segunda-feira, 21 de outubro de 2013

AS ANTIGAS OBRIGAÇÕES DA MAÇONARIA E O QUE ELAS SIGNIFICAM PARA NÓS - CAPÍTULOS DE HISTÓRIAS MAÇÔNICAS - PARTE V


PARTE V - AS ANTIGAS OBRIGAÇÕES DA MAÇONARIA E O QUE ELAS SIGNIFICAM PARA NÓS

Por Ir.´. H.L. HAYWOOD, Editor - The Builder Magazine  
Tradução – José Antonio de Souza Filardo – M .´. I .´. – GOB/GOSP



I. O QUE SÃO AS ANTIGAS OBRIGAÇÕES (OLD CHARGES)

Acabo de ler um artigo em um dos mais obscuros periódicos maçônicos onde um irmão desconhecido se sai com esta observação muito familiar: “Quanto a mim, não estou interessado nos documentos antigos mofados do passado. Quero saber o que está acontecendo hoje. “O contexto deixa claro que ele tinha em mente as Antigas Obrigações. Uma resposta suficiente a este ignorante é que as Antigas Obrigações estão entre as coisas que estão “acontecendo hoje.” Eliminando-as da Maçonaria, como ela funciona hoje e nenhuma loja subordinada, ou Grande Loja, ou qualquer outro corpo maçônico regular poderia absolutamente operar; elas são o que a Constituição deste país é para o Governo dos Estados Unidos, e que seus estatutos são para cada estado da União. Todas as nossas constituições, estatutos, leis, normas, leis e regulamentos, de uma forma ou de outra se referem às Antigas Obrigações, e sem elas a jurisprudência maçônica, ou os métodos de governo e regulação dos assuntos jurídicos da Maçonaria, estariam pendurado, suspensos no ar. Na medida em que líderes maçônicos, Grão-Mestres, Veneráveis e Comissões de Jurisprudência ignoram ou esquecem, ou não compreendem estes estatutos maçônicos, eles cometem loucuras, e levam a Maçonaria a todos os tipos de empreendimentos selvagens e não maçônicos. Se algum mago pudesse conceber um método pelo qual uma concepção clara das Antigas Obrigações e o que elas representam pudesse ser instalada na cabeça de cada maçom ativo na terra, ele salvaria todos nós de momentos de constrangimento e livraria as Grandes Lojas e outros organismos dos Altos corpos das despesas desnecessárias de centenas de milhares de dólares a cada ano. Se existe uma necessidade prática, uma necessidade básica na Maçonaria hoje, é uma compreensão geral lúcida das Antigas Constituições e landmarks de nossa Ordem. 

Entende-se por Antigas Obrigações (Old Charges) os documentos antigos que chegaram até nós a partir do século XIV e, posteriormente, nos quais são incorporadas à história tradicional, as lendas e as regras e regulamentos da Maçonaria. Eles são chamados de diversas formas “Antigos Manuscritos”, “Antigas Constituições”, “Lendas da Ordem”, “Manuscritos Góticos”, “Antigos Registros”, etc., etc. Na composição física destes documentos são encontrados, às vezes, em forma de papel manuscrito ou rolos de pergaminho, cujas unidades são costuradas ou coladas, folhas escritas costuradas em forma de livro, e na forma impressa familiar de um livro moderno. Às vezes, elas se encontram incorporadas ao livro de atas de uma loja. Eles variam em data estimada, de 1390 até o primeiro quarto do século XVIII, e alguns deles são exemplares em bonita escrita gótica. O maior número deles está sob a guarda do Museu Britânico; a biblioteca maçônica de West Yorkshire, Inglaterra, tem em custódia o segundo maior número. 

Como já foi dito, essas Antigas obrigações (Old Charges - como é o nome mais familiar) formam a base das constituições maçônicas modernas e, portanto, da jurisprudência. Elas estabelecem a continuidade da instituição maçônica por um período de mais de cinco séculos e, por implicação muito mais tempo e, ao mesmo tempo, e em sinal da mesma importância, prova a grande antiguidade da Maçonaria por documentos escritos, que é uma coisa que nenhuma outra ordem existente atualmente pode fazer. Esses manuscritos são tradicionais e lendários em forma e, portanto, não devem ser lidos como são as histórias, no entanto, um estudo cuidadoso e crítico deles baseado em provas internas lança mais luz sobre os primeiros tempos da Maçonaria do que qualquer outra fonte. Acredita-se que as Antigas Obrigações eram utilizadas na iniciação de um maçom nos tempos operativos; que eles serviram como constituições de lojas, em muitos casos, e às vezes funcionavam como o que hoje chamamos de carta constitutiva. 

O estudo sistemático desses manuscritos começou em meados do século passado, altura em que a existência de apenas alguns entre eles era conhecida. Em 1872, William James Hughan listava 32. Em grande parte devido aos seus esforços, muitos outros foram descobertos, de modo que, em 1889, Gould pode listar 62, e o próprio Hughan em 1895, tabulou 66 cópiasmanuscritas, 9 versões impressas e 11 versões perdidas. Esse número foi tão muito mais aumentado nos últimos anos que em “Ars Quatuor Coronatorum”, Volume XXXI, página 40 (1918), o irmão Roderick H. Baxter, hoje Venerável Mestre da Loja Quatuor Coronati, listava 98, número que incluía as versões conhecidas como perdidas. A lista do Irmão Baxter é peculiarmente valiosa na medida em que ela oferece dados a respeito de quando e onde esses manuscritos foram reproduzidos. 

Por uma questão de ser mais capaz de comparar uma cópia à outra, o Dr. W. Begemann classificava todas as versões em quatro “famílias” gerais: A Família Grande Loja, a família Sloane, a família Roberts, e a família Spencer. Estes grupos de famílias, ele subdividia em ramos, e acreditava que a família Spencer era um desdobramento da Família Grande Loja e a Família Roberts um ramo da família Sloane. Desta forma geral de agrupamento, o médico erudito foi seguido por Hughan, Gould e seus colegas, e sua classificação ainda se mantém em geral; tentativas têm sido feitas nos últimos anos para alterá-la, mas sem muito sucesso. Um dos melhores gráficos, com base em Begemann, é aquele feito pelo irmão Lionel Vibert, uma cópia do qual será publicada numa edição futura do THE BUILDER.

A primeira referência impressa conhecida dessas Antigas Obrigações foi feita pelo Dr. Robert Plot, em sua História Natural de Staffordshire publicada em 1868. O Dr. A.F.A. Woodford e William James Hughan foram os primeiros a realizar um estudo científico. As Antigas Obrigações de Hughan é até hoje o trabalho-padrão em Inglês. O capítulo de Gould em sua História da Maçonaria provavelmente seria classificado em segundo lugar em valor, enquanto que os volumosos escritos do Dr. Begemann, com que ele contribuiu para o Zirkelcorrespondez, órgão oficial da Grande Loja Nacional da Alemanha, se eles tivessem sido traduzidos para inglês, nos dariam o tratamento mais exaustivo do assunto jamais escrito. 

As Antigas Obrigações são peculiarmente Inglesas. Nenhum desses documentos jamais foi encontrado na Irlanda. Sabe-se que os manuscritos escoceses têm origem Inglesa. Findel e outros escritores alemães sustentaram certa vez que a versão em Inglês, em última análise, derivava-se de fontes alemãs, mas isso foi desmentido. O único ponto conhecido de semelhança entre as Antigas Obrigações e tais documentos alemães, como as Portarias Torgau e as Constituições de Colônia é a Lenda dos Quatro Mártires Coroados, e essa lenda é encontrada entre as versões em Inglês apenas no Manuscrito Regius. Como bem diz Gould, o MSS britânico “não têm antecessores, nem rivais”; eles são as coisas mais ricas e raras em todo o campo de escritos maçônicos. 

Quando as Antigas Obrigações são colocadas lado a lado, vê-se imediatamente que na sua narração da história tradicional da Ordem, elas variam de um grande número de detalhes; no entanto, elas parecem ter derivado de alguma origem comum, e em geral elas contam a mesma história, que é tão interessante como a história de fadas de Grimm. Será que o original da narração tradicional veio de algum indivíduo ou nasceu de uma tradição flutuante, como os contos folclóricos dos povos antigos? As autoridades divergem muito neste ponto. Begemann não só declarou que a primeira versão da história originou-se de um indivíduo, mas até mesmo definiu o que ele considera serem as fontes literárias utilizadas por esse Grande Desconhecido. Os argumentos do doutor são poderosos. Por outro lado, outros afirmam que a história começou como uma vaga tradição oral geral, e que com o passar do tempo foi reduzida a texto escrito. Em todo caso, por que a história foi escrita? Com toda probabilidade, uma resposta a essa pergunta nunca será direta, mas W. Harry Rylands e outros eram de opinião que asprimeiras versões escritas foram feitas em resposta a um Writ for Return emitido em 1388. As palavras de Rylands podem ser citadas: “Parece-me não de todo improvável que muito, se não tudo da lendária história foi composto em resposta à Petição para Devolução emitida para as corporações em todo o país, no ano duodécimo de Ricardo II, 1388 d.C.”. (A.Q.C. XVL página 1).

II. OS DOIS MANUSCRITOS MAIS ANTIGOS

Em 1757, o Rei George II apresentou ao Museu Britânico, uma coleção de cerca de 12.000 volumes, o núcleo da qual tinha sido organizado pelo rei Henrique VII e que veio a ser conhecida como a Biblioteca Real. Entre esses livros estava um manuscrito raramente belo escrito à mão em 64 páginas de pergaminho, com cerca de quatro por cinco polegadas, que um catalogador, David Casley, registrou como n º 17 A-1, sob o título: “Um poema de Deveres Morais: aqui intitulado Constitutiones Artis Geometrie Secundem”. Somente até que o Sr. J.O. Halliwell, F.R.S. (depois Halliwell-Phillipps), um não maçom, teve a chance de fazer a descoberta de que o manuscrito era conhecido como um documento maçônico. O Sr. Phillipps leu um artigo sobre o manuscrito diante da Sociedade de Antiquários, em 1839, e no ano seguinte publicou um volume intitulado História Antiga da Maçonaria na Inglaterra (ampliada e revisada em 1844), em que ele incorporava uma transcrição do documento, juntamente com algumas páginas em fac-símile. Este importante trabalho pode ser encontrado incorporado à conhecida Biblioteca Maçônica Universal, as rústicas encadernações em pele de carneiro enferrujadas que chamam a atenção em quase todas as prateleiras de livros maçônicos. Este manuscrito ficou conhecido como “O Halliwell”, ou como “Halliwell Phillipps” até cerca de cinquenta anos atrás, até que Gould o rebatizasse, em honra à Biblioteca Real, em que se encontra, como “Regius”, e desde então este tem sido o apelido mais familiar. 

Poema Regius

David Casley, um estudioso especializado em velhos manuscritos, datou o “Regius” como originário do século XIV. EA Bond, outro perito, o datou como de meados do século XV. O Dr. Kloss, especialista alemão, colocou-o entre 1427 e 1445. Mas, a maioria concordou com 1390 como a data mais provável. “É impossível chegar a uma certeza absoluta quanto a este ponto”, diz Hughan, cujas Antigas Obrigações deveriam ser consultadas,” exceto que ele provavelmente não é mais velho do que 1390, mas pode ser de uns vinte anos ou mais tarde”. O Dr. W. Begemann realizou um estudo do documento que nunca foi igualado quanto ao rigor, e chegou a uma conclusão que pode ser expressa em suas próprias palavras: ele foi escrito “por volta do final do século 14, ou pelo menos no início do século 15 (não em Gloucester em si, por ser muito ao sul) no norte de Gloucestershire, ou vizinhos ao norte de Herefordshire, ou possivelmente até mesmo ao sul de Worcestershire. “(A.Q.C. VII, página 35). 

Em 1889, um fac-símile exato deste famoso manuscrito foi publicado no Volume I do Antigrapha produzido pela Loja de Pesquisa Quatuor Coronati, e foi editado pelo então secretário daquela loja, George William Speth, ele próprio uma autoridade brilhante, que forneceu um glossário indispensável para o estudante amador. Junto com ele foi publicado um comentário de R.F. Gould, um dos mais importantes entre todos os seus trabalhos maçônicos, embora seja irritante por suas divagações e falta geral de conclusividade.

O Manuscrito Regius é a única entre todas as versões a ser escrita em métrica, e podem ter sido compostos por um padre, a julgar por algumas evidências internas, embora a questão seja controvertida. Há cerca de 800 linhas do poema, a parte estritamente maçônica chegando ao final na linha 576, depois da qual começa o que Hughan chama de um “sermão” sobre deveres morais, no qual existe uma grande veia católica romana, com referências aos “sete pecados”, “a doce senhora” (referindo-se à Virgem) e à água benta. Não há tal Mariolatria específica em qualquer outra versão das Antigas Obrigações, embora a grande maioria delas expresse lealdade à “Santa Igreja” e todos eles, até mesmo a versão familiar de Anderson, sejam especificamente cristãos, até onde a religião esteja em causa. 

O autor fornece uma lista de quinze “pontos” e quinze “artigos”, que são instruções bastante específicas sobre o comportamento de um artesão: esta parte é considerada por muitos como tendo sido as obrigações de um iniciado, utilizada no tempo do autor e, por isso, considerada a característica mais importante do livro como nos fornecendo um retrato da regulamentação da Ordem nessa época remota. A Ordem é descrita como tendo surgido como uma fraternidade organizada na “época do Rei Adelstoune”, mas nisso o autor se contradiz, pois ele se refere às coisas “escritas em livros antigos” (modernizei a ortografia das citações) e tem por certo a antiguidade da Maçonaria, que, como em todas as Antigas Obrigações, é sinônimo de Geometria, naqueles dias uma coisa muito diferente da ciência abstrata sobre a qual trabalhamos em nossos dias de escola. 

O Poema Regius é, evidentemente, um livro sobre a Maçonaria, ao invés de um documento da Maçonaria, e pode muito bem ter sido escrito por um não maçom, embora não exista uma maneira em que possamos verificar essas teorias, especialmente vendo que nada sabemos sobre o documento, exceto que ele tem a nos dizer sobre si mesmo, que é muito pouco.

Em seu comentário sobre a Manuscrito. Regius, R.F. Gould produziu um parágrafo que desde então tem servido como o pivô de um grande debate. Ele diz o seguinte e se refere ao “sermão”, a parte que trata de “deveres morais”: “Essas regras de decoro são lidas de maneira muito curiosa na época atual, mas a sua inaplicabilidade ao caso dos Maçons trabalhadores do século catorze ou quinze é imediatamente evidente. Eles se destinavam aos senhores daquela época, e as instruções de comportamento na presença de um senhor - à mesa e em companhia de senhoras - que estava igualmente fora de lugar em um código de boas maneiras elaboradas para o uso de uma Guilda ou Ordem de Artesãos”. 

O ponto disso é que deve ter existido entre os artesãos da época certo número de homens que não estava envolvido com o trabalho e, portanto, eram, como agora os descreveríamos, “especulativos”. Isso seria de imensa importância, se Gould tivesse defendido seu argumento, mas que ele não foi capaz de fazê-lo. As maiores mentes do período em questão dedicavam-se à arquitetura, e não há nenhuma razão para não se acreditar que entre os artesãos existissem membros de boas famílias. Além disso, a Ordem estava em contato com o clero todo o tempo e, portanto, muitos de seus membros podem muito bem ter precisado de regras para a preservação do decoro em grandes casas e entre os membros das classes superiores. Desde Woodford até o presente momento, a grande maioria dos estudiosos maçons acreditou que as Antigas Obrigações foram utilizadas por uma ordem estritamente operativa, e é evidente que eles vão continuar a fazê-lo até que evidências mais conclusivas em contrário sejam mais diretas do que supunha Gould. 

Depois do Regius, o manuscrito mais antigo é aquele conhecido como Cooke.

Manuscrito Cooke

Ele foi publicado por R. Spencer, Londres, em 1861 e foi editado por Mr. Matthew Cooke, daí o seu nome. No catálogo do Museu Britânico ele é listado como “Manuscrito adicional 23,198”, e foi datado por Hughan em 1450 ou por aí, uma estimativa com a qual a maioria dos especialistas concordou. O Dr. Begemann acreditava que o documento tivesse sido “compilado e escrito na parte sudeste da região das Midlands Ocidentais, por exemplo, em Gloucestershire e Oxfordshire, possivelmente, também no sudeste de Worcestershire e Warwickshire. O 'Livro de Obrigações', que constitui a segunda parte do documento é, certamente, do século XIV; a parte histórica, ou primeiro parte, muito provavelmente do início do século XV. “(A.Q.C. IX, página 18). 

O Manuscrito Cooke esteve certamente nas mãos do Sr. George Payne, quando de seu segundo mandato como Grão-Mestre, em 1720, ele compilou os “Regulamentos Gerais”, e que Anderson incluiu em sua própria versão das “Constituições” publicada em 1723. O próprio Anderson, evidentemente, utilizou as linhas 901-960 do Manuscrito. 

A Loja Quatuor Coronati republicou o Cooke em fac-símile no vol. II da sua Antigrapha em 1890, e incluiu um ali um comentário de George William Speth que é, em minha opinião amadora, uma peça ainda mais brilhante que o Comentário de Gould sobre o Regius. Algumas das conclusões de Speth são de valor permanente. Parafraseando suas descobertas com minhas próprias palavras: 

O Manuscrito é uma transcrição de um documento ainda mais antigo e foi escrito por um maçom. Havia diversas versões das Obrigações de um maçom em circulação na época. A Manuscrito está em duas partes; a primeira delas é uma tentativa de se fazer história da Arte, a último é uma versão das Obrigações. Desta parte, Speth escreve que é “de longe a versão mais antiga e mais pura das 'Antigas Obrigações' que possuímos. “O Manuscrito menciona nove “artigos”, e estes, evidentemente, eram obrigação legal na época, e nove pontos não eram provavelmente juridicamente vinculantes, mas o eram moralmente. “Congregações” de maçons foram realizadas aqui e ali, mas nenhuma “Assembleia Geral” (ou “Grande Loja”); Grão-Mestres existiam de fato, mas não em nome e somente presidiam uma reunião de uma congregação. “Muitos de nossos costumes atuais podem ser rastreados em sua forma original até este artigo.”

III. AS CONSTITUIÇÕES DE ANDERSON E OUTRAS VERSÕES IMPRESSAS

Uma das mais importantes de todas as versões das Antigas Obrigações não é, absolutamente, um original antigo, mas uma edição impressa emitida em 1722, e conhecida como Roberts, embora se acredite ser uma cópia de um documento antigo. Sobre ela, escreve WJ Hughan: “A única cópia conhecida foi comprado por mim na venda de obras maçônicas pelo Irmão Spencer, etc. (Londres, 1875), por £8 10s, em nome do falecido irmão R.F. Bower, e está agora na magnífica biblioteca da Grande Loja de Iowa, nos EUA.“ Este pequeno volume é, sem dúvida, a mais valiosa propriedade literária maçônica na América, e foi publicada como fac-símile exato pela Sociedade Maçônica Nacional de Pesquisa, com uma introdução eloquente pelo Dr. Joseph Fort Newton, em 1916. O reverendo Edmund Coxe editou uma famosa reimpressão em 1871. Ela é uma versão que merece estudo mais cuidadoso por parte do aluno maçom, porque ela teve uma influência decisiva sobre a literatura e a jurisprudência da Ordem, após a sua aparição inicial. Ela apareceu em um dos períodos mais interessantes e importantes da Maçonaria especulativa moderna, ou seja, nos anos entre a organização da primeira Grande Loja em 1717 e o surgimento da Constituição de Anderson em 1723. É a primeira versão impressa das Antigas Obrigações a existir. 

Outra versão impressa conhecida é a que foi publicada em 1724 e conhecida como Briscoe. 

Esta foi a segunda publicação do gênero. A terceira versão impressa foi publicada em 1728-9 por Benjamin Cole, e conhecida como a Edição Cole. Esta versão é considerada uma joia literária em que o corpo principal do texto é todo gravado no mais belo estilo. Uma edição especial deste livro foi feita em Leeds, em 1897, cujo valor foi realçado por uma das famosas apresentações de WJ Hughan. Para nossos propósitos modernos e práticos, a mais importante de todas as versões jamais feitas foi aquela compilada pelo Dr. James Anderson em 1723 e conhecida em todos os lugares familiarmente como “Constituição de Anderson.” A segunda edição apareceu, muito alterada e ampliada em 1738; um terço por John Entick em 1756, e assim por diante algumas vezes; até 1888, vinte e duas edições tinham sido publicadas. O Reverendo A.F.A. Woodford, colaborador de Hughan editou uma edição de O Livro Constituição de 1723 como Volume I da Biblioteca Arqueológica Maçônica de Kenning, com data de 1878. Esta é uma reprodução correta e detalhada do livro exatamente como Anderson a publicou pela primeira vez, e é importante nesse sentido. 


Página-título de Anderson é uma leitura interessante:“

A CONSTITUIÇÃO, História, Leis, Obrigações, Ordens, Regulamentos e Usos da Venerável e Direita FRATERNIDADE de MAÇONS LIVRES E ACEITOS; coletados a partir de seus REGISTROS gerais, e as suas fiéis TRADIÇÕES de muitas Eras. Para ser lida na Admissão de um NOVO IRMÃO, quando o Mestre ou Vigilante iniciará, ou pedirá a algum outro Irmão que leia o seguinte, etc. “Após a palavra” seguinte “própria versão de Anderson da história maçônica começa com esta afirmação surpreendente: 

“Adão, nosso primeiro Pai, criado à imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, deve ter tido as Ciências Liberais, particularmente a Geometria, inscritas em seu Coração, etc.”. 

Assim fez o Dr. Anderson ao lançar sua narrativa agora três vezes familiar da história da Maçonaria, uma narrativa que, salvo nas mãos do mais experiente antiquário maçônico, produz qualquer fato histórico confiável, mas que, devido ao prestígio de seu autor, veio a ser aceita por gerações como uma história de boa-fé da Ordem. Muitos anos ainda passarão até que os maçons em geral aprendam que a “história” do Dr. Anderson pertence ao reino da fantasia em sua maior parte, e nunca foi aceita como qualquer outra coisa por quem tem algum conhecimento. 

Os fatos apurados sobre a própria história particular do Dr. Anderson incluem um registro quase tão breve quanto os breves e simples anais dos pobres. O Irmão J.T. Thorp, um dos mais destacados veteranos entre os estudiosos ingleses maçônicos vivos deu-nos um excelente resumo. (A.Q.C. VII, página 9). “Sobre este distinto Irmão sabemos muito pouco. Acredita-se que ele tenha nascido, educado e iniciado na Escócia, posteriormente estabelecendo-se em Londres como ministro presbiteriano. Ele é mencionado pela primeira vez nos Procedimentos da Grande Loja de Inglaterra em 29 de setembro de 1721, quando foi nomeado para revisar as antigas Constituições Góticas - esta revisão foi aprovada pela Grande Loja de Inglaterra em 29 de setembro de 1723, ano em que Anderson era Segundo Grande Vigilante sob o Duque de Wharton - ele publicou uma segunda edição do Livro das Constituições em 1738, e morreu em 1739. Isto é tudo o que se sabe dele”. 

Em sua edição de1738, Anderson tornou tão ilegível a sua narração da fundação da Grande Loja, e contradisse sua própria história anterior de tal forma, que R.F. Gould estava inclinado a crer que ele tinha se tornado descontente e cheios de melancolia, ou então suas faculdades mentais estavam deterioradas. Seja o que for, as páginas históricas Anderson devem ser lidos com extrema cautela. Sua própria Constituição, ou a parte que trata dos princípios e regulamentos da Ordem é, certamente, uma compilação feita de extratos de outras versões das Antigas Obrigações bastante misturadas com suas próprias ideias sobre as premissas, e de tal forma em desacordo com os costumes anteriores que sua adoção oficial teria causado muita discórdia entre as lojas, e pode ter tido algo a ver com a ruptura que, finalmente, levou à formação da Grande Loja dos “Antigos” de 1751 ou por volta desta época. 

O “Anderson” deste último corpo, que com o tempo tornou-se poderoso, foi Laurence Dermott, um irlandês genial, que, como Grande Secretário era o líder das “Antigas” forças por muitos anos, e que escreveu para o corpo a sua própria Constituição, chamada Ahiman Rezon, título enigmático que se acreditava por alguns significar “Digno Irmão Secretário. “A primeira edição desta versão importante foi preparada em 1756, uma segunda em 1764, e assim por diante até 1813, quando uma oitava foi publicada. Uma coleção muito completa de todas as edições está na Biblioteca Maçônica na Filadélfia. Algumas de nossas Grandes Lojas, Pensilvânia entre elas, continuam a chamar seu Livro das Constituições, de Ahiman Rezon. 

Constituição Ahiman Rezon

O próprio Anderson ainda está na prateleira da crítica. Irmãos cultos estão verificando suas afirmações (ver artigo do Irmão Vibert no THE BUILDER de agosto), peneirando suas páginas e não deixando pedra sobre pedra, a fim de avaliar corretamente suas contribuições para a história maçônica. Mas não há tanta discórdia sobre a Constituição. Naquele documento, que não satisfez muitos quando de sua aparição, Anderson, como bem disse o irmão Lionel Vibert, “construiu o melhor que pode”, porque ele produziu um documento que até hoje serve como base de quase todas as Constituições de Grandes Lojas com jurisdição sobre a Maçonaria Simbólica, e de uma vez por todas para toda a Maçonaria Especulativa em uma base separada, e sem caráter sectário, tanto da religião quanto da política. Por todos os seus defeitos como historiador (e estes falhas eram tanto de sua idade quanto suas próprias deficiências), Anderson é uma grande figura em nossos anais, e merece um estudo cuidadoso e reverente na mão de cada estudante. 

IV. CONCLUSÃO

Ao concluir este esboço muito breve e inconclusivo de um grande assunto, volto à minha primeira afirmação. Em todo o círculo de estudos maçônicos não há, para nós, americanos, de qualquer modo, qualquer assunto de tamanha importância quanto este das Antigas Obrigações, especialmente na medida em que elas têm a ver com nossas Constituições e Regulamentos, e isso é realmente muito. Muitas falsas concepções da Maçonaria podem ser diretamente relacionadas com uma má interpretação inculta ou intencional das Antigas Obrigações, o que eles são, o que significam para nós, e qual seja sua autoridade. Neste país, a jurisprudência é um problema de suprema importância, e de certa forma não muito bem compreendida por nossos irmãos em outras partes, que muitas vezes eu me pergunto por que deveríamos ser tão obcecados com ela. Temos quarenta e nove Grandes Lojas, cada uma das quais é soberana em seu próprio estado, e todas devem manter relações fraternas com dezenas de Grandes Corpos estrangeiros, assim com umas com as outras. Estas Grandes Lojas se reúnem a cada ano para legislar sobre a Ordem e, portanto, na verdadeira natureza das coisas, a organização e governo da Ordem é para nós americanos uma coisa muito mais complicada e importante do que ela pode ser em outros países. Saber o que são as Antigas Obrigações, e entender a lei e a prática constitucional Maçônica é para os nossos líderes e legisladores uma necessidade primordial. 

(Nota: - Um estudo sobre a questão Comacine deveria ter sido publicado no Clube de Estudos deste mês, mas fui impedido de escrevê-lo por uma doença bastante prolongada, e, portanto, substitui pelo presente artigo, já preparado. Espero incluir o trabalho sobre os Comacine no próximo mês ou no mês seguinte. Peço aos meus leitores me comuniquem todos os erros detectados, a fim de que os mesmos possam ser corrigidos antes que este artigo saia em forma de livro. Também lamento o fato de que não pudéssemos ter sido capazes de incorporar no presente número o Gráfico das Antigas Obrigações do irmão Lionel Vibert; este aparecerá em uma futura edição em forma de duas páginas, valioso para referência e para enquadramento. Tenho que agradecer aos Irmãos Vibert e R.I. Clegg pela apreciação crítica do presente capítulo. (H. L. H.).

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO 

Gould's History of Freemasonry, Vol. 1, começando na página 56; A.Q.C., I, 127; A.Q.C., I, 147; A.Q.C., I, 152; A.Q.C., IV, 73; A.Q.C., IV, 83; A.Q.C., IV, 171; A.Q.C., V, 37; A.Q.C., IV, 201; A.Q.C, IV, 36,198; A.Q.C., VII, 119; A.Q.C., VIII, 224; Hughan, Old Charges; A.Q.C., IX, 18; A.Q.C., IX, 85; A.Q.C., XI, 205; A.Q.C., XIV, 153; A.Q.C., XVI, 4; A.Q.C., XVIII, 16; A.Q.C., XX, 249; A.Q.C., XXI, 161, 211; A.Q.C., XXVIII, 189; Gould's Concise History, capítulo V; Gould, Collected Essays, 3; Stillson, History of Freemasonry and Concordant Orders, 157; A.Q.C., XXXIII, 5; The Masonic Review, Vol. XIII, 297; Edward Conder, Records of the Hole Craft and Fellowship of Masons; Vibert, Story of the Craft; Vibert, Freemasonry Before the Era of Grand Lodge; Findel, History of Freemasonry; Hughan, Cole's Constitutions; Fort, Early History and Antiquities of Freemasonry; Pierson, Traditions, Origin and Early History of Freemasonry; Hughan, Ancient Masonic Rolls: Waite, New Encyclopedia of Freemasonry; Clegg, Mackey's Revised History; Ward, Freemasonry and the Ancient Gods: A.Q.C., Antigapha, todos os volumes. 

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Mackey's Encyclopedia (Revised Edition): Ahiman Rezon, 37; Antients, 55; Ars Quatuor Coronatorum, 80; Arts, 80; Benjamin Cole, 157; Charges of 1722, 143; Congregations, 174; Cooke's Manuscript, 178; Dr. James Anderson, 57; Dr.Robert Plot, 570; Four Crowned Martyrs, 272; George B.F. Kloss, 383; Gothic Constitutions, 304; Halliwel l Manuscript, 316; John Entick, 246; Laurence Dermott, 206; Legend, 433; Legend of the Craft, 434; Old Charges, 143; Old Manuscripts, 464; Old Records, 612; Old Regulations, 527; Operative Masonry, 532; Parts, 544; Plot Manuscript, 569; Points, 572; Regius Manuscript, 616; Roberts' Manuscript, 627; Speculative Masonry, 704.

A TAÇA SAGRADA

A TAÇA SAGRADA

Transcrição de texto de “Pedreiro de Cantaria” 
Oriente Lusitano



A Taça Sagrada usada nos graus simbólicos poderia ser um copo servindo o líquido do doce e do amargo se não fosse levada em conta uma cerimônia de cunho ritualistico e esotérico, que fixa e estabelece condutas através de juramentos.

Essa Taça, a que nos referimos, em momento algum, dentro do simbolismo, foi SAGRADA. E quase sempre nos recorremos de um recipiente de vidro, de baixa qualidade, que profanos usam para tomar vinhos ou sucos baratos.



Acredito que a Cerimônia por si só merece uma bela taça de metal diante da importância de que se reveste.


A visualização mental da taça nos remete ao Santo Graal, quer seja por ser a Taça da Última Ceia, conforme entende alguns, onde O Mestre Peregrino, tomou assento à mesa junto àquele que o traiu, quer seja por colher o sangue do corpo do Cristo quando espetado pela lança de Longinus.

Desde há muito vimos cometendo alguns sacrilégios e por esse motivo a Ordem está morrendo de inanição.

Os costumes profanos, a ação dos JJ.´. estão presentes na Arte Real, tornando-a banalizada e mal vista perante a sociedade. Temos também as nossas laranjas podres. 

A maçonaria tem por definição ser uma associação de homens livres e de bons costumes, que em loja deveriam dedicar-se ao aperfeiçoamento moral e social através de estudos filosóficos, mas não o é. Não somos livres e nem possuímos bons costumes.

Os JJ.´. gritam, bradam, ameaçam, dizendo que aquilo que se fala em Loja não pode ser comentado fora dela e são os primeiros a fazer isso. São ignorantes, não sabem o que falam.

A maçonaria é uma Ordem Discreta e seus segredos se resumem aos sinais, palavras e toques, pois os juramentos são quebrados constantemente pelas mais altas autoridades maçônicas revestidas de ambições do poder político e financeiro, da mesma forma que as autoridades do mundo profano.

Chega-se a criar Lojas para iniciar políticos que em pouco tempo são exaltados e desaparecem. Não se recordam das cerimônias das quais fizeram parte. Não raramente esses senhores estão envolvidos em escândalos de repercussão nacional, manchando nossa honra.

Há três mil anos, um escriba de nome ANI, disse:

“Não entres em casa de outrem, antes que ele permita e te acolha. Que teu olho aí não seja curioso. E que saibas manter silêncio. E não tagareles, a este respeito, com alguém mais que aí não tenha estado presente. Seria uma falta grave se o que contasse viesse a ser ouvido”.

Ser o dirigente máximo ou o Presidente de uma Loja é motivo de intensa disputa, de vinganças, de intolerância e da falta de respeito.

Aqueles que agem de maneira escabrosa buscando o poder e nele se instalam são os primeiros a cobrar dos seus “subordinados” a prática das virtudes sendo que estão mergulhados na lama dos vícios.

Quando em Sessão enchem o peito, batem o malhete, pregam a tolerância, o perdão, a humildade, enfim, são verdadeiros “caixões caiados de branco por fora, e por dentro, imensa podridão”.

Desconhecem o verdadeiro objetivo da Taça Sagrada. Descumprem os Landmarks, interferem em Lojas alheias, falam um monte de bobagem e se intitulam sábios. Não possuem Serenidade e nem Sabedoria. São verdadeiros tiranos dentro das Lojas, colocando pessoas “de confiança” para observarem se falam mal deles e aí daquele que for “dedurado”.

Os delegados das Lojas, que deveriam cumprir suas obrigações, descambam para atribuições que não são a deles e passam a serem “grandes informantes” do poder central. Onde está o homem livre, justo e perfeito??? Onde está a humildade, a tolerância, a serenidade? A Ordem está morrendo!

Ptah-hotep fez um julgamento a respeito do ignorante, dizendo:

“Quanto ao ignorante, não lhe dês ouvidos. Ele não realizará coisa alguma... Ele é um morto vivendo dia a dia”.

Na Sessão Magna de Iniciação fazemos um juramento ao Grande Arquiteto do Universo sobre AS PROVAS por que passamos. Diz assim:

“Juro e prometo o mais profundo silêncio sobre todas as provas a que for exposta a minha coragem. Se eu for perjuro e trair meus deveres consinto que a docura desta bebida se transforme em amargor e o seu efeito salutar seja para mim como um sutil veneno. Tudo isso eu prometo cumprir e se violar esta promessa...”

Disse o sábio Ankh-Sheshonq:

“Não manejes uma lança se não és capaz de ver o alvo a atingir.”

“É preferivel uma serpente em casa que vê-la frequentada por um imbecil”.

Já notaram algum imbecil em suas Lojas??? Será que existem???

Meus Irmãos, somos escolhidos dentre os melhores da Sociedade, mas é dessa sociedade apodrecida que viemos, trazendo todo tipo de imperfeição, buscando através do trabalho árduo na pedra bruta transformar o homem velho, no homem novo. Muitos não conseguem e se deixam levar pelos vícios. Os JJ.´. os influenciam de tal maneira que se tornam cegos e fanáticos. São extremamente vaidosos e andam pelos cantos dizendo que são grandes conhecedores da Ordem. Adoram ostentar seus paramentos.

Muitos dizem que lhes bastam os graus simbólicos, pois já alcançaram a plenitude maçônica e se esquecem de que nós, os maçons, somos livres pensadores, eternos buscadores da verdade. Em sendo assim, por falta de conhecimento e cultura maçônica interpretam de forma equivocada a legislação usando-a para defender seus próprios interesses ou para perseguir aqueles que não comungam da tirania.

É preciso lembrar que nas as viagens simbólicas - da cerimônia de iniciação - há outros juramentos que devem ser velados diante dos profanos.

Quase sempre nossas humanas razões se sobrepõe a vontade do espírito e é por isso que devemos lutar todos os dias contra as trevas do intelecto para que não estejamos sujeitos ao mesmo julgamento de Ptah-hotep.

É preciso lembrar que a Taça Sagrada não é um copo de vidro, mas uma vasilha que traz em seu simbolismo o mais profundo sentimento místico e esotérico da dor e da traição que simboliza a esponja molhada de fel colocada na boca do Cristo quando tinha sede, mas também o mais profundo amor que aquela figura sobre-humana, pregada no madeiro, nos deixou em todos os seus ensinamentos e na sua última frase:

“Pai perdoa-os, eles não sabem o que fazem”


A ABÓBADA CELESTE NO R.:E.:A.:A.:

    


A ABÓBADA CELESTE NO R.:E.:A.:A.:


                                                                                 Ir.´. Antonio Rodiguero - MI
                                                                                   Loja Tiradentes nº 02 - GLMDF



I – RITUAIS DO R.:E.:A.:A.:

RITUAL DE 1804


“A Loja tem a forma de um quadrado longo, se dirigindo de oeste para leste, arredondada ao fundo, recoberta de uma abobada, onde estão espalhadas estrelas sem nome, “

RITUAL DE 1904

“o tecto figura uma abobada azulada, com estrelas formando um grande numero de constelações. “

RITUAL DE 1927 (Mario Behring)

“O tecto do Templo representa o céo. Do lado do Oriente, um pouco ..............No centro do tecto, três estrelas da constelação de Orion. Entre estas e o nordeste, ficam as Pleiades, Hyadas e Aldebaran; a meio caminho, entre Orion e o nordeste, Regulus, do Leao; ao Norte, a Ursa Maior; a Noroeste, Areturus (em vermelho); a Leste, a Spica, da Virgem,; a Oeste, Antares; ao Sul, Fomalhaut. No Oriente, Jupiter,; no Ocidente, Venus; Mercurio, junto ao Sol e Saturno, com seus satélites, próximo a Orion.

As estrelas principais são: 3 de Orion; 5 Hyadas e 7 das Pleiades e Ursa Maior. As estrelas chamadas reaes são: Aldebaran, Arcturus, Regulus, Antares e Formalhaut. “

II – INTRODUÇAO

A Abobada Celeste com seus astros e estrelas tem a função mística destinada a produzir energia e contemplação. 

Assim, o teto do templo maçônico é confeccionado em forma de abóboda ou céu com a cor azul celeste predominante na qual figuram os astros e as estrelas que mais ferem a imaginação do homem. Sabemos que, normalmente, o céu é escuro, sendo o tom de azul o efeito da luz do sol, por isso com o movimento de rotação da terra temos o dia e a noite. Convém salientar que não são quaisquer astros ou qualquer disposição, mas sim determinados astros e numa posição previamente estudada e preparada.

A palavra céu vem do latim “caelum” ligado também ao ar, espaço livre, atmosfera. Na verdade o céu é a parte física que vemos, e o firmamento do latim “firmamentum”, onde pela nossa crença de cada um, imaginamos ser a morada dos deuses e anjos.

III – A ABÓBADA CELESTRE NOS TEMPLOS MAÇÔNICOS





Cada astro e estrela, uniformemente dispostos na abobada celeste, representam funções e possuem valores místicos próprios, sendo que, no templo destinado á pratica do R.:E.:A.:A.: existem com 35 (trinta e cinco) astros, cuidadosamente escolhidos, colocados em posição geométrica apropriada, os quais regem os cargos em Loja.

1. SOL - A luz do céu da Loja, representando o Ven:. M:. Colocado no oriente e no eixo da Loja. 

2 - LUA - Selene rege o Primeiro Vigilante. 

3 -STELLA PITAGORIS - A estrela Virtual ou Estrela Flamejante, colocada sobre o altar do Segundo Vigilante. (O Homem, Deus, Cristo, Buda ou mesmo Hércules, o iluminado que transcende a condição humana. 

4 – SATURNO com seus satélites - É o sexto planeta e o segundo em tamanho, possui três anéis na altura do Equador e mais quinze satélites, dos quais só nove eram conhecidos na época em que os rituais foram escritos. Na Loja, Saturno é representado com seus três anéis e seus nove satélites, exatamente sobre o centro geométrico do ocidente. Saturno rege a cadeia de união. Os seus três anéis representam os Aprendizes, os Companheiros e os Mestres Maçons. Os nove satélites representam os nove cargos: Venerável Mestre, Primeiro Vigilante, Segundo Vigilante, Secretario, Orador, Tesoureiro, Chanceler, Mestre de Cerimonias e Guarda do Templo. 

5 – MERCÚRIO -Símbolo da astúcia, protetor dos viajantes e dos comerciantes. Identificado como Hermes dos gregos, era filho de Maia e de Zeus (Júpiter) de quem recebeu o encargo de mensageiro dos deuses. Carregava um bastão com duas serpentes enroladas (Caduceu) símbolo da paz, (Harmonia e Forças Opostas). É o menor e mais rápido dos planetas, e também o primeiro e o mais próximo do Sol e por isso representa o Primeiro Diácono.

6 – JÚPITER - Era Zeus para os gregos. O maior planeta do sistema solar era o guardião do Direito, o defensor do Estado, protetor das fronteiras e do matrimônio. Júpiter é o astro regente do ex-veneravel e por isso fica no Oriente.

7 – VÊNUS - É o segundo planeta e o mais próximo da Terra. Surge sempre próximo à Lua (Primeiro Vigilante) e é o astro regente do Segundo Diácono. Conhecido ainda hoje como "Estrela Vésper", a primeira a aparecer no céu, Vênus era o "Mensageiro do Dia", anunciava a hora de começar e de encerrar o período de trabalho.

8 – ARCTURUS - Estrela Alfa da constelação de Bootes. Por sua posição junto à Ursa Maior é conhecida como a "guardiã do Urso" e correspondente ao cargo de Orador, guardião do Oriente. Sua posição é em cima da grade do Oriente.

9 – ALDEBARAN - Estrela Alfa da constelação de Touro, as quais pertencem as Plêiades e as Hyades. Na abóbada maçônica rege o cargo do Tesoureiro.

10 – FOMALHAUT - Alfa Piscis Austrinis - em latim significa peixe do sul, é aqui uma correlação com a coluna zodiacal dos peixes. Fomalhaut é uma palavra árabe que significa "a boca do peixe do sul", o que se aplica ao cargo de Chanceler.

11 – REGULUS - Alfa Leonis é a estrela mais brilhante na constelação de Leão. Na Astrologia, Regulus sempre manteve posição de comando. Ela dirige todos os trabalhos do paraíso. Foi Nicolau Copérnico quem a batizou com o nome Regulus, que significa "Regente". Correspondente ao cargo de Mestre de Cerimônia.

12 – SPICA - Alfa Virginis, em latim, "a Espiga", é a estrela gerente do cargo de Secretário. Por outro lado, os primitivos instrumentos de escrita usados pelos gregos e romanos não eram penas, mas canetas feitas de caules ocos de vegetais chamadas de "Spícula".

13 – ANTARES - Alfa Scorpii, a estrela vermelha gigante. Durante muitos séculos, a maior estrela conhecida. Às vezes confundida com Marte, razão do grego chama-la de "O Rival de Marte". Tanto Antares como Marte, são vermelhas e, ocasionalmente, aparecem próximas. Por essa razão, Antares é conhecida como o astro regente do Guarda do Templo.

Existem, ainda, representadas na Abobada Celeste do Templo Maçônico, quatro grupos de estrelas pertencentes a quatro constelações, sendo elas: 

1. ORION - Constelação equatorial é formada por quatro estrelas brilhantes com uma linha de três estrelas que formam o "Cinto de Orion" e são popularmente conhecidas como "as Três Marias" ou "os Três Reis Magos". No Teto do Templo só são representadas as três estrelas, porque representam a idade do Aprendiz, que ainda não tem o domínio do espírito sobre a matéria. Na tradição árabe mais antiga, Orion era chamada de "A Ovelha de Cinto Branco" e o avental de Aprendiz era feito, na sua origem de pele de carneiro. As três estrelas de Orion são regentes dos Aprendizes.

2. HYADES ou HÍADAS. É o notável grupo de cinco estrelas formando a ponta de uma flecha na constelação de Touro. As Híadas são as regentes dos Companheiros.

3. PLÊIADES - É um outro grupo de estrelas da mesma constelação de Touro. São também conhecidas como "As Sete Irmãs". Elas regem os Maçons, a paz, plêiade de homens justos.

4. URSA MAIOR -. É considerada a constelação mais antiga. No teto da Loja são Representadas as sete estrelas mais importantes que formam a "Charrua". A última estrela da cauda da Ursa Maior é ALKAID, também conhecida como BENETNASCH; ambos os nomes fazem parte da frase árabe "QUAID AL BANAT AD NASCH", que significa "A Chefe dos Filhos do Ataúde Mario". Este nome provém da concepção árabe mais antiga, que representava a Ursa Maior como um caixão e três carpideiras. Esta interpretação interessa à Maçonaria, pois a representação egípcia coincidia com a arábica, de um sarcófago (de Osíris) e sua viúva (Isis) e o filho da viúva (Orus) em procissão fúnebre.

Ao todo contamos 35 (trinta e cinco) astros existentes na ABOBADA CELESTE DO TEMPLO MAÇONICO, ressaltando a ausência do planeta Marte, o qual para os gregos era o deus da guerra e, como tal, não poderia figurar entre aqueles que buscam a paz e a harmonia universal, por isso foi para o átrio, o reino profano dos tumultos e das lutas. 


Por essa interpretação, Marte tem a incumbência de "cobrir o Templo", sendo o astro do Cobridor Externo, enquanto, do lado de dentro do Templo foi colocado Antares, do Cobridor Interno, para garantir a fronteira entre o mundo iniciático e o profano.

IV – CONCLUSAO

Poderíamos concluir afirmando que, esse céu representado em nossos Templos é o do Hemisfério Norte. Sim, é verdade, no Hemisfério Sul o nosso maravilho céu é diferente, entretanto, a origem de nosso Rito nos leva ás belezas vislumbradas e estudadas pelos nossos valorosos irmãos que nos antecederam e a eles devemos nosso respeito e gratidão.

Assim, a Abobada Celeste existente nos Templos Maçônicos preparado para a prática do R.:E.:A.:A.:, estejam eles no Norte ou no Sul, se caracteriza numa gigantesca e inesgotável fonte de pesquisas e estudos, razão de nos levar as mais brilhantes viagens mentais, ou mesmo, de forma simples, vibrarmos unidos em contemplação do belo firmamento a nos elevar espiritualmente.

Bibliografia:


1. Ritual de Aprendiz Maçom, do R.:E.:A.:A.:, de 1804, 1904 e 1927;

2. Astronomia na Maçonaria, do Blog Luz do Universo 1953;

3. A Origem da Maçonaria – David Stevenson – Editora Madras

4. O Firmamento, o zodíaco e a abobada celeste, brilhantemente exposto no blog do Mestre Maçom da GLMDF, Irmão Jose Roberto Cardoso (joseroberto735.blogspot.com.br).

Trabalho produzido pelo Mestre Maçom, Cadastro 2554-GLMDF, Antonio Rodiguero, o qual autoriza a reprodução e divulgação, desde que, seja mantida a integralidade do texto.










A MAÇONARIA E OS COLLEGIA ROMANA - CAPÍTULOS DE HISTÓRIAS MAÇÔNICAS - PARTE IV


PARTE IV - A MAÇONARIA E OS COLLEGIA ROMANA

Por Ir.´. H.L. HAYWOOD, Editor - The Builder Magazine  

Tradução – José Antonio de Souza Filardo – M .´. I .´. – GOB/GOSP


A ORIGEM DA Maçonaria moderna foi rastreada por meio de documentos e outros registros históricos até as guildas de construtores na Idade Média. Essas corporações, por sua vez, originaram-se de formas ainda mais antigas de empreendimento organizado (como já foi observado no capítulo sobre os Construtores de Catedrais), portanto, os historiadores maçônicos acharam necessário tentar empurrar o caminho para trás em uma tentativa de saber como elas começaram a existir. Quase todos estes historiadores têm prendido sua atenção nos collegia romanos (plural de colegiado), como fornecedores dos ancestrais mais prováveis das corporações de onde surgiu a Maçonaria e, portanto, é necessário que um estudante Maçônico saiba algo sobre as sociedades da antiga Roma. Um colégio era uma associação de pessoas, nunca inferior a três, para algum objetivo escolhido, geralmente de uma atividade comercial, social ou de caráter religioso, organizado de acordo com a lei. Ele tinha seus próprios regulamentos e, geralmente, o seu próprio local de reunião. Na maioria dos casos, estes collegia eram tratados pela lei como tendo aquilo que é conhecido no jargão dos advogados como “personalidade jurídica”, ou seja, eles poderiam possuir bens e poderiam ser responsabilizados através dos seus funcionários por seus atos. As organizações colegiadas atingiram sua perfeição e se tornaram mais populares de Roma, portanto elas são geralmente conhecidas como collegia romanos, mas também eram populares em muitos outros países.


1 - COLLEGIA ERAM ORGANIZADOS ENTRE OS GREGOS, EGÍPCIOS, ETC.
A grande maioria dos Colégios gregos foi organizada para adoração de algum deus ou herói. A religião era uma atividade pública controlada pelo Estado e, consequentemente, era forma em seu caráter; muitos homens e mulheres, sentindo a necessidade de algo mais emocional, organizavam-se em cultos de adoração privada de seus deuses favoritos, e estas organizações eram muitas vezes colegiadas em sua forma. Acredita-se que os famosos mistérios órficos, tantas vezes descritos por escritores maçônicos, iniciaram-se desta forma. Os colégios de adoradores de Baco existiam no século II; há um registro de tal colegiado datado de 186 a.C.Estes e outros collegia gregos eram chamados por vários nomes, thiassoi, hetairai, etc. A atividade política entre os gregos, por vezes, assumia a forma colegiada, especialmente entre as classes mais baixas e entre colônias de estrangeiros residentes, estas últimas normalmente localizadas em ou perto de algum porto marítimo. Havia collegia políticos em Atenas no tempo de Péricles, e eles causaram muitos problemas. Em 413 a.C., um grupo deles conspirou para derrubar o governo democrático. Tais associações gregas, no entanto, não eram muito numerosas e poderosas, e nunca chegaram a algo parecido com o estado de desenvolvimento que atingiram em Roma.

Os colégios tornaram-se mais ou menos comuns no Egito no século I a.C., especialmente entre os adoradores de Ísis. Apuleio cita uma dessas organizações com a data de 79 a.C., e há motivos para crer que elas existiam muito antes. Em muitos casos, elas assumiram a forma de clubes de sepultamento, sobre a qual falarei mais em seguida. Registros da existência de tais associações na famosa região de Fayum foram encontrados, tendo a data de 67 a.C. Na Ásia Menor, também, traços de collegia foram desenterrados, e acredita-se que Tiatira tinha um número maior do que qualquer outra cidade na Ásia; seus colégios de ferreiros tornaram-se conhecidos em todo o mundo.



II - OS COLÉGIOS TORNARAM-SE MUITO COMUNS NO IMPÉRIO ROMANO
Entre os romanos, as associações colegiadas eram tão antigas que a lenda atribui sua fundação a Numa, o segundo dos tradicionais reis romanos, e não há uma menção de colegiados nas Doze Tábuas. Estas organizações floresceram desimpedidas até depois do início do século I a.C., durante o qual alguma oposição começou a se desenvolver entre oslegisladores romanos. Em 64 a.C., elas foram proibidas por um tempo, com exceção de algumas de caráter religioso, mas em 58 uma lei Clodiana as permitiu novamente. Esta lei foi anulada apenas dois anos depois. Júlio César, por sua vez, proibiu todas elas, exceto as associações de culto judaico, com a alegação de que elas se imiscuíam demais em política. Quando Augusto tornou-se imperador, ele abraçou a causa dos colegiados e fez com que osse adotado um estatuto imperial que se constituiu no fundamento de toda a jurisprudência relacionada com eles e com outras organizações semelhantes. O imperador Marco Aurélio foi o maior amigo que os colegiados jamais tiveram.

Exceto quanto a estes estatutos gerais, os colegiados foram deixados em paz até que Nero se tornou imperador, quando ele fez se adotasse uma série de disposições que regulavam as associações nas cidades italianas. Estes regulamentos foram ampliados para incluir as cidades provinciais por Trajano, e do seu regime até o final, um imperador após o outro assumiu tal crescente controle dos colegiados que chegou um momento em que eles eram apenas engrenagens da grande máquina do Estado. A associação foi tornada hereditária; a transferência de um homem de um colegiado para o outro era proibida, e a liberdade de trabalhar ou não trabalhar era negada por toda a parte. A indústria tornou-se de fato um monopólio estatal e os operários eram tão controlados quanto os soldados em um exército. O sistema imperial em seus últimos séculos era apoiado pelo poder que ele extorquia dos colegiados, para que as organizações de negócios, as organizações de política, e as organizações das forças militares tornaram-se os três grandes pilares que sustentavam o império.

Apesar da grande massa dos regulamentos e das leis restritivas, e as penas severas de cobertura a que todos eles estavam sujeitos, um grande número de collegia apareceu sob condições e para fins que violavam os estatutos. Estes eram conhecidos como collegia illicits, e deram aos oficiais tantos problemas quanto às contrafações provocam hoje em dia. Algumas destas associações ilícitas eram de caráter religioso; outras eram locais de incubação para intrigas políticas. Quando apreendidas elas eram severamente reprimidas na pessoa do seu presidente, que era obrigado a pagar uma multa pesada, ou então ir para a cadeia.

É surpreendente descobrir quantos collegia existiam. Mais de duas mil e quinhentas inscrições existem, e estas emanaram de cerca de 475 cidades e aldeias do império. Na própria cidade de Roma mais de oitenta diferentes atividades eram organizadas, e acredita-se que se os memoriais fossem mais completos, o número deveria aumentar consideravelmente. É uma grande infelicidade que sejamos dependentes de inscrições e registros semelhantes, porque o tempo não foi benigno com essas coisas, mas este é o caso, e porque os escritores clássicos, quase sempre evitavam falar delas devido ao seu caráter plebeu. Como os nossos próprios historiadores literários, os antigos escritores latinos gostavam de contar sobre os senhores e as senhoras e outros notáveis, suas fortunas, suas intrigas, e suas guerras: as massas incontáveis de gente comum leiga estavam fora do seu campo de visão. Uma tentativa de descobrir o que os historiadores do Império Romano tinham a dizer sobre os colégios esclareceria isso; em todas as histórias que eu pude consultar não encontrei qualquer referência digna de leitura, com exceção de um ou dois os grossos volumes de Duruy, o francês. Gibbon torceu o nariz; Ferrers não tem nada a dizer; Mommsen esquece tudo sobre isso, embora em 1870 ele publicasse um volume em latim sobre o assunto, que, até onde se pode descobrir, nunca foi traduzido em Inglês, e assim vai. É-se obrigado a recorrer aos arqueólogos.

Um grande número de collegia foi organizado exclusivamente para a finalidade de garantir ao membro uma sepultura decente, e eram conhecidos como collegia teuinorum, ou clubes de enterro. Cada clube deste tipo construía ou alugava um salão, e realizava reuniões periódicas, ocasiões em que poemas eram lidos sobre o falecido, ou uma festa era realizada para comemorar o aniversário de nascimento de um irmão. Cada uma destas sociedades patéticas possuía, ou tinha acesso a um columbário. A columbário, Deus salve a marca, era uma espécie de apelido, e significava literalmente pombal, que era um nome sugerido pelo fato de que se assemelhava muito aos predinhos em que aristocratas alojavam suas pombas. Em um quarto escuro, meio subterrâneo havia galerias de nichos, cada uma delas grande o suficiente para conter uma urna; cada membro do colegiado tinha o direito ao seu nicho e sua urna, e havia lugar para um vaso de flores, talvez, ou até mesmo uma inscrição.

A morte era uma coisa de horror para os romanos, especialmente se ele tinha a infelicidade de ser pobre, porque suas crenças lhe ensinavam que um homem mal enterrado se tornaria um fantasma infeliz, ou mesmo vagaria sem casa com os ventos, um espírito desesperado e trêmulo em agonia de solidão. Assim, cada homem esgotava seus recursos para providenciar que sua alma estivesse protegida contra tal destino. Os ricos podiam construir seus próprios monumentos - em estrada romana de alguma importância era ladeada por essas coisas -, mas os escravos e os pobres tinham dificuldade e em evitar a negligência após a morte. Elesrecorriam ao expediente de unir seus recursos, e o clube do enterro era o resultado.

É impossível para nós, modernos, perceber o quanto tal coisa significava para um romano, com pouco ou nenhum recurso. O costume do público de dispor daqueles mortos sem assistência era indescritivelmente repelente. Grandes buracos eram mantidos semiabertos nas proximidades dos centros de população e neles, sem qualquer cerimônia, os cadáveres dos pobres eram despejados. Para escapar de tal horror, um homem estava disposto a fazer quase qualquer sacrifício.
Devido a este sentimento sobre o enterro, os romanos eram sempre pacientes com qualquer tentativa de garantir um funeral decente, e assim os colegiados encarregados de tais questões eram tratados com paciência e, muitas vezes com indulgência. Supõe-se, segundo autoridades tais como Sir William Ramsey, que muitas das primeiras igrejas cristãs foram organizadas como clubes de enterro, a fim de escapar da ira dos funcionários, especialmente quando todas as associações privadas religiosas estavam debaixo da proibição, como aconteceu várias vezes. Alguns acreditam que a igreja primitiva era frequentemente perseguida, não por causa das doutrinas teológicas que ensinavam, mas porque o funcionalismo considerava a associações de particulares uma ameaça ao Estado. 
A grande maioria dos collegia apareceu para propósitos mais mundanos. Quase todas as profissões, a arte e o comércio tinha sua própria organização na devida forma e de acordo com o estatuto imperial. Às vezes, a divisão de funções entre esses ofícios era levada a um extremo como quando os coletores de lixo tinham seu próprio colégio, os fabricantes de chinelo o deles, os vendedores de peixe o deles, os fabricantes de perucas o deles, etc. A mais antiga inscrição conhecida refere-se a um colégio de cozinheiros, de 200 a.C. Muitos escritores maçônicos alegam que collegia de pedreiros ou construtores e arquitetos ocuparam um lugar de destaque e gozavam de honras e privilégios especiais. É verdade que existem observações de Cícero sobre a honorabilidade da arquitetura, e que alguns outros dos latinos mencionam esta chamada como tendo uma utilidade peculiar, mas a não ser por isso eu nunca fui capaz de descobrir qualquer fundamento para as afirmações tão livremente feitas por nossos próprios historiadores, embora eu tenha procurado com carinho, já que eu desejava encontrar tal evidência. 
Não havia collegia na África romana, e não havia muitos no Império do Oriente, mas em outros lugares eles eram densamente espalhados pela civilização romana. Cada regimento de soldados carregava consigo seu próprio colégio de engenheiros, carpinteiros e artesãos, e conforme observa Coote, “é tão fácil imaginar um romano sem uma cidade quanto conceber sua existência sem collegia”. 

III - COMO OS COLEGIA ERAM ORGANIZADOS
Cada colégio aspirava controlar ou possuir uma sala ou local de reunião, que chamavam schola, ou em alguns casos, cúria. Como funcionários ele tinha uma espécie de presidente chamado por diferentes nomes: magistri, curitarious, quinquennales, perfecti praesides, e assim por diante. Os Decuriones eram uma espécie de guarda, e havia fatores ou questores para administrar os assuntos de negócios. Cada sociedade tinha suas próprias leis, chamadas lex college, e suas regras ou regulamentos, e estas normas estavam baseadas, conforme já explicado, nos estatutos imperiais. As taxas e encargos entravam em uma caixa comum, chamada Arca. Tem sido alegado por alguns escritores que os recursos assim acumulados eram utilizados para fins de caridade, mas os arqueólogos mais bem informados discordam dessa opinião, e dizem que a renda era utilizada para custear as despesas necessárias para a manutenção da sede, e para banquetes memoriais. Muitas vezes, algum membro ou amigo abastado deixava um legado, geralmente com instruções para que fosse utilizado para banquetes memoriais, mas às vezes para beneficiar a sociedade como um todo. A maioria dos collegia procurava a graça de um patrono, geralmente uma mulher, que, em troca de honrarias, ajudava a custear as despesas do pequeno grupo. Alguns cronistas supõem que estes patronos, que muitas vezes pertenciam às classes superiores, eram mais ou menos úteis em controlar as atividades do colégio, no interesse da ordem estabelecida.

O sistema social de Roma, com a sua forma de castas, era refletido dentro do colégio, onde as diferenças de classificação eram observadas com ansiedade, e o membro de alguma casa nobre sempre recebia homenagens especiais. Os escravos eram geralmente admitidos, se eles viessem com o consentimento de seus senhores, e havia muitos libertos, que eram, em muitos casos, homens ricos. Para a maior parte, a organização técnica do corpo, com os seus funcionários, suas fileiras, e os sua orientação paroquial, era decalcado no layout da cidade romana típica que era para um romano o ne plus ultra da organização política.



IV - OS COLLEGIA E A MAÇONARIA
Para o estudante da evolução da Maçonaria desde seus primeiros traços crus até seu estado atual de riqueza e poder, a história dos colegiados é de grande importância. A noção entusiástica de que essas associações antigas eram lojas maçônicas no sentido literal, e que através deles nossa Fraternidade como ele existe hoje pode traçar a sua história até 1000 a.C. ou mais deve ser abandonada, exceto em um sentido tão amplo, quase roubando a ideia de qualquer significado. No entanto, a organização colegiada pode ser justamente considerada como um item em uma longa cadeia de desenvolvimento associativo geral, o último elo da qual é a nossa moderna Fraternidade. 

Há três ou quatro teorias que sustentam que se pode traçar certa continuidade tênue entre os collegia romanos e a Maçonaria moderna.

Um deles é a teoria dos Artífices Dionisíacos. Esta hipótese recebeu a forma com que estamos familiarizados hoje por Hyppolito José da Costa em seu Esboço para a História dos Artífices de Dionísio (publicado completo em capítulos em The Montana Mason começando em novembro de 1921), e foi seguido, e seus argumentos repetidos, por A História da Maçonaria, elaborado a partir de fonte autêntica de informação, com um relato da Grande Loja da Escócia, desde a sua instituição em 1736 até o presente momento, compiladas a partir dos Registros, e um Apêndice de Artigos Originais, um volume antigo famoso atribuído a Alexander Lawrie, mas que agora geralmente se acredita ter sido escrito por Sir David Brewster. A essência desta teoria é que esses Artífices eram empregados - isto é, a lojas deles - na construção do Templo de Salomão, e que eles conservaram os segredos da arquitetura até que finalmente o último deles os transmitiu aos collegia romanos, tal como a arte era praticada.

Neste momento, entra a igualmente bem conhecida teoria dos Mestres Comacines. De acordo com esta leitura da matéria, conforme podemos aprender de Construtores da Catedral de “Leader Scott,” e a partir de codicilos do mesmo pelo Irmão Ravenscroft em seu Comacines - Seus Antecessores e Seus Sucessores, alguns dos collegia de construtores romanos (collegia fabrorum) se refugiaram fugindo das invasões bárbaras em, ou perto do Lago de Como, no norte da Itália e lá mantiveram um conhecimento vivo de edificação, até ao momento em que condições se estabilizaram e a Europa tornou-se pronta para outra civilização. Quando os povos bárbaros começaram a construir suas próprias cidades e desenhar suas estradas, estes Comacini, de acordo com a teoria, foram aqui e ali para ensinar ao povo a arte de construir. Eles fundaram escolas, e atuaram como missionários em geral por todos os diferentes países da Europa, incluindo a Inglaterra, que serão descritos de forma mais adequada em um próximo capítulo.

A terceira das teorias que iria ligar o colegiado às primeiras guildas Maçônicas é a que Gould elabora no primeiro volume de sua História, mas sem se comprometer de uma forma ou de outra. Segundo esta teoria, os collegia entraram na Grã-Bretanha com o exército romano de conquista e foram responsáveis por cidades, estradas, diques e igrejas, restos das quais ainda existem. Quando os anglos, saxões e os dinamarqueses colocaram um fim à civilização romana nas ilhas, os collegia continuam a existir entre eles em uma forma ligeiramente modificada, conhecida como guildas. Entre essas guildas estavam aquelas que se dedicavam à construção e suas artes relacionadas, e dessas guildas surgiram com o tempo as organizações de maçons que nos deram a Maçonaria. Alguns dos maiores historiadores do mundo negam tudo isso completamente - Freeman, entre eles - enquanto outros aceitam. Um leigo deve se decidir como bem entender.
Ainda outra teoria é a que liga as corporações medievais da Europa aos collegia que existiam em e em torno de Constantinopla, ou, como era chamada, Bizâncio. Supõe-se que, à medida que estas organizações de construtores bizantinos eram cada vez mais procuradas, elas se deslocaram gradualmente pela Itália até a Europa central, onde atuaram como a semente da qual surgiram as guildas Teutônicas. Segundo a teoria, foi a partir dessas guildas Teutônicas que as guildas maçônicas da Inglaterra surgiram, e ele foi das guildas inglesas que surgiu a Maçonaria. 

Até a época em que mais evidências surjam, estas e outras teorias que poderia ser descritas se o espaço assim permitisse ficarão mais ou menos no ar. De minha parte eu não aceito qualquer uma delas como provada. Nenhuma delas tem um fundo suficiente de fatos conhecidos. Parece-me que devemos manter o julgamento em suspenso.
No entanto, e apesar dessa incerteza, os collegia continuarão sempre a ser de importância para nós maçons, pois eles nos dão um dos melhores exemplos no mundo de como e porque é que uma coisa como a Maçonaria cresce a partir da natureza humana. Nos dias do Império Romano a vida tornou-se dura e cresceu em complexidade, de modo que o indivíduo encontrava-se impotente para lutar sozinho contra o mundo. Ele descobriu que, se combinasse suas próprias insignificantes forças individuais com os recursos de seus vizinhos e amigos, que o que ele sozinho não conseguia fazer, ele poderia fazer através de cooperação. Através da reunião de seu dinheiro, seu conhecimento, sua influência e sua boa vontade, as multidões de pessoas comuns aprenderam a se manter em um grande mundo muito duro. 

E é assim hoje. A loja é um meio pelo qual o indivíduo solitário pode escapar de sua impotência, ligando sua própria vida à vida de seus companheiros. Em sua essência fundamental, isso é o que faz a Maçonaria. Ela desce às profundezas da natureza humana, até que encontra o que é mais permanente e universal nela e a vincula à natureza mais íntima de muitos outros. Realizada em conjunto por uma União Mística, os irmãos trabalham e vivem juntos, e aqueles que talvez nos nossos grandes centros levem uma vida solitária como estranhos ou até mesmo como inimigos são capazes de resgatar do turbilhão da vida moderna as doces comodidades da amizade, amor fraterno, ajuda, tolerância mútua, e bondade. O que os collegia foram para os homens da antiga Roma, a loja maçônica é para os homens de hoje.



LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO
Livy, Metamorphosis, XI, 30. Kennedy, St. Paul and the Mystery Religions, 72, etc. Poland, History of the Greeks. Waltzing, Historical Studies of the Professional Corporations of the Romans. Pauly, Realencyclopadie, article by Kornemann on Collegium. Hastings, Dictionary of the Bible, vol. V, 132. A Companion to Latin Studies, see. 202. Find complete Latin bibliography in sec. 563. Hasting, Encyclopedia of Religion and Ethics, vol. VI, 218. Hatch, The Organization of Early Christian Churches. Encyclopedia Britannica, eleventh edition, vol VI, 564. Mommsen, De Collegiis et Sodalitiis Romanorum Kiliae, 1870. Grote, History of Greece, vol. V, Greenidge, Handbook of Greek Constitutional History, 208 ff. Davis, The Influence of Wealth in Imperial Rome, section on Gilds. Pliny, Epistle X, 97, 98. Abbott, The Common People of Ancient Rome, 205. Corpus Inscriptionum Latinarum, XI, 5047; V, 7906; Ill, 953; VIII,14683; III, 3583; XIV, 2112; XIV, 326. Friedlander, Roman Life and Manners, I, 146. Fowler, The Religious Experience of the Roman People, ch. beginning p. 270. Barnes, Early Church in the Light of the Monuments, 53. De Rossi, Roma Soterranea, 58. Bulletino di Arch. Crist. Ramsey, The Church in the Roman Empire, 213. Hatch, Bampton Lectures, 152. Le Blant, Actes, 282. Dill, Roman Life From Nero to Marcus Aurelius. Plutarch, Numa. Duruy, History of Rome, several chapters; consult index. Cobern, The New Archaeological Discoveries and the New Testament. Pelham, Essays on Roman History, 701 ff. Ars Quatuor Coronatorum, XI, 170. Scott, The Cathedral Builders, book II, eh. 3. Clegg, Mackey's History of Freemasonry, ch. 46 ff. Gould, The History of Freemasonry, vol. I-10 See bibliographical notes in entire chapter. Coote, The Romans of Britain. Fort, Early History and Antiquities of Masonry. Hope, Historical Essay on Architecture. Newton, The Builders, part I, ch 5. Armitage, A Short Masonic History, vol I ch 7. Gould, The Concise History of Freemasonry, (Crowe's Revision), 10. Ward, Freemasonry and the Ancient Gods, part 1, ch. 17. Spence, Encyclopedia of Occultism, article on Freemasonry. Corpus Juris Civilis, Dig. XLVII, 22. Brown, From Schola to Cathedral. 
Mackey's Encyclopedia - (Revised Edition): Ancient Mysteries, 497; Builder, 123; Collegium, 158. Comacine Masters, 161; Egyptian Mysteries, 232; Freemasons of the Church, 150; Gilds, 296; Initiations of the Egyptian Priests, 234; Isis, 358; Mysteries of Osiris, 540; Oath of the Gild, 524; Orphic Mysteries, 539; Osiris, 540; Roman Colleges of Artificers, 630; Stone-Masons of the Middle Ages, 718. 
THE BUILDER: Vol. III, 1917. - Masonic History - Suggestions for Research, p.204; The Cathedral Builders, p. 380. Vol. IV, 1918. - The Comacines, p. 63. Vol. VI, 1920. - A Bird's-Eye View of Masonic History, 236 Vol. VII, 1921. - Whence Came Freemasonry, p. 90. Vol. VIII, 1922. - A Mediating Theory, p. 318.  

MITRAÍSMO: MAÇONARIA E OS MISTÉRIOS ANTIGOS - CAPITULOS DE HISTÓRIAS MAÇÔNICAS - PARTE III


PARTE III - MITRAÍSMO: MAÇONARIA E OS MISTÉRIOS ANTIGOS


Por Ir.´. H.L. HAYWOOD, Editor - The Builder Magazine 

Tradução – José Antonio de Souza Filardo – M .´. I .´. – GOB/GOSP


A TEORIA de que a Maçonaria moderna é em certo sentido, descendente direta dos antigos Mistérios tem sido uma atração peculiar para os escritores maçônicos durante todo este tempo, e o final ainda chegou, pois o mundo está repleto de homens que discutem sobre o assunto para cima e para baixo em infinitas páginas impressas. É um assunto sobre o qual é muito difícil escrever, de modo que quanto mais se aprende sobre ele, menos que se está inclinado a ventilar qualquer opinião própria. O assunto abrange tanto espaço e de selvas tão emaranhadas que é muito provável que quase toda generalização esteja errada, ou seja inútil. Mesmo Gould, que geralmente é um dos mais sólidos e mais cuidadosos entre os generalistas, fica bastante confuso sobre o assunto. 

Para os efeitos do presente trabalho, pareceu-me sensato dar atenção a um só dos mistérios, deixá-lo colocar-se como um tipo do restante, e eu escolhi para isso o MITRAÍSMO, um dos maiores e um dos mais interessantes, bem como um que possui muitos paralelismos com a Maçonaria quanto qualquer um dos outros. 

I - COMO MITRA CHEGOU A SER UM DEUS DE PRIMEIRA CLASSE

Há muito tempo, no início das coisas, para que possamos aprender com o Avesta, Mitra era o jovem deus das luzes do céu que aparecia pouco antes do amanhecer, e permanecia após o sol se por. A ele foi atribuída o patronato das virtudes da verdade, que dá vida e força da juventude e alegria. Tais qualidades atraíram muitos devotos, aos cujos olhos Mitra cresceram mais a mais, até que finalmente ele se tornou um grande deus em seu próprio direito e quase igual ao próprio deus sol. “A juventude será servida”, ainda um jovem deus, e o Zoroastrismo, que começou dando a Mitra um lugar muito subalterno, finalmente veio a exalta-lo à mão direita do terrível Ormuz, que se tinha arrolado todos os atributos de absolutamente todos os deuses. 

Quando os persas conquistaram a Babilônia, que adorava as estrelas de uma forma mais profunda, Mitra colocou-se bem no centro dos cultos que adoravam estrelas e ganhou tanta força que, quando o Império Persa desmoronou e tudo se fundiu no mesmo pote, Mitra foi capaz de manter sua própria identidade, e emergiu da luta na cabeça de sua própria religião. Ele era um jovem deus cheio de vigor e transbordando de espírito, capaz de ensinar a seus seguidores as artes da vitória, e essas coisas apelavam poderosamente aos belicosos homens de tribos iranianas, que nunca deixaram de adorá-lo de uma forma ou outra, até que eles se tornaram tão profundamente convertidos séculos depois ao islamismo. Mesmo assim, eles não o abandonaram completamente, mas de acordo com a forma inevitável de os convertidos o reconstruírem em Alá e em Maomé, de modo que ainda hoje vai encontrar peças de Mitra espalhados aqui e ali em que os muçulmanos chamam sua teologia. 

Após o colapso do Império Persa, a Frígia, onde tantas religiões foram fabricados em um momento ou outro, assumiu Mitra e construiu um culto sobre ele. Deram-lhe o seu barrete frígio, que sempre se vê em suas estátuas, e incorporaram em seus ritos o uso do terrível “taurobolium”, que era um batismo no sangue de um jovem e saudável touro. No decorrer do tempo, esta cerimônia sangrenta se tornou o centro e ápice do ritual de Mitra, e produzia uma profunda impressão sobre as hordas de escravos e homens pobres e ignorantes que se reuniam no mithreum, como eram chamadas as casas de culto mitraico. 

Mitra nunca foi capaz de abrir caminho até a Grécia (o mesmo pode ser dito do Egito, onde a competição entre religiões era muito grande), mas aconteceu que ele pegou alguma coisa emprestada da arte grega. Algum desconhecido escultor grego, um dos gênios brilhantes de sua nação, fez uma estátua de Mitra, que serviu mais tarde como sempre a semelhança ortodoxa do deus, que era descrito como um jovem cheio de vitalidade, seu manto jogado para trás, um barrete frígio na sua cabeça, e matando um touro.

Deus Mitra

Por centenas de anos, esta estátua foi para todos os devotos Mitraistas o que o crucifixo agora é para os católicos romanos. Esta semelhança fez muito para abrir caminho para Mitra em direção ao ocidente, pois até essa imagem dele tinha sido terrível da maneira distorcida e repelente tão característica da escultura religiosa oriental. Os povos orientais, entre os quais nasceu Mitra, foram sempre capazes de grandeza sombria e terror religioso, mas de uma beleza que mal tinha tocado, ficou para os gregos recomendar Mitra aos homens de bom gosto. 

Após as conquistas Macedônicas, assim se acredita, o culto de Mitra ficou cristalizado; que obteve sua teologia ortodoxa, seu sistema de igreja, sua filosofia, seus dramas e ritos, sua imagem do universo e do grande final catastrófico de todas as coisas um dia terrível de julgamento. Muitas coisas tinham sido construídas nele. Havia cerimônias emocionantes para as multidões; muito misticismo para os devotos; uma grande máquina de salvação para os tímidos; um programa de atividade militante para os homens de valor e uma ética sublime para as classes superiores. O Mitraísmo teve uma história, tradições, livros sagrados, e um grande impulso a partir da adoração de milhões e milhões entre as tribos remotas e dispersas. Assim fornido e equipado, o jovem deus e sua religião estavam preparados para entrar no mundo mais complexo e sofisticado conhecido como Império Romano. 

II - COMO MITRA ENCONTROU SEU CAMINHO ATÉ ROMA
Quando Mitrídates Eupator - ele que odiava os romanos com uma virulência igual à de Aníbal, e que travou uma guerra contra eles três ou quatro vezes - foi totalmente destruído em 66 aC, e seu reino de Pontus foi entregue aos cães, os fragmentos dispersos de seus exércitos se refugiaram entre os bandidos e piratas da Cilícia e levaram com eles a todos os lugares os ritos e as doutrinas do mitraísmo. Depois, os soldados da República de Tarso, que esses bandidos organizaram saíram saqueando e lutando por todo o Mediterrâneo, e levando com eles o culto a todos os lugares. Foi desta forma pouco promissora que Mitra fez sua entrada no mundo romano. As mais antigas de todas as inscrições foi feita por um liberto dos Flávios nessa época. 

No decorrer do tempo, Mitra ganhou ao seu serviço um exército de missionários muito diferente e muito mais eficiente. Comerciantes sírios iam e voltavam por todo o mundo romano como lançadeiras em um tear, e levaram o novo culto com eles onde quer que fossem. Escravos e libertos tornaram-se viciados e apoiadores leais. Oficiais do governo, especialmente aqueles pertencentes às fileiras mais humilde, criavam altares a cada oportunidade. Mas, os maiores de todos os propagandistas foram os soldados dos diferentes exércitos romanos. Mitra, que se acreditava amar a visão de brilhantes espadas e bandeiras esvoaçantes, apelava aos soldados irresistivelmente, e eles, por sua vez, eram tão leais a ele quanto a qualquer comandante em campo. O tempo chegou quando quase todos os campos romanos possuíam seu mithreum. 

Mitra começou bem em baixo, próximo ao chão, mas chegou a hora em que ele reuniu como seguidores os maiores homens sobre a terra. Antonino Pio, sogro de Marcus Aurelius erigiu um templo Mitraico em Ostia, porto da cidade de Roma. Com exceção de Marco Aurélio e, eventualmente, um ou dois outros, todos os imperadores pagãos após Antoninus eram devotosdo deus, especialmente Juliano, que era mais ou menos confuso e disposto a assumir qualquer coisa para evitar o crescente poder do cristianismo. Os Padres da Igreja primitiva apelidaram Juliano “O Apóstata”; o insulto não era totalmente justo porque o rapaz nunca tinha sido um cristão sob sua pele. 

Por que todos esses grandes homens, junto com os filósofos e literatos que obedientemente seguiam o exemplo, assumiram a adoração de um deus estrangeiro, importado de entre os sírios odiados, quando havia tantos outros deuses lares fabricados tão à mão? Por que adotaram uma religião que tinham se tornado moda entre escravos e assassinos? A resposta é fácil de descobrir. Mitra era peculiarmente amante de governantes e dos poderosos da Terra. Seus sacerdotes declaravam que o próprio Deus estava à direita de imperadores, dentro e fora do trono. Foram esses sacerdotes que inventaram a boa e velha doutrina do direito divino dos reis. Quanto mais Mitra era adorado pelas massas, mais completo era o controle imperial dessas massas, pois era boa política de negócios para os imperadores dar a Mitra toda a assistência possível. Chegou um momento em que todo imperador era retratado por artistas com uma auréola acima da cabeça; este halo tinha originalmente pertencido a Mitra. Ela representava o esplendor excepcional do jovem e vigoroso sol. Após os imperadores romanos terem desaparecido, os papas e bispos da Igreja Católica Romana assumiram o costume; eles ainda têm o hábito de mostrar seus santos com auréolas. 

O Mitraísmo espalhou-se para cima e para baixo no mundo, com uma rapidez incrível. Todos ao longo da costa do norte da África e até mesmo no recesso do Saara; através das Colunas de Hércules até a Inglaterra e até a Escócia; através do canal até a Alemanha e os países do norte; e para baixo nas grandes terras ao longo do Danúbio, ele fez seu caminho em todos os lugares. Londres foi em algum momento um grande centro de seu culto. O maior número de mithreas foi construído na Alemanha. Ernest Renan disse uma vez que, se alguma vez o cristianismo tivesse sido cometido de uma doença fatal, o Mitraísmo poderia muito facilmente ter-se tornado a religião oficial de todo o mundo ocidental. Os homens estariam hoje rezando para Mitra, e seus filhos seriam batizados em sangue de touro. 

Não há aqui espaço para descrever de que maneira o culto tornou-se modificado por sua propagação bem-sucedida por em todo o Império Romano. Ele foi modificado, é claro, e de muitas maneiras profundamente, e ele, por sua vez modificou tudo com que entrou em contato. 

Aqui está um breve resumo da evolução deste Mistério. Tudo começou em uma época remota entre tribos primitivas iranianas. Ele pegou um corpo de doutrina dos adoradores de estrelas babilônicos, que criaram essa coisa estranha conhecida como astrologia. Ele se tornou um mistério, equipado com poderosos ritos, nos países da Ásia Menor. Ele recebeu uma aparência exterior decente nas mãos de artistas e filósofos gregos, e finalmente se tornou uma religião mundial entre os romanos. O Mitraísmo atingiu o seu apogeu no século II; ele morreu no século IV e desapareceu totalmente no século V, exceto por pedaços de seus destroços recuperados e utilizados por algumas seitas novas, tais como diversas formas de Maniqueísmo. 

III - A TEORIA MITRAICA DAS COISAS
Depois de derrubar o seu odiado rival, a Igreja Cristã primitiva destruiu completamente tudo o que tinha a ver com o mitraísmo que havia sobrado, exceto alguns fragmentos que testemunham o que foi, uma vez uma religião vitoriosa. O pouco que é conhecido com precisão pode ser encontrado devidamente estabelecido e interpretado corretamente nas obras do erudito Dr. Franz Cumont, cujos livros sobre o assunto despertaram a ira da atual hierarquia católica romana que os colocou no Index e alertou os fiéis a se afastarem de seus capítulos da história. Hoje, como no tempo de Mitra, superstições e doutrinas vazias passam apertados quando confrontados com os fatos conhecidos. 

O Mitraísta piedoso acreditava que por trás do incrível esquema das coisas estava uma divindade grande e irreconhecível de nome Ormuz, e que Mitra era seu filho. Uma alma destinada a esta prisão da carne deixava a presença de Ormuz, descia pelas portas de Câncer, passava pelas esferas dos sete planetas e em cada um deles pegava alguma função ou faculdade para o uso na terra. Após o seu tempo aqui a alma estava preparada por sacramentos e disciplina para a sua re-ascensão após a morte. Em sua viagem de regresso ela passava por uma grande provação do julgamento perante Mitra. Deixando algo para trás em cada uma das esferas planetárias, ela finalmente, passava de volta através das portas de Capricórnio, até a união extática com a grande Fonte de tudo. Também havia um inferno eterno, e aqueles que tinham se provado infiéis a Mitra eram enviadas para lá. Incontáveis deuses e demônios e outros monstros invisíveis assolavam todos os lugares da terra tentando as almas e presidiam as torturas na cova. Através dele todos os planetas continuavam a exercer boa ou má influência sobre o ser humano, de acordo como seu destino tivesse a chance de cair do alto, uma coisa embutida no culto desde seus velhos tempos da Babilônia. 

A vida de um Mitraísta era entendida como uma longa batalha na qual, com a ajuda de Mitra, ele guerreava contra os princípios e poderes do mal. No início de sua vida de fé, ele era purificado pelo batismo, e através de todos os seus dias recebia a força através dos sacramentos e refeições sagradas. O domingo era reservado como dia santo, e em vinte e cinco de dezembro começava uma época de celebração jubilosa. Os sacerdotes Mitraicos eram organizados em ordens, e eram consideradas como tendo um poder sobrenatural de alguma forma ou outra. 

Acreditava-se que Mitra tinha vindo uma vez à Terra para organizar os fiéis no exército de Ormuz. Ele lutou com o Espírito de todo o mal em uma caverna, o mal assumindo a forma de um touro. Mitra superou seu adversário e então voltou ao seu lugar no alto, como o líder das forças da justiça, e o juiz de todos os mortos. Todas as cerimônias Mitraicas centravam-se no episódio da matança do touro.

Os antigos Padres da Igreja viram tantos pontos de semelhança entre esse culto e do Cristianismo que muitos deles aceitaram a teoria de que o Mitraísmo era uma religião falsa concebida por Satanás para desviar as almas. O tempo provou que eles estavam errados nisso, porque no fundo o mitraísmo era tão diferente do cristianismo quanto o dia é da noite. 

IV - EM QUE O MITRAÍSMO SE PARECIA COM A MAÇONARIA
Escritores maçônicos muitas vezes professaram ver muitos pontos de semelhança entre o mitraísmo e a Maçonaria. Albert Pike declarou certa vez que a Maçonaria moderna é a herdeira dos Antigos Mistérios. É uma afirmação com a qual eu nunca fui capaz de concordar. Há semelhanças entre a nossa Fraternidade e os antigos cultos de mistérios, mas a maioria deles é de natureza superficial, e têm a ver com a externalidades do rito ou organização, e não com o conteúdo interno. Quando Sir Samuel Dill descreveu o mitraísmo como “uma Maçonaria sagrada”, ele usou esse nome em um sentido muito solto. 


No entanto, as semelhanças são muitas vezes surpreendentes. Somente homens eram admitidos como membros do culto. “Entre as centenas de inscrições que chegaram até nós, não se fala de uma sacerdotisa, ou de uma mulher iniciada, ou mesmo uma doadora”. Nisso o mithrea se diferenciava dos colégios, sendo que este último, embora quase nunca admitisse mulheres como membros, nunca hesitou em aceitar a ajuda ou o dinheiro delas. A participação no Mitraísmo era tão democrática como é com a gente, talvez até mais; escravos eram livremente admitidos e, muitas vezes ocupavam cargos de confiança, como também faziam os libertos de quem havia uma multidão nos últimos séculos do império. 

A associação era geralmente dividida em sete classes, cada qual com suas próprias cerimônias simbólicas adequadas. A iniciação era a experiência culminante de cada crente. Ele era vestido simbolicamente, fazia votos, passava por muitos batismos, e nos graus mais elevados comia refeições sagradas com seus companheiros. O grande acontecimento da experiência do iniciado era o taurobolium, já descrito. Era considerado muito eficaz, e supunha-se que unisse o adorador ao próprio Mitra. A representação dramática de um moribundo e um ressuscitado estava à frente de todas estas cerimónias. Uma laje mostrando em baixo relevo Mitra matando o touro ficava no fundo de cada mithreum.

Este mithreum, como local de reunião, ou loja como era chamado, tinha geralmente a forma de caverna, para representar a caverna na qual o deus tinha lutado. Havia bancadas ou prateleiras ao longo da parede, e sobre estas linhas laterais sentavam-se os membros. 
Mithreum

Cada mithreum tinha seus próprios funcionários, seu presidente, conselheiros, comissões permanentes, tesoureiro e assim por diante, e havia graus superiores que garantiam privilégiospara uns poucos. Caridade e Ajuda eram universalmente praticados e um Mitraista chamava ooutro de “irmão”. A “loja“ Mitraica era mantida pequena, e novas lojas eram desenvolvidas como um resultado de “fracionamento”, quando o número de membros ficava muito grande. 

O Maniqueísmo, como eu já disse, surgiu das cinzas do mitraísmo, e Santo Agostinho, que fez muito para dar forma à Igreja Católica Romana e à teologia durante muitos anos foi uma ardente maniqueísta, alguém através de quem muitos traços do velho credo persa encontraram seu caminho até o cristianismo. Do Maniqueísmo, ou do que finalmente sobrou deles, surgiu o Paulicianismo, e do Paulicianismo vieram muitos cultos medievais fortes - os Patari, os valdenses, a Hugenotes, e inúmeros outros de tais desenvolvimentos. Através deles, diferentes ecos do antigo mitraísmo persistiram na Europa, e pode muito bem ser, como tem sido frequentemente alegado, que existam traços fracos do antigo culto a serem encontrados aqui e ali em nossas próprias cerimônias ou simbolismos. Tais teorias são necessariamente vagas e difíceis de provar, e mesmo assim a coisa não é de importância suficiente para se discutir. Se tivermos três ou quatro símbolos que se originaram no culto de Mitra, tanto melhor para Mitra!

Depois de tudo que foi dito e feito, os Mistérios Antigos estavam entre as melhores coisas desenvolvidas no mundo romano. Eles representavam igualdade em uma sociedade selvagemente aristocrática e cheia de classes; eles ofereceram centros de refúgio para os pobres e os desprezados entre um povo pouco dado à caridade e que não acreditava que um homem deve amar o seu próximo; e de uma grande histórica maneira eles nos deixaram os métodos de organização humana, ideais e princípios e as esperanças que ainda permanecem no mundo para nosso uso e proveito. Se um homem desejar fazê-lo, ele pode dizer que o que a Maçonaria é, entre nós, o que os Mistérios Antigos eram para as pessoas do mundo romano, mas seria uma coisa difícil para qualquer homem estabelecer o fato de que a Maçonaria descende diretamente daqueles grandes cultos. 

[Nota: Kipling, que nunca cansou de lidar com temas relacionados com a Maçonaria, muitas vezes escreve sobre o mitraísmo.] Ver, em especial o seu Puck of Pook's Hill, página 173 da edição de 1911, a comovente Canção para Mitra. 

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

The Secret Tradition in Freemasonry, Vol. II, Waite. The Book of Acts, Expositor's Bible. Mystery Religions and the New Testament, Sheldon. Roman Society from Nero to Marcus Aurelius, Sir Samuel Dill. The Works of Franz Cumont. Le Culte de Mitra, Gasquet. On Isis and Osiris, Plutarch. Life of Pompey, Plutarch. Annals, Tacitus. Corpus Inscriptionum Latinarum. Mythrasliturgie, Dielitch. De Corona, Tertullion. History of France, Vol. V, Vol. VI, Vol. VII, Duruy. Neoplatonism, Bigg. Roman Society in the Last Century of the Western Empire, Sir Samuel Dill. Menippus, Lucian. Thebaid, Statius. Ver a bibliografia em Hasting's Encyclopedia of Religion and Ethics, Vol. VIII, p. 752. Ars Quatuor Coronatorum, Vol. III, p. 109; Vol. IV, p. 32; Vol. XIII, p. 90. The History of Freemasonry, Vol. I, Gould. 

Mackey's Encyclopedia-(Revised Edition): Allah, 46, Babylon, 89. Egyptian Mysteries, 232-233. Egyptian Priests, Initiations of the, 234. Gnostics, 300-301. Legend, 433. Manichaeans, 462. Mithras, Mysteries of, 485-487. Mohammed, 488. Mysteries, Ancient, 497-500. Mystery, 500. Myth, 501. Myth, Historical, 501. Mythical History, 501. Mythology, 501. Myth, Philosophical, 501. Ormuz, 539. Persia, 558 Pike, Albert, 563. Roman Colleges of Artificers, 630-634. 

THE BUILDER: Vol. 1, 1915. - Symbolism, The Hiramic Legend, and the Master's Word, p. 285; Symbolism in Mythology, p. 296. Vol. II, 1916. - Masonry and the Mysteries, p. 19; The Mysteries of Mitra, p. 94; The Dionysiacs, p. 220; The Mitra Again, p. 254; The Ritual of Ancient Egypt, p. 285; The Dionysiaes, p. 287. Vol. III, 1917. - The SecreKey, p. 158; Mithraism, p. 252; Vol. IV, 1918. - The Ancient Mysteries, p. 223. Vol. V, 1919. - The Ancient Mysteries Again, p. 25; The Eleusinian Mysteries and Rites, pp. 143, 172; The Mystery of Masonry, p. 189; The Eleusinian Mysteries and Rites, pp. 218, 240. Vol. VI, 1920. - A Bird's-Eye View of Masonic History, p. 236. Vol. VII, 1921. - Whence Came Freemasonry, p. 90; Books on the Mysteries of Isis, Mithras and Eleusis, p. 205. Vol. VIII, 1922. - A Mediating Theory, p. 318; Christianity and the Mystery Religions, p. 322.