência religiosa em questões temporais. Por isso não exige a crença em um ser supremo para iniciar novos membros.

O Grande Oriente de França conta desde 2012 com Lojas Mistas onde homens e mulheres trabalham em pé de igualdade, além de manter relações fraternas com Obediências mistas e femininas,


CONCLUSÃO

Embora existam, em relação à crença, as maçonarias Teístas e Deístas, a essência da maçonaria é mantida em ambas.

Nós, do Rito Escocês Antigo e Aceito das Grandes Lojas Maçônicas, somos Teístas, no entanto se observarmos nossos rituais veremos que eles estão repletos de conceitos e palavras oriundos da maçonaria Deísta, inclusive com aspectos contraditórios.

Está bem claro que NÃO HÁ LIMITES Á LIVRE INVESTIGAÇÃO DA VERDADE e isso só poderia ser levado a efeito se adotássemos a maçonaria Deísta. A Maçonaria que nos encerra de certa forma nos estritos limites dos dogmas da Igreja Católica, não nos permitiria essa liberdade de pensamento e isso ficou muito evidente por ocasião da Inquisição, onde o conhecimento era restrito à Igreja e ao Estado.

Seria muito fácil conceituar Teísmo e Deísmo. 

O Teísmo - é posição que resulta da crença na existência de Deus através da fé, designadamente por via da crença na Revelação em textos sagrados e ou nas profecias de portadores de mensagens tidas como oriundas da Divindade.[6]

O Cristianismo para se impor como religião no mundo ocidental teve que se curvar a Roma para destituir o deus Mitra, no entanto, tanto a Eucaristia, quando a Chave de Roma, quanto o chapéu que o Papa usa (mitra) são símbolos pagãos.

Aliás, há que se observar que aqueles mesmos deuses da antiguidade (deuses pagãos) estão presentes, de forma velada, na Igreja Católica.

Nas tábuas de argila dos sumerianos está escrito que Ptah, um annunaki, teria fundado o Egito e os egípcios passaram a adorar seus deuses: Maat, uma sumeriana, no panteão egípcio era a “Deusa da Justiça”. Depois vieram os panteões romanos com deuses parecidos entre si: Baco, deus do vinho; Marte, deus da guerra; Netuno, deus dos mares e das águas e por aí vai.

Agora vejam a similaridade entre os “SANTOS” da Igreja Católica, quem em muitos casos foram guerreiros: Santa Bárbara, que nos protege das tempestades; Santa Luzia, que nos protege das doenças dos olhos; Santo Expedito, protetor dos motoristas, e por aí se segue.

O Deísmo – é a posição filosófica que pretende enfrentar a questão da existência de Deus, através da razão, em lugar dos elementos comuns das religiões teístas tais como a "revelação divina", os dogmas e a tradição.[7]

Sem querer entrar no mérito das religiões e respeitando todas elas, precisamos entender que o FANATISMO, A IGNORÂNCIA e a AMBIÇÃO, que tanto combatemos, sempre estiveram presentes nas religiões. “Alguém já disse: a religião é o ópio do povo”; outro disse: “os dogmas escravizam”, etc.

Pelo que concluí posso ser considerado um ateu, mas não o sou. Acredito no Grande Arquiteto do Universo e, particularmente no Deus daqueles que seguem a filosofia espírita, como sendo: “A Inteligência Suprema e a Causa Primária de Todas as Coisas”. Sou daqueles que procuram conversar com Deus sem amarras, sem dogmatismo, portanto, acreditar nesse Deus é fácil, lógico e racional, o grande problema é saber se ELE acredita em mim.

BIBLIOGRAFIA

1. A Escada para o Céu – Zecharia Sitchi – Editora Madras;
2. A Bíblia Sagrada
3. Wilkipedia.
[1] Wilkipédia.
[2] Pentateuco = cinco primeiros livreos da bílbia escritos por Moisés.
[3] Matusalém = considerado o homem mais velho
[4] Wilkipédia.
[5] Irmão Antonio Rocha Fadista - AS ORIGENS RELIGIOSAS E CORPORATIVAS DA MAÇONARIA.
[6] Rui Bandeira – Blog A partir da Pedra
[7] Idem.